Os negocios do Estado eram dirigidos pelo arcebispo de Sevilha;—o verdadeiro soberano, pois que D. Henrique passava seus dias caçando e divertindo-se.

D. João II, rei de Aragão, andava em guerra com seu filho D. Carlos de Viana, a quem não queria entregar o senhorio de Navarra, que pertencia a este, por morte de sua mãe; e com Luiz XI, para retomar o Roussillon, que lhe havia empenhado por avultada somma de dinheiro.

Aos parciaes da justa causa de D. Carlos pertencia Henrique IV, e aos do rei usurpador, o arcebispo de Toledo e alguns grandes de Castella.

O marquez de Vilhena, D. João Pacheco, dizia-se amigo de Henrique IV; e, como era mui artificioso e dado a soltar só meias palavras, foi a Saragoça tratar da paz e boas relações de Aragão com Castella.

No seu regresso a este reino convidou, sem detenças, o arcebispo de Toledo e seus sequazes,[{19}] para uma reunião secreta, que se realizou em um valle proximo de Alcalá de Henares.

Ahi o marquez rompeu, sem mais preambulos:

—É forçoso guerrear sem treguas Beltran de la Cueva.

—Não se me afigura empresa difficil...—acudio em tom pausado e sisudo o arcebispo de Toledo.

—Convenho;—replicou Vilhena—mas ainda é numerosa a parcialidade do rei, e tem á sua frente o arcebispo de Sevilha...

—E a nós,—atalhou, recachando-se, o prelado toledano—embóra inferiores na quantidade, ninguem sobrelevará na coragem e na perseverança com que luctaremos. Demais... o rei é fraco, e o arcebispo de Sevilha...