A guerrilha de Frei Simão

LISBOA
Typographia e Stereotypia Moderna
11—Apostolos—1.º
1895


ALBERTO PIMENTEL

A GUERRILHA
DE
FREI SIMÃO

ROMANCE HISTORICO

LISBOA
Livraria de Antonio Maria Pereira—editor
50, 52—Rua Augusta—52, 54
1895


DUAS PALAVRAS

Passei o dia 9 de setembro de 1894, em Cezár, na casa onde nasceu frei Simão de Vasconcellos, o protagonista d’este romance. A amavel hospedagem com que alli me recebeu o sr. Alfredo Praça de Vasconcellos, bacharel em mathematica pela Universidade de Coimbra e sobrinho de frei Simão, largamente me compensou dos incommodos da jornada. Eu ia, mediante prévia auctorisação, colhêr informações directas sobre um assumpto que me indicára em Lisboa o meu illustre amigo o sr. visconde de Villa Mendo: o assumpto d’este livro, cujos pormenores estudei com desvelada exactidão.

Á roda do meu primoroso hospedeiro estavam reunidos em grupo todos os velhos de Cezár que ainda tinham conhecido frei Simão de Vasconcellos. Trez apenas. Ouvi da sua bôca a narração de interessantes minucias biographicas. Por favor do sr. Vasconcellos compulsei varios documentos de familia, posteriores ao auto-de-fé em que as justiças miguelistas pulverisaram o archivo da sua casa.

Creio que este romance deverá o «sens du réel», que porventura o vitalise, á profunda impressão que recebi, n’esse dia, em visita ao solar do Outeiro, sob os tectos que abrigaram parte da atormentada existencia de frei Simão; e em passeio pelos campos de Cezár, acompanhado pelos ultimos contemporaneos do frade guerrilheiro, que paravam reatando lembranças, mencionando logares e factos, e cujos cabellos brancos se doiravam a espaços com algum alado raio de sol que luciolava os frócos verdes do arvoredo.

Procurando, no pouco que me era possivel, retribuir a patriarchal cordealidade da hospedagem, pedi licença ao sr. Alfredo de Vasconcellos para lhe offerecer este romance,—a historia da sua familia.

Vi que as lagrimas lhe saltavam dos olhos n’esse momento. Olhando fito em mim com o olhar embaciado, o sr. Vasconcellos respondeu-me:

—Comprehendo a sua intenção, e agradeço-lh’a. Mas se v. quer dedicar o seu livro a um parente do frade do Outeiro, peço-lhe que o offereça á memoria de meu pobre irmão, o major Augusto Cezár de Vasconcellos, morto na mallograda revolta de Braga em 1862, no cumprimento do seu dever.

E as lagrimas abafavam-n’o n’uma commoção torturada.

É pois á memoria d’esse infeliz sobrinho de frei Simão de Vasconcellos que eu dedico a chronica fiel da attribulada existencia e corajosa morte do tio.

Outras jornadas emprehendi por amor da verdade historica. Duas vezes tive de ir á Villa da Feira para reconstruir o episodio da evasão de frei Simão de Vasconcellos, da cadeia d’aquella villa.

Da primeira vez não pude colhêr as informações que desejava. A memoria dos velhos sobreviventes estava confusa e hesitante, quasi apagada. Da segunda vez, caminhei ao acaso, dirigindo-me, por palpite ou intuição, ao primeiro homem encanecido que encontrei. Felizmente, elle poude indicar-me a pessoa que reputava habilitada para esclarecer-me. Assim fiz; e assim foi.

Desde essa hora, o romance estava completo. E, emquanto o escrevia, eu comprehendia a exacta affirmação, que aos indifferentes de hoje parecerá arrojada hyperbole, contida n’esta phrase de Alexandre Herculano: «A guerra da restauração de 1832 a 1833 é o acontecimento mais espantoso e mais poetico d’este seculo.»

Lisboa, 13 de junho de 1895.

Alberto Pimentel.


I
Flor do Támega

Amor quiz.................

Unir vontades que separa a guerra.

Braz Garcia de Mascarenhas—«Viriato tragico», canto XVIII.

Os Vasconcellos, de Cezár, gente de boa raça, aparentados com muitas familias illustres, entre as quaes os Pintos de Parámos, os Tavares e Pereiras da Terra da Feira e os Côrte-Reaes de Gafanhão, tinham como representante, no fim do seculo passado, José Bernardo Pereira de Vasconcellos, marido de D. Anna Margarida de Almeida Cabral.

D’este casamento nasceram cinco filhos e quatro filhas.

Sobejavam a José Bernardo meios de farta subsistencia para tão numerosa próle, pois que as suas propriedades se estendiam desde Cezár, na comarca da Feira, até á villa de Arouca, onde possuia a quinta do Outeiral.

José Bernardo fixára residencia, depois de casado, na casa do Outeiro, em Cezár, e, graças á sua abastança, podéra dar uma collocação decente aos cinco filhos varões, destinando uns á vida monastica, outros á carreira das armas, segundo a tradição grada d’aquelle tempo.

Simão, que nascêra a 28 de setembro de 1789, entrou na ordem de S. Bernardo, e professou em Alcobaça. José vestiu o habito benedictino no mosteiro de Refoyos de Basto.

Joaquim Maria e Frederico sentaram ambos praça no regimento de infanteria 6. Eram duas creanças, quando em 1808 foram reconhecidos cadetes. Fizeram a guerra peninsular, sendo Joaquim Maria gravemente ferido, em uma perna, na acção de 31 de julho de 1813.

Antonio, o filho mais novo, ficou, em rasão de sua pouca idade, sob a tutella paterna, quando os irmãos, seguindo cada qual seu destino, se ausentáram da casa do Outeiro.

No fim do anno de 1814, Joaquim Maria foi promovido a tenente para infanteria 13. Mas obteve depois transferencia de arma, passando a servir em cavallaria.

Frederico era, em 1819, alferes ajudante de infanteria 18, aquartelada no Porto. Casando com D. Margarida Fontana, pediu a demissão, pura e simples. Mas o governo concedeu-lhe a reforma em attenção aos bons serviços, que tinha prestado durante a guerra peninsular. Devia ter sido o coronel commandante d’aquelle regimento, Bernardo Corrêa de Castro e Sepulveda, dedicado protector de Frederico Pinto, quem, junto do governo, interveio para que a demissão fosse substituida pela reforma.

Em 1820 rebentava a revolução liberal do Porto, e Frederico, apesar de ter renunciado á vida militar, interessou-se, com enthusiasmo e convicção, pelo bom exito do movimento revolucionario, que os portuenses haviam preparado.

É de presumir que as ligações de Frederico com o coronel Sepulveda o acirrassem nos ideaes do constitucionalismo.

Joaquim Maria, promovido a capitão e collocado em cavallaria 6, dragões de Chaves, resistiu, obstinado, ás suggestões absolutistas dos Silveiras, recusou-se em 1823 a acompanhal-os no movimento que principiou em Villa Real no dia da procissão de Passos.

Seriam apenas rasões de caracter politico as que crearam ao capitão de dragões essa dura situação de intransigencia em que teimosamente se conservou até á morte?

Não. Quando um homem pertinazmente salta por cima de todas as conveniencias pessoaes, com os olhos fechados, esse homem obedece, por via de regra, mais ao impulso do coração que do espirito.

N’aquella epocha de fluctuações e incertezas politicas, as opiniões transformavam-se com os acontecimentos do dia, ao sabor dos interesses de cada individuo ou de cada familia. O proprio monarcha dava o exemplo aos que o tinham visto jurar a constituição nas Necessidades e haviam de vêr depois ir a Villa Franca ao encontro do filho. Mas os que não abdicavam de suas crenças, e preferiam o martyrio á transigencia, esses tinham o coração dilacerado por algum golpe profundo, que resultára de vinganças partidarias exercidas contra elles mesmos ou contra as suas familias.

As feridas do corpo podem esquecer-se, depois que cicratisáram; mas as da alma parece reverdecerem com o tempo.

Joaquim Maria de Vasconcellos amára em Chaves uma menina, sobrinha de um abastado proprietario realista.

Ahi por 1822 o idyllio derivava mansamente, meio velado pelo disfarce com que o capitão de dragões queria occultar um segredo, que punha em xeque as suas convicções politicas, aliás notorias.

André Pinto, o tio da menina, era absolutista ferrenho, muito nas boas graças dos Silveiras; pessoa de tamanha confiança para elles, que não duvidavam encarregal-o de importantes commissões politicas.

Não tendo filhos, a sua herdeira presumptiva era a sobrinha, uma rosada transmontana de vinte annos, vasada nos moldes das mulheres fortes d’aquella provincia alpestre, onde o ar, coado atravez das montanhas, é puro e salubérrimo.

Não tinha que vêr com a vaporosa idealisação da Margarida de Gœthe aquella Margarida Candida, de Chaves, a quem Antonio da Silveira, futuro visconde de Canellas, pozera a alcunha de Flor do Támega com uma galanteria alfacinha que tinha aprendido em Lisboa, durante os tormentosos dias em que, como presidente da junta do Porto, fez parte do governo constitucional, de arrependida memoria para elle.

Realmente, floria nas faces de Margarida Candida, presumptiva herdeira do abastado André Pinto, o carmim vivo dos cravos e das papoulas. Não era a mulher que parece quebrar pela cintura, flexivel como a haste de um lirio. Tinha a belleza da saude e da mocidade, algo serrana, mas esculptural.

Joaquim Maria era um guapo homem. Alguns velhos de Cezár affirmam ainda hoje que fôra «o homem mais bonito do seu tempo.» A farda de capitão de dragões e o garbo militar com que sabia uzal-a, davam realce aos dotes physicos que o distinguiam. Fica pois cabalmente explicada a fascinação que elle exerceu no espirito de Margarida Candida, apesar de ser alguns annos mais velho do que ella.

Mas o amor, se não conhece idades, desconhece tambem as balisas partidarias, que extremam os campos politicos.

Assim foi que Joaquim Maria, tão constitucional como todos os seus irmãos, á excepção de frei José, que era realista, se deixou captivar da graça desaffectada da sobrinha de André Pinto, silveirista da gemma.

A mascara do disfarce cahiu, logo que as lavas do amor vulcanisáram o coração dos dois namorados.

André Pinto percebeu a inclinação da sobrinha, contra a qual rompeu em desabridos improperios por amar um pedreiro-livre.

Pretendeu desacreditar a familia de Joaquim Maria e, por isso, dizia em voz alta que José Bernardo de Vasconcellos era filho de uma camponeza de Santa Christina de Mansores, chamada Maria Josepha.

Um flaviense de boa fé, muito intimo do fidalgo de Paiva, Martinho Pinto de Miranda Corrêa Montenegro, contestou que, por este seu amigo, sabia de sciencia certa que o avô de Joaquim Maria mandára educar o filho, e o deixára seu herdeiro; que, não obstante a creança ter sido baptisada como filho de paes incognitos, José Bernardo requerêra e obtivera a legitimação em 1819.

André Pinto barafustou contra esta réplica, insistindo em depreciar a linhagem do capitão de dragões.

Mas o flaviense escreveu ao fidalgo de Paiva, o qual lhe respondeu por escripto, dizendo:

«Muitas vezes ouvi a meu pae, o sr. Bernardo José Pinto Montenegro, encarecer a genealogia do avô e pae de Joaquim Maria de Vasconcellos, nossos parentes. São legitima geração de Sebastião Lopes Godinho, da casa de Cezár, homem muito fidalgo e descendente de Gil Garcia, e de João Carvalho, fidalgo da casa d’el-rei D. João III, casado com D. Anna Mendes de Vasconcellos. A familia de Joaquim Maria está aparentada com a melhor nobreza da sua comarca e provincia, e eu honro-me de ser seu parente.

«A legitimação de José Bernardo fez-se segundo o disposto nas leis canonicas e civis. Nada ha que se lhe oppôr, a não ser qualquer má vontade acintosa.»

O flaviense mostrou esta carta em Chaves, e André Pinto, vendo-se contraditado, mudou de rumo, no empenho de combater o capitão de dragões por qualquer outro modo, mais efficaz e menos contestavel.

Enfurecido com o mallogro da sua propaganda de descredito contra a familia de Joaquim Maria, correu as casas de muitos dos seus amigos politicos, desabafando a berros desentoados.

Um d’elles, que gostava de recorrer a processos summarios quando liquidava contas com inimigos, disse-lhe peremptoriamente:

—Homem! não ha nada como cortar as questões pela raiz!

—Mas a difficuldade está em desaterrar a raiz...

—Ora adeus! A raiz d’esta questão é o amor de tua sobrinha ao capitão Joaquim Maria. É ou não é?

—Certamente que sim.

—Já vês que ficam assim muito simplificadas as coisas...

—Não percebo! Eu não as vejo nada simplificadas!

—Oh! homem! O capitão é a causa da inquietação em que vives, porque sendo nosso adversario politico, dos mais intransigentes, fez andar á roda a cabeça de tua sobrinha. É ou não é?

—Pois é mesmo! E d’ahi?

—Ora se o capitão desapparecer, tua sobrinha não ha de ficar eternamente a amar um morto... Percebes?

—Percebo.

—O que dizes então?

—Que para isso não precisava eu de vir pedir-te conselho. É conveniente proceder com certa diplomacia, chegar a uma solução sem assumir publicamente a responsabilidade d’ella. Este negocio, encabeçado em politica, corria melhor.

—Bem entendo. Gostas de pannos quentes. Pois eu cá não sou d’esses.

—É certo que o capitão me desinquieta a sobrinha, e este negocio é particular, apenas diz respeito á minha familia. Mas, por outro lado, o capitão é nosso adversario politico, e procede acintosamente para me desgostar. Entendo, pois, que o negocio deve ser resolvido sob o ponto de vista das conveniencias partidarias...

—N’esse caso, vae consultar os Silveiras. Elles que te aconselhem, que teem obrigação de o fazer.

André Pinto foi a Villa Real consultar o conde de Amarante, mas com tanta infelicidade que, quando entrou na casa da Calçada, estava Manoel da Silveira n’um dos seus dias de obumbramento intellectual.

O conde ouviu-o, e não respondeu nada.

André Pinto sahiu dizendo com os seus botões:

—Está hoje tolo de todo! Fallei com uma pedra.

Lembrou-se de ir á quinta de Canellas consultar Antonio da Silveira, que era mais atilado do que o sobrinho.

Expoz lhe o negocio. O fidalgo respondeu com promptidão:

—O que me diz, sr. André Pinto, envolve uma questão politica, que é preciso ter em vista.

—Diz v. ex.ª muito bem. Assim mesmo é que é. Devemos proceder todos de accôrdo.

—Ora, attendendo ás rasões politicas, sou de parecer que o capitão Joaquim Maria não deve ser perseguido.

—Como?! perguntou, fulminado, André Pinto.

—O que a mulher não conseguir, ninguem o consegue! disse axiomaticamente o tio do conde de Amarante. Eu me explico. Talvez o amor consiga trazer insensivelmente o capitão ao nosso gremio. O amor costuma fazer milagres.

—Nunca de bom christão bom mouro, nem de bom mouro bom christão! replicou, triumphantemente a seu vêr, André Pinto.

Antonio da Silveira, que enxergou n’esta phrase uma grosseira allusão ao seu breve transito pelo constitucionalismo, replicou de sobrecenho carregado:

—Todos os homens podem reconsiderar, quando não sejam tolos ou maus. Adeus, sr. André Pinto.

O tio de Margarida Candida sahiu recuando, ás mesuras, sem ter percebido bem o motivo do subito agastamento do fidalgo de Canellas.

O que é certo é que esta replica mal-humorada assegurou a vida de Joaquim Maria.

André Pinto, em caminho de Chaves, matutou na rasão que teria Antonio da Silveira para esperar um possivel reviramento politico do capitão de dragões e, sem ousar oppôr-se formalmente á opinião do ex-presidente da junta do Porto sobre a reconsideração dos homens, não deixou de achar um pouco duro que se comprassem silveiristas á custa do dinheiro que era seu, e que a sobrinha devia herdar.

Comtudo, tendo sahido de casa acceso em colera contra Margarida Candida e o capitão, voltou, depois do que se passára com Antonio da Silveira na quinta de Canellas, menos bravo, se bem que visivelmente concentrado.

Logo que teve ensejo, chamou á puridade uma criada a quem confidencialmente havia encarregado de vigiar, na sua ausencia, todos os passos de Margarida Candida.

—Ella viu-o? perguntou de afogadilho André Pinto.

—Viu-o, sim senhor. Viu-o do muro do quintal.

—E tu então que «fizestes»?

—Eu fui logo a correr, e disse-lhe: «Menina, veja o que faz, não queira dar mais desgostos a seu tio».

—E ella o que respondeu?

—Ora o que respondeu?! Disse-me assim: «Eu cá não faço mal a ninguem. Meu tio tambem namorou.»

—Mentira! replicou André Pinto. O meu casamento foi fallado. Não sabias responder-lhe?

—Eu sabia cá, sr. André! Uma pessoa fica ás vezes embuchada com certas respostas.

—És uma lesma! Tu e um pannal de palha valem o mesmo.

André Pinto ficou a pensar no caso e de si para si julgava-se ainda mais tolo do que a criada.

—Andei em correrias, reflexionava elle, e emquanto andei por lá, a rapariga fazia-me o ninho atraz da orelha. Se não tenho ido a Canellas, estava habilitado a tomar a resolução, que muito bem me parecesse. Assim, fiquei preso ao conselho de Antonio da Silveira, com os braços atados. Preciso encher-me de rasão para levar o fidalgo a mudar de parecer. O que me resta fazer é ficar de atalaya sem espantar a caça. Custa; mas não ha remedio, depois do que se passou em Canellas.

Margarida Candida desconfiou da inesperada metamorphose de brandura, que se tinha operado no tio; teve medo de que occultasse alguma perfidia machiavelica.

Apezar da vigilancia de André Pinto, ella encontrava sempre meios de a illudir. Ás noites, quando o tio ia concertar com os outros silveiristas o plano da contra-revolução restauradora que devia rebentar em Traz-os-Montes, Margarida Candida, subindo ao muro do quintal, trocava de fugida algumas palavras com o capitão.

O assumpto d’esses rapidos dialogos continuava a ser a reserva, apparentemente bonançosa, em que André Pinto se mantinha.

O capitão de dragões, apezar de querer tranquillisar o espirito de Margarida Candida, denunciava-se, involuntariamente, tambem apprehensivo e receioso, porque bem sabia elle que os odios politicos em Chaves, quando por momentos se acalmavam, resurgiam a breve trecho mais rancorosos.

E acabando por confessar um ao outro as suas apprehensões, suspeitavam de desgraça imminente; mas separavam-se jurando inabalavel constancia, por maiores que fossem os tormentos por que ambos houvessem de passar.

Mal podiam suppôr que a metamorphose de André Pinto fosse devida á entrevista com Antonio da Silveira, então adversario politico de todos os constitucionaes, porque se desaviera com elles em Lisboa, a ponto de ter sido mandado recolher, no meio de uma escolta, á quinta de Canellas.

O capitão de dragões conheceu que estava sobre um vulcão, mas o seu coração não vacillou um momento. Acontecesse o que acontecesse, Margarida Candida continuaria a ser a unica mulher capaz de o fazer affrontar a morte, se tanto fosse preciso.

Graças á lembrança de Antonio da Silveira, chamavam-lhe a ella a Flôr do Támega. Pois bem! esse valoroso capitão de cavallaria 6, que tinha vindo das campanhas da guerra peninsular, em que tantas vezes encarára a morte de perto, estava resolvido a tomar por divisa, no resto da sua vida, a bella Margarida do jardim feminino de Traz-os-Montes, e a defendel-a até ao sacrificio com o heroismo dos cavalleiros da idade-media, tão romanescos como destemidos.


II
Adeus ao convento

...e lhe deram os vestidos seculares, que requereu ancioso de proseguir os actos da sua liberdade por que suspirava.

Frei Antonio da Piedade—«Espelho de penitentes», tom. I.

As quatro filhas de José Bernardo de Vasconcellos chamavam-se Maria Albina, Anna José, Antonia, e Maria Henriqueta.

Todas ellas lindas mulheres, parecendo ser a belleza apanagio de familia, tanto nas senhoras como nos homens.

Maria Albina era a mais velha.

Anna José, branca como as irmãs, tinha como ellas uns olhos de purissimo azul, e cabellos castanho-claros. A côr dos olhos reproduzia-se em todos os filhos de José Bernardo. Se porém alguma das quatro irmãs se avantajava ás outras em belleza, era D. Anna a mais formosa, segundo o testemunho dos contemporaneos. Diziam-n’a encantadora.

O pae, ao rebate dos primeiros achaques, encarregou Frederico da administração da casa, que consistia principalmente em prasos de livre nomeação. Entregou-lh’a, reservando o rendimento da quinta do Outeiral em Arouca para seus alimentos, de seu filho Antonio Pinto, o mais novo, de sua filha Maria Henriqueta, que se destinava á vida monastica, e de D. Theresa Bernarda de Vasconcellos, sua irmã d’elle. Os outros filhos, José, Simão e Joaquim Maria, estavam em posição de não carecer de auxilio paterno.

Desde o casamento de José Bernardo o domicilio da familia Vasconcellos era, como dissémos, na casa de Cezár.

Não primava pela grandeza da traça o solar do Outeiro, como ainda hoje se pode verificar, mas denunciava a nobreza de origem dos seus habitantes no brazão em madeira que corôava o tecto da sala de entrada e no qual se liam os appellidos de gloriosos ascendentes—Leites e Amaraes, Moreiras e Vasconcellos.

Quem hoje fôr a Cezár com o intuito de visitar a casa do Outeiro, poderá reconhecel-a de longe pelos altos cedros, que a ensombram. Mas estas arvores são relativamente modernas. O mesmo se pode dizer de uma pequena sala de entrada, á qual se sobe por alguns degraus de pedra, e que está mobilada com cadeiras de couro, tauxiado nos espaldares e assentos.

Tudo o mais conserva a feição que tinha o solar no tempo de José Bernardo e dos filhos.

O edificio é de um só andar, a pequena altura do solo, com janellas de differente feitio, voltadas ao nascente.

Entrava-se então no Outeiro por uma porta fronha, chamada a Porta vermelha, que abre sobre um pateo de pedra, separado do pomar, cujo nivel lhe é inferior. A sala de recepção era a de entrada, brazonada no tecto. Seguia-se, para o interior da casa, um corredor que dava ingresso aos quartos de cama.

Fóra do edificio ficavam as dependencias do solar, as officinas agricolas, a habitação dos caseiros, e a capella de familia, hoje desmantelada.

A esposa de José Bernardo havia fallecido, deixando na alma do viuvo um denso negrume de saudade, cada vez mais cerrado pela tristeza da inercia, a que a doença o ia reduzindo.

Viviam muito solitarias as quatro meninas, orphãs de mãe, e privadas da tutella vigilante do pae, achacoso e triste.

Frei José tinha comprado a Quinta de D. Maria, a dois passos do Outeiro, e doára-a a todas as quatro irmãs para sua habitação. Mas no Outeiro ou em D. Maria a solidão era igual para ellas.

Quatro irmãos, ausentes: José e Simão cada um em seu mosteiro; Frederico no Porto, Joaquim Maria em Traz-os-Montes.

Frei Simão, cujo caracter energico e destemido animo nunca poderam deixar-se domar pelo habito de S. Bernardo, a si proprio quiz justificar a ideia de que a sua presença se tornava necessaria em Cezár, para companhia e amparo das irmãs.

Era até certo ponto um pretexto, por isso que as quatro meninas ainda tinham o irmão mais novo, Antonio, e a tia, irmã do pae, que podiam acompanhal-as.

Mas frei Simão, a quem a vida religiosa só repugnava pela disciplina monastica e pela sujeição claustral, lançou mão d’esse pretexto para insistir no pensamento de obter a secularisação.

A liberdade de acção e o regresso á terra natal, aos campos da sua infancia, sorriam-lhe como um sonho de felicidade.

Elle havia adquirido propriedades em Alcobaça, comprára ahi a quinta chamada do Mogo, mas o seu espirito nunca se apegára tanto ao torrão florente e uberrimo da Extremadura como aos campos de Cezár, menos pittorescos certamente, mas mais suggestivos para elle, porque desde creança os conhecia e amava.

Dispondo de um animo capaz de tentar empresas difficeis e de arrostar com obstaculos, frei Simão requereu em Roma a secularisação, allegando o pretexto que as circumstancias de familia lhe forneciam. Mas não confiou tanto na justiça da allegação, que não pensasse em reforçar o pedido com valiosas recommendações para o nuncio em Portugal, monsenhor Vicente Macchi, para o embaixador portuguez em Roma, conde do Funchal, e para o cardeal Pacca, prosecretario de estado na Santa Sé.

Succedia que o cardeal Bartholomeu Pacca tinha estado como nuncio em Lisboa, para onde viera em maio de 1795, sendo então arcebispo de Damietta. Vinha já de representar o Papa na côrte de Luiz XVI, d’onde se retirára quando o scisma rebentou. Demorou-se em Lisboa até 1800. No principio do anno seguinte, Pio VII chamou-o a Roma, deu-lhe o chapeu cardinalicio, e investiu-o nas funcções de prosecretario d’estado. Bartholomeu Pacca soffreu, ao lado do Pontifice, as prepotencias de Napoleão I. Esteve preso em França, porque o imperador via n’elle o instigador da bulla d’excommunhão com que havia sido fulminado. Em 1814 voltou com Pio VII a Roma, e reassumiu as funcções que antes desempenhava.

Durante a sua nunciatura em Portugal, o cardeal Pacca creára em Lisboa muitas relações com pessoas de alto valimento, persónas gratas, que lhe podiam recommendar, com efficacia, qualquer memorial.

Não se vae porém a Roma n’um dia, diz o proloquio, tão verdadeiro em relação ás pessoas como aos negocios. De mais a mais, a politica napoleonica continuou a dar que fazer á Santa Sé: em 1815 Murat marchou sobre Roma, e o cardeal Pacca, depois de ter protestado contra a violação do territorio e nomeado uma junta provisoria para governar a cidade sagrada, fugiu.

A pretensão de frei Simão de Vasconcellos foi retardada por todos estes acontecimentos politicos.

Mas quando em junho d’esse anno o cardeal Pacca voltou a Roma, redobraram-se junto d’elle as instancias movidas por frei Simão e auctorisadas com a informação favoravel do geral da ordem de S. Bernardo e do bispo do Porto.

Antes de sahir como enviado extraordinario para Vienna, em 1816, o cardeal Pacca referendou, a 17 de março, o breve de secularisação de frei Simão de Vasconcellos, com o fundamento de poder «prestar auxilio a quatro irmãs germanas, sómente emquanto d’elle carecessem», e com a reserva «de trazer sob o habito de presbytero secular algum signal do seu habito monastico, e de observar a parte substancial dos votos da sua profissão».

Frei Simão era então um homem de vinte e sete annos. Louro, de olhos azues—esses bellos olhos que caracterisavam toda a sua familia—largo de hombros, peito amplo, cabeça desenvolvida, estatura regular.

Com grande alegria recebeu elle o breve que o emancipava da vida conventual.

Mas não despiu a cogulla branca, nem tirou o chapeu preto, nem desatou o cordão que enrolava á cinta. Sahiu assim de Alcobaça, e assim, indo alem da imposição que superiormente lhe fôra feita, o viam os seus parentes e visinhos desde que regressára a Cezár.

Certos visinhos não o tornaram a ver com bons olhos, porque o temiam como homem e o aborreciam como frade secularisado, que não se pejava de mostrar-se inclinado á corrente de ideias revolucionarias que tinham vindo de França.

Mas frei Simão, fazendo-se lavrador ou trabalhando n’uma improvisada officina de mecanica, que montára na casa do Outeiro, dava mediana importancia a visinhos de ao pé da porta.

Alguns mendigos de Cezár, da Feira e de Oliveira de Azemeis iam esmolar ao pateo da casa do Outeiro. Frei Simão soccorria-os. Animados por este precedente, alguns trabalhadores recorreram ao frade para que lhes emprestasse qualquer quantia de que urgentemente precisavam. Frei Simão attendia-os, e perguntava-lhes:

—Quando julgas tu poder pagar?

—Saiba vossa reverencia que d’aqui a seis mezes.

—Pois bem. Dou-te outros seis mezes de espera, mas toma sentido, que se d’aqui a um anno me faltares, comigo terás de haver-te.

Se, passado um anno, o devedor ia pagar pontualmente, conquistava por esse facto a sympathia e confiança de frei Simão: podia contar, de futuro, com a sua algibeira. Se faltava á fé do contrato verbal, o frade, quando acontecia encontrar o devedor, crescia para elle, colerico, de bordão em punho, ameaçando punil-o corporalmente.

Frei Simão tinha uma justiça propriamente sua, principalmente baseada nos dictames da consciencia: bom para os bons, severo para com os delinquentes.

E em questões de dinheiro era de uma meticulosidade intransigente, tanto em relação a si mesmo como aos outros.

Frequentemente percorria todas as propriedades da familia desde Oliveira de Azemeis até Arouca, auxiliando na direcção agricola dos bens o irmão Frederico, antes e depois de casado.

Pela irmã mais velha, que lhe era especialmente dedicada, soube frei Simão que D. Anna José correspondia ao amor de um rapaz, natural do Fundão, de appellido Fonseca, e sobrinho de um visinho do Outeiro.

O frade não conhecia o namorado da irmã, que só apparecia em Cezár no tempo das ferias, mas acertou de se encontrar com elle na occasião em que o general Gomes Freire e os seus companheiros de infortunio já estavam entre ferros como réos de alta traição.

Gostou do rapaz, que era elegante, alto, moreno, cheia a physionomia de vivacidade peninsular: os olhos, muito pretos e luminosos, denunciavam-lhe o ardor da imaginação insoffrida.

O estudante e o frade começaram por conversar de superficialidades cerimoniosas, vindo frei Simão a saber que José Maximo da Fonseca cursava ainda preparatorios no Collegio das Artes, porque o pae levára tempo a consentir em que trocasse a agricultura pela vida litteraria.

Mas o estudante, com a confiança que lhe inspirava o facto de frei Simão ser irmão da mulher amada, e liberal convicto, não tardou a abrir-se em confidencias com elle.

Contou-lhe que em Coimbra era caloiro do alumno de medicina José Maria de Lemos, parente proximo do bispo-conde, e unico estudante que admittiam ás suas conferencias os organisadores da loja maçonica Sapiencia, a qual no anno seguinte começou a funccionar perto do Collegio Novo.

Pela convivencia com o Lemos, a quem era cegamente dedicado, ganhára José Maximo decidido enthusiasmo pelos principios liberaes, que sentia não poder defender ainda a peito descoberto em razão de ser estudante de somenos categoria.

Contou-lhe mais que quem o recommendára ao academico Lemos fôra o major reformado José Maximo Pinto da Fonseca Rangel, seu padrinho e parente, que de uma quinta de Traz-os-Montes tivera de evadir-se para Hespanha, por estar implicado na mallograda revolta constitucional de Lisboa.

Todo o seu desejo era vingar algum dia os trabalhos que o padrinho estava soffrendo por amor da liberdade.

Revelou a frei Simão que escrevêra uma óde em honra de Gomes Freire, e que a mandára ao padrinho para Hespanha.

Finalmente, segredou-lhe que occultava as suas ideias ao tio de Cezár, que não podia vêr liberaes, e que lh’as occultava porque gostava de vir passar com elle as férias.

N’este lance, calou José Maximo, discretamente, a razão capital por que preferia Cezár ao Fundão para passar as férias, a qual razão vinha a ser estar namorado de D. Anna de Vasconcellos, a mais linda entre todas as irmãs de frei Simão.

O frade comprehendeu José Maximo, e affeiçoou-se-lhe pela concomitancia de sentimentos liberaes, que os igualava em pontos de vista politicos, apesar do frade ser alguns annos mais velho que o estudante.

Frei Simão gostou do rapaz, poeta da liberdade aos vinte annos.

Mas Ignacio da Fonseca, o tio de José Maximo, surprehendendo-o uma vez a conversar com frei Simão, empoleirados ambos no muro de um atalho, berrou com o sobrinho, quando elle entrou em casa, e prohibiu-lhe expressamente que mantivesse relações com um sujeito de tão más ideias, disse Ignacio da Fonseca, e peiores sentimentos.

José Maximo, tendo inquadrada na alma ardente a imagem de D. Anna de Vasconcellos, só a ella via emquanto Ignacio da Fonseca berrava. E para evitar a contrariedade de ser expulso de Cezár, metteu-se debaixo dos pés do tio, attribuindo a um encontro casual a conversação no atalho.

—O que te disse elle? perguntava apopletico o lavrador. Havia de fallar-te d’esses marotos de Lisboa, raça infame de pedreiros-livres, corja maldita de maçons, que querem dar cabo da Santa Religião e d’El-Rei nosso senhor...

—Não fallamos de politica, meu tio, respondia José Maximo mentindo com quantos dentes tinha na bocca. Que me importa a mim a politica?

—Mas o que te esteve então elle dizendo?

—Contou-me historias dos frades de Alcobaça.

—Bonitas historias deviam ser essas! contadas por um frade impio, que abandonou a casa de Deus para vir ser vadio e espião na sua terra!

—Espião! exclamou involuntariamente José Maximo.

—Espião, sim, que se não pode dar um passo sem ser presentido por elle. Mas que tome cuidado, que assim como Gomes Freire e os outros estão com a vida por um fio, bem lhe pode acontecer o mesmo, e não se perde grande cousa.

—Eu ignorava que o tio não queria que fallasse com frei Simão. Mas para o futuro cumprirei as suas ordens.

—Eu sei lá! Tu foste levado á pia do baptismo por um maçon (referia-se ao major reformado Fonseca Rangel), tens o mesmo nome, podes ter tambem as mesmas manhas do teu padrinho. Mas põe os olhos n’elle, que lá anda a monte por Hespanha, por ser jacobino e cuspir na sagrada face de Jesus Christo.

—Meu padrinho fazia isso? perguntou José Maximo com inadvertida incredulidade.

—Pois o que fazem todos os pedreiros-livres, toda a cáfila dos maçons?! Se o não sabes, não o queiras saber, porque mettes a tua alma no inferno. Juizinho, sr. José Maximo, e não me ande por esses campos de Cezár a ler livros que não sei d’onde lhe vieram, nem a cochichar com o frade do Outeiro, que fez pacto com Satanaz. Que livros são esses que tu lês?

—São os meus livros de Coimbra, tio.

—Pensei que fossem de França ou de Hespanha... Estás em ferias, não estás? Pois descansa, e diverte-te. Pega n’uma espingarda e atira aos passaros. Isso é que é divertimento proprio de um rapaz, quando não tem que fazer.

José Maximo, logo que o tio voltou costas, foi esconder entalada n’uma trave do sótão a Folhinha do Père Gérard, publicação revolucionaria, vinda de França, de que um francez, Jacques Borel, havia mandado imprimir em Pariz doze mil exemplares, que, traduzidos em portuguez, foram expressamente destinados a Portugal.

Esse era o livro que elle, dias antes, andára lendo por disfarce nas circumvisinhanças do Outeiro, de modo a poder vêr de longe D. Anna de Vasconcellos, que de quando em quando chegava a uma das janellas empanadas por uma espêssa cortina de parietárias.

Elle bem tinha visto passar o tio, de enxada ao hombro, em direcção á presa, cujas aguas ia soltar para a réga.

Todo o cuidado de José Maximo, n’essa occasião, foi mostrar-se muito absorvido na leitura, para evitar que o tio podesse suspeitar que a cabeça de D. Anna José estava espreitando por sob as bambolinas da trepadeira.

Mas, se se livrou de um perigo, cahiu n’outro, porque Ignacio da Fonseca, se não suspeitou do namoro, desconfiou do livro.

Ainda bem que o lavrador lhe manifestou essa desconfiança, porque José Maximo preveniu-se escondendo a Folhinha do Père Gérard. Se Ignacio da Fonseca a tivesse podido haver á mão, decerto a teria ido mostrar ao abbade Moreira Maia ou ao padre Antonio Pinheiro, que lhe abririam os olhos sobre a inconveniencia de tal leitura,—uma peste revolucionaria.

O abbade Moreira Maia era um conservador sincero, mas tolerante, talvez porque a indole sentimental lhe amaciasse as convicções politicas. Era um poeta, que amava os versos e as flores. Posto gostasse de exteriorisar um grande respeito pelas tradições fidalgas, de exhibir pomposamente cavallos e lacaios, dedicava-se a cultivar os canteiros no jardim do presbyterio, jardim embonecado de estatuas mythologicas, com disticos em verso compostos pelo abbade.

Todos os dias Moreira Maia descia a escada de pedra do Passal para ir tratar das suas flores. Só depois de satisfeita essa predilecção artistica, vestia uma casaca de sêda verde, ultimava a sua toilette elegante de cavalleiro.

Quando sentia o tinir das ferraduras do cavallo impaciente no largo que se defronta com a egreja, e a meio do qual se levanta um cruzeiro, era que o abbade apparecia á varanda aberta, que então havia no Passal, calçando ainda as suas grandes luvas de anta.

Depois, de chicote debaixo do braço, apertando por ventura algum botão das luvas, descia a escada, e examinava o cavallo, que um lacaio segurava pela rédea.

Se não tinha qualquer observação a fazer, montava com firmeza, e lá ia, como se dizia então, fazer estremecer as pedras das ruas em Oliveira de Azemeis.

Este typo de abbade, dado a proezas equestres e venatorias, padre enxertado em sportman, foi muito vulgar n’aquelle tempo.

A sua toilette mundana era a casaca.

O famoso bispo santo de Bragança e Miranda, D. Antonio Luiz, que por esse tempo era assumpto de contradictorias opiniões, queixou-se em carta ao abbade de Rebordães de que, ao tomar conta da sua diocese, o commum da clerezia trazia casaca, salvos alguns raros ecclesiasticos, mais pios, que usavam uma chamarra aberta; e accrescentava que só á força de advertencias conseguira impôr o habito talar cerrado na forma dos canones.

Mas o bispo santo não fizera escola nem entre os prelados seus collegas, nem entre o clero de Bragança e outras dioceses. O que em geral os ecclesiasticos vestiam fóra da egreja era a casaca de sêda. O abbade Moreira Maia não singularisava, pois, uma excepção.

E, com a liberdade então permittida á sua classe, passava grandes temporadas longe da parochia, em festas de sport e distracções artisticas, sempre com um certo cunho de elegantes mundanidades.

Levava comsigo para as caçadas e demais excursões recreativas todos os seus lacaios, todos os criados de libré, em numero ostentoso.

Na abbadia ficava apenas uma criada velha, Gertrudes Magna, tia do padre Antonio Pinheiro, que ella havia creado de pequenino, e que o abbade escolhera como coadjuctor, para curar a parochia durante as suas longas e frequentes ausencias.

Este padre era um espirito concentrado, que fugia ao mundo. Vivia habitualmente no Passal de Cezár, mettido no seu quarto, entregue á leitura dos livros santos, e sempre prompto ao trabalho parochial, que o abbade tantas vezes declinava n’elle.

Vivia uma vida simples, frugal, inteiramente opposta á do abbade.

Era uma alma sincera, incapaz de odios, mas a quem causavam horror todos os inimigos da religião christã, suppostos ou verdadeiros.

Frei Simão, para elle, estava n’este caso. Horrorisava-o, porque era pedreiro-livre, segundo se dizia, e os pedreiros-livres, sobre não ter religião, insultavam-n’a.

Por sua parte, o abbade Moreira Maia não podia gostar, como realista que era, do frade constitucional do Outeiro. Mas não o detestava, porque o seu animo era avesso a perseguições facciosas e porque, respeitador da tradição das familias, reconhecia em frei Simão um homem de boa linhagem.

José Maximo, depois das explicações que tivera com o tio, resolveu escrever a frei Simão, communicando-lhe que Ignacio da Fonseca via com maus olhos que publicamente conversassem um com o outro. Contava-lhe o caso da Folhinha do Père Gérard. E pedia-lhe que continuasse a ser seu amigo, e a manter relações com elle, embora precisassem, d’ali em deante, occultar discretamente as suas entrevistas.

Para ser mais uma vez agradavel ao tio, José Maximo limpou uma espingarda velha que encontrou a um canto da casa, e foi caçar.

Completando o disfarce, o estudante disparava muitos tiros sempre que avistava Ignacio da Fonseca trabalhando nos campos com os criados.

O tio, ouvindo as detonações successivas, olhava para o ar e, como não visse passar caça, ria-se, e dizia para os criados:

—O diabo do rapaz entende tanto d’aquillo como de lagares de azeite!


III
Loucura revolucionaria

Que erradas contas faz a phantasia!

Pois tudo pára em morte, tudo em vento,

Triste o que espera! triste o que confia!

Camões—«Sonetos».

A 18 de outubro de 1817 ardiam nas fogueiras do Campo de Sant’Anna em Lisboa os cadaveres dos patriotas liberaes, que haviam sido condemnados pelo crime de lesa-magestade e alta traição.

A respectiva sentença ordenava que os corpos de doze conspiradores, depois de terem passado pelo garrote, depois de lhes haverem sido decepadas as cabeças, fossem queimados, e as suas cinzas lançadas ao mar. Apenas abria excepção, pelo que tocava á infamia posthuma da fogueira, para quatro reus. Mas a todos envolvia na confiscação dos bens que possuissem.

O tenente-general Gomes Freire de Andrade foi executado na torre de S. Julião da Barra, longe dos seus companheiros de desgraça, porque se receiou que o supplicio n’uma praça publica désse origem a manifestações populares.

O crime d’esses doze patriotas, e de outros que foram condemnados a degredo, consistia na aspiração de libertarem o paiz da tutella do marechal Beresford, como primeiro passo para a conquista de um regimen de autonomia constitucional.

A denuncia foi feita ao proprio marechal por tres individuos alliciados pelos conspiradores. Beresford tratou de coordenar as provas da conspiração. Depois entregou o processo ao conselho da regencia, para que o fizesse submetter a julgamento summario, sem admissão de recurso ao rei, que estava no Rio de Janeiro.

Mal podemos imaginar hoje a profunda sensação que este lugubre acontecimento causou nos espiritos fanatisados pelo ideal da liberdade. O sangue das victimas clama vingança. As fogueiras de Lisboa aqueceram, ao longe, nas provincias, o desejo da desfórra. Só Lisboa ficou como que mergulhada n’um enervamento de pasmo e terror.

Todas as esperanças dos liberaes se voltavam para o norte do paiz, especialmente para o Porto, terra classica das arremettidas corajosas.

Suspeitava-se vagamente que não ficariam inertes alguns homens de grande valor, cujo espirito era reconhecido n’aquella cidade como affecto ao progresso das instituições politicas. Indicavam-se nomes: o do desembargador Fernandes Thomaz e o do advogado José Ferreira Borges, secretario da Companhia dos Vinhos.

José Maximo já tinha voltado a Coimbra quando o garrote e o fogo fizeram abortar em Lisboa a primeira tentativa de revolução.

A tal ponto se exaltou, que abandonou o Collegio das Artes e, deixando uma carta confidencial ao seu veterano Lemos, sahiu de Coimbra.

Chegou de noite a Cezár e foi bater á porta da casa do Outeiro, dizendo-se portador de uma mensagem secreta para frei Simão.

Após breves momentos de espera, o ex-frade de Alcobaça appareceu a receber o mysterioso mensageiro. Ficou admirado de vêr ali, áquella hora, José Maximo da Fonseca.

O estudante não justificou a visita senão pelas exaltadas palavras com que rapidamente denunciou o estado do seu espirito.

Vibrava indignado pelos acontecimentos de Lisboa. Sentia-se incapaz de estudar, revoltava-o a ideia de receber a instrucção pela taça da tyrannia, segundo o seu proprio modo de dizer. Preferia ser soldado e conspirador onde quer que a causa da liberdade carecesse dos seus serviços. Se fosse precisa uma cabeça para o sacrificio, da melhor vontade offereceria o seu corpo ao garrote e á fogueira.

Frei Simão teve um momento de bom conselho fazendo notar a José Maximo que elle arriscava o seu futuro, e incorreria não só no desagrado, mas até no odio do tio.

O estudante respondeu com fogosa convicção:

—Que me importa arriscar o futuro, se estou prompto a arriscar a vida?!

Frei Simão, encantado com o animo valoroso d’aquelle rapaz, que pelo ardor do sangue parecia seu irmão, deixou cahir a mascara, e tambem por sua vez clamou por vingança contra os algozes de homens cujo unico crime era amarem a liberdade e a patria.

Estabelecida uma intima communicação entre o frade e o estudante, como se uma corrente electrica os inflammasse simultaneamente, frei Simão contou a José Maximo que tinha recebido uma carta do Porto, de seu irmão Frederico, que em linguagem nublosa lhe dava a entender o que quer que fosse de possiveis combinações revolucionarias. Frei Simão suspeitava que Frederico o saberia por confidencia do coronel Sepulveda.

—Pois vou ao Porto! disse com resolução o estudante. E parto já.

—Já?! exclamou com surpresa frei Simão.

Correu o frade a uma das janellas e abriu-a de repente.

A madrugada clareava o ceu n’uma alvura nitente de leite crystalisado.

—Não! disse elle. Os criados de seu tio, e talvez elle proprio, já devem estar a pé. Seria uma imprudencia inutil atravessar agora Cezár, podendo ser surprehendido. Vossa mercê fica n’esta casa até que escureça, e partirá de noite. Dar-lhe-hei uma carta para meu irmão Frederico, que mora a Santo Ovidio, perto do quartel. Só lhe peço, como retribuição, que, n’uma cifra que logo combinaremos, me vá informando do que se passar no Porto.

Ficar n’aquella casa até á noite! Passar um dia inteiro sob o mesmo tecto que abrigava D. Anna de Vasconcellos! Só este programma de felicidade o poderia deter na sua louca aventura de ir ao Porto. Se fôra o amor que o trouxera a Cezár, a pretexto de desabafar com frei Simão, seria ainda o amor que o reteria ali durante umas felicissimas vinte e quatro horas, que passariam rapidas como um sonho.

José Maximo, olhando para dentro de si, sentia-se heroe. No meio d’aquella familia liberal, Anna de Vasconcellos seria decerto a primeira pessoa que lhe engrandeceria a coragem e o arrojo, e era justamente a seus olhos que elle ambicionava ser heroe laureado ou victima celebre. Pouco lhe importava que acontecesse uma ou outra cousa, comtanto que D. Anna o considerasse como um homem da estatura moral de frei Simão, capaz de arrostar com odios acerbos e de manter até ao heroismo as suas fortes convicções politicas.

Quiz frei Simão que José Maximo fosse descançar algum tempo da fadiga da jornada.

O estudante obedeceu por delicadesa, porque não sentia cansaço nem somno.

Deram-lhe o quarto dos hospedes, sempre preparado nas casas hospitaleiras da provincia.

José Maximo deitou-se, mas não conseguiu adormecer. A sua fogosa imaginação ardia em sonhos de vaga felicidade. Cria-se já um heroe na atmosphera d’aquella casa, a que o coração o prendia. A imagem de Anna de Vasconcellos, que devia estar ali perto, sorria-lhe como o anjo da victoria, que lhe promettesse os louros de um duplo triumpho.

Ás oito horas da manhã, frei Simão bateu á porta do quarto do hospede. Eram horas de almoço. José Maximo não se fez esperar muito tempo. O coração saltava-lhe do peito em palpitações desordenadas. Era que se aproximava o momento de, pela primeira vez, poder fitar rosto a rosto a mulher amada, que até ahi apenas tinha contemplado de longe.

Durante o almoço e as breves horas que se lhe seguiram, o precoce revolucionario do Fundão sentiu-se cobarde deante de D. Anna de Vasconcellos, a si proprio se extranhou pelo acanhamento que o enleiava. Cerca do meio-dia, o acanhamento converteu-se em extasi quando, na sala nobre do Outeiro, a formosa menina dedilhou timidamente cythara franceza, em honra do seu hospede. Ao declinar da tarde, o estudante tinha ganhado coragem, a ponto de, já senhor de si, poder dizer de fugida a D. Anna de Vasconcellos uma coisa que ella sabia a preceito: «Amo-a como se pode adorar um anjo.»

A esta incendida declaração de amor respondeu uma onda de sangue, que do coração subiu ás faces de Anna de Vasconcellos.

Pelas oito horas da noite, frei Simão chamou á parte José Maximo, que se preparava para partir, e disse-lhe:

—Vossa mercê certamente leva pouco dinheiro comsigo. Bolsa de estudante costuma ser magra.

José Maximo respondeu, de prompto, que não precisava dinheiro.

—Ha de precisar, replicou frei Simão, pelo menos para as primeiras despesas. Depois, meu irmão Frederico, como n’esta carta lhe recommendo, olhará por vossa mercê.

José Maximo quiz ainda resistir á offerta, mas frei Simão entregou-lhe uma peça de ouro, dez crusados novos, e, como galanteria, a titulo de recordação d’aquella visita, um napoleão, moeda franceza que Junot havia introduzido em Portugal, e que tinha corrido com o mesmo valor das peças portuguezas: 6$400 réis.

—Esta moeda, disse o frade referindo-se ao napoleão, ficou com algumas outras no pé de meia da minha familia como memoria historica de uma epocha nefanda. Quero eu que vossa mercê a possua como um vademeco que lhe ha de espiritar o amor á patria e á liberdade, quando se lembrar de que os tyrannos pretendem escravisar os povos não só pelo ferro, mas tambem pelo ouro.

José Maximo agradeceu, confundido, a generosa dádiva de frei Simão, e sahiu da casa do Outeiro tão fascinado pela recordação deliciosa d’aquelle dia como pela ambição de poder ser, aos olhos de Anna de Vasconcellos e da patria, um libertador audaz, um redemptor immortal.

Metteu por atalhos até encontrar, á distancia de uma legua, a estrada real de Coimbra ao Porto.

Graças á generosidade de frei Simão, poderia fazer o resto da jornada mais commodamente, logo que encontrasse no caminho um almocreve ou um lavrador que lhe quizesse alugar um macho.

Marchou desembaraçadamente toda a noite. Só quando já alvejavam os primeiros clarões da manhã, descançou recostado ao tronco de uma arvore, por alguns momentos. Então uma voz de camponesa, plangentemente cadenciada, começou a cantar a pequena distancia:

Quem quer vêr um infeliz,

Que nasceu ao pé da faya?

Não ha desgraça nenhuma,

Que n’este infeliz não caia!

José Maximo, instinctivamente, levantou os olhos para a arvore a cujo tronco se tinha encostado: era uma faya.

Esta coincidencia impressionou-o.

Elle tinha bebido com o leite materno a credulidade nas superstições populares. Os agouros são a tea de aranha em que se enrédam muitas organisações audazes, que não costumam tremer deante de perigos reaes. Um vago presentimento intimida-as mais do que um franco adversario. E comprehende-se que seja assim, porque os fortes, por isso mesmo que não receiam os homens na lucta com elles, apenas podem acobardar-se deante do poder mysterioso que regula os acontecimentos humanos.

Aquelle rapaz, que parecia haver nascido para luctar, tinha, como Achilles, um calcanhar vulneravel: era a indole supersticiosa.

Por isso, ergueu-se rapidamente, seguindo jornada para fugir a esse logar de triste recordação,—como quem se dá pressa em cortar o inesperado encontro de um ruim agouro.


IV
A iniciação