Notas de transcrição: Este texto é uma transcrição do original de 1905, tendo-se actualizado a grafia para a variante europeia da língua portuguesa (pré-acordo ortográfico de 1990).
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VAMIRÉ
ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS
Traduzido de J. H. Rosny
POR
CÂNDIDO DE FIGUEIREDO
LISBOA
LIVRARIA EDITORA
VIÚVA TAVARES CARDOSO
5, Largo do Camões, 6
1905
VAMIRÉ
ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS
PORTO—TIP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA, SUCESSORA.
Rua da Cancela Velha, 70
VAMIRÉ
ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS
Traduzido de J. H. Rosny
POR
CÂNDIDO DE FIGUEIREDO
LISBOA
LIVRARIA EDITORA
VIÚVA TAVARES CARDOSO
5, Largo do Camões, 6
1905
[Índice]
- [PALAVRAS DO TRADUTOR]
- [I. Guerra nocturna]
- [II. A horda]
- [III. O funeral de Vanhab]
- [IV. A ilhota]
- [V. O homem das árvores]
- [VI. Contra-anúncio]
- [VII. A perseguição]
- [VIII. Noite na floresta]
- [IX. O idílio nascente]
- [X. Combate]
- [XI. Vamiré]
- [XII. O mamute]
- [XIII. Entre os orientais]
- [XIV. Reconquista]
- [XV. Reforços]
- [XVI. A chuva]
- [XVII. Os aliados]
- [XVIII. Os vermívoros]
- [XIX. Na ilhota]
- [XX. Assalto à ilhota]
- [XXI. A derrota]
- [XXII. O incêndio]
- [XXIII. Regresso]
[PALAVRAS DO TRADUTOR]
Há dez ou doze anos, li numa Revista estrangeira uma extraordinária narrativa romântica, que o seu autor, o sr. J. H. Rosny, intitulava Vamiré.
Referia-se a narrativa aos tempos primitivos da humanidade, e atestava tão raros predicados de artista e tão vasto conhecimento da pré-história natural, que senti a tentação de a verter para a nossa língua.
Não obstante a dificuldade de uma versão exacta do romance, procurei remover ou atenuar essa dificuldade, e estampei alguns capítulos na imprensa periódica desse tempo, verificando que o conceito de apreciadores competentes autorizava o conceito que a obra me inspirava.
Decorreram alguns anos e, relendo o meu[{VI}] desambicioso trabalho, ainda entendi que valia a pena reduzi-lo a livro, não pela tradução em si, mas pelos predicados essenciais da obra do sr. J. H. Rosny.
Já aludi à dificuldade da tradução, e lealmente confesso que mais de uma vez hesitei sobre se devia pôr de lado o meu tentame, para não desrespeitar a estilização do autor, ou se devia acatar estritamente a ousada originalidade da forma, ou se me cumpriria conciliar essa originalidade com as exigências normais do idioma português.
Com efeito, a prosa do sr. J. H. Rosny, no Vamiré, abunda em vocábulos que, se não foram criados pelo autor, são, pelo menos, estranhos aos léxicos correntes da língua francesa; a adjectivação é, por vezes, de um arrojo, que deve ter feito calafrios à Academia Francesa; e o pensamento, de longe em longe, aperta-se em sínteses tão cerradas, que não ressalta facilmente a olhos desprevenidos.
Mas todas estas qualidades se relacionam, até certo ponto, com o estranho cenário que o Vamiré nos desenrola, com os cambiantes misteriosos da linguagem nascente, e com a vaga psicologia do homem primitivo. De maneira[{VII}] que poderá capitular-se de beleza o que, a revezes, se antolhe obscuridade e nimio arrojo ao leitor vulgar.
E, assim, eu próprio, seduzido porventura pelo brilho encantador da concepção do sr. Rosny, e pelo esplendor imprevisto da sua linguagem, reproduzi formas, que eu relegaria de trabalhos originais meus, mas que são características de um grande talento insubmisso, que se espraia, poderoso e intemerato, nas estepes e florestas do mundo pré-histórico.
Os puristas absolver-me-ão pois de uma ou outra condescendência com brilhantes ousadias, e os leitores de romances terão neste livro um salutar correctivo à romançada piegas, que entulha as livrarias, e desvela as noites da mocidade ingénua.
Lisboa, 1 de Janeiro de 1905.
C. de F.
[VAMIRÉ]
ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS
[I
Guerra nocturna]
Foi há vinte mil anos.
O pólo Norte defrontava com uma estrela da constelação do Cisne.
Nas planícies da Europa, ia extinguir-se o mamute, as grandes feras emigravam para o pais da Luz; a rena fugia para o setentrião. O auroco[[1]], o uro[[2]], o veado apascentavam-se na erva das florestas e das planícies. O urso colosso, muitos tempos antes, havia já passado além da região das cavernas.
Os homens da Europa, os grandes dolicocéfalos[[3]], achavam-se então disseminados desde o Báltico ao Mediterrâneo, desde o Ocidente ao Oriente. Habitantes das[{2}] cavernas, mais relacionados que os seus avós da idade da pedra, mas sempre nómadas, a sua indústria elevava-se, a sua arte era graciosa. Esboços traçados a buril fraco, tímidos mas fiéis, representavam a luta do cérebro no encalço do sonho, contra a brutalidade dos apetites. Séculos depois, com a invasão asiática, a arte decairá, e o gracioso tipo daquela indústria só reaparecerá ao cabo de longos períodos.
Era no Oriente meridional, na estação em que as plantas abotoam.
A noite ia em dois terços. Na claridade cinzenta de um grande vale, reboavam as vozes dos animais carnívoros. Nos intervalos de silêncio, um rio cantava a vida dos fluidos, a eufonia das ondas. Os amieiros e os álamos respondiam em murmúrios, em harmonias intermitentes. A estrela Vénus engastava-se no Levante. A teoria das constelações imortais descortinava-se entre as nuvens erradias; Altaír, Vega, a Carreta rodeavam lentamente a Polar do Cisne.
Em quanto a vida palpitava nas trevas, feroz ou apavorada, arrojada às festas e às batalhas do amor ou da alimentação, veio juntar-se-lhe um pensamento. À beira do rio, no pontal de uma rocha solitária, um vulto ressaiu da caverna dos homens, e ficou imóvel, taciturno, atento, olhando a revezes a estrela do Levante. Algum devaneio, algum esboço de estética astral, menos raro entre estes avoengos da arte do que em muitas populações históricas, preocupava o madrugador. O vigor e a felicidade palpitavam nas suas veias; o hálito da noite perfumava-lhe o rosto; e ele, na plena consciência[{3}] da sua força, fruía, intemerato, os murmúrios e a calmaria da natureza virgem.
Entrementes, por baixo da estrela Vénus, transpareceu um pequenino clarão. O alfange da lua apontou, os seus raios estenderam-se pelo rio e pelas árvores, entremeados de longas sombras. O homem exibiu então as suas formas de corpulento caçador, de ombros cobertos de uma pele de uro. O seu rosto pálido, pintado com traços de minio, era largo, sob um crânio alongado e resistente. A sua zagaia, de ponta córnea, projectava-lhe no corpo sombras em ziguezague; e na sua mão direita firmava-se uma enorme clava de carvalho.
Ao estirarem-se os raios lunares, a paisagem entrou numa existência menos selvagem. Nos amieiros, havia frémito de asas dos elitros brancos; na planície, nesgas entreabertas de paraíso; em todas as coisas uma palpitação sensível; tímidos protestos contra os pavores da sombra.
O homem, fatigado da imobilidade, caminhava ao longo do rio, com o passo cauteloso de quem procura presa. A quinhentos cúbitos, parou, à espreita, de zagaia firme, na altura da testa. Pela orla de um bosquete de bordos, aproximou-se um vulto ágil, um grande veado de dez pontas.
O caçador hesitou; mas a sua tribo devia estar muito provida de caça, porque o animal, sem ser perseguido, foi-se afastando, projectadas sobre a claridade avermelhada as pernas delgadas, a cabeça repuxada para trás, todo o gracioso organismo em carreira.
—Lô! Lô!—disse o caçador, num movimento de simpatia.[{4}]
O instinto predizia-lhe a aproximação de inimigo feroz, algum potente felino, que andaria caçando. Efectivamente, meio minuto depois, surgiu da banda de além da rocha dos trogloditas um leopardo, aos pulos, ligeiro como um raio. O homem preparou a zagaia e a clava, atento, de nariculas latejantes e nervos inquietos. O leopardo atravessou o rio como uma porção de escuma, e imergiu nas sombras da perspectiva. E todavia o delicado ouvido do caçador ainda, durante alguns minutos, percebeu os passos da fera sobre a terra mole.
—Lô! Lô!—repetiu ele, levemente comovido, numa atitude de provocação grandiosa.
Decorreram minutos. As pontas da lua tornavam-se mais nítidas; pequenos animais agitavam levemente as moitas da ribanceira; grandes batráquios coaxavam sobre as plantas fluviais.
O homem libou a simples voluptuosidade de viver ante a magnificência das grandes águas, a mesclada difusão dos claros e dos escuros; depois, afastou-se de novo, à escuta, de olhos afeitos às penumbras, espreitando as ciladas da noite.
—Hoi?—murmurou ele interrogativamente, refugiando-se na sombra de um moitedo.
Um rumor de galope, vago ao principio, aproximava-se, evidenciava-se. O veado reapareceu, tão rápido mas menos exacto na direitura da carreira, suando, de respiração alta, ofegante. A cinquenta passos, o leopardo, sem fadiga, gracioso, já triunfante.
O homem admirava, desgostoso, a pronta vitória do[{5}] carnívoro, com um desejo crescente de intervir, quando sobreveio uma peripécia terrível. Lá em baixo, à orla da moita de bordos, em pleno luar, ressaía um vulto maciço, em que, pelo rugido cavo, pelo salto de vinte cúbitos, e pela farta crina, o homem reconheceu a quase soberana fera,—o leão.
O pobre veado, desorientado pela surpresa, deu uma volta precipitada e desastrosa, retrocedeu, e achou-se logo sob as garras cortantes do leopardo.
Luta rápida, sangrenta; o arranco do veado agonizante; e o leopardo, sobressaltado, ficou imóvel: o leão aproximava-se tranquilamente. A trinta passos, estacou, com um bramido, sem preparar assalto. O leopardo quaternário, corpulento, hesitou, furioso de se lhe ter malogrado o esforço, e pensando em aventurar-se a combater. Mas a voz do dominador, agora mais alta, reboou pelo vale, dando sinal de ataque, e o leopardo cedeu, afastando-se vagarosamente, de cabeça voltada para o tirano, com um miar de raiva e de humilhação. O outro despedaçava o veado; devorava, a grandes pedaços, a presa roubada, sem pensar no vencido, que prosseguia na retirada, devassando a penumbra com os seus olhos de oiro-esmeralda.
O homem, a quem a vizinhança do leão aconselhava prudência, aconchegava-se cautelosamente no seu abrigo frondoso, mas sem terror, disposto para qualquer aventura.
Depois de alguns instantes de deglutição furiosa, o leão interrompeu-se: perturbação, dúvidas, transpareceram em todo o seu aspecto, no tremor da juba, no[{6}] espreitar angustioso. De repente, com a força de uma convicção, tomou o veado, deitou-o para as costas e pôs-se em fuga. Teria andado quatrocentos cúbitos, quando junto a orla, onde ele tinha aparecido, surgiu um animal monstruoso. Intermediário ao leão e ao tigre no aspecto e na forma, mas mais colossal, soberano das florestas e planícies, era o símbolo da força, erecto, sob a vaporosa claridade. O homem tremeu, abalado no intimo das suas entranhas.
Após ligeira pausa debaixo dos freixos, o animal prosseguiu na caça. Devastador como um ciclone, abrindo caminho sem esforço, perseguia o leão em fuga para o Oeste, enquanto o leopardo, parando, contemplava a cena. Os dois vultos foram desaparecendo, e o homem pensou em deixar o seu retiro porque o leopardo o inquietava pouco, quando a cena se complicou: o leão regressava obliquamente, por ter achado algum obstáculo, pântano ou fosso.
O homem sorriu, chasqueando o leão, por não ter calculado melhor a fuga, e retraiu-se para o seu esconderijo, porque os dois colossais antagonistas vinham na direcção dele. Como era natural, retardado pelo desvio e pelo peso do veado, o fugitivo perdia terreno.
Que fazer? O caçador estendeu a vista em torno de si: para alcançar algum choupo era mister galgar duzentos cúbitos e, além disso, o espeleu[[4]] trepava às árvores.[{7}] Quanto à rocha dos trogloditas, ficava ainda a uma distância dez vezes maior. Preferiu sujeitar-se à ventura.
A sua hesitação foi rápida.
Em dois minutos, as feras atingiam a beira do seu retiro. Ali, o leão, vendo que a fuga era inútil, deixou cair o veado, e esperou. Foi um momento de tréguas, uma suspensão como a de há pouco, quando o leopardo segurava a presa. Em volta, o silêncio, a hora da anunciação, a hora em que os nocturnos vão dormir e os diurnos renascem para a luz. Claridades de sonho, cimos de árvores embebendo-se em algodoamentos pálidos, guarnições de graminias lanceoladas meneando-se ao sopro hesitante do Poente, e, por toda a parte, o vago, o confuso, a emboscada da natureza, feita de fronteiras arborescentes, de clareiras, de faixas cetinosas de céu.
Lá em cima, os astros despertos, o salmo da eterna vida.
Sobre um montículo, o espeleu recortava na claridade lunar o seu perfil altivo de dominador, a crina pendente sobre uma peladura mosqueada de pantera, a testa chata, as maxilas proeminentes,—rei outrora da Europa cheleana, em decadência hoje, reduzida a estreitas faixas de território. Mais abaixo, o leão, de respiração rouca, a pesada garra assente sobre o veado, hesitante em face do colosso, como pouco antes o leopardo diante dele, uma fosforescência nas suas pupilas, mesclada de receio e cólera. Na penumbra, já familiarizado com o drama, o homem.
Um rugido surdo se espraiou; o espeleu sacudiu a[{8}] crina e começou a descer. O leão, em recuo, de dentes descobertos, largou por dois segundos a presa; depois, desesperado, estimulado pelo orgulho, voltou com um rugido mais estrepitoso que o do seu adversário, e assentou de novo a garra no veado.
Queria dizer que aceitava o combate. O espeleu não obstante a sua força prodigiosa, não respondeu logo. Parado, acuado, examinava o leão, calculava-lhe a força e a agilidade. O outro, com a altivez da sua raça, conserva-se de pé, de cabeça erguida. Novo rugido do agressor, uma réplica retumbante do leão, e achavam-se a um salto de distância.
—Lô! Lô!—murmurou o homem.
O espeleu transpôs a distância, a sua garra monstruosa levantou-se ante as unhas do inimigo. Por dois segundos, a pata ruiva e a pata mosqueada defrontaram-se num armistício final. Depois, o ataque, uma confusão de crinas e maxilas, bramidos ferozes, enquanto o sangue escorria.
Ao principio, o leão dobrou-se, sob o tremendo assalto. Desembaraçado em seguida, fez um salto transversal, atacou de flanco e a batalha tornou-se indecisa, amortecido o arrojo do espeleu. De repente, o frenesim dos organismos, a agitação dos músculos de bronze, a indecisão de esforços malogrados, o revoltear das crinas ao clarão da lua, um despegar de carnes igual às palpitações de uma onda no mar, a escuma das goelas e a fosforescência das pupilas fulvas, bramidos semelhantes ao restrugir das tempestades nas franças dos carvalhos...[{9}]
Finalmente, o leão, ferido por um golpe terrível, caiu, rolando; e o espeleu, como um raio, atirou-se sobre ele e começou a rasgar-lhe o ventre.
Debateu-se o leão, rugindo medonhamente. Conseguiu porém levantar-se ainda, de entranhas pendentes e juba ensanguentada. Compreendendo não só a impossibilidade de fugir, senão também que o outro não se apiedaria dele, fez rosto sem fraqueza, e reentrou no combate com tal fúria, que, durante minutos, o espeleu não pôde dominá-lo.
Mas o desenlace aproximava-se, as forças do vencido decresciam rapidamente: dominado de novo, deitado em terra, veio o suplicio, o encarniçamento do mais forte, as vísceras do leão arrancadas, os seus ossos partidos entre arpéus poderosíssimos, a sua face triturada e disforme..., e os rugidos da agonia, repercutidos através do horizonte, cada vez mais roucos, mais débeis, transmudados logo em suspiros, em estertores, em tremor de vértebras... Enfim, uma convulsão de garganta, um arranco lamentoso, e o soberano animal expirava.
O espeleu encarniçou-se no cadáver, na carne ainda vibrante, com a voluptuosidade da vingança e o receio de uma ressurreição. Por fim, assegurando-se de que era infundado o receio, repeliu desdenhosamente o cadáver, celebrou com um rugido o seu triunfo e o seu repto às penumbras, com as espáduas e tórax sangrando de largas chagas.
Rompia a manhã. Ao fundo do horizonte, uma viva filtração de prata, o arco da lua esmaecendo, evaporando-se.[{10}]
O espeleu, depois de lamber as feridas, sentiu que a fome voltava, e caminhou para a carcaça do veado. Cansado, muito distante do covil, procurou um retiro, onde pudesse comer, à sombra. A moita próxima, em que se abrigava o caçador, atraiu o seu olhar, e cuidou de arrastar para ali a sua presa.
Entrementes, fascinado pela magnificência do combate, o homem contemplava ainda o vencedor, quando viu que ele se dirigia para a moita.
Um estremecimento de espanto e de terror lhe percorreu o corpo, sem lhe tirar o instinto da luta e do cálculo.
Pensou que, depois de tal combate, e ávido de descanso e de alimento, o espeleu não o inquietaria naquele retiro.
Entretanto, não tinha disso a certeza; recordava as lendas dos velhos, referidas em noites veladas, o ódio do espeleu contra os homens. O grande felino, raro já, em decadência contínua, parecia ter o instinto do papel dos primatas para a extinção do homem, e satisfazia o seu rancor desordenado, sempre que se lhe deparava um individuo solitário.
Ao tumultuarem-lhe no cérebro estas lembranças, o homem hesitava sobre o que, em caso de ataque, seria preferível: se o abrigo, se a planície rasa. Aquele amorteceria o ímpeto da fera; a planície tornava mais fácil o tiro da zagaia e os golpes de clava.
A hesitação não podia durar muito: o espeleu começava a afastar a folhagem da moita. Decidida rapidamente a escolha, o homem deu um salto, e saiu por[{11}] um atalho, em ângulo recto com a linha que o monstro seguia.
Ao agitarem-se os ramos, o espeleu inquietou-se, rodeou a moita, e, vendo surgir um vulto humano, rugiu. Ante esta ameaça, desvanecida qualquer tergiversação, o caçador, de músculos ágeis e destros, ergueu a zagaia e apontou. A arma vibrou, seguiu direita o seu caminho e foi cravar-se no pescoço do felino.
—Eô! Eô!—gritou o homem, brandindo a clava com ambas as mãos.
Depois, tornou-se imóvel, firme, belo gigante, herói das idades de luta, de olhar lúcido.
O espeleu avançou, calculando o salto. O homem, com uma destreza maravilhosa, fez um movimento obliquo, deixou passar o monstro, a sua clava desceu como um martelo formidável, e estalaram vértebras. Um rugido estrangulado de pranto, a queda, a imobilidade imediata do colosso; e o homem repetiu vitorioso o seu grito de guerra:
—Eô! Eô!
Continuava todavia na defensiva, temendo a repetição do ataque, contemplando a fera, os seus grandes olhos amarelos, abertos, as suas garras do comprimento de meio cúbito, os seus músculos enormes, as suas goelas escancaradas e ainda cheias do sangue do leão e do veado, todo aquele admirável organismo bélico, de ventre pálido, sob a pelagem amarela, mosqueada de negro...
Mas estava bem morto o espeleu, e já não tornaria a encher de pavor as trevas.[{12}]
O homem sentiu no peito um grande bem-estar, uma plenitude de orgulho dulcíssimo, uma dilatação de personalidade, de vida, de confiança em si, que o pôs nervoso e contemplativo, ante as flores que a aurora iluminava.
As musicas e a brisa da manhã ergueram-se ao mesmo tempo no horizonte. Os animais diurnos foram abrindo as suas pupilas, as aves pipilaram de encantadas, voltando-se para o Levante, entumecidas as suas pequenas cornamusas. Sob transparente névoa, o rio parecia de estanho levemente embaciado; depois, mergulharam nele os esplendores do vapor e nele se reflectiu um mundo de formas e matizes. Os cimos dos grandes choupos e das pequenas graminias da planície estremeceram, ao mesmo hálito quente de vida. O sol já se elevava acima da floresta distante, e os seus raios estiravam-se pelo vale, entremeados de sombras de árvores delgadas e intermináveis. O homem estendia os braços, numa religiosidade vaga, sem culto determinado, compreendendo a força e a eternidade do sol, e o efémero da sua personalidade. Depois, teve um grito, o seu grito de triunfo:
—Eô! Eô!—
E, à borda da caverna, apareceram os homens.[{13}]
[[1]] Espécie de uro. Os franceses chamam-lhe auroche, palavra alemã, de auer, planície, e ochs, boi. (N. do trad.).
[[2]] Espécie de boi selvagem. (N. do trad.).
[[3]] Homens de crânio oval. (N. do trad.).
[[4]] Corpulento animal felino dos tempos pré-históricos, felis spelaca.
[II
A horda]
Aos sorrisos da manhã, quando a aragem afagava, regeneradora e voluptuosa, o rio e a planície, os tições da primeira refeição extinguiam-se à beira da caverna dos homens.
A árvore-sepulcro[[5]] de cem cúbitos de alto, estendia os seus braços, cheios de esqueletos pálidos, de trogloditas extintos. Ao frouxo embate da viração, o ossário aéreo emitia cânticos suspirosos, eufonias silábicas; e um velho, apoiando o tronco em os calcanhares, punha os olhos présbitos em tais ou tais crânios que surgiam de entre as sombras ramusculares, reconstruía mentalmente os anais de tal ou tal caçador glorioso, de tal[{14}] ou tal companheiro da mocidade, devorado pelo nada.
A horda de Pzanns, espalhada, ressentia-se do encanto daquela hora. As crianças saltavam pelo campo, até à fronteira das águas; entre os salgueiros, misteriosamente, alguma rapariga semi-nua avivava a sua frescura e os seus enfeites, enlaçava as ondas fulvas dos seus cabelos; os homens compraziam-se em projectos de caça ou de trabalho, quase todos corpulentos e musculosos, de crânios alongados e cheios de energias belicosas. Em tigelinhas de sílex, alguns guerreiros moíam e misturavam o minio vermelho com medula de uro, e pintavam o rosto e o peito com um fino pincel de fibras: parábolas mal-feitas, fios entre-cruzados, vagas representações do natural, pequenos anéis, traços irradiantes. Outros prendiam aos joelhos, ao pescoço, à testa, aos pés, ornatos bárbaros, pingentes de caninos furados à nascença, (dentes de leão, de lobo, de urso, de auroco, de veado), vértebras de peixe, cristais com reflexos de ametista, seixos gravados, e a miúda joalharia marinha: a porcelana-lúrida, lapas, litorinas.
A horda representava uma humanidade já propensa ao ideal, industriosa e artista, caçadora mas não belicosa, que aceitava o mistério das coisas sem ter ainda conhecido culto, dominada apenas por vagos simbolismos. Eram filhos da grande raça dolicocéfala, dominadora da Europa quaternária, vivendo em paz, de horda para horda, estranhos à degradação da escravatura; caracterizava-os uma nobreza rude, uma grandeza e uma bondade que não mais se encontrarão no decurso da[{15}] neolítica[[6]]. Eram largos os seus campos e tão ricos de alimentos, que ainda não surgira o instinto de apropriação directa nem sombra de astúcia vil. Os condutores de tribo, sem autoridade efectiva, livremente escolhidos e seguidos, por virtude da sua seriedade e experiência, ainda não haviam entronizado o despotismo. Unicamente as questões de amor e rivalidade manchavam, algumas vezes, a terra com o sangue de homem, derramado por homem...
Terminada a refeição e dispostos os enfeites, começou o trabalho das mulheres e dos homens que não entravam na caça desse dia. Ah desde o sílex de Thenay[[7]], desde o taciturno antropopiteco, agora que no seio da fauna ia surgir o antepassado cheleano, quantas fronteiras ultrapassadas, dentro do universo cerebral!—divisão do trabalho, tradição de utensílios, soberania da natureza, organismo multiplicador das forças humanas, esboços artísticos...
Com delicada agulha, muitos cosiam pelicas, depois de abrir nelas pequenos orifícios com um punção de pedra; outros, com polidor e raspadeiras trabalhavam em peles frescas; alguns, em bancos de pedra ou de madeira, ao ar livre, martelavam, afiavam as machadas,[{16}] as facas, as serras, os burís. O corte, fazendo saltar pequenas estilhas, e feito com uma destreza e paciência admiráveis, deixava aparecer, lentamente, as lâminas e as pontas, e mui raramente o artista deixava de descobrir as direcções convenientes à percussão, familiarizado com a matéria, dotado da previsão que se adquire com a longa prática. Tarefa mais delicada ainda, contornavam outros as pontas, os anzóis, os arpéus de osso e corno, munindo-se de utensílios finos e perfeitos, tais que a humanidade não poderá excedê-los, senão em passando da pedra para o metal.
Sobretudo a agulha revelava uma engenhosa indústria: esquirolas arredondadas por meio de sílex denteado e com entalho; polidura e alisamento com grés fino; escavação do fundo na ponta curva, com uma lentidão calculada, com mil perigos de se partir a obra.
Em quanto os trabalhos começavam, um grupo de caçadores reunia-se junto da caverna.
Ao rochedo mais alto subiu um moço, de olhar penetrante, a explorar as perspectivas. À sua esquerda, sob reflexos de ametista embaciada, frouxa e vaga, a floresta esbatia-se no horizonte, prolongando-se até o rio. Em frente, os valeiros, as quebradas das estepes, a ondulação suave dos outeiros, oásis semelhantes a nenúfares num pântano, o espelho sinuoso das águas fecundas. Atrás, perdida na poeira da tíbia claridade das nuvens, a região das montanhas; e por toda a parte perfis diminutos de animais pascendo em planícies: o caçador contou uma horda de cavalos e um rebanho de uros.[{17}] Com uma voz atroadora, anunciou-os aos seus companheiros, traçando com o dedo a direcção da caça. Àquele aviso, todos tomaram as armas: o arco, o arpéu, a zagaia, a clava. Depois, no momento da partida, a velho chefe, lançando um olhar em roda, bradou:
—Vamiré!—
Então, no portal das grutas, apareceu o moço que vencera o espeleu. Hesitou entre o desejo de prosseguir na preparação da manta que talhara na pele do monstro e que começara na véspera, e o desejo da caça. Decidiu-o a mocidade, a atracção dos vales rejuvenescidos, as exclamações dos seus companheiros. Reentrou na caverna, e reapareceu logo, armado de arco e clava, e o bando pôs-se em marcha para o Norte. Cheios de vivacidade ao principio, excitados os cérebros bárbaros pela marcha e pelas belezas matinais, foram-se tornando depois silenciosos.
De súbito, um rebanho de uros apareceu-lhes no alto de uma colina. Os grandes herbívoros espalhavam-se em triângulo, em número de muitos centenares, numa área de dois mil cúbitos. Os toiros, de flanco leonino, crânio volumoso e pelo avermelhado, circulavam, a passos lentos, entre as fêmeas e os machos tenros. Aquele rebanho enorme realizava um esplendor de vidas tranquilas, de majestade pacifica e de força social. À voz do condutor, (um toiro colossal, postado no ângulo mais agudo do triângulo), os outros machos agruparam-se para o combate. Uma inteligência selvagem,—inteligência atrofiada, entre os seus irmãos da Ásia,[{18}] por uma servidão que já existia desde muito,—tornava-os aptos para a táctica, para a espontaneidade.
Os caçadores pararam. Encobertos por um cabeço, discutiam o plano de ataque. A configuração do terreno e a situação das feras davam lugar a duas alternativas: atacá-las, ao mesmo tempo, à direita e à esquerda, aproveitando a série de outeiros transversais, ou contornar a planície, e surgir lá de baixo, a duas léguas, de uma densa mata de figueiras silvestres.
Depois de alguns minutos, a maioria optou pelo primeiro método, porque o outro, embora mais produtivo em caso de bom êxito, era evidentemente menos seguro, podendo qualquer pânico afastar os uros, antes de serem assaltados.
O bando dos caçadores dividiu-se em dois troços, guiado um pelo velho que empunhava um bastão de comando com esculturas, e o outro dirigido por um colosso de idade madura.
De ambos os lados, a marcha foi organizada segundo as regras, utilizados sabiamente os acidentes do terreno; e a horda do velho, avançando rapidamente, aproximava-se, estava já a distância de tiro, quando o grande uro condutor pareceu inquietar-se. Erguendo a cabeça vermelha, constelada de luas brancas, farejou o horizonte, e ficou suspenso numa perscrutação profunda. Depois, a sua voz ergueu-se, bela e grave, como a voz dos leões. Os herbívoros dispersos assustaram-se, e concentraram-se. Um minuto de duvida; um estremecimento de espinhaço; a convicção enfim de que estava próximo o inimigo, o implacável inimigo[{19}] vertical, tão conhecido das feras; e logo o sinal de fuga, a partida inopinada da enorme caravana, acelerando-se num trote, que fazia latejar o vale.
Renunciando o ardil, os trogloditas subiram a cadeia de outeiros que os encobria, os mais ágeis apareceram na cumeeira; mais de dez tiros de arco os distanciavam dos retardatários do rebanho de uros. Estes andavam rápidos, sem estorvo dos novilhos; mas, desde o primeiro assalto dos caçadores, era evidente que a expedição chegava ao seu terreno. Os mais ardentes, verdadeiros bárbaros de raça vitoriosa, sem cálculo, empenhavam-se numa luta de emulação, insensíveis à palavra dos guias. Em poucos minutos, três de entre eles chegaram a menos da distância de um tiro, e as frechas silvaram, um toiro caiu, outro urrou formidavelmente.
—Eô! Eô!
Partiram outras frechas. Ficou estendido um toiro e depois uma fêmea; cinco caçadores tinham os uros ao alcance de tiro.
Então, sacrificando-se, dois dos bovídeos machos fizeram alto. Escarvando o solo por um minuto, e fixando no espaço os grandes olhos perturbados, arrojaram-se à luta, nobres protectores da sua raça.
Mais frechas; mais golpes profundos; mas as belicosas alimárias não pareciam senti-los, cada vez mais próximas sempre, sempre mais ferozes. Confiados nas pernas, os caçadores dispersaram-se, pela maior parte; mas dois moços, entre-olhando-se, e dominados por um orgulho de valentia e destreza, esperavam imóveis. Os outros então, facto curioso, fizeram semicírculo.[{20}]
O primeiro toiro, de cerviz baixa, e com uma velocidade terrível, correu directamente contra o mais alto dos moços caçadores. Este, com um movimento elegante, pôs-se de esguelha e cravou a sua lança na ilharga do toiro.
Sangrado, o animal parecia desfalecer, mas voltou de soslaio, menos ligeiro e mais cauteloso. Mas nem por isso evitou melhor o bote: a arma entrou-lhe de novo nas entranhas, mais penetrante, mais cruel.
Cambaleante, ajoelhado, o uro pareceu vencido, em posição de receber o golpe supremo.
Mas, no momento em que a lança se levantava de novo, ele ressaltou, e com o corno esquerdo levantou o homem. Levado na parte convexa daquele crescente e não na ponta, o guerreiro desembaraçou-se a tempo, e o seu terceiro golpe, decisivo, em pleno coração, assegurou-lhe a vitória.
—Terann matou o grande uro,—rugiu ele.
Ao lado, a luta empenhava-se de outra forma. Quando Terann aniquilava o seu adversário, outro toiro se arrojava contra o caçador da clava.
Postado em frente, temerário, o homem desceu a arma e julgou esmigalhar o crânio da alimária. Mas, vindo de lado, e por um desvio de cornadura, a pancada não sortiu todo o efeito; e o toiro, precipitando-se como um raio, arrastava o nómada pelo espaço de dez cúbitos.
Inerme, maltratado, espezinhado, viam-se já as entranhas do desgraçado, e ouvia-se-lhe o estalido dos ossos.[{21}]
Depois o sangue jorrou: feridas enormes esburacaram o peito; e, na perturbação dos caçadores, apenas algumas frechas soaram dos arcos, despedidas pelos melhores archeiros. Depois ainda, como o toiro se encarniçava no corpo do vencido, muitos arrojaram-se com grande clamor.
A monstruosa alimária não os esperou.
Convicta, talvez, de que morreria, mas desejando cair como guerreira, marchou altivamente contra os assaltantes. Nuvens de dardos foram embeber-se nos seus belos flancos, sem lhe sustar a velocidade, e prontamente atingiu um novo antagonista, um velho que fugia sem agilidade, e lançou-o por terra.
Baixando a cornadura, dispunha-se a arrebatá-lo, mas um tiro de zagaia nas espáduas do uro salvou o homem e o flexível perfil de Terann veio interpor-se.
—Terann! Terann!—clamaram os caçadores. Terann evitou o ataque do uro; mas o seu segundo tiro, mal dado, roçou apenas uma omoplata.
Por sua vez, rolou pelo chão; por sua vez, viu baixarem-se as agudas e velozes pontas da cornadura, e todos o julgaram perdido. Mas, de repente, ágil como o salmão que sobe um rio, apareceu, de clava erguida, Vamiré. Teve apenas tempo de retirar Terann e arrojá-lo ao acaso, enquanto os trogloditas bradavam:
—Vamiré é forte como o mamute!—
Com um aceno, Vamiré desviou qualquer auxilio. Depois, colocando-se a seis cúbitos do toiro, falou-lhe assim:
—Retira-te, valente..., tão digno de viver e de[{22}] conservar a grande raça dos uros, tão digno de pastar por muito tempo as boas ervas da planície.
Imóvel, o bovídeo fitava no caçador as suas largas pupilas azuladas; e uma piedade misericordiosa segredava, na alma de Vamiré, penas por aquela grandiosa alimária, sacrificada à fatalidade das lutas. Entretanto, triste, já sem arrojo e com as artérias exaustas, o toiro baixava ainda a cornadura, aguardando o ataque do homem. E Vamiré prosseguiu:
—Não, valente..., Vamiré não tocará no grande uro vencido... Vamiré sentiria que as planícies ficassem privadas do valente, que pode proteger a sua raça contra o leão e o leopardo...
Dobrado sobre os joelhos, o uro parecia escutar o caçador, num sonho dilatado e vago. Depois, a sua cabeça oscilou, um eco débil de rugido estremeceu-lhe na garganta... O toiro prostrou-se, as suas pálpebras entrecerraram-se, e o seu último alento exalou-se sobre as gramíneas.
Assim findou a caça, numa grave tristeza; e os cinco uros, que jaziam dispersos na planície, haviam custado a vida a um filho dos homens, porque se viu que Vanhab, filho de Djeb, acabava de restituir o seu ser às coisas. E os guerreiros Pzanns ainda uma vez reconheceram a força e a coragem do uro; mas, por um sentimento de indefinida discrição, sentiam agora mais amargura que cólera. Associados às últimas palavras de Vamiré, sabiam que a existência do herbívoro é necessária à dos homens; e é por este profundo sentimento que eles, muitos milhares de anos antes da domesticação[{23}] da alimária, tinham aprendido a dispor moderadamente de qualquer vida, salvo da dos carnívoros e parasitas, e a mostrar-se generosos com os uros valentes, para que as hordas de veados, os rebanhos de bovídeos e as caravanas de cavalos estivessem fortalecidas contra as grandes feras.[{24}][{25}]
[[5]] Refere-se o autor à árvore, que os nómadas escolhiam, para nela dependurar os esqueletos dos seus mortos. (N. do trad.).
[[6]] Segundo período da idade de pedra, chamado também idade da pedra-polida.
[[7]] Os sílex de Thenay são os primeiros e os mais grosseiros vestígios da indústria humana, atribuídos a uma espécie de homem-macaco ou antropopiteco, precursor do nosso antepassado da época cheleana.
[III
O funeral de Vanhab]
Ao cair da tarde, transformado o sol num braseiro circular, os velhos surgiram da caverna, seguidos pela melancólica horda.
Dois guerreiros moços transportavam o cadáver de Vanhab; e o vermelho clarão do sol poente, sobre o pálido crânio e através da caixa toráxica, caía como um símbolo de profunda amargura, avessa a um dia primaveral, sobre as ruínas de um moço que desaparecera para sempre no abismo das metamorfoses.
A horda desfilou lentamente através da planície, e os lamentos surdos da esposa e da mãe interrompiam a taciturnidade da cena.
Quando subiram a colina e chegaram à árvore-sepulcro, viu-se um velho colocar-se ao pé de Vanhab, e todos aguardaram a sua fala, porque tinha fama de saber falar aos outros homens.
O velho conservou-se imóvel por algum tempo, para que lhe chegassem à memória coisas antigas, confusas[{26}] sínteses adquiridas pela sua raça que, dominada pela natureza, ainda não tinha concebido mistério algum além das formas materiais. E falou:
—Homens... Vanhab, filho de Djeb..., nascido entre nós..., era um caçador intrépido e um trabalhador destro. O uro, o leopardo, a hiena, conheceram-lhe a força... Retalhou os despojos de alimárias, e deles fez vestidos e armas... Fabricou utensílios da pedra beneficente... Homens... Vanhab, filho de Djeb, saiu da vida..., não caçará mais, não mais despojará a alimária, nem mais fabricará utensílios da pedra beneficente... E porque era um companheiro fiel e prudente..., nós deploramos Vanhab, filho de Djeb.
—Nós deploramos Vanhab, filho de Djeb,—repetiram as vozes da horda.
Depois, houve pesado silêncio, e as cabeças dos trogloditas ergueram-se para ver subir à árvore-sepulcro um ágil caçador, que passou de ramo em ramo, por entre os esqueletos dos avoengos. Quando chegou a um ramo livre, suspendeu-se Vanhab, filho de Djeb, ao cordão entrançado, em cuja extremidade pegava o trepador, e os restos do finado subiram por entre a folhagem.
Do horizonte morno e do grande zénite manava uma languidez tão doce, um sopro de vida tão encantador, e uma majestade tão serena, que os companheiros de Vanhab, sua mãe e sua viuva esqueciam a dor e o terror da morte.
O cadáver, seguro enfim, oscilou um pouco, e a horda começou a debandar sob a penumbra do crepúsculo.[{27}] Nos pontais das suaves colinas, à beira do rio, as naturezas contemplativas viram repartir-se a luz em mil figurações efémeras.
Dentro em pouco, debaixo da árvore, havia apenas o núcleo dos companheiros íntimos e dos parentes.
A sombra sucedeu aos esplendores do céu. Mais um dia desapareceu nas profundezas do passado. Mais uma noite desenrolou o manto do infinito.
Impressionados então, com imaginações embrionárias, com o pensamento da morte e da noite associadas, os humildes pré-históricos, fiéis a Vanhab, juntaram um sonho aos milhões de sonhos, de que nasceram os cultos, de que nasceram as alianças do terror, do sobrenatural e da imortalidade.
Entretanto, a jovem esposa estava prostrada sobre a erva, com os cabelos esparsos sobre as gramíneas, como as flores dos salgueiros que choram sobre os nenúfares dos lagos; e Terann, o vencedor, amigo de Vanhab, apiedou-se dela e sentiu estremecer o coração, porque o cabelo da mulher era formoso e o seu pescoço arredondado e branco, à claridade final do dia.
Terann teve então palavras doces, e ela ergueu os olhos... Ponderou que Terann era forte entre os fortes, e sem ferocidade para as mulheres e crianças. E, quando as trevas se cerraram, ficou um ao lado do outro, sem movimento, sem palavras, mas sentindo raiar em si um porvir, enquanto os lobos vagueavam na planície, e a hiena gargalhava à borda do rio, e os grandes carnívoros sentiam dilatar-se-lhes a força.[{28}][{29}]
[IV
A ilhota]
Vamiré, filho de Zom, não obstante a sua juventude, era o assombro da horda dos Pzanns. Caçador experto e valente, belo de estatura e forte como o auroco, possuía também os dons misteriosos da arte. As formas do animal e da planta cativavam a sua imaginação.
Era daqueles que divagam sozinhos sobre as colinas e que cruzam a floresta, ou vogam pelo rio, ou se embebem nas trevas, pelo jubilo de surpreender as coisas secretas.
De homens tais não motejavam os dolicocéfalos da Europa, antes estimavam profundamente Vamiré, porque sabia manejar o buril que grava no osso e no corno, e o cinzel, e o formão que desbasta a madeira e o marfim.
Apaixonado pela sua arte, tornara-se o mais famoso dos artistas entre as tribos que, na primavera, chegavam ao Oriente meridional.
Durante dias e semanas inteiras, saía do meio dos[{30}] seus companheiros, explorando solidões, trabalhando em algum retiro longínquo; e os artefactos que ele trazia das suas excursões eram o espanto da sua horda. Nem Zom seu pai, nem Namir sua mãe, se inquietavam muito com essas ausências, porque muito fiavam da fortuna do filho.
Ora, um dia de manhã, embarcou ele, e foi, rio abaixo, na sua pequena embarcação, que estremecia à menor ondulação das águas, cortadas pelo remo.
À proporção que ele perdia de vista a caverna dos trogloditas, o rio era mais largo e menos profundo, e grandes pedaços de rocha dificultavam a navegação, vestidos de musgos e líquenes. Havia ali o hino das águas extensas, o baixo grave da corrente, os rumores da pedra batida da água, um encanto de ressonâncias, às vezes penedos dispostos com simetria arquitectural em galerias abertas aos quatro ventos, nas quais soluçavam vozes de abismo.
Até às margens virgens chegava a floresta, orlada de salgueiros frágeis, povoada de choupos grisalhos, freixos plangentes, bétulas nos cabeços; atrás, a população de árvores gigantes, o cosmos dos cipós e das plântulas em briga, o mistério da natureza criadora, forças livres, a renascença sobre o hino milenário, numa penumbra de templo e de emboscada, onde palpita eternamente a alegria, o terror e o amor.
Vamiré largou os remos, dominado pela solenidade do espectáculo, encantado pela vacilação das sombras das árvores sobre a água, pelo perfume agreste da paragem, enquanto por entre varas e ervas iam passando[{31}] focinhos de herbívoros, e bandos de esturjões subiam a corrente, roçando os penedos erráticos.
Entrementes, apareceu uma ilhota.
Vamiré pôs-se a remar, e foi amarrar a canoa numa angra, entre salgueiros, no limite meridional da pequenina ilha. Batráquios, galinholas, e um adem espantaram-se. Vamiré desviou a folhagem e achou-se numa clareira, onde a terra parecia calcada e as ervas silvestres mondadas intencionalmente.
Sorrindo ligeiramente, Vamiré meteu a mão na cavidade de um ameeiro, e tirou de lá raspadeiras, lâminas, pontas de sílex, pedaços de osso, de corda, de madeira de carvalho.
Ficou por um instante em contemplação diante de uma estatueta, indecisa ainda, cuja cabeladura, testa e olhos estavam quase concluídos; e deixou-se tomar de uma beatitude religiosa, estética:
—Estará concluída, antes da lua cheia.—
Depois, arrojou o manto, foi à canoa buscar os dentes e os ossos que tinha levado, e, por muitos minutos, hesitou sobre se continuaria a estatueta, ou se trabalharia em gravuras.
Tentavam-no principalmente os caninos do espeleu. Pegou neles uma e muitas vezes. Piscando os olhos e apertando os lábios entre os incisivos, esboçou com a ponta do buril de sílex contornos imaginários. Depois, espalhando a vista em redor, e passeando pela ilhota, pareceu buscar algum modelo,—árvore, ave, peixe.
Apanhou numa enseada um grande ranúnculo aquático de corola pálida, e examinou-o atentamente.[{32}]
Uma doçura inteligente, a subtileza de estar em contacto cerebral com a natureza, uma concentração de artista, avincavam-lhe a fronte e as pálpebras. Grandes pétalas de verniz suave, anteras tenuíssimas, pedúnculo matizado de rosa, tudo isto ele apreciou, como amante da forma, com a sua retina voluptuosa, mas principalmente as linhas terminais, os contornos que o seu buril poderia reproduzir, as fronteiras da flor.
Fixando-a no solo e escorando-a com ramúsculos, tentou restituir-lhe a posição natural e aguçou o seu utensílio.
Finalmente, tomando um dos caninos do espeleu, e profundamente absorto, gravemente apaixonado, começou a traçar um ligeiro perfil, um esboço do ranúnculo.
Firme, e de bom tacto, a sua mão musculosa de atleta prestava-se ao trabalho artístico; entreviam-se já uns traços graciosos, o desabrochamento das pétalas, os pontos das anteras sobre as débeis hastezinhas.
Comovido, Vamiré quedou-se, de olhos meio cerrados e lábios mais nervosamente apertados entre os incisivos: os minutos foram bem empregados; a flor aparecia belamente sobre o fino marfim.
O homem riu-se em voz baixa e cruzou os braços sobre o peito. Em seguida porém, descontente de alguns traços, apagou-os com a raspadeira, recomeçou-os, até que surgiu a contrariedade, a luta, o momento em que o trabalho se torna pesado, eivado de cólera. Com gestos de criança-colosso, exprobrações à matéria, descaídas de braços ao longo do tronco, duas ou três vezes largou o buril.[{33}]
Mas a obstinação da sua raça fazia-o retomar o trabalho, até que terminou o esboço, corrigindo as linhas imperfeitas.
Cansado, então, ergueu-se, e não quis olhar mais para a sua obra. Abatido diante da natureza, sentiu que a melancolia lhe invadia o cérebro.
Demorou-se largamente à beira do rio. Era a grande estação fecundadora: as águas enchiam-se de uma nuvem de animais inferiores, muitos dos quais vinham do mar, subindo as correntes. As enchentes do equinócio haviam cessado mais de um mês antes, e raramente se avistavam ramos e troncos de árvores desarraigadas.
Chegou o meio dia, o grande sol, as sombras diminuídas, o ar trémulo de calor, colunas de ar ascencionais; mas, na lentura da ilhota, debaixo dos salgueiros e ameeiros frescos, era deliciosa aquela hora.
Além, na margem distante, mostrou-se um grande animal cornígero, em que Vamiré reconheceu o auroco. Vamiré adiantou-se, sem pressa, até à beira do rio ao longo de uma espécie de molhe.
O coração do caçador palpitou, à vista do enorme mamífero. Admirou-lhe a cabeça larga, inclinada sobre o rio, as pernas altas, o peito musculoso:
—Eô! Aqui está Vamiré!... Vamiré!—gritou ele ao animal, com voz retumbante.
O auroco levantou a cabeça, assombrado, e o nómada repetiu:
—Vamiré consente que vivas!—
O auroco, acabando de beber, afastou-se.
Vamiré tinha levado, para conservação sua, uma[{34}] posta de uro, previamente assada. Deglutiu-a, estendeu-se no chão e adormeceu.
Passado tempo, um rumor acordou-o em sobressalto. Vamiré viu fugir meia dúzia de ratos aquáticos.
Levantou-se de um salto, estremunhado, e pensou logo na gravura incompleta do canino. Quando a retomou, foi agradável a sua surpresa: em vez do esboço duvidoso que ele imaginava, era um bosquejo firme, exacto, de linhas elegantes.
Pegou no buril, aprofundou cuidadosamente os contornos; depois, fazendo um buraco para suspensão, na raiz do dente, sorriu de alegria diante do seu novo e belo artefacto. Apenas, por aquele dia, o seu poder criador achava-se esgotado: tentou em vão retomar a estatueta: um enfado invencível, uma desabilidade contínua, acompanhavam cada um dos seus esforços.
Descoroçoado, repôs os seus materiais e os seus utensílios na cavidade do ameeiro e ergueu a vista ao firmamento, para calcular a hora. A noite vinha ainda longe, o sol ia a meio caminho do Poente, se bem que a fresquidão se sentia já no prolongamento das sombras.
Os nemóceros zumbiam em colunas, e por cima da floresta iam-se formando nuvens translucidas.
Então um aborrecimento pesou no coração do dolicocéfalo,—um aborrecimento de saúde opulenta, de força acumulada. Esvoaçaram no seu crânio desejos indefinidos, desejos de caça, de trabalhos perigosos, de procriação.
Tentavam-no as regiões de além, a jusante do rio. Desconhecidas pelos da sua raça, excitavam-lhe a curiosidade[{35}] rude, audaciosa e pueril. Porque não havia de ir vê-las? Na sua juventude intrépida, propensa a ásperos empreendimentos, acostumada aos errores solitários, no seu cérebro de artista, de imaginação ardente, aquele desejo engrandeceu-se, definiu-se.
Inspeccionou então cuidadosamente as suas zagaias, a sua clava, o seu arpéu duplamente denteado; assegurou-se de que nenhuma veia de água ameaçava a sua canoa, e, retomando o remo, embarcou de novo.
À proporção que ele se adiantava remando, a floresta tornava-se cada vez mais densa, as margens menos definidas, formadas de humo viscoso de aluviões movediças, de escombros silvestres. A água, mais escura, era também mais vagarosa; os penedos já não apareciam; velhas árvores de mil anos erguiam-se de espaço a espaço; grandes répteis dormiam nos promontórios; e a gritaria dos papagaios encobria os murmúrios augustos da vida.[{36}][{37}]
[V
O homem das árvores]
Quando a noite escureceu o rio, Vamiré percebeu que estava imensamente longe dos confins da floresta. Assou algumas postas de um esturjão arpoado na passagem, e, mitigada a fome, vieram-lhe à memória as lendas vagas dos Pzanns:
—«Tah, ancião de cento e vinte Invernos e memória lúcida, narrava o desmoronamento das montanhas. Três gerações antes de Tah, o Oriente meridional era limitado por lagos e serras, que nem os Pzanns, nem povo algum conhecido dos Pzanns tinham jamais transposto. Mas os fogos subterrâneos expandiram-se, e o ventre das montanhas entreabriu-se.
«O abismo bebeu os grandes lagos. O espanto dominou os homens, e, desenvolveu-se uma geração inteira, sem que ninguém se atrevesse a devassar as novas regiões. Depois, Harm, o grande caçador, acompanhado pelo pai de Tah e por moços valentes, aventurou-se aos desfiladeiros cavados pelo cataclismo. E foi[{38}] assim que se descobriram as grandes planícies do Oriente meridional...»—
Sentado sob uma faia de franças trémulas, comovido por aquelas lendas, Vamiré desejou ser, como Harm, um daqueles que descobrem terras distantes.
Lembrou-se ainda de outras lendas: a história dos Pzanns aventureiros, que, mais de cem anos antes, haviam tentado explorar a floresta, e muitos dos quais tinham desaparecido sem deixar vestígios, e outros tinham regressado, contando que o rio corria eternamente por entre árvores gigantes, e que os perigos aumentavam a cada dia de viagem.
Mas nada disto desalentava o nómada. A sua curiosidade e a sua coragem crescia a cada rumor da noite, a cada emboscada que ele entrevia nas sombras.
Permaneceu largo tempo, sem sono debaixo da faia. Mas quando, enfim, o cansaço lhe oprimiu o corpo, foi buscar a sua canoa e transportou-a para a margem; depois, tendo encontrado um lugar seco, estendeu ali a pele do espeleu e, virando a canoa, cobriu-se com ela, resguardando-se contra surpresas muito rápidas. E, com a clava numa das mãos e a zagaia noutra, adormeceu.
Nem nessa noite nem nas seguintes foi Vamiré atacado pelos carnívoros. Não porque os monstros da sombra não girassem à volta da sua canoa; mas é que nenhum tentou o assalto.
Vamiré acampava ora em ilhotas, ora nas margens silvestres. Em meio da abundância de tudo, não lhe faltou carne nem frutos que mantivessem a força do homem.[{39}]
Mais de uma vez, diante da interminável floresta, de onde manavam grandes ribeiras afluindo ao rio, chegou a arrepender-se da aventura, e a tristeza tomava-lhe a alma. Pensava em que o regresso seria mais difícil que a ida; a memória inquietava-se-lhe com a história dos que não tinham regressado; e o coração enchia-se-lhe de saudade, ao lembrar-se de Zom e Namir, seus geradores, e de seus irmãos e irmãs, mais novos que ele.
É verdade que Zom e Namir o tinham já esperado por outras vezes durante dois ou três quartos de lua, e se haviam acostumado às ausências dele; mas agora, que duração teria a viagem?
Os obstáculos acumulavam-se, especialmente as cachoeiras, que Vamiré não podia transpor, senão levando a canoa pelas margens.
Por entre espinhais e grossas raízes que ressaíam da terra, por cima da acidentada areia movediça, por entre répteis e feras alapadas, árdua era a passagem; mas estes próprios obstáculos, à proporção que ele os vencia em maior número, estimulavam-no à perseverança, pela ânsia de perigos sem recompensa.
Um dia, despertou quando as aves findavam o hino da alvorada, quando o orvalho escorria das árvores como chuva ligeira. Um ruído de ramagens chamou a sua atenção. Viu avançar então um vulto cor de freixo, de andadura oscilante, aos pulos, acocorado nas mãos posteriores; a sua estatura excedia a da pantera. As suas quatro mãos, o seu rosto, os seus olhos circulares, as suas orelhas delicadamente contornadas, lembraram a Vamiré[{40}] palavras de Sboz, aquele que de entre os Pzanns penetrara até mais longe no desconhecido da floresta: naquele extraordinário ser, de braços desmedidos e peito largo, reconheceu Vamiré o homem das árvores. Estranho aos povos da Europa e quase aos da Ásia, cada período o impelia para as regiões ardentes: cem mil anos depois do êxodo da raça, as florestas meridionais, raras e espessas, conservavam apenas algumas famílias solitárias.
Vamiré teve um movimento de simpatia. Levantando-se, soltou o grito de chamar, próprio dos Pzanns. O homem das árvores parou, inquieto, espreitando com os olhos redondos, por baixo da espessura da ramaria.
Vamiré, desviando as frondes, descobriu-o de súbito.
—Hoi!... Venturoso sejas!
O homem das árvores pôs-se em pé. Coberto de pelos penugentos, de raros cabelos, de menor estatura que o nómada, mas mais largo de ombros, parecia dotado de uma força extraordinária.
Vamiré admirou-lhe a fisionomia feroz, as maxilas enormes, as sobrancelhas emaranhadas por cima das pupilas amarelas, a sua epiderme escura e granulosa, sem que diminuísse a simpatia, o prazer de encontrar um semelhante, depois de uma semana de solidão; e, acompanhando as palavras com o gesto, Vamiré tornou:
—Vamiré, amigo..., amigo!
O homem das árvores rosnou, entreabrindo os beiços, certamente hesitante sobre as intenções do outro.[{41}]
O nómada, vendo a inutilidade das palavras, recorreu aos gestos, mas sem outro resultado, senão aumentar a desconfiança do desconhecido.
Sem se importar disso, Vamiré deu alguns passos em frente; mas então, de punhos cerrados e pupilas trémulas, o homem das árvores bateu no peito e ameaçou o troglodita. Este irritou-se:
—Vamiré não teme o leão, nem o mamute, nem as ciladas dos homens...—
O homem das árvores rosnou outra vez, sem avançar todavia para o Pzann, mantendo-se na defensiva.
À vista do que, Vamiré calou-se, já sem ira, e com uma curiosidade crescente.
Os dois contemplaram-se por algum tempo.
Esta pausa pareceu inspirar alguma confiança ao homem das árvores. A sua fisionomia desvincou-se, manifestando uma paz de herbívoro. Embora menos analista que Vamiré, percebia também que estava na presença de um semelhante. Vagos instintos porém, talvez recordações directas, temores atávicos, não lhe tornavam agradável tal presença.
Sentiria ele que outrora, ao dissolver-se o período terciário, ele ocupava a mesma escala do grande dolicocéfalo que estava em pé diante dele? Que, por misérias e vivendas depressivas, a sua raça estava agonizante e a do outro vitoriosa? Traria ele, gravadas na sua carne, as dores, as revoltas, as nostalgias, os êxodos perpétuos, as campanhas perdidas, tudo que se transmite de geração a geração, de sangue a sangue, e cujo despertar indefinido, entressonho de vidas passadas, ressurgidas[{42}] subitamente nas fibras hereditárias, equivale à memória directa e precisa?...
E o homem das árvores, desajeitado, continuava, embora menos desconfiado, a espreitar Vamiré. O Pzann, deixando de gesticular, e convencendo-se da impossibilidade de se fazer compreender, retirou-se para a sua canoa, a fim de a pôr a flutuar.
Quando chegou ao rio, voltou-se e viu que o homem das árvores o tinha seguido e o olhava com curiosidade.
Embarcado Vamiré, uma certa benevolência se desenhou na boca cinzenta, sobreposta de nariz chato, do homem das árvores, que com os braços peludos esboçou um vago gesto de amigo. Vamiré correspondeu-lhe imediatamente, sorrindo, e desculpando ao selvagem a desconfiança.
Por muito tempo, e enquanto a débil canoa se afastava, entre o raizame das margens deixou-se ver imóvel uma face atenta; e uma admiração pânica e uma impressão mista e selvática como as sarças marginais, vagueavam no cérebro do homem inferior, no crânio moroso do homem das árvores.[{43}]
[VI
Contra-anúncio]
Mais alguns dias, e sempre a floresta! Vamiré começou a duvidar de que ela terminasse. Porque não seria ela a fronteira do mundo?
E contudo as cachoeiras iam diminuindo. À excepção do assalto de uma pantera, que do alto de uma árvore o atacou, e cujas entranhas ele fez em pedaços, à excepção da tortura dos infinitamente pequenos que sem cessar lhe perseguiam o corpo, à excepção das ameaças dos répteis, Vamiré só tivera que vencer os obstáculos do inanimado, as ciladas da terra pantanosa e das plantas emaranhadas das angras. Cada vez mais hábil em adivinhar os perigos, ao simples aspecto da terra e das águas, acostumara-se a rir de tais obstáculos, e maior altivez palpitava no seu coração e nas suas carnes.
Ao sexagésimo dia, a vegetação começou a clarear-se. Por duas ou três vezes se avistaram clareiras, novos recantos silvestres em que as árvores eram mais acanhadas e mais raros os colossos seculares.[{44}]
Por outros indícios ainda, pela presença de animais que preferem a proximidade dos espaços livres, pela própria natureza do terreno, Vamiré pôde pressentir o bom êxito da sua empresa.
Dois dias depois, haviam desaparecido as suas últimas duvidas. A margem esquerda mostrou-lhe velhas estepes, ligeiramente arborizadas, e onde as árvores se disseminavam muito.
Ao meio do sexagésimo oitavo dia, amarrou a canoa numa calheta escolhida, armou-se com as zagaias e a clava, e empreendeu uma excursão a pé, para o lado do Ocidente.
O solo era firme; as gramíneas e as plântulas predominavam, cada vez mais, entre as árvores.
Depois de algumas horas, Vamiré chegou acima de um outeiro, de onde avistava um amplo horizonte. Ao Norte, uma perspectiva verde, violácea, atrigueirada, a floresta-oceano, por onde se escoavam os encantos da luz, onde a vida se alastrava em expansões inúmeras e subtis. Ao Sul, a inclinação das estepes, entrecortadas de oásis, a perspectiva de uma região de caça e transito livre, o novo pais que Vamiré desejava conhecer, e cuja aparição lhe encheu triunfalmente o peito.
Rindo consigo, pensava na surpresa dos Pzanns, na satisfação de Zom e de Namir, quando lhes contasse a sua viagem.
Ficou extático, por muito tempo, sobre a colina. Mas o firmamento, por cima dele, tornou-se ardente. Juntaram-se grossas nuvens, carbunculosas, orladas de fosforescências. Um sopro angustioso, giratório, ascensional,[{45}] comprimia as plantas; os raios caíram majestosamente sobre a floresta.
Vamiré gostou da tempestade; o seu organismo absorveu a força e o movimento dela, tão acordes com o estado da sua alma. Quando se despenhavam as águas do céu, Vamiré desnudou os ombros e recebeu com voluptuosidade a fresca inundação.
Calmou-se entretanto a tormenta, esfarrapados os nimbos, bebidos pela tepidez firmamental, desfeitos pelos choques eléctricos. Apenas as gramíneas guardavam a humidade fluvial: a terra ávida tudo absorvera.
Depois da chuva, Vamiré marchou deliciado para a paisagem. Os últimos vestígios silvestres tinham-se desvanecido. Nada havia já, se não estepes imensas, entrecortadas de verdes maciços.
As nuvens disseminadas desmanchavam-se em pedaços efémeros adiante do sol, e uma ligeira sombra, de instante a instante, refrescava as perspectivas.
Ia chegando a noite. À hora do crepúsculo, Vamiré, parou à beira de um oásis e passou ali a noite. No outro dia, prosseguiu na marcha, resolvido, se não sobreviesse alguma aventura, a regressar, visto como havia descoberto o que desejava: novas terras de caça.
Pegadas de uros, de aurocos, de veados, de cavalos, convenceram-no da fecundidade do terreno, e projectou uma grande expedição de moços Pzanns, para o ano seguinte. Mas, ao segundo terço daquele dia, ocorreu uma aventura importante.
Foi durante uma paragem, quando o nómada acabava de comer um par de codornizes, caçadas durante[{46}] a marcha. Abrigado sob umas figueiras silvestres, viu aproximar-se uma mulher.
Vinha vestida de fibras vegetais, entretecidas de gramíneas da planície.
Vamiré encobria-se; a onda que nele se agitava, do coração ao cérebro, traduzia ansiedade e satisfação.
A certeza de que ela era moça demonstrava-se não só ao simples aspecto, à proporção que ela se aproximava, mas também pela cadência do andar e pela flexível vacilação das ancas.
Quando ela chegou a trinta passos, viu-se que atingia apenas a puberdade, mimosa virgem de grandes olhos, surpreendendo Vamiré pela dissemelhança com a rapariga vulgar da Europa, de crânio alongado e compleição robusta.
O seu rosto, um pouco redondo, pálido como as nuvens primaverais, os seus cabelos iguais à melânia dos lagos em noites sem estrelas, a sua cintura breve, mais comparável à circunferência dos freixos que à dos choupos, e o porte da sua figura, e a forma dos seus lábios e da sua fronte, e o talho das suas pálpebras, tudo lembrava a raça longínqua, a humanidade que se engrandecera, após milhares de séculos sem contacto com as hordas nómadas do Ocidente.
Vamiré,—da mesma forma que o herbívoro, estranho desde séculos às regiões bravias, guarda o instinto atávico de reconhecer o grande tigre,—Vamiré percebia a distância entre o seu organismo e o da adolescente. Previu coisas inteiramente novas naquele recanto do mundo, aonde o levara um capricho seu; e esta[{47}] presciência do desconhecido abalou-o. Hesitava o nómada em assaltar aquela presa de amor, e uma horripilação atravessava-lhe as fibras, como a aproximação de uma tempestade nos nervos de um pássaro. Mas na sua imaginação bárbara, agitada por um sangue eléctrico e por todo o amor de Maio, a estrangeira pareceu infinitamente apetitosa.
Filho da arte, propenso à voluptuosidade dos contrastes, sentiu-se atraído pelos longos cílios de frouxel negro, pelo andar oscilante, pela precisão dos contornos, pela encantadora viveza das pupilas, e resolveu-se.
Mas, enquanto hesitava, a viandante abeirou-se do oásis. Vamiré levantou-se de um salto, com a rapidez de um garanhão.
Sentindo rumor e voltando-se, a virgem viu chegar Vamiré. Assombrada e gritando plangentemente, tentou fugir. Pisava as grandes ervas, correndo ligeira, mas sem esperança de escapar ao formidável caçador, e por duas ou três vezes procurou ladear, encobrindo-se com as moitas, tomando por tangentes. Vamiré perseguia-a, cada vez de mais perto, retardado simplesmente pelo prazer de ver flutuar os cabelos da fugitiva e requebrar-se seu tenro corpo em curvas tentadoras. A virgem sentiu-o enfim junto de si, e na cabeça o hálito do caçador.
Parou e voltou-se. Com o susto a reflectir-se nas pupilas, e o peito turgescente sob as fibras do vestuário, ergueu os braços suplicante, em meio de uma caudal de palavras confusas.
O nómada ficou imóvel diante dela, convencido[{48}] da impossibilidade de compreender aquela linguagem, mais rápida e mais sonora que a sua. Mas a linguagem da natureza, o terror impresso nos lábios e nas pálpebras da desconhecida, moveram-no à piedade. Menos vivas e mais profundas, percorreram-lhe o organismo novas impressões, esboço de poema selvagem e retraimento de brutalidades voluptuosas diante da ternura.
Teria ela a compreensão, o instinto sequer, do seu triunfo sobre o grande ocidental de cabelos claros?
Menos tremula, continuou a murmurar silabas, mescladas de uma indecisa malícia. Vamiré tentou responder, significar-lhe que não queria fazer-lhe mal. Mas os seus gestos de estatuário eram novos para ela, que os observava atentamente. Filha de raças não plásticas, de raças cultuais, não compreendia senão movimentos amplos e monótonos, distantes da natureza. Mas ainda mais que pelos gestos, pareceu surpreendida quando Vamiré, desprendendo um dos seus enfeites de marfim, lho ofereceu: não sem desconfiança, a virgem contemplou as linhas gravadas na pequena lâmina,—a corrida de um uro, perseguido por uma fera,—e pegava no artefacto em sentido contrário sem o compreender. O nómada, sorrindo, pôs-se a indicar a direcção dos traços, a representar o desenho por gestos, perturbando-a ainda mais.
Entretanto, os olhos e as interjeições de Vamiré iam-na tranquilizando a pouco e pouco.
A desconhecida já sorria também. Então, cheio de alegria, Vamiré pôs-lhe a mão no ombro. Ela recuou, voltando à desconfiança.[{49}]
—Vamiré é bom!—murmurou ele.
De repente, a desconhecida, estendendo os olhos pelo horizonte, deu um salto e bateu as mãos. Vamiré, seguindo-lhe a direcção do olhar, viu, contrariado, aproximar-se, correndo, um grupo de homens, enquanto ela, com um gesto, um tanto travesso, fazia sinal ao nómada para que fugisse.
Vamiré, crispando as mãos, tacteava as suas armas e contava os sobrevindos, que eram doze, armados de grandes arcos e lanças.
Diante da impossibilidade da luta, deixou-se possuir de uma desesperação de idílio frustrado e de orgulho ferido.
—Vamiré não tem medo,—disse ele altivamente. E, como a estrangeira se ia afastando, seguiu-a e segurou-a por um braço. Ela debatia-se, gritando alto. Irritado, Vamiré apertou-a contra si e levantou-a.
Aterrada por ver que era leve como uma cabrinha sobre o peito do nómada, defendeu-se sem violência, timidamente.
Não obstante o fardo, Vamiré tomou caminho, e pôs-se a correr, com uma velocidade surpreendente, excitado pelo grito dos que o perseguiam, e, pelo menos nos primeiros minutos, foi ele o vitorioso.
Os que lhe iam na cola, membrudos, e de raça menos encorpada que a dele, não pareciam perseguidores de presas, homens de jarretes de fera, como os dolicocéfalos ocidentais.
Ágeis contudo, não cansariam tão depressa como Vamiré, a menos que este não abandonasse o fardo. Mas[{50}] ele não pensava nisso, dominado pelo seu temperamento de lutador.
Vamiré corria para leste, para a margem onde deixara a canoa. Supondo-se mesmo que mantivesse a sua velocidade, não poderia chegar lá antes de metade de um dia, muito depois do crepúsculo, depois que a lua estivesse no zénite.
Passados alguns minutos, a donzela deixou de se defender. Mulher afinal, levada por um homem que a não tratava severamente, começou a sentir uma vaga curiosidade, deixando descansar a cabeça e a parte superior do peito no ombro de Vamiré.
Ao longe, na planície, via os homens da sua tribo, distinguia-lhes os gestos. Armados de grandes arcos e lanças velozes, cobertos de mantos tecidos com fibras de plantas e lã de animais, eram por ela confusamente cotejados com Vamiré, vestido com a pele do espeleu e armado de clava e zagaia; desejaria sem duvida que eles triunfassem, e contudo desejaria também salvar a vida do seu raptador. Uns longes de vaidade, a impressão feminina de que a violência do homem não era uma injuria, a força de Vamiré, a atracção do desconhecido, todas estas coisas vagueavam no seu espírito semibárbaro, não permitindo a fixidez de um desejo.
Decorreu uma hora de terrível correria, em que Vamiré aumentou sempre a dianteira que tomara.
Mais suave, mais inclinada, a luz cobria de âmbar a planície, e a sombra do caçador e da sua presa galopava, projectando-se imensa para leste.
Voltando-se subitamente, Vamiré não viu os perseguidores.[{51}] Subiu a um montículo e avistou-os a mais de quinhentos cúbitos. Abriu os lábios num sorriso triunfal e gritou:
—Eô! Eô!
E, voltando-se para a virgem:
—Vamiré é o mais forte!—
Ela voltava a cabeça, ofendida por aquele sorriso e por aquele grito. O caçador sentou-a, e ficaram em silêncio por minutos.
A respiração de Vamiré, rouca e desagradável pouco antes, foi-se regularizando; o peito arquejava-lhe mais rítmico.
O nómada murmurou então algumas palavras. Ela abriu os olhos, e o seu olhar encontrou o dele. O olhar de Vamiré era sereno e terno. Ela encrespou as pálpebras, deixando ler no rosto uma temeridade feminina, maliciosa, desdenhosa.
Vamiré inquietava-se e encantava-se com isso: achava-a assim mais amável, e repetia, com menor convicção:
—Vamiré é o mais forte!—
Os perseguidores aproximavam-se: era necessário recomeçar a fuga.
Vamiré retomou a dianteira que levara, e pareceu então evidente que os outros, e não ele, cansariam primeiro. Demais, os perseguidores, que até então corriam juntos, começaram a desunir-se, e três ou quatro apresentavam-se muito fatigados para prosseguir. Os outros conservavam-se quase em grupo, sem que nenhum curasse de se adiantar aos companheiros, dominado pelo[{52}] misterioso da aventura e pela estatura elevada e agilidade extraordinária do dolicocéfalo.
Ia-se entretanto extinguindo o dia. Era a hora da cor de jalde. Na planície, um silêncio sem vibrações, uma atmosfera melancólica e fresca, um estádio de repoiso.
Os oásis esparsos difundiam vida em torno de si; os nemóceros voavam em altas colunas por cima das superfícies húmidas; por toda a parte despertava um frémito eufónico, balbuciações de pássaros. Hora de segurança e bem-estar, em que os animais diurnos não tinham que recear o vaguear das feras, hora em que os grandes ruminantes se deitavam na planície com uma segurança encantadora, e em que alguma coisa do viço matinal voltava, ao cair do dia.
A corrida de Vamiré tornava-se frouxa e difícil; mas, atrás dele, a perseguição parecia abandonada.
Na extrema do horizonte, o vulto dos archeiros fora-se esvaindo; e debalde o caçador procurou avistá-los, subindo a um montijo. Descansou pela segunda vez, poisando a desconhecida.
Esta, melancólica, quedou-se de pé, ao lado dele, compreendendo a inutilidade de qualquer tentativa de fuga.
Quanto a ele, sentia-se agora muito fatigado para exprimir o seu triunfo, e inquietava-se por ver que não poderia recomeçar a corrida. Consolava-o contudo a ideia de que os seus perseguidores deviam estar também extenuados.
E ficaram ambos silenciosos.[{53}]