INDICE CHRONOLOGICO DOS FACTOS MAIS NOTAVEIS DA HISTORIA DO BRASIL DESDE SEU DESCOBRIMENTO EM 1500 ATÉ 1849

SEGUIDO DE UM SUCCINTO ESBOÇO DO ESTADO DO PAIZ AO FINDAR O ANNO DE 1849

O. D. C.

AO ILLM. E EXM. SNR. CONSELHEIRO

AGOSTINHO MARQUES PERDIGÃO MALHEIRO

Dignissimo Membro do Supremo Tribunal de Justiça do Imperio, Fidalgo Cavalleiro da Casa Imperial, Commendador da Ordem de Christo, Membro honorario do Instituto Historico e Geographico Brasileiro, &c. &c. &c.

POR SEU FILHO

AGOSTINHO MARQUES PERDIGÃO MALHEIRO

Bacharel em Letras pelo Collegio de Pedro II, e Doutor em Sciencias Juridicas e Sociaes pela Academia de S. Paulo.

RIO DE JANEIRO
TYPOGRAPHIA DE FRANCISCO DE PAULA BRITO
Praça da Constituição N. 64.
1850.


INDICE.

[TITULO I.--SECULO XVI.]

[TITULO II.--SECULO XVII.]

[TITULO III.--SECULO XVIII.]

[TITULO IV.--SECULO XIX.]

[CAPITULO I. 1800--1822.]

[CAPITULO II. 1822--1831.]

[CAPITULO III. 1831--1840.]

[CAPITULO IV. 1840--1849.]

APPENDICE.


A MEU PAI.

Dignai-vos acceitar a exigua offerta que em pública e solemne prova de minha eterna e sincera gratidão ouso fazer-vos.

Tudo vos devo, a vida, a educação, a posição que ora tenho na sociedade.

E vós não ignoraes os sacrificios que essa educação vos tem custado.

Acceitando a insignificante offerenda que vos faço, permitti que com o vosso nome eu a ampare e resguarde, assim como vós me amparastes desde a infancia até a actualidade.

A producção que vêdes constitue as primicias da seára que com tanto zelo fizestes cultivar. Mais um titulo para vos ser ella exclusivamente offerecida.

Não possuo cabedaes, além da educação que me déstes; della procurei colher um fructo que vos offertasse em signal de meu reconhecimento.

Eil-o; acceitai-o e protegei-o, que eu serei feliz.

Respeitoso beija as vossas mãos

Vosso filho e amigo

Dr. Agostinho Marques Perdigão Malheiro.

AO LEITOR.

Em o Jornal do Commercio de 13 do fevereiro do anno proximo passado, fizemos publicar o seguinte:

ATLAS CHRONOLOGICO DOS FACTOS MAIS NOTAVEIS DA HISTORIA DO BRASIL DESDE 1500 ATÉ 1848, INCLUSIVE.

«Tal he a primeira producção que pretendemos dar ao prélo... A obra constará de sete mappas:--No 1.º se acharão os factos mais memoraveis da historia do Brazil no seculo dezeseis; no 2.º, os do seculo dezesete; no 3.º, os do seculo dezoito. Os quatro ultimos darão os do seculo dezenove na ordem seguinte:--o 1.º, desde 1800 a 1822; o 2.º, desde 1822 a 1831; o 3.º, desde 1831 a 1840; e o 4.º, desde 1840 a 1848.

«Foi este o systema mais claro e succinto que excogitámos de escrever a historia com algum proveito para os que a lerem; porque d'este modo o leitor terá diante dos olhos em um só quadro a narração historica dos factos que mais avultam e sobresahem, e que não devem ser ignorados de Brasileiro algum, sobretudo d'aquelles que se consagrão á vida litteraria, politica, &c.

«A base do nosso methodo de escrever he, como se vê, a divisão chronologica em seculos. Assim dividimos a historia do Brazil em quatro seculos:--A dos tres primeiros, isto he, dos seculos dezeseis, dezesete, e dezoito, pôde ser escripta cada uma em um só mappa; de maneira que no 1.º mappa o leitor tem debaixo dos olhos o que de mais notavel se passou no seculo dezeseis; do mesmo modo no 2.º mappa o do seculo dezesete; e no 3.º, o do seculo dezoito.

«Mas para o seculo dezenove, não sendo possivel escrever todos os factos em um só mappa, foi indispensavel fazer divisões. Para esta subdivisão tomámos por base as épocas historicas. Assim, comprehendendo os quatro ultimos mappas a historia desde 1800 a 1848, o 1.º começa em 1800 e termina em meiados de 1822; o 2.º começa em 7 de Setembro de 1822 (época gloriosa da proclamação da Independencia, em virtude da qual o Brasil se constituio Imperio livre sob o governo de seu magnanimo fundador o Senhor D. Pedro I), e termina em 7 de Abril de 1831 (época em que teve lugar a abdicação, findando d'este modo o governo do primeiro Imperador); o 3.º começa no mesmo dia 7 de Abril (época em que pela abdicação ficou o Brasil sob o governo de uma regencia em nome do segundo Imperador), e termina em 23 de Julho de 1840 (época em que pela proclamação da maioridade do mesmo Senhor cessou a Regencia); o 4.º, finalmente, começa em 23 de Julho de 1840 (época em que começou o governo do segundo Imperador o Senhor D. Pedro II), e termina em 31 de Dezembro de 1848.

«Por esta exposição vê-se quanto tempo e trabalho deve necessariamente ter consumido uma obra d'estas. E com effeito, não nos temos poupado a fadigas para apresentar ao publico uma producção a mais exacta possivel, já a respeito dos factos em si, já a respeito das causas que lhes derão origem, e resultados dos mesmos factos, já finalmente a respeito da época e lugar em que se elles passarão; porque não he bastante saber que tal facto existio: he preciso, não só remontar á philosophia da historia, isto he, indagar a razão da existencia do facto, suas causas, sua ligação com os que o precederam, bem como suas consequencias; mas tambem classifical-o competentemente em relação ao tempo e ao lugar, isto he, torna-se indispensavel o auxilio da Geographia e da Chronologia, duas irmãs gemeas e inseparaveis da Historia.

«Sem estas condições, inutil he o conhecimento abstracto dos factos historicos por mais importantes e interessantes que sejão; bem como sem a Philosophia e Critica, he caminhar com pouca segurança na investigação das verdades historicas.

«Temos empregado todas as nossas forças para satisfazer o melhor possivel a esta nossa intenção; e para isso havemos revolvido as obras dos melhores historiadores, as collecções de leis, os documentos authenticos, os roteiros e viagens, os periodicos litterarios, a Arte de verificar as datas; emfim, um sem numero de obras, sem as quaes impossivel he dar um só passo em hum trabalho d'esta natureza. E quem se tiver dado ao estudo da historia concordará em tudo quanto hemos dito.

«Por conseguinte, si, apezar disto, o nosso trabalho contiver defeitos e lacunas (o que irremediavelmente ha de acontecer, pois que não ha cousa alguma, por mais bem elaborada, que sáia perfeita das mãos de um ente por sua natureza imperfeito, qual o homem), desde já declaramos sujeitar-nos ás observações da boa critica, d'essa que procura esclarecer os factos, apresentar a verdade, e não obscurecel-os para d'est'arte trazer a confusão e illudir as gerações futuras; e protestamos tomal-as na devida consideração, ou para correcção nossa e melhor instrucção, ou para as combatermos, caso tenhamos fundamento em persistir na opinião por nós seguida na mencionada obra.

«Nós não nos contentamos unicamente com exarar os factos; damos tambem a razão de sua existencia, isto he, as causas que os originárão, e bem assim os seus resultados ou consequencias. De espaço em espaço, em breves parenthesis, damos noticia do estado do Brazil em differentes épocas, para assim ir o leitor seguindo a marcha progressiva ou regressiva do paiz nos differentes tempos. Alêm d'isso, offerecemos tambem entre parenthesis muitas observações, quer a respeito dos factos, quer das pessoas que n'elles representárão, quer das suas causas e tempo em que se passárão; porque, havendo muita cousa controversa, indispensavel era dar o fundamento do nosso dizer. Por fim terminará a obra com um mui breve e succinto esboço do estado do Brazil ao findar o anno de 1848.

«Eis em poucas palavras o plano da obra que pela primeira vez tencionamos submetter ao juizo publico; a qual, pela exposição que temos feito, se conhece não ser huma Historia Geral do Brazil (para o que serião necessarios muitos volumes), mas tão sómente dos factos mais notaveis d'ella nas épocas indicadas, desde o seu descobrimento.»

A obra que actualmente temos a honra de dar á luz publica he no fundo a mesma que haviamos promettido no annuncio acima transcripto, si bem que modificada no titulo e na fórma.

O systema que haviamos adoptado para sua publicação era imitativo do de Le Sage, cuja superior vantagem não soffre contestação para aquelles que preferem a solidez e a realidade á superficialidade acobertada com pomposas expressões.

Já grande parte se achava typographicamente composta, quando circumstancias imprevistas, sobretudo a de não se achar em uma só parte d'esta grande Capital o papel cartonado proprio para semelhante genero de impressão, e não querermos demorar indefinidamente a publicação promettida, á espera que viesse da Europa o papel que se mandasse buscar, fizerão-nos de accordo com o Impressor destruir tudo quanto estava feito, e dar nova fórma e novo titulo.

Eis porque fizemos publicar a obra na fórma ordinaria, desprezando a dos mappas (que haviamos promettido), e substituimos o titulo pelo que ora tem de Indice Chronologico, etc.

Sirvão portanto estas considerações de publica satisfação de huma falta absolutamente involuntaria, que muito nos têm magoado e desgostado, como he facil comprehender.

Em compensação encontrará o leitor, alêm do promettido, mais a historia do anno passado (1849), e o estado do Brazil ao findar esse anno e entrar o em que nos achamos de 1850.

E, como graves factos se hão passado até o meiado do corrente anno (data em que isto escrevemos), para satisfazermos a curiosidade do leitor, que quizer hir acompanhando a marcha successiva dos acontecimentos notaveis de nossa Historia Contemporanea, aqui os apresentamos em mui succinta exposição.

Nas relações internas:--A sentidissima morte do Principe Imperial o Senhor D. Pedro Affonso (10 de Janeiro); a pacificação de Pernambuco pela dissolução das forças insurgentes acoutadas nas mattas d'Agua-Preta; as questões suscitadas em consequencia de recusarem alguns Chefes acceitar as amnistias condicionaes que lhes forão concedidas; a peste por quasí todo o littoral do Brazil, denominada febre amarella, e que fez milhares de victimas; o procedimento do Barão de Jacuhy e sua briosa pertinacia em continuar no seu intento contra a Banda Oriental, até que se dissolverão voluntariamente suas forças, e elle se apresentou em Porto-Alegre; a sancção e publicação do Codigo Commercial Brazileiro, que será dado á execução de 1.º de Janeiro do anno proximo futuro em diante; a agitação dos espiritos por causa dos factos praticados pelo Cruzeiro Inglez, as discussões pela imprensa e na tribuna parlamentar a que elles tem dado lugar (Junho e Julho): eis os factos que mais avultão.

Nas relações externas:--As complicações em que nos achamos no Sul do Imperio pelos factos do Barão de Jacuhy, haver este transposto o Quarahim, e em territorio estrangeiro praticado actos de guerra; as reclamações ao Gabinete de Paris e ao Governador de Cayenna sobre o apparecimento de navios e forças Francezas no lago Amapá no N. do Imperio; as repetidas affrontas e insultos que temos soffrido da Grã-Bretanha, a qual tem continuado a abusar com o seu despotismo e insolencia proverbiaes, desprezando todos os principios sagrados do Direito Internacional, escarnecido do nosso pavilhão, affrontado todos os Poderes do Estado, e violado impunemente os nossos direitos soberanos, a honra e dignidade nacional: eis os factos mais salientes.

A maior questão da actualidade é por sem duvida a de nossas relações com a Inglaterra.

O Cruzeiro Inglez acha-se autorizado pelo Governo da Grã-Bretanha, a cuja testa se acha Lord Palmerston, para percorrer os nossos mares territoriaes, entrar nos nossos portos, e em qualquer parte que seja proceder á vizita e busca nos navios mercantes que lhe parecer, aprizional-os, e remettel-os para Santa Helena, ou incendiar ou metter a pique!

Elle o tem feito; e mais ainda!

E isto em contravenção de todos os principios, em contravenção da Convenção de 1826, em contravenção mesmo do famoso bill de 8 de Agosto de 1845!

E qual a causa? A continuação do trafico de Africanos, existir em vigor o Art. 1.º do Tratado de 23 de Novembro de 1826, e se ter o Governo do Brazil, desde que cessarão em 1845 os Tratados que estabelecião o modo de realisar esse solemne compromisso, recusado sempre chegar a hum accordo com a Grã-Bretanha a tal respeito.

Huma duzia de traficantes (que pela maior parte não são Brazileiros), insaciaveis de ouro, embora seja elle adquirido pelos meios mais infames, vís e criminosos, tem-nos feito passar pelos vexames que ora nos opprimem, pela vergonha e ignominia de nos vermos assim atrozmente injuriados e offendidos no que ha de mais melindroso, em quanto elles folgão e riem no meio do lodaçal de suas riquezas adquiridas pelo trafico, pela destruição da liberdade dos Africanos, pela venda de carne humana! E o que mais enche de indignação he que muitos d'elles são cobertos de condecorações e honras (que só devião brilhar em peitos respeitadores das leis naturaes, divinas e humanas); e rodeados de prestigio na sociedade pela influencia do seu ouro!

Basta. Ao Governo cumpre fazer-nos sahir da gravissima situação em que nos achamos, do modo que mais condigno fôr com os nossos interesses, direitos e honra.

Rio de Janeiro, 14 de Julho de 1850.

O Autor.

TITULO I.

SECULO XVI.

1500.

Reinando em Portugal El-Rei D. Manoel, parte de Lisboa huma esquadrilha sob o commando de Pedro Alvares Cabral com destino á India, cujo caminho pelo Cabo Tormentorio ou de Boa-Esperança havia sido descoberto por Bartholomeo Dias e Vasco da Gama; porém obrigado a descambar para O. afim de desviar-se das cóstas, é acossado pelos ventos e impellido cada vez mais para este rumo. Entregue assim á mercê da Providencia, avista elle terras da America Meridional em 22 de Abril. (Muito divergem os Historiadores sobre o dia do descobrimento do Brasil; porém a opinião mais geralmente seguida, ao menos até certa época, foi a de Ozorio, Barros, e outros que assignalão a este acontecimento o dia 24 de Abril, fundados talvez na relação de um piloto que vinha nesta expedição e por isso testemunha ocular. Nós porém assignalamos o dia 22, fundados na carta que a D. Manoel escreveo Pedro Vaz de Caminha, que vinha na expedição como Escrivão da armada, testemunha ocular, e digna de todo o conceito; carta que se vê publicada pelo P. Ayres do Cazal na sua insigne--Corographia Brasilica,--e mais accuradamente nas--Noticias Ultramarinas Tom. 4.º Além disto temos em nosso apoio as autoridades mui valiosas do mesmo Cazal, de Varnaghen, de Fr. Francisco de S. Luiz no seu Indice Chronologico e de outros Escriptores. Accresce que os proprios Autores que opinão ter sido o dia 24, nos ministrão armas para nos confirmarmos nesta nossa opinião: porque o mencionado piloto assevera ter sido o descobrimento na Quarta feira do oitavario de Pascoa, que he exactamente o mesmo que diz Caminha na carta citada. Estando pois concordes huma e outra testemunha ocular no dia da semana, alguma se engana no dia do mez. E com effeito, tendo sido neste anno o dia de Pascoa em 19 de Abril (V. Taboa Chronologica da Arte de verificar as datas), Quarta feira do oitavario não podia ser senão 22, como com toda a razão diz Caminha, e não 24 como menos exactamente affirma o piloto referido).--Ao primeiro monte avistado dérão o nome de monte Pascoal e á terra Terra da Vera Cruz (que depois chamárão de Santa Cruz, e mais tarde Brasil).--Desembarca Pedro Alvares Cabral no lugar denominado mais tarde Porto seguro. No dia 1.º de Maio planta a Cruz com o padrão das Armas de Portugal em signal de solemne posse do paiz para a Corôa Portugueza. Depois de despachar para Lisboa o Capitão Gaspar de Lemos a dar parte a El-Rei da inesperada e felicissima descoberta, faz-se de véla para o Cabo de Boa-Esperança e India seu primeiro destino.

1501.

Ao mando de Gonçalo Coelho chega ao Brasil a primeira expedição Portugueza para explorar as costas das novas terras. (N'esta expedição, segundo alguns escriptores, veio tambem o celebre Americo Vespucio em serviço de Portugal. E outros, como seja Fr. Francisco de S. Luiz no seu Indice Chronologico, dão a entender que esta expedição foi commandada por Americo, o qual não só percorreo toda a costa do Brasil até o Prata, como chegou á Patagonia: porém, a darmos crédito ás cartas do próprio Americo, lá temos nas Noticias Ultramarinas, Tom. 2.º, a sua 1.ª carta, da qual se deprehende que não era elle o Capitão da expedição).

1503.

Segunda expedição é enviada ao Brasil ás ordens de Christovão Jacques. (Alguns Escriptores dizem ter sido ás ordens de Fernão de Noronha, primeiro Donatario da ilha do mesmo nome). Descobre elle a Bahia de Todos os Santos (segundo Fr. Francisco de S. Luiz na obra já citada, foi esta bahia descoberta por Americo Vespucio em huma segunda expedição que fez por mandado do Rei); e funda huma Colonia em Vera-Cruz. Depois desta expedição começa a ser levado á Europa o páo brasil, donde veio a denominação que ora tem o paiz. (Segundo alguns Escriptores, Christovão Jacques explorando as costas foi plantando padrões nos lugares mais apropriados; porém, segundo outros, cabe este feito a Martim Affonso de Sousa).

1510.

Dá á costa na Bahia de Todos os Santos hum navio Portuguez. A maior parte da tripulação e passageiros morreo ou no naufragio ou ás mãos dos Indigenas. Diogo Alvares Corrêa porém consegue a sua salvação e até fazer-se respeitado e amado desses póvos anthropophagos por ter podido salvar comsigo huma arma de fogo, com a qual ajudou-os a debellar e vencer os seus formidaveis inimigos. Denominarão-o por isso o Caramurú, que quer dizer o homem de fogo.

1515.

João Dias Solis ao serviço da Hespanha percorre a costa do Brasil desde o Cabo de Santo Agostinho até o Rio da Prata, ao qual deo o seu nome (e, posto que este rio tivesse perdido o nome de Solis para receber o de Prata, comtudo ainda hoje ha o rio de Solis que nelle desagua, e que conserva immortal o nome deste illustre navegante). N'esta viagem descobre elle a Bahia de Nictherohy, depois chamada do Rio de Janeiro. (É grave questão quem tenha sido o descobridor desta Bahia, si Americo Vespucio, si Gonçalo Coelho, si Solis, si Magalhães e Falleiro, ou si Martim Affonso. Alguns AA. até querem que tivesse sido em 1501. (V. Pizarro, Memorias do Rio de Janeiro; e Varnaghen, Notas ao Roteiro de Pero Lopes)). Esta expedição deo lugar a questões de limites e a reclamações entre Portugal e Hespanha, sobretudo á vista da celebre decisão do Papa Alexandre 6.º. O Imperador Carlos 5.º, então Rei de Hespanha, attendeo a todas as reclamações, e até punio os implicados em semelhante expedição como quebrantadores da paz entre os dous Reinos.

1519.

Entrão na Bahia do Rio de Janeiro os celebres Portuguezes Fernando de Magalhães, e Ruy Falleiro, então ao serviço de Hespanha, os quaes se destinavão a fazer o primeiro giro á roda do globo (13 de Dezembro). Partem ao depois para o seu destino; e Magalhães dá o seu nome ao estreito que communica o Atlantico ao Pacifico no S. da America entre a Patagonia e Terra-do-Fogo.

1521.

Morre El-Rei D. Manoel (13 de Dezembro).--Durante o seu reinado toda a attenção estava absorvida pela India, cujas riquezas já de muito erão conhecidas na Europa; de sorte que, não merecendo cuidado o Brasil, apenas se enviarão a povoar e colonisar o paiz degradados, criminosos, prostitutas emfim a escória da sociedade. Taes forão por muito tempo os primeiros colonos!

1521.

Sóbe ao throno D. João III, filho e successor de D. Manoel.--Melhor informado que seu Pae, e por isso muito esperando das novas terras na America, leva este Rei sua attenção para as colonias em geral, e muito especialmente para o Brasil.

1526.

Para obstar a qualquer tentativa dos estrangeiros no Brasil parte huma esquadra ao mando de Christovão Jacques. Com effeito, chegando este á Bahia de Todos os Santos encontra e mette a pique dous navios Francezes que poucos dias antes ahi havião entrado. Parte depois para o Norte, e funda nas costas de Pernambuco a primeira feitoria Portugueza, denominada Itamaracá.

1530.

Tendo-se os Francezes estabelecido na feitoria de Itamaracá, por elles occupada, envia El-Rei Duarte Coelho Pereira que os expulsa, e transfere a feitoria para Iguaraçú, poucas milhas distante da primeira.--Tendo-se tambem sabido que os Hespanhóes se achavão estabelecidos no Rio da Prata, e temendo El-Rei que elles se quizessem estender pelas terras do Brasil envia uma armada ás ordens de Martim Affonso de Sousa (3 de Dezembro).

1531.

El-Rei divide o Brasil em Capitanias hereditarias; as quaes distribue por pessoas benemeritas por seus serviços com a obrigação de povoal-as afim de obstar ás invasões estrangeiras, e aos ataques dos Indigenas.--Martim Affonso de Sousa, primeiro Donatario, chega a Pernambuco e dirige-se para o sul: entra na Bahia de Nicterohy ou Rio de Janeiro a 30 de Abril (posto que alguns Escriptores dizem ter sido ao 1.º de Janeiro de 1532, e outros ao 1.º de Janeiro de 1531. Nós porém seguimos neste ponto o Diario da Navegação de Pero Lopes, onde se pode ver a observação que faz Varnaghen a esta questão): corre ao S., e chega até o Rio da Prata. Não encontrando pela costa estabelecimento algum Hespanhol ou estrangeiro, faz-se de volta á sua Capitania.

1532.

Entra Martim Affonso na Bahia de S. Vicente na Capitania do mesmo nome (22 de Janeiro), e ahi funda elle a primeira povoação de alguma importancia no Brasil, que denomina S. Vicente. (Outros escriptores dizem ter Martim Affonso entrado no porto de Santos e depois disto fundado ao S. desta Bahia a colonia de S. Vicente. Porém abandonando esta opinião por menos bem fundada, seguimos inteiramente a relação de Pero Lopes, já tantas vezes citada). Brilhante foi a sua administração. Por meio de João Ramalho conseguio a alliança do celebre Indio Tebyriçá; e em paz com os Indigenas, só cuidou na prosperidade da colonia, introduzio as criações muares, a canna de assucar, etc.

1534.

Pero Lopes de Sousa, irmão de Martim Affonso, tendo obtido a Capitania de S. Amaro encravada na de S. Vicente, consegue fundar huma pequena colonia, não sem bastante resistencia dos Indigenas.--A Pero de Goes coube a Capitania da Parahyba do Sul; e tendo della tomado posse neste anno, vê-se obrigado a abandonal-a dentro em pouco tempo.--A Vasco Fernandes Coutinho coube a Capitania do Espirito Santo: consegue estabelecer-se nas immediações do lugar onde desembarcou Cabral, e aldêar os Indios Tupininquins ahi existentes.--A Jorge de Figueiredo Corrêa foi dada a Capitania dos Ilhéos; e a Pero do Campo Toyrinho a de Porto-Seguro. Ambas estas Capitanias florecerão dentro em pouco tempo, chegando até a de Porto-Seguro a exportar grande quantidade de assucar.

1535.

Tendo sido dada a Duarte Coelho Pereira a Capitania de Pernambuco, chega elle ao seu destino, trazendo em sua companhia grande numero de familias: e depois de expellir os temiveis Cahetés, lança os fundamentos da cidade de Olinda. Na expulsão dos Cahetés muito o auxiliárão os Indios Tabyra, Hagybe (braço de ferro), e Piragyhe (braço de peixe).--Ao celebre historiador João de Barros fôra dada a Capitania do Maranhão. Porém não lhe sendo possivel tratar immediatamente de povoar e colonisar a Capitania, cedeo-a em favor de Luiz de Mello, ao qual succede a desgraça de naufragar nos baixios do Maranhão.--A Francisco Pereira Coutinho coube a Capitania da Bahia de Todos os Santos; e chega a seu destino neste anno. (Afóra as 9 capitanias que temos mencionado, devemos ás minuciosissimas investigações do Sr. Varnaghen o conhecimento de mais 3, cujos Donatarios foram Ayres da Cunha, Fernão Alvares de Almada, e Antonio Cardoso de Barros, perfazendo assim o numero de 12, em que diz Barros fôra dividido o Brasil).

1535--1548.

Tendo sido mal succedido Luiz de Mello na Capitania do Maranhão, é João de Barros reintegrado nos seus direitos a essa Capitania. Faz elle uma sociedade com Fernão Alvares de Andrade, e Ayres da Cunha para a colonisação da Capitania. Sahe com effeito huma expedição ao mando de Ayres da Cunha; porém teve nos mesmos baixios do Maranhão o mesmo desastroso fim de Luiz de Mello (1536).--Tambem na sua Capitania he infeliz Francisco Pereira Coutinho, mas por culpa sua. E com effeito, em lugar de tratar brandamente os Indios e de procurar sua amizade e alliança, fez-lhes guerra de exterminio, chegando até a apossar-se dolosamente de Diogo Alvares Corrêa o Caramurú. A famosa Paraguassú, esposa de Caramurú, excita os Tupinambás á vingança, e obriga Coutinho a fugir. Feita porém a paz, voltava este á Bahia, quando huma furiosa tempestade o fez naufragar em Itaparíca (1548). Os que escaparão do naufragio morrerão ás mãos dos Indigenas; entre elles o proprio Coutinho: só forão poupados Caramurú, e sua comitiva.

1549.

Tendo sido dada aos Donatarios illimitada jurisdição civil e criminal sobre as suas respectivas Capitanias, concedendo-se-lhes até impor a pena de morte, mesmo ás pessoas de mór qualidade; e provindo d'ahi innumeros males porque o abuso dos Senhores Donatarios ia-se tornando intoleravel, a anarchia reinava, os colonos erão opprimidos, os Indios barbaramente perseguidos; indispensavel era que o Brasil fosse governado por huma autoridade superior que servisse de centro commum, á que todos obedecessem. Assim creou El-Rei D. João III, melhor instruido pela propria experiencia, o cargo de Governador Geral do Brasil, que confiou a Thomé de Sousa. A 28 de Março chega este á Bahia, trazendo em sua companhia os primeiros Jezuitas que pizarão no Brasil. Coadjuvado por Caramurú consegue estabelecer-se na Bahia, e funda a cidade de S. Salvador, séde do Governo.

1552.

Chega á Bahia o primeiro Bispo do Brasil D. Pedro Fernandes Sardinha; o qual consegue apaziguar por algum tempo as desavenças entre o Clero e os Jezuitas.

1553.

Thomé de Sousa retira-se e he substituido no Governo Geral por Duarte da Costa. Com o novo Governador vierão alguns Jezuitas, entre os quaes o famoso José Anchietta, denominado o Apostolo do Novo Mundo. Já com Thomé de Sousa viera Manoel da Nobrega. A estes dous Padres he o Brasil devedor de muitos e mui relevantes serviços.

1554.

Reconhecendo o Governador Geral vistas ambiciosas nos Jezuitas, nega-lhes o seu apoio. Estes retirão-se para o Sul, e fundão junto ás planicies de Piratininga huma povoação, e o Collegio de S. Paulo, donde veio o nome á cidade e provincia hoje assim chamadas.

1555.

O desejo de conquista, e a ambição de riquezas levão estrangeiros a tentarem expedições á America. Nicolau Durand Villegaignon, sob o falso pretexto de fazer propagar o Calvinismo, protegido pelo Almirante Gaspar de Coligny, chega com huma expedição Franceza á bahia de Nictherohy, e construe no centro della sobre huma pequena ilha hum forte que denominou--de Coligny--(ou Villegaignon).

1557.

Morre El-Rei D. João III. (11 de Junho). Fica na minoridade D. Sebastião, neto e successor do Rei.

1557.

He Regente do Reino a Rainha Catharina d'Austria.

1558.

Chega ao Brasil o Governador Geral Mem de Sá.

1560.

Mem de Sá expelle os Francezes do forte--Coligny. Estes fogem para o continente, onde se tornão mais fortes com o auxilio dos Tamoios.--Visita o Governador a Capitania de S. Vicente, e deixa a sua prosperidade confiada aos PP. Manoel da Nobrega, e José Anchietta, ordenando ao mesmo tempo que se transferisse para S. Paulo o estabelecimento de Santo André.--Vê-se Mem de Sá obrigado a voltar a S. Salvador para reprimir os attaques dos Aymorés que incommodavão e assolavão as Capitanias dos Ilheos e Porto-Seguro: com effeito elle os derrota.

1562.

A Rainha entrega a Regencia ao Cardeal D. Henrique.

1564.

Os Tamoyos, senhores de todo o territorio entre Rio de Janeiro e S. Vicente, formão com outros Indios huma temivel liga contra os Portuguezes e dirigem-se ousadamente a attacar a nova povoação de S. Paulo. Porém os Jezuitas ajudados pelo celebre Indio Tebyriçá (depois do baptismo Martim Affonso) salvão-a e repellem os Indigenas.--Tambem a Capitania do Espirito Santo era muito incommodada pelos Indios; e já havia perecido Fernão de Sá filho do Governador, mandado por seu Pai a debellar os selvagens.--Continuando cada vez mais terrivel a guerra feita pelos Indios, os PP. Manoel da Nobrega e José Anchietta, depois de passarem milhares de perigos obtem a paz dos Tamoyos (foi por esta occasião que José Anchietta compoz em latim e reteve de memoria o celebre poema da Virgem).--Chega á Bahia Estacio de Sá, sobrinho do Governador, enviado pela Côrte a expulsar definitivamente os Francezes.

1565--1567.

Em Março de 1565 desembarca Estacio de Sá junto ao monte Pão-d'Assucar no Rio de Janeiro. Depois de longa resistencia dos Francezes, ajudado pelo Governador seu Tio, pelos PP. Nobrega e Anchietta, e pelo Indio Ararigboia, consegue expellir definitivamente os invasores depois de lhes tomar o forte Uraçumiri (1567): porém não poude colher os louros da victoria por expirar poucos dias depois, de huma gloriosa ferida que recebera.--Os Francezes sahindo do Rio de Janeiro tentão apossar-se de Pernambuco; porém são com denodo repellidos pelo Governador da Capitania.

1568.

He acclamado Rei D. Sebastião (20 de Janeiro), tendo apenas 14 annos de idade.--Salvador Corrêa de Sá e Benavides, que muito se distinguira na expulsão dos Francezes, é nomeado Governador do Rio de Janeiro, e lança os fundamentos da Cidade de S. Sebastião na margem occidental da bahia (é hoje a Capital do Imperio), cujo plano já fôra traçado por Mem de Sá.--Auxiliado pelo celebre Ararigboia (ou Martim Affonso de Sousa, que não devemos confundir com Tebyriçá) repelle os Francezes e Tamoyos que tinhão vindo attacal-o inopinadamente para se vingarem da derrota antecedente.

1572.

Chega á Bahia o Governador Geral Luiz de Brito de Almeida; porém não logra muito tempo o governo geral do Brasil, porque a Metropole julgou conveniente dividir o Brasil em 2 governos geraes. Assim as Capitanias do N. até o Rio Belmonte estavão sujeitas a hum Governador Geral com sua séde na Bahia; as do Sul desde esse Rio até o Prata obedecião a outro Governador Geral com sua séde no Rio de Janeiro: os Governadores erão totalmente independentes hum do outro. Luiz de Brito ficou com o governo do N.; e o do S. foi confiado ao Doutor Antonio Salema.--Por esta épocha tem lugar a grande emigração dos Tupinambás para o centro do paiz, os quaes provavelmente chegárão até o Amazonas.

1573.

Sebastião Fernandes Toyrinho sahe de Porto-Seguro; e subindo o Rio Doce em busca de minas de metaes preciosos, descobre grande parte do territorio hoje occupado pela Provincia de Minas-Geraes.

1576.

He o Brasil de novo reduzido ao governo de hum só Governador Geral com sua séde na Bahia. He elle confiado a Luiz de Brito.

1578.

Diogo Lourenço da Veiga vem substituir Luiz de Brito no Governo Geral.--Por ordem sua vai João Tavares estabelecer-se na Parahyba do Norte ou Itamaracá, que fôra abandonada pelo seu primeiro Donatario.--Neste mesmo anno El-Rei D. Sebastião querendo vingar os revezes e affrontas dos Portuguezes em Africa, ávido de gloria militar, desejoso de combater os infieis, e mais que tudo incitado por vís aduladores e pelos Jezuitas, parte para Africa: onde perde a vida com a flôr do exercito na sempre terrivel e memoravel batalha de Alcaçarquivir (4 de Agosto).--He acclamado Rei o Cardeal Infante D. Henrique.

1580.

Depois de hum reinado de 16 mezes fallece o Cardeal Rei (31 de Janeiro): e deixa a corôa do Reino entregue a disputas entre varios pretendentes. Entre estes se distinguião D. Antonio, Prior do Crato, a Duqueza de Bragança, e Philippe II. de Castella--D. Antonio já havia sido escolhido e coroado, quando entra em Portugal hum exercito Hespanhol ao mando do Duque d'Alva.--Em consequencia da invasão he Philippe II. de Castella reconhecido Rei de Portugal pelas Côrtes reunidas em Thomar.--O Brasil segue portanto a sorte da Metropole, e passa ao dominio Hespanhol.--Neste mesmo anno o Governador Geral Diogo Lourenço da Veiga, achando-se prestes a morrer, entrega o governo ao Senado da Camara da Bahia e ao Ouvidor Geral Cosme Rangel de Macedo: foi este o governo interino até a chegada do novo Governador Geral.

1582.

Chega á Bahia, e toma posse do governo geral Manoel Telles Barreto.

1583.

Rompe a guerra entre Philippe II. e Izabel de Inglaterra: a formidavel esquadra Hespanhola denominada Invencivel é destroçada por hum furioso temporal.

1585.

Envolvido o Brasil na guerra entre Hespanha e Inglaterra, apparece em Santos na capitania de S. Vicente a primeira expedição Ingleza dirigida por Eduardo Fanton; o qual retira-se depois de hum combate com huma esquadrilha Hespanhola que se achava á entrada da barra.--Por este mesmo tempo Roberto Dias descendente do celebre Caramurú, tendo feito viagens ao interior do Brasil e recolhido immensa quantidade de prata, vai offerecer-se a Philippe II. para revelar-lhe o segredo da existencia das minas deste metal, obtendo em recompensa o titulo de Marquez das Minas. Sendo-lhe isto negado, morre sem descobrir o segredo.

1588.

Nova expedição Ingleza, commandada por Roberto Withrington chega á Bahia: e, depois de assolar o Reconcavo, não podendo tomar a cidade, faz-se de vela.

1590.

Christovão de Barros, Governador interino do Brazil, recebe ordem para repellir os Indios que infestavão as povoações de Itapicurú e Villa-Real.--Lanção-se os fundamentos da cidade de S. Christovão na foz do rio Cotindiba.

1591.

Huma esquadrilha Ingleza ao mando do pirata Thomaz Cavendish attaca a villa de Santos na capitania de S. Vicente. Os habitantes, aproveitando-se da embriaguez dos invasores e das trevas fogem para o interior levando o que poderão salvar. Cavendish faz-se á vela, depois de lançar fogo á povoação de S. Vicente. Querendo attacar o Espirito Santo he repellido com grande perda, e obrigado a voltar á Europa: morre na viagem.

1593.

Outra expedição Ingleza ás ordens de Jayme de Lancaster attaca Olinda. O forte he tomado e a cidade saqueada. Lancaster volta á Inglaterra levando comsigo immensas riquezas.

1598.

Morre Philippe II. de Castella, e I. de Portugal (13 de Setembro).--Sobe ao throno Philippe III. de Castella, e II. de Portugal.

1599.

O Governador Geral D. Francisco de Sousa bate os Pitagoares e construe hum forte na foz do Rio Grande do Norte, deixando por commandante Jeronymo de Albuquerque Coelho.--Lanção-se os fundamentos da Cidade do Natal.

TITULO II.

SECULO XVII.

1603.

Chega á Bahia o governador Geral D. Diogo Botelho (outros dizem Pedro Botelho) a substituir D. Francisco de Sousa. Botelho é infeliz no seu Governo; faz guerra barbara e deshumana aos Indios, e até calca aos pés as salutares e justas leis de Hespanha ácerca da liberdade dos desgraçados Indigenas. Comtudo consegue-se a paz com os temiveis Aymorés pelos esforços verdadeiramente christãos do colono Alvares e do Jesuita Domingos Rodrigues.

1612.

Chega ao Maranhão uma expedição Franceza ao mando de Augusto de La Ravardière afim de tornar permanente hum pequeno estabelecimento ou colonia Franceza que ha 18 annos tinha ahi sido fundada.

1614.

Jeronimo de Albuquerque Coelho parte com uma expedição a expellir os Francezes do Maranhão. Ajudado por Alexandre de Moura bate-os na batalha de Guaxendúba. Mas suspendem-se as hostilidades.

1615.

Rôta a convenção de Guaxendúba, são completamente batidos os Francezes, e obrigados a abandonar o Maranhão, retirando-se na mesma esquadra de La Ravardière. Jeronimo de Albuquerque Coelho recebe em galardão a nomeação de Capitão-Mór do Maranhão.

1616.

Jeronimo de Albuquerque faz partir para o Amazonas Francisco Caldeira de Castello-Branco; o qual lançou os fundamentos da cidade de Belém, e construio hum forte.--Por este tempo tentão os Hollandezes estabelecer-se ao S. do Amazonas; porém não o conseguem e são repellidos.

1621.

Morre Philippe III. (31 de Março).--Sóbe ao throno Philippe IV. de Hespanha, e III. de Portugal.--Grandes feitos vão agora ter lugar, e occupar nossa attenção.

1622.

Chega ao Brazil o Governador Geral Diogo de Mendonça Furtado.

1623.

O caracter de Philippe II. já havia feito revoltarem-se as suas possessões da Hollanda. E a guerra feita então á Hespanha foi de grave prejuizo a Portugal e ao Brazil. Felizmente trégoas se havião alcançado por 10 annos desde 1609 reinando já Philippe III.--Porém, estando a expirar semelhante trégoa, e achando-se forte a Hollanda com as suas conquistas na India e com a existencia da celebre Companhia das Indias, foi proposta e resolvida a conquista do Brazil. Em consequencia huma esquadra de 60 vélas he neste anno armada para semelhante conquista. Jacob Villekens, Pedro Haynes, Hans Vandort e Adrião Patrid sahem á testa da expedição.

1624.

O governo de Madrid julga conveniente separar o Pará e Maranhão do resto do Brasil: assim o faz, constituindo-os hum estado independente do resto do paiz, e sujeito a hum Governador Geral com obediencia unicamente á côrte.--Apparece na Bahia a esquadra Hollandeza, que toma quasi sem resistencia a cidade. Tal era o estado de fraqueza a que o Brazil tinha sido reduzido pela côrte de Hespanha! Vandort fica na Bahia como Governador. Villekens parte para a Europa. Haynes vae attacar o Espirito Sancto. E Adrião Patrid sahe a conquistar Loanda na Costa d'Africa.--Tendo sido aprisionado contra a estipulação e todas as leis do direito e da honra o Governador Mendonça de Furtado, e remettido para bordo da náo Almirante inimiga, devia succeder-lhe no governo Mathias de Albuquerque que a este tempo se achava em Pernambuco. Porém, como as circunstancias urgião, é eleito Governador e General em chefe o Bispo D. Marcos Teixeira; o qual faz de novo cobrar animo aos Portuguezes e os leva a expellir os conquistadores.

1625.

Chega á Bahia Francisco Nunes Marinho enviado por Mathias de Albuquerque a tomar o commando do exercito, que não assentava bem em hum Ministro da Religião.--Ao mesmo tempo chega D. Fradique de Toledo d'Eça, Marquez de Valdueza (28 de Março) enviado por Hespanha.--E reunidos os exforços de ambos, sitião a cidade e obrigão o inimigo a capitular. Vandort morreo em hum combate.--Restaurada a Bahia, toma posse do governo geral D. Francisco Rolim de Moura.

1627.

Haynes fôra repellido do Espirito Sancto.--E Patrid, tendo sido mal succedido na conquista d'Africa, volta á Bahia: porém he obrigado a retirar-se; e na volta para a Europa apodera-se dos galeões Hespanhóes que do Mexico ião carregados de riquezas.--Diogo Luiz de Oliveira substitue Rolim de Moura no governo geral do Brasil.

1629.

A Côrte de Madrid, avisada de que os Hollandezes perseverantes na conquista do Brasil levavam suas vistas para a Capitania de Pernambuco, ordena a Mathias de Albuquerque que vá fazer face aos inimigos e repellil-os. Chega elle a Pernambuco com mui diminuta força (19 de Outubro).

1630.

Apparece a esquadra Hollandeza, onde vinha o General inimigo Theodoro Vandemburg.--Occupa este o Recife e Olinda.--Distingue-se João Fernandes Vieira na defeza do forte S. Jorge com só 37 guerreiros contra 4000, até que capitula honrozamente.--Mathias de Albuquerque volta do interior; e depois de fortificar-se, ajudado pelo Indio Camarão, limita-se á defensiva.

1631.

Uma esquadra Hollandeza ao mando de Adrião Patrid chega ao Brasil trazendo soccorros aos de Pernambuco: assim como huma Hespanhóla commandada pelo Almirante D. Antonio Oquendo em auxilio do paiz. As duas esquadras encontrão-se nos mares da Bahia, onde travão formidavel combate. Patrid, obrigado ou a morrer ou a entregar-se, prefere a morte; e envolvido no estandarte da Hollanda lança-se ao mar heroicamente, proferindo estas palavras:--O Oceano he o tumulo digno de hum Almirante Batavo.--Da esquadra Hespanhola he destacado o Conde Bagnolo para Pernambuco; o qual chega ao seu destino e reune-se a Mathias d'Albuquerque.--Julgando os Hollandezes ser muito maior, do que realmente era, o reforço chegado aos Portuguezes, lanção fogo a Olinda, e concentrão-se no Recife (23 de Novembro).

1632.

Tentão os Hollandezes tomar a Parahyba, o Rio Grande do Norte, e outros pontos; não o conseguem.--Porém, felizmente para elles, o pardo Domingos Calabar leva-lhes com sua pessoa a victoria. A ilha de Itamaracá cahe em poder do inimigo.

1633.

Chega a Pernambuco com grandes reforços o General inimigo Lourenço Reimbach, que vem substituir Vandemburg.--Mathias de Albuquerque bate o novo General, que he morto e substituido por Sigismundo de Schopp.

1634.

Sigismundo ajudado pelo infame Calabar, apodera-se da cidade do Natal, e de outras povoações. De sorte que nesta época o inimigo occupava Pernambuco, Parahyba, e Rio Grande do Norte.

1635.

Resolve Mathias de Albuquerque emigrar para o interior de Pernambuco. Ao passar por Porto-Calvo, por hum ardil de Sebastião do Souto, então prisioneiro do inimigo, bate a pequena força que se achava de guarnição, e toma a villa. Porém, depois de arrazar as fortificações e de ter feito executar o traidor Calabar, vendo que no estado em que se achavão as tropas e falto de recursos não podia conservar-se em Pernambuco, emigra para as Alagôas: outros fogem para a Bahia, Rio de Janeiro, e para o interior da propria capitania.--Tendo Mathias sido chamado á Europa, desembarca nas Alagôas (25 de Novembro) D. Luiz di Roxa y Borgia, nomeado General das forças em Pernambuco. Com elle veio tambem o novo Governador Geral Pedro da Silva, que substitue Oliveira, igualmente chamado á Europa.--Borgia parte para Pernambuco, deixando nas Alagoas huma força ás ordens do Conde Bagnolo.

1636.

Morre Borgia em hum combate, e succede-lhe Bagnolo no commando geral das tropas.--Os Hollandezes são muito incommodados pelas correrías do Indio Camarão, e do preto Henrique Dias.--Tem lugar a 2.ª emigração dos habitantes de Pernambuco, conduzida por Camarão: Bagnolo porém conserva-se em Pernambuco.

1637.

Chegão ao Brazil novas tropas Hollandezas ao mando do Principe Mauricio de Nassau (23 de Janeiro). O primeiro intento do novo General foi tomar Porto-Calvo, onde se achava Bagnolo. Renhido combate tem lugar entre 4000 Portuguezes e 10000 Hollandezes, no qual se distinguem Camarão, sua mulher D. Clara, e Henrique Dias. Bagnolo desampára cobardemente Porto-Calvo, e retira-se em direcção ás Alagoas; todos os habitantes o acompanhão, ficando unicamente huma pequena guarnição que se defende heroicamente, até que capitúla o mais honrozamente possivel. Mauricio persegue Bagnolo nas Alagôas, e obriga-o a retirar-se para Sergipe: volta depois a cuidar na colonia. Envia soccorros a Sigismundo para expellir de Sergipe o Conde Bagnolo; o qual, sendo disto avisado, toma o partido de emigrar para a Bahia apezar da repugnancia do Governador Pedro da Silva. Sigismundo ataca e devasta Sergipe.--Ao mesmo tempo os Indios do Ceará convidão Mauricio a apoderar-se desta Provincia expellindo os Portuguezes: elle o aceita e é feliz.--Neste mesmo anno sahe huma esquadrilha de 47 canôas ás ordens de Pedro Teixeira para reconhecer o Amazonas (28 de Outubro). (Já em 1540 havia Orellana descido pelo Amazonas, sendo assim o primeiro Europêu que o navegou).

1638.

Mauricio, tendo sido mal succedido na sua tentativa de conquista dos Ilhéos, resolve-se a pôr em execução o seu projecto de conquistar a Bahia. Com effeito ahi apparece com grande esquadra (14 de Abril). Sitia a cidade; porém soffre perda consideravel no ataque das trincheiras, no qual tambem nós entre outros Officiaes perdemos o famoso Sebastião do Souto, que tantos serviços havia prestado nesta guerra. O Conde Bagnolo, já então na Bahia, bate Mauricio, e obriga-o a retirar-se para Pernambuco.--Neste anno chega a Quito a expedição de Pedro Teixeira e Bento Rodrigues de Oliveira, tendo subido pelo Amazonas e alguns de seus confluentes.

1639.

Em Janeiro chega á Bahia numa grande esquadra Hespanhola destinada a restaurar Pernambuco, e todos os outros pontos do Brazil em poder do inimigo.--Chega a Belém, já de volta de Quito, a expedição de Pedro Teixeira (12 de Dezembro).

1640.

Com grandes exforços e muitos sacrificios consegue-se reunir tropa no Rio Grande do Norte sob os chefes Camarão, Henrique Dias, Barbalho e Vidal; os quaes voão em auxilio da Bahia.--Chega á Bahia e toma posse o novo Governador Geral D. Jorge Mascarenhas, Marquez de Montalvão, condecorado com o titulo de Vice-Rei do Brazil.--Em S. Paulo os Procuradores de todas as Villas e Camaras (por accordo de 13 de Julho) expulsão da Capitania os Jezuitas.--Nova época se prepara para o Brazil. A tyrannia de Olivarez, Ministro do Rei, a de Miguel de Vasconcellos, Vice-Rei de Portugal, e a oppressão em que vivião os povos excitão o desejo de liberdade e independencia. Assassinado Miguel de Vasconcellos em Lisboa, sacode Portugal o jugo ferreo de Hespanha (1.º de Dezembro).--He acclamado Rei o Duque de Bragança D. João IV.

1641.

Chegando ao Brazil tão grata noticia, entra de novo no dominio Portuguez, á excepção do territorio occupado pelos Hollandezes.--O Vice-Rei Montalvão é injustamente preso por suspeito e enviado para Lisboa, onde é mui bem acolhido pelo Rei. Governa o Brazil huma Junta Provisoria, composta de 3 membros.--Conclue-se na Europa huma trégoa de 10 annos entre Portugal e Hollanda; porém, como ella não devia ser publicada senão hum anno depois de ratificada, o Principe Nassau conquista, já durante a trégoa, a ilha de Maranhão e Sergipe.

1642.

Os Hespanhóes desejando conservar S. Vicente á corôa de Hespanha (ou antes, querendo os Vicentistas constituir-se em Estado Independente, como com melhor fundamento opinão alguns Escriptores) tentão acclamar Rei Amador Bueno da Ribeira. Este porém nobre e heroicamente recusa tal offerta; e retirando-se ao Mosteiro dos Benedictinos afim de pôr em segurança sua pessoa consegue acclamar e fazer reconhecer como legitimo soberano D. João IV. Em consequencia S. Vicente manda prestar juramento de fidelidade ao Rei.--Chega ao Brazil o novo Governador Geral Antonio Telles da Silva.--Publica-se a trégoa entre Hollanda e Portugal: cessão as hostilidades no Brazil, e Mauricio cuida unicamente na prosperidade da colonia.

1643.

Á sombra da paz florecia e prosperava rapidamente a colonia Hollandeza sob o governo sabio do Principe Mauricio, quando suspeitas mal fundadas o fazem chamar á Europa. Entrega portanto o governo ao Grão-Conselho do Recife, composto de tres cidadãos; e faz-se á vela para Hollanda (22 de Maio).--A sua ausencia, a fraqueza e má administração do novo Governo trazem a decadencia da colonia, e excitão nos Portuguezes o desejo de liberdade. Antonio Moniz Barreto (ou Barreiros, segundo outros) no Maranhão dá o signal, sacodindo o jugo estrangeiro: o Ceará o imita. Feliz incentivo para os de Pernambuco!

1645.

João Fernandes Vieira trama em Pernambuco huma temivel conspiração contra os invasores. Mas desejando o apoio do governo, participa a sua resolução ao Governador Geral; o qual procedendo prudentemente envia André de Vidal Negreiros afim de examinar o estado das cousas e entender-se com Vieira. Vidal conforma-se em tudo com Vieira e exhorta-o a proseguir em tão gloriosa empreza. Descoberta a conspiração por denuncia que ao Grão-Conselho derão dous conjurados, Vieira corre ás armas abandonando o Recife.--Encontra-se Vieira com as tropas Hollandezas ao mando de Henrique Huss junto ao monte Tabocas (3 de Agosto): o Chefe inimigo é completamente derrotado e obrigado a retirar-se para o Recife.--Chega a Pernambuco huma frota enviada por Telles da Silva sob o commando de Serrão de Paiva; nella vinhão tropas ao mando de Vidal em favor dos insurgentes sob pretexto de os reduzir á ordem. Vidal reune-se a Vieira, ao qual já se havião reunido Camarão e Dias.--Outra esquadra sahida do Rio de Janeiro ás ordens de Salvador Corrêa de Sá reune-se á de Paiva em Pernambuco; porém logo depois se separa.--No entanto huma armada Hollandeza commandada pelo Almirante Cornelio Lichtart destroe em Tamarandé a de Paiva, que é feito prisioneiro.--A revolução lavra por todas as outras possessões Hollandezas no Brazil, e por toda a parte Vieira é reconhecido o chefe della.

1646.

Depois de já haver sido batido segunda vez e aprisionado o General Huss, depois de já se haverem tomado varias villas e pontos, é o General Hollandez expulso de Olinda, vendo-se obrigado a entrincheirar-se no Recife.--No entanto, em consequencia das representações do Grão-Conselho, manda Telles da Silva ordem a Vieira de mandado do Rei para cessar a guerra; Vieira recusa obedecer dizendo--que depois de restituir ao seu Rei esta bella estrella, iria elle proprio exigir o castigo da desobediencia.--Vieira, animado por tão prosperos successos de suas armas, vai sitiar o Recife.--Chega de Hollanda com grande reforço Sigismundo de Schopp, que substitue a Junta Governativa. He gravemente ferido em um combate. Vai atacar a Bahia; mas obrigado a voltar ao Recife, toma na passagem a ilha de Itaparica e arraza a povoação.

1647.

Chega ao Brazil o Governador Geral Antonio Telles de Menezes, Conde de Villa-pouca, que substitue Telles da Silva, chamado á Europa.--Chega hum grande reforço aos Hollandezes.--Neste mesmo anno é o Brazil elevado a Principado por D. João IV. na pessoa do Principe D. Theodosio.

1648.

A 13 de Janeiro chega ao Brazil Francisco Barreto de Menezes a tomar o commando do exercito em Pernambuco. Coadjuvado sempre pelo patriotico Vieira, Camarão, Dias, e outros ganha a primeira memoravel batalha de Guararapes (19 de Abril) sobre Sigismundo. Astolfo Brinck, que commandava no impedimento de Sigismundo, tambem é batido. Sigismundo, exacerbado por tantos revezes e querendo vingar-se, tendo recebido reforços resolve atacar a Bahia.

1649.

Sigismundo volta a Pernambuco, depois de haver saqueado o Reconcavo da Bahia.--Tem lugar a segunda batalha de Guararapes ganha por Barreto (19 de Fevereiro).

1650--1654.

Chega á Bahia o Governador Geral, Conde de Castello-Melhor, que substitue Telles de Menezes (1650).--Francisco Dias Velho Monteiro com sua familia, e 500 Indios domesticados dá principio á povoação da Ilha de Santa Catharina (1651).--Continúa o assedio do Recife por Vieira.--Chegando casualmente á Capitania de Pernambuco huma esquadra portugueza sob o commando de Pedro Jacques de Magalhães, o General Barreto pede-lhe que o auxilie a expellir definitivamente os Hollandezes (fins de 1653). Por conseguinte, ajudado pelo fogo da esquadra Vieira é encarregado da difficil, mas gloriosa empreza de atacar o Recife, unico ponto occupado pelo inimigo. Com effeito em 1654 obriga elle Sigismundo a capitular e abandonar para sempre as pretenções da Hollanda sobre o Brazil. Neste anno são elles definitivamente expulsos de todos os pontos; porque a restauração de Pernambuco trouxe a de todas as outras Capitanias. Assim, neste anno, para sempre de gloriosa memoria, foi Portugal reintegrado de todos os seus direitos ao Brazil, e este livre do jugo estrangeiro pelos esforços inauditos, e patriotismo sem igual do illustre Vieira, acclamado por isso Libertador do Brazil, e Restaurador da Igreja.

1656.

Morre D. João IV. (6 de Novembro).--É Regente do Reino a Rainha D. Luiza de Gusmão.

1660.

Conclue-se entre Portugal e Hollanda hum tratado de paz, em virtude do qual são definitivamente restituidas a Portugal as provincias do Brazil, devendo em compensação receber a Hollanda 12 milhões, e poder commerciar livremente no Brazil e outras possessões.

1662.

A Rainha D. Luiza entrega o governo a seu filho, já maior, D Affonso (23 de Junho).--Sóbe ao throno D. Affonso VI. Pouco reinou, porque a Junta dos tres Estados o depoz em 24 de Novembro de 1667, e nomeou Regente o Infante D. Pedro.

1667.

É Regente do Reino o Infante D. Pedro.--Favorece elle as colonias, e estabelece huma armada para comboiar os navios mercantes que do Brazil sahião para Lisboa.

1668.

Conclue-se (13 de Fevereiro) hum tratado de paz entre Portugal e Hespanha, em virtude do qual he reconhecida a independencia do Reino e a casa reinante de Bragança: e alguma cousa tambem se convencionou ácerca dos limites das respectivas possessões na America.

1675.

Por morte do Vice-Rei Governador Geral, he o Brazil governado interinamente por um Triumvirato.

1676.

A Igreja da Bahia (que já havia sido elevada a Bispado em 1550, sendo seu primeiro Bispo D. Pedro Fernandes Sardinha) he elevada a Arcebispado por Bulla de Innocencio XI. (de 16 de Novembro): e elevadas a Bispados as Igrejas de Maranhão, Pernambuco, e Rio de Janeiro.

1678.

Com a vinda do novo Governador Geral, acaba neste anno o governo interino.

1679.

D. Manoel de Lobo, Governador do Rio de Janeiro, recebe ordem do Regente para fundar a colonia do Sacramento perto do Rio da Prata afim de obstar aos ataques e invasões dos Hespanhoes do Paraguay e Buenos-Ayres.

1680.

Tendo-se dirigido ao Prata o Governador Lobo, levanta o forte do Sacramento, apezar das representações e opposição dos Hespanhoes. Mas neste mesmo anno he o forte tomado pelo Governador de Buenos-Ayres.

1683.

He restituida a Portugal a praça do Sacramento, e reedificada.--Fallece D. Affonso VI. (12 de Setembro).--Sobe ao throno D. Pedro II., que até aqui governára como regente.

1690.

Os Vicentistas ou Paulistas tentão novas peregrinações pelo interior do paiz em busca de metaes preciosos, e descobrem as minas de Sabará.

1697.

Os Paulistas fundão em Minas-Geraes a povoação denominada Villa-Rica (hoje Ouro-Preto), para a qual afluio quantidade enorme de colonos attrahidos pelo ouro em que abundava o districto.--Neste mesmo anno he destruida completamente a povoação de Palmares em Pernambuco, feita por negros de ha muitos annos. Tinha ella crescido a tal ponto que foi preciso huma força de 7000 homens, e sitial-a em regra como si fôra huma fortaleza ou grande cidade!

TITULO III.

SECULO XVIII.

1701.

Conclue-se (18 de Junho) hum tratado entre Portugal e Hespanha, em virtude do qual Hespanha concedeu-lhe o dominio pleno e perfeito da margem Septentrional do Rio da Prata.

1705.

Os Hespanhoes tomão Sacramento.

1706.

Morre El-Rei D. Pedro II. (9 de Dezembro).--Sobe ao throno D. João V.

1707.

Reune-se no Arcebispado da Bahia hum Synodo Diocesano, que organisa a Constituição do Arcebispado; a qual foi approvada pelo Governo da Metropole, e ainda hoje he a lei que rege todos os Bispados do Imperio.

1710.

Tendo rebentado a guerra de successão á corôa de Hespanha, na qual Portugal tomára parte contra a França, varias expedições são tentadas por armadores Francezes; algumas das quaes estiverão a ponto de fazer perder a Portugal a possessão do Brazil.--Apparece na capitania do Rio de Janeiro a primeira expedição commandada por Carlos Duclerc. Depois de haver entrado na cidade quasi sem resistencia por causa da pusilanime apathia do Governador Francisco de Moraes e Castro, he obrigado a entregar-se e morre assassinado na prisão (ou, segundo outros, no acto de entregar-se prisioneiro). Assim ficou mallograda esta tentativa.

1711.

Apparece no Rio de Janeiro (12 de Setembro) segunda expedição Franceza ás ordens de Dugay-Trouin a vingar a affronta de Duclerc. Era elle protegido e apoiado por Luiz XIV.--Toma sem resistencia o forte da Ilha das Cobras; e depois de fazer fogo sobre a cidade e de varrer deste modo as praias, desembarca, e apodera-se de varios pontos importantes. Depois de um pequeno combate, o Governador Castro capitúla vergonhosamente, pagando 610:000 cruzados. Dugay-Trouin faz-se de véla para França em 13 de Outubro, levando comsigo todos os Francezes aprisionados no anno antecedente.--O Governador recebeo o devido castigo de sua cobardia, sendo degradado para a India.

1713.

Celebra-se o tratado de Utrecht (11 de Abril), que traz a paz geral á Europa. A colonia do Sacramento no S. do Brazil occupada pelos Hespanhoes desde 1705 he restituida a Portugal.--Ao mesmo tempo celebra-se (11 de Abril) hum tratado parcial entre a França e Portugal debaixo da mediação de Inglaterra, no qual se fixão os limites entre o Brazil e a Guyana Franceza, e se dão outras providencias.

1715.

Celebra-se entre Hespanha e Portugal o tratado de Utrecht (6 de Fevereiro), segundo o qual devia o Rio da Prata ser o limite Meridional do Brazil, voltando a colonia do Sacramento ao poder dos Portuguezes.

(Por esta época continuão os Paulistas nas suas peregrinações pelo interior, em quanto as capitanias do Norte vão em regresso por falta de protecção da Metropole).

1719.

He a Igreja do Pará elevada a Bispado.

1720.

He destacado da capitania de S. Paulo o districto das Minas (C. R. 21 de Fevereiro); e elevado á cathegoria de capitania com o nome de Minas-Geraes (Alv. 2 de Dezembro).

1721.

Os Paulistas chegão até o Cuyabá em busca de ouro.

1726.

O Paulista Bartholomeo Bueno, indo em busca de minas de ouro no districto dos Goyazes, as descobre: já em 1682 pouco mais ou menos ahi havia chegado seu pae (foi com o ouro extrahido destas minas abundantissimas que hum de seus descendentes mandou fazer varias especies de fructos do paiz em tamanho natural, e offereceo a D. João V.) Lanção-se os fundamentos da povoação de Goyaz.

1729.