OCTAVIA.

Mas depois te arrependeste e tiveste remorsos de não me haveres tornado bastante infeliz. Quizeste que eu fosse testemunha de tuas novas affeições; quizeste tornar-me escrava de tua nova esposa, quizeste que eu fosse ludibrio do mundo e objecto de desprezo para tua côrte. Aqui estou, obediente ao gesto do meu senhor; o que devo agora fazer? Ordena. Mas na tua mesma côrte não me poderás tornar inteiramente infeliz, se a minha desgraça te der alguma alegria. Responde-me, estás satisfeito? Reina a tranquillidade em tua alma? Entre os braços da nova esposa gozas do somno calmo que tiras aos outros? Esta Poppéa, a quem não privaste de um irmão, torna-te por ventura mais feliz do que eu o fiz?

NÉRO.

Nunca soubeste avaliar o coração do senhor do mundo; sabe-o Poppéa.

OCTAVIA.

A Poppéa agrada o esplendor do throno, para o qual ella não nasceu; a mim agradas-me tu só. Não tentes comparar o meu amor ao della. Possue ella o teu affecto, mas só eu o merecia.

NÉRO.

Não, não podes amar-me.

OCTAVIA.

Dize antes que o não devêra; mas pelo teu não julgueis do meu coração. Bem sei que o meu nascimento me privará eternamente do teu amor; bem sei que tua imagem manchada com o sangue de meus parentes não devêra ser acolhida em meu coração, mas a força do destino obriga. E se eu me esqueço de meu irmão e de meu pai, mortos por ti, como ousas accusar-me em nome desse irmão desse pai?