—Sim, estão os meus adversarios bem aparentados;[{44}] mas não os temo apesar d'isso, e eu tambem não nasci das pedras.[[3]] Conto igualmente com amigos e parentes; tambem me não falta dinheiro, que é mais fiel que todos os parentes e amigos, e tenho sobretudo a Deus em meu auxilio.

—Não pretendo demover voss'alteza do proposito, em que está; permitti, porem, que vos lembre ainda a reciproca aversão de Castella e Portugal, filha de um odio inveterado entre os dois povos; e o perigo de expôr a felicidade e a paz do vosso reino á inconstancia e capricho dos grandes de Castella. Não olvide tambem voss'alteza, que, durante a vida de seu cunhado, não queria ouvir fallar do casamento de voss'alteza com sua sobrinha, e que, acceitando-o agora, obriga o mundo, sempre prompto a desacreditar as acções dos principes, a murmurar e attribuir esta guerra a algum odio reservado...

—Sem embargo d'isso, estou resolvido a entrar em Castella.

—Acato a deliberação de voss'alteza, e peço-lhe me conceda licença, para ter em alguns lugares d'esse reino póstas prestes a salvar a real pessoa de voss'alteza e a minha, se necessario for.

A vigorosa argumentação do duque de Bragança, para combater o designio de Affonso V, fez suspeitar o principe D. João, de que fôra inspirada por D. Isabel, proxima parenta do duque;[{45}] suspeita essa, que dominou sempre o animo do principe, e foi mais tarde tão fatal á casa de Bragança.

D. João oppôz-se apaixonadamente áquelle parecer, por estar convencido de que o senhor de Villa Viçosa pretendia atalhar, a que D. Affonso V aproveitasse o ensejo propicio, que se lhe offerecia, de dilatar os dominios da corôa, e unificar os reinos da peninsula. Era vivamente applaudido por alguns fidalgos portuguezes, que observavam o invariavel preceito, de não soffrerem os principes contrariedade a seus gostos. Preferiam por isso ser aduladores, especie de péste endemica das côrtes, para a qual se não descobriu ainda remedio.

O duque de Bragança havia previsto, quanto ia passar-se em Castella; e os successos, como veremos, bem mostraram ser mais difficil illudir a prudencia, do que lisonjear um principe.

Falleceu o duque, antes de se pôr em marcha o nosso exercito, e seu filho primogenito D. Fernando, duque de Guimarães, que lhe succedeu em suas grandezas, tomou parte na expedição com seus irmãos, vassallos e dinheiro, sem que lhe entibiasse o zelo e a generosidade, com que servia o seu legitimo rei, consideração alguma pelo parentesco, que tão estreitamente o ligava aos principes do partido contrario.

Até aqui havia D. Affonso V reinado com muita gloria e auctoridade, sendo alvo da estima e veneração dos principes seus contemporaneos, alguns[{46}] dos quaes consumiam seus patrimonios e forças em guerras civis e domesticas, em quanto elle as expendia em activar o influxo civilisador da religião catholica, e ampliar a soberania de Portugal, havendo passado tres vezes a Africa, onde seus cavalleiros mais acendraram a fama luzitana, e elle mostrou sempre a alteza de animo, de que era singularmente dotado.

A inclinação e gosto, com que se occupava na conquista da Africa pela Barberia, faziam-n'o olvidar a grandeza dos descobrimentos do Oceano, iniciados pelo infante D. Henrique seu tio. Quem sabe, porém, se elle continuaria a obra do solitario de Sagres, uma vez que não fosse impellido pela generosa idéa de reparar uma affronta, feita a sua irmã, e de soccorrer uma orphã innocente e desamparada?