Vêrmo'-nos, e ficarmos sendo, logo ali, amigos velhos, foi obra de um momento. Eu tinha na minha bagagem uns versitos, que apresentava a medo, e que um dia Manoel de Arriaga leu em voz alta, depois do café, na mesa dos hospedes, com a mesma emphase com que leria versos de Victor Hugo, conquistando-me uma ovação no meio d'aquelle auditorio ingenuo, e deixando-me a mim proprio deslumbrado de taes versos serem meus. Coitados! Por onde andarão elles!

Zeferino Brandão, já a esse tempo tinha poetado muito e, no meu entender de então, hombreava com todos os da sua vida de Coimbra, amigos de tu, que, sempre que se encontravam, tinham tão bons abraços a trocar, tão bellas coisas a relembrar e a dizer. Eram o João de Deus, que estava ali; o Arriaga, que vinha todos os dias; o Anthero, que apparecia de quando em quando; o Simões Dias, o Candido de Figueiredo, o Guimarães Fonseca, o João Penha, a todo o momento falados, porém ausentes.

Por signal, que a esse mesmo tempo Zeferino Brandão se lembrou de fazer annos, e nada menos que vinte e seis. A lembrança foi tida como[{VII}] disparate de marca maior, e como antecedente de pessimos effeitos. E tanto que João de Deus lhe disparou, logo ali, á queima roupa:

Com que então, cahiu na asneira
De fazer na quinta feira,
Vinte e seis annos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazel-os, não parece
De quem tem muito miolo!

Averiguou-se, porém, que Zeferino era reincidente no delicto, pois no anno anterior fizera o mesmo, e mostrava-se disposto a repetir no immediato. E por isso João de Deus accrescentava:

Não sei quem foi que me disse,
Que fez a mesma tolice
Aqui o anno passado...
Agora o que vem, apósto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!
Não faça tal; porque os annos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho.
Faça outra coisa; que em summa
Não fazer coisa nenhuma,
Tambem lhe não aconselho.

Zeferino Brandão tinha boa vontade de seguir á risca a advertencia do poeta; não poude no emtanto[{VIII}] satisfazer-lhe o desejo. Effectivamente, fez outras coisas, livros excellentes, por exemplo; mas accumulou, e foi tambem fazendo annos, com a maior moderação, o mais devagar que lhe foi possivel, mas, em summa, fazendo-os e contando-os. Era o que João de Deus lhe tinha dito:

Mas annos, não caia n'essa!
Olhe que a gente começa
Ás vezes por brincadeira,
Mas depois, se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fal-os, queira ou não queira.

Para mim, n'esse bom tempo da vida, Zeferino Brandão vinha já, não direi da noite dos tempos, mas de um passado glorioso. Era do fraternal e alegre convivio d'aquelles que mais influencia exerciam nos nóvos de então, e sabe-se quanto é ciosa e aristocrata a superioridade intellectual, que não desce nunca a nivelar-se com os mediocres, e que só anda hombro a hombro com os seus pares.

Depois, tive occasião de lhe definir melhor as referencias no espaço e no tempo, com respeito ás gerações academicas, que elle frequentou, áquellas de que foi continuador, e ás que o continuaram a elle proprio.[{IX}]