IDYLLIOS Á BEIRA D’AGUA


ALBERTO PIMENTEL

Idyllios á beira d’agua

ROMANCE ORIGINAL

(2.ª edição revista pelo auctor)

LISBOA
«A EDITORA»
Conde Barão, 50
1903

Typ. d’«A EDITORA», Conde Barão, 50


Prologo da 1.ª edição

Subi em julho d’este anno á montanha umbrosa do Bom Jesus do Monte e repousei o meu espirito, d’umas fadigas em que andava trabalhado, á sombra d’aquellas arvores seculares que ou não envelhecem nunca ou remoçam cada noite para verdejar novas galas ao romper da madrugada...

Quando o romeiro crava o seu bordão n’algum relvoso céspede do ermo sagrado, e sente subitamente embriagados os ouvidos n’aquella primavera inextinguivel chilreada de maviosos trinados, experimenta a influencia benefica d’um elixir mysterioso que se lhe está filtrando no coração, e vae acalmando como por encantamento as tempestades que lá se revolviam momentos antes. Este dulcissimo consôlo experimentei-o eu e experimentam n’o todos os que, na solidão amena, vão desfadigar-se de canseiras intimas.

Na solidão amena disse eu, e quero demorar-me um momento n’este ponto. A solidão profundamente triste e silenciosa quer-me parecer um como remedio heroico para organisações robustas, e só para ellas.

Para as almas que não podem disputar com estas extremos de coragem, e não saem incolumes d’uma procella, a solidão medonha dos desertos seria o mesmo que a morte lenta e desesperada d’um criminoso recluso em carcere cellular.

Subi, pois, a montanha e ia procurando com a vista as arvores que já me tinham dado sombra em romagens anteriores, as fontes cujo suspirar cadenciado eu já tinha escutado, e umas e outras encontrei, as arvores bracejando as mesmas frondes, as fontes suspirosas como d’antes, e concentrei-me então para vêr a minha alma retratada no espelho interior.

Mezes antes, á hora em que eu, longe d’alli, sentia fugir-me a vida e a mocidade, e lançava um como olhar de despedida ás arvores que sacudiam as ultimas folhas, a essa hora, dizia, murmuravam as fontes do Bom Jesus as saudosas queixas de que me lembrava ainda, tranquillas como sempre, e diziam os troncos annosos da montanha ao outomno que se approximava:

«Amarellece, devasta, anniquila, que não entrarás aqui...»

Fui subindo, subindo e remoçando a cada passo que dava, a cada momento que fugia.

Demorei-me tres dias na estancia suavissima do Bom Jesus do Monte, que tanto era preciso para lograr um remoçamento completo, e, na tarde do segundo dia, afigurou-se-me vêr, a distancia, na alameda da Mãe d’Agua, um homem que me inspirara a maxima sympathia quando pela primeira vez lhe falei em Braga—o padre Eduardo Valladares.

O leitor, que não exige que o romancista venha expôr a face do martyr á luz do sol, para que todos o conheçam e o apontem, permitte-me decerto este pseudonymo com que me corre obrigação de velar a verdadeira personagem do mundo real.

Ia o padre Valladares caminhando placidamente, absorto em seus pensamentos, quando commetti a indiscreção de lhe bater no hombro. O padre voltou-se de golpe e extendeu-me os braços alegremente, posto que eu conhecesse que a minha approximação havia quebrado uma serie de pensamentos dolorosos...

Fomos juntos conversando pela alameda acima, até que veiu de geito o dizer-me elle:

—Por que não ha de escrever do Bom Jesus do Monte? Estas arvores sabem tantos segredos, que, se as interrogar, tirará assumpto que farte para muitos livros verdadeiros. Já li o que escreveu do Bussaco[1] e casos tristes, como aquelle, não ha em toda esta montanha um unico torrão que os ignore...

Ia-se alterando a pouco e pouco o semblante do padre, e a sua figura, respeitavel e distincta, parecia contrahir-se como se um espinho agudissimo lhe estivesse atravessando o coração.

Demorou em mim o seu olhar por um momento, e rompeu n’esta apostrophe:

—Se não lamenta ter de perder algum tempo debruçado sobre o abysmo do passado, confie á sua memoria os apontamentos que lhe vou dar.

Até aqui o padre Valladares. Agora duas palavras mais:

O leitor que gostar do romance trabalhosamente architectado, feche o livro e não leia. Aqui não se referem casos tenebrosos, nem se borda a teia, de si mesma singella, com debuxos artisticos. Opulencia, se ha n’este romance, é toda da natureza. O proscenio, o estrado scenico onde as personagens se nos devem mostrar, na maxima parte das vezes outro não ha de ser senão o saudosissimo retiro da Mãe d’Agua assombreado de carvalheiras seculares, cujo sussurro se casa saudosamente com o murmurar da agua que desliza.

Não se reclinam pois os actores em suaves frouxeis; ottomanas não as ha ahi, como todos sabem. Contentem-se com dois canapés rusticos, dois bancos de pedra, que guarnecem a mesa, de pedra tambem.

Alli, na amenidade dulcissima d’um arvoredo frondente, á beira d’agua, a coberto do sol, haveis de encontrar as personagens scismando embevecidas nos idyllios ora tristes ora radiosos do coração e do amor.

D’aqui o titulo do romance.

Porto, 1870.


Prologo da 2.ª edição

Foi este o meu primeiro romance. É pois um fructo verde, uma tentativa, um ensaio, e mais nada.

Mas quero-lhe como a uma doce recordação do passado, que conservasse um tenue aroma de sachet antigo.

Havia n’elle alguma esperança, alguma promessa de futuro? Esse futuro que eu esperava, cheio de fé, e que já hoje é tambem passado, pode ter produzido cousa melhor, mas eu com certeza a estimo menos do que este romance quasi infantil.

Com que saudade o reli eu agora, sem poder reprimir um affectuoso sorriso de desdem!

É que eu, como todos os novos, presumia-me velho quando era moço.

Parecia-me que vinha de longe, cansado de viver, muito instruido na sciencia do mundo.

E, comtudo, iniciava apenas a minha jornada de escriptor, com a cabeça doudejante de illusões e de sonhos.

Depois... trabalhei e soffri.

Mas a felicidade que me trasbordava do coração quando escrevi este romancesinho, nunca mais voltou.

É que a mocidade não volta.

Lisboa—1903.


I

Sebastião Valladares tinha carta de bacharel em leis pela Universidade de Coimbra e abrira banca no Porto ao tempo de contrahir casamento com uma senhora bracharense. E certo é que os créditos juridicos de Sebastião Valladares estrondearam em Coimbra durante os cinco annos do seu curso de leis.

Manda, porém, a verdade dizer que a nomeada do talentoso advogado não encontrou entre os demandistas portuenses o écho que remurmurava ainda nos salgueiraes do Mondego. A levada dos clientes, sempre tumultuosa, não affluira á banca do moço bacharel.

João Nicolau de Brito, proprietario em Braga, conheceu que á mediania suada do genro pesava a educação do unico filho que tinha, e chamou á sua companhia o neto, de dezeseis annos d’edade.

—Parece que já não estamos tão sós! dizia João Nicolau de Brito a sua mulher D. Maria d’Assumpção, revendo-se jubiloso no rapazinho de dezeseis annos.

—Pois que! respondia D. Maria d’Assumpção. É sempre consoladora a companhia d’uma pessoa da nossa familia, ainda que seja uma creança.

—Creança! atalhava o esposo. Já não é tão creança como isso. Olha que tem dezeseis annos!

—O que é preciso, porém, é tratar de alliviar ao rapaz as saudades dos paes. Ou elle de si é triste ou se resente da ausencia.

—Tens razão, accrescentava João Nicolau.

—Isso tenho. Já me lembrou combinarmos com as Machados um passeio ao Bom Jesus para o distrahirmos.

—Lembras bem.

—Se lembro! E ellas que hão de gostar. O Eduardo precisa realmente d’uma distracção qualquer. Esta rua do Carvalhal é só e triste. O rapaz passa as tardes á janella por não querer sahir. Tambem tem razão. Não conhece ninguem!

—É isso. Não conhece ninguem—concordou João Nicolau, muito reflexivo.

E accrescentou passados momentos:

—Olha cá! Dá-me da secretária a carta que o pequeno nos trouxe. Ha n’essa carta do Sebastião um periodo que me inquieta. É aquelle em que nos diz que o Eduardo lhe sahira com sua tendencia á poesia!...

—Ora!—proferiu D. Maria d’Assumpção, abrindo a secretária e entregando a carta ao marido.

João Nicolau de Brito montou os oculos, endireitou-se na cadeira e começou a lêr em voz alta:

«... O Eduardo ahi vae; penso que lhes não será rebelde, porque é humilde de si. Amolda-se ás vontades de quem o dirige e parece attentar gravemente no que lhe dizem. Ensinei-lhe tudo o que sabia e podia. Creio que com mais um anno d’estudos preparatorios estará habilitado para entrar n’um curso superior. O destino de meu filho já me não pertence, porém. Pesa me todavia que me sahisse poeta aos dezeseis annos e como por magia! Conheci em Coimbra um rapaz de muitissimos talentos e de seu natural poeta, que por se dar do coração á leitura d’amenidades e aborrecer de morte os alfarrabios da sciencia, teve que luctar com a vontade da familia, que o obrigava a estudar, e com a sua natureza, que o fazia detestar os compendios. Como, porém, não pudesse renunciar á espontanea inclinação, e como não tinha bens de fortuna, succumbiu a uma gravissima affecção moral, que o levou á sepultura, com grande magua de todos os que sabiam aquilatar-lhe a alma e a intelligencia. Desvaneçamos, porém, estas suspeitas; não quero que me chamem visionario. Ahi vae, pois, o pequeno...»

João Nicolau de Brito abanou a cabeça com um gesto solemne e descahiu a scismar.

Atalhou-o, porém, a esposa, batendo lhe no hombro e dizendo ao mesmo tempo:

—Deixa-te de visões! Tratemos de distrahir o rapaz. Iremos domingo ao Senhor do Monte.

—Olha! disse de subito João Nicolau de Brito, como se houvesse despertado d’um somno momentaneo. Ha, porém, um inconveniente n’esse passeio...

—Qual?

—A convivencia com as Machados.

—Ora!

—Ora que!? Tu parece que não sabes o que é ser novo! Eu não me refiro á Rosa Machado. Falava da Maria Luiza, da irmã, que é outra doida por versos, que ha de conversar de poesia com o rapaz, e que por fim ha de vir a falar d’amor como quem se deixa ir ao som d’agua corrente...

—Ora ahi está o que eu approvo, atalhou D. Maria d’Assumpção. Essas práticas lyricas entre os dois ajustavam-se á occasião e vinham de geito. Ainda que o lyrismo do espirito descambasse em lyrismo do coração, ainda que a poesia se transformasse em amor, que inconvenientes poderiam vir d’ahi? Eram verduras da mocidade, que distrahiam o rapaz e que por fim de contas haviam de acabar no momento em que elle se aborrecesse.

—Tambem me parece... Que lá padre, dê por onde der, quero eu que elle seja. Sahiu dado a poesias? Melhor! Será um prégador de fama.

—Ha de ser tudo o que tu quizeres... Mas supponhamos até que o Eduardo começava a arrastar a aza á Maria Luiza. Travava-se o namorico, carta d’aqui, versos d’alli, uma semana d’ataque, outra semana d’aborrecimento, e por fim o rapaz curado da sua nostalgia em quinze dias.

—Mas não falaste ahi em aborrecimento? ponderou gravemente João Nicolau de Brito.

—Falei, respondeu com convicção a sogra de Sebastião Valladares. Mas refiro-me ao aborrecimento que de si mesmos trarão uns amores pueris. Depois, para curar esse aborrecimento, principia-se novo galanteio a nova estrella, e ahi começa a chrysalida a tornar-se borboleta e a perseguir as flores.

—Olha que as flores teem espinhos... atalhou João Nicolau de Brito meneando a cabeça.

—Cala-te! replicou D. Maria. Os espinhos das mulheres são... os alfinetes. Em nome do sexo, agradeço-te a amabilidade.

—Não tens que agradecer, disse João Nicolau rindo e batendo as palmas de contente.—Sim, senhora! Vossa excellencia está hoje espirituosa! Receba os meus parabens. Iremos ao Bom Jesus quando quizer e mande convidar as familias do nosso conhecimento para nos fazerem companhia esta noite. Solemnizemos a recepção do rapazinho. Se queres que te diga—accrescentou mudando de tratamento—tive hontem pena d’elle. Eram dez horas e já tinha somno. Tambem não sei o que fazes do piano! Já és avó, é verdade, mas a velhice ainda não te immobilisou os dedos. Pois venham lá as Machados, e haja ao menos musica uma noite...

—Então queres?

—Quero. Manda convidar. Que lá padre ha de elle ser. Ainda lhe hei de ouvir um sermão...

—Se não fôr seccante, disse D. Maria d’Assumpção sahindo da sala.


II

Thomaz Ignacio Machado tinha sido um homem dinheiroso. Abriu, em Lisboa, os salões do seu palacete á flor da aristocracia olyssiponense, deu bailes esplendorosos, pompeou em cavallos e trens, teve aventuras com dansarinas de S. Carlos, jogou o monte com a sobranceria d’um homem que não joga para ganhar e... achou-se arruinado no dia em que pensou no futuro que o estava esperando.

O Creso, apeado do seu pedestal de ouro, emboscou-se nas moitas verdejantes d’uma quinta proxima a Braga, e ahi veiu descansar das saturnaes esplendidas de Lisboa com o intuito de bemfeitorisar as propriedades obrigadas ao dote da mulher e de velar por tres innocentes meninas, suas filhas, salvas da tormenta na arca sagrada do coração materno.

Chamava-se Emilia a mais velha, que morreu aos vinte e dois annos tisica, se não victima d’uns amores desventurosos, que não fazem ao nosso proposito.

Rosa e Maria Luiza viviam ainda, como o leitor inferiu do capitulo anterior.

A custo de muitas economias pôde Thomaz Machado rehabilitar a casa consideravelmente esbanjada e obter os rendimentos necessarios, não para a vida faustosa de Lisboa, mas para uma decencia estimavel então, e invejavel ainda hoje.

Veiu, pois, Thomaz Machado residir em Braga, e, após dois annos de apartamento na quinta do Prado, alugou casa na rua de Santo André.

A mallograda Emilia morrera na quinta do Prado, ao cabo d’um anno de tão melancholico exilio.

Rosa, no tempo a que somos obrigados a remontar, tinha vinte e um annos; Maria Luiza, dezenove.

Rosa não era uma belleza. Tinha, porém, um trato tão suave e delicado, um quê de meiguice e de ternura, que diffundia encanto. Maria Luiza, ao contrário da irmã, era um demonio bonito. Conversava com os homens mais do que com as senhoras, valsava com delirio, tinha a ironia prompta e o epigramma certeiro, tocava piano e recitava versos, cantava seguidillas e desvelava um vaso d’alecrim do Norte que tinha ao canto da janella. Era trigueira e possuia uns olhos negros que nadavam em luz. Parecia que não andava; voava. Ouvia-se um ruflar de azas; olhava-se... era ella. Não houve ainda mulher mais flexivel, nem mais elegante. Era quasi uma columna de fumo, que ondulava no espaço e que desapparecia com um sôpro. Lembra-me comparal-a áquella creatura aerea, vaporosa, que nós conhecemos d’um livro d’Octavio Feuillet. Maria Luiza tinha seus laivos da condessinha do escriptor francez. Era porém mais intelligente e menos desenvôlta. Ainda assim com que salero, puramente andaluz, não batia ella as mãos, correndo do seu alecrim para o seu piano e entoando a meia voz um fragmento de seguidilla:

El amor que te tengo

parece sombra;

quanto mas apartado

mas cuerpo toma.

La ausencia es aire

que apaga el fuego chico

y enciende el grande.

Depois, se a irmã se sentava ao piano e voejavam ao longo da sala notas de suavissima tristeza, como um bando de rôlas viuvas que se andassem carpindo, Maria Luiza, para se furtar á impressão dolorosa da musica, batia o pésinho no chão e começava, saltando, a cantar.

Havia só um nome, só uma palavra, que a fazia entristecer subitamente. Era o nome de sua irmã Emilia. Tinham sido duas irmãs extremosas, que viviam uma para a outra.

Ás vezes, n’um momento de dolorosissima saudade, dizia a inquieta donzellinha:

—Quem sabe se virei a morrer da morte de minha irmã? Talvez. Eramos tão amigas!...

Estavam na quinta do Prado, como já se disse, quando Emilia morrera. Os tisicos enganam até ao ultimo momento; ninguem esperava que ella passasse n’aquelle dia. Rosa tocava, na sala proxima, umas variações da Norma; Maria Luiza falava com a doente a respeito das andorinhas e do sol, das flores e das borboletas, das noites de luar e dos rouxinoes. De repente a irmã interrompera-a, para segredar-lhe:

—Ouves? É a musica do noivado. O meu noivo espera-me. Has de me dar um ramo de lirios para levar no seio. Eu gosto tanto dos lirios! Os rouxinoes são meus amigos. Esperava este momento com anciedade; elle já me espera ha dois annos e devia ter saudades de mim. Morreu tão novo! Ouves, minha irmã? A musica continua. São as andorinhas, que chilriam... Dá-me um beijo; as borboletas são irmãs das flores e tambem se beijam.

Ouviu-se o frémito d’um beijo e o som agudo d’um grito. Era a voz de Maria Luiza. Sua irmã tinha morrido a beijal-a, como se quizesse transmittir-lhe a vida n’um beijo.

Ao grito de Maria Luiza acudiu o pae, a mãe e a irmã. Já chegavam tarde, porém.

Desde aquelle dia, Maria Luiza entristecia-se quando lhe falavam d’essa hora amargurada. Tornou-se amiga de todos os que eram amigos de sua irmã e ia todos os domingos ao cemiterio d’aldeia poisar um ramo de flores sobre o tumulo fechado havia pouco tempo. Quando vieram habitar em Braga, Maria Luiza soffreu muito com a falta da visita ao cemiterio, ou com a ausencia de sua irmã, como ella dizia. Aos domingos, todavia, era quando mais cantava o

El amor que te tengo

parece sombra...

e dizia a Rosa que se via obrigada a cantar para reprimir as lagrimas no seio.

Thomaz Ignacio Machado morreu em Braga, dezoito mezes depois de ter sahido da quinta do Prado. Chorou-o a esposa, choraram-n’o as filhas estremecidas e choraram-n’o todos os que viam n’elle um homem remido das faltas do passado por um longo soffrimento.


III

João Nicolau de Brito e sua mulher receberam, como tinham combinado. Concorreram á soirée as familias de mais intimo trato n’aquella casa. Abriu-se o piano, n’essa noite, e desterrou-se o loto, que era já então o maximo divertimento dos serões bracharenses e continua a ser para eterna semsaboria das noites de Braga.

A dansa, a alegria, a musica tomaram a vez ao jôgo. Eduardo era a machina motora de tão notaveis reviramentos na casa de dois velhos amolestados de rheumatismo e outros gravames da velhice. Abriu-se a soirée com uma quadrilha. Eduardo fez o milagre de tentar a avó e conseguiu que a pobre senhora figurasse no—en avant—a par de tres raparigas, incluindo as irmãs Machados. João Nicolau de Brito jubilou com a delicadeza do neto e apresentou-o, finda a dansa, como poeta, ás pessoas que estavam na sala.

O amor proprio tem d’estes paradoxos. João Nicolau desestimou a qualidade de poeta na pessoa do neto; agora, lisonjeado da muita delicadeza d’elle, folga de que o rapaz se extreme dos outros com merecimentos distinctos.

As senhoras festejaram a denuncia de um talento precoce, que não tinham avaliado ainda, do filho do bacharel.

Correu n’esse momento ao longo da sala um sussurro de vozes: era o cochichar de meia duzia de raparigas tentadiças com poetas, sob o commando de Maria Luiza, idealista por excellencia.

—É dever teu, Eduardo—disse de golpe D. Maria d’Assumpção—comprovares a opinião antecipada, que de ti formamos. Recita-nos alguma coisa.

—De boa vontade, minha senhora—respondeu elle—se não receasse a indelicadeza d’incommodar v. ex.ᵃˢ e não me conhecesse com o vezo de ser horrivelmente desmemoriado.

—Vá o que lembrar—accrescentou João Nicolau.

—Mas coisa da tua lavra—tornou D. Maria d’Assumpção.

—Folgamos d’ouvil-o—disse Maria Luiza.

Eduardo percebeu que seria indelicadeza imperdoavel o desculpar-se mais.

—Ahi vão, disse elle, seis quadras que não valem nada. Intitulam-se:

Frémitos

Quando tu vaes á janella,

Á noite, e pensas em mim,

Ha uma voz que diz—Ella!

—São os lirios do jardim...

Se d’um livro sobre a folha

Te pende a cabeça e o véo,

Ha uma voz que diz:—Olha!

—É o mar chamando o céo...

Quando esse teu olhar mede

Todo o horizonte do sul,

Ha uma voz que diz:—Vêde!

—Talvez seja a voz do azul...

Se, ao fim da tarde, á janella,

Olhas, nem sabes o que,

Ha uma voz que diz: Bella!

—É a voz do que se não vê...

Mysterios que eu não abranjo!

No jardim, ao pôr do sol,

Ha uma voz que diz:—Anjo!

—A voz d’algum rouxinol...

Quando ha luar e te chamo

Entre as moitas d’alecrim,

Se ha uma voz que diz:—Amo!

Penso que a voz sae de mim...

Estrondearam na sala freneticos applausos.

O moço poeta, de dezeseis annos, agradecia a ovação espontanea e unanime com mostras de modestia e ingenuidade estimaveis.

Merecidos eram sem dúvida taes applausos.

Nos versos do filho do bacharel Valladares havia poesia, se poesia se pode chamar este alar-se da alma para um mundo phantastico onde se ama já uma mulher que ainda se não viu.

Os que entendem que a poesia é uma coisa que elles mesmos não entendem, o nebular a phrase de modo a encobrir a carencia d’uma idéa aproveitavel, esses, apostolos do germanismo transmontado, rir-se-hão da futilidade d’um poetar singello cadenciado na lyra incorrecta dos dezeseis annos.

Maria Luiza Machado, como enthusiasta por versos, pediu ao poeta a cópia dos seus. Isto bastou a travar-se conversação.

—Bem me parecia—disse ella—que o seu coração devia, para cantar mavioso aos dezeseis annos, sentir um raio de sol que o inspirasse.

—Peço desculpa para redarguir a v. ex.ᵃ Os meus versos são talvez uma prophecia. A alma, ainda não adestrada para luctar com as procellas do mundo real, cria para si uma região phantastica.

—Seja como fôr, tornou ella. Desejo possuir os seus versos. Quando m’os dá?

—Amanhã.

Pactuou-se, no fim da soirée, o primeiro passeio ao Bom Jesus, no domingo proximo.

Recordações d’essa noite ficaram muitas e immarcessiveis na alma de Eduardo Valladares. Depois da ultima quadrilha, quando os convidados retiraram e a sala ficou deserta, é que foi o escurecer-se subitamente aquella alma, que mergulharia em profundas trevas, se a imagem esplendida de Maria Luiza lhe não rareasse, a instantes, as sombras interiores. Um olhar e uma phrase d’ella fôram as ultimas impressões d’essa noite.

—Seja como fôr. Desejo possuir os seus versos, disse-lhe ella.

E abriram-se-lhe os labios n’um sorriso de fada.

—Mas, dizia de si para si o filho do bacharel Valladares, tenho apenas dezeseis annos e deixo-me assim embalar nos braços de uma esperança dulcissima que me pode fugir amanhã!

Durante os dois dias que decorreram desde essa noite até o domingo seguinte, annuviou-se o semblante de Eduardo a ponto de João Nicolau fazer reparo na extranha tristeza do rapaz. Quedou-se o velho a scismar no visivel desgôsto do neto e não lhe rasteou origem. Isto inquietara-o sobremaneira. Revelou á esposa as suspeitas e dúvidas que o embaraçavam; conchavaram-se os dois no proposito de dar finalmente com a chave mysteriosa do enigma.

Passadas algumas horas depois d’este secreto colloquio dos dois velhos, D. Maria da Assumpção foi dar com o neto emboscado na ramaria d’uma olaia que sombreava o angulo do quintal. Estava o moço d’olhos pregados no horizonte recortado pelas arvores verdejantes dos quintaes da rua de Santo André.

D. Maria d’Assumpção seguiu por alguns momentos a direcção do olhar do neto e o mesmo foi despeitorar-lhe os mais intimos segredos do coração. Subiu as escadas precipitadamente e chamou o marido a uma das janellas sobranceiras ao quintal.

—Olha, disse-lhe ella apontando para o neto. O coração—o coração dos dezeseis annos sobretudo—ha de ter sempre d’estas contradicções. O excesso da felicidade acarreta d’estas maguas. O que elle deseja é o momento de tornar a vêl-a... São chuveiros d’abril, que não inspiram cuidado.

—Olha que a mocidade d’agora começa muito cedo a tresnoitar-se! O amor dos dezeseis annos! Lêsse-se este caso n’um livro a ver se alguem o acreditava! No nosso tempo não se vivia tanto em tão poucos annos.

—Ahi estás tu a denunciar a edade que tens! É sestro dos velhos andar a reprehender os novos, e o que elles pensam e fazem. Não se vivia tanto em tão poucos annos! disseste tu. Já te não lembras da historia d’uns amores em que falas quando vem de geito citar façanhas da mocidade...

—É uma historia que tem graça. Da janella do meu quarto, no collegio onde me eduquei, andava eu a espreitar nas horas de recreio para a janella d’um terceiro andar onde morava uma costureirinha d’olhos negros...

—Uma costureirinha! O teu neto revela mais fidalgos e poeticos instinctos. Ama romanescamente. Tu andavas mais terra a terra. Não tens que vêr. Iremos domingo ao Bom Jesus.

—Iremos se quizeres. Não sei que systema teem ás vezes as mulheres!

—O meu systema é o do jardineiro experimentado. É preciso cuidar da flor, dar-lhe sol, para que desabrochem depois todas as galas que a Providencia lhe der.

—Anda lá, anda lá, quero ver se a theologia lhe ha de dar tempo para andar com a cabeça á roda!


IV

Batiam sete horas da manhã nas torres do Bom Jesus do Monte, quando João Nicolau de Brito, sua mulher, Eduardo e as duas meninas Machados subiam em alegre caravana o escadorio do santuario. Pelo que diz respeito aos dois velhos, em cujo grupo faltava a viuva Machado, iam cansados da subida; não assim os companheiros, que saltavam alegremente d’escada em escada, como tres avesinhas que voltassem no mesmo dia á liberdade do ar, depois d’uma reclusão asperrima, e fôssem chilreando de fronde em fronde pela encosta acima.

Affluiram, n’esse dia, ao Bom Jesus muitas familias de Braga, de sorte que se augmentara consideravelmente a ruidosa caravana.

Demoraram-se na hospedaria João Nicolau, sua mulher e os outros velhos, seus conhecidos, trôpegos de rheumatismo; o resto da caravana errava pela montanha ao sabor de cada um.

Eduardo Valladares sentiu por momentos necessidade de conversar com a sua alma em jubiloso dialogo. Subiu ao largo dos Evangelistas, e embrenhou-se na matta sombria da Mãe d’Agua.

Estava elle escrevendo a lapis na carteira, quando casualmente descobriu, através da folhagem, um vulto indistincto.

Encobriu-se com o muro posterior á mina e ficou d’atalaia, a coberto da parede. Passados alguns momentos reconheceu ser Maria Luiza e sentiu bater-lhe o coração vertiginosamente.

Vinha ella, pensativa, subindo a alameda. Depois sentou-se n’um banco de pedra e descahiu a scismar, encostada á mesa, que tambem era de pedra[2].

Eduardo Valladares espreitava-a silencioso. Ora sentia estuar-lhe o sangue nas arterias escandescentes ora esfriar-se com esvahimentos de moribundo anciado. Maria Luiza quedara-se a scismar com os olhos fitos no vago e o rosto descansado na mão. É um mysterio que se não comprehende, um enigma que se não decifra—o que seja este vago d’uns olhos contemplativos, o ponto indistincto e nebuloso onde se fita o olhar, a não ser que esse ponto seja a lente que reflicta o olhar de si mesmo namorado. Pois em que mais se pode extasiar uma alma venturosa a não ser na intima contemplação da primavera interior? Dizem pois, e dizem bem, os que entendem do coração, que os olhos são o espelho da alma e o olhar a muda expressão do sentimento que a domina. Tudo isto nos vae levando insensivelmente a uma conclusão provavel. Pois se o olhar é o reflexo da alma, se a alma está absorta em júbilo, e se a vista se concentra n’um ponto unico, quem poderá duvidar de que esse ponto seja a lente mysteriosa que está espelhando o fogo do nosso olhar, o fogo da nossa alma? Ora se não é isto o vago d’uns olhos contemplativos, não sei eu bem o que seja o vago. O que sei, porém, é que todas as almas placidamente inebriadas teem d’estas horas de arroubo em que os olhos se embellezam no azul d’um horizonte desconhecido aos outros.

Estava, pois, Maria Luiza extasiada n’estes ineffaveis enlêvos, quando sentira cahir-lhe aos pés um papel, que mão invizivel impellira. Despertou de subito d’aquelle dulcissimo far niente, que é o sonhar accordado da alma. Pegou no papel e desdobrou-o precipitadamente; desdobrou-o e leu-o.

Dizia assim:

«Disse a rosa á borboleta:

—«Abre uma aza, inquieta,

Faze-me d’ella um docel...»—

Volveu ella:—«Flor dos valles,

Dá-me, em paga, do teu calix

A seiva, o licor, o mel...»—

Assim nós tambem. N’um dia

Sob a aza da poesia

Dormiste e sonhaste, ó flor.

Eu, namorado e poeta,

Hei de ser a borboleta,

Tu a rosa; o mel, o amor...

Voltou-se surprehendida Maria Luiza como a procurar nas sombras do arvoredo o apaixonado fauno que furtivamente viera requestar com incendidos madrigaes a nayade formosa; o mesmo foi encarar no moço enamorado, que procurava lêr nos olhos d’ella a impressão dos versos, e que sentira esvahidas as fôrças quando tentou fugir d’aquella suavissima prisão que alli o tinha como galvanisado.

—Aqui? disse-lhe ella. Pensei que tinha acompanhado o resto da caravana.

—Idealista, como v. ex.ᵃ—volveu elle convulsamente e como querendo dominar uma impressão violenta—procuro ás vezes a solidão. Não temos que extranhar o encontrarmo-nos aqui.

—De mais extranheza será, porém, dizer-lhe eu que se occultam n’estas sombras da Mãe d’Agua faunos poetas, que sabem escrever bonitos versos ao sabor de madrigaes. Aqui tenho eu uns que me parecem maviosos; ou me vieram da mão d’um fauno, que, por engano, me tomara á conta de nayade, ou cahiram por acaso da aza d’uma andorinha, que era correio d’amantes.

Eduardo Valladares empallidecia extremamente.

—E comtudo esta lettra não me é extranha, continuou Maria Luiza. Notavel coincidencia! Parece-se muito com a sua, com a dos versos que teve a gentileza de me enviar ante-hontem. Ora veja...

N’este momento ouviu-se ao fundo da alameda uma voz de mulher. Quedaram-se os dois á escuta. Passados instantes, porém, descobriu-se através das arvores o vulto já distincto da irmã de Maria Luiza.

Chamava para o almôço, que esperava por elles na mesa da hospedaria.


V

Tres dias depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do Monte escrevia Eduardo Valladares a sua mãe:

«Escuso de lhe dizer que me resenti da falta do carinho materno, da mudança de terra e de casa, da differença de costumes, de tudo isto finalmente que a gente conhece desde os primeiros annos da vida. Devo dizer-lhe, porém, minha mãe, que sahi da minha familia para encontrar outra familia que tambem é minha, e onde, para ser a felicidade completa, apenas me falta o livro sagrado do seu coração que eu sabia delettrear e comprehender.

«Da cidade—e não sei se para isto contribuirá o ter nascido aqui minha mãe—da cidade, que é em verdade pittoresca, dir-lhe-hei que não desgosto e que se me afigura melhor do que o Porto para se respirar ar saudavel e morrer a gente com uma gordura fradesca.

«A falta de movimento que se nota em Braga, procedente da exiguidade da população, é uma garantia de commodidade, longe de ser um defeito. Pode a gente dormir á vontade, até altas horas do dia, que não corre perigo d’accordar sobresaltada pelo estrepito das ruas. Só os sinos... Ai! os sinos de Braga, minha mãe, badalejam que é de qualquer pessoa ensurdecer dentro de quarenta e oito horas. Isso sim, que é horroroso!

«A esta praga dos sinos só acho comparavel em semsaboria a extensão das noites de Braga.

«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer de que não, estava no Porto. Quiz a avó convidar algumas familias das suas relações, cuido que para festejar a minha chegada, e passou-se o serão alegremente, mais alegremente do que era de esperar.

«Das senhoras que concorreram, apenas merecem especial menção as meninas Machados, que são muito estimaveis e sympathicas. Em companhia d’estas senhoras passamos o dia de domingo no Bom Jesus do Monte, a mais formosa paizagem que tenho visto em vida minha. Aquillo sim, que é bonito e suave! N’aquellas sombras deliciosas sente a gente abrir-se o coração para sentimentos novos. Minha mãe, que decerto alli viveu alguns dos dias da sua mocidade, deve comprehender que impressões dulcissimas recebi. Quando desci da montanha, vinha saudoso, preciso confessal-o. Saudoso de quê? Da montanha, que posso visitar quando me aprouver? Não sei Saudoso talvez d’umas horas agradaveis que lá vivi.

«E depois no Bom Jesus do Monte nem os homens andam embuçados em capotes, como na cidade, nem as senhoras espreitam os transeuntes a coberto das rotulas das janellas. Alli ha completa liberdade, principiando pelas aves que se desenfadam de tronco em tronco sem que ninguem as persiga.»

A carta do filho do bacharel Valladares merece-nos reparos.

Pelo que diz respeito ao seu estado moral, cumpre fazer notar estas phrases involuntariamente significativas:

«... para ser a felicidade completa, apenas me falta o livro santo do seu coração que eu sabia delettrear e comprehender.»

«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer de que não estava no Porto.»

«Das senhoras que concorreram, merecem especial menção as meninas Machados, que são muito estimaveis e sympathicas.»

Referindo-se ao Bom Jesus do Monte dissera Eduardo Valladares, como o leitor viu, que «n’aquellas sombras deliciosas sente a gente abrir-se o coração para sentimentos novos.»

Quereria elle dizer que a sua alma se estava enflorando para exuberantes primaveras e auroras ainda não conhecidas?

O futuro nol-o dirá.

No attinente á apreciação de Braga, corre-nos obrigação de lembrar ao leitor que o filho do bacharel Valladares escrevia n’um tempo em que Braga conservava ainda os biocos d’uma verdadeira provinciana.

Vão hoje, em pleno anno de 1870, visitar a capital do Minho e dir-me-hão se não enlevaram os olhos nas graças das damas bracharenses que passeiam a sua elegancia por entre os alegretes do campo de Sant’Anna.

Homens de capote só os ha lá... quando está frio, o que se me afigura uma prova irrecusavel do bom senso da população masculina d’aquellas paragens.

Diz um adagio «Deus dá o frio conforme a roupa». Quer-me parecer, porém, que seria muito mais verdadeiro e sensato dizer se «Deus deu a roupa por causa do frio.»

Quanto aos sinos, ainda em 1870, como então, são egualmente detestaveis os de Braga e os... do Porto.

Chateaubriand escreveu algures que o christianismo conseguiu dar suspiros ao bronze.

Sem querer desvirtuar a poetica idéa do auctor do Genio do Christianismo, sou a dizer que me não quer parecer «suspirar», um martelar continuo de toadas populares nos sinos das cidades. A musica das ruas invadiu a egreja.

Suspirar é o do sino da aldeia, que nos viu nascer, quando vibra sonoro ao pôr do sol, no meio da solidão.

Acceito de melhor sombra estas palavras do mesmo Chateaubriand no René:

«Tudo se encontra nas encantadas meditações que em nós desperta o sino natal: religião, familia, patria, o berço e o tumulo, o passado e o futuro.»


VI

Depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do Monte, Eduardo Valladares só a furto vira Maria Luiza ao declinar da tarde, durante nove dias.

Quando o sol inclinava para o occaso, sahia elle em direcção a Guadelupe. Ao passar na rua de Santo André, sempre os seus olhos se encontravam com os de Maria Luiza como por magnetismo. Seria um acaso? Quem diria a ella, da primeira vez, que elle ia passar? Amal-o-hia? Se o amava, se sentia que o ia amar, dizia-lhe uma voz interior que elle viria? Mas pareceu fital-o tranquilla, sem revelar um indicio de commoção... Não o amaria, zombaria de um sentimento celestialmente puro? Mas nem que o coração lhe estivesse adivinhando a hora a que elle viria! Nem um só dia deixaram de se ver...

Era a furto, é verdade; que o timido moço não sabia que impressões conservaria Maria Luiza do passeio ao Bom Jesus. Erguia o seu olhar para ella, e desviava-o subitamente...

Os versos, pensava elle, fôram pouco menos d’uma indiscreção. Quem lhe dera motivo para alimentar uma esperança? Ella, Maria Luiza? Que lhe dissera que deixasse entrever os primeiros clarões d’uma aurora? E todavia arriscara-se elle a escrever:

Eu, namorado e poeta,

Hei de ser a borboleta,

Tu a rosa; o mel, o amor...

Estas dúvidas alanceavam-lhe o espirito. Que devia fazer? Conformar-se com a incerteza, fugir á luz, áquella luz que o estava attrahindo, a elle, a mariposa dos dezeseis annos? Mas fugir-lhe era morrer, que se podia viver longe do ninho querido, do carinho materno, das recordações da sua infancia, era porque a tinha visto, era porque a tinha encontrado...

E—pensamento cruciante!—quem lhe dizia que ella era livre, que se não deixava embalar nas dulcissimas esperanças d’um amor feliz? Este pensamento infernava-lhe a alma e, n’esses momentos dolorosamente attribulados, lembrava-se de sua mãe, e parecia que o invocar o nome materno valia tanto como sentir calmarem-se as tempestades interiores.

N’aquella solidão de Guadelupe era que Eduardo Valladares gostava de se deixar atormentar por estas dúvidas queridas. Aquella agitação tinha alguma coisa de pungente e alguma coisa de deliciosa... E depois, alongando o olhar, via extender-se ao sopé de Guadelupe a rua de Santo André... E para o outro lado, ao nascente, avultava no horizonte a montanha do Bom Jesus onde tinha sentido os primeiros enlêvos, onde um anjo mysterioso, de azas brancas talvez, lhe segredara docemente uma palavra de esperança...

Era lá, onde a coma do arvoredo frondejava mais espessa, no alto da serra, que Maria Luiza lêra os seus versos, e parecia que a amenidade melancholica da floresta santa lhe entrava no coração... Seria aquella montanha o seu Gethesemani? O futuro era mudo. Na serra campeava a cruz, phanal salvador dos náufragos da existencia, e elle tinha ainda na memoria as doces orações que sua mãe lhe ensinara a balbuciar.

E as sombras da noite pareciam emergir d’entre o arvoredo, e serra, e floresta, e cruz desappareciam envôltas na escuridão.

Quando Eduardo Valladares descia de Guadelupe, era sempre noite cerrada; um unico pensamento o occupava—ver Maria Luiza no dia seguinte.


VII

Dez dias volvidos disse D. Maria Assumpção, de manhã, ao neto:

—Vamos hoje passar a noite a casa das Machados. É preciso fazeres-te homem. As mulheres é que vivem encerradas dentro de quatro paredes. Passas a manhã em casa a ler, e apenas saes de tarde um boccadinho! Onde vaes tu?

—Sento-me em Guadelupe e gosto d’aquelle sitio, respondeu Eduardo procurando ler a impressão da resposta no olhar da avó.

—É bonito... mas triste. Precisas de procurar relações e de afastar de ti uns ares improprios da tua edade. Domingo, havemos de tornar ao Bom Jesus. É preciso divertir e passear emquanto é tempo, rapaz, que o mez de outubro está ahi á porta e depois, cursando o lyceu, não tens remedio senão deitar-te aos livros.

—Estou preparado para isso e cuido que hei de saber corresponder á dedicação de meus avós.

—Assim deve ser. Põe o teu chapéo e vae sahir, anda, mysanthropo.

—Agora... estou tão bem em casa...

—O que tu quizeres, teimoso! Já te disse que depois de abertas as aulas hão de ser poucas as distracções.

—E não iremos mais ao Bom Jesus? ousou perguntar Eduardo.

—Iremos; menos vezes. Eu tambem gosto d’aquelle passeio, e sinto que me faz bem. Mas não se cifram no Bom Jesus os sitios bonitos dos arrabaldes. Has de gostar tambem das margens do Cávado.

—Mais que do Bom Jesus?

—Não sei.

—Ah! mais que do Bom Jesus acho que não posso gostar.

D. Maria d’Assumpção foi ter com o marido e disse-lhe:

—Este rapaz é magico, não quer sahir!

—Deixa-o lá, elle se aborrecerá d’estar em casa.

—Não é tanto assim, homem de Deus! É preciso distrahil-o, aconselhal-o com brandura, que é filho de nossa filha. Domingo havemos de tornar ao Bom Jesus.

—Mas que empenho tens tu em andar a passear o rapaz?

—Quero amenizar-lhe esta passagem repentina da vida em que foi creado para outra vida completamente nova. Depois, abrindo-se as aulas, é que eu não quero que elle passeie. Já lhe disse que, em chegando outubro, era preciso estudar como um homem.

—E elle que respondeu?

—Deu mostras de querer desempenhar cabalmente. Mas não comeces tu depois a opprimil-o demasiadamente com as tuas asperezas. Olha que o espirito, cansado do estudo, precisa d’um refrigerio.

—Livremol-o de relações estreitas com estudantes, que são, por via de regra, rapazes que vivem em liberdade pouco digna.

—Eis ahi por que me parecia que um namorito...

—Vocês, as mulheres, ligam-se tamanha importancia, que julgam que o render-vos preito é a suprema salvação de qualquer. O rapazinho se começar a desmandar-se torna pelo mesmo caminho por onde veiu. Tu sabes que eu não sou muito para graças. Este anno ha de acabar os preparatorios e para o anno ha de cursar o Seminario. Isto é se quizer; se não quizer, que volte para a companhia do pae.

—Mas tambem que proposito é esse de assentar com tamanha antecipação o destino do rapaz? Estás dominado do espirito religioso de Braga e achas que ser padre é caminhar proveitosamente pela estrada social em direcção ao Céo! Não sei como te não ordenaste?

—Temos em mim um exemplo da efficacia dos namoritos. Meu pae queria me ordenar, porque era meu amigo. Vi-te, comecei a desorientar me e casei...

—Olha que perdeste muito! Estavas agora arcebispo, pelo menos, se obtivesses absolvição, para os teus burguezes devaneios com a costureira do terceiro andar.

E como D. Maria d’Assumpção caminhasse para a porta da saleta, chamou a o marido com a brandura de quem deseja reconciliar-se: