Mas o que te detem?... O que temes?... Conservas ainda alguma esperança?

SENECA.

Quem sabe?...

OCTAVIA.

Menos do que qualquer outro o esperas, bem conheces a Néro; estás resolvido (não m'o negas de certo), a evitar seu furor por meio de uma morte voluntaria. Julgas acaso menos firme do que a tua a minha resolução? E dizes que me amas! Devo tremer, de certo, emquanto este misero corpo servir de abrigo a minha alma. A quantas affrontas não poderei ficar exposta? E, se aterrada pelas ameaças eu succumbisse! Se porventura no meio dos supplicios eu deixasse cahir dos labios a mentirosa confissão de um crime que não commetti, de um pensamento que nunca tive!... Habituado desde longo tempo a encarar a morte, tu confias em ti mesmo; eu não, sou moça ainda, meu animo vacilla, meus membros são delicados, e mal resistirei á ameaça de morte cruel e prematura. Posso facilmente abandonar a vida, mas não tenho forças para esperar longo tempo a morte.

SENECA.

Quanto sou infeliz! Esperava salvar-te dando em troca os poucos dias que me restão. Queria revelar ao povo os ardis infames, horriveis do criminoso Néro... Foi em vão que conservei a vida até hoje. O povo conserva-se mudo, e apenas escuta a voz do medo. Nem posso mais sahir deste horrivel palacio... Oh! Céo! quem poderá lutar contra um senhor impio, se, como elle, impio não fôr?

OCTAVIA.

Choras?... Eia, pois, da infamia e do martyrio salva-me; dá-me a morte, pois que, bem o vês, são illusorias todas as esperanças. Salva-me por compaixão.

SENECA.