Notas de transcrição: O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1890. Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los..

Alberto Pimentel

HISTORIAS

DE

REIS E PRINCIPES

PORTO

LIVRARIA GUTENBERG—Editora

Cancella Velha, 66

1890

INDICE

I.[Um rei e um conspirador]5
II.[Seis rainhas para um rei]31
III.[D. Beatriz de Portugal]67
IV.[Rei e pastor]117
V.[Mãi e filhos]121
VI.[Tradição galante de D. Miguel]147
VII.[Maximiliano em Portugal]163
VIII.[Duas imperatrizes]195
IX.[O paiz dos meninos]265
X.[Um rei entre montanhezes]279
XI.[No harem de Marrocos]287
XII.[Idyllio de amor]295
XIII.[Na morte do Kronprinz]303
XIV.[El-rei D. Luiz nos Jeronymos]311
XV.[Rainha e viuva]319

HISTORIAS DE REIS E PRINCIPES

«... le roman est l'histoire des hommes

et l'histoire le roman des rois.»

Daudet—Souvenirs d'un homme

de lettres.

I

Um rei e um conspirador

Fernão da Silveira, filho primogenito do barão de Alvito, foi escrivão da puridade de D. João II, e figura como poeta no Cancioneiro de Garcia de Rezende.

Estas circumstancias dão-lhe fóros de homem notavel no seu tempo. Mas a todas sobreleva, perante a historia, a de ter sido um dos conspiradores que mais incommodaram D. João II.

Parece que o rei não tinha sobejos motivos para confiar no seu escrivão.

Certo dia mandára chamar, por um moço da camara, Fernão da Silveira. D. João II não se queria referir ao secretario particular, mas a outro Fernão da Silveira, o coudel-mór, tambem poeta como o seu homonymo.

Comparecendo o escrivão da puridade em vez do coudel-mór, D. João II agastou-se e perguntou ao moço da camara:

—A quem te mandei chamar?

—A Fernão da Silveira.

—Não era este, replicou o rei, mas o Bom.

O escrivão da puridade julgou-se desconsiderado com estas palavras do rei e, sahindo do Paço, como encontrasse no Rocio D. Martinho de Castello Branco, desabafou com elle. D. Martinho procurou aquietal-o com bom conselho, porém Fernão da Silveira insistiu em mostrar-se agastado contra o rei, de quem jurou vingar-se.

—Mas o que podereis vós fazer? perguntou D. Martinho.

—Matal-o, respondeu o escrivão da puridade.

E correu d'alli a bandear-se com os conspiradores: o duque de Vizeu, o bispo d'Evora D. Garcia, o irmão do bispo, D. Fernando de Menezes, D. Guterres Coutinho, D. Alvaro Coutinho e seu filho, o conde de Penamacôr e seu irmão D. Pedro d'Albuquerque.

D. João II soube das conferencias mysteriosas dos conspiradores, celebradas em Santarem, fóra de portas.

Por mais de uma delação o soubera.

Tinha o bispo d'Evora certa manceba, de nome Margarida Tinoco, a cujo irmão, Diogo Tinoco, ella revelára o segredo da conspiração. Foi este homem que, disfarçado em frade, procurou o rei no convento de S. Francisco em Setubal, e lhe denunciou os conspiradores, recebendo em troca uma larga mercê, que a morte, devida talvez a peçonha mandada propinar pelos denunciados, lhe não deixou gozar.

D. João II recebeu outra denúncia por D. Vasco Coutinho, a quem seu irmão D. Guterres pozera ao facto da conspiração. D. Vasco arrecadou em premio o condado de Borba, importando-se pouco com perder o irmão, que veio a acabar preso na torre de Aviz.

Quando Fernão da Silveira teve conhecimento d'esta delação, e da explosão da colera do rei para com o duque de Vizeu, exclamou:

—Soube D. Vasco aguçar os pescoços!

Foi, como se sabe, em Setubal que D. João II quiz por suas proprias mãos fazer justiça no duque de Vizeu. E comquanto emprehendesse esmagar a conspiração na pessoa dos chefes, não se esqueceu o rei de outros conspiradores menos qualificados. Enviou officiaes a casa de Fernão da Silveira para que o prendessem. D. João II sentia-se profundamente indignado contra o seu escrivão da puridade, que desde pequeno creára no Paço, pelo que lhe ficára o appellido de Moço, honrando-o e agasalhando-o na côrte, onde o casára com D. Brites de Sousa, filha de João de Mello, alcaide-mór de Serpa.

Os officiaes foram, e não acharam Fernão da Silveira. Encontraram apenas uma barjoleta com muitos cruzados, que lhe havia confiado o duque de Vizeu para occorrer ás despezas da conspiração.

O escrivão da puridade, não tendo já tempo para fugir de Setubal, fôra esconder-se em casa de um velho escudeiro de seu pai, de nome João Pegas, que não duvidou recebel-o, a despeito do perigo que por esse facto podia correr.

Pegas metteu o filho de seu amo dentro de uma grande arca sem fundo. Fingindo que guardava pão na arca, alimentava todos os dias o conspirador.

Uma escrava preta, que havia em casa, cuidou ouvir gemidos, que sahiam da arca. Disse-o a João Pegas que, receiando se descobrisse o segredo, ordenou á preta que se calasse até que elle no dia seguinte verificasse se era verdadeiro ou não o caso dos gemidos.

Ao outro dia, a escrava tornou a ouvir gemer. Foi dizel-o a João Pegas, que se levantou do leito immediatamente, e a mandou buscar um balde de agua ao poço.

Quando a escrava estava tirando a agua, Pegas precipitou-a no poço, esperando cautelosamente que ella acabasse de escabujar na afflicção extrema dos afogados.

Logo que reconheceu que estava morta, gritou publicando que a escrava se afogára.

Mas o segredo do escondrijo de Fernão da Silveira ficou no fundo do poço, que era o que João Pegas queria conseguir.

Decorreu tempo, e o escudeiro tratou de fazer sahir de Portugal o seu hospede. Valeu-se para isso de um mercador, que se chamava Bartolo, e que levou comsigo para Sevilha Fernão da Silveira, disfarçado em mendigo.

Salvo em Castella, o foragido foi bem acceito na côrte de Izabel a Catholica, e lá lhe acudia com auxilios pecuniarios o conde de Benavente, fidalgo castelhano, que fôra grande amigo do pai de Fernão. Mandava-lhe todos os mezes um saco com duzentos escudos, mas Fernão da Silveira só tirava cinco, e devolvia o resto. O castelhano todos os mezes insistia em igual remessa, e o portuguez não deixava de insistir na recusa da quantia excedente a cinco escudos.

Comprehendeu o castelhano que era aquelle um homem retemperado de invencivel altivez lusitana, e, para acabar de experimental-o, certo dia em que se juntaram com outros fidalgos na ante-camara dos reis catholicos, deixou o conde cahir uma luva. Fernão da Silveira, em vez de se dar pressa em levantal-a, sentou-se n'um bufete. O conde de Benavente não desgostou d'esta arrogancia tão conforme ao espirito hespanhol, e celebrou-a. A noticia do facto espalhou-se com applauso na côrte de Castella, e chegou á de Portugal, onde D. João II, comquanto sempre resentido dos aggravos recebidos de Fernão da Silveira, e sempre implacavel nos seus projectos de vingança, commentou a noticia com esta phrase sentenciosa:

—Fernão da Silveira aonde chegar ha de sempre ter lugar.

D. João II mandára citar por carta de éditos Fernão da Silveira, emquanto estivera escondido em casa de João Pegas, para que se apresentasse perante o rei e o seu conselho, no termo de quarenta dias, a fim de se livrar «da dita traição e maldade que contra nós e nosso real estado, e contra o bem, paz, e assesseguo de nossos reinos cometera, e para sobre todo ser ouvido com o dito procurador fiscal da nossa justiça.»

Passou-se o praso de quarenta dias, e Fernão da Silveira não appareceu. N'essa não cahia elle, que bem sabia a sorte que o esperava se apparecesse.

Chegou o dia da audiencia, e o porteiro do tribunal, João Trancoso, apregoou o réo. Como se não apresentasse, nem outrem por elle, o procurador da justiça offereceu o libello articulado sobre os seguintes factos criminosos:

«Que nós criáramos o dito reo de moço pequeno, e que sempre lhe fizeramos muita honra, gasalhado, e mercê, casando-o, e dando-lhe muita renda com vontade, e tenção de o muito honrar, e acrecentar, e fiando nós d'elle nossos segredos, e conselhos, encarregando-o muitas vezes de nosso escrivão da Puridade, fiando nós nossa vida d'elle reo, e sempre o dito reo obrigado a nos guardar lealdade não sómente como nosso criado, mas ainda como vassalo, e nosso subdito, elle o fizera muito pelo contrario, antes como desleal desobediente Portuguez, fizera, tractára, ordenára e aconselhára contra nós, e nosso Real Estado, bem, paz e assesseguo, e prol comunal d'estes nossos reinos e senhorios, as coisas que se adiante seguem. A saber, que elle dito reo com o Bispo d'Evora, e com D. Diogo, que foi Duque de Vizeu, tractou, conjurou, e ordenou muitas desleadades contra nós, e contra o Principe meu sobre todos muito Amado, e Prezado Filho, tractando, e ordenando muitas vezes, assim na Cidade de Evora como nas Villas de Santarem e Setubal, e outros lugares de nos matarem, e ao dito Principe meu Filho, e de se alevantarem com as Villas, e Fortalezas que o dito Duque tinha, e outras quaesquer, que podessem haver, tractando de metter gente de fóra d'estes reinos para poderem pôr em obra o seu mau e desleal proposito, e para contra quem quer que lh'o embargar quizesse, sendo o dito reo o que principalmente tractava contra nós, induzindo para isso o dito Duque, como do feito induziu, e outros seus amigos, de que se elle reo fiava, e o principal conspirador e ajuntador, dos que no dito tracto e conspiração eram contra nós, e sendo o recebedor, e o que dispendia os dinheiros que para as ditas traições, e maldades eram juntos, e o pagador d'elles, a quem era ordenado, como dos ditos dinheiros pagára quinhentos cruzados a Pero de Albuquerque, para abastimento da Fortaleza do Sabugal, e assim a D. Alvaro d'Athayde, certa somma de dinheiro que vier em verdade. E que logo como o dito Duque D. Diogo foi morto, e o Bispo, e alguns dos outros conjurados presos, pelas ditas maldades e traições serem reveladas a nós, elle dito reo, temendo-se do que feito tinha, logo sem mais detença se partiu, e foi d'estes reinos, e amarou sem mais nunca n'elles apparecer, nem ser visto de seus parentes e amigos, e dos que com elle tinham conversação.»[[1]]

Ouvido o libello pelo rei e seu conselho, foram julgados procedentes os artigos de accusação, ordenando D. João II que se o réo tivesse artigos contrarios, viesse com elles. Como não veio, correu o processo á revelia, sendo admittida a prova do procurador da justiça, o qual offereceu a inquirição devassa que por este motivo havia sido tirada.

Fernão da Silveira teve conhecimento dos éditos de citação; mas só quando se viu salvo em Castella ousou denunciar o seu paradouro, não escrevendo uma justificação judicial, mas dirigindo particularmente ao rei uma carta audaciosa, de que vamos extrahir alguns periodos:

«... eu dias ha que estou n'esta Côrte de El-Rei e da Rainha de Castella, meus Senhores, e bem se sabe em Portugal: poderia tambem responder a elles (éditos) por direito, outras razões poderia dar n'este caso, mas não quero alongar a escriptura e ainda d'estes me quero lançar fóra; sómente digo que os éditos contra mim postos são mandados pôr por vós ante quem o direito nem justiça não vale nada, nem ousa ninguem de os julgar que claramente sobre os éditos que contra Ruy Lopes Coutinho mandaveis pôr, dizem de vós os letrados que não era de direito de se pôrem na forma que querieis, dissestes que quem aquillo dissesse o mandarieis esfolar e cobrir a cadeira de sua pelle e isto ao Doutor Nuno Gonçalves, que quizestes lançar a perder por uma sentença que deu segundo lhe parecia direito no feito de Cezimbra; d'estas taes pudera dizer muitas, mas, sobre cousa tão clara como a vossa injustiça, não cumpre muitas provas, bem se sabe que nenhum homem em vosso reino não ha de julgar, senão o que vós quizerdes, e bem se sabe que é o que vós quereis; e deixando todas estas cousas, sómente digo que apéllo de vós para Rei direito e justiçoso, e que o mereça e deve ser, e ainda que para isto ahi não houvesse prova senão as obras que fazeis abastariam afóra outras cousas que tenho caladas para quando cumprir, assim que vossos éditos para mim não são de nenhum valor, nem força, e protesto que cousa que n'elles digaes, nem sentença que por elles contra mim se der, não me possa damnar nem empécer em nenhum tempo que seja.

Ora, Senhor, vos quero dar conta de mim e da causa que em minha sahida d'esse Reino e o porque sei que tanto desejastes, e trabalhastes de me ver á mão, o que principalmente foi, porque eu não contasse a verdade d'este feito, e de como mal e como não devieis matastes o Duque de Vizeu que Deus haja, e eu ouvindo a crueldade de sua morte e lembrando-me o mal que muito tempo me querieis e mui sem causa, e quanto agora me quereis pelo bem que o Duque me queria, pareceu-me que não devia estar á misericordia de quem não tem nenhuma nem esperar vossas injustiças e crueldade, as quaes em mim sei que muito desejaveis executar que pela grande que com o Duque que Deus haja tinha cuidaveis que saberia a causa da sua morte, a qual não foi outra senão o grande mal que sempre lhe quizestes e os grandes aggravos e deshonras que lhe fazieis, as quaes seriam cousa larga de contar, se houvesse de contar das escripturas e doações que lhe furtastes do cofre que a Senhora Infanta sua mãe deixou em guarda da Rainha vossa mulher, e de como nunca lhe confirmastes cousa que tivesse, antes lhe quebrastes cada dia suas cartas e privilegios e mandaveis a letrados a revolver livros para lhe tirar a vintena da Guiné, afóra na paga d'ella terdes tal forma que a mór parte lhe levaveis, e quebrastes-lhe o trato da canella e fizestes que em Côrtes que vos requeressem que lhe tivesseis as saboarias e o montado, e tirastes-lhe o desembargador que trazia na casa e tirastes-lhe a jurisdicção dos rendimentos das suas rendas, e dissestes que se vos não tornasse a Ilha da Madeira por terras do Duque que lh'a deitarieis a perder, e deixando estas cousas e outras muitas que contra elle tendes feito e commettidas tocantes á sua fazenda, nas quaes ia a maior parte do seu estado e em muitas todo lhe fazieis e ordenaveis outras em que lhe ia honra e vida, são tratal-o mui descortez e soberbamente e fallares n'elle mui feiamente chamando-lhe rapaz e necio, e que não era para nada, e trazerdel-o em vossa Côrte a seu pesar, que por preso o haviam todos, não querieis consentir que casasse com uma filha d'El-Rei meu Senhor, e mui honradamente casára, nem quizestes que casasse Irman com elle desejando-o ella, e tendo vós promettido á Infante sua Mãe que farieis n'isso o que pudesseis, fizestes o contrario, por onde visto está, que querieis que elle não casasse com ninguem por não haver filhos que herdassem o seu, e d'isto ha outra mui mais certa prova que estas, que é certo que lhe mandaveis dar cousa para não haver geração, e foi-lhe descoberto, depois lhe foi dito como mandaveis alguns que o matassem de noite indo elle fóra só, fingindo que o não conheciam, e foi avisado, e guardou-se, e depois foi avisado agora em Santarem, que com um cosinheiro trataveis para lhe dar peçonha, assim que claro está que dias ha que tinheis determinado de fazer o que fizestes e mais o matastes porque vos elle devia matar que por querer matar, que se elle tal quizera, não andára tão mal apparelhado para tal negocio nem viera só ver-vos e deixára-vos os mais dos seus em Palmella, nem os que com elle culpaes não estiveramos tão mal apercebidos, que eu n'esse mesmo mez não mandára com meus Irmãos os meus escudeiros e encavalgados, nem lhe déra os meus cavallos e armas de minha pessoa e áquella hora estava em casa de meu Pai que Deus haja, sem saber que o Duque era ido nem D. Alvaro de Athayde vos houvera de matar em Santarem nem D. Pedro de Athayde inda no ventre, eu muitas cousas pudera dizer em prova d'isto, mas abasta o que todo o mundo sabe, que matastes o Duque mal, e como não devieis e por mau respeito, e isto pudera bem provar por direito e leis e ordenações, mas porque seria longura será melhor que vamos pôr a batalha: eu estou aqui e affirmo uma duas ou tres vezes, que matastes o Duque mal e como não devieis, e aleivosamente, e o defenderei a quem por vossa parte me desafiar, e isto darei empreza para vós mandares tomar a D. Vasco não já que elle tomou, e d'esta guiza me devieis vós mandar matar que não á traição, como me dizem que mandais e se por vossa pessoa isto houvera de ser feito, bem sei que vos não porieis n'este risco, assim porque sabieis a verdade como por ali, e se isto se ordenar para que venha a fim, por aqui se saberá a verdade, porque eu espero que será n'isto tão inteiro juizo como em tudo, e se vos disto escuzardes n'elle espero que mostrará tal juizo de vós o qual merecem essas obras, e que vingará no sangue dos mortos, por mãos dos vivos, etc...»[[2]]

No final da carta, que é um documento importantissimo para a historia da época, allude Fernão da Silveira á phrase dita por D. João II ao moço da camara, phrase que determinou o seu procedimento contra o rei:

«... mas como natural e amigo d'esses reinos e por bem d'elles vos desservirei em tudo o que puder, porque todo o desserviço e nojo que fizer a vós vem a essa terra e gente d'ella assim grandes como pequenos, os quaes praza a Nosso Senhor livrar da sujeição e captiveiro em que vivem, e de mim digo que serei sempre tal inimigo como devem de ser todos os bons...»

O processo subiu concluso perante o rei em Relação com os do seu Conselho e Desembargo, sendo proferida sentença condemnatoria a dez de junho de 1485, dada na villa de Portel:

«... condemnamos, e mandamos onde quer que fôr achado, e tomado, e comprehendido dentro em estes Reinos, e seus Senhorios, e em qualquer Cidade, Villa, ou Lugar d'elles, logo morra cruel morte natural, e seja esquartejado, e seus quartos de seu corpo sejam postos nas portas da Cidade, Villa, ou Lugar onde fôr preso, e a sua cabeça seja posta no Pelourinho: e isto sem elle mais ser ouvido, nem requerido, visto como este maleficio é claro, e notorio, e que elle principalmente e primeiro o commetteu, tratou, conspirou a dita maldade, e traição: e havemos todos seus bens moveis, e de raiz, e assim os da Corôa do Reino, se os trazia, e os patrimoniaes, e declaramos por confiscados e applicados á Corôa Real d'estes nossos reinos, a que direitamente pertencem.»

Dois annos depois, ainda Fernão da Silveira estava em Castella, protegido pelos reis catholicos, que se recusavam a entregal-o a D. João II.

Em 1487, n'um conselho realisado em Santarem, ventilou-se a questão de assentar no destino a dar ás mulheres dos conspiradores, sobre as quaes recahiam suspeitas de estarem em intelligencia com os maridos.

Os drs. Fernão Rodrigues e Nuno Gonçalves foram de parecer que deviam ser enviadas com os filhos aos maridos, não só para não peccarem com outros, mas tambem porque não deviam pagar pelas culpas d'elles. E ainda porque os filhos dos conspiradores constituiriam um foco permanente de conspiração pelo desejo que teriam de vingar os pais.

Ao dr. João Teixeira, chanceller-mór, pareceu melhor não renovar a lembrança de factos que o tempo ia esquecendo. Que, mais aquietadas as paixões politicas, bem podiam os filhos dos conspiradores ser leaes servidores d'el-rei.

Por isso entendia que se deixassem sahir com seus filhos e haveres as que quizessem ir reunir-se aos maridos; mas que não fossem obrigadas a fazel-o todas, indistinctamente.

Os restantes membros do conselho concordaram com este alvitre. O rei tambem concordou.

Então Ruy de Sousa disse saber que a mulher de Fernão da Silveira folgaria de ir para o marido.

Ora um documento da época, que suppomos inedito, diz qual foi a resposta de D. Brites de Sousa:

«Esta parte tomou el-rei de as não mandar constrangidamente, e mandou a esta de Fernão da Silveira saber se se queria ir, e ella escolheu a parte de estar no reino por então.»[[3]]

Uma tal resposta surprehendeu decerto o leitor, por não ser conforme com a declaração que no conselho d'el-rei fizera Ruy de Sousa.

Tem comtudo uma explicação, e o leitor vai sabel-a.

D. Brites de Sousa tinha realmente manifestado desejo de ir viver com seu marido em Castella.

Pesava-lhe a vida que levava longe d'elle, com um filho pequeno nos braços. Chamava-se João o filho legitimo de Fernão da Silveira. O conspirador tinha outro filho, illegitimo, que houvera de uma manceba de nome Izabel Rodrigues, e que havia nascido em 1480.

D. Brites chegára a fallar aos do conselho d'el-rei para que lhe obtivessem a concessão de passar a Castella. Mas obtida a concessão, soubera que Fernão da Silveira tinha mandado ir a manceba e o filho.

O seu coração amantissimo não foi superior a este golpe. Resolveu não ir para castigar a infidelidade do marido, que no homisio preferira as consolações da familia illegal ás da familia legitima.

Eis-aqui a rasão que determinou a recusa de D. Brites.

O certo era que Fernão da Silveira vivia em Castella sem disfarces de mancebia. A sua existencia, cortada de continuos sobresaltos e receios, que o faziam esperar a toda a hora o punhal assalariado por D. João II, achava lenitivo nas expressões affectuosas da manceba, que na desgraça se tornára mais dedicada.

Sabia o foragido que o rei de Portugal procurava constantemente actuar no animo de Fernando e Izabel para leval-os a entregarem-lhe o conspirador. Receiava que os reis catholicos viessem a ceder, e n'esse caso contava com uma infallivel morte ignominiosa, com uma vingança terrivel que nem os seus restos mortaes respeitaria. A pelle do seu corpo serviria para cobrir a cadeira de D. João II.

Em Castella, nas horas em que não frequentava a côrte, onde assiduamente concorria para sondar a seu respeito o animo de Fernando e Izabel, fraquejára por vezes aquelle homem forte, cuja altivez assombrára o conde de Benavente, e merecêra elogio ao proprio D. João II.

Perante a rigidez indomavel do rei de Portugal, antolhava-se-lhe desolador o futuro. Se lograsse escapar aos sicarios armados pela colera de D. João II, o que era muito pouco provavel, teria que viver e morrer longe da patria com o labéo de conspirador, sempre vexado pela necessidade de receber agasalho e protecção.

As sombras da noite punham-lhe no espirito o constante receio de emboscadas; atravessava as ruas com o sobresalto com que póde atravessar-se um sertão povoado de féras. Não se permittia a fraqueza do medo, não evitava as horas sinistras da noite, por mais que Izabel Rodrigues lh'o pedisse; mas tinha sempre presente o espectro da morte por traição.

Quando recolhia a casa, esquecia nos braços carinhosos da manceba, que lhe apresentava o filho, os sobresaltos d'aquelle dia, e repousava como o naufrago n'um porto de abrigo.

Ás vezes tinha furias de raiva contra D. João II, o assassino do duque de Vizeu, o flagello da nobreza portugueza, como elle lhe chamava. Retratava-o moralmente como um tyranno sedento de sangue e poder. Justificava a reacção da nobreza, e a sua, declamava como um verdadeiro jacobino do seculo xv, como um sans-culotte que se tinha antecipado trezentos annos aos da demagogia franceza.

A manceba ouvia-o tremendo com o filho sentado nos joelhos, e procurava aquietal-o com palavras brandas.

Mas Fernão da Silveira perguntava-lhe se poderia ter animo tranquillo e sereno um homem a quem D. João II, se o apanhasse, faria esquartejar, pregando-lhe os quartos nas portas de qualquer cidade ou villa, e a cabeça no pelourinho da praça publica.

Lembrava-lhe que o odio de D. João II costumava ser tão profundo e sanguinario, que não respeitava nem as regalias de nascimento nem os laços de parentesco.

Perguntava-lhe se não sabia que o duque de Bragança fôra decepado no cadafalso da praça de Evora; que em Abrantes cevára D. João II a sua vingança na estatua do marquez de Montemór já que, por se ter refugiado em Castella, não podéra ceval-a no seu corpo; que o duque de Vizeu, cunhado do rei, fôra por elle proprio assassinado em Setubal. Agradecia á Providencia o ter-se encarnado na pessoa de João de Pegas para o salvar; senão, haver-lhe-ia acontecido o que acontecêra a D. Pedro de Athayde, que fugindo de Setubal para Santarem fôra preso no caminho, publicamente degolado e feito em quartos.

Os fidalgos castelhanos continuamente estavam avisando Fernão da Silveira das repetidas instancias que D. João II fazia junto dos reis catholicos para que lh'o entregassem. O conspirador teimava em não querer parecer fraco, deixava-se ficar, sempre intimamente sobresaltado e desconfiado.

Mas em 1488, como D. João II enviasse a Castella uma embaixada a pedir para o herdeiro da corôa a mão da filha primogenita dos reis catholicos, Fernão da Silveira, receiando que pelo facto do casamento se estreitassem, como era natural, as relações de amizade entre as duas côrtes, resolveu-se a fugir para França acompanhado pela manceba e pelo filho.

Não devia, porém, considerar-se muito seguro em França um conspirador representante da nobreza insurgida contra o poder absoluto dos reis.

Luiz XI, que tinha morrido poucos annos antes, em 1483, havia sido um inimigo implacavel dos poderosos senhores do seu reino, que formaram contra elle a celebre liga do Bem publico. Sabe o leitor que Luiz XI se fizera rodear de gente de baixa estofa, que continuamente atiçava a colera do rei contra a nobreza. Vivêra mano a mano com o seu barbeiro Olivier Le Daim, e tratava por compadre o preboste Tristan, executor dos seus planos sanguinarios.

Estava ainda muito viva a lembrança das crudelissimas represalias de Luiz XI,—da vingança que tirára do seu ministro Jean Balue, que de simples presbytero chegára a ser cardeal de Santa Suzana e que, suspeito de ter atraiçoado o rei com o duque de Borgonha, fôra, no castello de Plessis, encerrado n'uma gaiola de ferro, onde não podia conservar-se deitado nem de pé; do supplicio horrivel de Jacques d'Armagnac, duque de Nemours, e de seus filhos, na fortaleza de Loches; finalmente do drama tragico-burlesco dos ultimos tempos da sua vida n'aquelle mesmo castello de Plessis, onde Jean Balue padecêra, e onde Luiz XI, assaltado pelos terrores da morte, fazia vigiar as avenidas pelo barbeiro Olivier e pelo compadre Tristan, que se encarregavam de enforcar nas arvores do parque todo o individuo que podesse inspirar-lhes desconfiança.

Luiz XI havia pois morrido em Plessis, onde passára os ultimos dias passeiando ao longo d'uma vasta galeria, torturado pelo medo da justiça eterna, sem que podessem tranquilizal-o o espectaculo dos combates de gatos e ratos, as danças dos camponezes, as orações e as penitencias a que se entregava, e sem que podesse avigoral-o o uso de beber o sangue das creanças no intuito de fortalecer-se e remoçar.

Nem este tonico vivificante, nem o soccorro do eremita da Calabria, que mandára buscar para consultal-o, e ao qual pedia a vida chorando, haviam podido salvar da morte Luiz XI.

O herdeiro do throno, Carlos VIII, tinha treze annos quando foi proclamado rei, e sua irmã, Anna de Beaujeu, investida na regencia, procurava conservar intacto o poder real, dominando a nobreza.

Depois da batalha de Saint-Aubin, ferida em 1488, em que o duque de Orléans cahira prisioneiro nas mãos da regente, que o conservou dois annos encarcerado, diz-se que, principalmente, para vingar-se dos seus desdens amorosos, Fernão da Silveira entendeu como mais prudente abandonar uma côrte, onde a nobreza continuava a ser esmagada pelo poder real, e foi estabelecer o seu faux ménage em Avinhão, a cidade sagrada, que um legado do papa governava.

Em Avinhão, Fernão da Silveira tinha horas de cerrada melancolia, quando ermava contemplativo junto ao tumulo da Laura de Petrarcha, e aproximava o seu destino do destino do poeta italiano, ambos infelizes, posto que por differente motivo.

Petrarcha apaixonára-se aos vinte annos pela bella Laura, que nunca foi sua, pois que desposára Hugues de Sade, a quem, victima da peste de 1348, deixára viuvo com a descendencia bem pouco lyrica de onze filhos.

Fernão da Silveira, menos infeliz pelo que respeitava ao feminino, tinha comsigo, em mancebia adulterina, a sua Laura, a qual procurava suavisar-lhe as horas amargas da vida, que eram todas ou quasi todas.

Mas como poeta e exilado, comprehendia a solidão dolorosa de Petrarcha em Valchiusa, á beira de cuja fonte o portuguez ia muitas vezes sentar-se juntando idealmente as suas angustias ás do poeta que, tendo alli cantado um seculo antes, vivêra solitario como elle e como elle perseguido pela fatalidade do destino.

Entrado o anno de 1489, o espirito de Fernão da Silveira principiou a ser assaltado por sombrios presentimentos, que elle baldadamente procurava reprimir.

Tinha frequentes accessos de colera, que o sorriso de seu filho, creança de pouco mais de oito annos, não lograva serenar.

Imprecava violentamente D. João II, que continuava a denominar o tyranno de Portugal.

Dizia muitas vezes a Izabel Rodrigues que a justiça do céo havia de cahir tarde ou cedo sobre o tyranno, e feril-o na mais sensivel fibra do coração, se aquelle coração tinha alguma coisa de humano. Parecia que Fernão da Silveira adivinhava n'esse momento a catastrophe que, tempo depois, havia de victimar em Santarem o joven principe D. Affonso, herdeiro da corôa.

Recommendava-lhe que, no caso d'elle morrer assassinado por ordem de D. João II, como presentia, educasse seu filho no odio ao tyranno e no amor da liberdade.

Mostrava alimentar a esperança de que a sua morte e a dos outros conspiradores seria vingada pelo veneno ou pelo punhal na pessoa do rei.

Ainda n'isto se não enganou Fernão da Silveira, porque os intestinos de D. João II parece terem cedido lentamente á acção toxica das drogas preparadas por mestre João de Masagão de accôrdo com o duque de Beja.

O inverno de 1489 havia sido cruel em toda a Europa. Estava-se em dezembro, os dias eram plumbeos, as noites tempestuosas.

Fernão da Silveira dizia muitas vezes a Izabel Rodrigues:

—A cada silvo do vendaval sinto-me estremecer interiormente, como um predio que vai desabar... É o presagio da morte, Izabel. Morro longe da patria, longe da familia que eu constitui em tempos de felicidade. Morro ao pé de um filho, e tenho saudades de outro. O coração é assim feito. Foi o tyranno que me casou, porque na côrte dos reis poderosos nem o coração é livre. Nunca tive nem podia ter por minha mulher a febre de amor com que tu me incendiaste os sentidos. É a ti que eu amo, boa alma, que tanto te tens doído das minhas dôres. Vivo comtigo com o mesmo direito com que o tyranno abandonava a rainha para se ir emboscar em Cernache do Bom Jardim com D. Anna de Mendonça, a mãe do bastardo. Se alguem n'este ponto podesse tomar-me contas, não era por certo o tyranno, tão fragil com mulheres. Mas da esposa que não amei nunca, tenho um filho que sempre tenho amado, e peza-me que elle haja de arrastar na sociedade a infamia com que o tyranno enlameou protervamente o meu nome. Outro filho tenho... é o teu, é o nosso, Izabel, e d'esse me peza duplamente, porque só póde ser meu filho para compartir da deshonra do pai com o irmão.

Izabel Rodrigues acudia com palavras carinhosas a desviar-lhe o espirito para menos lastimosos pensamentos, mas o conspirador quedava-se triste, calado, dando a perceber que continuava mentalmente os raciocinios que a manceba meigamente pretendêra interromper.

No dia 8 de dezembro, Fernão da Silveira lembrára-se saudosamente de Portugal, recordando com grande nitidez de memoria muitos episodios da sua vida da côrte. Izabel Rodrigues tentou distrahil-o; e como no céo, anteriormente caliginoso, se fossem rasgando clareiras azues, lembrou-lhe que sahisse a passeio.

Dos labios do conspirador escaparam em resposta estas palavras presagas:

—Sahir! Procurar a morte!

Mas como se de subito se envergonhasse da sua fraqueza, disse a Izabel Rodrigues que sahiria.

Lembrou ella que levasse comsigo o filho, que bem podia attrahir-lhe a attenção para as suas graças infantis.

Fernão da Silveira sahiu, e levou o filho.

Foram, caminho fóra, conversando os dois.

Obedecendo á teimosia dos seus pensamentos, Fernão da Silveira ia fallando de Portugal ao filho, gravando na sua memoria, a traços de fogo, o retrato odiento do tyranno.

Á volta de uma rua, encontraram-se a pequena distancia com um fidalgo catalão, cujo nome e situação Fernão da Silveira muito bem conhecia. Era, como elle, um conspirador, que andava foragido de Castella: o conde de Palhaes.

O catalão, em vez de se dispôr a saudar Fernão da Silveira, levou a mão direita ao peito, insinuando-a no gibão. E, ao passar junto de Fernão da Silveira, cravou-lhe rapidamente um punhal no coração.

Não teve o portuguez tempo para resistir; cahiu desamparado na rua.

Mas o pequeno Alvaro, vendo o pai morto, desatou em gritos dilacerantes, que despertaram as attenções, e chamaram gente.

O conde de Palhaes foi logo preso, conduzido ao carcere em nome do rei de França, que não era já Luiz XI, como sabemos, porque Luiz XI havia morrido seis annos antes.

A opinião publica alvorotára-se com este acontecimento, pela significação que realmente tinha. O braço do conde de Palhaes fôra manifestamente armado por D. João II, que ao catalão fizera mercê de muita somma de ouro, em que se primeiro concertou, como escreve Garcia de Rezende. Não podéra o rei de Portugal ser feliz nas negociações que para haver á mão Fernão da Silveira entabolára com os reis catholicos e com o rei de França. Ter-lhe-ia sido por certo bem mais agradavel que essas negociações houvessem surtido effeito, porque lhe permittiriam vingar-se do escrivão da puridade pelo seu proprio braço, como fizera ao duque de Vizeu, ou pelo braço do algoz, como fizera ao duque de Bragança. Mas, posto falhassem os meios a que primeiro recorrêra, não desistíra da vingança. Empregou outros, o da corrupção pelo ouro, sob promessa talvez de que, além do ouro, a sua protecção salvaria o sicario.

N'este ponto enganou-se D. João II.

Morto Fernão da Silveira pelo conde de Palhaes, o rei de Portugal quiz effectivamente valer-lhe, como decerto havia promettido. Mas o mais que pôde conseguir foi que a regente, em nome do rei de França, lhe commutasse a pena de morte em prisão perpetua.

É natural que o catalão désse ao diabo a empreza, vistos os resultados. O ouro que recebêra não podéra ganhar-lhe a liberdade; e D. João II apenas lográra salvar-lhe a vida.

Alvaro Rodrigues, o bastardo de Fernão da Silveira, fôra conduzido a casa por pessoas compassivas que o acompanharam. Levava o fato salpicado de sangue do pai, e impressos para todo o sempre na memoria os pormenores do seu tragico assassinato.

A mãe abraçou-se chorando ao filho, e rompeu em apostrophes violentas contra o tyranno que assalariára o sicario para que elle, á luz do dia, perpetrasse um homicidio dentro da cidade dos papas.

Na memoria infantil do pequeno Alvaro condensaram-se, em torno da recordação do cadaver do pai, todos estes lugubres accessorios, que as lagrimas e os clamores da mãe a cada momento renovavam.

Quando a noticia chegou a Portugal, outra mãe, D. Brites de Sousa, esquecendo na sua dôr as infidelidades do marido, recordou a João da Silveira, seu filho, a historia lacrimosa do pai. Era então menino de poucos annos João da Silveira, mas a recordação do pai, sempre avivada pela narrativa da viuva, fez-lhe grave e triste o caracter. Demais a mais, João da Silveira herdára o talento poetico do pai. Foi, mais tarde, um dos glosadores dos serões da côrte, e um dos poetas do Cancioneiro de Garcia de Rezende.

Educou-o a expensas suas D. Diogo Lobo, seu tio, e tambem poeta.

D. Manoel, subindo ao throno, tratou de rehabilitar os conspiradores. A Fernão da Silveira rehabilitou-o na pessoa do filho legitimo, que começou a sua carreira publica por ir servir em Çafim. João da Silveira chegou a ser commendador de Montalvão, governador de Ceylão, trinchante de D. João III, e seu embaixador em França. Morreu em Evora, e foi sepultado na capella do Espinheiro.

Os dois filhos de Fernão da Silveira nunca se deram. A bastardia de um explica naturalmente o facto. Izabel Rodrigues, recolhendo a Portugal, não recorreu á protecção de D. Brites de Sousa, nem D. Brites de Sousa lh'a offereceu.

II

Seis rainhas para um rei

O que eu vou contar é uma historia verdadeira, tão verdadeira como ter havido em Inglaterra um rei chamado Henrique VIII, que casou com seis mulheres e que, sem ter morrido a primeira, passou a segundas nupcias, contra a vontade do Padre Santo.

Aqui principia, pois, todo o interesse do conto, porque, por causa de uma mulher, como sempre acontece, separou-se a Inglaterra da communhão catholica de Roma.

Aquelle rei dos bretões, que ao depois havia de sahir tão voluvel e tyranno, foi na sua mocidade um bom principe, muito amante da musica e das letras e, no respeitante a religião, muito orthodoxo. Seu pai, o primeiro soberano Tudor, acabára dominado pela mania da ambição, que o levára a vexar o povo, de modo que sorrira com Henrique VIII a esperança de uma nova época melhor auspiciada, tanto mais que o rei, acclamado em 1509, tinha casado aos dezeseis annos com a viuva de seu irmão o principe de Galles, D. Catharina de Aragão, princeza virtuosa, que o devia aconselhar prudentemente, sendo que este casamento era duplamente vantajoso, porque d'elle dependia a alliança com a Hespanha e porque evitava que a Inglaterra tivesse que restituir o dote da princeza.

Tão orthodoxo era o joven rei Henrique, que se condecorava com o titulo de defensor da fé porque, tendo rebentado o grande scisma de que Luthero fôra a cabeça visivel, escrevêra contra o lutheranismo, guiado pelas suas predilectas leituras de S. Thomaz d'Aquino, um livro que intitulou De septem sacramentis.

O cardeal Wolsey, arcebispo de York, que procedia de baixo nascimento, era junto de Henrique VIII um ministro absoluto. Ora á rainha Catharina pesava que todo o poder residisse de facto nas mãos d'esse homem ambicioso, e como o cardeal o soubesse, espreitou occasião propicia para tirar vingança da rainha.

Conhecendo que Henrique VIII estava namorado de Anna Boleyn, filha do gentilhomem Thomaz Boleyn, procurou despertar na alma do rei certas duvidas a respeito da legalidade do seu casamento com D. Catharina d'Aragão, casamento que aliás havia sido realisado por auctoridade de uma bulla do papa Julio II.

A rainha Catharina, mais velha seis annos do que Henrique VIII, tinha-lhe dado cinco filhos, mas só uma sobrevivêra: a princeza Maria. N'isto quiz o cardeal Wolsey vêr castigo do céo, porque o Levitico fulmina penas contra todo aquelle que desposar a viuva do irmão. S. Thomaz d'Aquino, o auctor predilecto do rei, parece que tambem diz a este respeito alguma coisa. Mas dissesse que não dissesse. O que o cardeal queria era explorar em proveito proprio a paixão do rei por Anna Boleyn.

Henrique VIII gostou de encontrar uma porta aberta ao divorcio. E sem mais demora apparentou os seus escrupulos á rainha.

D. Catharina d'Aragão disse que apenas um anno fôra casada com o principe de Galles, que, pelo seu mau estado de saude, não podéra consummar o matrimonio. Que depois, para o segundo casamento, houvera dispensação de Roma. O rei objectou que desejava vêr a bulla. E a rainha expediu logo, a buscal-a, um gentilhomem seu que se chamava Montoya, e que dentro de vinte dias viera a Hespanha e voltára a Inglaterra com a bulla.

Então Henrique VIII procurou um novo subterfugio: que queria saber de Roma se a bulla era falsa ou verdadeira.

E ordenou que, durante dez dias, ninguem, a não ser o seu emissario de confiança, podesse sahir para Roma.

A rainha, como isto soube, valeu-se ainda de Montoya para que sem demora partisse occultamente para Antuerpia, e d'alli, tomando um navio flamengo, procurasse chegar a Roma primeiro do que o postilhão do rei.

Assim aconteceu. O papa, recebendo Montoya, disse-lhe que a bulla era verdadeira, e que a enviaria a Inglaterra por mão do cardeal Campeggio. E o mesmo respondeu ao emissario de Henrique VIII, que ficou desesperado quando teve conhecimento do modo como as coisas haviam corrido.

A rainha, para segurar a vida de Montoya, mandou-lhe recado que se demorasse em Brugges, e ahi esperasse ordens suas.

Entretanto chegára a Inglaterra o cardeal Campeggio. O rei tomára por seu patrono o cardeal Wolsey, a rainha o cardeal Campeggio, e marcou-se o praso de um mez para que cada um dos conjuges litigasse o seu direito.

Catharina de Aragão mandou procurar em Brugges um advogado que, tendo medo, não acceitou a procuração, de modo que a rainha ficou sem outro defensor além do cardeal Campeggio.

E reunido um conselho de dezeseis lettrados, oito por parte do rei, oito por parte da rainha, declarára um dos lettrados do rei que o principe de Galles, segundo duas testemunhas podiam jurar, tivera conversação com D. Catharina, porque certa manhã, sahindo da alcôva, dissera alegremente que tinha passado a noite em Hespanha...

A rainha, ouvindo isto, levantou-se indignada, replicando:

—Que o testemunho era aleivoso, por quanto o rei Henrique bem sabia como a havia encontrado.

E, ouvidos tambem os debates theologicos entre os cardeaes inglez e italiano, o conselho dos lettrados reconheceu a dispensação por boa e authentica, ficando resolvido que aquelles dois dignitarios da Igreja dariam sentença no dia seguinte.

O cardeal de Wolsey, vencido n'esta lucta, foi desculpar-se junto do monarcha, que o repelliu agrestemente, accusando-o de não ter sabido levar a cabo o seu plano.

E Henrique VIII, como cada vez estivesse mais namorado de Anna Boleyn, chamou os duques de Norfolk e Suffolk, e outros grandes senhores do reino, para que no dia seguinte, quando os dois cardeaes se reunissem, lhes dissessem da sua parte que não queria que dessem sentença.

Os duques e os outros grandes senhores cumpriram a ordem do rei, e os cardeaes não ousaram dar a sentença, indo o de Wolsey lançar-se de joelhos aos pés de Henrique VIII para que lhe perdoasse e o deixasse sahir incolume da côrte.

Ora o rei, apesar do que se tinha passado, dissera em segredo a Anna Boleyn que estivesse certa de que elle a havia de desposar e fazer coroar rainha.

Despedindo o cardeal Campeggio, Henrique VIII fez-lhe saber que estava resolvido a não reconhecer por mais tempo a auctoridade do bispo de Roma, e logo, reunindo o seu conselho, communicára-lhe esta resolução, bem como a de desposar Anna Boleyn.

Foi resolvido que se convocassem côrtes.

Mas, para não perder tempo, o rei Henrique, que estava então em Greenwich com a rainha, ordenou que Catharina de Aragão partisse sem demora para Kimbolton, a vinte e seis leguas da côrte, sahindo elle proprio para Richmond.

A pobre Catharina de Aragão partiu com os seus fieis criados, e o rei casou em Richmond com Anna Boleyn, sendo celebrante o arcebispo de Cantorbery.

O rei Henrique teimára em passar através de todas as difficuldades.

Uma d'ellas suggeriu-lh'a a propria mãi de Anna Boleyn, filha do duque de Norfolk, que lhe pedira reflectisse no que ia fazer.

—Porque, disse a mãi de Anna, se vossa magestade examinar bem a sua consciencia, ha de achar que minha filha tambem é sua filha.

Mas o rei não achou nada.

Henrique VIII, voltando a Greenwich, mandou dizer á cidade de Londres que passaria n'aquella cidade para ir a Westminster coroar a nova rainha, e Londres apercebeu-se pomposamente para receber o rei Henrique e a rainha Anna.

Tres dias depois, Henrique VIII embarcou com Anna Boleyn no bergantim real, seguido de uma flotilha flammante, sendo saudado tão estrondosamente pela artilheria, que não ficou n'aquelle dia vidraça inteira desde Greenwich até Londres.

O rei e a rainha pernoitaram na Torre e, no dia seguinte, Henrique VIII foi no bergantim real para Westminster, sahindo pouco depois Anna Boleyn com igual destino, n'umas andas descobertas, precedida de toda a cavallaria e de gentishomens e damas em hacaneas e coches.

Anna Boleyn levava um vestido de brocado carmezim constellado de pedraria, no collo um collar de perolas maiores do que amendoas, na cabeça uma grinalda á maneira de corôa, e nas mãos um bouquet de flôres raras e bellas.

Na rua de Cheapside havia um arco triumphal, no sitio onde a cidade costuma dar aos reis que vão coroar-se mil libras sterlinas, que lhes são entregues por um anjo que desce do arco.

A rainha Anna recebeu a bolsa com o dinheiro, e guardou-a. Logo o povo, que se lembrava de que a rainha Catharina havia mandado distribuir igual quantia, quando lh'a deram, pelos alabardeiros e lacaios, ficou ainda mais desconfiado do que estivera até ahi, dizendo com os seus botões que aquillo era outra loiça de rainha.

Á porta de Westminster, o rei Henrique VIII esperava a rainha Anna, e, dirigindo-se todos para o templo, foi a rainha coroada, havendo durante oito dias grandes justas e torneios, coisa espantosa de se vêr.

Ora o parlamento confirmou tudo quanto o rei havia feito: ratificou o casamento com Anna Boleyn, jurou a legitimidade da successão que d'elle resultasse, reconheceu a Henrique VIII o titulo e o poder espiritual de chefe supremo de igreja anglicana, e outorgou-lhe os rendimentos outr'ora destinados ao thesouro pontificio.

Como alguns catholicos permanecessem firmes na sua antiga crença, e não quizessem jurar, foram presos e executados: entre outros João Fisher, bispo de Rochester, e o chanceller e escriptor Thomaz Moore, a quem Erasmo dedicou o Elogio da loucura, e que fôra, junto de Henrique VIII, o successor do cardeal de Wolsey.

Tambem quiz o rei obrigar a rainha Catharina e os seus fieis criados a reconheceram por juramento Anna Boleyn como rainha, e elle como chefe da igreja anglicana. Catharina de Aragão recusou-se dignamente, mas não queria sacrificar os criados. Elles limitaram-se a jurar que o rei se tinha feito cabeça da igreja, negando-se porém terminantemente a reconhecer Anna Boleyn como rainha de Inglaterra.

Roma fulminára terriveis excommunhões contra Henrique VIII. Paulo III, como já havia feito Clemente VII, anathematisára o rei de Inglaterra, citando-o a comparecer perante o tribunal de Roma.

Mas o rei Henrique fez ouvidos de mercador, e ordenou que a filha de Anna Boleyn, que veio depois a reinar com o nome de Izabel e o cognome de Virgem (que virgem!) fosse jurada princeza de Galles, sendo declarada bastarda madama Maria, que tambem foi rainha, filha de Catharina de Aragão.

Desde que na rua de Cheapside a rainha Anna tinha arrecadado a bolsa com as mil libras sterlinas, que lhe dera a cidade de Londres, ficou-se sabendo que, na balança do seu coração, o amor ao rei não pesava mais do que o amor ao dinheiro.

Assim foi que ella cobiçou a corda e as joias que pertenciam á rainha Catharina.

Ora a rainha Catharina podia, como a condessa de Chateaubriand, quando Francisco I lhe pediu todas as joias para as dar a Anna de Pisseleu, tel-as mandado derreter no fogo. Mas não fez assim, devolveu-as honradamente, com excepção da corôa, porque estava guardada da mão de lord Rutland, que não a quiz entregar emquanto a rainha Catharina foi viva.

Lord Rutland é o Martim de Freitas inglez.

Mas aquelle e outros golpes acabaram por dilacerar o coração atormentado da boa rainha Catharina, cujos padecimentos se aggravaram mortalmente.

No seu leito de agonia escreveu ao rei uma carta, que o abbade Millot com razão classifica de lettre touchante, mas que nós, graças á chronica hespanhola de Julian de Pliego, tão sabiamente annotada pelo marquez de Molins, podêmos reproduzir na integra:

«Senhor meu e rei meu e marido amantissimo:

«O profundo amor que vos tenho faz-me escrever-vos n'esta hora e agonia de morte, para admoestar-vos e lembrar-vos que tenhaes conta da saude eterna da vossa alma mais que de todas as coisas fallazes d'esta vida e de todos os regalos e deleites de vosso corpo, por cuja causa me haveis dado tantas penas e fadigas e vos haveis embrenhado n'um labyrintho e pélago de cuidados e angustias. Perdôo-vos de boa mente tudo o que tendes feito contra mim, e supplico a Nosso Senhor que tambem vos perdoe. O que vos rogo é que olheis por Maria, nossa filha, a qual vos recommendo; e vos peço que para com ella tenhaes cuidados de pai. Tambem vos recommendo as minhas tres criadas, e que as cazeis honradamente, e todos os outros criados, para que não padeçam privações; e além do que se lhes deve, desejo que se lhes entregue o salario inteiro de um anno. E, para concluir, senhor, certifico-vos e affirmo-vos que não ha coisa mortal que os meus olhos mais desejem do que vós.»

Boa e santa alma de mulher, que morre amando o seu verdugo!

No céo—e, se o ha, deve ser para os martyres que se volvem anjos—foi Catharina gozar a eterna felicidade: aquellas grinaldas, de que falla Shakspeare, e que ella esperava ser digna de gozar.

Porque, a proposito vem dizel-o, uma das tragedias de Shakspeare tem por assumpto e titulo Henrique VIII. Foi Izabel, a filha de Anna Boleyn, que lhe pediu que a escrevesse. Ora a obra do tragico inglez, a respeito de Henrique VIII, é um producto convencional, destinado á filha da rainha intrusa que depoz Catharina de Aragão.

Anna Boleyn tinha estado na côrte galante de França, fazendo parte da comitiva da princeza Maria, irmã de Henrique VIII, ultima esposa de Luiz XII, e saboreára ahi nas festas ruidosas do castello de Blois a vida alegre e frivola cuja effervescencia é capitosa. Quando a viuva de Luiz XII, que por amor d'ella se extenuára, voltou a Inglaterra, Anna Boleyn, educada á franceza, acompanhou-a. Vinha coquette. De mais a mais Henrique VIII era um marido que se saciava de afogadilho, e que nos seus caprichos amorosos tinha azas como a borboleta, para voar de flôr em flôr.

Anna Boleyn, que começára amando a dança e a musica, acabou por amar os dançarinos e os musicos.

Assim era que bailava nos seus aposentos com sir Henry Norreys, com Weston e William Brereton, dois gentishomens de segunda ordem, ao som de uma orchestra de tangedores, de que fizera parte Marcos Smeaton, um aventureiro, filho de um carpinteiro pobre, mal vestido e afadistado.

Este Marcos Smeaton foi levado á presença da rainha para exercer a sua prenda de menestrel, emquanto ella bailava com o primeiro gentilhomem do rei, sir Henry Norreys; mas a rainha, impressionada pelo filho do carpinteiro, quiz bailar com elle, mandando a uma dama que tangesse.

Não vá cuidar-se que esta democracia reles era privativa da côrte dos bretões.

Conta André de Rezende, na Vida do Infante D. Duarte, que este infante tomára por companheiro um tangedor castelhano de appellido Ortiz, que lhe tocava na guitarra fados contra o papa, e trocava em sucia com o principe graçolas obscenas de calão fadista.

Marcos Smeaton entrára com o pé direito nos aposentos e nas danças da rainha Anna, porque, pouco tempo volvido, uma servilheta velha, alcoveta industriosa, levava de noite o Marcos até ao leito da rainha.

Sir Henry Norreys e William Brereton descobriram mouro na costa, e recalcitaram. Armou-se uma embrulhada de ciumes, tanto maior quanta era a pompa de vestuario e galanices que o Marcos exhibia, indicando tolamente as boas fortunas de que gozava junto da rainha Anna.

A ousadia pimpona de Marcos Smeaton desbragou-o a ponto de se mostrar altaneiro com lord Thomaz Percy, conde de Northumberland.

Ora ainda n'esta ousadia chibante do menestrel andava o ciume, porque Thomaz Percy, antigo namorado de Anna Boleyn, lográra ser, á sombra de Henrique VIII, o mais feliz dos amantes.

A rainha ordenou com descaro a Percy que não maltratasse o Marcos, mas Percy, ferido talvez mais pelo ciume do que pela desconsideração, foi denunciar os novos amores da rainha a Thomaz Cromwell, ministro do rei Henrique.

Cromwell attrahiu a Londres Marcos Smeaton e, pondo-o na tortura, arrancou-lhe a confissão das relações adulterinas da rainha com os tangedores e bailarinos da côrte, incluindo elle.

D'alli foi Marcos Smeaton mandado para a Torre de Londres, onde não tardaram a ser igualmente encerrados Henry Norreys, William Brereton e o poeta Thomaz Wyat, muito protegido do ministro Cromwell.

N'este lance da nossa historia precisamos conversar um pouco a respeito do poeta Wyat, aliás famoso, comquanto amorosamente fosse mais pateta do que poeta.

Creado desde pequeno com Anna Boleyn, estabeleceu-se entre os dois um d'aquelles idyllios infantis de que Bernardin de Saint-Pierre deixou uma photographia generica na pastoral de Paulo e Virginia.

Mas os devaneios d'essa idade são gorgeios de rouxinol que ascendem ao azul, e por lá ficam pairando n'uma alada melodia, que lembra toda a vida com maior fiasco do que saudade.

Emquanto a pureza dos idyllios platonicos se libra nos ares, as mulheres positivas que os inspiraram vão cá na terra saboreando as iguarias do peccado com grande menospreço pelos poetas bucolicos que não souberam ir além do platonismo piégas.

Conta Pliego que a alcoveta de Anna Boleyn, na noite em que introduzira na camara da rainha Marcos Smeaton, e no momento de o occultar com o espaldar do regio catre, dissera para disfarce, pondo junto ao leito uma bandeja: «Senhora, aqui está a marmelada.»

A marmelada era Marcos Smeaton.

Foi a isto que eu chamei metaphoricamente iguarias do peccado.

O pobre Wyat, quando Anna Boleyn subiu de marqueza de Pembroke a rainha de Inglaterra, o mais que fez foi chorar sobre as ruinas do seu proprio platonismo. Compoz, ahi por 1535, uma elegia com o titulo de Forget not yet, que, em versão descolorida, sôa pouco mais ou menos assim:

Não te esqueça a constancia que meu peito

No amor provado tem.

Trabalhos que soffri alegremente

Não esqueças tambem.

Não te esqueça do meu antigo affecto

Seu antigo soffrer.

Quanto implorei captivo e atormentado

Não deves esquecer.

Provas por que passei, desdens, supplicios

Na memoria retem.

Delongas que soffri pacientemente

Não esqueças tambem.

Não esqueças o tempo que vai longe

No seu longo correr.

Que jámais julgou mal meu pensamento,

Não deves esquecer.

Não te esqueças do eleito teu d'outr'ora,

Do amor que teve e tem.

Do seu peito a constancia inquebrantavel

Não esqueças tambem.

Mas o sentimentalismo levava Wyat por caminho errado. Anna Boleyn, na côrte de Inglaterra, gostava mais dos musicos que das elegias.

Pensam alguns auctores que Thomaz Wiat nunca mais se avistára com Anna Boleyn. O chronista castelhano desfaz, porém, este equivoco, dando conta da prisão de Wyat, pouco antes da propria rainha ser presa em Greenwich, onde acabava de se celebrar um torneio e onde a sua ultima galanteria fôra deixar cahir o lenço, como favor concedido aos seus amantes. Mas quem categoricamente tira todas as duvidas é o proprio Wyat n'uma carta que escreveu ao rei.

Quando os escandalos da rainha chegaram ao conhecimento de Wyat, aggravados até pela suspeita de incesto commettido com o visconde de Rochford, seu irmão, achou elle que o melhor que tinha a fazer era chorar menos e atirar-se mais.

Uma noite, estando Anna Boleyn a oito milhas de Greenwich, Wyat montou a cavallo e, dirigindo-se ao palacio da rainha, teve artes de se introduzir na sua camara. Glosou-lhe, á beira do leito, uma nova declaração de amor. Mas como a rainha se calasse, e como quem cala consente, ousou apolegar-lhe as carnes. Estavam as coisas em bom caminho, quando de repente ouviu bater com o pé no pavimento do andar superior. E a rainha, que esperava de certo este signal, levantou-se do leito e desappareceu por uma escada interior. Wyat esperou por ella uma hora, mas Anna Boleyn, quando voltou, despediu-o ariscamente.

Os platonicos, mesmo quando se propõem mudar de escóla, passam por uma iniciação desastrada e ridicula.

Mas oito dias depois, como era justo, pois que tanto chorára e esperára, o poeta Thomaz Wiat não foi menos feliz do que Marcos Smeaton e outros musicos.

Tudo isto contou Wyat ao rei, n'uma carta escripta da Torre de Londres, e o rei, depois de a lêr, mandou soltar o poeta e ficou estimando-o tanto, que em 1541 o enviou como embaixador á côrte de Carlos V, mas Wyat morreu dos incommodos d'esta viagem.

Os outros cumplices de Anna Boleyn não tiveram igual felicidade: o visconde de Rochford, Henry Norreys, William Brereton e Marcos Smeaton foram degolados. A alcoveta Margarida foi queimada.

Presa na Torre de Londres, Anna Boleyn negou os crimes de que a accusavam. Ao bispo de Cantorbery disse ella:

—Eu bem sei a causa de tudo isto. O rei anda namorado de Joanna Seymour, e achou este meio de se desfazer de mim.

A accusação e a defeza eram por igual verdadeiras.

De nada valeu á rainha encarcerada a carta que da Torre de Londres escrevêra ao rei, e que o rei leu sem commoção.

Sobre o cadafalso, Anna Boleyn pronunciou um discurso muito habil para não enganar Deus nem os homens.

—Não penseis, bom povo, que me peza morrer, nem que eu fizesse coisa que merecesse esta morte: tudo procede da minha grande ambição e do grande peccado que commetti fazendo com que o rei abandonasse a boa rainha Catharina por minha causa. Rogo a Deus que ella me perdôe. E para que todos o ouçaes, digo que sou injustamente accusada. A principal razão da minha morte é Joanna Seymour, como eu fui a razão da morte da boa rainha Catharina.

E assim, humilhando-se diante de Deus sem se penitenciar diante dos homens, foi decapitada no dia 19 de maio de 1536.

Dividem-se as opiniões a respeito do comportamento de Anna Boleyn.

Os escriptores protestantes divinisam-lhe as virtudes; os catholicos põem em evidencia o desbragamento das suas libertinagens.

A sentença condemnatoria, assignada por Henrique VIII, accusa Anna Boleyn de traição, adulterio e incesto.

Guilherme Cobbett, comquanto protestante, faz resaltar o contraste da devassidão dos costumes da rainha Anna com a existencia virtuosa da rainha Catharina.

David Hume, o notavel historiador inglez, lança as graves accusações levantadas contra Anna Boleyn á conta das apparencias de coquetterie, que em grande parte ella havia aprendido em França, e das machinações facciosas dos seus inimigos, incluindo a viscondessa de Rochford, cunhada da rainha, que insinuou a suspeita do incesto.

Na chronica castelhana de Julian de Pliego vem a designação de que o auctor, talvez acobertado pelo pseudonymo, fôra contemporaneo dos factos que narra.

É certo que elle commette alguns anachronismos, como nota o marquez de Molins, mas não padece duvida que na sua chronica, facilmente escripta, com uma discreta sobriedade de rhetorica, pouco vulgar nos historiadores hespanhoes, ha grande copia de preciosas noticias, de interessantes pormenores, que a fazem estimabilissima.

Em Portugal Anna Boleyn ficou sendo, na tradição popular, sob a translitteração de Anna Bolena, o typo da mulher corrupta e corruptora, enredadeira e devassa, perturbadora e intrigante.

No que, porém, todos os historiadores estão de accordo é em attribuir a summaria decapitação de Anna Boleyn ao amor que o rei alimentava por Joanna Seymour, filha de sir João Seymour, dama formosissima, que fazia parte da casa da rainha Catharina.

No dia da execução de Anna Boleyn, Henrique VIII, para mostrar a alegria do seu coração, e porventura a «pureza» das suas intenções, vestiu-se de branco; e no dia seguinte desposou Joanna Seymour.

David Hume observa, para fazer elogio á consciencia de Henrique VIII, que este rei não queria conhecer outras ligações além das do casamento. A desculpa afigura-se pueril e inexacta, porque o rei viveu tres annos amancebado com Anna Boleyn, antes de se divorciar de Catharina de Aragão.

Fizeram-se grandes festas para solemnisar o casamento de Henrique VIII com Joanna Seymour, que, tendo sido dama de honor da rainha D. Catharina, se mostrava muito affeiçoada á princeza Maria, a qual o rei seu pai não tinha visto havia mais de tres annos.

Esta princeza, que, como se sabe, depois do casamento de Henrique VIII com Anna Boleyn apenas recebia o tratamento de madama, foi educada mais ou menos sob a influencia dos conselhos de sua mãi, D. Catharina de Aragão, de quem Rivadaneyra publíca uma carta, dirigida á filha, na qual se lê o seguinte periodo: «Dá recommendaçoes minhas á condessa de Salisbury: dize-lhe da minha parte que tenha firmeza de animo, porque não podêmos ganhar o reino dos céos sem cruz e attribulações.»

A condessa de Salisbury, Margarida Plantagenet, virtuosa dama, fôra aia da princeza Maria. Morreu justiçada aos setenta annos de idade, em 1539, por odio do rei, nas luctas contra os catholicos, aos parentes do cardeal Pole, que era filho da condessa.

Graças á intervenção de Joanna Seymour, a recepção feita pelo rei á princeza Maria, que não sem repugnancia se havia submettido ao scisma, pois que a sua educação tinha sido catholica, pareceu ser muito cordeal.

E logo, invertendo facilmente os papeis, ordenou o rei que a filha de Anna Boleyn passasse a receber o tratamento de madama, e a filha de Catharina de Aragão o de princeza.

Mas Joanna Seymour déra tambem á luz um filho, o mais lindo que jámais se viu, diz Julian de Pliego.

O nascimento de um herdeiro varão causou alegria a Henrique VIII, não obstante as difficuldades que esse facto trazia para resolver a questão dynastica, e ter custado a vida de Joanna Seymour, que morreu doze dias depois do parto.

Como diz Hume, a dôr do esposo foi absorvida pela satisfação do pai, que fez jurar principe de Galles o filho de Joanna Seymour, concedendo por essa occasião a dignidade de conde de Hertford a Eduardo Seymour, irmão da mallograda rainha, já anteriormente nomeado lord Beauchamp.

O baptisado fez-se com grande pompa, recebendo a creança o nome de Eduardo, que foi o sexto rei d'aquelle nome, e veiu a morrer aos dezeseis annos sem deixar successão. A princeza Maria, a cuja guarda Henrique VIII confiou o filho, tocou por madrinha; o conde de Hertford, irmão de Joanna Seymour, por padrinho.

De todos as mulheres de Henrique VIII foi Joanna seguramente a mais estimada. Encontram-se de accordo n'este ponto os historiadores. Mas a razão está decerto, attenta a volubilidade do rei, em que elle não teve tempo para se enfastiar.

Assim foi que Joanna Seymour logrou morrer rainha, como observa Cobbett, e na sua cama, felicidade que outras esposas de Henrique VIII não gosaram.

Mas o rei, apesar do grande sentimento que lhe causára a morte de Joanna Seymour, pensou logo em casar.

Deitou primeiro as suas vistas para a duqueza viuva de Longueville, filha do duque de Guise. Mandou pedil-a a Francisco I. A resposta foi que a duqueza estava já promettida ao rei da Escocia. Henrique VIII ficou desesperado, e enviou a França um emissario para o informar da impressão que a duqueza produzia. O emissario disse que era bonita e gorda. Esta ultima informação coroou a primeira, porque o rei, que estava então muito nutrido, preferia uma esposa de gordura condigna á sua.

Francisco I, posto reconhecesse que a alliança da Inglaterra lhe seria mais proveitosa do que a da Escocia, manteve a sua palavra, mas offereceu a Henrique VIII, para lhe calmar o animo, Maria de Bourbon, filha do duque de Vendome.

Henrique VIII, sabendo, porém, que o rei Jacques da Escocia, seu sobrinho, havia recusado Maria de Bourbon, rejeitou a proposta.

Então Francisco I offereceu-lhe qualquer das duas irmãs mais novas da duqueza de Longueville.

Henrique VIII respondeu pedindo a Francisco I uma entrevista em Calais, e indicando-lhe que se fizesse acompanhar das duas princezinhas de Guise e de todas as mais bellas mulheres da côrte de França, para elle escolher.

Queria um bazar de mulheres, uma feira de noivas!

Francisco I não obtemperou ao pedido. Picou-se, como dizem os francezes, fosse que lhe repugnasse o papel de alcaiote officioso ou que, sendo elle proprio galanteador do bello sexo, lhe desagradasse a idéa de expôr mulheres comme des chevaux au marché.

Então Henrique VIII lançou vistas para a Allemanha, o que politicamente não deixava de convir-lhe para encontrar allianças nos principes da liga protestante contra o imperador Carlos V.

Cromwell indicou-lhe Anna de Cleves, filha do duque d'este titulo.

Mandou-se pedir um retrato. Executou-o Holbein, celebre pintor, que se gozou das boas graças de Henrique VIII e da amisade de Thomaz Moore e Erasmo. Conta-se até que estando Holbein a trabalhar um dia no seu atelier, fôra bater-lhe á porta um dos primeiros senhores da côrte. Holbein desculpou-se de não poder abrir por estar trabalhando. O fidalgo insistiu. Holbein, impacientado, abriu a porta, e atirou-o pela escada abaixo. Receioso das consequencias d'essa imprudencia, correu a pedir a protecção de Henrique VIII, a quem o fidalgo foi sem demora queixar-se. O rei tentou congraçar o fidalgo com o pintor, mas, vendo que os seus esforços eram inuteis, disse ao fidalgo, que se vangloriava do titulo de conde:

—Eu posso facilmente fazer sete condes como vós; mas de sete condes não poderei fazer um Holbein.

Holbein, comquanto cultivasse a pintura historica, não faltando quem pense que elle seria o auctor do famoso quadro da Misericordia do Porto, foi principalmente notavel nos retratos. Pois apesar da habitual fidelidade do seu desenho e da exacta expressão do seu pincel, Holbein, no retrato de Anna de Cleves, obedeceu um pouco á adulação palaciana que mandava alindar os retratos das princezas, embora ficassem menos parecidos.

Um seculo depois dizia o joven Luiz XIV a respeito de Margarida de Saboya: Elle est agréable, et, contre l'habitude, ressemble à ses portraits. O nosso grande José Estevão, apesar de inventada já a photographia, disse uma vez no parlamento que todas as princezas eram formosas.

Depois de examinado o retrato, justou-se o casamento, sem embargo da opposição do eleitor de Saxe, chefe da liga protestante, casado com uma irmã do duque de Cleves.

Impaciente de vêr a sua quarta noiva, Henrique VIII dirigiu-se mysteriosamente a Rochester, e esperou-a ahi. Viu-a, e não gostou. Arrependeu-se então de ter confiado no retrato em vez de adoptar o expediente que anteriormente havia proposto a Francisco I.

Além de feia, a princeza só fallava o hollandez, lingua que Henrique VIII não entendia.

O rei reuniu conselho para vêr se seria possivel romper o contracto de casamento, mas acobardou-o uma consideração politica.

Carlos V e Francisco I estavam então reconciliados. Como surgissem novas perturbações na Hollanda, principalmente em Gand, Carlos V, que residia em Hespanha, quiz ir pessoalmente calmal-as. Mas como a viagem por Italia e Allemanha seria muito longa, o imperador pediu ao seu prisioneiro de Pavia licença para atravessar a França. Francisco I mostrou-se magnanimo, deu a licença pedida e recebeu com grandes festas Carlos V. Alexandre Dumas, como o leitor deve estar lembrado, descreve-as no seu romance Ascanio. Ora, dada a conciliação de Francisco I e Carlos V, bem podiam estes dois principes, movidos pelo zelo religioso, cahir sobre a Inglaterra com todo o pezo dos seus exercitos.

Portanto, mais do que nunca, importava a Henrique VIII uma alliança com os principes allemães, para o que désse e viesse.

Henrique resignou-se por algum tempo, vivendo separado da rainha de dia e de noite. Dava como desculpa a suspeita de que Anna de Cleves não estava virgem quando a desposou. E secretamente mandou á Allemanha um emissario de confiança, o gentilhomem Vaughan, para averiguar o que podesse a este respeito.

O rei, já a esse tempo enamorado de Catharina Howard, sobrinha do duque de Norfolk, queria encontrar um pretexto para repudiar Anna.

Partiu Vaughan com dinheiro á ufa e, chegando a Cleves, reuniu em banquete alguns gentishomens, com o proposito de os embriagar. In vino veritas. Depois de haverem esgotado os picheis, elles diriam o que soubessem. Assim aconteceu. Um d'elles, mais expansivo na embriaguez, posto fosse criado do duque de Cleves, disse á mesa que a princeza havia desposado um cavalleiro, que morrêra na Allemanha de desgosto quando soube que acabavam de casal-a com Henrique VIII.

Surprehendido este fio da meada, Vaughan procurou desfial-a, fazendo-se acompanhar de cartas justificativas.

Interrogada a propria Anna por Henrique VIII, respondeu que tinha sido desposada com o duque de Lorena, mas que lhe disseram que elle havia morrido, e que de mais nada sabia.

Hume assevera que o casamento com o duque de Lorena fôra effectivamente tratado com Anna de Cleves, quando ambos estavam na infancia, e desfeito depois por commum accordo.

Todavia isto bastou para que Henrique procurasse divorciar-se da rainha Anna, allegando que não déra o seu consentimento interior para o casamento, e que não o consummára.

Esta ultima desculpa não é menos absurda do que a primeira, visto que Henrique VIII declarára que Anna de Cleves já não estava virgem.