OCTAVIA.

Oh! quanta maldade! que horrendo trama! Onde está o meu iniquo accusador?... Ai de mim! Louca, o que procuro? É Néro o accusador, o juiz e o proprio algoz!

NÉRO.

É assim o teu amor! Dá expansão a todo o odio que tens no coração, se é certo que elle ainda não transbordou todo, depois que descobri as tuas secretas infamias.

OCTAVIA.

Ai de mim!... O que mais me resta?... Não me bastava ter sido expellida do leito nupcial, do throno, do palacio, e até de minha patria?... Oh! céo! só a minha reputação permanecia intacta; e isto me compensava todos os bens de que fui privada... um dote tão precioso era-me debalde invejado por aquella que já o não possue; agora esse mesmo querem roubar-me antes que me privem da vida? O que te detem, oh! Néro? Não poderás viver tranquillo, bem o sabes (se a tranquillidade cabe em tua alma), emquanto eu existir... Faltar-te-hão porventura meios de assassinar uma mulher fraca e desarmada? Ordena que eu seja encerrada nas profundas masmorras deste palacio, funesto asylo da traição e da morte, e alli manda que me tirem a vida. Ou antes, porque com a propria mão não me assassinas?... Minha morte não só te dará prazer, sei que ella é já necessaria! Só ella te satisfará. Já te perdoei o assassinio de meus parentes, agora te perdôo de antemão o meu proprio: mata, reina, mata ainda, sempre! Conheces os sangrentos caminhos do crime... Roma está habituada a colorir os teus actos de vingança... O que pódes temer? Commigo se extinguirá a raça dos Claudios, e acabará assim o amor e a lembrança do povo por ella... Os deuses estão já acostumados ao fumo do teu incenso sanguinario; pendem nos templos signaes evidentes, horríveis offertas de cada um de teus crimes!... são estes os teus trophéos; são teus triumphos occultos assassinatos!... Baste minha morte para applacar-te o furor... Porque cobrir-me de nodoa infamante, quando eu não fujo á morte?

NÉRO.

Para tua defesa concedo-te inteiro o dia de hoje; folgarei se não fores culpada. Nada receies do meu odio, mas sim da enormidade do crime que commetteste.

SCENA VII.

OCTAVIA.