OCTAVIA.

Tu só podes salvar-me, pelo menos da infamia! E vê quem me accusa... É ella, Poppéa, quem me exprobra semelhantes amores!

SENECA.

Ó digna esposa do feroz Néro!

OCTAVIA.

Não é a virtude de certo que mais agrada a Néro; o gesto desenvolto, a audacia são o jugo que a domina; a ternura, a meiguice, parecem-lhe fastidiosas... Oh! quanto não fiz por agradar-lhe! Seus menores desejos erão leis para mim, sua vontade foi-me sempre sagrada. Chorei occultamente a morte de meu irmão, se não felicitei Néro por este crime, tambem não ousei lançar-lh'o em rosto. Chorei longe delle; em sua presença calei-me. Fingi acreditar que não fôra elle quem derramára o sangue dos meus: foi tudo em vão... O meu cruel destino quer que eu lhe desagrade sempre!

SENECA.

Porventura Néro poderia jámais amar-te, a ti que não és impia nem cruel? Mas deixemos isto de parte, tranquillisa o espirito. Já vem rompendo o dia. O povo, apenas souber que estás de volta, quererá ver-te e dar-te provas de sua affeição; espero muito delle. Suas murmurações erão já violentas quando partiste, nem cessárão durante a tua curta ausencia. Néro é iniquo, mas é ainda mais cobarde; não ousa realisar todos os seus desejos porque sempre teme o povo. É cruel e orgulhoso, mas não se julga ainda bem seguro no throno; virá um dia em que...

OCTAVIA.

Que tumulto é este? que escuto?