ALBERTO PIMENTEL
ENTRE O CAFFÉ E O COGNAC
PORTO
IMPRENSA PORTUGUEZA
Rua do Bomjardim, 151
1873
ENTRE O CAFFÉ E O COGNAC
ALBERTO PIMENTEL
ENTRE O CAFFÉ E O COGNAC
PORTO
IMPRENSA PORTUGUEZA
Rua do Bomjardim, 151
1873
Ao seu presado amigo
Manuel Lopes Martins
Offerece
O author.
Obrigado a dar folhetim original aos domingos no Primeiro de Janeiro, era ás sextas feiras, entre o caffé e o cognac, que eu, reclinado no espaldar da poltrona, procurava assumpto.
Este livro, em que se grupa a maior parte dos folhetins de sete mezes, foi pois meditado entre o caffé e o cognac.
Fica explicado o titulo.
O GABINETE DE CAMILLO
Eu já citei algures estas palavras de Alexandre Dumas pae: «Ha sempre nos moveis que vos cercam alguma cousa de vós mesmos».[1]
Tão profunda verdade, se carecesse de demonstração, encontral-a-ia no gabinete de Camillo Castello Branco.
É aquelle um templo consagrado unicamente á Arte. Alli tem altar a pintura, a archeologia, a historia natural, e a litteratura. Presente-se que se está no gabinete d'um grande romancista porque se adivinha a historia de cada quadro, a novella de cada movel, a epopêa do tinteiro de metal amarello d'onde ha pouco mais de vinte annos tem nascido para gloria das letras portuguezas[{10}] cerca de cem livros. Tudo alli falla. Ha idillios de saudade suavissima a murmurar ao de cima dos silenciosos companheiros da mocidade; ha marcos milliarios que rememoram successivas phases da vida do escriptor. Os verdadeiros amigos de Camillo são aquelles. Só elles guardam o segredo de intimas commoções, que parecem vibrar ainda em novellas escriptas ha doze annos, e que primeiro lhe arrancaram lagrimas a elle do que a nós. O talento de Camillo é nosso: estamos ha longo tempo familiarisados com elle; tanto o estimamos, que o vamos procurar mal que se annuncia um livro novo. Nós lemos o livro já enroupado em galas de estremada linguagem; mas o seu gabinete lê o esboço da novella tal como lhe sahiu do coração. Nós vemos a estatua; o seu gabinete vê Pigmalião. Quando as lagrimas nos chegam a nós já as sentimos dulcificadas pela amenidade da phrase. Não as vemos; conhecemos-lhes apenas os vestigios. Mas o seu gabinete viu-as. O mesmo é pelo que respeita a personagens. Nós conhecemos o retrato; o gabinete conheceu o modelo. Camillo tem feito a historia de muito homem; só o seu gabinete poderia fazer a historia de Camillo. Nós temos o romancista; o gabinete tem o homem. Ainda mais. Se os moveis quizessem fallar, revelariam o romance de muito escriptor portuguez, que elles têm conhecido e ouvido em intimas praticas, ora contando os seus desalentos, as suas maguas, os seus queixumes, ora arroubando-se em enganosos sonhos, em esperanças quasi sempre mentidas, em aspirações poucas vezes realisadas...[{11}]
Todavia o leitor denuncia-se impaciente de entrar ao gabinete de Camillo.
Entremos pois.
Corrido um reposteiro, estamos n'uma alegre e clara sala á-rez-de-chaussée. Logo nos fascina o pittoresco do ensemble. Não é o gabinete de Lucullo; é o escriptorio d'Horacio. Não ha iriados reflexos de crystaes e marmores. Encontramos apenas o atelier do artista.
Dizem para a rua duas largas janellas; transparentes amarellos modificam a claridade exterior.
No desvão da janella da direita casa-se com o angulo da parede uma pequena mesa triangular coberta de panno amarello; o desvão da janella da esquerda é occupado por uma gaiola, prisão d'um viuva, ave cujo nome procede de se vestir de negro duas vezes ao anno.
É a viuva o primeiro cuidado de Camillo quando entra ao seu escriptorio; vae vel-a, fallar-lhe, examinar se lhe faltam as regalias indispensaveis para tornar suave a carceragem.
Á parede interposta ás duas janellas fica encostado o fogão sempre chammejante de intenso brasido; sobranceiras ao fogão pendem uma gravura representando Lacordaire, e um quadro com o retrato de Vieira de Castro. Visinha do fogão está a priguiceira de palha, onde o romancista, ora com os pés no fender, ora resguardados no couvre-pied de feltro, procura repousar-se para o trabalho, intercortado de pequenas pausas, lendo os jornaes do dia e atiçando o fogo.
Entre a janella da direita e a porta, encimada por[{12}] um quadro a oleo que representa as armas da casa de Cadaval, ha uma banca com tinteiro de prata e uma cesta de palha cogullada de cartões de visita, que a meu vêr são o verdadeiro bosquejo historico da litteratura portugueza. O erudicto padre Cardoso, se tivesse conhecimento d'esta cesta, poderia augmentar consideravelmente a sua synopse com os nomes de notabilissimos escriptores portuguezes desde Garrett a esta parte.
Este lanço de parede está adornado com os retratos da familia de Camillo e com um quadro a oleo reputado de Murillo por pessoas sobremodo competentes em assumptos de pintura.
Na continuação d'esta parede encontramos uma etagére de pau preto com romances francezes e inglezes; sobrepostos á etagére os retratos da familia Ouguella, uma paisagem ingleza a oleo, o collar da academia real das sciencias que pertencera a Vieira de Castro, e uma valiosa placa de prata que apresenta em relevo a imagem de Santo Antonio.
Segue-se uma mesa sustentando uma estantesinha entre cujos livros notaremos as obras de Filinto Elysio; sobre a estantesinha ha um relogio; superior um quadro anonymo a oleo, figurando o Eden; aos lados duas gravuras francezas, uma assignada por Desjardins—L'aprés dinée—, outra assignada por Paul Girardin—La Benediction paternelle, e a photographia de José Barbosa e Silva, deputado que foi da nação, e auctor do romance Viver para soffrer.[{13}]
Avultam no angulo duas etagéres com livros e bustos.
Cobrem a parede do fundo duas estantes envidraçadas, sobranceadas por quadros a oleo, bustos de escriptores estrangeiros, rumas de livros, e pela caixa que guarda o chapéo do uniforme de socio da academia pertencente a Vieira de Castro.
Encostada á parede fronteira á porta d'entrada ha uma estante, e pendentes varias gravuras, retratos, e pinturas.
Uma das gravuras assignada por Granville representa o lance do Medecin malgré lui em que Sganarelle diz a Géronte: Voilá justement ce qui fait que votre fille est muette; ha ainda duas gravuras, copias de Horacio Vernet, denominadas Le dernier morceau de pain e Le dernier ami, que o romancista possue desde os vinte annos.
Resaltam tambem d'este panno dois quadros a oleo, um relogio de parede, uma copia da Virgem da Cadeira, o espadim de Vieira de Castro, e os retratos de Thomaz Ribeiro, Vieira de Castro, José Julio d'Oliveira Pinto, Francisco Martins, e morgado de Pereira, actualmente em Africa, senhor da honra e solar de Esmeriz, antigo solar dos Pereira Forjazes, de Riba d'Ave.
Por estes sinceros amigos d'outros tempos, Vieira de Castro, José Barbosa e Silva, José Julio d'Oliveira Pinto, hoje cadaveres, sente ainda o coração de Camillo pungentissima saudade. Não ha ahi encontrar memoria mais tenaz em recordar desgraças alheias, e alma[{14}] mais devotada a carpir as angustias d'esses notaveis homens que pereceram deixando immoredouro nome á historia portugueza mais deslembrada do que elles valiam do que o amigo que os prantea ainda no remanço meditativo do seu gabinete.
Em seguida á estante deparamos uma jardineira com candeeiro, albuns, e uma urna de prata offerecida pelos portuguezes de Hongkong, como consta da inscripção gravada na mesma urna:
AO ILL.mo E EX.mo SNR.
CAMILLO CASTELLO BRANCO
O.
OS SOCIOS DA
BIBLIOTHECA PORTUGUEZA
DE HONGKONG
1869.
Immediatamente á jardineira ficam o sophá e as poltronas d'estofo vermelho com ramagens cinzentas. As demais cadeiras são de pau preto com molduras douradas.
Entre o sophá e a janella da esquerda está collocado um contador sobre o qual assentam rumas de livros e outro candeeiro.
Resta-nos fallar d'uma estante de musica, que serve de banca a Camillo, quando por incommodo de saude não póde lêr sentado, para chegarmos á mesa onde habitualmente escreve, posta á esquerda da porta d'entrada.[{15}]
São unicos adornos da sua banca um tinteiro circular de metal amarello, um cinzeiro de loiça, uma cabeça de metal onde archiva as cartas recentemente recebidas, livros depositados a um e outro lado, e tiras de papel que Camillo Castello Branco infatigavelmente enche todos os dias.
Da banca para o fogão facilmente se deslisa ao longo do tapete que cobre todo o pavimento.
Sigamos este breve trajecto para nos repotrearmos na priguiceira de palha em que provavelmente se reclinou o imperador do Brasil, que Camillo Castello Branco presenteou com um quadro dos reis de Portugal até D. João IV.
Relanceemos ainda um olhar a este mudo conjuncto de coisas inanimadas que o romancista estima como partes integrantes de sua familia. Parece-nos porém ouvir passos no corredor. É decerto Camillo que vem retomar o seu posto de todos os dias. Soou a hora de trabalhar. Antes de sentar-se, festejará a ave da gaiola, aquecerá ao fogão as mãos enregeladas, e abancará depois para escrever um dos ultimos capitulos do romance Herança de Londres ou para traduzir primorosamente algumas paginas do Diccionario de educação, de Campagne.
Antes que o artista entre ao seu atelier e retome a penna que descança sobre o tinteiro desde o alvorecer da manhã, saiamos nós, os que não temos direito a surprehender o escriptor na doce quietação da sua vida intima.[{16}]
Entre o romancista que está escrevendo a novella cujo entrecho será amanhã conhecido das classes menos abastadas da sociedade portugueza e das mais remotas provincias, interpõe-se hoje o reposteiro que separa o escriptor do homem.[{17}]
O PRIMEIRO DE JANEIRO
O Primeiro de Janeiro é como os viajantes que teem de partir ao romper da manhã: passa a noite a fazer a mala.
Quem vae de jornada prepara-se para todas as eventualidades: mette ao sacco seis lenços supranumerarios para uma constipação; a casaca para uma soirée inesperada; um frasco d'agua sedativa para uma nevralgia; dois livros para uma hora d'aborrecimento; os sapatos de borracha para um dia de chuva. Ainda como o touriste, o Primeiro de Janeiro dispõe-se a poder satisfazer todas as reclamações que o assaltem no caminho: para os impacientes leva na mala os telegrammas, para os negociantes as cotações, para os politicos o artigo, para os ociosos o folhetim, para os alviçareiros as noticias, para os interessados os annuncios, e para as senhoras as modas.[{18}]
Os passageiros vão sentados no vehiculo; elle vae a correr pelo caminho. Quando o comboyo parte, apparece-lhes nas Devesas; quando chega a Aveiro, encontram-no na estação; quando passa em Coimbra, o Primeiro de Janeiro salta aos vagões e diz aos viajantes engalfinhando-se na portinhola: Aqui estou!
Que prodigio de ubiquidade é este? Como é que o jornal chega primeiro que o homem! Ah! é porque o homem é o barro, e pesa, e o jornal o pensamento, e vôa. Nasceu da faisca electrica e do vapor; é irmão gemeo da locomotiva. O comboyo leva o homem; o jornal o pensamento. O motor d'um é a machina; o do outro o espirito humano. São os passaros da civilisação, as aguias do progresso. Por isso Arsenio Houssaye disse: «O jornal é a ave errante que atravessa o mundo: prendei-lhe a vossa ideia á asa, e a vossa ideia florirá nos mais remotos desertos.»
Nada ha menos complicado que o jornal e mais complexo que elle: é a sociedade, a raça, a civilisação e o seculo. É o thermometro que mostra o grau da vitalidade popular, a lente que reproduz a lucta das gerações, o melhor historiador e a melhor historia.
Poderemos chamar ao Genesis o jornal da creação do mundo, o que nos leva a crêr que esta manifestação do pensamento publico não data unicamente dos tempos de Guttemberg, mas vae pelas idades a dentro procurar origem no fiat creador que deu fórma e movimento ao nada. Á medida que a intelligencia do homem ia profundando a sonda n'este mar de bellezas infinitas[{19}] que o verbo creador espraiou entre as balisas do universo, e se foram arando os mares, e desbravando as florestas, e povoando cidades e consolidando imperios, a vida das nações tomou um incremento que se não poderia registar em longas chronicas, como os commettimentos da antiguidade, senão que dia a dia, hora a hora, momento a momento. A personalidade moral do homem dilatou-se e, na impossibilidade material de estar em toda a parte, diffundiu o seu pensamento em particulas que voaram aos grandes centros attrahidas pela gravitação que regula a harmonia das sociedades. Então o jornal renasceu de si mesmo, multiplicou-se, e começou a collaboração universal dos povos á beira da prensa d'onde todos os dias parte o mensageiro alado a sacudir da plumagem as ideias que o homem lhe prendeu. É o correio do mundo, o postilhão dos seculos; anda sempre e não cança. Cada geração tem o seu temperamento collectivo, as suas paixões, as suas luctas, os seus revezes e os seus triumphos. O jornal, que é tudo isso, irá resuscitando amanhã do tumulo que se fechou hontem, e acompanhará o movimento febril das gerações que se succedem. O que viajar mais depressa, será sempre o mais querido. Espera-o a officina e o albergue com a impaciencia de quem sabe a hora a que deve chegar um mensageiro. A velocidade é indispensavel, mas ainda não é tudo. É preciso que o jornal não seja egoista, não roube ao operario o pão do corpo para lhe dar o pão do espirito, que não esbulhe as creanças do patrimonio que o salario do pae vae dilatando cada dia. Urge[{20}] pois que o jornal tenha azas para chegar depressa, e que reuna á velocidade a modicidade para sustentar equilibrio entre a receita intellectual, que o jornal representa, e a receita economica, que o trabalho produz.
O Primeiro de Janeiro reune estas duas condições maximas, que se completam pela sanidade da doutrina, e mais d'uma vez tem nas primeiras horas do dia entrado ao albergue e á fabrica firmado pelos primeiros escriptores do paiz. Realisa o desideratum que em 1848 intensamente preoccupava o espirito de Alphonse Karr: «Eu publicava então em Paris—diz o author das Tresentas paginas—um jornal a 10 reis, no qual collaboravam os nomes mais celebres e mais festejados. Queriamos vêr se as classes populares preferiam—como pensam alguns—o vinho tinto das barreiras ao Château-Laffitte e ao Rheno;—queriamos fazer a experiencia e dar-lhes o Château-Laffitte e o vinho do Rheno pelo preço do vinho d'Argenteuil. Por dez reis—o preço das mais grotescas e das mais odiosas especulações—fazer vender um jornal bem impresso, em bom papel, com artigos dos mestres da litteratura.»
O Primeiro de Janeiro entrou abroquellado no certamen. Quiz vêr se o povo preferia o vinho da Bairrada ao vinho do Porto, e conheceu que era essa uma calumnia de pessimistas aristocratas. O povo lia a Formosa Mangalona e o Vicente marujo porque lhe não facultavam um jornal que simultaneamente lhe ensinasse as evoluções do mundo physico e do mundo moral, não porque o jornal tivesse a pretenção de resumir em si a[{21}] sciencia universal, mas porque da natureza mesma dos assumptos do dia derivavam os conhecimentos que o jornal espalhava. Trabalhou para lhe dar o vinho do Porto pelo vinho da Bairrada, e provou que a inanidade das classes baixas provinha do abuso da zorrapa com que dessedentavam o espirito diante da litteratura de cordel e cego andante. Luctou, batalhou, e conseguiu dar ao povo, por dez reis, um almoço de politica e litteratura,—o romance das nações e o romance dos homens.
Alphonse Karr, quando estava empenhado em tão santa crusada, devotou-se inteiramente a ella; não visitava o seu jardim de Sainte Adresse; esqueceu as flores e o mar. O Primeiro de Janeiro vive igualmente para o povo. Emquanto o povo dorme, vae o prelo imprimindo a ideia que pela manhã ha de saltar na rua.
Enxameiam á porta os gavroches como soldadesca impaciente de dar batalha. Esperam o almejado momento de transpôr o limiar. E no phrenesi do desespero saracoteam e gritam:
—Abram!
—São horas!
—Já é tarde!
Sentem ranger os gonzos. Apinha-se a multidão em vaga encapellada, e entra de tropel. Os empregados da machina dobram os jornaes. O distribuidor está de pé.
C'o a mão no junco, irado e não facundo,
Ameaçando a terra, o mar e o mundo.[{22}]
—Que leva hoje?
—A novidade?
—Diga, diga!
É o côro dos gavroches que pedem anciosamente o pregão. O distribuidor tem lido previamente o jornal. Faz signal de silencio e vota falla:
—Foi o raio que matou um homem.
Calam-se, conticuere omnes, a fixar na memoria o pregão. O receio de se esquecerem faz com que realmente se esqueçam. Lá pergunta um:
—É o homem que matou o raio?
—Toleirão! Foi o raio que matou o homem.
São-lhes distribuidos os jornaes; os gavroches rugem de impaciencia. Para que não haja rivalidades, saem todos ao mesmo tempo. É um furacão que passa.
Que sejam mancos ou não, pouco importa. N'aquelle momento todos teem azas... nos pés, como Mercurio. Estala a multidão na rua similhante a bombarda. É a noticia, o telegramma, o romance, a politica que sapatea no solo. Começa a vida no exterior. Saíu o sol. E o operario antes de trabalhar para o patrão trabalha para si,—vae lêr.
O que é feito do Moienes, do Morte-scaloia, do Pintasilgo, do Pau-preto, do Cacaracá? Desappareceram. Demoram-se apenas um segundo para entregar o jornal e receber o dinheiro. Resta unicamente o José Custodio, o melhor typo da collecção, sentado no passeio, repousando a perna manca, a lêr o jornal atravez da sua famosa luneta. É um grande egoista o José Custodio.[{23}] Antes de dar aos outros, quer para si. E depois fia-se no seu talento comico, e sabe, dando ouvidos ao orgulho, que os outros não vão mais depressa por ir primeiro. Basta-lhe apregoar para vender. Estão agrupados os pedreiros a almoçar. O José Custodio vae mancando e gritando:
—Licença que veio do governo para os côdeas usar bigode!
O sapateiro, quando elle passa gritando, berra de dentro. O José Custodio esbofa-se a apregoar:
—É a morte d'um sapateiro que morreu entalado com um pino!
O José Custodio é o epigramma, a satyra, a mordacidade vibrante. Por onde elle passa, incendeia o rastilho da curiosidade. Até certo ponto, encontrou um rival no Jeronymo, que tinha d'engenhoso quanto o José Custodio tem de mordaz. Eram os pimpões do rancho; reinadios como nenhum! O Jeronymo affeiçoou-se a um cão, ou o cão se lhe affeiçoou a elle. Comprou um carro de pau, que o fiel mollosso tirava, e onde levava o jornal; a ideia do vehiculo suscitou-lhe a tentação de negociar em larga escala. Começou a vender por sua conta folhetos e repertorios. Era um andar que luzia! Um dia aborreceu-se de ser feliz e desertou: o cão desertou com elle. Mas que imaginoso homem o Jeronymo! No tempo da guerra franco-allemã arranjou tres canas com encaixes de folha. A ultima tinha no topo uma campainha, um gancho e um saquitel que se moviam por correia. Sahia de noite o supplemento. Batia[{24}] com a cana na vidraça, a campainha tocava, no gancho ia o supplemento, o freguez abria a janella, e o Jeronymo descia o saquitel que trazia dentro dez reis.
Vejam que talento este! Ó prodigio!
Um cego muito conhecido, que ainda não encontrou cão fiel e precisa de ganhar a vida, assalariou um rapasinho que o conduz. O cego apregoa, e o rapasinho recebe o dinheiro para vêr se é falso.
E é assim que o jornal, que espalha a ideia, ampara a cegueira d'uns, a vida d'outros, e a pobresa de todos.
Olá! São elles, os gavroches, que pedem o jornal d'hoje. Espera-se unicamente pelo folhetim. Pois bem, o folhetim ahi vae.[{25}]
A AGUIA D'OURO
O QUE FOI E O QUE É
O dia 12 d'outubro de 1833 era de festa para todo o Porto, cidade que vae sempre na vanguarda das iniciativas patrioticas.
Celebrava-se o anniversario natalicio de sua magestade imperial o senhor D. Pedro de Alcantara, duque de Bragança, e regente do reino.
Ao amanhecer, ao meio dia e á noite salvaram as baterias das linhas de defeza ao norte e ao sul do Douro. O general Stubbs, commandante do exercito do norte, passou revista ás tropas estacionadas em seus acantonamentos nas linhas. Estiveram embandeiradas algumas ruas da cidade e estoirou durante o dia muito fogo do ar.
Tanto que foi noite, houve illuminação geral, e abriram-se de par em par as portas do theatro de S. João onde a sociedade dos actores nacionaes, em commemoração de tão faustoso dia, representara um elogio dramatico denominado Gloria de Lisia, terminado o qual elogio[{26}] o governador das Armas da Provincia levantou vivas á familia real.
A Chronica constitucional do Porto, unico jornal que a esse tempo era lido de portuenses, escrevendo do espectaculo diz que diversas obras Poeticas, e Hymnos encheram os intervallos do Drama que foi á scena.
O snr. João Nogueira Gandra, proprietario da typographia onde se imprimia a Chronica, publicou ao depois em opusculo todos os sonetos que se recitaram n'essa noite e na seguinte, em que o espectaculo se repetiu.
N'aquelles tempos com tal impetuosidade repuxava o patriotismo poetico do imo peito, que não bastavam as breves horas d'uma noite a dar-lhe vasão. Os vates incendidos em amor da patria ficavam com o metro reservado para a noite seguinte, como hoje os nossos parlamentares ficam com a palavra reservada para a sessão immediata.
Deixemos porém as bellesas de 1833 estadeando seus dotes naturaes nos camarotes do theatro de S. João, enviesando olhares mais amorosos que patrioticos aos cysnes que punham fóra da balaustrada o pescoço, cujos musculos se avolumavam apopleticamente quando a onda do estro refervia nos gorgomilos enfartados.
Onde iremos nós levar a nossa mysanthropia, fugindo o congresso do que mais selecto havia em ambos os sexos na sociedade portuense? Mais selecto não podemos dizer, porque faltavam muitas pessoas da melhor[{27}] roda contemporanea, entre as quaes bardos que hoje se diriam satanicos, e que antepunham o contacto das garrafas á contemplação de mulheres formosas.
Esses taes leram na vespera o seguinte annuncio inserto na Chronica constitucional do Porto:
«Amanhã sabbado 12 do corrente, se abre o novo Caffé do Commercio na rua nova dos Inglezes aonde se encontrarão diversidades de Vinhos e Licores engarrafados, Nacionaes e Estrangeiros.»
A novidade do acontecimento e a perspectiva de lauto beberete devia de attrahir numerosa concorrencia ao Caffé do Commercio, que pela primeira vez se abria n'essa noite na casa onde actualmente está o escriptorio da companhia de seguros Garantia.
Em conformidade com a opulencia botiquineira d'esse tempo, o novo Caffé do Commercio tinha cortinas de chita e mostrava sobre o balcão uma longa fila de copos, voltado para cima o fundo, que servia de base a um limão.
Como ainda então não estivessem arruinados pela dyspepsia os estomagos nacionaes, e houvesse portuguezes que bebiam um quartilho de geropiga com o simples condimento d'uma azeitona, eram minguadas as docerias nos botiquins e ordinariamente limitavam-se a melindres e bichinhas. Quando porém os negociantes da baixa se sentiam enfraquecidos á hora do lunch ou da merenda, não se repletavam com assucarices de nenhuma substancia. O petisco mais em voga eram ostras que vinham de Lisboa já cosinhadas no unico vapor de carreira[{28}] que então havia, e que se comiam no novo Caffé do Commercio, a 60 rs. cada uma.
Calcule-se do consumo dos liquidos n'aquelle estabelecimento tão prosperamente aberto, depois de saber-se que os mais appetecidos e procurados comestiveis eram ostras, mollusco sobremodo irritante para o systema nervoso, e talvez causa primaria da depreciação da geração actual.
Mas voltemos á abertura do novo Caffé solemnisada na rua dos Inglezes com vistosa illuminação que sobrelevava as demais.
Apollo presidiu em espirito á bacchica tunantada.
Os vates empunharam as lyras e, por muito costumados á dedilhação, até das bambas cordas tiraram muito correctos sonetos, mais lisongeiros ao duque de Bragança que agradecidos ao proprietario do botiquim, não obstante sentirem enervado o braço pela acção cada vez mais intensa dos liquidos.
Parece que deposta a oitava-rima, por inopia de pojantes Camões, a fórma de metro mais patriotica n'aquelles tempos era o soneto, que, por muito familiar que fosse a festa, havia forçosamente de ser allusivo aos acontecimentos politicos da epocha.
Um dos cysnes levantou o pescoço e modulou este soneto, que logo foi distribuido pelos circumstantes:
Se brama pelos Ceos da Liberdade
O espantoso trovão da Tyrannia;
Se cobrem trévas a Lusa Monarquia,
Fulge o clarão da antiga Heroicidade.[{29}]Quanto cresce a despotica maldade,
Assim dos povos o valor porfia,
Com o Chefe de Bragança por seu guia
Enchem d'assombro a vindoura idade.Dias felizes, dias venturosos,
Augura-nos o Ceo, em dons fecundo!
Maria e Pedro nos farão ditosos.Daremos nobre exemplo á Europa, ao Mundo:
Que os Povos de ser livres sequiosos,
Calcam do despotismo o rosto immundo.
O segundo soneto afina pelo mesmo tom emphatico;
Thronos ha tido o Mundo, que producto
Foram tão só de Leis, e sangue herdado,
Quaes desde longo tempo celebrado
Os gosa Portugal indissoluto.Outros não foram mais que excelso fructo
Da Justiça, e do Merito elevado;
Qual Viriato, e qual Sertorio honrado,
Reis ou Chefes por solido atributo.Taes houve, e ainda os ha, a quem Cobiça,
Ou Acazo erigio, contra seu Dono
Fervendo a Execração que a Raiva atiça!A Segunda MARIA em seu abono,
Em mais bases que as Leis e que a Justiça
Tem sobre corações firmado o Throno.
O terceiro soneto troa assim:
Se em nossa idade, ó Jupiter, quizeste
Com terrivel aspecto olhar a terra,
Se os males todos da sanguinea Guerra
Surgir do negro Barathro fizeste:[{30}]A PEDRO tu doaste um dom celeste,
Que ao fero Usurpador confunde e aterra:
Monstro dos monstros, que no peito encerra
Tartareas serpes que vomitam peste!PEDRO, d'altas virtudes coroado,
Olha nos Luzos inconcusso abono
De elevar sua Filha ao Solio herdado.Nunca Lisia hade ter intruzo Dono;
Seu Rei é como os Numes adorado,
E tem nos corações firmado o throno.
Falta o quarto soneto;
Nos faustos Ceos de Lisia triunfante,
A Liberdade o grito levantando,
Ferros ao Despotismo vai lançando
De têmpera mais dura que o diamante.Do Throno o esplendor salva constante
D'um principe brioso ao nobre mando:
O Solio, quasi em terra, sustentando,
Esmaga a Hydra de aspecto vacilante.Oh Principe ditoso, exulta, e vive,
Para que esta Nação por Jove eleita
Dos teus Decretos os seus bens derive.Da Patria, como Pai a olhar-te affeita,
De Lisia, que na gloria hoje revive.
Do salvo Povo, os corações acceita.
Não obstante o fallar-se de corações nas composições precedentes, parece que a viscera mais attendida na bambochata era o estomago, e a illuminação por igual abundante dentro e fóra.[{31}]
O dono da casa não tinha sobejos motivos para ficar lisonjeado da amabilidade dos convivas que não fallaram d'elle nem do botiquim.
O certo é que n'aquella epocha em que não havia editores, os vates lucraram duplamente com o brodio, porque ao depois se imprimiram os sonetos na typographia Gandra, sendo cada soneto precedido d'estes dizeres;
PUBLICADO E DISTRIBUIDO A 12 DE OUTUBRO
DE 1833:
POR OCCASIÃO DA ILLUMINAÇÃO,
QUE NA RUA NOVA DOS INGLESES DA CIDADE DO PORTO
SE PATENTEOU N'ESSE DIA DE ABERTURA
DA CASA DE CAFFÉ DO COMMERCIO
Custava o folheto, de quatro paginas, um vintem.
Se bem que os versos em 1833 estivessem mais baratos do que as ostras, os poetas, attento o pequeno dispendio da impressão, deviam enfardelar no mesmo sacco, a despeito do anexim, honra e proveito.
Ora este Caffé do Commercio, que recebeu ao nascer o baptismo da politica, veio depois a mudar-se para a Praça da Batalha com o nome de Aguia d'Ouro, sem todavia desmentir, apesar da mudança, as tradições que lhe embalaram o berço.
Venus do botiquim, sahiu da onda da revolução e mantem-se revolucionario, posto que decorado ao gosto moderno, com espelhos, mesas de marmore, e apainelado o tecto com manchas multiformes de humidade e immundicie.[{32}]
Não obstante o desgracioso do tecto, alli se travam ainda os grandes acontecimentos portuenses, as pateadas, os meetings, as eleições, e alli se discutem as magnas questões do estado.
Verdade é que ha outro botiquim onde se conversa de politica,—o Suisso.
Todavia este caffé usa entreter-se na tranquilla politica municipal, ao passo que os mais animados debates da Aguia versam sobre politica governamental.
Da Aguia tem sahido acontecimentos para a historia; do Suisso, que nos conste, apenas uma ou outra occasião sae uma embriaguez para a pharmacia.
Sem embargo muitas discussões da Aguia acabam por diluir-se em amoniaco.
Já disse pois o que foi a Aguia d'Ouro e o que é.
Quanto a mim, a Aguia d'Ouro é... o que foi.[{33}]
PHYSIOLOGIA
DO
THEATRO DE S. JOÃO
(NO DOMINGO GORDO DE 1873)
Elle é grande e triste. Não obstante hade esta noite encher-se de sociedade sedenta de recrear-se. As senhoras estão nos camarotes como livros de marroquim em estantes de mogno. Lêem-se as etiquetas e passa-se adeante.
Os bailes de mascaras permittem em toda a parte que se atire uma flôr, um rebuçado, uns versos. Alli não. O mais que se atira é um... olhar. O mais que se faz é um cumprimento. Bonitos livros mas em sanskrito. Tudo luxuoso e frio.
É que elle, o theatro de S. João, é grande e triste.
No Palacio de Crystal um baile de mascaras é uma batalha; os galopes são cargas de bayoneta. No theatro de S. João valsa-se para passeiar á roda com outra mascara. No palacio bebe-se Xerez ou Porto; em S. João parece que todas as pessoas estão costumadas a[{34}] tomar vinho em... pilulas. Gostam de comer delicadamente um cacho d'uvas, e sentem-se horrorisadas deante d'uma garrafa. Para ir a S. João basta haver ceiado; para ir ao Palacio é preciso ter comido uma ceia. S. João é uma sala; o Palacio é uma avenida. Em S. João é uma visita; no Palacio é uma escaramuça; a S. João vae o mascara; ao Palacio vão as mascaras.
Depois que dá meia noite parece estremecer a grande nave do Palacio na vertigem do galope. É um assalto á quaresma que está perto, uma lucta, um combate; é preciso vencel-a e dançar ainda em quarta feira de cinza. É uma invasão das hostes do carnaval pelos reinos das endoenças. Ah! tu estás ahi, ó roxa penitencia, a dois passos de distancia, palida dos teus jejuns, angustiada pelos teus cilicios, arrependida dos teus erros! Pois bem. Nós somos o vendaval da alegria, que saccode as tranças loiras da Magdalena peccadora. Tu queres impor-nos o arrependimento, e nós queremos vencer-te para que nos deixes valsar algumas horas mais.
E rompem de esfusiada pelo salão fóra os pares, parecendo correr todos a aggredir um ponto invisivel, um inimigo mysterioso.
No theatro de S. João o baile de mascaras não é uma refrega mas um acampamento. Parece descançar-se em vez de combater-se. As armas estão ensarilhadas, porque é a noite em que mais se dispensa o binoculo. Espera-se que sejam duas horas da manhã para retirar. Quando começa o sopro do Euro, o vil quebranto[{35}] a agitar as arvores da Batalha, principiam a rodar as carruagens. É que tambem as palidas bellezas parecem sopitadas pelo vil quebranto. Esta phrase é d'um grande poeta contemporaneo, o snr. Raymundo Felgueiras, no final d'uma formosa quadra que eu li algures:
Cahiste, como a rosa desfolhada,
Que não via murcho o purpurino encanto,
Não aos beijos da brisa perfumada,
Mas ao sopro do Euro, ao vil quebranto.
Ás duas horas murcha o purpurino encanto. Os candelabros bruxoleam. Os porteiros—aquelles homens mysteriosos que ninguem ainda pôde vêr de dia na rua—dormem pelos corredores dentro dos seus amplos casacões.
Sae-se pois ás duas horas, fugindo ao tempo, emquanto nos outros theatros se corre ainda atraz do tempo para detel-o.
O Camões do tecto tem já fechado o unico olho que lhe resta. João Baptista Gomes resona. Almeida Garrett está aborrecido por não vêr damas a quem esteja galanteando. Gil Vicente, o falso Gil Vicente do theatro de S. João, pensa em escrever um novo romance satyrico modelado pelo seu Gargantua et Pantagruel. Que mistiforio é este! Gil Vicente a escrever romances satyricos... em francez! Perdão, é que o Gil Vicente do theatro de S. João não é Gil Vicente mas Rabelais.
Eu lhes conto.[{36}]
Quando se tractou de pintar o tecto do theatro, os administradores da casa a esse tempo perguntaram ao meu erudicto amigo o snr. José Gomes Monteiro se conhecia os retratos de João Baptista Gomes e Gil Vicente. Sua ex.ª indicou o paradeiro do retrato de João Baptista, e pelo que tocava ao de Gil Vicente certificou os administradores do theatro de que não havia deixado retrato. Esta circumstancia pareceu contrarial-os vivamente.
—Mas, volveu o consultissimo bibliophilo, podem facilmente fazel-o substituir por outro escriptor.
—Isso prejudica um pouco o nosso plano.
—Sim; nós optamos pelo Gil Vicente, acrescentou outro administrador, e... queremos o Gil Vicente.
—Mas se não deixou retrato!
—Emfim, se a gente advinhasse como era Gil Vicente!
—Ah! isso póde muito bem ser.
—Pode ser?
—Muito bem...
—Como?
—Fazendo substituir Gil Vicente por outro escriptor da epocha.
—Óptima lembrança!...
—Qual ha de ser?
—Vejamos...
—Vamos a vêr se lembra.
—Lembro-me d'um! apostrophou o snr. José Gomes Monteiro.[{37}]
—Qual?
—Um escriptor da mesma epocha e cuja individualidade litteraria não deixa de ter seus pontos de contacto com Gil Vicente...
—Chama-se?
—Rabelais.
—Muito bem!
Procurou-se o retrato de Rabelais, e pintou-se Gil Vicente, aquelle Gil Vicente que o leitor póde vêr esta noite n'um dos quatro medalhões do tecto do theatro de S. João, e que a mim mesmo, que sei esta anecdota, me fez algumas vezes desconfiar de que não seja Rabelais, porque o meu binoculo me permitte vêr em grandes caracteres o nome de Gil Vicente sotoposto ao medalhão...
O caso é que Rabelais, á hora que os camarotes se despovoam, parece preparar na mente, a julgar pela contracção sarcastica das faces, um novo romance satyrico em que moteje da composta austeridade da sociedade portuense n'um theatro onde, ha cincoenta annos, se queimou fogo artificial no palco, executado por João Semelhes, e um palhaço divertiu os espectadores com a graciosa Macaquinha, e se dançou o Fandango, e se fez a exhibição da Corda Bamba.
Para os leitores que duvidarem da fidelidade d'estas asserções vou copiar alguns periodos de dois annuncios d'espectaculo n'aquelle theatro, no tempo em que alli trabalhou uma companhia de funambulos, o que devia d'acontecer ahi por 1824. Os avisos trazem[{38}] apenas indicado o dia; não me foi possivel precisar a epocha.
No primeiro aviso, correspondente a 24 de julho, lêem-se estes periodos:
«O Palhaço divertirá os Senhores Espectadores com novas, e diversas habilidades, entre as quaes executará a Scena do Bebado, dando fim a esta primeira parte a graciosa Macaquinha.»
Mais abaixo:
«Madama Joannita, e o Diabrete dançarão os Boleros, dando fim o divertimento com duas peças de Fogo Artificial de composição Italiana, executadas por João Semelhes, cujas constão de hum brilhante sol com variedades de côres, entre as quaes apparecerá o raro fogo azul, e outra que figura uma Rosa Italiana transparente, donde apparecerá por tres vezes um distico aluzivo a Sua Magestade fidelissima (D. João VI) formando-se no fim em uma brilhantissima Gloria, rodeada de lindissimas estrellas.»
Do segundo aviso, correspondente a 3 de fevereiro, basta citar estas linhas:
«... dançará depois Madama Joannina o Sólo Inglez, a que hão-de seguir-se os vistosos equilibrios do Menino, depois dos quaes se dançará o Fandango, terminando-se todo o devertimento com a Corda Bamba, onde o insigne Diabrete fará admiraveis difficuldades.»
A sociedade d'aquelle tempo riu e applaudiu com sincero enthusiasmo todas as facecias e evoluções da companhia de funambulos.[{39}]
Agora, por maior que seja a festa e o artista, parece que ninguem traz gratas sensações do theatro de S. João mórmente d'um baile de mascaras. Faz-se um silencio sepulchral nos intervallos. Ás vezes apenas se escuta um levissimo rumor: é uma fita que se agitou ou uma petala que se despegou d'um toucado. Em epochas mais turbulentas atiram-se estalos á plateia. Os artistas italianos, quando lá fóra lhes perguntam pelo clima de Portugal, já vão respondendo:
—É bom; o peior que tem é o estalo.
O estalo no Porto é como a febre amarella na America e a carneirada na Africa.
Tirante o accidente do estalo, o clima do theatro de S. João não prejudica ninguem. Sae a gente como entrou: quente se entrou quente, fria se entrou fria. Antigamente, quando se ceiava nos camarotes da quarta ordem, podia a gente sahir de lá com uma indigestão, ou, quando se exhibia a graciosa Macaquinha, rebentar um suspensorio, ou finalmente chamuscar o casaco quando o Semelhes queimava fogo artificial no palco.
Qualquer d'estas contrariedades podia ser perigosa, mas sendo a vida uma serie de perigos, viver era aquillo.
Agora, ó Catalani, ó Milanez, ó madama Joannita, ó phosphorecente Semelhes, eu lembro-me tristemente de vós, e desejo-vos; principalmente se ha estalo, invejo-te, Semelhes![{40}]
PHYSIOLOGIA
DO
THEATRO BAQUET
Ha theatros que procuram a gente, em vez de ser a gente que os procura a elles.
Para ir ao Palacio de Crystal, por exemplo, é preciso ir lá procural-o ás ribas outr'ora solitarias que se aprumam sobre o Douro. Quando vamos ao theatro de S. João, sahimos de casa no proposito de ir ao espectaculo, como quando vamos almoçar á Foz ou jantar á Ponte da Pedra. É uma caminhada que se faz simplesmente por distracção. Todavia com o theatro Baquet não acontece o mesmo;—é o theatro que nos procura, é elle que nos dá na vista, que nos chama, que nos tenta.
Sahimos de casa para comprar um par de luvas, um chapéo, um casaco, umas botas, uma badine, um relogio, um frasco com conserva, uma caixa de charutos, um oboé, para tomar um banho, para mandar tingir[{42}] um collete, para reconhecer um attestado, e até para comprar tortas, por divertimento, porque eu já conheci um comilão de tortas ás direitas, que as trazia no bolso, e que de instante a instante se mettia n'um portal, como quem accende um charuto, para comer uma torta. No theatro guardava uma provisão de tortas na copa do chapéo, e ia-as comendo de intervallo a intervallo, fazendo no botiquim unicamente a despeza de um copo de agua. Mas voltando ao Baquet,—sahimos de casa para comprar qualquer coisa, e damos comnosco na rua de Santo Antonio. Fazemos a transacção, paramos á porta do theatro a lêr o cartaz, e vemos a passeiar no atrio o snr. Antonio Moutinho de Sousa, floreando a sua badine na posse da mais tranquilla felicidade, de modo a dar á gente tentações de ser empregado no theatro para vêr se tambem engorda.
Entra-se ao portal. Depois de entrar, é vergonhoso retroceder. N'este momento chega um actor cantarolando, e emquanto o bilheteiro faz o troco entra uma paviola com um sophá de velludilho encarnado e quatro cadeiras d'espaldares doirados. Por Deus! como aquelle actor ha-de cantar bem á noite, se até pela rua se anda ensaiando! como as cadeiras hão-de relampejar reflexos deslumbrantes á luz da rampa! Sae a gente e passa pelos cartazes com o reservado orgulho de quem sabe mais do que lhe dizem. O cartaz annuncia simplesmente o espectaculo, mas o comprador do bilhete sabe o que não diz o cartaz,—que entram no drama cadeiras com espaldares doirados.[{43}]
Á noite enxameia á porta do theatro o bando dos agiotas.
—Quer geral?
—Quer cadeira?
E a gente rompe por entre elles com a sobranceira indifferença de quem tem desde pela manhã, no bolso do collete, o divertimento que elles nos offerecem, esbofando-se.
No theatro Baquet ha sussurro nos corredores.
No theatro lyrico entram as senhoras, cobertas d'arminhos, friamente silenciosas, e assomam aos camarotes com a estudada compostura de quem vae ser retratado.
Muda o caso no Baquet; as senhoras charlam pelos corredores, e os homens descem rapidamente as escadas, cumprimentando e saltando.
Bem! É um theatro popular, onde os espectadores fallam alternadamente com os actores, e onde a gente póde espirrar á vontade sem que lhe digam do lado—sciu!
Os frequentadores habituaes do theatro Baquet—os das platéas, entenda-se—dividem-se, a meu vêr, em trez classes distinctas: espectadores fluctuantes, espectadores fixos, e espectadores moderados.
Os espectadores fluctuantes são os que occupam as primeiras filas da superior, e os logares das coxias na geral. Alguns,—especialmente os da superior,—trazem camelia ao peito e luva côr de canario. Mal desce o panno, saiem para o botiquim, para os camarins, e[{44}] para os corredores. Que teem elles que fazer em todos os intervallos? Que vão dizer? Nada. Saiem porque são fluctuantes. Entram á plateia quando começa a symphonia. Encostam-se á varanda da orchestra, com requebrada negligencia, olhando uns para os camarotes atravez do binoculo e outros cantarolando se estão em scena os Apostolos do Mal:
As moças da nossa aldeia
D'aldeia de S. Luiz,
Fallam sempre de maridos
E n'um enlace feliz;
ou se se representam as Mulheres de marmore:
Amas tu. Marco gentil,
Os salões cheios de flores,
Com uma alegria infantil
As danças, risos, amores?
Espectadores fixos são uns sujeitos pesados, que não se mexem na cadeira, e que conversam nos intervallos com os visinhos da direita e com os visinhos da esquerda, incommodando-se com os espectadores fluctuantes que os obrigam a levantarem-se ao sahir e ao entrar.
Espectadores moderados são, a meu vêr, os que saiem em dois intervallos, quando a peça tem cinco actos, e os que só incommodam o porteiro no fim do drama se depois do drama vae comedia. São methodicos. Da ultima vez que saiem não é por variedade mas unicamente por methodo. Vão buscar o guarda-chuva[{45}] ou a bengala para evitarem os apertos da confusão no fim do espectaculo.
Passemos ás galerias. A galeria é um mundo dentro d'um theatro. De hemispherio a hemispherio medeia o oceano-platéa. As ondulações, as correntes, e as tempestades estão na platéa, mas nas galerias ha a variedade do atlas:—alli é que estão as castas, os systemas, as luctas, a verdadeira liberdade do homem e a verdadeira emancipação da mulher.
Pouca gente leva uma creança para um camarote, mas o povo leva os seus filhos para a galeria. É que reside alli a soberania popular. Os mil episodios, que por via de regra accidentam a vida das nações, reproduzem-se nas galerias.
Ha em todos os espectaculos do Baquet—digam se não é verdade—uma creança que chora: um visinho da esquerda que se oppõe á expansão vocal da creança, e um visinho da direita que proclama alto e bom som a liberdade da larynge.
Estas luctas são eterno apanagio do povo.
Ha sempre um velho, ou bonacheirão, rosado, inxundioso, que diz graçolas, e é o divertimento dos visinhos durante os intervallos, ou um velho zarolho, de cabello em ss e chapéo quinhentista, silencioso, que se não levanta toda a noite, e que faz a critica do drama e da platéa pela unica janella que a Providencia lhe deixou aberta para vêr a humanidade.
O velho gordo, se vê que uma lorette põe a cabeça fóra da galeria, para ser vista, acode logo a dizer:[{46}]
—Estenda a cabeça, estenda, que lhe caiem os pingos das vélas!
O velho sêco olha com o seu luzio para a toilette, e volta logo a cara para o outro lado, porque de si para si fez austeramente a seguinte reflexão:
—Bem te entendo!
Ha sempre nas galerias um cicerone. É ordinariamente um cocheiro, de jaqueta e chapéo redondo; explica todas as situações da peça ainda que seja nova.
—Ella agora vae pegar n'aquella flôr!
Ás vezes, mórmente se o drama é novo, o cocheiro engana-se, e a actriz em vez de pegar na flôr bebe um copo d'agua.
O cicerone não se acobarda. Continua a explicar;—explica tudo.
Isto facilmente se comprehende. O cocheiro precisa de presumir-se sabio. Pergunta-se-lhe:
—Sabes onde mora F.?
—Sei, meu amo.
Não sabe. Vai andando á espera que lhe batam na janella da carruagem.
—Pára; é aqui.
—É aqui; eu bem sabia.
O cocheiro precisa realmente de dizer que sabe.
Vamos agora ao botiquim. O botiquim do Baquet offerece curioso estudo. É preciso ser-se philosopho para se exercer o logar de botiquineiro alli. De contrario, ao cabo do primeiro intervallo, o botiquineiro estaria[{47}] doido com toda a certeza. O snr. Magalhães, botiquineiro, é pois um philosopho.
—Uma sangria!
—Gelatina!
—Uma limonada!
—Uma orchata.
—Um grog!
N'uma palavra, é nem mais nem menos que todos os espectadores fluctuantes a dizerem ao snr. Magalhães:
—Retalhe n'um momento o seu botiquim e dê a cada um de nós um fragmento.
Qualquer homem menos philosopho responderia:
—Ó senhores! não os posso servir a todos ao mesmo tempo! Sem este senhor beber a limonada, não dou ao senhor o grog.
Isto era o mesmo que perder a freguezia.
O snr. Magalhães descubriu um optimo systema para viver com todos. Como seja grande a concorrencia, alguns espectadores, em rasão da sua mesma natureza fluctuante, já estão no corredor no momento em que deviam pagar. O snr. Magalhães bem percebe que é logrado, mas não se afflige. Tem a paciencia de esperar para o dia seguinte. D'esta maneira tudo vae bem.
Conta-se de Mazarino dizer: «Cantam! Deixal-os cantar; elles o pagarão.» Toda a philosophia do snr. Magalhães tem por eixo esta anecdota de Mazarino: «Escapam-se! Elles o pagarão.»
Saiamos do botiquim para fallarmos ainda d'uma[{48}] classe supplementar de frequentadores, que já iam esquecendo. São os espectadores-meteoros. Não compram bilhete pela simples rasão de não terem tempo de o comprar. Entram á platéa e dizem ao porteiro:
—Eu saio já.
Está o panno em cima. (Elles entram sempre quando o panno está em cima). Encostam-se á varanda da orchestra. Passam em revista os camarotes, medem a plateia com um só olhar, e saem. Vae a gente a procural-os, e já não os vê. São meteoros; desappareceram. Quando a gente os procura, já estão em outro theatro. Tambem por sua vez são philosophos; toda a philosophia d'elles está no adverbio já.
—Eu saio já.
E vêem tudo.
Ora eu, se fosse actor e fizesse beneficio, havia de perguntar ao porteiro:
—Você quantos jás conhece?
A esses é que eu passaria bilhetes para vêr o que respondiam.
Agora me lembro! Salvavam-se ainda com o mesmo adverbio:
—Já tenho.
Depois de conhecida a nau e a tripulação, justo é fallar do piloto, que vai tranquillamente encostado á cana do leme, sereno em meio da azafama geral, saboreando-se nos mil accidentes de bordo, como homem que morreria nostalgico se porfiasse a sorte em arrancal-o ao mar.[{49}]
O Palinuro do Baquet é o snr. Antonio Moutinho de Sousa, actual empresario.
Nasceu para o theatro como o piloto nasceu para as vagas.
É alli que elle vive feliz.
Derivaram os primeiros annos de sua vida na eschola e na ourivesaria de seu pae, mas chegado a idade em que no espirito começam a desabrochar as tendencias, boas ou más, ao sabor das quaes havemos de fazer a peregrinação terrena, o snr. Moutinho, contados 24 annos, embarcou para o Rio de Janeiro, e foi escripturar-se no theatro do Gymnasio.
Os jornaes brasileiros de 1858 festivamente commemoram a brilhante apparição do snr. Moutinho no Gymnasio. Ha um periodo notavel do Correio Mercantil que diz assim: «O primeiro passo da sua vida artistica como os dos antigos guerreiros da sua patria nas areas d'Africa a derrubarem nos campos da lucta os obstaculos que lhes impediam a victoria, foi grandioso e decisivo! Percorreu em um só dia o escabroso e longo estadio que conduz o talento ao perystilio do sanctuario das artes.» O ser actor revelou-lhe que tambem podia ser litterato,—dramatisou, folhetinisou e versejou agradavelmente, mas todos os lances solemnes da sua vida ao theatro os deveu.
Casou em primeiras nupcias com a actriz D. Ludovina Devecchy, e em segundas com a actriz D. Amelia Simões.
Parece que todo o seu fito foi escolher esposa que[{50}] comprehendesse as tradições gloriosas do theatro e houvesse sacrificado no altar do bello.
Se o snr. Moutinho tivesse casado com certa dama que uma vez dissera ter ouvido uma peça em cinco dramas, o snr. Moutinho requereria immediatamente divorcio.
Como empresario tem o seu camarim. Podia ter simplesmente um escriptorio, mas o snr. Moutinho quer ter camarim para se enganar a si proprio. Passa as noites d'espectaculo a tomar café. É um velho habito theatral. Quer excitar os nervos para as luctas da scena, como se houvesse de representar.
Encontram-se n'elle todos os requisitos d'um empresario, e até, se attendermos unicamente ao homem, conheceremos que o snr. Moutinho está entre a gordura do empresario Palha e a gordura do empresario Price. Todavia affigura-se-nos que o snr. Moutinho poderá fazer um d'aquelles admiraveis prodigios que só se conseguem no theatro, e vem a ser—representar um papel de galan tendo proporções de empresario.
É preciso acabar, e sahirmos do Baquet.
Toda a gente sabe como se sae do Baquet: hombro com hombro, braço com braço. Tanto se aproximam os espectadores á sahida, que é talvez essa a rasão de se conhecerem todos uns aos outros. Um sujeito conhecemos nós que ao sahir uma noite do Baquet metteu a mão no bolço do bournous para tirar a charuteira, e encontrou com grande surpresa uma caixa de prata. Só então reconheceu haver introdusido a mão no bolso do[{51}] espectador que vinha a par. Passou angustias para se salvar com dignidade do equivoco... Ora são justamente estas peripecias, todas as circumstancias que ahi ficam amontoadas, que dão ao theatro Baquet uma individualidade caracteristica.[{52}]
TELHUDOS HISTORICOS
A telha é muito antiga.
Nos tempos heroicos vae o escalpello do historiador encontrar conspicuos telhudos como Orestes, Athamas, e Alcmeon, posto se dissesse simplesmente que viviam atormentados pelas Eumenides. Nos tempos historicos tornam-se notaveis pela telha Pythagoras, Socrates, Mahomet e Luthero. Em tempos menos remotos apparecem na historia uns celebrados telhudos que se chamam Swedenborg, Pascal e Voltaire.
É uma consolação...
Encosta-se a gente com a sua telha a estas cabeças-firmamentos da historia, que ora tinham relampagos de genio, ora negruras de sandice, e vae vivendo. Não se falla por ahi na historia a cada passo? Para se dizer que um sujeito é velho não se lhe chama Mathusalem? Nero para dizer que é mau? Job para dizer que é paciente? Pois muito bem. Desculpemo-nos da nossa telha[{54}] com a historia na mão, e vamos vivendo com o nosso mal, porque para mim é ponto de fé que, sendo telhudos os maiores genios, cuja memoria assombra o mundo, não ha por ahi sujeito que não tenha a sua telha. Os que são mais robustamente organisados sabem que a teem e procuram modifical-a, como se combate uma enfermidade; os que nasceram peior acabados vão vivendo sem se lembrar um unico dia de que nasceram com telha e com lombrigas.
A uns e outros desculpa a historia.
Pouco importa conhecer ou não conhecer a telha,—o caso é tel-a. Hyppocrates veio a dizer na sua que a telha estava na cabeça; Lacaze e Bordeu que estava no diaphragma, e Bichat no coração. Esteja ella onde estiver; o certo é que está dentro de nós e da historia. Isto mesmo de querer dizer onde a telha está, já é telha. O que estou vendo é que os sabios da velha antiguidade eram muito mais perspicazes que os sabios dos tempos modernos.
Nos tempos heroicos, se um sujeito tinha a telha de rinchar de cavallo, dizia-se logo que entrara n'elle o espirito de Neptuno; se a telha lhe dava para começar a cantar de passaro, era por alta vontade de Apollo. Agora a sciencia trata de enxotar a ideia do espirito ruim o apregoa que se o sujeito tem telha é porque nasceu tolo. Isto assim não vae bem. Em remotissimos tempos pagãos desculpava-se a telha de pythonissas e sibyllas com influição divina; agora vem a sciencia e diz que a telha procede de imperfeição do systema nervoso, chamando-lhe[{55}] monomania. Ser monomaniaco é não poder um homem andar e proceder por sua conta e risco. Tanto vale como matal-o. É preciso pois que façamos crusada e nos defendamos com a historia.
Os homens do passado constituem a historia que hoje lêmos, assim como nós constituiremos a historia de amanhã.
Pois folheemos a chronica do passado e ponhamos a nossa telha ao abrigo de censuras, escondendo-nos agachados contra o pedestal de preclaros homens que o mundo festeja, e deixemos assim aberta uma valvula de segurança para respirar a telha de nossos netos.
Comecemos.
O marquez Arouet de Voltaire...
Marmontel conta que fôra um dia, acompanhado pelo seu amigo Gaulard, visitar Voltaire. Encontrou-o na cama, recostado em travesseiras, de barrete de lã na cabeça.
—Encontram-me a morrer, disse com voz debil o philosopho. Venham receber o meu ultimo suspiro.
Mr. Gaulard commoveu-se, mas Marmontel, que já conhecia a telha, tregeitou a Gaulard para calmal-o.
Voltaire entrou de conversar e de animar-se progressivamente.
—Meu caro Marmontel, disse elle, folgo de vêl-o em occasião em que lhe posso apresentar um estimavel artista, mr. Ecluse! Como elle canta a canção de Remouleur.[{56}]
E Voltaire começou a imitar Ecluse cantarolando;
Je ne sais oú la mettre
Ma jeune fillette,
Je ne sais oú la mettre
Car on me la che...
Os hospedes riam estrepitosamente.
—Imito-o mal, bem sei, objectou Voltaire, é preciso ouvil-o a elle, ao proprio Ecluse. Oh! que voz aquella!
Telhudo!
La Fontaine, o meigo educador das creanças, pertence ao rol. Casou com Maria Hericard, uma formosa e intelligente mulher. Passados tempos, abalou para Paris esquecido de haver casado. Aconselharam-n'o porém alguns amigos a reconciliar-se com sua esposa. Partiu com esse intuito e, procurando madame La Fontaine em Chauteau-Thierry, disseram-lhe que estava na igreja. Recolheu-se a casa de um amigo, onde comeu e dormiu durante dois dias,—ao cabo dos quaes regressou a Paris.
—Então, reconcilias-te com tua mulher?
—Não a pude vêr: estava na igreja.
Certo militar convidou La Fontaine para banquete opiparo com o simples intento de o ouvir discretear á mesa. La Fontaine comeu, bebeu e apenas disse levantando-se:
—Tenho d'ir á Academia.[{57}]
—É ainda muito cedo...
—Não importa. Irei por onde fôr mais longe.
Telhudo!
D'Alembert...
Elle, o grande geometra, o chefe da seita encyclopedica, chegou a ser um escravo amoroso de mademoiselle Espinasse.
Sahia todas as manhãs para lhe fazer serviços, a comprar alfinetes ou ganchos, e, quando o seu rival Mora partiu de França, ia ainda como de noite esperar o correio á estrada para levar as cartas a mademoiselle Espinasse.
Telhudo!