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Rita Farinha (Mar. 2008)

DO MESMO AUTOR


IO Barão de Lavos, romance, 4.ª edição, 1 vol. br.
IIO Livro de Alda, romance, 1 vol. br.
IIIAmanhã, romance do proletariado, 2.ª edição, 1 vol. br.
IVFatal dilema, romance, 2.ª edição, 1 vol. br.
VPróspero Fortuna, romance, 2.ª edição, 1 vol. br.

Sem remédio..., romance, 1 vol. br.
Os Lázaros, romance, 2.ª edição, 1 vol. br.
Mulheres da Beira, contos, 1 vol. enc.
Amor crioulo, 2.ª edição, novela.

ABEL BOTELHO


Amor crioulo

(vida argentina)
novela

Ahi està, si, magnifica, opulenta,
La codiciada tierra...

Guido y Spano.


segunda edição


PORTO
LIVRARIA CHARDRON
de LÉLO & IRMÃO, L.da—editores
rua das carmelitas, 144
Livraria Aillaud e Bertrand, Lisboa-Paris
1921

A propriedade literária e artística está garantida em todos os
países que aderiram à convenção de Berne—(Em Portugal,
pela lei de 18 de Março de 1911. No Brasil pela
lei n.º 2.577 de 17 de Janeiro de 1912.)


propriedade absoluta dos editores

Porto—Companhia Nacional Tipográfica

AO DOUTOR
BRITO CAMACHO

AMOR CRIOULO

I

Das barbas do Afonso Costa
Mandei fazer um pincel
Para escovar as botinas
Do querido D. Manuel.

II

III

IV

Apesar de bastante instado para baixar tambêm, o Silveira resolveu ficar. O tenente Euclides oferecera-se amavelmente a ser-lhe companhia e guia na cidade, mas por aquela noite sómente;—êle bem devia compreender,—a noiva esperava-o com ansiedade, e tinha que seguir no primeiro trem para S. Paulo, logo na manhã seguinte. Por igual os Wymeyer, tímidamente sondados, redarguiram, com mal contido desdêm, «que não desciam... que para quem, como êles, vinha da Europa, não valia a pena». Para mais, a colónia inglesa de bordo, ponderando muito sensatamente o horror de bérrata, confusão e desordem que devia ser, para um recêm-chegado, aquela noite de Entrudo, no Rio, resolvera, em vez de desembarcar, fretar antes um vaporsito onde passasse despreocupada e íntimamente, ela só, algumas horas, bordejando a baía, fazendo o suave e demorado contôrno daquela fantástica decoração, vogando plácidamente ao voluptuoso embalo daquele mar de sonho. Era uma idéa deliciosa. Miss Nora Scott convidára o Silveira para a encantadora excursão. Os Améglio iam tambêm.—Que mais queria êle?... Para ver o Rio tinha o dia seguinte.—Resolveu, pois, ficar; e, depois de jantar, sem fazer maior caso da estrepitosa festa carnavalesca que a criadagem de bordo organizára na ponte da 2.ª classe, tomou ao portaló e desceu ligeiro ao vaporsito, cuja silhueta coqueta se desenhava em baixo, convidativa e luzente, no regaço manso das águas trepidando, fumarando, bailando alegremente. Daí a minutos, punha-se em marcha, e sobre o seu minúsculo convés, escassamente alumiado, foi difícil nos primeiros momentos a identificação das figuras. A infeliz Nora Scott foi a primeira a fazer-se reconhecer pelo Silveira, abordando-o e abandonando-se-lhe com carinhos, incendida como ela vinha nos seus propósitos firmes de seducção, provocante, amorável, tôda tules e rendas. Porêm, ao primeiro pretexto decente, o Silveira afastou-se; e pronto aí estava êle já ao lado da sua apetecida irlandesa, trepados, muito amigos e compadres, os dois à mesma clara-bóia que dava luz às câmaras interiores, à falta de mais cómodo assento. O conde mantinha-se longe e a velatura crepuscular do ambiente era o mais discreto cúmplice, agora, a esta doce e inefável aproximação, sem testemunhas e sem peias.—O ar estava tépido, tranqùilo e na sua morna quietação o crespo afago da brisa passava como a carícia dum leque de plumas. De roda, pelo caprichoso e largo desdobramento da cidade, as avenidas e os cais da beira-mar, iluminados profusamente, eram um colar faíscante de pedraria e oiro, riscavam rútilas e esplendorosas curvas. E não tinha fim, não tinha limite esta invasão delirante da claridade. As suas imensas linhas de fogo sinuosavam, penetravam-se, contrapunham-se, prolongavam-se, cortavam-se, profusas, ondeantes, e por fim seguiam sôltamente ao largo, pontilhando a vaga opacidade da tréva, densas, vivas e espertas sempre, embora grado a grado amortecidas e apequenando, na distância. Se o vapor se aproximava da terra, junto com os jorros da luz branca, que davam uma nítida visão fragmentária das coisas, vinha então o grosso éco da foliona febre da multidão, em lufadas alucinantes.—Mrs. Edith e o Silveira seguiam muito amigos e unidos, sentados sempre a par,—e isolados no seu mútuo embevecimento, alheios ao tempo e ao logar, a favor da parcimoniosa luz postos a seguro de vistas importunas,—gozavam juntos, mudamente, a infinita delícia daquela hora incomparável, admiravam enleados, pela borda sinuosa dos cais, aquela parada inflamada e ardente, essa corda, êsse rosário interminável de sóis, mais rubros, mais claros e mais firmes que os sóis do alto... esplendente barra de oiro cravada no dôrso glauco do mar por alfinetes de prata, aguada mágica de luz esparsa, no insondável mistério da noite subindo e indefinidamente alastrando, diluindo-se, esbatendo-se, perdendo-se, a dançar anamórfica pelo espaço.
A certa altura da noite começaram as libações. O estalar das primeiras rôlhas de cerveja e de champagne foi o apetecido sinal para o fácil repúdio das fórmulas coercivas da etiqueta. Gradualmente agora iam sendo postas de banda as peias, as convenções banais da cortesia, para deixarem um pouco de campo ao exercício livre do instinto. Muitas das senhoras então soltavam os voiles ou deslaçavam as blusas, afogueadas; os homens arremangavam-se. Num progressivo calor, e numa contagiosa e audaz alacridade, dentro de cada grupo os movimentos, os gestos abastardavam-se, e subia o diapasão delirante das saùdações e dos hurrahs. Veio mais tarde o momento em que, por uma adaptação condizente ao epicúreo abandôno desta hora libertina, alguns deixavam-se resvalar das suas cadeiras e tamboretes para as tábuas rasas do convés, onde se quedavam molemente estirados, numa beatitude inerte, a cabeça pesada oscilando, o dorso contra a amurada. O Conde Améglio, esquecido da mulher e dando ao démo os seus brios postiços, divagava de grupo para grupo, abundante e palreiro, feliz, o olhar empanado e a taça vazia na ponta dos braços froixos, cambaleando. Havia uma única nota de excepção, um absurdo protesto passional, em todo este côro vibrante de alegria; era a longa figura trági-cómica da desgrenhada Nora, hirta e de pé, amparada ao mastro de pôpa, mirando com decisão o mar, num pendor teatral ao suicídio... Ao passo que não muito longe, o Silveira e a irlandesa, cada vez mais cingidos, trocavam, amorosos, as taças, afim de penetrarem-se mútuamente os segredos, e êle, não podendo, em linguagem compreensível para a sua amada, expressar tôda a veemência do fogo que lhe abrasava a alma, substituia com vantagem o calor sugestivo da frase pela eloqùência muda dos contactos.
Na manhã seguinte, sim, deu-se pressa o Silveira em demandar a terra. E ao avançar, curioso, os primeiros passos pelo liso empedrado do cais Pharoux, sentia-se bem, o coração dilatava-se-lhe, estimulado e contente ao reconhecer-se num ambiente amigo. Tudo ali, com efeito, lhe avivava impressões flagrantes, lhe evocava de Portugal a lembrança próxima e querida, tudo,—desde a analogia cantante da linguagem aos traços e ademanes conhecidos das figuras, desde o tipo sóbrio e maciço das construções à brita miúda e ao desenho do mosaico dos passeios. Tomou um automóvel e mandou bater ao acaso, num giro de reconhecimento rápido às mais celebradas coisas da cidade. O chauffeur era português, tomou familiarmente assento ao lado dêle. A bôa disposição do ânimo fazia-o mais acessível, o simpatismo sugerente do meio tornára-o jovial, aquecia em frémitos de fraterna expansão a sua sensibilidade agradecida. Por isso, a cada momento, naquela vertiginosa abalada, o feliz viajante ia cortando os esclarecimentos fugazes do condutor por admirativas exclamações e brados entusiastas, quando não descia a indagações mais íntimas, inquirindo com afectuoso interêsse o chauffeur na sua filiação, antecedentes e condições morais e materiais de vida.—«Se viera para a América havia muito tempo? Se estava contente? se tinha valido a pena?»
—Alguma coisa se faz, meu amo...—contestou afável, num risinho esperto, o interpelado.
—E muita família lá em Portugal?
—Mulher e três filhos. Quanta mosca posso forrar, p'ra lá vai inteirinha.
—E saùdades da pátria, não tem?
—Que pátria, senhor?...—acudiu com amarga resignação o chauffeur, olhando de espaço o Silveira.—A gente, em vindo p'r'aqui assim, não temos mais pátria. Por cá chamam-nos galegos; se volvemos a Portugal, somos brasileiros.
E encolheu os hombros com tristeza. Assim mano a mano chalrando, indagando e informando, mutuando fugazes impressões, colhendo notas inéditas, percorreram os dois o amplo coleamento áureo-verde da avenida Beira-mar, visitaram Botafogo, fizeram o rodeio dêsse retalho paradisíaco que são as praias do Leme, Copacabana e Ipanema, internaram-se pelo delicioso dédalo de sombras, palacetes, parterres e jardins do bairro das Laranjeiras, deitaram ainda ao Jardim Botânico, e foram por fim almoçar ao morro de Santa Teresa. Larga e formosíssima jornada. O Silveira estava encantado, aturdia-o a cálida vitalidade do ambiente, sentia-se bêbedo de magnificência, de luz, de côr, de movimento e de ruído. Feria-lhe com agrado a atenção o escrupuloso aceio das ruas, a variegada tinta das construções, o abundante luxo decorativo das árvores e das flores, e, por uma estranha anomalía dêste scenário mole de prazer, o tom sempre atarefado, o côrso afadigado e ligeiro da multidão, palpitando, tumultuando, fervendo numerosa e incessante, como uma grossa onda de renovação a correr, generosa e fecunda, por essa densa rêde de artérias da abundância e da fortuna. Bem mais porêm que a obra magnífica do homem o impressionou o esplêndido vigor da Natureza,—as colossais dimensões e o atormentado aspecto dessa grande paìsagem eruptiva tôda em bruscas oposições e em arrancadas titânicas; prodigiosa armadura cujo torso arfante, rompida, aqui, ali, a sua espêssa crôsta verde, fôra atirado vertiginosamente a prumo, formando atrevidos minaretes naturais donde se abrangiam panoramas maravilhosos; estonteadora ronda de montanhas fechando zelosamente na concha dos seus flancos viridentes, como entre mãos de gigantes um brinquedo, o formigueiro policromo e frágil da casaria. Mas era demasiado grandioso e solene. Perante a melindrosa sensibilidade de europeu, do Silveira, tanta soma de majestade raiava já pela tristeza; sobrelevando à sua extática admiração por tam desconcertante e caprichosa exuberância, havia o que quere que fôsse de vagamente constritivo e grave, que o esmagava, que lhe pesava na alma, como um fatídico prenúncio de desgraça. Porque êle não encontrava aqui, nesta luz crua, nestes mamelões adustos, a vegetação suave e amiga, as delicadas e múltiplas nuanças, o brando afago, as acariciadoras sombras do torrão bemdito que lhe embalára a infância. Aqui, na sua fechada monotonia, a sombria capa verde do sólo áspero e convulso tinha um não sei quê de opressivo, de hostil, de trágico; na impenetrável noite do seu mato torcido e hirsuto pressentia-se tôda a sorte de quimeras ruins, de reptís, de feras, de monstros, espiando-nos. Era um Éden traiçoeiro... inadaptável seguramente à poesia dos contos de fadas, à simplicidade ingénua das bucólicas tangidas melancólicamente, na grave e dulcerosa paz dos campos, pelos contemplativos pastores da sua terra.
Horas depois, à noite, e quando outra vez a bordo, o temperamento vibrátil do Silveira ardia por expandir-se, debatia-se no vivo empenho de transmitir impressões aos companheiros. Os Améglio acolheram-no com frieza, fortemente ressentida como estava Mrs. Edith por não haver ido com êles. Ramón Alvarez, envernizado e rubro como um tomate, tambêm pouco o atendeu:—«não estava de acôrdo, ia morrendo assado... tinha achado uma estopada!»—Voltando-se para o Mackenna, êste não o deixava falar, porque, no seu fátuo egoísmo, tudo era por sua vez encarecer-lhe os surpreendentes motivos que esquissára para um soberbo quadro simbolista.—Havia de ver!—Valeu-lhe por fim a sua grande amiga espiritual, a loura e tímida Irene, que com amável complacência o escutou longamente.
No dia seguinte tocavam em Santos; e enquanto o Silveira se debruçava atento sôbre o aparatoso e sólido desdobramento e o tráfego colossal do pôrto,—bem comparável ao de Liverpool, lhe haviam dito, e via que com razão,—aí de acercar-se-lhe o pai Wimeyer, que, sempre no antegôsto falaz do seu tam almejado inquérito gramatical, todo o oportuno ensejo aproveitava para lisonjeá-lo. E com [familiaridade cativante], numa [erudição] muito a propósito:—que êle, como bom português, devia sentir-se orgulhoso e contente, ali... vendo, e pisando podia dizer-se, terra da celebrada baía, pitoresca e tranqùila, onde, quatro séculos antes, aproára a primeira expedição enviada de Portugal para colonizar o Brasil; e que era ali a outrora ilha de Enguáguassú, sabia bem... assim como foi dali que partiu breve para o interior, nesse tempo, trepando e transpondo épicamente a abrupta Serra do Mar, a expedição que havia de fundar a legendária Piratininga,—a encantadora S. Paulo de hoje.—Confundido por esta exótica demonstração de tanto saber, o Silveira aplaudia, num risinho envaidecido; e quanto à embaraçosa iniciação dessa prometida sabatina gramatical, o aterrado argùente ia engenhosamente iludindo—que já agora, por poucos dias, seria melhor, com outro descanço... em Buenos-Aires.
Bastantes passageiros mais desembarcaram aqui; gradas figuras da finança e da indústria, ricos fazendeiros do interior, caixeiros-viajantes, mulheres de prazer, artífices, obreiros, peões, representantes de empresas estrangeiras. Assim, aquele reduzido mundo que o berço reluzente do Almeria sôbre as águas baloiçava alegremente, ia em repetidas golfadas rareando; e ali dentro a vida fechára-se em pequenos círculos de discreta intimidade, cada vez mais singela, mais suave, mais familiar, à medida como o termo da viagem se acercava.
Amiudavam-se agora e edulcoravam-se, naturalmente, aqueles almos e fraternais colóquios de Irene com o Silveira,—o que não era para êste, aliás, empresa fácil, apetecido alvo como êle se sentia, a cada momento, do contrôle implacável de Mrs. Edith, ávida por igual da sua presença e ciosa do seu convívio. Ele porêm sabia, sempre que isso lhe convinha, desembaraçar-se dela, invocando déstramente os seus compromissos gramaticais para com o pai Wimeyer; depois, uma vez junto dêste, difícil lhe não era tambêm deixá-lo, na improvisada simulação de qualquer solícita démarche junto da filha; por fim, quando, de longe, a querençosa mirada de Mrs. Edith lhe significava a impossibilidade formal de manter-se mais tempo, sem escândalo, junto da linda argentina, êle aí expressava pezaroso, perante esta, o seu inadiável dever de cumprir para com os Améglio uma qualquer obrigação de cortesia, e partia imediatamente. E assim neste divertido círculo vicioso de inofensivas invenções ia salvando com arte as dificuldades e preenchendo saborosamente as horas. O certo era que a doce freqùentação espiritual de Irene fornecia ao Silveira uma derivante deliciosa cada vez mais dominadora e mais atraente, aos desafíos sensuais da irlandesa. Não raro passavam agora horas seguidas sós os dois, já caminhando mui camaradas, par a par, a fazer uma e muitas vezes o giro completo do convés, discorrendo com interêsse juvenil sôbre coisas de nada, ligeiros, felizes, a frase sôlta e leve no ar cortante; já imobilizando-se sôbre um ponto ao acaso da amurada e aí, sonhadores e mansos, balbuciando a sua mútua emoção em termos vagos, imprecisos, como a dança incoerente dessas fugazes libélulas do mar, os peixes-voadores, que êles viam em baixo mergulhando e saltando atoadamente na imensidade azul das ondas. E momentos havia em que o espírito subtil de Irene, ao calor desta casta intimidade, se alava em sublimados conceitos, desatava-se em coisas transcendentes, soltava palavras raras e profundas. Uma que outra vez sucedia o temperamento másculo do Silveira aquecer e inflamar em arroubados ímpetos a sua alma enamorada... Porêm então, invariavelmente, a cada discreto ensaio de galanteio, a alma timorata e nobre de Irene fechava-se como em março um botão de rosa; se êle permitia, com um pouco mais de vivacidade, ao coração pronunciar-se, ela acolhia-se a um mutismo impenetrável, não perdia o ensejo de levemente lhe fazer sentir quanto a trivialidade mesquinha do amor à hora era insofrível para a sua sensibilidade e ofensiva para o seu orgulho.—Queria ver nêle um amigo, nunca um adulador.—Contrito e humilde, o Silveira resignava-se... e a figura melindrosa e isenta de Irene aparecia-lhe então como um dêstes tipos de virtude sólida e doce que nos reconciliam com a existência e nos fazem tomar em respeito a vida.
Em breves dias, uma linda manhã veio em que, no balanceio perpétuo do mar, a translucidez movediça das águas agora engrossava,—embaciava-se, parecia coberta por uma bostelosa máscara de lama. Eram as infinitas aluviões terrunhosas do Plata, cuja foz incomensurável, avassaladora e ampla como um mar, a prôa arrogante do vapor atingia neste momento. Já por estibordo se descortinava a airosa silhueta do Cêrro de Montevideo.—Um outro nome bem português...—voltava a observar-lhe o pai Wimeyer com amável solicitude.—Corrupção de monte vi eu, não era assim?... Perpetuava a primasia na descoberta e acusava sintáxicamente uma linda transposição, como tantas havia na formosa língua de Camões. Tinham muito que conversar...—E batia-lhe no ombro afávelmente. Mas o Silveira mal o ouvia. Neste feliz momento, os seus brios patrióticos empolgavam-no, sobrelevando aos quiméricos terrores pela ameaça das doutas interrogações do pedagogo. O coração dilatava-se-lhe envaidecido, porque êle notava como durante a sua viagem, no decurso de todo êste largo roteiro abarcando dois hemisférios, desde a largada inicial das bôcas de luz e oiro, do Tejo, té à embocadura brumosa e intérmina do Plata, êle viera medindo, reconhecendo, verificando, palpando sempre, ininterrompido e eterno, o traço, a marca indelével dêsse temerário arranque das descobertas... viera seguindo as aladas fugas do sonhador espírito português, tivera a prova constante do seu génio marítimo afirmada e selada épicamente, cruzára o imperecível sulco aventureiro do seu caminho de glória.—Que outro povo podia vangloriar-se dum prodígio igual?...—Perante esta íntima evidência, sacudia a cabeça com arreganho e atirava uma depreciativa mirada de desdêm a essa humanidade inferior que o rodeava... a êle, senhor do Universo.
Passada a encantadora capital uruguaia, não restavam agora ao Almeria mais que oito escassas horas de viagem. Todos tinham pressa de chegar e afanosos seguravam o tempo, compondo, cerrando as malas, dando instruções aos stewards, buscando e preparando a continuìdade das relações ocasionalmente entaboladas.—Os Wimeyer ofereceram ao Silveira a sua casa de Buenos-Aires, calle Paraguay. O Mafiori a todos anunciava bem alto que ia hospedar-se no Plaza-Hotel. Mas os mais, pelo geral,—como o Mackenna e o Alvarez,—não sabiam; iam confiados ao acaso ou haviam-se entregado ao solícito critério dalgum amigo. Os mesmos Améglio não haviam tambêm escolhido domicílio. Assim, para poderem depois vir a saber uns dos outros, concertaram reùnir-se ou enviar o seu adresse ao Café da Paris, na noite seguinte. E ainda, da suja promiscuìdade da 3.ª classe, não deixou de vir humildemente o Matias, na companhia confortante de mais dois patrícios, a demandarem interesseiros o Silveira, confiados na sua espontânea promessa de protecção, para lhe pedirem numa lacrimosa lamúria que não os olvidasse, e desejando saber onde haviam de procurá-lo.
A cada momento, espontâneos, vivazes, por entre a atramochada barafunda das bagagens, formavam-se grupos e travavam-se furtivos diálogos, palpitando da inquieta indecisão daquele instante. Mas diálogos eram êstes que na sua impaciência mordente, no seu vôo fantasista, em vez de aproximarem os interlocutores, distanciavam-nos. Cada um íntimamente se perguntava—que sorte iria ser a sua?... Aquelas quentes e efusivas palavras ninguêm as apreciava maiormente, ninguêm lhes dava inteira atenção, porque elas mesmas logo em cada um dêsses insatisfeitos espíritos sugeriam e despertavam, para alêm do seu significado real, outros planos, idéas, desejos, ambições e projectos que os levavam para muito longe... Porque é assim neste vertiginoso e dissolvente aturdimento que nós vivemos hoje a vida. Ninguêm se instala nela com permanência,—nem nas casas que alugamos agora, já com o antecipado desígnio de as largar àmanhã, nem nas dedutivas evidências da nossa razão, nem na voz instintiva da nossa consciência, nas nossas paixões, apetites, ódios, amores, interêsses. Nada para nós é hoje santo, grande, estável, firme, definitivo. Mudamos com uma rapidez assustadora e uma lamentável inconsciência, de ocupação, de família, de ideal, de carácter. Nada há duradoiro. A febril obsessão de «edificar o futuro» furta-nos ao gôzo tranqùilo e salutar da hora presente. A glória duma invenção feliz, o lucrativo êxito dum negócio, o aplauso por uma obra benemérita,—que foram o produto de longo e persistente labor, as mais das vezes,—contudo, apenas conseguidos e já não nos satisfazem, não nos arrebatam, não nos empolgam; raro a compensadora embriaguez do seu triunfo nos senhoreia por completo a alma. Devora-nos o apetite inquietante, e sem repouso, de novos riscos, lances, emoções, aventuras novas. O torvelinho trágico da vida desliza e corre sôbre nós sem nos penetrar, como a água pelas penas dos cisnes. A nossa existência [atropelada] e incerta tem a allure constante duma carreira, é um film alucinativo e ardente, cuja precipitada mímica nem nos abonda à vontade, nem nos cumula o desejo. É uma hiperbólica e vertiginosa curva sem termo, cujos ramos ideais mergulham no Infinito. Assim, andamos incessantemente aos cotovelões à felicidade, sem saber vê-la, sem a apreciar, sem a sentir. Ao cabo, morremos sem haver vivido.
...Quando, seguramente, a base mais sólida, mais coerente e mais lógica para a plena posse do futuro, seria, à maneira antiga, organizarmos o presente com serenidade, tratarmos com esmerado carinho as fugitivas delícias de cada hora que passa, apreciarmos, em suma, e penetrarmo-nos bem do valor intrínseco de cada dia,—como se o mundo fôsse a acabar nessa mesma noite.

V

VI

queue por igual cerrada de veículos se lhe enrolava em tôrno, atulhados por uma turbamulta de rapazolas que, chinfrineiros, implicantes, chasqueando, assobiando, berrando, buscavam por meio dum alarido infernal amesquinhar e abafar as iluminadas vozes cívicas dos apóstolos do centro.
—Êstes são os socialistas,—tornou aclarando Jorge; e num crescente mau humor:—O alargamento do sufrágio deu nisto!
De roda crescia tambêm naturalmente a onda dos mirones, atraídos pelo inéditismo do espectáculo. Porque parecia uma esporádica prolongação do Entrudo, formava o mais canalhesco e adorável dos contrastes, esta palinódia colossal,—a solene gravidade e a impertérrita coragem dos meetingueiros fieis, parados e atentos tomando em massa o vasto recinto, com a algareira sublinha daquele rodeio impudente dos contrários, afogando-os numa implacável cinta de arruaças, de burlonas apóstrofes, vaias, chistes plebeus e guisalhadas de tr, atraídos pelo inéditismo do espectáculo. Porque parecia uma esporádica prolongação do Entrudo, formava o mais canalhesco e adorável dos contrastes, esta palinódia colossal,—a solene gravidade e a impertérrita coragem dos meetingueiros fieis, parados e atentos tomando em massa o vasto recinto, com a algareira sublinha daquele rodeio impudente dos contrários, afogando-os numa implacável cinta de arruaças, de burlonas apóstrofes, vaias, chistes plebeus e guisalhadas de troca. E nenhum dos dois bravos campos se dava por intimidado ou vencido, nenhum queria ceder. Nesta inofensiva e gritada briga mantinham-se testarudamente rivais; os de fora na sua truanesca assuada, os de dentro na sua caturra perseverança.
O Silveira e o Azeredo seguiam a scena sorridentes, num maligno regalo; ao passo que Jorge, sem perder a sua linha de pretenso aristocrata, enfastiado e severo:
—Parece um bando de patoteros! Súcia de gringos... A culpa é da polícia.

VII

A esta sincera exteriorização de piedosa ternura não teve a suave rapariga uma palavra de comentário... porêm a comoção empanou-lhe os olhos e um sôpro de enternecida gratidão lhe fundiu a alma.
—Como te chamas?—familiar o Silveira tornou.
Luisa, servidora de Usted.
—E então agora vais p'r'á tua casa?
Si, pues.
—Muito distante?
Sesenta cuadras, no más.
—Se queres, eu te acompanho.
Bueno, señor.
Numa instintiva e afável confiança, ela avançou dois passos, o Silveira tomou-lhe a mão esquiva, e os dois acercaram-se então do cavalo, a que o dono tomou a rédea. E queria que a pequena montasse, e cortêsmente insistia, para furtá-la à fadiga molesta de tam longa caminhada. Porêm a gentil rapariga, tenazmente, escusava-se.—Que no, qué esperanza!—E por seu turno, desprendida e solícita, teimava em que êle é que tinha de aproveitar a montada. Era o natural... Um senhor da cidade, tam fino, tam delicado!—Por fim, a rodear amigávelmente a dificuldade, resolveram por mútuo acôrdo seguirem, já agora, ambos a pé.—Passariam trabalhos iguais... assim, nem um nem outro teriam que dizer.—E foi como alegremente iniciaram então a penosa jornada, pronta e infantilmente acamaradados, com o cavalo à mão e marchando a par e passo os dois,—ela mocanqueira e feliz por tam fidalga companhia, vaidoso êle e arrogante por ver-se o depositário ocasional daquele tesouro,—mano e mano divagando, mansos e graves, na luz indecisa do crepúsculo, pela orla sinuosa dos caminhos.
Nesta hora recolhida e melancólica, já o sol baixava a rasar a purpurina fímbria do horizonte, envolto numa conflagração de nuvens que o toucavam, redondas e infladas, como o penacho dum elmo rutilante. E o seu estirado reflexo incendia o imenso lençol pampeano em fulvas reverberações, como um vasto clarão de incêndio, no mais puro e mordente contraste com a leveza espelhada do céu, infinitamente calmo, fundo e diáfano, cuspido apenas ao alto de breves nuvens policromas.—Andando sempre, amavelmente o Silveira ensaiava, a curtos intervalos, travar diálogo e entabolar conversa, a fazer um pouco o conhecimento da sua misteriosa companheira. Luísa porêm tinha dificuldade em compreendê-lo, fazia-o a miúdo repetir as frases; e apenas se ela consentia depois em deixar escapar alguns raros, intervalados, curtos e soltos monossílabos, como gotas de água reçumando num subterrâneo. E a seguir logo ela recaía no mesmo mutismo concentrado e apático, fechava-se na sua invariável reserva, na sua tímida esquivança, marchando silenciosa e humilde, ao lado do seu generoso amigo, com a repousada majestade da paìsagem nua do deserto.
Contudo, a poder de paciência e mimo, o Silveira conseguiu inteirar-se de que ela vivia separada e longe do pai e da mãe, por contendas de família; e que trabalhava a jornal, mais um irmão, na fazenda dum dos mais acaudalados chacareiros da redondeza. Igualmente conseguiu torná-la sabedora do motivo da acidental aparição dêle por ali. E então era de ver como a graciosa morochita vivamente se interessava.—Ah, a estancia Amália?... Conhecia muito bem: una ricura! Qué buena señora a D. Teresa! Señorita Célia, una santa... Por sorte, era p'r'os mesmos lados da sua chácara. Não havia dúvida, ela lhe ensinaria... E tudo mais que êle quisesse... Não havia por'li assim rincão nem caminho que ela no supiera al dedillo. Conhecia-os com'os os seus dedos.—E, dizendo, tornava-se comunicativa, e afogueada, risonha, saltitava de prazer, tôda na vibração exultante de poder ser útil a êste bravo e loução desconhecido a quem ela devia mais que a vida.
Porêm, súbito, a atraente campesina estremeceu, e, dando um salto, atirou-se contra o flanco protector do amigo.
La lechuza! la lechuza!—murmurou com supersticioso terror a timorata rapariga.
E apontava um pequeno ponto escuro sôbre um poste telegráfico, à ilharga do caminho.
Ergueu o Silveira, alarmado, na mesma direcção os olhos e pôde distinguir uma pequena ave, de côr àquela hora indecisa, e que lhe pareceu um pouco mais volumosa que os tordos que êle sabia tam bem caçar, na sua terra; porêm com uma grande cabeça chata, solene e doutoral, vagamente humana, e poisado com uma gravidade que lhe dava o mais estranho ar, uma bizarra mescla de ridículo e de mistério. Confrangida e de cabeça baixa, apertando os braços, a pobre Luísa entaramelava,—que aquilo era uma ave má, agoireira, sinistra! Mal ia aos que la lechuza fitava assim... como a ela estava fazendo agora! Era o mais temido avejão do campo, o mensageiro da fatalidade, um prenúncio certo de desgraça.—Animoso e incrédulo, o Silveira buscava tranqùilizá-la.—Que não désse fé a essas estúpidas crendices dos vélhos tempos. Quem cria agora em agoiros?... Tonterias! Era um pobre animal inofensivo e simples, como tantos outros.—Luísa porêm convictamente protestava.—Que não! todos os dias se estava a ver... Ainda não havia muito tempo que um tio dela caíra e morrêra afogado num pôço, por ir perdido a querer furtar-se à perseguição duma aventesma destas, por uma noite assim... E a amásia última do patrão? E a filhinha do sr. juiz de paz?... Não havia nada peor! Tinha a sua vida cortada...
E, num mixto de ansiedade e horror, de quando em quando ela indagava a presença, pelo espaço, dessa azarenta mancha indecisa... a qual por seu turno, de poste para poste, de bouça para bouça, surda e fantástica, avoejando, implacávelmente os ia seguindo sempre,—na sua grande cabeça redonda, invariávelmente sôbre os dois apontada e fixa, luzindo ameaçadores e preságos dois pontos fosforecentes.
Sentindo contra o seu flanco a palpitação do corpinho fresco e tremulante da rapariga, o Silveira aquecia. Dirigia-lhe palavras de carinho, cingia-a pelos ombros, afagava-lhe paternalmente o cabelo. Neste delicado momento, senhoreava-o uma ácida perturbação, desdobrava-se-lhe a alma numa inquietante duplicação de sentimentos, participando a um tempo da piedade e do orgulho, da vaidade e do desejo. Quando considerava a justa oportunidade, o êxito feliz da sua cavalheiresca aventura, isento e honesto o coração alargava-se-lhe; e, ao mesmo tempo, por todo o seu ser em alvoroço despertava uma sensação de terna e estranha voluptuosidade,—o apetite vago de possuir a sua linda e frágil tutelada para continuar a protegê-la...
Assim foram longamente caminhando, na progressiva invasão da tréva e do silêncio, minúsculos e sós os dois na imensidade, alumiados já pelo sonambulismo errante das estrêlas. Por aquela agonia dulcíssima de tarde, o crepúsculo da luz e o crepúsculo da tradição fundiam-se. Era o charro e vazio esbatimento, era a definitiva eliminação de todo êsse mundo de encantadoras e imaginosas ficções que, antes, volitando irisadas e leves, como borboletas, esmaltavam de poesia a esfumada atmosfera dêste país fantasista e ingénuo,—hoje irremissívelmente dispersas, trituradas e desfeitas pelo industrialismo feroz da hora presente. Não mais serenatas, encantamentos, fadas, demónios surdindo dos poços, virgens penteando-se ao luar, bruxas alucinando donzelas, sereias a adormecer gigantes... No repouso letárgico da planura, o único ruído perceptível era por acaso o rouco soluço de alguma locomotiva, raspando ao longe. E neste apaziguamento sem termo, na absoluta desolação desta soledade infinita, a monotonia sem fim da pampa alastrava como uma imensa mortalha,—era um mar morto num país de olvido.
Haviam atingido o ponto obrigado da separação, o teimo fatal à deliciosa e imprevista caminhada. Foi quando gravemente o Silveira estacou frente à sua linda sócia de jornada, e tomando-lhe as duas mãos, encarando-a bem nos olhos, suasivo e meigo:
—Então, muito cansada?
No... aunque fuera doble del camino,—murmurou Luísa docemente.
—Espero que nos tornaremos a ver...
Quien sabe?—devagar ela suspirou, furtando os olhos, com um peganho vago de tristeza.
E dos dois as mãos trémulas e frias deslaçaram-se, houve um mútuo breve acêno de despedida e voltaram-se costas, num eloqùente mutismo, seguindo cada qual o seu caminho.
O Silveira, porêm, tam pronto deu no seu novo rumo os primeiros passos e sentiu que lhe faltava o que quere que fôsse... e contra o seu querer não despegava de pensar, apiedado, quente, com uma devoção enternecida, na misteriosa aparição dessa adorável e paradoxal criatura, tam sobranceira ao mal, tam pura em meio de tanto lôdo, tam segura da sua imunidade, tam resoluta diante do perigo. Quis vê-la uma vez mais.... parou, voltou-se. Mas, impelida por idêntico desejo, ela voltára-se tambêm... E nesta simultânea permuta de olhares, confusa ao ver-se surpreendida, a alvorotada criança deu logo rápida a espalda e disparou, correndo.

VIII

do céu, peneirado duma subtil poalha de oiro que era como uma alvorada de bênçãos, apenas alguns farrapitos de nuvens, brancas e altas como asas de anjos, erravam levemente... E desde as primeiras horas que, algarreira e abundante, a multidão começou afluíndo, todos em salteiros grupos endomingados,—con sus trapitos de cristianar,—fundidos no guloso ímpeto do mesmo apetite místico e folião, porêm distanciados pelo traço diorâmico dos costumes e pelo desenho ideal das crenças. Vinham em alegres volatas, em chireantes golfadas, em cordas de riso uns após outros vitoriando, cantando e dançando, como se nesse dia de glória a amplidão ridente da planura se vestisse duma grande e viva alfombra cosmopolita, realçada em matizes de tôdas as latitudes, de todos os países, de tôdas as religiões, de tôdas as raças. Assim decorreram entre festivas e ingénuas pompas as anunciadas cerimónias do dia, cingidas no atropelado abraço de tôda essa grossa onde espectante. A bênção comovedora da Santa e a sua processional trasladação, depois, àquele improvisado altar da selva, foram, a um tempo, duas maviosas sinfonias de movimento e de côr, e duas tocantes demonstrações de lisa fé e piedoso entusiasmo. A vitoriosa culminação da festa estava porêm reservada para mais tarde, quando, ao cerrar da noite, aqueles quantos milhares de pequeninos globos, serpeando como vermes de fogo, saltando, faíscando aqui e ali, errantes e vagos como pirilampos, começaram de acender de roda a sua aleluia policróma. Um outro dia apontava agora, suave e discreto, não cortado já na prosaica nitidez das evidenciadoras flamas do astro-rei, porêm pela atenuada sarabanda dessa infinidade de minúsculos sóis arredondado em claridades de sonho, sôlto e ideal campo aberto, agora, às fugas da imaginação, aos arroubos do amor e aos vôos da poesia. Era todo o vasto e bigarrado recinto dos seus fundos de sombra jorrando esplendentes fontes de luz, palpitando e ardendo numa estonteadora profusão de lumes caprichosos, que definem linhas arquitecturais, que festoam silhuetas de árvores, que espirram para o espaço, que da relva rompem ou no ar se baloiçam em largas figurações de fantasia, e em que o uso das novas lâmpadas de fio metálico multiculôr dá motivo às mais deliciosas projecções de côr, às nuanças mais fantásticas e imprevistas. E por sôbre tôda essa orquestração lampejante é ainda e sempre a carcassa mégaloide do vélho ombú que mais destaca e mais realça, todo inflamado em recamos de gala, casquilho, remoçado agora e como que ufano do seu destino, iluminando afável e protector a passividade muda do deserto,—o polipo colossal das raízes, que poderosas esgarçam a terra, mosqueado de tijelinhas de côr, como tentáculos luminosos, no amplo seio amostrando com orgulho e abrigando com carinhos de avoengo o nicho tremeluzente, e pelo atormentado e largo bracejar da ramaria o múltiplo rosário das lâmpadas pingendo, facetadas, límpidas, fulgurantes como lágrimas de alegria.
Entretanto pela ampla e redonda extensão que êste luaceiro de festa abrangia, apinhada e confusa a ronda do populacho crescia, amontoava-se... o vago marulho da sua agitação fanfurriava em ritmos bárbaros, vibrava em cânticos, era avivado em singelas dolências pela sublinha sensual das tocatas e descantes... e a quando em quando, sob a estralada esfusiante dos fogos de artifício, à flor dêsse revôlto mar, reverberava então cá em baixo, em pinceladas goyescas, por instantes, a floresta alvar das suas cabeças em delírio.—Fazia aprazívelmente o Silveira o interessado circuìto do recinto, quando súbito, na compacta maré montante de figuras que do exterior vinham ávidas colar-se à grade do jardim, lhe pareceu distinguir um rosto seu conhecido. Irresistivelmente, adiantou-se... e, com efeito! era Luísa, a linda e fresca morenita, que na sua adorável rusticidade ali viera poisar, e que enlevada e imóvel, por um alheamento de indizível beatitude os sentidos presos e a atenção suspensa, no perfil garboso e enérgico do seu bravo defensor cravava encantada os grandes olhos negros.
Então o Silveira, entre lisonjeado e surprêso, com uma doçura cantante na expressão aproximou-se.
—Ó Luísa! A minha querida amiguita tambêm por aqui?... Como vais tu?
Por única resposta, ela teve um breve sorriso de êxtase a encrespar-lhe os lábios, e logo, còrando ligeiramente, baixou os olhos. O Silveira tornou:
—Que bôa idéa tiveste! Mas que fazes aí assim? porque não entras?
Sem articular palavra, sem se mover, Luísa manteve a mesma atitude retraída e humilde.
—Anda!—carinhoso e afável o Silveira insistiu.—Não queres comer?... não vens dançar?
Luísa movia a cabeça negativamente, fechada sempre na mesma inércia contemplativa, sem romper o seu mutismo.
—P'ra que vieste então?
Ela agora por fim, com voluptuosa pausa volvendo a abrir as brumas pálpebras, e na cálida demanda do seu galhardo interlocutor o fogo latente do olhar chispando, numa velada ternura balbuciou, singelamente:
Para verlo...
O Silveira sorriu e num estremeção de vaidade, medíocremente sensível à tímida e incontida expansão da rapariga, insinuou a mão pelos ferros e acariciou-lhe ao de leve a face tostada e redonda.
E partiu a seguir, por que em cima, junto à residência, uma salva de morteiros anunciava o início do concurso coreográfico, e êle fazia parte do júri. Então a pintalgada e densa coluna das várias músicas e bailados que insofrida se achava a postos, começou montando a ladeira suave do jardim para ir marcialmente desfilar e luzir seus méritos frente ao estrado posto a meio da galeria,—ante a mirada crítica de Maria Mercedes, tôda de branco,—e seguindo num grosso e infindável coleamento, apartados por castas, distintos pelas côres, opostos pelos ritmos, todos cantando, vibrando, saltitando, numa grande coreia dionisíaca que era a encantadora revivescência de algum atrevido fresco pagão, na espontânea impetuosidade e na vida instintiva do seu movimento afirmando a irmanação genésica do homem com a Natureza, das almas com as coisas. Foi primeiro o tango, êsse gracioso hino da lascívia, impregnado de malícia picaresca, uma dança de perdição feita de lânguidos requebros, a um tempo trágicos e sensuais, exprimindo líricamente a conjunção fatal do amor e da morte; depois as corriqueiras vidalitas, acompanhadas a viola e tamboril, crónica leve e sugerente de façanhas guerreiras, de zombeteiros chismes e cómicas aventuras; a seguir, os tristes, lembrando os nossos fados, gemendo um ritmo atormentado e dolorido, quáse religioso, que dá a vaga sensação do mistério, da solidão, do infinito; as jotas e sevillanas no seu saracotear febricitante, a tarantela no seu académico balanceio, o trepák no seu simbolismo ingénuo; e o desenvôlto gato, o mesurado pericón; as baturras, soleares, farandolas, chulas, fandangos... e quantos mais.—Durante horas seguidas, assim na calma benéfica da noite, sob o jôrro delirante dos aplausos e na sua estúrdia ronda aquecendo a fria majestade do deserto, se agitou dançando tôda essa corda guizalhante de rústicas melopeias. E quando já os primeiros alvores da manhã clareavam o horizonte, ainda, na debandada final, a sua interminável cola sonora se via impetuosa e louçã, desparramada a rabejar pelos caminhos.

IX

X

tés dominicais do Plaza, e os aristocráticos cartazes com o elenco do Colón tenorinavam líricas tentações pelas esquinas. Ao longo da Avenida de Mayo, limpa já de ruturas, porêm ciscada a trechos pela chuva outoniça da folhagem dos seus plátanos, várias brigadas de obreiros lidavam regulamentarmente, desdobrando tubagens, firmando plintos, marchetando escudos, aprumando postes, bandeiras, mastaréus, pendurando sanefas de lumes e articulando pórticos de ripado, para as próximas iluminações das festas da Independência. E tornavam a aparecer as equipagens de preço, e pelas ourivezarias e casas de modas cruzavam, em vagarosa importância, as grandes figuras conhecidas. Era la gente bien da grande cidade que, de novo, condescendia em mostrar-se, era um novo ciclo da sua ostentosa vida social a definir-se. Opulências, brilhos, vertigens, intrigas, caprichos, loucuras, traições, amores... Era a lampejante renovação de mais um dêsses embriagadores remolinhos de fortuna, de engano e de prazer em que o aturdido Silveira estava disposto agora a deixar-se envolver, pronta e avassaladoramente.
Ora, justo no dia seguinte, primeira terça-feira do mês, os Wimeyer recebiam. Às 6 da tarde, lá estava pontualmente o Silveira à portita discreta e esguia dêsse modesto rés-do-chão da calle Paraguay. Desta vez a criada, sem hesitar, abriu logo o batente da porta envidraçada, dando afável o passo ao visitante, que se encontrou num escuro e enfadonho hall, de teto envidraçado, onde êle poisou o chapéu e a bengala, passando logo, à esquerda, ao salãosinho da frente, que dava para a rua. Aí, sôbre um coçado sofá, no logar de cerimónia, espapavam-se duas assaz ponderáveis matronas, amplas e obêsas, de negro, com muitos bandós e pérolas, atendidas solícitamente pela dona da casa. E não havia mais senão, um pouco à parte, junto ao piano fechado prudencialmente, duas raparigas vestidas de claro, ambas dum córte igual, em pé e com o exíguo ventre em abandôno à frente, os ombros ladeiros,—cuja frívola atenção Irene e Dolores buscavam maquinalmente prender, mostrando-lhes num convencional agrado um jornal de modas, que as duas delambidas olhavam como por demais, de pálpebras froixas, o longo narizito afilando enjoado no rosto impertinente.
Fez naturalmente sensação a imprevista entrada do Silveira, cortando assim de improviso a sorna frialdade do pequeno círculo feminino. D. Catalina festejou-o muito, dando-lhe com marcada alegria as bôas-vindas, e logo, com o seu ar repousado e lânguido de sempre, apresentando-o às duas bisarmais amigas. A seguir, o Silveira dirigiu-se a cortejar o apartado grupo das quatro jovens, que lhe acenavam com sorrisos; e então, ao defrontar-se com Irene, estremeceu e sentiu que lhe banhava a espinha um frio de estranheza. Olhava, olhava e não queria crêr... Estava mais alta, mais dura e mais forte, engrossára deplorávelmente. Parecia-lhe outra, desagradava-lhe, desconhecia-a... Já D. Catalina o chamava afectuosamente, ageitando-lhe cadeira a seu lado, e o desencantado Silveira não conseguia confortar-se do seu desgôsto nem repôr-se do seu espanto. Sofria a mais amarga e dolorosa decepção! Que era feito então dessa alada e fugidía figura de há dois meses antes? que lance cruel do azar ou que tirania estúpida de raça lhe haviam assim desfeito o encanto ideal dessa visão bemdita, durante a viagem?... Êle estava a ver! perdera a sua linha fidalga, aquele soberbo ar de palmeira imperial, na sua aérea esbeltez, na sua altívola frescura... Tinha agora uns ombros quadrados e roliços, um pulso de cavador, uma anca rotundamente animal, espatinados os seios, a pele ardída, as feições empastadas e sob o queixo fazia refêgos. Como fôra aquilo, em tam pouco tempo?!
Entretanto, D. Catalina, sem poder dar-se conta desta arreliadora surprêsa do Silveira, carinhosamente interpelava-o:—Como tinha êle passado durante todo aquele tempo? E Buenos-Aires que lhe parecia?—Impaciente e distraído, o Silveira arrastava quaisquer vagas banalidades. E logo mui dulcerosa a mãe Wimeyer:—Que êles é que nunca poderiam esquecer tam bom amigo. Falavam nêle todos os dias... E que haviam recêm-chegado. Dolores estivera com o pai em Salta. Irene, não! essa era mais regalona, acompanhára a mãe no Tigre.
—Nunca o vimos por lá...—aqui acudiu naturalmente Irene.—Todos os dias à espera!
Com o ar humilde e contrito, quáse vèxado, o Silveira balbuciou—que, com efeito, confessava o seu pecado... mas nunca tinha ido ao Tigre.
—Como!? E ainda o diz?—reprimendou, a fazer de agastada, a doutoral mãe de Irene.—Não podemos perdoar-lhe semelhante falta! A nossa melhor estância de verão... Nem a Suíça... Dito por todos!
—O Tigre é lindo!—acudiu com ênfase uma das paparretas de junto do piano, aproximando-se.
—A minha filha deu-se muito bem por lá...—tornou D. Catalina.—Erguia-se muito cedo, todo o dia ao ar livre... pescava, montava a cavalo, remava muito. Não vê como lhe fez bem?
Neste preciso momento, Irene aproximava-se do Silveira e vinha oferecer-lhe uma chávena de chá, còrando ligeiramente, com a sua habitual singeleza. E posta assim, natural e simples, diante dêle, revelava numa irrecusável eloqùência êsse subito e passivo avatar burguês da sua figura.
Não era nada já a esquiva e patrícia silhueta ideal do Almeria; antes, entre tantos, um rebarbativo exemplar mais de fêmea prolífica e segura. Tomando enguiçado da bandejita a chávena, o Silveira não podia no íntimo perdoar-lhe... Os seus olhos agora repeliam-na, o seu coração repudiava-a. Perdera para êle todo o interêsse. Sentia-se roubado.
Contudo, atencioso e galante por instinto, dos lábios frios ia deixando, com importante pausa e um pouco à tôa, escapar seus lisonjeiros comentários [sôbre] a sociedade e a vida porteña, frisando a tempo a sua impressão e déstramente sublinhando de admirativas frases o tiroteio vago de perguntas com que o pequeno círculo feminino o assediava,—tôdas agora em interessado grupo rodeando-o, e as raparigas já com desabusada familiaridade depois que souberam que êle não era casado.
Foi quando pai Wimeyer entrou, e ao divisar o Silveira, os seus olhitos claros chisparam num guloso raio de alegria. Vinha invariávelmente todo de negro, e sempre rosado, gordote, apesar de bastante mais avelhentado. E logo, com o seu ar didático e afável, adiantando-se:
—Oh, o nosso bom e simpático português por cá! Finalmente... Já me tardava. Quanto gôsto eu tenho!
O Silveira teve um mudo calafrio de terror; e, num aberto desvanecimento, D. Catalina para o marido:
—Diz que gosta imenso de Buenos-Aires.
—Promete radicar-se na Argentina,—acrescentou Irene.
E dogmaticamente o dr. Justus:
—É o que deve fazer! Em estando mais vinculado aqui, verá como se sente bem. A Argentina é um país cativante, remunerador. Tem o meu exemplo.
—E então que pode encontrar por'í uma linda noiva...—lisonjeira interveio uma das arcáicas bisarmas do sofá, em pancaditas suaves de regalo sôbre o ventre.
—Encontra com certeza!—a mãe Wimeyer sublinhou, num risinho inteligente.
—E em todo o caso—tornou com dulcerosa intimativa o dr. Justus—as nossas prometidas lições que não esqueçam.
—Quando vossa excelência quiser...—balbuciou o Silveira com esfôrço, ante a estopante ameaça empalidecendo.
—Não creia que a ideia inicial seja minha. Não. Tem até graça... sugeriu-ma um vélho compatriota seu, filho da India, o dr. Gomes, que eu em Lisboa conheci casualmente. Que homem talentoso, raro, profundo, subtil! Era uma figura estranha e insinuante, com os seus agudos olhos de vidente, as suas atitudes estáticas de fakir, a sua cútis de bronze oxidado, a sua longa barba messiânica. Habitávamos a mesma pensão, e aí sôbre coisas da alma e do espírito nós caturrávamos longamente. E vai êle então, que era um tuberculoso irremissível, ao morrer legou-me um precioso manuscrito garatujado de números, fórmulas, símbolos e chavetas complicadas, que era a embrionária génese do seu plano. Uma teoria genial! Tenho que pô-la a claro.
—Pois sim...—atalhou benevolente a mãe Wimeyer,—porêm, deves compreender que o sr. Silveira terá coisas mais agradáveis que o interessem. Na sua idade...
—Ainda um rapaz...—protectora reforçou a dama suave do regalo.
—Há tempo p'ra tudo. Não é certo?
—Como não?—maquinalmente o Silveira aquiesceu.
E como neste momento uma das grossas figuras do sofá se erguesse para sair, êle despediu-se tambêm, com a promessa de voltar pronto, e deu-se pressa em alcançar a rua. Ansiava por ver-se a salvo... dali bem longe. Ia na resoluta disposição de tam cedo não voltar. Desta aziaga mansão de desencanto e horror concorriam simultâneamente a distanciá-lo—a birra pedagógica do pai e o engrossamento prosaico da filha.
Chegado ao hotel, o Silveira encontrou um cartão do conde Améglio, com duas linhas amáveis reclamando a sua presença.—Pedia-lhe que passasse pelo local da sua exposição, calle Viamonte, e iriam depois a casa os dois tomar chá, com a condessa.—A primeira impressão foi de encantado alvorôço. Num sugestivo instante, o seu insatisfeito apetite evocou, reviu e enroscou-se à deliciosa imagem da irlandesa, fazendo-lhe saltar nos nervos chispas lúbricas de desejo. Porêm, ao mesmo tempo quáse, chamavam-no ao telefone. Era Jorge Saavedra que lhe anunciava o regresso, dêle e da família, do campo, rogando-lhe por igual que aparecesse, se, antes, êle mesmo não fôsse visitá-lo.—Finalmente... Ainda bem!—Nova e mais deliciosa impressão lhe fez correr, pelos sentidos em alarme, a grata e inesperada notícia.—Sim! porque a volta dos Saavedras significava que teria vindo tambêm Maria Mercedes. E êle morria por tornar a vê-la... oh, a esta de preferência a tudo o mais! Era um vivo e complicado demónio que, pela fórma mais adorávelmente despótica, se lhe instalára na vontade e lhe monopolizára a existência. Pois êle poderia lá viver sem ela, ali, próximos e familiares os dois dentro da mesma cidade, sob o mesmo azul carinhoso, no mesmo ambiente perturbador, ao mesmo contacto amigo! E, depois, tinha contas que ajustar com ela... Havia uma deprimente situação que liquidar entre os seus brios varonis e essa criatura enigmática e divina. Assim duplamente lho impunham o seu coração machucado e o seu amor-próprio ferido.
Na tarde seguinte, querendo iniciar a sua galante digressão pelo mais fácil, tomou o Silveira um auto e rodou para Viamonte, onde entrou num pequenino salão térreo, decorado com ricos móveis Renascença, pelas paredes verdoengas um profuso mostruário de telas de preço, porêm de gente deplorávelmente vazio. Na desconfortante solidão daquela fracassada armadilha artística apenas, lenta e merencóreamente, se movia o dono da casa,—uma baça figura loira, de olhos claros de porcelana, barbicha em ponta e lunetas, e o cabotino Améglio, astutamente cingido ao crítico de arte de La Nación, a quem com loquaz intimativa, num atropelado desbarato de grossos gestos e frases feitas, buscava alarvemente encaminhar a atenção e subornar o critério. E depois que êste partiu, o mesmo conde, agora absolutamente só com o Silveira, e no íntimo vèxado por aquela evidenciação patente do seu rotundo insucesso, contudo assumia atitudes de importância, e num desvanecido ar superior, os olhos negligentes na face cínica, passando a mão pelo cabelo, atribuía, fátuo e altaneiro, o facto a um mesquinho concurso de causas bem inferiores ao seu alto propósito. E enumerava com desdêm,—o pouco adiantado da estação, a crise, a incultura geral, o retraímento invejoso dos artistas, a hostilidade surda da imprensa.
Passado pouco tempo, e ninguem havendo a atender, os dois retiraram e dirigiram-se ao pensionato pelintra que os Di Paoli ocupavam, na Praça do Congresso. Aí, das paredes roçadas e encardidas, quáse totalmente nuas, apenas agora pendiam, destacando sôbre uma medíocre miuçalha industrial, uma pequena paìsagem de realce e o bárbaro retrato da condessa. Esta acolheu o Silveira naturalmente, com um risinho afável mas sem calor, sem a mínima demonstração expansiva, com uma frieza exasperante, fechada outra vez naquela expressão calma, alheada e infantil que a bordo, era para o insofrido galã o maior encanto e o melhor estímulo. Falaram ligeiramente sôbre uma quantidade de coisas indiferentes e banais, o Silveira fez o pitoresco relato da sua estada no campo; e por fim, como o diálogo voltasse naturalmente a recair sôbre a digressão artística do conde e o seu resultado económico, êste num abandôno de familiar confiança, manifestou ao amigo,—que, devia dizer-lhe com franqueza, as coisas não lhe corriam nada bem... Estava por completo desalentado, não tinha vendido nada! Parecia-lhe aquilo um país de pedantes e impostores.—E numa autorevelação inconsciente:—Tudo puro charlatanismo. Parada, parada, conforme êles diziam... porêm no fundo nada de quantioso, de firme, de sólido. Queria êle saber?... Êsse belo Corot que êle ali havia visto, mandára-o, a pedido do milionário Spantuzzi, o célebre coleccionador, a casa dêle, para o estudar devagar, para se inteirar melhor, para ver...—Cruzava indignado os braços.—Isto havia dois meses. O tempo fôra passando... Era pr'a considerá-lo vendido, não era verdade?... Pois que agora lhe devolvera o quadro, com uma carta muito sêca, dizendo que afinal Corot não era dos pintores da sua predilecção, e que já tinha três, e que por isso resolvera não comprar...
Abria numa irritação os braços, e sacudindo a cabeça com dignidade e erguendo-se, acremente:
—E tudo o mais assim! Há três meses, apenas, em Buenos-Aires e já gastei quinze mil francos. E lucros nenhuns... Um pavor! Em má hora vim aqui... Que tremenda desilusão! Vou retirar breve seguramente.
Deplorando-o com sinceridade o Silveira, e num instintivo terror aproximando a sua sorte da do conde, tentava confortá-lo. Porêm, súbito, êste, aplacado, risonho e com afável singeleza, a mão interesseira estendida à parede:
—O seu quadrito ali está... P'ra onde quere que lho mande?
O Silveira estremeceu. Nem êle se lembrava já... E contudo hão havia meio, agora, de furtar-se decorosamente àquela polida insinuação, que para o seu carácter valia uma intimação formal. Que enormidade iria êle cobrar-lhe? Alguns dois ou três mil pêsos, estava a ver... Um rombo muito sofrível no seu já tam reduzido capital, um saque não previsto que lhe desequilibrava o orçamento. E é que não havia remédio!... Numa retracção íntima de terror, êle increpava-se duramente pela sua imbecilidade, dava ao diabo o azarento acaso dêste conhecimento... Porêm, breve, a sua proverbial imprevisão a fazer-lhe bailar no espírito aquela suculenta miragem das abóboras e dos melões do lote n.º 13. Providencial compensação! Que importava o resto?... Ele poderia bem, já agora, ajudar êste pobre diabo e burlar-se da condessa... que a sua brilhante e áurea desforra estava certa, depois. Questão de tempo... deixar correr!
E com marcada sobranceria, ao despedir-se, recomendou então ao conde, sem discutir o preço, que lhe mandasse o quadrito ao hotel, com a conta, no dia seguinte.
Queria ainda naquela tarde encontrar-se com Jorge. Baldado empenho porêm, pelo momento; pois que, tendo chegado ao hotel e telefonado sucessivamente para casa dêle, para o Circulo de Armas, para o Jockey-Club e para o Plaza, de parte nenhuma lhe davam notícia dêle nem sabiam dizer-lhe onde porventura se poderia encontrar.—Estaria p'r'aí talvez na sessão vermouth dalgum teatro barato. Mas qual?... Fôssem lá saber!—Ficaria o encontro então para a noite, sôbre o jantar. Disposto pacientemente a esperar, o Silveira correu a coluna de anúncios dos espectáculos, na Prensa e viu que naquela noite havia no Palace Théâtre uma função em benefício de La Caja Dotal de Obreras, pia instituìção patrocinada pelas damas da primeira sociedade. Lá estaria certo o rapaz. E possívelmente Maria Mercedes...
Alentado por êste desejo e enardecido por esta esperança, logo que acabou de comer, o Silveira saíu. Mal havia dado porêm, confiado e quente, os primeiros passos, e logo à esquina da cuadra seguinte, ei-lo que se defronta súbito com Luísa... a qual buscou simular um encontro de acaso, mas que, tímida e inexorável, mais uma vez o estava dali espiando, seguramente.
O Silveira teve um claro sacudimento de arrelia, e brusco e hostíl, plantado com dureza frente à sua adorável e simples amiguita, fitando-a com império:
—Que fazes tu aqui!? que quere isto dizer?...—E como a atónita rapariga se mantivesse muda, numa compungida atitude de assombro, os olhos baixos, a fria prega dos lábios transida de amargura, êle na mesma clara dureza tomou:—Não são horas e mais que horas de recolheres a casa? Como vais agora entrar?
Luísa ergueu para o seu áspero censor os grandes olhos, repassados de piedade, e após uns segundos de embaraço, naturalmente:
Yo cambié de domicilio.
—O quê!? Deixaste essa bôa casa de Tucumán? Que fizeste tu por lá?
Yo nada, señor.
—Puseram-te na rua?
Ao golpe achincalhante da interpelação, a pobre Luísa fez-se branca, torceu-se numa contorsão aflitiva, e logo, reagindo, a protestar com suavidade, as mãos trémulas em magoada cruz sôbre o peito:
Nada tienen que reprocharme alli, se lo juro! Al contrario, las buenas madres eran bien amigas mias.
—Nesse caso, então?...
Nova pausa, de eloqùente silêncio agora, e logo ela, còrando, a segredar docemente:
Es que yo no podia pasar asi todas las noches, sin verlo...
—Com efeito!—exclamou o Silveira, numa fatuìdade sorridente.
La culpa es toda suya, ya vé...
Insensível porêm o Silveira à voluntária e total abdicação desta alma:
—De sorte que te encontras agora aqui assim à tuna, sem uma ocupação, sem família, sem casa nem abrigo?
Yo no le pido nada.
—Pois, meu rico amor, se vinhas co'a idéa de entreter a noite comigo, perdeste o teu tempo.—E como a desconfortada rapariga o envolvesse numa fundente expressão de carinho e ensaiasse um tímido gesto suplicante:—Não! não! Vou com pressa. Tenho um compromisso. Palavra!
Que compromiso mayor que el nuestro?
—És tôla!
E no mesmo instante o Silveira, duro sempre e insensível, jogado ao ímpeto do seu cobarde egoísmo, voltou costas e seguiu caminho, deixando a sua amantesita infeliz pregada e fria como uma estátua, os lábios lívidos, tolhida de dôr e de vergonha, imobilizada de pasmo e de tristeza.
Cortando logo para Corrientes, o arreliado Silveira caminhava rápido e, a intervalos, voltava-se, a inquirir se porventura, e a despeito da sua formal negativa, êle não seria seguido. Enfastiou-o de-véras o episódio. Incendeu-o num furor pueril, que lhe punha asas nos pés, a insistência piégas da rapariga.—Tam longe êle estava agora de semelhante coisa!—Três dias havia que não sabia dela, buscando insensivelmente furtar-se e fechar impunemente o ciclo de mais esta fugaz aventura com o sêlo cómodo do olvido.—Por que era uma maçada, no fim de contas, a peganhice infantil dessa seresma! Bôa rapariga, não havia dúvida... Mas tambêm as môças que êle, na sua terra, tivera a sorte de arrastar a uma torpêza igual, eram bôas como esta... e mais dóceis, mais razoáveis. Sabiam medir distâncias, compreendiam a situação. A breve trecho, eram elas as primeiras a anular-se... voltavam ao que eram e não o importunavam mais, conformavam-se sem lamúrias e deixavam-no em descanso. Ao passo que agora esta carraça... Em má hora lhe tinha acudido!—E a biltraria recôndita do seu ânimo fortalecia-se. Erguia a cabeça com jubiloso arreganho e caminhava mais apressado. Porêm a espaços, não obstante, se num claro de grata recordação a sua alma evocava a cândida imagem de Luísa, crescia-lhe súbito no íntimo uma onda de condoída ternura, que o envolvia, que o abrandava, que o fazia arrepender-se e parar no caminho. E êle revia então, em num furor pueril, que lhe punha asas nos pés, a insistência piégas da rapariga.—Tam longe êle estava agora de semelhante coisa!—Três dias havia que não sabia dela, buscando insensivelmente furtar-se e fechar impunemente o ciclo de mais esta fugaz aventura com o sêlo cómodo do olvido.—Por que era uma maçada, no fim de contas, a peganhice infantil dessa seresma! Bôa rapariga, não havia dúvida... Mas tambêm as môças que êle, na sua terra, tivera a sorte de arrastar a uma torpêza igual, eram bôas como esta... e mais dóceis, mais razoáveis. Sabiam medir distâncias, compreendiam a situação. A breve trecho, eram elas as primeiras a anular-se... voltavam ao que eram e não o importunavam mais, conformavam-se sem lamúrias e deixavam-no em descanso. Ao passo que agora esta carraça... Em má hora lhe tinha acudido!—E a biltraria recôndita do seu ânimo fortalecia-se. Erguia a cabeça com jubiloso arreganho e caminhava mais apressado. Porêm a espaços, não obstante, se num claro de grata recordação a sua alma evocava a cândida imagem de Luísa, crescia-lhe súbito no íntimo uma onda de condoída ternura, que o envolvia, que o abrandava, que o fazia arrepender-se e parar no caminho. E êle revia então, em todo o seu incondicional abandôno, em tôda a sua rústica simpleza, essa esplêndida flôr do campo, a tinta ardente da sua epiderme, o alçapão de desejos que era a sua bôca, o lume de paixão espirrante dos seus olhos cheios de fogo... e pensava.—Talvez que esta sentisse mais e melhor que as outras... Valeria mais que tôdas!
Esta quáse palpável evidência perturbava-o. Já perdia a noção exacta do rumo que levava. Entrou no vestíbulo do Royal, tomando-o por o Palace Théâtre; e por êste passou desgarradamente, uma e duas vezes, antes de reconhecê-lo. Pesava-lhe na alma essa obsidiante luta interior entre o apiedado alarme da sua consciência e a farta repulsão do seu desejo......

NOTA FINAL

Abel Botelho, o artista ilustre que às letras do seu país legou tantas páginas de inspiração e de beleza, não teve tempo de concluir o romance Amor Crioulo, escrito longe da sua terra e da sua gente mas sempre com a imaginação e os olhos postos na Pátria distante. A morte colheu-o de súbito, paralisando para sempre a mão augusta que tam activamente lidou e a lúcida inteligência que nunca se fatigou de combater, durante meio século de esfôrço permanente e fecundo, para atingir um ideal de perfeição suprema.
Analista subtil do coração humano, psicólogo, moralista pelo castigo áspero do sarcasmo, Abel Botelho desceu a profundidades poucas vezes exploradas antes dêle, tentando imprimir uma utilidade social à sua arte. A vasta obra que nos deixou e em que a sua alta personalidade se perpetuará, tem de ser tomada como uma lição, mesmo nos seus aspectos de mais cru realismo e na sua mais cruel expressão—que fazem dela um flagrante documento da época e do meio em que foi elaborada. Vista em conjunto—que é como deve ser julgada pelos espíritos imparciais—há-de necessáriamente reconhecer-se-lhe um mérito estético e moral.
Os derradeiros capítulos que compôs, com tanta ternura e tanto relêvo artístico, foram estes do Amor Crioulo, que os seus Editores hoje lançam aos alaridos da publicidade para que nada se perca de tudo quanto o romancista excelso produziu. O livro ficou incompleto. Todas as pacientes buscas encetadas, para se encontrar a parte final, em Lisboa, onde Abel Botelho tinha a sua casa, e em Buenos-Ayres, onde êle era o representante diplomático do Governo da Rèpública Portuguesa, foram infrutíferas. A doença inesperada interrompêra, certamente, o trabalho do escritor insigne, que a morte não tardaria a eliminar da comédia da existência. A acção do romance estava em pleno desenvolvimento quando o braço do seu autor caíu desfalecido. Adivinha-se, no entanto, o desfecho do Amor Crioulo pela leitura dos coloridos, nervosos e movimentados episódios em que a sua tessitura se desenha vigorosamente e o conflito sentimental se estabelece.
Publicando-o tal como lhes foi entregue, os Editores contribuem com novos e valiosos subsídios para o estudo e para a crítica da individualidade de Abel Botelho que, na moderna literatura nacional, se afirmou com nobre superioridade. A Escola realista entre nós poucas figuras mais elevadas possue. Abel Botelho era um pintor por vastas massas, dispondo duma paleta muito rica, um minucioso observador da vida que à sua volta desenrolava maravilhosos scenários e que êle reproduzia com surpreendente fidelidade e um justo conhecimento dos tons e dos valores.
Foi, em todo o caso, lamentável que não terminasse êste volume póstumo—porventura aquele em que pôs mais devotado carinho, mais emoção, mais orgulho de raça, e que, mesmo fragmentado, o denuncia como uma entidade representativa. Nem ao menos pôde corrigir as provas em que os escritores da sua rara estírpe dão sempre os últimos retoques de graça, de harmonia, de equilíbrio e de luz. A elevada honra dessa tarefa foi-me confiada a mim, procurando eu desempenhá-la o melhor que me foi possível e suprindo pela vontade de acertar o que me falta em competência. Qualquer êrro que no texto apareça terá, portanto, de me ser imputado, e não ao escritor modelar que tanto dignificou a sua nacionalidade nos luminosos domínios do pensamento e da arte.

Pôrto, 28 de julho de 1919.

João Grave.

Lista de erros corrigidos

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[#pág. 249]estê...êste
[#pág. 253]próprior...próprio
[#pág. 337]Silveíra...Silveira
[#pág. 377]sóbre...sôbre

A pontuação em alguns casos foi substituída (pontos por vírgulas e dois pontos por ponto&vígula, e vice-versa), conforme se verificava errada a sua utilização.