E-text prepared by Pedro Saborano
Notas de transcrição:
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1893.
Foi mantida a grafia usada na edição original de 1893, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e que por isso não foram assinalados.
No original havia uma errata. Nesta edição corrigimos os erros ali apresentados, e marcámos as alterações, colocando o texto originalmente impresso em comentário como aqui.
ALBERTO PIMENTEL
Manhãs de Cascaes
Edictor
Livraria Ferin
Lisboa
ALBERTO PIMENTEL
Manhãs de Cascaes
1893
LIVRARIA FERIN
LISBOA
I
O primeiro mosquito
Chegou o inimigo.
Ouvi hontem o seu clarim vibrante resoar sobre a minha cabeça em som de guerra.
Era a guarda avançada do grande exercito alado do verão, hunos do ar que invadem os nossos quartos de cama zombando perfidamente de todas as nossas precauções e dilacerando-nos a carne com o seu pequenino áspide, agudo como um punhal.
—Ah! disse eu. É o primeiro mosquito que chega!
E estremeci de horror.
É que se ha animal n'este mundo que me incommode, que seja incompativel comigo, esse animal é o mosquito,—o pequeno mosquito, um dos mais sanguinarios inimigos da humanidade.[{6}]
Uma vez, em certa praia, um amigo meu mostrou-me o seu quarto, cujas paredes estavam revestidas de uma estranha pintura,—arabescos de sangue, o sangue da victima, o sangue d'elle, o desgraçado!
—Entram os mosquitos, dizia-me o meu pobre amigo, e roubam-me o que eu tenho menos, roubam-me o sangue. Eu, não podendo repellir a aggressão, porque essa praga de mosquitos vem aos centos, adoptei a estrategia de os deixar cevarem-se á vontade. Engordam e agiboiam-se, ficam obesos e inertes. Então sôa a hora da minha vingança, pego n'um sapato e atiro-me a elles como S. Thiago aos mouros. Pá! pá! sapatada para a direita, sapatada para a esquerda, aqui se esborracha um, ali se estampa outro, a parede salpicada de sangue parece um crivo, um mappa, e é assim que eu, durante um mez, tenho conseguido ornamentar o meu quarto com esta estranha decoração, arabescos de sangue roubado ás minhas proprias veias. O que está ali na parede sou eu, depois de ter atravessado pelo interior de um mosquito. Centenas d'elles me teem sugado, com o meu sangue teem vitalisado os seus orgãos sonoros, porque cada mosquito traz ás costas uma fanfarra estrondosa, que nos ensurdece com o tinido dos seus metaes. Tenho n'aquella parede o meu sangue, e tenho no meu corpo a minha anemia: o traço de união entre[{7}] aquillo, que é a parede, e isto, que sou eu, é o mosquito.
Ha banhista que prefere dormir na praia, sobre um banco de pau, ou mesmo sobre a areia, a dormir em casa sob a tyrannia dos mosquitos.
Um sujeito encontrei eu já, que, accordando de madrugada meio devorado pelos mosquitos, sahiu para o meio da rua,—com o resto do corpo que elles lhe tinham deixado de fartos.
Logo que amanheceu e a primeira tenda da praia se abriu, elle correu a escrever sobre o balcão a seguinte carta ao senhorio, que era um dos pescadores mais ricos da terra:
«Ill.mo sr. José Peixeiro:—Sendo v. s.ª um dos homens mais considerados d'esta localidade, regedor de facto e barão em perspectiva, muito me admira que commettesse a burla de arrendar a sua casa a duas familias ao mesmo tempo. Quando me entregou a chave da porta, fez-me suppôr que não havia lá dentro mais inquilinos. Com effeito, assim me quiz parecer quando entrei, porque a unica pessoa, e essa inoffensiva, que encontrei, foi o cavalleiro D. Fuas Roupinho a pique de despenhar-se do rochedo da Nazareth. É realmente um quadro muito bonito, que, longe de me incommodar, me deleitaria. Aposentei a minha familia, a minha[{8}] mulher e os meus filhos, e eu preferi para meu uso o quarto onde se acha o quadro do Milagre da Nazareth, porque sou amador, e falla-se mesmo em mim para inspector da Academia de Bellas Artes. Deitamo-nos. Eis senão quando, outra familia de inquilinos surge como por encantamento. Primeiro appareceu o pae, depois a mãe, depois os meninos, depois as meninas, depois os meninos dos meninos, depois as meninas das meninas, depois os bisnetos, depois os tresnetos, depois os tetranetos, uma alluvião de individuos, uma phalange, um exercito e, sem respeito nenhum pelo nosso somno, começaram a conversar em voz alta, o pae com a mãe, os manos com as manas, os tios com os sobrinhos, os primos com as primas. Calei-me a vêr no que aquillo parava. Mas não parou. Depois toda essa magna caterva teve vontade de ceiar, foi á dispensa, foi á cosinha, e como não encontrasse nada para comer, resolveu comer a minha familia inteira. Participo-lhe, pois, que estamos comidos,—duas vezes: pelo senhor e por elles, os outros inquilinos do meu predio. Resolvi portanto mudar de casa para um banco da praia, que está á sua disposição, se nos quizer dar a honra da sua visita. Quanto á sua casa, ahi lhe mando as chaves, para que o sr. vá lá dormir esta noite com a sua familia, a fim de verificar se as minhas informações são verdadeiras ou não.»[{9}]
O sr. José Peixeiro respondeu immediatamente:
«Lá irei á noite vêr essa pouca vergonha, e se fôr como diz eu cá estou para obrar como regedor.»
Então o pobre queixoso julgou dever prestar mais um esclarecimento importante á digna auctoridade parochial:
«Ill.mo sr. José Peixeiro.—Tenho por conveniente informal-o de que na minha carta anterior faltou um note bene, que vae agora.
Os inquilinos a que me refiro são os mosquitos.
Supponho que esta informação ha de aproveitar á sua perspicacia.»
José Peixeiro deu-se pressa em enviar a seguinte replica:
«A minha casa é a melhor da villa, e tem sido sempre habitada por pessoas de importancia. Eu, no resto do anno, vivo lá. E tanto eu como minha senhora temos gosado saude; a unica doença que a minha senhora lá tem tido foi um parto. Eu, nem isso; sou são como um pêro. Mosquitos e moscas em toda a parte os ha; a mim ainda me incommodam mais as moscas do[{10}] que os mosquitos. O anno passado, o sr. visconde do Pecegueiro veiu a morrer para a minha casa, e foi-se embora tão bom, que até o meu compadre barbeiro, que tem pilheria, disse que elle ainda ia capaz de dar pecegos. Mas para não se incommodar com os mosquitos inventou o systema de dormir de caraça e de luvas. Faça o senhor outro tanto, e não dê importancia aos trombeteiros.»
Ah! caro leitor, aviso-o para que se acautele, visto que já fui atacado pelo primeiro mosquito d'este verão: compre caraça e luvas como o visconde do Pecegueiro.
Oh! o primeiro mosquito! Que horror![{11}]
II
A comedia das praias
De manhã cedo, na praia, todos parecem ter ainda o olhar vidrado, estupido, de quem acaba de accordar.
Olham uns para os outros com certa surpreza spasmodica, achando-se feios.
Defeitos que durante o dia chegam a passar despercebidos, avultam: foi n'uma praia que eu descobri que certa dama, aliás formosa, tinha uma orelha maior que a outra... de manhã!
Dar-se-ia o caso que, depois de feita a toilette, a orelha mais pequena crescesse ou a maior diminuisse?
Certamente que não. Mas diante do espelho, com vagar, um geito dado ao cabello, artisticamente, encobria o defeito da orelha. O ferro de frisar salvava a situação: a madeixa, que elle fazia descer, salvava a orelha, que a natureza fizera subir.[{12}]
*
* *
Em questões de toilette, o meio termo não é admissivel: ou tudo ou nada. Ou a toilette esplendida ou... a estatua. Eva, depois do peccado original, faz-nos rir vestida de folhas de figueira. Ora o fato de banho é o meio termo: a folha de figueira. Para vestir... é pouco; para despir... é muito.
Ha porém uma coisa peior do que vestir um fato de banho: é querer sophismal-o.
Certas damas, quando chegam á praia, conseguem dar na vista pela perfeição plastica das suas curvas. Ao entrar na agua, vestidas para o banho, perdem as curvas. Não perderam; deixaram-n'as na barraca. Este sophisma deploravel revela a carencia de um bom argumento. Argumento ou augmento. O eufemismo é o mesmo. Mas só a praia consegue revelar um segredo, de que, quando muito, apenas se suspeitava...
*
* *
Andam pessoas a enganar-nos durante onze mezes em cada anno.
Suppomol-as polidas, eruditas, francas, estimaveis.
Em Lisboa, quando as encontravamos na rua,[{13}] trocavam comnosco um shake-hand, tinham um dito amavel ou sentencioso, pareciam-nos cordealmente expansivas.
Nas praias, á sombra de um chalet ou de uma arvore, durante duas horas de conversação, desmascaram-se. Dia a dia, podemos fazer o inventario das suas idéas, dos seus sentimentos, das suas opiniões. E, ao cabo de um mez de estação balnear, averiguamos que:
Fulano, que vae á missa em Lisboa, não crê em Deus.
Sicrano, que tinha fóros de erudito, apenas lê a Revista dos dois mundos.
Beltrano, que parecia fallar-nos com o coração nas mãos, não fazia outra coisa senão metter-nos os pés nas algibeiras.
*
* *
Em Lisboa, accusa-se o Gremio e a Havaneza de terem má lingua.
Pobre Havaneza! pobre Gremio! pagam as favas injustamente.
A maledicencia habitual d'esses dois pontos, de reunião tem apenas um caracter pessoal. Eu explico. Ordinariamente, falla-se só do sujeito que passou ou do sujeito que saiu.
A maledicencia das praias estende-se á geração, chega ao pae, passa ao avô, alcança ás vezes o bisavó. É retrospectiva. Por exemplo:[{14}]
—Quem é aquelle sujeito que vem acolá?
—Pois não conhece! É fulano.
—Não conheço.
—Ha de lembrar-se com certeza do caso da herança do Gutierres. Foi muito fallado.
—Lembro-me, sim.
—Pois este é que falsificou o testamento.
—Este! E anda vestido de branco,—como as virgens!
—É de familia...
—O fato branco?
—Não. A alma negra. O pae foi negreiro.
—Já vem mais de traz, isso.
—Por quê?
—O avô enriqueceu no tempo dos francezes, dando assalto ás casas dos visinhos que tinham fugido.
O sujeito aproxima-se, dois ou tres levantam-se para abraçal-o; mas a esse tempo, que foi pouco, já lhe está desenterrada a familia até ao avô.
O vagar faz colhéres, diz o povo. Nas praias, o vagar faz exhumações tremendas. Não ha bisavô que esteja seguro na sepultura.
*
* *
Na comedia das praias, as moscas teem um papel importante. Em Lisboa, para se dar importancia a uma mosca, é preciso que ella haja[{15}] sido audaciosa até o ponto de escolher para suicidar-se o nosso prato de sopa. De resto, em Lisboa, as moscas morrem, mas, nas praias, as moscas matam. Teem dentes; são carnivoras. Mordem, perseguem, endoidecem a gente. Desforram-se da ociosidade de um anno inteiro, esperam famintas pelos banhistas, e, depois de os morder, zumbem e zombam, parecem rir de troça umas com as outras.
Só nas praias é que o europeu consegue ser victima das moscas. E fallarmos nós com horror das moscas de Africa! As moscas saloias são muito peiores!
*
* *
Em Lisboa, os criados passam ás vezes um anno inteiro sem partir loiça.
Mas, chegando ás praias, os seus dedos parecem debeis como vimes. Quebram hoje um copo, ámanhã um prato, escacam, em quinze dias, metade da loiça do senhorio.
Encontrei uma vez, n'uma praia, certa dama, que andava afflictissima de loja em loja, procurando alguma coisa, que lhe dava grande cuidado.
—Imagine, disse-me ella, que o meu criado quebrou hontem uma chavena!
—É vulgar.[{16}]
—Quebrar é vulgar; mas a chavena é que o não era.
—Como assim?!
—Quando eu vim, a senhoria disse-me: «Peço a v. ex.ª todo o cuidado com esta chavena, que era a chavena do papá.»
—Como o sabre da Grã-duqueza!
—Isso. Ninguem se servia d'aquella chavena gloriosa, nenhum de nós tinha ousado mandal-a tirar do guarda-loiça. Mas o meu criado ousou limpal-a hoje, e quebrou-a. Aqui ando eu agora afflicta á procura de uma chavena, que possa continuar a ser, na tradição da casa, a chavena do papá!
*
* *
Nada ha que me dê tanto a impressão do communismo como um club de praia.
É de todos, sem pertencer a ninguem.
Cada um que vem chegando pensa que o club é seu. A primeira cousa de que se apossa é... o piano. O piano passa a ser, não um instrumento de musica, mas um escravo. Submisso, paciente, resignado, obedece como um negro, cujos dentes são muito brancos... Açoutam-n'o com as mãos, e não protesta; dão-lhe pontapés no pedal, e não se desconjunta. Familias inteiras vão affirmar no teclado os seus direitos de socio. A mãe toca a Norma, que é uma opera[{17}] do seu tempo, a filha perpetra a Carmen; o filho executa os Fados—com a mão direita.
O pae agarra-se aos jornaes e parece resolvido a não deixal-os lêr por mais ninguem.
As primeiras senhoras que á noite chegam ao club parecem tomar gosto á grandeza da sala...
O seu desejo seria talvez que as outras, mais retardatarias, ficassem á porta a contemplal-as... de longe.
Mas, como isso não acontece, as que já estão de posse da sala, preparam-se para o ataque, assestam as suas baterias.
É o lorgnon...
É o sorriso sardonico...
É o ditinho picante...
Tudo isto entra em fogo ao mesmo tempo.
Depois, as que acabam de chegar, fazem causa commum com as que já tinham chegado e, preparadas para o combate, ficam á espera das que hão de chegar ainda...
*
* *
Ha sempre nas praias uma menina que recita.
De pé, quasi sempre vestida de branco, recita versos azues. Quero dizer, versos ethereamente[{18}] romanticos. Em quanto ella recita, a mãe põe os olhos no chão. As outras senhoras põem o leque diante da cara.
Algumas vezes, a menina engana-se, falta-lhe a memoria. Nem para traz nem para deante.
Então lança mão de um recurso supremo: desmaia.
—Um medico! Não está ahi um medico?
N'uma praia estão sempre quatro medicos, pelo menos.
Vem um.
—Isto não é nada, passa já.
Mas o irmão mais novo da menina desmaiada foi, a correr, buscar a casa o Almanach das Senhoras.
E, reanimada por este auxilio, a menina continua a recitação, ficando o irmão mais novo mettido atraz do piano,—servindo de ponto á mana.
*
* *
Tambem ha sempre uma menina que tem album.
Pede, a torto e a direito, uns versos, um desenho, uma melodia.
Póde imaginar-se o valor do album dizendo que são os poetas que desenham, são os pintores que fazem versos, são os que sabem fazer[{19}] desenhos ou versos que escrevem a melodia.
Em conclusão: ninguem quer perder n'um album o melhor do seu talento...[{20}]
III
N'uma praia solitaria
Um amigo meu, que se acha n'uma praia do norte do paiz, certamente das menos conhecidas e frequentadas, acaba de descrever-me n'uma carta a maneira como alli tem vivido desde os ultimos dias de julho.
Quando chegou, apenas encontrou já installado um outro banhista, que desde logo se constituiu seu companheiro inseparavel, comquanto então se vissem pela primeira vez.
O meu amigo é de Lisboa, o outro reside actualmente no Alto Minho. Foi o acaso que os reuniu pela identidade de destinos, como dois náufragos desconhecidos que se encontrassem agarrados á mesma tabua de salvação ou perdidos na mesma ilha deserta.
Começaram por tirar cerimoniosamente o chapeu um ao outro, mas ao cabo de duas horas[{21}] de convivencia tratavam-se por tu,—intimamente.
A ilha deserta em que se encontraram era a unica loja importante da praia,—uma loja onde se vende tudo o que uma pessoa póde desejar em qualquer momento.
Supponhamos que um Lucullo extraviado chegava alli e pedia champagne.
Encostando-se ao balcão, perguntaria:
—Tem champagne?
—Tenho, sim, senhor.
E abrindo um armario mysterioso, cheio de retortas, alambiques, garrafas e garrafões, o dono do estabelecimento demorar-se-ia um instante operando chimicamente.
Passada meia hora, quando muito, apresentaria uma garrafa de champagne, feito talvez de petroleo, talvez de azeite, talvez de vinagre: composição sua.
O freguez poderia extranhar que a garrafa não tivesse capsula de chumbo, mas apenas uma velha rolha porosa.
O dono do estabelecimento responder-lhe-ia imperturbavelmente:
—É verdade isso, mas eu preoccupo-me mais com a qualidade dos meus vinhos do que com a apparencia das garrafas.
Lucullo, sentado á sua mesa de familia, provaria o champagne, e ficaria por ahi, a não ser que quizesse envenenar-se.[{22}]
Mas, para não ser o unico a cahir no logro, calar-se-ia e, para rir um pouco, aconselharia a toda a gente que fosse comprar o bello champagne da loja do Elephante azul.
Ora é justamente o discreto silencio dos freguezes, que querem ter companheiros na desgraça (solatium est miseris, etc.), que explica a grande clientella que tem, principalmente na epocha de banhos, a loja do Elephante azul.
Foi, pois, n'essa ilha deserta, deserta antes do mez de setembro, o melhor n'aquella remota praia, que os dois solitarios banhistas se encontraram, e principiaram a tratar-se por tu, duas horas depois de se terem visto pela primeira vez.
—Mas então, perguntava o meu amigo, não costuma vir mais gente para aqui?
—Sim, senhor, respondia o dono do Elephante azul, no mez de setembro é tanta a concorrencia, que eu costumo vender todo o champagne, toda a cerveja, toda a genebra que fabrico.
E o outro, que já lá estava a banhos, observava:
—Em setembro, será assim. Mas desde o dia 20 de julho, em que cheguei, até hoje, apenas eu só tenho tido a honra de despertar as attenções dos pescadores. No primeiro dia olharam para mim com surpreza, e nos dias seguintes com espanto.[{23}]
—Como assim?!
—Espanto de que eu, encontrando-me sosinho, continuasse a ficar...
—Mas agora somos já dois!
—Agora seremos um, in carne una, porque eu já te não largo, amigo da minha alma! até que em setembro chegue mais gente. Tu foste a minha tabua de salvação, ó inesperado e dilecto amigo!
—O que direi eu então de ti, que me proporcionaste occasião de ter com quem fallar da crise monetaria e do caso das Trinas! Feliz de mim, que te encontrei, e de ti que me encontraste! Gloria a Deus nas alturas, e paz na terra... a dois homens!
—Imagina, porém, que, por nos exaltarmos em qualquer discussão, tinhamos de ficar de mal um com o outro?
—Era o mesmo que romper com toda a humanidade!
—Mas o que farias tu?
—Eu?! Eu ficaria de bem comtigo até que, chegando setembro, podesse encontrar dois padrinhos para te mandar desafiar...
Começou agosto, e por mais que os dois amigos espreitassem para dentro de todas as diligencias que se fazem annunciar ao som de estridulas campainhas, não viam chegar ninguem.
—Então para que servem as diligencias? perguntava um.[{24}]
—Servem para alimentar a tradição de viajar, respondia o outro.
O dono do Elephante azul dizia do lado:
—Em setembro vêem cheias de gente. Ás vezes trazem dezeseis pessoas em oito logares.
—Mas não seria melhor que essas pessoas viessem a pouco e pouco, cada uma em seu logar?
—Não, senhor. Porque então, replicava o dono do Elephante azul, por muita gente que viesse, não se sentiria tanto.
Os dois amigos tinham já esgotado todo o reportorio das suas opiniões.
—O que pensas tu, caro amigo, a respeito do caso das Trinas?
—Já to disse hontem.
—E a respeito da crise monetaria?
—Já t'o disse ante hontem.
—É verdade! Por signal que te repetiste. Tambem já m'o tinhas dito no dia em que eu cheguei...
O que mais os aborrecia era não poderem encontrar um terceiro parceiro para o voltarete.
Haviam já perguntado ao dono do Elephante azul:
—Sabe o voltarete?
—Não, sr. Sei fazer champagne, sei fazer cognac, sei fabricar cerveja, só não sei jogar o voltarete!
—Porque não trata de o aprender?[{25}]
—Não vale a pena: não é coisa que se venda.
No dia 8 de agosto, por volta do meio dia, qual não foi a surpreza dos dois amigos quando, encostados á porta de Elephante azul, viram chegar uma carruagem com um passageiro dentro.
—Eureka! gritou um.
—Apaga a lanterna de Diogenes! exclamou o outro.
O passageiro apeiou-se do trem e, sem entrar na loja do Elephante azul, seguiu para o interior da villa.
—Vae installar-se, disse um.
—Vae, e não tarda ahi, á procura dos unicos dois homens que n'este momento lhe podem ser agradaveis.
O dono do Elephante azul, tendo vindo á porta examinar o recem-chegado, observou:
—Não é cara conhecida. Nunca veiu cá.
—Podera! Se já conhecesse a praia, não vinha senão em setembro.
Ficaram os dois conversando, mas o homem não appareceu.
—Onde se metteria elle?
—Naturalmente, disse o dono do Elephante azul, anda procurando casa.
—Se fosse só isso, já a teria encontrado. É mais provavel que ande procurando gente...
Cerca das trez horas da tarde, tornou a apparecer a carruagem, mas vasia.
O caso ia tendo as proporções de um mysterio.[{26}]
—O homem suicidou-se!
—Qual! Anda perdido nas ruas, e não encontra ninguem para lhe ensinar o caminho.
Finalmente, o homem appareceu.
Entrou no Elephante azul para comprar cigarros.
Os dois banhistas crivaram-n'o logo de perguntas.
—V. ex.ª vem para cá?
—Não, sr.
Os dois olharam-se com dolorosa surpreza.
—Então não vem para cá? insistiu não sei qual d'elles.
—Vim justamente fazer o contrario.
—Mas... não percebo!
—Vim dizer que não vinha para cá.
—Nem mesmo em setembro?
—Nem mesmo... nunca. Tenho ahi um parente que me esperava, e vim dizer-lhe que não contasse commigo.
—Mas isto é muito bonito... em setembro!
—Será. Eu tenho informações que me levam a pensar o contrario.
—Pois que! Nem sequer tenta fazer uma experiencia!
—Não, sr. Um amigo meu veiu uma vez em agosto, e esperou até setembro que viesse gente. Mas em setembro achou-se ainda mais só, porque morreu de bexigas o unico banhista que lhe podia fazer companhia.[{27}]
—N'esse caso vae-se embora?
—Vou já, respondeu o sujeito pagando os cigarros.
Já elle ia a dirigir-se para o trem, quando um dos dois se lembrou de gritar:
—Ó sr. Mendonça!
O sujeito não fez caso.
—Ó sr. Andrade!
O sujeito dispunha-se a entrar no trem.
—Ó sr. Mattos!
O sujeito voltou-se rapidamente.
—Ah! já sei que se chama Mattos!... tem a bondade de nos dar uma palavra?
O sujeito, que já tinha um pé no estribo, veiu ao encontro dos dois.
—Sabe o sr. Mattos, disse um, o que nós estamos resolvidos a fazer?
O meu amigo olhava para o companheiro de desgraça sem poder adivinhar a sua intenção.
—Não sei, mas v ex.as terão a bondade de dizer.
—Pois bem, sr. Mattos! Vae sabel-o
E agarrou-o pelas lapellas do frak.
—O sr. está preso.
—Preso?! Porque?!
Então o meu amigo sentiu-se illuminado. Adivinhou tudo.
E deitando as mãos aos hombros do homem, gritou por sua vez:
—Preso... sim, sr.![{28}]
—Mas que crime fiz eu?
—Não se trata de um crime, nem precisamente de uma prisão.
—Mas, se não se trata de uma prisão, porque é que me prendem!?
—Fica apenas detido. Segundo o codigo, é differente.
—Sómente detido. O codigo estabelece a differença.
—Preso ou detido! disse o homem. Mas porque? Para que?
—Detido ou preso... Preso para banhista.
—Mas eu não quero tomar banhos!
—Pois não tome, mas fica preso para banhista.
—Preso não, observou o meu amigo. É bom não confundir as palavras. O sr. Mattos fica apenas detido até setembro... emquanto não vem mais gente.
—Mas que proveito tiram d'ahi os srs.?... perguntou o Mattos.
—O proveito de sermos trez.
—Trez para tudo: trez para o cavaco, trez para o voltarete, trez para o banho, trez para o Elephante azul.
—Mas eu não sei o voltarete!
—Pouco importa. O que se quer é que o jogue.
—Para jogal-o é preciso aprendel-o.
—Isso não é inteiramente verdade... Mas,[{29}] dado o caso que seja verdade, até setembro tem o sr. Mattos muito tempo para aprender a jogar o voltarete.
O meu amigo termina a carta dizendo:
—«Cá temos o homem preso, e bem vigiado. Á noite fechamos-lhe a porta, e levamos a chave para casa. Uma noite, para lhe suavisarmos o captiveiro, resolvemos perder ao voltarete. E assim é que conseguimos ser trez! Mas, para vêr se vem mais gente, mandamos dizer nos jornaes do Porto que a praia está muito animada, e que em setembro serão poucas as casas para os banhistas que se esperam. Vê lá se dizes isso tambem nos jornaes de Lisboa...»[{30}]
IV
Os frequentadores das praias
Escolhamos alguns dos typos que avultam na galeria das praias, para fixarmos n'elles a nossa attenção por um momento.
O fallador—É o discursador de cada praia, o homem que conta anecdotas e que sabe da vida alheia. Tem corda para toda a época balnear. Levanta-se pela manhã a fallar, vai conversar para a praia dos banhos logo que se levanta, e á noite é o ultimo a sair do club.
—Meus amigos, diz elle, alli na Arruda aconteceu-me uma vez uma partida de estalo. Imaginem que um rapaz do meu tempo, vendo-me apeiar da diligencia, se lembrou de dizer aos da terra que eu era o homem mais rico de Portugal. D'alli a pouco choviam-me no hotel memoriaes, requerimentos, bilhetes de visita. Um tal foi propôr-me um negocio que devia render cincoenta por cento. Outro queria vender-me[{31}] uma quinta phylloxerada. E um pai de familia pretendia que eu lhe desposasse a filha... no caso de ser solteiro. Via-me embaraçado com tantos pedidos e propostas. De modo que tive de escrever para um meu amigo de Lisboa pedindo-lhe que me dissesse em telegramma; «Falliu Rio Janeiro casa Antunes & C.ª Paciencia e resignação.»
Eu li este telegramma na botica da terra, onde me foi entregue, e exclamei fingindo desmaiar: «Estou arruinado!»
Acreditaram. Nunca mais ninguem me procurou para saber a resposta que eu daria aos memoriaes e aos requerimentos.
D'alli a instantes:
—Em Maçãs de D. Maria tambem me aconteceu um caso muito ratão. Eu tinha ido lá para arrematar uma quinta, que devia ir á praça n'esse dia. Mas, por qualquer motivo, não se realisou a arrematação. Logo souberam, porém, ao que eu ia. Á noite, armaram um bailarico, e convidaram-me para assistir. Houve descantes em minha honra. Mas no dia seguinte, realisava-se a festa de um santo qualquer e vieram dizer-me que eu tinha de pagar a missa e o sermão, porque era costume da terra que toda a pessoa que alli fosse pela primeira vez, e recebesse a honra de um bailarico, fizesse á sua custa a festa d'aquelle santo.
No club, á noite:[{32}]
—Uma vez, na Narazeth, lembramo-nos de ir todos para o club vestidos com o fato do banho. Imaginem que risota?!
—Mas as senhoras? O que disseram as senhoras a isso? pergunta alguem, do lado.
O fallador não se atrapalha:
—Ah! as senhoras não foram n'essa noite ao club...
O silencioso—Ouve tudo calado, mascando no seu charuto. Não aventa uma ideia, não arrisca uma opinião. Não quer conhecer ninguem. Os outros banhistas que se riem do fallador, riem-se igualmente do silencioso. Ao cabo de vinte dias de praia, o silencioso aventura-se a proferir uma palavra ou duas. Em vez de levar apenas a mão ao chapeu, rompe neste excesso de eloquencia: «Muito bons dias» ou «Muito boas noites». Cinco dias depois, já cumprimenta um ou outro pelo seu nome. E no fim do mez, quando parecia resolvido a fallar, vae-se embora!
Uma vez, n'uma praia, appareceu um silencioso d'estes. Havia um fallador, que embirrava muito com elle. Era natural.
—Eu hei de obrigar a fallar este diabo...
Fazia-lhe uma pergunta, e o homem contentava-se com encolher os hombros.
—Não importa! Eu hei de obrigar a fallar este diabo... dizia o fallador assim que o silencioso voltava costas.[{33}]
—O cavalheiro toma banhos?
O silencioso meneiava affirmativamente ou negativamente a cabeça.
Desesperado, o fallador, estando certo dia a contar uma das suas muitas historias, fingiu-se distraido, e pisou o outro.
—Que bruto! exclamou o silencioso.
—Mas... fallou! gritou cheio de jubilo o fallador.
O generoso—Vá, rapazes, lembrem-se vocês d'alguma festa, e contem commigo. Póde-se tirar partido de tanta coisa! Querem um arraial? Eu dou o fogo de vistas. Querem uma reg ata? Eu dou os premios. Querem uma burricada? Eu dou os burros.
—Não os ha, diz alguem, do lado.
—Qual não ha! Tudo são difficuldades! Já não ha rapazes!...
—O que não ha são burros.
—Burros! ha sim, sr. Eu encarrego-me de os mandar vir pelo caminho de ferro ou, se tanto fôr preciso, pelo telegrapho. Onde ha dinheiro, ha tudo.
O sovina—Andam ahi a fazer uma subscripção? Tem graça! Quem encommendou o sermão, que o pague. Eu nunca na minha vida dei dez réis para divertir os outros. Pelo contrario, o que eu quero é que os outros me divirtam a mim. Agora uma soirée! Não vou a parte nenhuma para tomar chá. Tomo-o em minha casa[{34}] quando quero. De mais a mais uma soirée com bolos saloios, que quebram os dentes á gente! E chá de herva cidreira ainda por cima! No chá não se admitte meio termo: ou bom ou nada. Eu não gosto senão do Hyson. E depois dá cá dez tostões! Ora que tal está a maroteira! Queriam dançar? Dançassem a sêcco. Quanto mais leve se está, melhor se dança!
O pai extremoso—É a primeira vez que o cavalheiro vem a esta praia?
—Sim, sr.; é a primeira vez.
—Então hade conhecer poucas senhoras?
—Muito poucas.
—É uma contrariedade para quem gosta de dançar. O cavalheiro dança?
—Gosto muito.
—Pois bem, esta noite queira procurar-me no club, que eu o apresentarei a tres ou quatro senhoras.
—Oh! mil vezes obrigado.
—Se me não custa nada!
Á noite, no club, o pai extremoso procede ás promettidas apresentações.
—Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Engracia.
E passando em claro apenas uma cadeira:
—Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Cecilia.
E duas cadeiras mais adeante:[{35}]
—Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Conceição.
Depois, filando o apresentado pela lapella do frack:
—Agora já o cavalheiro tem muito com quem dançar. Para o caso, porém, de querer variar um pouco, apresento-lhe ainda a minha Mimi, que tem apenas nove annos, mas que gosta muito de dançar. Aprendeu com o Justino Soares, e elle disse-me quando viemos para cá: «Esta menina ha de vir a dançar ainda melhor que as irmãs!»
O pai indiferente.—Passo.
O filho mais novo, chegando-se ao pé da mesa do voltarete:
—Manda dizer a mamã se faz favor de ir á sala para arranjar um par para a mana. Ella ainda não dançou.
—Diz á mamã que vou já.
D'ahi a pouco volta o pequeno:
—Faz favor de lá ir, que se vai dançar uma quadrilha.