O que queres que eu faça? Poderei viver vendo a teu lado essa mulher que odeio? Poderei deixar de pensar em ti? Oh! indigna! que não póde, não sabe, não quer amar a Néro e ousa fingir que o ama!

NÉRO.

Tranquillisa-te, põe de parte os receios e os zelos; mas respeita por algum tempo ainda a minha vontade. É necessario que Octavia volte agora a Roma; já moveu os primeiros passos; amanhã aqui deve chegar. Assim o exigem o teu socego e o meu; tal é a minha vontade e não estou habituado a que se oponhão aos meos designios. Nem me satisfaz, senhora, esse amor que me offereces, calmo e sem receios. Quem mais me teme e melhor me obedece, sabe-o, é quem mais me ama.

POPPÉA.

O receio de perder-te tornou-me por demais ousada. Mas, que maior mal me poderás fazer do que privar-me do teu amor? Ah! tira-me antes a vida; menor será meu soffrimento.

NÉRO.

Basta, Poppéa, confia em meu amor, nem receies que se abale a minha constancia; mas nunca te opponhas á minha vontade. Odeio, mais que tu mesma, essa mulher a quem chamas de rival. Apenas eu conseguir separa-la de seus turbulentos amigos, ve-la-has cercada pelos meus guardas; não terás nella uma rival, mas antes uma vil escrava, e dentro em pouco, ou eu nada sei da arte de reinar, ou ella propria te dará a corôa.

ACTO SEGUNDO


SCENA I.
POPPÉA, TIGELLINO.