—Tudo quanto sou—respondeu Pero—devo ao senhor duque, por isso não tenho animo de separar-me d'elle.
—Esperava essa resposta;—volveu Guzman—mas se eu vos pedir, que fiqueis?
—Obedeço, porque de vossa mercê sómente recebo ordens e não pedidos.
—Meu bom Perico!—exclamou affectuosamente Guzman.—Muito me custa deixar-vos cá; mas o senhor D. Affonso, que, dentro em pouco será rei de Castella, mostra desejos de ser vosso amo, e eu tenho-os de o bem servir; por isso entregar-vos-ei a elle, certo de que meu irmão assentirá ao meu proposito.
No dia seguinte saiu D. Juan de Guzman para Sevilha. D. Affonso V dirigiu-se a Evora, levando no seu sequito a Pero da Covilhan, já escudeiro, servido de armas e cavallo, sem embargo de não ter completado ainda vinte annos.[{41}]
O rei antes da partida despachou o seu Arauto Lisboa com cartas para Luiz XI, a quem communicava a resolução que tomára, de receber por esposa a princesa D. Joanna, e de entrar em Castella com um grande exercito, pois a isso o estava convidando a maior parte da grandeza castelhana. E sob o pretexto de recear, que na jornada sobreviesse ao seu Arauto algum accidente ou enfermidade, que o retardasse, escreveu de novo ao rei de França, insistindo agora principalmente em demonstrar os legitimos e inauferiveis direitos da rainha D. Joanna. Ponderava habilmente, que o não ser d'elles esbulhada, era conveniencia de ambos os monarchas, por quanto, se Fernando se apoderasse de Castella, viria a ser um vizinho formidavel e perigoso, tanto para Portugal, como para França.
Procurava assim conciliar com acertada politica as boas graças de Luiz XI, que mui interessado era, em que no throno de Castella estivesse um principe capaz de manter e conservar as antigas confederações e allianças d'esse reino com a França; mas contra todos em geral e sem excepção.
N'este ponto offerecia-se a difficuldade de ser Portugal alliado da Inglaterra, antiga inimiga da França, e querer Luiz XI, que Portugal ficasse comprehendido no tractado a celebrar com Castella.
De certo modo veiu o nosso monarcha a prestar-se ás vistas politicas de Luiz XI; o que determinou[{42}] este a promulgar uma carta patente sobre o soccorro, que dava a D. Affonso V, nomeando sire d'Albret commandante de um exercito destinado a invadir Guipuzcoa e Biscaia.
Com quanto o duque de Bragança tivesse já dado lealmente por escripto o seu parecer—que foi archivado a seu pedido, para constar no futuro—ácerca da entrada do exercito portuguez em Castella, D. Affonso, antes d'este se pôr em marcha, conversou ainda particularmente com o duque a respeito do assumpto.