—Deixo—respondeo Henrique IV.—O meu secretario Juan de Oviedo o apresentará.

—E quem são os vossos testamenteiros?—continuou o cardeal.

—Á excepção do prior de S. Jeronymo, ficam nomeados os presentes e o conde de Plasencia.

—E a quem deixa V. A. por herdeira do throno?—insistio ainda Mendoza.

—A minha filha D. Joanna—replicou o monarcha serena e firmemente.

Seria grave offensa á memoria de Henrique IV suppôr, que na hora tremenda, em que elle se preparava, conforme a sua fé, para dar conta das suas fraquezas ao Omnipotente, saisse de seus labios uma mentira!

Ainda quentes os restos do mallogrado monarcha, D. Isabel fez-se acclamar, em Segovia, rainha de Castella e Leão, mandando celebrar um solemne Te-Deum, como se acabasse de alcançar o maior triumpho. Seguidamente foi áquelle mesmo alcaçar, onde havia entrado mezes antes em companhia de seu esposo e do rei defunto, sentou-se[{33}] junto d'aquella mesa, em volta da qual os tres almoçaram, e prezenteou o alcaide Andrés de Cabrera com o mesmo copo de ouro, de que se servira D. Henrique.

Parece um sarcasmo!

Em geral os historiadores e chronistas hespanhoes defendem e exalçam a successão de Isabel a Catholica, servindo-se, para combater a legitimidade e o direito da princeza Joanna, dos mesmos pretextos, de que lançaram mão os rebeldes.

[Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da historia.]