ALBINO FORJAZ DE SAMPAYO


Crónicas
imorais

«O que melhor se ria será

o último a rir-se.»

F. Nietzsche.

3.º MILHAR

Editores—SANTOS & VIEIRA
EMPREZA LITTERARIA FLUMINENSE
125, Rua dos Retrozeiros, 125
LISBOA

CRÓNICAS IMORAIS

Editores—SANTOS & VIEIRA—LISBOA
Typ. da Empreza Litteraria e Typogr.
(Officinas movidas a electricidade)
R. Elias Garcia, 184 Porto MCMXV

OBRAS DO MESMO AUTOR:

PALAVRAS CÍNICAS, 7.º milhar 1 volume
LISBOA TRÁGICA, 4.º milhar 1 »
PROSA VIL, 2.º milhar 1 »
GENTE DA RUA, 3.º milhar 1 »

No prelo:

GRILHETAS 1 »

ALBINO FORJAZ DE SAMPAYO


Crónicas
imorais

«O que melhor se ria será

o último a rir-se».

F. Nietzsche.

3.º MILHAR

EDITORES—Santos & Vieira
EMPREZA LITTERARIA FLUMINENSE
125, Rua dos Retrozeiros, 125
LISBOA

AO
DR. BRITO CAMACHO

Crónicas imorais

Os artigos, crónicas ou antes as impressões que hoje se reúnem em volume são já do domínio público. Todavia devo declarar que não foi nele que pensei, quando as escrevi. Os quatro géneros de criaturas que há no mundo, «criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis, como as pedras», como quere Vieira, só mediocremente me interessam. Publicam-se hoje porque isso me apraz, e se são más ou boas, tal não me fará doer a cabeça. Nunca mais as lerei. São cousas que passaram, notas à margem dum acontecimento, comentários a uma leitura, impressões de momento, fumo, cinza, terra, nada. Viveram um dia. Hoje reúne-as um certo egoismo. Vivi com elas. Acharia a algumas, se as voltasse a ler, uma ingenuidade primitiva; a outras uma piada estupenda. Pensadas e escritas à hora em que o chefe da tipografia vem pedir original, só para mim terão valor. No emtanto marcam cousas curiosas e são um depoimento pessoal não falho de interêsse. Umas são indignadas, outras biliosas, algumas pândegas. Não admira. Filhas do momento que as inspirou, devem tambêm ter o seu grão de incoerência, de petulância, de atrevimento. Que importa? Não as renego. Chamei-lhes imorais, porque algumas tiveram o condão de irritar muita gente boa, que ainda tem moral. Ah! abjecta gente a que ainda tem moral! Muitas mereceram acres censuras e outras ainda despertaram louvores. As que despertaram louvores tive o cuidado de não as juntar aqui. Devem ser más por fôrça.

Vivendo a vida do jornal, perdendo-se no arquivo do esquecimento que o jornal é, em pouco tempo estariam esquecidas. Em livro, não será mais longa a sua vida, mas sempre o entêrro é melhor engendrado. Imorais disse eu. Imorais sim porque quási sempre estão em desacôrdo com a moral do meu parceiro. Que devo confessar-lhes, não me dou nada bem com os que estão de acôrdo. Quem está de acôrdo não sabe ter razão. Porque a razão não é dos que a teem, é dos que teem talento para a ter. Devo tambêm confessar-lhes, que estas crónicas são inofensivas. A ninguêm fazem mal. Não passam dum bom riso, um grande riso. Tolice seria tomar tudo isto a sério. O mundo é uma espécie de revista e quem se mata morre cedo. Se alguma vez, leitor, te interessares, olha que tudo isto é ilusão. Não vale a pena, em verdade te digo. Ilusão, ilusão sómente. A comoção, a ironia, o riso, a tristeza, tudo isto que vês reunido, tudo isto, não é mais do que cousas que já passaram, recordações, notas breves, leves apontamentos, terra, pó, nada, cinza.

E não se comovam que se acaba o prólogo.

Juízo do ano

O ano que começou ontem será um ano igual aos outros. Igual, sem tirar nem pôr. Haverá nele, como já houve o ano passado, como houve em todos os anos que passaram e como haverá em todos os anos que vierem, tolos que enriquecem e tolos que cavam pés de burro, asnos que se suicidam e asnos que acham isto uma cousa óptima. Continuará a haver uma ignorância formidável da multidão dominada e uma patifaria criminosa da minoria dominante; continuará a haver homens cavalos e homens cavaleiros; sábios que são burros e burros que são sábios; muita maldade nas mulheres—a maldade nas mulheres é um pleonasmo!—e muita estultícia nos homens. Haverá côres para todos os gostos, acepipes para todos os paladares e partidos para todos os cidadãos. Não sucederá nada de novo, porque nada é novo debaixo do sol, diz a voz grave do vélho Eclesiastes, um mágico que sabia muito mais da patifaria humana do que o snr. Civinini das mulheres que usam bigode e pêra.

O novo ano será um ano feliz para quem jogar e lhe sair «el prémio gordo». Para os que joguem e lhes sair branco será um ano de azar.

Quem trabucar, manduca, a não ser que perca o apetite. Quanto ao resto, o que êste ano será, é fácil de adivinhar.

Para os tolos, uma felicidade, porque êsses banabóias são felizes todos os dias; para os que não sejam, nem eu mesmo sei.

Quanto ao ano artístico, será deplorável, porque o que terá menos é arte, e de artistas nem sombra. Haverá vários quadros assinados por estes e aqueles fulanos. Se é paisagem, já sabemos o que é: «Macieira em flor», «Um trecho da Tapada» ou a «Ribeira de Algés». Se é retrato, um cavalheiro ou uma cavalheira de cara lambuza e desconfiada, olhos de goraz do vapor, ou então um ar bonacho de quem diz à gente: «Então que tal? como passou? estou catita, heim?»

Em arquitectura, continuarão a aparecer projectos... do Palácio da Justiça, de várias saladas de cal e areia para projecto ou para habitar, e de «artes várias».

Os nossos escultores continuarão fazendo Senhoras da Conceição, cruzes para jazigos, e «muchas cosas más» dum «salero» infinito.

Das finanças: «finanças se chamam as rendas públicas quando Portugal está a finar-se». É de Camilo o dito. Das finanças dizia eu... mas em finanças não sou muito forte. Adiante.

O ano literário... Continuará a haver literatura, literatos vulgares de Linneu, literatos abezelgados e chués, porque, irmãos caríssimos, «todo o homem tem em si uma porção de inépcia, que há de sair em prosa ou verso, em palavras ou obras, como o carnicão dum furúnculo». Homens de génio não haverá, mas em compensação abundosos se prognostica os homens de génio mau ou de bom génio, porque cada um é como o pai o fêz. A crítica continuará a ser como foi sempre: De mostarda, de manteiga, e de àgua e sal.

E, tenho dito.

Quanto a ti, leitor molesto, eu não tiro o teu horóscopo nem te leio as ruins tenções de que porventura estejas cheio. Mas é sempre bom conversar, uma conversa de amigos vélhos e inseparáveis. Não sei se és rico, se pobre, se alto, se baixo. Se rico, guarda a bôlsa que não preciso dela; se pobre, tem paciência porque não te posso valer.

Dito isto, em verdade te digo que tens um ano diante de ti. Emprega-o bem. Lê a vida do bom homem Ricardo, regula as tuas digestões, não tenhas excessos e deita-te cedo. A isto se chama em bom português fazer pela vida.

Faze pois pela vida. Lembra-te que «os mortos caem fácilmente no olvido», como dizia Bürger na balada de Leonora, traduzida por êsse tristonho Gerard de Nerval que se enforcou num candieiro da Rue Vieille-Lanterne, numa manhã gelada de janeiro em que um corvo, que parecia fugido ao «Never more!» de Poe, lhe crocitava satânico e lúgubre a sua elegia de tímido, de sonhador e de incompreendido. ¿E quem hoje, no aniversário da sua morte, se lembra dêsse pobre Gerard, que trazia sempre os bolsos cheios de livros, como o Schaunard da Bohème, que traduziu Goethe e visitou o Oriente? Ah! é bem certo que «os mortos caem fácilmente no olvido!»

Faze por ter dinheiro. O Dinheiro, alêm de ser tudo o que tu sabes, é ainda aquilo com que se compram os melões. Se o tiveres não o emprestes nem o dês. Se precisares não peças, porque ninguêm te vale. Gritar é inútil tambêm, para que não chames curiosos à tua desventura.

Prefere «um pássaro na mão a dois voando» e não te fies na Virgem. Porque se te fias na Virgem e não corres não tarda o fatal e bem merecido pontapé.

Se és casado não leves amigos a casa. Isto não é para que te ofendas, é por uma cousa que eu cá sei. Se tens filhos, ao menos um filho só, que é cousa que tôda a gente tem, seu ou alheio, faz do teu filho um homem forte. Bom estômago, bons nervos, bons músculos. Antes o obrigues à frequência do mestre Raku, um sujeito que ganha a vida a deitar os outros ao chão, do que à de Félix Pereira, que lhe ensina que meter os dedos no nariz é porcaria. É preferível ser forte a ser bem-criado. É mesmo preferível ter fôrça a ter direito, «porque se vai mais longe com a mão cheia de fôrça do que com um saco cheio de direito», ensina a experiência dos homens e a sabedoria das nações.

Podes ensinar-lhe muitas mais cousas que tu saibas. Não o queiras nem artista, nem literato, nem jornalista. Vê se o podes fazer par do reino, que o pariato é uma cousa que se está dando ou se vai dar a tôda a gente, exactamente como o hábito de Cristo ou de S. Tiago. «Dizem que até há barbeiros...» como já o suspeitava o Baptista dos Maias. Se o fizeres par, porque êle não tenha geiteira para outra cousa, recomenda-lhe que se cale. «O silêncio é de ouro» e um tolo calado, conquanto não deixe de ser tolo, passa por homem sisudo. Porque se êle assim não fôr, tanto pior para êle. Os que assim não são, nada teem a esperar do ano novo. São e serão sempre escarnecidos, ridículos e pobres. E o pior mal dum homem é ser pobre. Ninguêm lhe vale. Ser pobre é...

Não continuo porque um cavalheiro que está vendo o que eu escrevo, refila, em ar de resposta:

—«Mas há a Caridade. A Caridade, homem!»

—«A Caridade? Ah! sim.»—As misérias do próximo comovem muito a caridade de cada um. E eu, que tambêm me vou tornando azêdo como o senhor Silva Pinto, resmunguei e recordei-me. Devia ser uma caridade como a daquele barão da Falperra que o nosso Alfredo Mesquita conheceu: Um homem tão caridoso que, depois de ter ouvido um pobre contar-lhe as suas misérias, a ponto de o fazer chorar, chamava sempre o criado e, com a voz entrecortada de soluços, ordenava:—«João, ponha êsse homem no ôlho da rua; parte-se-me o coração de o ouvir...»

E para os que lhe dissessem que êle lhe não dera nada, retorquia, que sim, que dera. Dera-lhe... atenção.

E estava certo, como diz ainda o senhor Silva Pinto.

Artistas

A morte recente dêsse desventurado Augusto Santo, escultor do Pôrto, veio avocar com amarga intensidade a malfadada sorte que está guardada a todos que teem a suprema desventura de ter nascido artistas em Portugal. Augusto Santo foi discípulo de Falguière, de Rodin e de Soares dos Reis. Ouviu as lições de Taine, e expôs no Salon. Era quási um desconhecido e morreu na maior miséria, num catre humilde de hospital.

Ser desconhecido em Portugal é um caso banalíssimo. Herculano, e êsse Garrett que «num dia de apuro por cem ou duzentas moedas seria capaz de tôdas as porcarias menos de pôr num papel a trôco de todo o ouro do mundo uma linha mal escrita» são, ainda que isto pareça um paradoxo, quási desconhecidos. O grande público não tem ideia dêles e ainda hoje uma das suas edições leva uma eternidade para se esgotar.

A indiferença do público pelos artistas é absoluta, e não vai longe ainda o tempo em que literato era sinónimo de vadio. Camilo no Pôrto, ao tempo, era sómente um janota que para ali quebrava esquinas, um tal que não avezava com que mandar cantar um cego. Quando, pelos romances, ganhava com que forrar de cuidados o passadio de dois meses, não se imagina o escândalo que aquilo produzia nos Antónios Josés da Silva e na rua das Congostas. O Pôrto de então tinha ideias seguras e via as cousas como devia ver. Literatos neste país?! hum! e torcia o nariz como quem dizia que aquilo não era prático, nem por aquele caminho se chegava a ter um rolosito de inscrições, um prédiosito, ou uma velhice sossegada. Era a vida prática, o balcão é que era o caminho. Por isso, quando Camilo, já no apogeu de glória, em cartas duma dolorosa humildade, quási esmolava, para comer, a compra de pratas que os seus admiradores lhe ofereciam, o Pôrto mui devia rir. Êle bem lhe dizia! Não era aquele o caminho...

A Soares dos Réis para lhe fazerem justiça foi preciso que a morte o tomasse. Em vida foi um obscuro obreiro sem amigos, ou quási, e teve uma existência bastante precária. Basta dizer que em tôda a sua vida de trabalho não conseguiu mais do que 4:764$500 réis segundo a autobiografia do artista, que o snr. Joaquim de Vasconcelos, em 1905, confidenciou ao público por intermédio da Revista. Para ganhar essa importância confessa Soares dos Réis que esteve «algumas vezes em relação com a arte industrial». Mesmo assim quem a achar exagerada deduza-lhe o custo do material e de auxiliares indispensáveis e verá quanto fica. O Artista na Infância vendeu-o por 600$000 réis e foi o máximo preço que levou por uma obra sua, se exceptuarmos, é claro, o monumento ao Conde de Ferreira.

Em vida ninguêm o auxiliou, ninguêm o encorajou para prosseguir. Muito ao contrário perseguiam-no, sitiavam-no, roubavam-no, fechavam-lhe tôdas as portas com intrigas soezes, com indróminas de sabidos e ronha de marotos. Concurso a que fôsse, vaga a que concorresse, plano que tentasse viabilizar, certo era a mediocridade arranjista, por portas travessas, frustrar-lhe tôda a ambição e todo o Sonho.

Emquanto o homem viveu não puderam os amigos, êsses amigos do diabo, atormentá-lo mais, nem mais o perseguirem. Depois de morto não houve lamúria que não chorassem e não houve adjectivo sonoroso e amelaçado que a criatura não tivesse. A justiça chega sempre depois da morte, é certo, mas pela injustiça dos vivos.

Com Augusto Santo o caso é o mesmo. Augusto Santo era, antes de tudo, um impersistente. Não possuía a tenacidade avara, fria e reservada, a confiança absoluta dêsses brocadores do Ideal, fadados para o êxito. A menor contrariedade o exasperava. E como se não fôsse bastante a execução perra, o sonho nebuloso, a vida material e a falta de tudo, ainda a minar-lhe a existência a agressividade constante dos outros,—os colegas os primeiros,—não fôsse o pobre diabo roubar-lhes a glória, e numa avidez de faminto a guardasse tôda para si. Augusto Santo foi um perseguido desde que expôs êsse Ismael, a sua única obra a valer, mas ainda assim uma promessa do que o seu temperamento de artista poderia dar.

Como vêem, eu não quero dizer que Augusto Santo era um génio e que a sua morte abre uma clareira formidável entre os Teixeiras e os Lopes da pedra portuguesa. Não. Augusto Santo não deixou fauteuil vago. O que eu quero precisar é que era Augusto Santo um artista a valer, que noutro meio floresceria, um meio que lhe não fôsse hostil como o seu,—tão hostil que até o deixou morrer de fome numa enxêrga de hospital. Com esta hostilidade e com esta ingratidão a arte perdeu, mas ganharam os escultores portugueses. Podem agora catrapiscar a imortalidade à vontadinha, que ela não esperará que êles morram para vir, ou o seu cão, sevandijar-lhes em cima da obra.

Alguns gazeteiros ou gazetíferos, com as palavras de louvor do cliché, justificam porque Augusto Santo não teve carruagem às horas, mesa lauta e colchão fôfo. Foi, dizem êles reprimendando os restos do escultor, porque era um inadaptado, porque desprezou sempre a arte de engorda, a que dá lucros e considerações, e preferiu correr atrás dum sonho que o exauria e que o matava, um sonho de arte irrealisável e irrealisado, arte verdadeira que não tem preço, embora às vezes se venda, e que não se compra, embora às vezes se adquira. E com um desdêm olímpico, absoluto, ditatorial, chamam-lhe... sonhador. Sonhador!... como se isto fôsse o sumo desprêzo ou a máxima compaixão. Deve ser bem triste morrer, assim!

Ao menos se essa turba se calasse e governasse vida, vá; mas vir babujar a sua irresponsabilidade desvergonhada no momento em que o pobre vencido solavancava a caminho do cemitério, é intolerável. Não se justifique, que ninguêm lhe tira o ganho: ela tem a sua utilidade. ¿Quem é que nos havia afinal de fazer os fretes?

Augusto Santo, não reste dúvida, foi um atormentado da forma. Quando a concepção, megalomania conceptiva era nele, lhe fabulava maravilhas, logo o barro, parece que conluiado com os homens, debaixo dos gadanhos convulsos e nervosos tinha formas brutais, aduncas e agressivas. E a sua frialdade viscosa logo ali abafava o delírio artístico do pobre impotente e lhe dava crises de desânimo capazes de vergar um atleta.

Todo o Pôrto cabareteiro e intelectual conhecia estas torturas do artista. Sem fôrças para opôr uma resistência, êle consumia-se em desolações. Cada tentativa malograda deixava-o mais exausto de fôrças do que uma noite perdida a caminhar. O Sonho vampirizava-o e exigia-lhe uma impossível produção de calorias. Todavia nada resta dele, decorrendo como decorreu intramuralhas do seu crânio. Após a criação dêsse Ismael, que noutro meio mais acarinhante, se o não celebrizasse, o evidenciaria, Augusto Santo criara, para si mesmo, responsabilidades. Ficaram por cumprir. A quantos artistas não sucede outro tanto?! Todos o sabem, Portugal artísticamente é um país morto. Capaz duma ressurreição? Certamente. Desde que os poderes públicos olhem com atenção para a Arte, desde que a percentagem assustadora dos analfabetos diminua e desde que o público manifeste interêsse por estas cousas. Arte em Portugal? Os pintores é que sabem o que isso é. Êles bem vêem que não é de sonhos e de belos quadros que se vive. O que dá são as lições, que é como quem diz os quadros que fazem e os discípulos assinam. É uma arte de opereta, de muito riso, com sinfonias de Offenbach e de que só vai mal a quem a toma a sério. Êsses são os vencidos, os Soares dos Réis e os Augustos Santos.

Ê pois mais um artista que sucumbiu em luta inglória com o Destino. Consagrado ou desconhecido, não há dúvida que era um artista. O Ismael o atesta. E já que ninguêm teve que o auxiliasse e que no meio da indiferença geral da gente que escreve e do regosijo da gente que escultura, êle deixou a vida, justo é que eu o admire, ao seu exemplo de intransigência, à luta que sustentou e à tragédia da vida que sofreu. E ninguêm se lembrou dele senão a Morte, que se amerceou de tanto sofrimento. Ó morte remediadora e sacratíssima, amiga dos pobres, remidora dos desventurados e consoladora dos aflitos, eu te bemdigo.

O Jettatore

Teófilo Gauthier, o Benvenuto Cellini da prosa francesa, segundo Camilo, consagrou um dos seus volumes à Jettatura, ou mau olhado, condão funesto do Jettatore. Nesse volume, obra prima do lapidário precioso a quem já Baudelaire havia chamado «poeta impecável, mago e mestre», se romantiza a vida dum jettatore e se dá conta de todos os malefícios que o seu olhar causou. Paulo d’Aspremont, francês, é o protagonista do romance, e, sem o saber, possui o fascino, que, traduzido em vulgar, significa mau olhado. O seu olhar fatal onde pousa é nefasto. A pata do cavalo de Attila não teve tanta crueldade. Se se debruça na amurada dum barco, para olhar a água mansa e tranqùila, logo o mar se encapela e enfuría; se entra num teatro e fita um actor que ri, logo o espectáculo se interrompe e a própria Troça fica séria; se olha uma bailarina que rodopia, um bico de gás incendeia a gaze e a bailarina morre. Quando fita a sua própria noiva, o pobre jettatore mata-a. Uma roseta escarlate assoma às faces da condenada inglêsa, um escarro de sangue vem da goela à bôca, e dali à morte é um ai. Nápoles inteiro o odeia. «Tôdas as vezes que parava junto duma loja, o dono parecia assustado, murmurava algumas imprecações a meia voz, e alongava os dedos como se quisesse apunhalá-lo com o auricular e o índex; as vendedeiras mais ousadas, acabrunhavam-o de impropérios e mostravam-lhe o punho.» Por fim cega-se e suicida-se, arremessando-se ao mar. O seu corpo nunca se encontrou. Quando êle morreu,—oh meu adorável Gauthier!—quando êle morreu «a tempestade desencadeou-se então com tôda a fúria: as ondas assaltaram a praia em filas compactas, como guerreiros correndo ao assalto, e lançando a cincoenta passos ao ar jactos de espuma; as nuvens negras alagartaram-se como paredes do inferno, deixando entrever a ardente fornalha dos relâmpagos; luzes sulfurosas iluminaram a extensão; o cume do Vesúvio avermelhou-se e um penacho de sombrio vapor, que o vento impelia, ondulou na fronte do vulcão. Os barcos amarrados entrechocaram-se com lúgubre ruído e as cordas muito apertadas gemeram dolorosamente. Daí a nada a chuva começou a cair em enormes bátegas sibilando como flechas,—parecia que o cáos queria reapossar-se da natureza, confundindo-lhe de novo todos os elementos».


Mas, há realmente jettatori? ¿Há alguêm que acredite nisso, no século das maravilhas? ¿Não será a jettatura como o rabinho no remate do espinhaço por onde se conheciam os judeus, segundo aqueles Pedro Lobo e Bartolomeu Lobo, que Camilo tomou à sua conta no Judeu, o romance da vida de António José da Silva? Talvez. O que é certo, porém, é que esta superstição abracadabrante tem muitos crentes. E o Destino, às vezes, quando se quere divertir ou mostrar o seu poder, encarrega os factos de lhes dar razão.

¿Mas não haverá olhares carregados de desconhecidos gérmens morbíficos, de elementos malfazejos, funestos e ameaçadores?

Abro o último número do The Strand Magazine, recentemente chegado a Lisboa. É o número de Agosto. Aí a página 233 a focinhuda e grave revista inglesa relata o estranho caso do presidente do conselho de Itália, Giovanni Giolitti, um dos mais funestos jettatori. O artigo chama-se «The Evil Eye» e é interessante e certo, porque a revista inglêsa não iria turvar a sua gravidade protocolária com uma invencionice de tal responsabilidade. As vítimas de Giolitti são, na sua maioria, os seus próprios colegas do ministério, a quem repentinamente sucede alguma cousa de grave. Foi a insistência dêstes incidentes, sucedendo sempre em pessoas ligadas a Giolitti, que pôs de alarme tôda a Itália e fundamentou o artigo do Strand Magazine. Os ministros Majorama, Marquês Prinetti, Balenzano, De Broglio, Wollamborg, Rosano, Tittoni, Massimini e Gallo foram os que mais sofreram da influência funesta da jettatura Giolitti. Um deles suicidou-se, outro endoideceu, e ainda outro sofreu um insulto apoplético na própria Câmara. Os restantes foram atingidos pelas doenças mais graves e mais exquisitas; um ataque de reumastismo, doenças de coração, apoplexias, etc. O olhar de Giolitti é pois uma verdadeira cornucópia de desgraças, e como se vê não se pode atribuir à imaginação dramatizadora de qualquer banabóia em cata de assunto o artigo em questão. Se o magazine inglês alviçarou ao público o condão fatal do estadista, é porque o caso tinha tôdas as provas de veridicidade.

Giolitti inspira já um verdadeiro terror. O seu olhar fantasmático e fixativo tem a mais terrível lenda que pode ter um homem, especialmente em Itália, o país do mau olhado, por excelência. Quando êle passa, os lazzaroni entre-olham-se aflitos, os transeuntes involuntáriamente fazem-lhe figas e todos fogem dele como dum leproso. As companhias de seguros de vida, baseando-se nos acontecimentos e factos, reputam o seu olhar um grave risco e não efectuam os seus contratos com ministros do gabinete jettatura senão a prémios absurdamente compensadores.

Oh! o mau olhado! o mau olhado!

Na jettatura acredita muita gente boa. As montres, em Nápoles, cercam-se dum preventivo cordão de amuletos protectores, e os espíritos mais fortes não se desdouram de trazê-los na algibeira. Filipe d’Altavila, aquele conde inventado por Gauthier, era civilizado. Fôra educado em Paris, falava inglês e francês; lêra Voltaire; cria nas máquinas a vapor, nos caminhos de ferro, nas duas câmaras, como Stendhal; comia macarroni com garfo; e, como se todos estes argumentos não bastassem, é êle ainda quem confessa que usa «de manhã luvas de Suède; de tarde luvas escuras, à noite luvas côr de palha», prova incontestável de civilização.

Pois êste scéptico, êste civilizado, êste homem forte, conquistador e espadachim—acreditava. ¿Porque não havemos nós de acreditar? Êle, porêm, parece que tinha razão para isso, visto que, sendo um dos melhores esgrimistas, tendo morto em duelo três homens e ferido gravemente cinco ou seis, ninguém se batendo com êle pela fama terrível que tinha, veio a morrer, estúpidamente, cravando-se no punhal do jettatore.

¿Mas será o mau olhado incombatível? Não. O nosso homem acredita tambêm que «com os chifres, as figas e os ramos de coral bifurcado, se pode destruir ou pelo menos atenuar a sua influência».


¿Já repararam na série de desgraças que tem pesado sôbre o país desde que é presidente do conselho o snr. João Franco? Pois, caso singular, as desgraças sucedem-se e pode dizer-se que nunca houve tantas.

Os políticos não andam seguros. Deu o filoxera, ou a formiga branca com êles, desde que é presidente do conselho, etc, etc. Já a gentana das ruas lhe vai atribuindo dotes maléficos e quando êle passa, se lhe não chamam jettatore, vão-lhe fazendo figas.

Não tarda que, à semelhança do Strand Magazine, as gazetas vulguem o caso ao falario dos seus leitores. E é caso para pensar, acreditem!

Um dia, na Câmara, no acêso duma discussão, Hintze tem uma síncope. Ao acompanhar o entêrro dum amigo e político, Hintze morre repentinamente, e os médicos gaguejam vagas cousas... farda vélha... o calor do chapéu... insolação. José Dias Ferreira, rijo ainda apesar dos seus setenta anos, faz uma conferência desafecta ao govêrno e é repentinamente atacado duma paralisia. Quando menos se espera, morre.

O que mais assombra é o imprevisto com que a Morte tombou êsses dois monarquistas de vélha rocha, que, apesar de pontapizados no seu orgulho e nos seus anos de trabalho, ainda resistiam, cheios de vida e de crença.

A revista inglêsa veio fazer luz. ¿Terá o snr. presidente do Conselho o fatal condão? Será jettatore? Tudo faz crer que sim. D’Aspremont, o jettatore do romance de Gauthier, uma vez que tocou num cocheiro com uma leve bengala, matou-o instantâneamente.

O nosso estadista, nos seus tempos de Coimbra, não podia acariciar um gato, que o animal não morresse logo. Hão-de concordar que é já ter mau olhado.

Nenhuma dúvida resta. É jettatore. Os políticos entre-olham-se finados de mêdo e com terror secreto pensam em quem irá agora. Os indiferentes pensam em que novo desastre estará guardado à nação sob o influxo funesto de tão funesto dom.

Não há dúvida. É necessário pôr um chifre atrás da porta e trazer na algibeira os ramos de coral bifurcados, e as figas de azeviche. Nada, que o seguro morreu de vélho.

Senhores da política, vamos.

Os mineiros

Les mineurs chamou Roll, o poeta do carbonoso, a uma das suas mais amadas telas.

«Les Mineurs» é o poema da gente que trabalha. Um crepúsculo à hora do levantar da faina. A retirada dos mineiros, uma longa bicha de gente taciturna e acabrunhada que regressa do interior da terra. Ao fundo as altas chaminés vomitam fumo, o seu fumo espesso e enovelado, carvão que o vento desfaz. E, sob o céu que o vento escurece, a retirada vai-se fazendo lentamente, como um exército estropeado que sai finalmente duma praça há meses sitiada. E não tem fim, a escura procissão que sai da bocada negra dos poços. Parece que nunca mais terminará.

O assunto que tentou a Roll e que a sua tela exprime com a fidelidade duma fotografia, tem seduzido a muitos artistas. Constantin Meunier consagrou-lhe um baixo relevo. Severine escreveu as mais belas páginas sôbre «le pays noir» e Zola dedicou-lhe um dos seus livros, êsse romance-estudo, brutal e flagrante, cheio de verdade e cheio de observação, que é o Germinal.

Porêm, de tôdas as composições artísticas que eu conheço, um quadro há, que, nas minhas horas de scismar, se desenrola e vivifica, e ante os meus olhos passa como uma scena da vida real. A tela desapareceu, apagou-se suavemente e só ficaram as figuras e o scenário. É um cortejo que passa. São rudes operários tisnados, a pele encoirada de suor, caras sombrias de miséria e de sofrimento. Abrem a marcha de mãos dadas cantando o Çá ira. Um operário vélho, de blusa e boné, dá o braço à sua companheira, uma envelhecida, que traz na mão um ramo de flores. Um garôto traz às costas um tambor. O cortejo avança. Algumas das mulheres trazem os filhos ao colo, outras, bandeiras de revolta. Mas a procissão não tem ar insubmisso, tem um ar de protesto taciturno. Um céu de bruma espesso e calado alumia a scena com os seus tons mais lúgubres e na sua luz morrinhosa sinistríza os contornos, e veste tudo, as figuras, a rua, os rostos, e até os petizes do bando, com um ar de sofrimento intenso, de agonia intraduzível. É seu autor Jules Adler. O quadro chama-se A greve.

A greve recente da mina de S. Domingos veio canalizar atenções para o assunto. E S. Domingos, que aparecia entre brumas de mistério, dá notícias suas. S. Domingos é uma feitoria inglêsa. Tem polícia própria, armada de belas carabinas, carabinas último modêlo para, emquanto os mineiros se estorcem de fome, ela patrulhar, na soturnidade da noite, de dedo no gatilho, o sono dos senhores.

Os mineiros são 3:000. Trabalham uma infinidade de horas e o salário é pouco. Como o salário é pouco e o trabalho muito, a alimentação é má. E como a alimentação não presta, a saúde é péssima.

Que querem êles? Melhoria de salário e um pouco menos de trabalho. O mineiro, por via de regra, é sóbrio. Não tem desejos, não tem ambições. É um animal de carga, pobre bêsta suada e indefesa, e as minas são uma nova escravatura. Duvidam? Muito embora. São ainda as gazetas que nos informam que essas reclamações foram recebidas ... a tiro. Se isto não é escravatura, então...

A canalha revolta-se? Muito bem. Espingardeia-se. A canalha parlamenta? Acutila-se. A canalha não tem nome, a canalha não tem voz. A canalha é a canalha, nada mais.

¿Que ela um dia virá, quando o ódio se fizer avalanche, reclamar o seu quinhão na festa? ¿Que ela virá escrever nas paredes da sala o Mane, Thecel, Phares dos grandes cataclismos? Pura imaginação! A canalha não virá. E se por acaso vier, sim! se vier, encontrará uma muralha de baionetas e um cordão de metralhadoras. «La force prime le droit!», não é verdade? Sejamos positivos. Mais uma vez o direito ficará vencido.

¿Que a greve colheu a Emprêsa de improviso? De-certo. Pois a Emprêsa julgava lá que êles soubessem pedir, que êles soubessem falar!

O que a Emprêsa sabia era a média de produção diária por cada animal daqueles, por cada escravo, a que pomposamente persistimos em chamar mineiros. A Emprêsa só tinha um fito: Que cada homem trabalhasse o dôbro.

Que êles tinham Direitos? Que êles tinham estômago? Que queriam Justiça? Deixem-me rir. ¿Que diabo se importa a Emprêsa com isso?

A Emprêsa explora-os; os capatazes, seus mandatários, esbofeteiam-nos. Oh! filantrópica Emprêsa! Pois êles só esbofeteiam? Vamos lá. Podiam muito bem açoitá-los, crucificá-los e esfolá-los. Só esbofeteiam!!!! Se na acta da assembleia geral lhes não fôr exarado um voto de louvor, por tanta humanidade, hão de concordar que é uma refinadíssima pouca vergonha.

¿Mas, realmente, os mineiros revoltam-se? Pior para êles. ¿Esquecem-se então de que a Emprêsa tem pelo seu lado a fôrça, e que os esmagará irremediávelmente? Fazem greve? Mas a greve termina aonde a fome principia. Quem ficará por baixo? O mais fraco.

Ora quem capitula não impõe condições, aceita-as. A fome principia e ei-los novamente escravizados. Então, como um exército vencido que entrega os seus troféus e as suas bandeiras, os grevistas entregam os seus direitos, os seus sonhos, as suas utopias, as suas ambições. E voltam novamente ao escuro da mina, ao ar irrespirável, à meia-fome, ao trabalho extenuante, emquanto os directores da Emprêsa recomeçam a partida de bilhar interrompida.

Courrières fêz 1:200 vítimas.

¿Sabem o que mais comoveu a Companhia exploradora? Não foi a ceifa de mil e duzentos homens válidos, de mil e duzentos cérebros e corações, de mil e duzentas vidas. Não foram os lamentos de mil e duzentas famílias que se carpiam, que ficavam na ruína e na mendiguez. O que a comoveu foi a ruína, a perda dos poços, o ruir das galerias, os motores paralisados e torcidos, as máquinas destruidas. Foram os lucros que não se realisaram, os dividendos que não se distribuiram.

Um homem a quem roubaram a bôlsa pode lá preocupar-se com a morte em casa do vizinho!

Oitenta por cento dos desastres é culpa das Emprêsas, que não teem outro fito senão roubar à terra a matéria que as há de enriquecer. A segurança dos operários só é assegurada quando a falta dela pode prejudicar interesses de senhores. Os acionistas, emquanto o dividendo corre, claqueam. E êsse rega-bofe é às vezes interrompido pelo estalar dos travejamentos, pelo ruído das derrocadas, pela grita dos feridos e pela lembrança dos que lá ficaram no silêncio das galerias, irremediávelmente.

Pois apesar de tudo, possível é que os mineiros não sejam atendidos. Para admirar será se o forem. Apesar do perigo que correm, a doença à espreita, a morte perto, a velhice impossível, as suas reclamações parecem absurdas aos Directores.

Se, como no Germinal, algum Maheu ignorado levanta a voz para dizer «a sua miséria, a miséria de todos, o duro trabalho, a vida de brutos, a mulher e os pequenos gritando de fome em casa»; para dizer que é uma iniqùidade uns morrerem de fome e outros de indigestão; para dizer que é uma torpeza uns morrerem de trabalhar tanto emquanto outros bocejam à regalona, a Direcção promete estudar. Não estuda nunca. Mas a voz dêsse Maheu, dêsse Maheu ignorado, ficará no espaço acusando, e marcará com um ferrete de infâmia o crime, êsse crime inaudito ratificado em uníssono por três mil peitos; o crime deles andarem ali a 800 metros debaixo da terra, arquejantes, famintos e ignorantes, para que Calígula, o doido, ponha freio de ouro ao seu «Incitatus» e Nunes, o patife, mate cães a tiro na quinta da Formiga.

O mesmo devia pensar aquele Suvarine, o russo, que nos aparece como um herói, quando nas trevas, alta noite, suspenso sôbre a fundura do poço, armado de trado e serrote, começa no revestimento da mina a sua obra de destruição.

Um sábio português

Era inquestionavelmente um sábio êste pobre Ferraz de Macedo dos crânios, sôbre quem o dr. António Aurélio da Costa Ferreira vem de tratar num opúsculo sentido e sincero. Um sábio a valer, com amor quintessenciado aos seus crânios, às suas medições, e a sua admiração pelos snrs. Quatrefages e Manouvrier. Não vai o tempo para sábios e êle ressentiu-se disso. Faltou-lhe a atmosfera de carinho a que todo o homem tem direito. Em vida foi um misantropo vivendo a vida sonhada de todo o cerebral que se sente distanciado da sua época, um século adiante, perdido da sua tríbu e tendo só a confortá-lo os seus cadernos de notas e uma fé, uma vontade, mui digna de encomiar-se. De resto nem a atenção dos poderes públicos lhe deu audiência senão à pressa, nem êle teve nunca geito para o palavrear solerte dos vivedores profissionais.

Fortuna, emquanto a teve, houve por bem desbravá-la em todos os justos e generosos empreendimentos. Publicou o Cancioneiro da Vaticana e amorosamente coleccionou bem um milhar de crânios sôbre que deixou curiosas notas e estudos preciosamente documentados. Que, já Fialho de Almeida o disse, no seu artigo dos Serões, não seria êle um sábio que farolizasse ignotas brumas da sciência, mas foi um documentador paciente, um consciencioso observador, cuja rigorosa análise tem crédito no mundo scientista e profissional. Ribot confirma. Abaixo dos grandes criadores, dos que descobrem, dos que trazem novos horizontes à humanidade, há os talentos que explicam comentam e desenvolvem as verdades descobertas e que pela sua experiência analítica são os que rotulam com exactidão a categoria da descoberta e muitas vezes tambêm a anulam. Seria um dêstes talentos Ferraz de Macedo. Mas que robusta energia, que frondosíssima tenacidade a enchia! Só isso o faria grande se êle já o não fôsse por trabalhos que tinham merecido de Manouvrier a opinião de ser «um homem conscienciosíssimo, um pesquisador infatigável e instruidíssimo, dotado de notável tenacidade» (Progrès médical—15-VI-1889), e de Quatrefages os melhores elogios na sua História geral das raças humanas. É inútil dizer o resto. Morreu pobre, esquecido e crente. Nenhuma indiferença, nenhuma ingratidão, nenhum desdêm pôde soterrar-lhe a crença. Quem nos déra a todos nós a tranqùilidade espiritual e o desdêm bondoso da sua alma. E tiro o meu chapéu. Não há impugnadores de que êle fôsse um sábio, um verdadeiro sábio.


Esta separata agora publicada pelo dr. Costa Ferreira é uma bela obra. Os nomes dos grandes mortos são como as plantas. Precisam de jardineiros, cultores apaixonados, tratadores conscienciosos e dedicados, senão breve vem a delir-se na memória das gerações e o seu derradeiro pouso é nas páginas dos livros especialistas a que lá de vez em quando um ou outro compulsor estudioso sacode o pó e afugenta a traça. Precisam de quem buzine ao vulgo, para escarmento duns e exemplo doutros, a sua vida e as suas obras. Sempre assim se tem feito.

O nome de Ferraz de Macedo não podia encontrar mais piedoso cultor do que o seu discípulo e médico Costa Ferreira. Possuido do mesmo acendrado amor aos estudos antropológicos, amando o mesmo ideal, Costa Ferreira dele recebeu as últimas vontades. Foi êle o testamenteiro de «mil e tantos crânios, trezentos e tantos esqueletos, de origem conhecida, reproduções estereográficas de crânios célebres dos principais museus da Europa, tudo medido e rigorosamente observado e, com êle, arsenal antropológico e livraria» que Ferraz destinou ao Museu da Escola Politécnica. É êle tambêm que, cumprindo um último prometimento, tomou à sua conta o não deixar esquecer o nome do mestre e continuar-lhe a obra apoteotizando-lhe o nome numa contínua e modesta memoranda dos seus trabalhos.

Piedosa homenagem esta, tanto mais para encarecer quanto é certo que, dada a indiferença geral e oficial, ninguêm tal encargo tomaria. Morreu, acabou-se. Trate cada um de si e já não é pouco! Auscultem um milhar de criaturas e digam-me se não é assim que elas pensam!

Falho de senso prático como todo o cerebral, êle só tinha uma única paixão: a sciência. Só ela o vulnerabilizava, babando-se diante duma esquírola do homem terciário. Fora da sciência, não vivia. Nada sentia que não fôsse passado pelo crivo dos seus apontamentos e pela ideia dos seus crânios. E tão afastado o traziam os seus estudos, da vida vívida, que breve iria à mendiguez se mão provedora e amiga não fôsse, acordando o sábio do seu reino encantado, cuidar-lhe da mantença.

Nessa abstracção tão funda viveu, com seus canários os pequenitos da vizinhança, os seus crânios «como num celeiro o grão que espera embarque», medidos, e, ensacados por êle, com mão reminiscenciada dos seus tempos de aprendiz de alfaiate, e os seus gatos, que morreu sonhando. «Depois de morto é que eu viverei... Para os novos é que eu apelo. Êles que me continuem e me vinguem». Tais foram as suas últimas palavras, erguendo-se num repelão e visionando ainda uma visão acariciadora. Não voltou a falar. Costa Ferreira tomou o encargo piedoso de o lembrar, de o não deixar morrer de todo, na ingratidão indígena. Tal disse e tal cumpriu.

O sábio morreu. Os jornais titubiaram, os amigos escapuliram-se e, mais tombo menos tombo, lá ficou no seu coval, talvez ainda com saudade dos seus crânios e dos seus apontamentos. Solitário como foi em vida, assim o foi na morte. A sua apoteose não chegara ainda. Os gazeteiros não carrilhonaram às multidões cretinizadas nem sequer o «ilustre e o distinto» da cozinha trivial. E como morrera pobre e modestamente se enterrou, tambêm não panegirizaram a criatura com girândolas de adjectivos surrados pelo uso e abuso da pindarização de todo o fiel bigorrilhas que morre e deixa ôsso que roer.

Depois talvez fôsse assim melhor. ¿Que tinham que ver com êle os adjectivos?


Se agora a matula egoísticada bichanava sempre que o via um apodo desdenhoso, que resvalava do seu arnez de indiferença pelo que diriam, tão longe andava dos que com êle se acotovelavam, em tempos idos não faltaria o ingranzeu das turbas e o rumor falaz das vélhas macbéticas do sítio, taxando de pacto diabólico o seu estudo, qual outro Cláudio Frollo.

Todavia êle sem se agastar da indiferença duns, da parranice doutros e do criminoso egoísmo de todos, contente se dava com a sua estreiteza e, não requerendo melhoria de sorte, cada vez mais se apartava do mundo real para o mundo de sonho. O trabalho para êle era tudo. Confinava a sua casa com as estrêlas, vista cá debaixo, da cidade, sitando lá no alto, ponto negrusco zimboriando o alto do monte. Uma árvore anciã, fronteiriça, foi sua companhia e só ela talvez cogitou na sua labuta interior. Ventos brigosos sinfonizavam óperas de tormenta, numa orquestração como só a tem o infinito. Tudo as sentia. A árvore vélha bracejava agitada e angustiosamente. A cidade lá em baixo era um torvelinho de cousas indistintas. Só êle prosseguia, medindo, classificando, registrando. E podia um vento mau terremotar a casa. Podia um tufão furioso ir desmoronar as sacas de crânios e formar no adro a pilha de crânios que é o quadro de Verestchaguine, aquele pintor russo que morreu na guerra russo-japoneza a bordo do Petropavlosk,—Après la bataille. Êle não sentiria, êle continuaria as suas notas, e só as terminaria quando nada mais, nenhuma sutura, nenhuma bossa, nenhuma asimetria, houvesse a notular.

Se nunca foi aos cornos da glória é porque lhe faltava a destridade dos malabaristas do reclamo. A sua tratabilidade de sábio raso, sem alardos de sciência, nem emprenhidões de basófia, contumaz em lusas celebridades, de todos o tornaram querido. Depois um quási nada de antropófobo, a antropofobia do sábio que se ensimesma em lucubrações profundas, e gasta a vida à luz estudiosa. Era esta que, pelas negridões da noite, brilhava sempre no seu gabinete, como na sua mente brilhou sempre a fé, a fé numa perfectibilidade do homem e uma consolação no estudo, que, estou certo, afinal talvez nunca chegasse a encontrar, que o tornavam quási um estranho a tudo, a todos os arruídos e quermesses que lá ao fundo convulsionavam a cidade.

E quem sabe lá, a esta hora talvez êle esteja ainda contando ao verme as palavras enternecidas dos snrs. Manouvrier e Quatrefages e as saudades dos seus crânios muito amados.

Então da outra vida, pensam as almas crentes, o sábio abençoará de-certo e tarefa bondosíssima, devotada e carinhosa do Dr. Costa Ferreira.

Emigrantes

Paro diante da reprodução dum quadro. É do Salon dêste ano, intitula-se «Émigrants» e assina-o Paul Sieffert. Eu não conheço o pintor. O assunto conheço demasiadamente. Se não viram o quadro, eu conto. O quadro do sr. Paul Sieffert é uma gare ou cousa que o valha. Cai neve. O horizonte é longínqùo e a perspectiva monótona. Nem uma árvore, nem uma planta. Neve, montes ao longe, neve sempre. Á direita vagons. Vagons de mercadorias, vagons que esperam tempo de seguir, levando não se sabe o quê, ocupam quási tôda a tela. No primeiro plano uma mulher sentada no chão estende um peito à voracidade do petiz que manduca. O macho, dorme ao lado, cabeça sôbre uma perna sua, braço estendido ao longo do corpo. A mão é primorosa. O busto bem estudado. Na cara—a cara é tôda uma psicologia—mostra a estereotipia de inumeráveis privações. Parece repousar, ou sonhar, cavada a face, bem vincadas as rugas que a angústia marca a baixo relevo no rosto dos que sofrem. A mulher ao lado cogita. Parece olhar-nos. Não olha. Ela não vê. Scisma! Em quê? Só ela o poderá dizer. Uma trouxa mísera, junto, é tôda a bagagem. Êle tipo de operário, ela de fêmea resoluta e sofredora. Vão partir. Vencerão? Quem o saberá?

Não sei porquê, são-me simpáticos estes tipos. Se pudesse, protegia-os. Sucede muitas vezes a minha piedade ir de preferência para os tipos que os meus pintores ou os meus artistas me entremostram—tão pouco a merecem, os que a gente topa todos os dias. Ao lado uma ranchada manduca, ainda. Mais longe, pequenos ranchos, trocam esperanças. Um vulto, ao fundo ou quási, remexe a maleta. E, como se o pintor os quisesse destacar, aparece-nos, quási escondidamente, um vélho que sonha, pelas costas um vélho capote, no olhar uma nostalgia feroz, contrastando com um homem que, de bruços, rosto apoiado na palma, scisma. Não scisma em sonhos. Scisma em realidades. A energia da sua expressão traduz-se assim. É amargo. Êste homem sabe da vida. Há combates no seu cérebro. Vencerá? Todos êles vão partir. Ilusões, quimeras, esperanças, é a bagagem. Sabe-se lá quem vence?

Até aqui o quadro. Se a agente quiser realidade, apesar da tela ser de Paris, temo-la bem perto. Nós somos do país da emigração. O quadro de Sieffert é tambêm nosso, com a diferença de o nosso ser de mais recrudescível agonia. O português é mais triste.

Todos os dias desembarcam nas estações, mangas de gente engajada que sonhou e ainda vem sonhando. Vão até ao Brasil e são o que se chama emigrantes. Então pagam a patente à realidade. O emigrante, por via de regra, não sabe escrever. Soletra às vezes, mas é mais frequente não saber. Não sabendo ler, não tendo a confidência muda da escrita por derivativo, estes cérebros deitam-se a sonhar como nunca sonhou ninguêm. As histórias das princesas encantadas, as mágicas, os contos da carochinha e mil belezas populares foram criadas de-certo por quem não sabia ler nem escrever. O Sonho é a válvula. Ai daqueles pobres cérebros se não tivessem o Sonho! Terminariam no suicídio. Mas o Sonho é a miragem. Acreditou alguêm no Sonho? Sempre êsse alguêm pagou caro a sua confiança. Porque é certo: Só quem teve pesadelo acordou em realidade. Quem sonhou delícias acorda mais brutalmente—como alguêm que tendo vivido dois meses em quarto escuro o trouxessem de repente para a alacridade duma paisagem batida da soalheira.

Sonham em Portugal, na solidão tranqùila da sua choça e quási sempre vão acordar em longínqùas e estranhas terras. Olham em volta. Quem? Ninguêm amigo. Indiferentes, criaturas a quem a dôr alheia, à força de vista e assistida, embotou tôda a sensibilidade. A saudade é o pior inimigo do emigrante. «Saudade gôsto amargo de infelizes, delicioso pungir de acerbo espinho», diz Garrett. Mas a saudade é tudo. Se se vê o mar, é um vapor que vem, porque vem; se um vapor parte, ai quem déra ir com êle, partir tambêm com êle. São os poentes, duma melancolia infinita, são as noites estreladas e tropicais, são nuvens que passam correndo, farrapos de sonho, recordações da infância, cousas dispersas. Tudo é saudade. E o pobre animal, bêsta de carga, gaguejando comoções, tem nos olhos uma angústia latente, uma tristeza intraduzível, mixto de resignação, de sofrimento e dum consuntivo mal. Mas, parte. Armazenam-o a bordo, num dêsses casarões flutuantes, âmbito estreito, muito desabrigo, trato mercenário e uma grade que os enjaula num restrito círculo de vida. Ali dormem, comem e sonham promíscuamente. E naquelas longas noites de travessia, enxugadas as lágrimas da partida, estranguladas as saudades da largada, só o mugir surdo das vagas lambendo o casco e os ronquidos surdos da máquina cumprindo o seu fadário. Pobres almas divagantes, vão tambêm embaladas no sonho, confiadas, e não escutando, no marulho do oceano, a sua raiva fria e hostil, mas um cântico embalador, que traz de onda em onda, de vaga em vaga, as recordações distantes, a misteriosa correspondência dos entes queridos que ficaram em terra.


Chegados, caidos no vértice duma vida estranha, tudo lhes é agressivo. Os dignos de piedade são intrusos. Que querem? Ganhar a vida. Que sabem? E, quando os míseros mostram os braços, já está lavrada a sua condenação. Como a Terra Mater é saudosa! E começa a agonia de viver a vida que já viveram, porque não é outra cousa a saudade. Mas viver só imaginativamente. Se beijou vai-se para se beijar e estendem-se os lábios para o vácuo. Abraçou-se e é só o espaço que se encontra. Passa a viver-se aflitivamente. Pesa mais a enchada. A serra é colossal. E como a planta dos trópicos que conduziram à Groenlândia, ou como o símio que julgasse a banana definitivamente extinta da face da terra, a criatura amarelesce e pende. Há um remédio—o regresso. Quando partiu, se é sonhadora, padece, se é desprendida pode triunfar talvez. Mas quantas lutas? Quantos esforços? É por isso que os brasileiros,—é assim que se denominam os emigrantes que partiram cedo e foram enriquecer ao Brasil—teem quási todos barriga grande. Porque se acostumaram a armazenar o sonho no estômago. Saudades, recordações, qual!—comer, beber, ganhar. Mas são raros. Os que voltam veem desanimados. Os que por lá estão vão vivendo. Depois o emigrante é sonhador e ignorante. Duas más qualidades. Há ignorantes que fazem fortuna mas nunca ninguêm viu coalhar dinheiro a um sonhador.

São ambiciosos? Alguns. Outros partem com o fatalismo trágico de quem vai cumprir um destino. É o caso do vélho do quadro de Sieffert. Os ambiciosos ficam por lá, raramente voltam e geralmente o ambicioso verdadeiro é cosmopolita, não vive para a saudade nem para ninguêm que êle não seja. Por isso vence. Os outros vão e quási sempre ficam. Mas se voltam—pobres emigrantes—trazem um saquitelzinho com desilusões,—o espólio dum sonho morto,—um grande desânimo, a alma mais fenecida, o cadáver mais surrado e uma grande ânsia de voltar—que é isto que quási sempre traz o emigrante quando volta:—o saquitelzinho com o espólio dum sonho morto e uma grande ânsia, aquela infinita ânsia do regresso.

Gabriéllo d’Annunzio

Mão carinhosa e amiga manda-me de longe a última tragédia de Gabriéllo d’Annunzio. A edição é luxuosa e o livro chama-se La Nave.

Exactamente no momento em que o correio me bate á porta, leio eu Fradique Mendes na sua Correspondência. Não sei que destino mau nos pôs frente a frente de novo. Os livros são conhecidos vélhos e tambêm entre os livros, como entre os conhecidos, há íntimos. Pois encontrei-me de novo com Fradique aquela manhã em que dava uma volta pelas estantes, como se Fradique viesse Chiado acima, neurastenizado e aborrecido e eu lhe propuzesse uma cházada em comum. Devo declarar porêm, que Fradique não é meu íntimo. Fradique é um aristocrata, snob um pouco, e muito pretencioso. É tambêm um vencido da vida que se dá ares, mas confesso-lhes, prefiro aos vencidos os vencedores. Ia eu exactamente quando Fradique se revolta contra as «ideias feitas,» fala daquelle Cornuski, ou que o pareça, e diz das angústias críticas do russo. Diante das mais belas obras, Cornuski sentia a dúvida que o minava. ¿Não seria êle que não sabia ver? ¿Pois era lá possível que todos se tivessem enganado? E duvidando, achando as grandes obras sofríveis borracheiras, ou quando muito toleráveis banalidades, o desgraçado repetia para aturdir-se um pouco:—«Como é belo!»

Agora estou eu assim diante do livro do escritor italiano. Eu não tenho paixão por d’Annunzio.

Acho-o cabotino até ao infinito. O seu cabotinismo não se pode medir. O seu talento êsse sim. E duvido. ¿Será d’Annunzio o grande escritor que eu ouço dizer a todos? Debalde busco as suas obras, debalde leio os seus livros. Que demónio! Não me admiro, não me comovo, não rio, não choro, não sinto. Sim, porque nenhum dos livros de d’Annunzio nunca me fêz chorar ou me fêz sentir. São bem feitos, não resta dúvida. Mas que diabo! E dão-me ganas de o correr das minhas estantes. Desconfio muito que seja um intrujão.

D’Annunzio é para mim um belo decorador. A sua arte é scenografia pura. Há sempre flores e perfumes nas suas páginas. O lilaz é talvez a sua flor preferida. O poente a sua hora predilecta. Os seus heróis não amam, lirizam. Os seus personagens não falam, murmuram; não sentem, representam. E, para que ocultá-lo, apesar da sensualidade capitosa que os inunda, iria apostar que são todos castrados.

Para d’Annunzio o amar é assim como que uma oração, como que uma doce e suave embriaguez. Não é a rajada que passa, dominadora e perturbante, não é um cataclismo, não é uma tempestade. Não é. O amor nele é leve, muito leve, imaterial, bizantino e todo espiritualizado. Há sempre luar e sempre músicas celestes vibram psicologias profundas.

Mas eu leio d’Annunzio. Leio-o mesmo muitas vezes para ver se o percebo. E no meu espírito fica uma impressão muito vaga de tudo aquilo, muito vaga e muito dolorosa. Porque, decididamente, não tenho olhos para ver aquelas belezas tôdas e o meu espírito não pode, sem Bœdecker, penetrar naquelas regiões encantadas da prosa.

Um livro há que eu guardo, que leio com prazer e tenho como óptimo. É o seu Episcopo & C.ª e os seus contos. Êsses sim. Ponho-o a par dos deliciosos de Guy de Maupassant. Ali há sinceridade e eu sinto quando os leio. A operação feita a bordo do lugre Trindade e o seu São Pantaleão de pedra, que esmaga a mão a um dos condutores, que depois lha vai oferecer, são prosas magistrais. Mas, declaro: O Fogo é qualquer cousa de ultra-humano, de divino, do demónio que os leve, que não sei o que êle quere dizer. Não me falta vontade para o compreender. Mas aquilo ainda não é para mim. Linguagem para deuses só a deuses é compreensível. E, à hora do poente que êle tanto prefere, o céu lilaz, lilaz a terra tôda, a treva abraçando o mundo, vindo a curvar-se num beijo sôbre o dia que morre, eu volvo desanimado:

-Deve ser essa a razão!...

D’Annunzio representa o homem para quem o nó da gravata todos os dias é uma tortura. Tenho a impressão de que êle se perfuma e é incorregívelmente, viciosamente dandy. Da sua vaidade não falemos. Deve ser infinita a vaidade dêste pobre diabo, contou-me uma vez o Eclesiastes.

A sua prosa é tambêm assim. Não tem arestas. Tão harmónica, que parece ter cópula com a música. Ricamente vestida, mas só isso. É mesmo o que a caracteriza. Se o desideratum é agradar às mulheres, d’Annunzio deve ter conseguido, porque às mulheres agrada-lhes sempre o que não percebem. Depois, a feminagem perfumada que impregna os seus livros faz com que seja buscado com prazer e com prazer deixado. Daudet, na minha estante, está perto. E, devo confessar-lhes, eu adoro Daudet. Daudet é o poeta da vida. Objectam-me que d’Annunzio é um poeta. Mas Daudet faz a poesia da prosa, com princípio, meio e fim. D’Annunzio é indiferente. Leiam os senhores os seus livros por onde quiserem e encetem a leitura por qualquer página. Isso não fará diferença. Faz sempre sentido. Há lilaz em tôdas as páginas. Poeta foi Gauthier e eu ainda hoje o leio com prazer. Tem muito de misticismo êste Gabriéllo! diz uma dama. Pois bem, minha senhora, o lugar dos místicos é no céu. Queira dizer ao seu d’Annunzio que mude de feitio senão perdeu um freguês. E é que nunca mais o compro!...

Uma cousa curiosa que eu tenho notado é que entre os artistas que não teem gravata e aqueles para quem o nó da dita é uma preocupação, os primeiros teem sempre mais talento. Não sei porque, mas creio que entre um Verlaine que morre no hospital e um Gabriéllo que manda fazer o mausoléu em mármore, o do hospital vale mais. Mas eu não discuto! Os senhores não se zanguem, ou zanguem-se embora, que eu nada lhes levo por isso. Isto é comigo sómente. Se eu lhes digo que prefiro o Baudelaire ao Torquato Tasso!

Se d’Annunzio é poeta, é um parnasiano. Se é prosador, a sua prosa talvez seja poesia. Pela abundância de imagens, pelo colorido pouco vulgar, decoração e o não descrito, seja embora um poeta, como prosador gosto dele nos contos. As suas novelas não as entendo. Eis o que eu penso. De resto qualquer dos franceses ou dos espanhóis mas dá iguais. E se querem experimentar já lhes não digo que leiam d’Annunzio e logo Gauthier. Leiam por exemplo d’Annunzio e Suderman. Se vos não der a impressão que os livros de d’Annunzio são escritos por uma mulher, não sei que diga!

Tolstoi quando começou às punhadas a Shakespeare devia sentir a tortura do russo do livro de Eça. E todavia Tolstoi com tôda a sua mansidão, a sua paciência sofredora, a sua resignação passiva e néo-cristã não pode compreender a tempestade de paixões que é Shakespeare. Porque Shakespeare é o colosso do Ódio e do Amor, o Céu, a Terra e o Inferno. E eu penso que é preciso ser-se um vélho bruto para não compreender Shakespeare.

Outro tanto dirão de mim. Não compreender d’Annunzio? ¿O poeta do amor subtil, dos perfumes, dos lilazes, da volúpia perene, capitosa e aristocrata; o prosador imaterial, cheio de doçura, magistral, ilustre, divino, mirífico; a pena de ouro que traçou o Fuoco, o Crime, as Virgens? Eu sei lá! Mas é um crime! E estou repêso de confessar o meu pecado. Eu não sabia... E ponho-me a querer entender d’Annunzio. Tomarei um explicador. Porfiarei. A minha ignorância é lamentável. Mas, quando estou envergonhado e confuso um diabinho irónico vem e segreda-me ao ouvido que os outros, que o adoram, que o admiram, percebem-no tanto como eu.

Compreendo agora. É uma «ideia feita», o culto de d’Annunzio. E como o desgraçado Cornuski, eu, torcendo as mãos, na minha impotência de o compreender terei que murmurar desconsoladamente o meu:—«Como é belo!»

Um poema

(Carta ao general Henrique das Neves)

Meu amigo:

Já lá vai mês e meio de silêncio sôbre o recebimento do poema Apoteose Humana, que o meu amigo teve a gentileza de me ofertar em nome do autor. Só hoje lhe escrevo, mas lá diz o ditado... O amigo sabe o que o ditado diz. Pediu-me a minha opinião. Sem embargo dela ser uma opinião a pé, uma opinião infantaria, pacata, modesta e de bons costumes, vou dar-lha. Sou pouco amigo de dar, mas emfim...

Eu podia dizer-lhe cousas muito lisongeiras do poema do seu amigo. Podia dizer-lhe mesmo que ambos eram talentosos, modestos, bem criados, que recolhiam a horas, não fumavam, etc., etc. Mas não. Prefiro dizer-lhe abertamente o que penso, brutalmente, sem transigências nem banalidades. Portanto o que aí vai é rude, com a rudeza dum homem que não precisa para nada dos seus confrades em letras, consagrados, e não consagrados, e que vive «achando a quàsi todos os deuses pés de barro, ventre de gibóia a quàsi todos os homens e a quàsi todos os tribunais portas travessas» como já nos Gatos escrevia Fialho.

Bem se vê que o seu poeta, o sr. M. Joaquim Dias, nunca saiu do Faial. Se saisse não fazia poemas a uma cousa que não conhece senão em teoria:—O Homem. Mantegazza, que o estudou a fundo, sabe o que êle é; eu que lido com êle, ha muito sei o que êle vale. O que lhe digo em verdade é que êle nunca mereceu os versos do seu amigo.

O poeta julga o Homem pelos livros. Livros são, quàsi sempre, gramofones de ideias. Deixe-os cantar. Valia-lhe mais um ano de viagens do que ler todos os livros que tratam do Homem. É o seu amigo, médico? É teólogo? É psicólogo? É legista? Só assim se compreendia que êle conhecesse o assunto do seu poema. Porque o médico conhece o homem em tôda a sua miséria; o teólogo em tôda a sua estupidez; o legista em tôda a sua maldade, e o psicólogo em tudo isto junto. Mas o seu amigo é sómente poeta? Poeta, nada mais? Sim, isso vê-se logo. Poeta é sonhador. Os poetas teem ideias muito diversas de todos os outros mortais. São poetas e basta.

Pediu-me uma carta. A carta aqui vai. Se lha não envio particular, pelo correio, é porque receio que lhe introduzam algum décimo da lotaria espanhola e o amigo sofra transtornos por minha causa. Mais nada.


Logo no prefácio diz o seu poeta: «...Fiz, pois, uma apoteose ao Homem, a êsse ser que triunfou nas lutas terríveis do passado, que compreende os fenómenos e as leis e progride». Ora eu não admiro o Homem. Se algum sentimento tenho por êle ou é desconfiança ou desprêzo.

Deus, criando o homem à sua imagem e semelhança, foi um escultor bem medíocre. E pode limpar a mão à parede, se é essa a suprema manifestação do seu génio. Depois, maravilhosa forma de reclamo, deu às criaturas o poder de reproduzirem infinitamente a sua obra prima.

Ora diga-me, meu caro amigo: ¿Em que devemos admirar essa obra, essa vil e miserável máquina de ossos, nervos, músculos e tendões? ¿Que criou, que inventou ela de produtivo? ¿Inventou a dinamite, a melinite, a himalaíte? ¿Canhões que arrasam cidades, projécteis cataclísmicos, blindagens pavorosas? ¿E isso que vale? ¿Inventou os deuses, os reis, as religiões, os ritos e os dogmas? ¿E isso para que serve?

Antigamente, nos tempos primitivos, o Homem trocava um machado de pedra pela pele dum urso. Agora troca a mesma pele por umas pequenas rodelas de ouro, de prata ou de cobre, com uns números, a que chamou dinheiro, que são tudo, valem tudo e tudo podem.

Antigamente não pagava décimas, nem contribuições, nem impostos. Era senhorio da sua caverna e não necessitava de tomar óleo de fígado de bacalhau. Não tinha botas, mas não sofria dos calos. Com a invenção das botas vieram os calos, e com os calos o rifão que diz «quem tem calos não vai a apertos». Parece que o general vae concordando? Apenas falei em calos, pareceu-me ouvir dizer o meu amigo: «Diga-me cá a mim o que isso é!»

A mulher era nua e mentirosa. O homem era quási urso, porque o urso era quási homem. Ainda não havia médicos, nem boticas, nem literatos, e a poesia, meu caro amigo, tinha muito menos pau de campeche. O ar era de todos, a terra de todos era e cada um fazia o que muito bem queria. Depois é que veio essa pouca vergonha de arregimentar a gente, sob o nome de famílias, tríbus, nações, etc., que fêz com que viesse a praga dos chefes, chefes e mandões de tôdas as castas e feitios, qual deles mais nocivo e funesto: chefes de família, chefes de repartição, chefes de polícia, chefes de estado e até generais, meu caro amigo.

Os enterros eram todos iguais. Não havia enterros de primeira classe. Desconhecia-se o espartilho, a sobrecasaca, o chapéu alto, e as vantagens do algodão, que impinge por boa mulher o arenque mais chupado. Veja lá que temposinho!

Se os povos estavam em guerra era tareia bruta, mòcada de criar bicho. Mas não metia tiros. Era tudo a cacete. Ainda se não tinha inventado a metralhadora, o leque da Morte, nem a baioneta, uma navalha que por não se poder trazer na algibeira do fato, se traz pendurada à cinta, numa algibeira de lata.

Os deuses eram muitos, mas todos súcios, todos pândegos. E apesar de não haver jornais, todos sabiam perfeitamente o que se fazia no Olimpo. Se chovia é que Baco se empiteirara e que o vinho era branco,—que é bebida diurética. Vá vendo!

Caminhamos pois da liberdade para a servidão. ¿Onde está êsse progresso de que fala o seu poeta? Se êle me quere impingir que progredimos, porque mais isto, mais aquilo... temos conversado!

Quere um exemplo? ¿O general não padece de apertos de uretra? Ora suponha que padecia. Se fôsse no tal tempo vertia onde muito bem desejava, que ninguêm tinha nada com isso. Mas nestes tempos de progresso, vá o general fazer isso na rua, e verá o que lhe sucede. São dez tostões de multa. Vá vendo que progresso tão catita!

Mas que o progresso é indubitável... sim... não digo que não. Veja lá se nos tempos em que o homem se cobria de peles podia haver gatunos de carteiras! Isso podia êle. Ainda não havia bolsos! E se antes de se inventarem as casacas se corria perigo de confundir um criado de mesa com um conselheiro de estado!

Eu embirro com o meu semelhante. É, por via de regra, cínico, trapaceiro, mentiroso e velhaco. Li algures que êle era meu irmão... em Cristo. Deve ser intrujice, porque eu não conheço Cristo nem seu irmão.

Quando me estende a mão lá tem a sua fisgada. E eu desconfio logo que, se já me não embarrilou, está para me embarrilar.

Nestes tempos de progresso, tenho pena de não ser troglodita. Teria tudo que não tenho e sobejar-me-ia muito do que tenho. Seria feliz. Dir-me-há o general que hoje se sabe. ¿Mas que diabo de felicidade dá o saber que êles foram muito mais felizes do que nós? Olhe que saber alguêm feliz faz sangue mau. ¿E pode por acaso ser-se feliz, hoje? Não. E então podia.

Aí tem. Antigamente havia liberdade. A de hoje é só poética. O homem de hoje é um escravo e a sua carta de alforria é a morte. Se o general contesta lembro-lhe se não tem por desventura alguma décima relaxada. Não tem? Não tem, mas pode ter.

Como vê, não concordo com o tema da Apoteose Humana. Êle é de tal ordem que, se o poeta não merece que o general lhe dê oito dias de detenção, tambêm não é caso para louvor na ordem do dia.

Eu não concordo. Sou novo e conheço já um número avultadíssimo de patifes. O general é velho, deve conhecer muitos mais. O diabo então, que é velhíssimo, deve conhecer um pavor deles.

Já vai longa esta. Eu não sou maçador de profissão e já me ia tornando impertinente.

Desculpe-me e creia-me
um soldado raso de letras, bastante
insurreccionado.

Oriente

O trabalho é afinal uma cousa consoladora. Talvez a única felicidade que a vida tem. Trabalhar, trabalhar muito, o trabalho tornado ideia fixa, sem dar logar a outras ideias, sem dar logar ao sonho, sem deixar que a Fantasia arquitecte os seus castelos dourados em douradas bolas de sabão! Invejo os que assim trabalham. Zola invejava o trabalho rude dos operários. Ser marceneiro, ser carpinteiro, chegar a noite, ter a sua cadeira ou a sua cómoda pronta, e descansar! Todavia Zola era como poucos um trabalhador.

Lembro-me de Zola sempre que olho para a estante da minha livraria, onde se enfileira a obra vasta de Blasco Ibáñez. Eu, algures, já lhe chamei o Zola da Espanha. Cada vez que vejo a sua obra me convenço mais de que não errei. Sómente Zola era um rude e esforçado trabalhador, vindo ainda com um plano que nada conseguiu fazer mudar e, à semelhança de Balzac, pondo-o em prática numa série interminável de volumes. Blasco não. É um Zola sem plano. Talento robusto e pasmoso, não tem de Zola a testarudez orientadora nem o gigantesco e sintético sôpro insuflador. Mas para Zola espanhol está bem. Um admirável e correntio estilo, uma ironia às vezes contundente, amável outras vezes e sobretudo um poder pictural assombroso. Colorista intenso são verdadeiramente zolaescas as suas descrições. E até no aspecto humano se parece com Zola. Como Zola êle é um homem de bons músculos, nervos sólidos e uma pertinácia que chega a assombrar.

Vem isto a propósito do novo livro de Blasco. Intitula-se Oriente e é a reunião de crónicas suas publicadas em jornais espanhóis e sul-americanos. Tem êste volume na sua obra um número bastante elevado. No seu género é porêm o segundo ou terceiro. Blasco tem um livro adorável que intitulou Nel pais del arte e o Paris, reunião de artigos. O primeiro da sua viagem à Itália, crónicas maravilhosas de leveza e de transparência; o segundo das suas impressões da capital do universo, como os franceses pomposamente chamam à sua feia cidade. Êste, são impressões da sua estada em Vichy, estação de água célebre, e da sua visita ao Oriente das mil e uma noites, das princesas encantadas, das mulheres de véu na cara, dos serralhos, dos rajás, dos sultões, onde há sublimes portas e séquitos maravilhosos, pedrarias, lendas, desconhecidas floras, mulheres desconhecidas, sensações nunca experimentadas. É por isso que dentro da alma de cada artista uma mulher velada se debruça segredando-lhe—Ao Oriente! Ao Oriente! O Oriente é o desconhecido, será sempre o desconhecido.

Leiam-se embora tôdas as descrições desde as Cartas que os padres jesuitas escreveram do Japão no ano..., e das Peregrinações de Fernão Mendes Pinto até aos mais recentes trabalhos; leiam-se os autores franceses e inglêses que se esforçam por mostrar-nos o Oriente scientífica, artística e mentirosamente; leia-se tudo, leiam tudo o que quiserem, que sempre êsse desejo lhes empeçonhará a existência. Quem não foi a Paris anseia por ir lá. Depois quere ir mais longe. Mas emquanto não foi, Paris é tudo. Há criaturas debruçadas sôbre esta palavra: Paris, a Babilónia, onde a Arte é grande, onde tudo é grande, porque tudo é grande na fantasia. A cidade enorme, onde há esplêndidas mulheres, equipagens faustuosíssimas, nababos, banqueiros, artistas ante os quais o mundo inteiro boquiabre a sua admiração. Porque a criatura que sonha não sonha que as esplêndidas mulheres são ambiciosas vulgares onde só a toilette é alguêm, que as equipagens conheceram e conhecerão múltiplos donos, que os nababos são às vezes postiços, que os banqueiros são quási sempre escrocs, e que os artistas são sempre uns pobres diabos que se matam, que se arruinam, que se gastam a correr atraz duma quimera que com êles se encafua quási sempre dentro do caixão de chumbo ou de casquinha que os leva direitinhos, com a guia de marcha para a Imortalidade, a dormir no Père-Lachaise.

Ao Oriente! Ao Oriente! Chateaubriand foi ao Oriente. Foi lá tambêm Flaubert. Foi lá Maxime du Camp. Gomez Carrillo então quintessencia o maravilhoso nas suas impressões da viagem encantada—blagueur eterno, mixto risonho de fanfarrão espanhol e jornalista parisiense. Já Amicis, êsse Amicis, ultimamente morto, traçara as páginas adoráveis da Constantinopla. Pierre Loti então, postiço, sonhador e desdenhoso, contava as cousas com um ar de quem tinha o Oriente na algibeira. E para dizer que tinha, fizera da loucura realidade. Os seus salões eram orientais. E se alguêm duvidava, êle, correcto oficial de marinha, ciceronando, mostrava um Pierre Loti vestido de Buda, um Pierre Loti vestido de bonzo, ora hierático, ora pontifical, ora mandarinado, ora em uma cabaia de vulgar mortal.

Blasco Ibáñez escutou tambêm a mulher velada.

Tinha lido alêm de tudo isto aquele imortal louco que se chamou Julio Verne. Acreditava pois em maravilhas. Foi, viu e escreveu um livro, o que é uma linda vingança. Antigamente dizia-se chegou, viu e venceu. Daqui os amorudos lamechas fizeram o incomparável—chegar, ver e ser vencido. Isto é de molde dizer-se de joelho em terra, a mão no peito e assim um certo ar patético. Assim um certo ar bironiano, como se o pobre lord tivesse que ver com estas tolices. O escritor, porêm, lê, acredita, faz as malas, compra o bilhete, vai, roubam-no descaradamente em tôda a parte, é comido de percevejos cosmopolitas, percevejos que, tendo vindo da Cochinchina no couvre-pieds dum inglês, embarcam no outro dia na manta de viagem dum tirolês, encontra por tôda a parte caminhos de ferro, patifes, estradas reais intransitáveis, uma ignorância pasmosa e um fedor humano?! Que faz para se vingar? Puxa da caneta, uma caneta com depósito de tinta, puxa dos linguados e zás—sai livro. Em logar de contar o que passou, o que sofreu, as suas aventuras e os seus arrependimentos, as saudades que teve da sua casota e as vezes que torceu a orelha e ela não deitou sangue, não senhor! Conta cousas maravilhosas, fantasia, intruja e passa a balela aos outros. De tudo isto resulta um pouco: que todos os livros de viagem se parecem, exactamente como as cartas de amor, cujo fundo amoroso passional e estilístico está nesse livro de génio que se chama o Secretário dos amantes, tão genial que devia ser obrigatório, e que se não existisse se tornaria patriótico inventá-lo; e que as viagens me são extremamente aborrecidas, com o que ninguêm tem absolutamente nada.

Se o Oriente não trouxesse a etiqueta de Vicente Blasco Ibáñez, eu diria encolhendo os ombros e parodiando o verso célebre de Espronceda: «que haya un libro más que importa al mundo!» Mas não. Tive que o ler, e declaro que não perdi o tempo. O Oriente é curiosamente interessante, e interessantemente curioso. Há nele de tudo. Descrições maravilhosas, ironia fácil, graça, e de vez em quando até gravidade, uma gravidade nada protocolária, porque eu não sei o que isso seja em Espanha, quando me lembro da Marcha da Cadiz e do Morrongo.

Publicado primitivamente em crónicas, recolhidas agora em volume, êste livro nada destôa da obra de Blasco, mesmo se dissermos que Blasco é autor de livros maravilhosos como La Horda, Entre naranjos, Flor de Mayo e outros. E que, alêm disso, está horrorosamente traduzido em tôdas as línguas, como o Máximo Gorki, de quem um entendido me dizia outro dia: «Gorki é um mártir. Imagine que êle, escrevendo em russo, tem sido traduzido em tôdas as línguas e dialectos por aí abaixo». É assim uma cousa parecida com uma história contada aqui e que mil bôcas fôssem passando umas às outras até Alcântara. Cada uma tinha dado um átomo da sua originalidade. Tinha ido substituindo ou transformando. ¿Pois não é uma lei que «na natureza nada se perde, tudo se transforma»? Quando chegou a Alcântara a história está tôda transformada. Deixou de ser do seu inventor para ser duma sociedade anónima. Tal qual Gorki. «O Gorki em russo, diz o meu interlocutor, parece-se tanto com o que aí conhecemos, que foi traduzido do espanhol para onde havia vindo do francês e assim por diante, como uma galinha se parece com uma espada, para não dizer um ôvo com um espêto».

O Oriente deslumbrou Blasco. Foi, viu e publicou o seu livro. Acho bem. Acho bem, tanto mais que deu aos seus 20:000 ou não sei quantos leitores o prazer de ler um livro adorável e desenfastiadamente escrito, que nos põe bem com a arte e com as viagens.

E agora, que fechei o livro e me preparo para fechar a crónica, sempre lhes direi que o trabalho é uma cousa consoladora. Eu penso assim. O meu vizinho,—todo o cronista tem um vizinho pensador ou pensativo,—pensa que o trabalho é bom para preto. Não importa. Eu penso que o trabalho ainda nos põe bem com a vida e que, se assim não fôsse, eu não teria ido ao Oriente em espírito, não teria lido um livro magnífico e não teria gostosamente esportulado os seis tostões que me custou o livro de Blasco.

As flores

Certa ocasião em que, ido dos confins de Lisboa, me decidi a visitar o solitário poeta do Hereje e da Traição na sua casa da rua da Bela Vista, à Graça, ouvi dele, ao perguntar-lhe qual a sua flor favorita, a seguinte resposta: «Que sei eu, meu amigo? As flores são como as criaturas. Há nelas tambêm uma hierarquia. ¿Quem pode deixar de adorar uma dessas rosas do Japão, aveludada, enlanguescida, aristocrata, soberana? A rosa chá é uma duqueza formosíssima e decotada. Ah! a rosa chá! Mas tenho uma decidida predilecção pelo cravo rubro, o cravo sangue, estridoroso, flamante como uma bandeira desfraldada. O cravo petulante! A violeta é uma menina romântica. Há violetas que sabem de cor versos inteiros de Soares de Passos. A camélia é uma delambida. Não veste bem. Tem algo duma burguezinha carnuda e afectada. Mas não desadoro na sua humildade o cacto silvestre e a flor de lis».

Ora, como o meu querido Gomes Leal, considero que não há nada que se pareça tanto com uma linda mulher do que uma bela rosa. E por isso é que, sempre, ao ver uma rosa me lembro duma bela mulher. Ao ver um campo de flores, um jardim cuidado e mimado, como Alexandre ao espraiar os olhos pelo seu exército dum milhão de homens, não posso deixar de scismar em que tudo aquilo foi feito para morrer. Alexandre considerava que ao fim dum século nenhum de todo aquele brilho sobreviveria, nenhum dos seus guerreiros conservaria o seu porte marcial e humano. Eu, ao ver a montre dum florista, na falta de jardins por onde alongar os olhos, penso tristemente que nada restará daquela beleza ao fim de cinco dias. Envelheceram os cravos, murcharam as rosas, penderam os lírios, os amor-perfeitos secaram. O próprio funcho, o feto silvestre, êsses mesmos se vão secando. E de tôda aquela beleza nada resta, nada. Fôlhas sêcas, fôlhas moribundas, flores agonizantes. O tempo, impiedosamente, com sua mão gelada as tocou e lhes foi a pouco e pouco dando a morte...

Uma rosa branca é uma linda mulher. A mulher envelhece como a rosa; a rosa morre como a mulher. Conservo na minha vida uma grande saudade. Foi duma rosa branca, enorme, perfumada, que numa jarrinha, onde um par dulcíssimo e precioso, entrajado à Império e miniaturado à Watteau, dançava um clássico minuete, viveu, agonizou e morreu. Trouxera-a uma tarde, déra-ma não sei quem. Posta na sua jarra, depois de mil cuidados, a rosa era linda e desdenhosa. Linda e desdenhosa me acostumara a vê-la. Falava-me às vezes. O seu perfume dizia-me cousas estranhas, misteriosas, exquisitas, que me embriagavam, que me faziam sonhar.

Acostumei-me a corporizar a rosa.

Já não era uma flor com a sua anatomia que a botânica me ensinara. Era uma linda criatura, sonhadora, melancólica, fiel e amada, que me fazia feliz, mas que se definhava na sua solidão. A-pesar do calor dos meus beijos, do meu recolhimento profundo e magoado, ela foi-se «pouco a pouco amortecendo», como no soneto célebre de João de Deus. Uma dorida mágua a mirrava e entristecia. Sem saber porque, via a minha rosa tossir. Mimei-a. Incapaz de amar alguêm, de a alguêm ser fiel, ageitei-lhe o pouso, dulcifiquei-lhe a estada. Fui seu enfermeiro vigilante. A pouco e pouco, porêm, a-pesar-de todos os meus cuidados, emurchecia. Uma tristeza vaga entrou com ela. Perdeu o brilho. Do setim das suas fôlhas sumiu-se o lustro, e amarrotou-se como as saias de sêda que se metem a trazer por casa. Encarquilhou-se. E um belo dia, como aquela donzela dos versos de Vítor Hugo, que morreu valsando, a minha rosa morreu. Tombou da haste agonizante. Docemente, tristemente, assisti à sua morte. Vejo agora no fundo duma caixa, o seu caixão, aquela rosa que foi o meu único amor, e que é hoje a única saudade da minha vida. Porque amei estremecidamente aquela linda rosa aveludada cujo perfume ainda hoje me entontece. E não a posso ver, ao seu cadáver, uma múmia galante e ressequida, que não entristeça. Era tão linda!

Tambêm amo apaixonadamente as violetas. Diga embora o meu poeta que elas são românticas. Eu adoro os românticos, porque não sou no fundo mais do que um romântico que se travestiu em homem desta época para que o não roubem, para que o não assaltem, para que o não explorem, para que o não espanquem. Se adoro os românticos, é porque êles são afinal os únicos que sabem sentir e os únicos que souberam amar.

Camilo, o romântico apaixonado, amou outra vez ao escrever a D. Maria Izabel as cartas de amor que seu filho assinava. E pelo rapto foi uma flor que o vélho romântico indicou para dar o sinal no peitoril da janela da raptada. Uma flor! Camilo, que fôra um romântico tôda a vida, como um romântico amando, e odiando com uma sanha que só hoje se encontra nos vélhos alfarrábios, como um romântico morreu. Quem poria hoje uma flor? diz Alberto Pimentel. Ninguêm. ¿Tambêm, quem ama hoje as flores apaixonadamente? Um ou outro maduro que as cultiva, que as estremece e que as chora. Adoro as violetas. São simples e são modestas.

O perfume das flores é o espírito das mulheres. Há flores magníficas, supremas de graça, estonteantes de côr, que não cheiram. Não gosto delas. Há mulheres vestidas de setim, perfumadas a lilás, que não teem perfume. Quem as pode amar?

Os homens, querendo corrigir a natureza, fizeram flores de conta própria por cruzamentos e enxertos. Sairam flores macabras, flores canailles, flores que lembram cocottes, berrantes, auriflamantes, estonteadoras. Mas não cheiram. Não teem perfume. Como o pintor da antiguidade que encomendara ao discípulo uma Vénus e que êste lha apresentara ataviada, mas feia—gargantilhas de pérolas, barreira de ouro, colar de diamantes, pedraria em profusão—as flores cruzadas são lindas mas não teem perfume. E logo a resposta do mestre nos vem à bôca: Fizeste-a rica porque a não pudeste fazer formosa! É o mesmo. Porque as não puderam fazer perfumadas, fizeram-nas formosíssimas.

É agora a época das flores. Os dias de sol, lindos, dias tépidos como os de agora, fazem amar as flores, porque ¿quem as pode amar em dias londrinos, de nevoeiro e chuva? ¿Quem pode viver sem o perfume da violeta? Se não fôssem as violetas, a vida seria duma monotonia assustadora. E tão indispensável se tornam à vida que duma linda mulher sei eu que não pode viver sem elas. Quantas vezes, bocejante de tédio, neurastenizada, ela me diz parafraseando a frase célebre do filósofo alemão:—«Ah! meu amigo! Se não fôssem as violetas eu não gostaria de viver». Ao seu peito um ramo de violetas rejuvenesce eternamente. No seu toucador um frasco de violetas perfuma o ambiente e lhe perfuma a carne. À sua mesa certas são as violetas, em que os seus dentes gulosos se atufam, como nas fôlhas de rosa os dentes brancos dessa poética Madona do Campo Santo.

Depois destas flores mimadas, veem as flores modestas e as flores terríveis. Flores modestas, a papoula e o malmequer. «Mal me quer... muito... pouco... nada». Sina rudimentar, sina do acaso. Aos iludidos ela diz sempre falso: “Muito”. O tempo vem e afinal era “nada”. Como o malmequer mentiu?! O malmequer é sempre mentiroso. Se diz “muito” a gente duvida e tem sempre razão. Se diz “nada” a gente não acredita. E é por isso que falando êle sempre verdade, porque sempre diz nada, a gente o não quere nas jarras, o desfolha sem amor. Porque nós odiamos quási sempre quem nos diz a verdade sem lisonjas e sem paixões.

Nas flores terríveis temos a mancenilha. A mancenilheira é uma criatura diabólica. Persisto em corporizar as flores. A mancenilha é uma mulher, uma mulher que dá a morte. Uma daquelas mulheres que matam, sorrindo, que sorrindo arruinam, e que trazem consigo sómente a infelicidade. Nunca encontrei nenhuma mulher-mancenilheira. Eis aqui porque adoro a mancenilha, que não conheço. Porque a não conheço e porque dá a morte sorrindo.

Quanto custa uma mulher?

Tibério, filósofo machacaz e meu amigo, tendo lido nesse extraordinário doido que se chamou Nietzsche, que tudo pode ser pago porque tudo tem seu preço, veio a mim, resoluto e inquietador, saber qual o preço que em boa razão se deve dar por uma mulher. Tibério é um filósofo cheio de ironia azêda e eu, pobre de mim, confessando-lhe a minha ignorância, resolvi consultar os padres mestres, os calhamaços e os chavões. Áquele que perdêra os óculos a arrumar a livraria, aconselhou Castilho que os procurasse no Dicionário, letra O, que lá estavam. Pois nos livros,—nos livros há de tudo como na botica—devia vir por fôrça a resolução do problema.

Procurei, deitei abaixo a livraria e nada. Os meus livrecos eram todos, ou quási todos, subservientes. Em lhes cheirando a saias...

Tinha ideia dum tal Schopenhauer, filósofo de bôca amarga, estômago sólido e algibeira quente. O que êle dizia, porque todos estes filósofos dizem cousas, era pouco, mesmo muito pouco.

E Tibério esperava resposta, mãos nas algibeiras, perna traçada. Então?...

Suava. Guérin Ginisty dizia, isso lembrava-me eu, que, no fundo, uma mulher nunca resiste a bons argumentos: «Com quinhentos luíses, a mais segura delas, indigna-se... Com mil, defende-se... Com dois mil, perturba-se... Com mais alguma cousa, cede». Tibério amigo, aqui tem você! Foi o que se pôde arranjar! Mas Tibério sorria e fazia uma careta. Acho forte, respondeu! Dois mil luíses é muito! Acho caro! Muito caro, mesmo.

E Tibério, lesto, acabou o cigarro,—não sei se disse que Tibério fuma desalmadamente!—abriu a porta e foi-se.

Agora aqui fico considerando na pergunta. Fôra uma vergonha tanta ignorância junta. Mas, era a derrota de tôda esta livralhada de que me ufano tanto. Era a derrota de tudo isto, ante o gesto desdenhoso e a pergunta irritante dum filósofo safardana e impertinente. Nada, não tinha geito nenhum. Considerei, estudei o problema.

Já lá vai algum tempo depois da pergunta. Agora, se o bom Tibério me aparecer, mostrando o meu ar mais profundo e o meu mais retórico gesto, dir-lhe-hei:

«Tibério amigo: O preço duma mulher varia conforme as circunstâncias. Na Austrália compra-se uma mulher por uma garrafa de vidro, ou por uma faca ferrugenta. Hás-de concordar que não é caro! Na Cafraria, por uma quantidade de cabeças de gado bovino, quantidade que varia de dez a setenta cabeças. Na Índia, por um porco ou por bois. Mas, se deres mais de dez bois, já foste comido! Na Islândia compra-se uma mulher por um marco. Em pontos da África por uma garrafa de rum, e olha que não é barato! O rum sempre vale mais.

Entre os povos civilizados, o negócio é mais demorado. Casar com ela, é a fórmula. Então dá-lhe o nome. E ela vendeu-se ou porque sim, ou por ver a sua tranquilidade assegurada, ou porque o marido tem boa posição, é deputado, ou lhe pode dar vestidos. Há tambêm uma outra moeda. Essa, chama-se Amor.

O Amor é uma bebida e uma embriaguez. São duas criaturas que se encontraram e se propozeram beber do mesmo copo. Beberam até cair. Depois a bebida começa a repugnar-lhes e adormecem. Essa repugnância chama-se Saciedade e o adormecer, Esquecimento. Quem um dia adormeceu no amor ou quando acordou está curado ou não acordou jamais.

Ora eu, amigo Tibério, não acredito no Amor, cousa em que jamais algum homem forte acreditou. O amor é uma cousa para crianças, uma teia de aranha. É preciso estar quietinho para que ela se não rompa. Depois não acredito que tu ames! ¿Pois tu, com êsse carão ignóbil de farçola, sabes lá amar? Mesmo que amar é subalternizar-se. Quem ama curva-se. Quem ama, meu caro amigo, transige. Quem ama, sim, quem ama... emfim não te aconselho a que compres mulher nenhuma com essa moeda. Sai pelos olhos da cara.

Bem. Mas suponhamos que realmente a queres comprar por êsse preço. Eu te digo: Tu que a queres, é porque a desejas. Ora não há nada tão jesuita como um desejo. (Isto é de Balzac, mas tão profundo que parece meu). Mas desejar não é tudo. É preciso paciência, uma paciência enorme, uma daquelas paciências que vulgarmente se chamam paciências de ...cordato paciente. A paciência, ou leva ao triunfo, ou à cura. Com paciência, saberás esperar. As impaciências são nefastas e tão funestas em trato de gente limpa que Acácio, conselheiro, a caminho de presidente do conselho, diz que elas são próprias da gente ordinária. Acácio é chavão, Acácio sabe disso. Nada percebe de amor, mas tem dinheiro, e quem tem dinheiro, tem tudo e mais amor.

Ora, ia dizendo! com paciência descobrirás o fraco da pretendida. Lá diz Molière: Não é bem Molière, é Castilho, mas isso não tira nem põe:

Nem o mais forte resiste

Aos que no fraco lhe dão.

Que mais queres? Meio Brummel, um quarto de Tartufo e um logar no ministério da Fazenda deve chegar. E, se não chegar, olha que sempre te digo que é caro. É pela hora da morte. «Um animal de cabelos compridos e ideias curtas» como quere Spencer!

Acredito que, não a achando em conta, a não comprarás. «Não te deixes ir atrás dos artifícios da mulher» é o palavreado bíblico, e olha que é certo como as cousas certas.

Comprar a mulher em troca dum vitelo, como se faz na Hotentócia, não acho caro.

Em troca duma tanga vermelha e quatro penas de pavão para a carapinha, ainda está bem. Dum boi, se os bois abundam, ainda não está fora da conta. Agora comprá-la pelo casamento acho caro. O casamento «é um contrato perpétuo»... por tôda a vida, bem sei, diz o código. Ora um contrato por tôda a vida, para sempre, de que um homem se não pode evadir senão morrendo, acho duro. E é comprar uma cousa que não serve para nada e de que a gente se não pode desfazer vendendo-a a terceiros.

Nada. Não te aconselho êste meio. Pelo amor, vá. Amor com uma parte de indiferença e duas de desconfiança.

Mas Tibério amigo, isso é platónico? Estarás tu apaixonado? Apaixonado! Mas isso é inacreditável num scéptico, num ironista, num desenganado, num filósofo emfim. Como os filósofos são frágeis! Como o homem é afinal e no fundo uma pena leve que o vento levanta e muda. Como você, Tibério, se deixou apaixonar.

(Aqui Tibério protestará com a veemência dum deputado da oposição e eu rejubilo por o meu amigo Tibério ainda não ter escorregado).

Bem me queria parecer! você, amar! Você o mordaz, o cínico, o que diz conhecer os homens e as mulheres!

Olhe, Tibério, quere um conselho? Os homens fortes não amam. Amar é próprio dos fracos. Tenha sempre esta máxima à cabeceira. Guerra Junqueiro disse a Mercedes Blasco que pusesse à cabeceira da cama a vida de Cristo e a vida de Buda. Pois digo-lhe que guarde à cabeceira da cama a recordação do que lhe digo. Tenha sempre presente. O amor é como o toucinho, e dêsse diz Paulo Diacre, que todo acaba por criar ranço. Ora quem começa a amar acredita lá que o seu toucinho crie ranço algum dia!?

Tibério: Meu amigo. ¿Leu você nos jornais a notícia daquele homem que se suicidou em Paris, por causa duma mulher que o deixou? ¿Leu você a história daquele que, ciumento, furou a pele doutra com uma dúzia de punhaladas? ¿Leu você a daquele outro que, por causa dEla, matou o rival com uma cacheirada no toutiço? Leu você? Ora aqui tem exemplos dos que as compraram bem caro, se é que as compraram mais do que em Ideia. Veja você se pode passar sem isso. Não compre nenhuma. Veja se alguêm lha empresta, ou se a encontra. E se emfim sempre se puser a comprá-la, compre-a por tudo menos por essa tal moeda que se chama Amor. Não se apresse. Vem no Frei Luís de Souza... «As cousas são grandes ou pequenas, segundo a medida do desejo com que se buscam...» Quanto menos as desejar mais baratas lhe aparecerão.

E que pena que Tibério já se tivesse ido embora! Era um discurso tão bonito!...

Teatro nacional

As primeiras chuvas precederam a abertura dos teatros. Do Olimpo os deuses queriam significar com isso, numa profecia risonhamente marota, que o teatro nacional continuava a pedir chuva. Continua e continuará «per omnia sæcula sæculorum», vá lá o latim do Borda dágua.

Chegou o inverno. Pôs-se à mão o impermeável, sacudiram-se do pó as galochas e... abriram os teatros.

Mas há, em Portugal teatro? Certamente. Portugal tem um teatro seu e belos dramaturgos. ¿Esquecem-se então de Gil Vicente, de António José da Silva, o «Judeu», e de Garrett, que é moda apelidar o «divino»?

Todavia o teatro em Portugal a-pesar dêsses ancestros colossais, está decadente, como o filho dum gigante que esteja a morrer tuberculoso. Disso não resta a menor dúvida. Há artigos laudatórios nos jornais, escritos pelos interessados, que dizem que nunca êle esteve tão bom. E concluem que a peça do «nosso ilustre confrade e distinto dramaturgo X» é a obra mais pujante que as gambiarras teem visto, já se sabe depois do «Frei Luís», para que o Garrett não se esquente. Mas, deixem-nos falar. É tudo mentira. O teatro em Portugal está realmente decadente. Pergunta-se: De quem a culpa? De todos. Dos autores, dos empresários, dos actores e do público. Os autores porque gágás de todo dão pecinhas insexuadas, sem vida, sem cousa nenhuma; os empresários porque, gananciosos de ofício, o que querem é explorar a beatitude do público; o público, porque, acostumado por autores e empresários, os dirigentes, a fantochadas e bambochas, prefere a tudo quanto é arte, que o educa e o faz pensar, as revistas do ano, onde há piadas grossas, tangeres e bailatas com pernas à vela e muita afrodisia, nas frases, nas coplas, no ar, e até nas pernas. Dos actores, finalmente, porque, na verdade, bem poucos teem senso artístico ou o procuram ter, e grotesquizam deplorávelmente a mais simples rábula que lhes confiem. De quem é pois a culpa? Mais do que a ninguêm aos autores e aos actores devemos atribuí-la.

Vítor Hugo disse, no prólogo dos Burgraves, (há quantos anos isso lá vai), que «o teatro deve fazer do pensamento o pão da multidão».

Assim devia ser. ¿Teem os nossos encarregues de teatro tentado cumprir a verdade da frase do vélho de Guernesey? Creio que não. Os autores são boas pessoas, isso são! (quási todos meus conhecidos! ¿pois não é isto uma aldeia onde todos nos conhecemos?) mas erraram-lhes a vocação. Fazer teatro para êles, é fazer peças mexidinhas, e prender a atenção com carpinteiragens vistosas. Quanto à orientação educativa, é inútil perguntar-lhes. Êles só conhecem os direitos de autor.

Com outros então sucede o contrário; fazem teatro por vezo peceiro, e até pagam o scenário... se necessário fôr.

Entregue o teatro a criaturas que querem fazer vida, satisfazer a vaidade, ou carpintejar simplesmente, o resultado é o que os senhores estão vendo.

Quanto aos actores, quási todos são duma lamentável ignorância. E como não são artistas, mas mercenários, é inútil procurar-lhes a menor instintividade artística. Aparte poucas excepções, que eu apontarei se quiser, são tapados como portas de catedral. O teatro em Portugal é feito, como é feito tudo: por clichés. Um cliché para os pais nobres, outro para os Scárpias, outro para os galãs, outro para os centros. Dessa repetição ininterrompida temos que a gente não vê peças, vê actores. Bem pode a criatura, esfalfar-se no tablado:—«Pois se tu eras o filho do conde de Luna...»—que logo o espectador diz da platea: «Pois sim! Bem te conheço! Tu és, mas é o Joaquim Costa!»

Sem estudos prévios do meio, sem a precisa integração no personagem, sem recursos fisionómicos, o actor toma aquilo não como uma missão elevada de elevadíssimas responsabilidades, mas como um logar que é preciso desempenhar, assim uma espécie de repartição para onde se entra logo que o pano sobe, se descansa para uma pessoa ir lá dentro, volta e torna a ir àquela parte até que o pano baixa de todo, os bombeiros revistam, o gás se apaga e cada um vai para casa cear com a mulher e com os filhos.

Como não é artista e como não estuda, não tendo portanto intensidade dramática que o agigante, que o transforme, que o complete, êle fica sempre um mastigador de palavreado ôco, porque não transfiltra alma ao que retorica, cantilena ou fanhoseia. Não acreditam? É vê-lo. Nas scenas passionais, lamecha, uma lamechice de saldo, de conquistador de criadas de servir, nas scenas scarpianas uma catadura fera e um vozeirão—que não há criança na plateia que não chore. Para que o actor mereça êste nome, é necessário que vibre; que não seja uma criatura egoismada com os meses que lhe faltam para a reforma; que tenha no estudo uma paciência sherlockolmesca, que se ensimesme, e que crie; que busque na vida real o seu modêlo e por êle se guie; na maneira de andar, de gesticular, de encolher os ombros, de ter as mãos, de escarrar. Que finalmente, é isto que se lhe exige, que faça tiranos como os antigos actores do Príncipe Real os faziam. Tão fielmente verdadeiros que os espectadores os esperavam à porta da caixa para os desancar; ou com a fidelidade com que o Tasso, ali no mesmo tablado, onde êles gaguejam, representava. E tão verdadeiramente que até uma mulher lá do alto, das varandas, bradou—abençoado seja o pão, que aquele homem ganha!

¿Para que demónio havemos de estar a utopizar? O actor em Portugal é um amanuense ou um funcionário público, de que D. Maria é a direcção geral. Se o teatro está em baixo, deixem-me dizer-lhes! se não foram êles que o estragaram, eu tambêm não fui!

No teatro o único logar compatível com a bôlsa da multidão é o galinheiro. ¿O leitor nunca foi para o galinheiro? Pois olhe que é curioso.

Uma pessoa compra o bilhete e vai para a porta duas horas antes. Logo que esta se abre, deve galgar a escada dum fôlego à frente da matula para conseguir um logarsinho donde se aviste a caixa do ponto. Emquanto o pano não sobe, os espectadores, apertados como sardinha em canastra, travam conversas e arranjam conhecimentos. Um ou outro misantropo saca um jornal da algibeira e põe-se a soletrar. Os outros conversam. Fala-se de tudo: do tempo, do João Franco, da peça que vai, dos calos e da vida: oferece-se a casa. Entretanto sobe o pano. Tiram-se os chapéus, cospe-se, tosse-se e apuram-se os ouvidos. Começa a cousa. Mas com todos os santos da côrte do céu! Não se vê nada, não se ouve nada. Esta só pelo demónio!

E aí começa uma pessoa a estender o pescoço. Estende mais, estende sempre. Aquilo já não é pescoço, é um óculo de ver ao longe, é um telescópio, a sair duma camisa. Quem olha da plateia tem a impressão de que aquilo não são criaturas. São girafas, são camelos, são só pescoços, pescoços sem fim, com dois olhos vorazes, lá no cimo, a espreitar.

Isto são os que chegaram à frente. Os retardatários, êsses, então, não vêem nem ouvem nada. Ficam cá nas últimas filas a contemplar a beleza do lustre e as pinturas do tecto. Ás vezes por milagre sempre conseguem ouvir assim uma cousa parecida com a «passagem do regimento», em monólogo, conforme o fôlego do actor. De resto, silêncio absoluto.

Na impossibilidade de ver e de ouvir e depois de ter examinado bem o lustre, o tecto, o pescoço dos da primeira fila, o porteiro e os bancos, prepara-se o espectador para um soninho descansado. Mas logo por azar, de lá, das profundezas do palco vem por ali acima um berro:—Ah tirano!—e a criatura acorda assustada julgando que é fogo. Mas não, tudo voltou ao silêncio absoluto. Lá em baixo a scena continua com estas intermitências.

Ás vezes, quando um cidadão não só dorme, mas sonha tambêm, sempre lhe ferram cada susto?! Acorda estremunhado. Palmas. Ah! É o intervalo. Os da frente principiam a recolher o pescoço. O misantropo, que não pôde apanhar logar à frente e não largou o jornalsinho, embrulha o jornal e prepara-se para ir beber dois ao «Cesteiro». «Vinum bonum lœtificat cor hominis». O bom vinho alegra o coração do homem. E o misantropo, quando volta, traz o nariz que parece uma malagueta e sempre fede!...

A scena continua, os da frente estendem outra vez o pescoço e os de trás, à cautela, forneceram-se de pevides. Sim! Porque se uma pessoa não leva pevides, está tramada!

Se o teatro está decadente, não é por falta de «dramamíferos»—dramamíferos é boa!—porque até um deles enviou uma carroça de mão, cheia de peças, com a nota de que aquilo tinha um descontozinho para revender. Agora é que o teatro ressuscita. Dramaturgo raso que há anos trazia as peças dentro dum canudo de fôlha debaixo do braço, e que não lhas representaram, por má vontade da emprêsa, já se vê, vê-as agora representadas com a sábia medida de D. Maria. Agora é que vão aparecer. Shakespeares, Maeterlincks, Ibsens e Hauptmans. Mas no fim de contas do que eu estou desconfiado é de que esta emprêsa de D. Maria tinha um avultado parasitismo dramatúrgico sôbre si, que vai agora sacudir... representando-o.

Mas a arte, onde está? Que resulta de tôda esta cousa? Vale a pena a gente ralar-se? Não. De-certo que não. Não vale a pena. Calino, que na bilheteira pedira um logar que não fôsse por debaixo do lustre, para lhe não sujar o fato algum pingo de gás, acha bem. Eu tambêm. Acho óptimo, acho tudo o que êles quiserem contanto que não me macem. Tempo é dinheiro. E, caramba! Tudo isto somado não vale a ponta dum cigarro.

Mas o remédio? Deixemo-nos disso. Nada de fantasias, que isto de gizar planos e bandarrear profecias é como as contas do sapateiro. Saem sempre furadas. Afinal é clamar no deserto:—«vox clamantis in deserto». É tal e qual. Até vem nas Escrituras.

D. João da Câmara

João da Câmara (D.), cronista do Ocidente, autor dos Vélhos e da Triste Viuvinha, acaba de partir para a grande viagem donde se não volta. E agora, a esta hora que escrevo, se regozija êle na cela do seu caixão, cela dêsse «convento, que há alêm da Morte e que se chama a Paz». Êle não voltará jamais olhar-nos por cima da luneta, contar-nos uma anedota que o seu sorriso reticenciava, nem embalar-nos com o tom serêno, religioso, espiritual, da sua conversa tão segredada e insinuante.

D. João da Câmara era ainda, neste país de bacharéis, nesta pátria de futilidades e falcatruas, uma criatura que fazia vida àparte de cotteries e de políticas, que a vida levava como Deus era servido, e que por isso mesmo se tornou simpático a gregos e troianos.

Um bon viveur com perpétuas faltas de dinheiro, que a sua falta de tino administrativo e a sua generosidade fidalga explicavam prolíxamente, sem cuidados mais fundos do amanhã e sem que o hoje fizesse à sua maneira de encarar a vida descalabro grande; não havendo agiota que o não sugasse para não haver desventurado que, dentro do seu âmbito generoso e monetário, êle não protegesse; um boémio em tudo, se por boémio tivermos um abandono de horas, de convenções, de regularidades. Eis o que êle foi. Criatura sempre camarada, sempre amiga, sempre fidalga, não murmurando nunca dos outros, nada aziumeira e biliosa, sincera sempre no seu auxílio, a ponto de lhe forçarem a boa fé sem que tivesse desdens, a ponto de o intrujarem, sem que tivesse rancores, eis aqui como o conheci e a lembrança que conservo dele, o primeiro consagrado com quem me dei, se consagrado se pode chamar o que chegou primeiro e tem mais largos horizontes de protecção e crédito nominal, que nem outro crédito o escritor disfruta em Portugal.

A nossa camaradagem, e falo dela com orgulho, foi sempre boa, serêna, plácida. E dele três lembranças há, que mais fixativamente se me gravaram na memória. A da estatueta do escultor Silva Gouveia, uma flagrância bem natural, e a da penúltima vez que o encontrei, fazendo a ascenção penosa, uma ascenção asfixiante, da escada das Novidades, então no Largo das Duas Egrejas. Essa impressão é a mais viva. Uma impressão de ruína, de acabamento. Da última vez que o vi, foi na estreia das Rosas de todo o anno, do nosso Júlio Dantas, no palco de D. Amélia. Nunca mais o tornei a ver. Agora outra impressão me ficou: a do seu entêrro, em que se fizeram discursos que deviam ser proibidos, por convencionais, literaticos ou desageitados, e onde em tôdas as fisionomias vi a mágua sincera da sua perda, a ponto de grandemente me apoquentar a cara contristada, sofredora, de Lopes de Mendonça, outra criatura sincera e afectiva, e a de Eduardo Schwalbach, que nada tinha, nada, do seu mefistofelismo habitual.


Quanto à obra pública do escritor, outra é a minha opinião. Eu não creio que João da Câmara tivesse feito uma obra grande. Que fizesse uma obra sua não duvido, porque tôda ela é desigual, ressentindo-se das ocasiões em que a trabalhou, das circunstâncias em que a fabulou o espírito, e das impressões ou necessidades que a fizeram trasladar ao papel. Nem plano, nem harmonia, nem concatenação filosófica que a atravesse, nem fim a que se destine. Ela não é mais do que o espelho dum espírito cheio de lirismo, romântico por falta de leituras novas, sem concepção do mundo e dos outros e ainda o que é mais, sem que seja outra cousa do que produto duma travessia desordenada e fugitiva pelas regiões do sonho.

O livro póstumo ora publicado—A Cidade—é mais do que medíocre. São poesias soltas, cantando cousas banais, em versos banais, porque não foi, esta pobre alma de poeta, nunca uma alma tragediadora que sentisse a vida e as cousas com nervos de quem sente apressadamente. Natureza mole, um quási nada enxundiosa, a vida representou-se-lhe sempre como uma cousa calma e pacificada, demais tendo, como êle tinha, porque era um bom, o defeito de acreditar na bondade alheia. Assim, o seu lirismo são versinhos sem nexo à falta de idea que os vibre, e deixam-nos no espírito a impressão de que lhes deu forma uma criatura afeminada e criada entre armures e cousas fôfas. A cidade que o poeta viu é uma cidade banal, de lirismos contumazes de poeta principiante e água morna. Quanto à obra restante, bom será que a turba jornaleira, que não soube fazer um artigo digno e deu à jolda informatriz o encargo de dizer do passamento do malaventurado homem de letras, se não escagarrinhe de entusiasmo por peças que nunca viu representar, nem livros que jamais leu. E bom será, para que não venha provocar palavras de justiça quando são necessárias palavras de saudade. Babuje embora os seus pobres louvores, sem forma e sem gramática, a sua sermonada do costume em entêrro de conselheiros, mas não queira exercer, judicatura em cousas para que ninguêm lhe deu fôro. E que os mortos não sirvam, pobres mortos! para que um nome que não lhes serviu a êles, nos agiotas, sem fiador, venha levantar celeumas justiceiras e tornar-se ferrete ignominioso duma profissão.

Curioso é, como, tendo morrido o pobre D. João, há bem pouco tempo, já os jornais andam afervilhados para que a família do escritor não fique na miséria. E vá de explorar essa miséria fazendo jus a uma pensãosinha, pondo demais à cabeça do rol a encobrir, justificar e pôr o visto, o nome de Fialho de Almeida, sob títulos de que Fialho num artigo frisava o estado precário do poeta.

Há por certo engano. Os senhores estão enganados. Fialho não frisou o estado de miséria em que viveu D. João. O que Fialho fêz foi frisar o estado de miséria em que chafurdam os nossos intelectuais. Generalizou, não falou de D. João em especial. A miséria dos nossos intelectuais, se miséria se pode chamar um máu passadio, de horizonte limitado, em tudo é já sabida. É até uma tristeza mecher-se nisso.

Mas os jornais não param. Pretendem para a família de D. João uma pensão.

Ora, começa aqui o amargo. A família de D. João não a merece. Porquê? Porque não. Ficam escondidas várias razões que virão, se fôr preciso. Não a merece, como a não merecia a família de João de Deus e como a não merece a família do Eça.

A obra de D. João não é uma obra nacional ou com foros disso. O Estado pagou ao escritor como funcionário público. O Conservatório como professor.

Nada tem o país que ver com o resto.

Mas se os jornais querem dar uma pensão à família do escritor, que se reunam êles, as empresas teatrais, as casas editoriais, os agiotas e terceiros, para fazer a restituição de tudo quanto em vida lhe roubaram.

Pensão do Estado não pode ser. E não pode ser, porque o Estado é pobre e porque basta de precedentes. Eram 800$000 réis, não eram? Pois reclamem, reclamem êsses oitocentos mil réis para escolas, para que amanhã o povo dê ao escritor mais mil ou dois mil leitores. O Estado é pobre, o Estado não pode dar pensões a ninguêm, quando ha milhões de analfabetos. O Estado não pode ter parasitas, quando tem dívidas. Que dê pensão aos netos de Camilo, vá. Mas que as dê a todo o que se permitiu gastar o pouco que ganhou, sem nenhum interêsse para a arte nacional, é que não. Amanhã virão todos os que literatejaram e conseguiram nome reclamar. Virá... eu não digo os que virão. É melhor estar calado. Até eu, quando morrer, deixarei à família o requerimento.

Mas para que demónio nos obrigam a falar nestas cousas!?

Arte de Reinar

Senhor:

«Hum sabio disse que não havia n’este mundo homem que se conhecesse; porque todos para comsigo são como os olhos, que, vendo tudo, não se vêem a si mesmos; e d’aqui vem não darem muita fé nem de suas perfeiçoens, nem advertirem em seus defeitos; e ser necessário que outrem lhes diga o que passa na verdade. Se V. Magestade não se conhece, nem o mundo em que vive, e de que he Senhor, eu o direy em breves palavras».

O autor anónimo da Arte de Furtar começa assim o seu prólogo em palavras de ontem que parecem de hoje. Começa assim e não vai mal. Eu, porêm, não começarei assim. Chama-se esta crónica Arte de Reinar ou, para melhor, Da Arte de Reinar. Há várias crónicas e várias artes. Desde a Arte de cavalgar a tôda a sela, do mui erudito senhor e sábio eloqùente D. Duarte, que Deus, ou lá quem é, haja em sua santa guarda; desde a Arte da guerra do mar, de mestre licenciado Fernão de Oliveira, que a eternidade em sua santa glória haja; desde a Arte de Furtar, que as más línguas atribuem ao reverendo Vieira, até ao livro que se lhe contrapõe Arte de los estafadores, que traz trezentas ou quatrocentas maneiras de os evitar, como se os estafadores não tivessem ainda oitocentos golpes para as inutilizar; desde as artes, emfim, de Pedro das malas ditas até ao Livro ou Arte de ensinança dos principes, que quantidade de artes! Esta, de que hoje se trata, é a arte de reinar. Reinar não é assim uma arte muito fácil. É mesmo mais difícil do que o que parece. É mesmo muito difícil reinar nos tempos que vão correndo.

Para reinar, três predicados se exigem: Que o reinante seja um filósofo, isto é, que conheça os homens; que seja um scéptico, isto é, que não acredite na felicidade; que seja justiceiro, para que o que é de Cesar não vá parar a Paulo e para que Paulo não berre que Cesar lhe empolgou o seu quinhão. Ora, para V. Magestade ser um filósofo e conhecer os homens, não tem mais do que abrir a sua Arte de Furtar—se não tem, empresto-lhe!—no prólogo supra mencionado. Lá diz: «este mundo he hum covil de ladroens», e olhe V. Magestade que é verdade. Isto não é um vale de Lágrimas, é um vale de patifes. Cerque-se V. Magestade de homens honrados, mas não deixe de fazer como o esclarecido D. Luís, vosso augusto avô, fazia às caixas de charutos que tinha para consumo particular: pôr sob a tampa de cada uma, uma caixa de música, de maneira que por cada charuto surripiado ouça ao menos o intermezzo da Cavalleria, o intróito dos Palhaços ou o La donna é mobile do Rigoleto.

Não ouça V. Magestade mais do que o conselho do seu conselho, que é como quem diz a reflexão do seu juízo. Acredito que sejam todos muito honrados, mas bom será sempre conferir as colheres de prata. Se V. Magestade achar que a Arte de Furtar é pouco, leia Schopenhauer, um má língua sem precedentes, e o mais que a experiência lhe aconselhar. Ouça os conselheiros... Eu conto uma história a propósito de conselheiros. Li-a em um volume de José de Magalhães, escritor que deve ler, demais a mais colaborador da Luta, e vou dizer-lha dum fôlego: «Um dia que Çakia-Muni, príncipe jovem e feliz, a quem tinham ocultado as doenças, a velhice e a morte, saía com um séquito numeroso pela porta oriental da cidade, para se dirigir ao jardim de recreio de Lumbini, encontrou no seu caminho um vélho desdentado, decrépito e coberto de rugas, articulando com dificuldade sons desagradáveis. O príncipe, admirado, pergunta porque chegou aquele homem a tal estado. Em resposta consegue saber que todos os homens chegarão a estado semelhante, salvo se a Morte misericordiosa os tomar. Desconhecia o príncipe tambêm o que era a Morte. Mas doutra vez que saía a passeio topou no seu caminho um esquife em que levavam um homem que já nem respirava, nem pensava, nem gemia. Já não conhecia o sofrimento e poderia Çakia-Muni passar por êle cem vezes, que o vassalo submisso, dedicado e reverente, nem uma vez se ergueria para o saudar. Tambêm o príncipe não conhecia que cousa fôsse doença, quando o encontro dum vélho ulceroso, chaguento e miserável lhe veio patentear mais uma miséria a que estamos sujeitos, a que todos os homens se sujeitam, e a que mesmo réis ou príncipes, imperadores ou párias, se não podem furtar.

Foi então que Çakia-Muni deliberou não ouvir mais os seus conselheiros e considerar. E fêz bem. Fêz muito bem. Por ter ouvido demais os conselheiros é que aquele outro rei veio em fralda para a rua. Todos os conselheiros diziam que êle estava vestido com um estôfo maravilhoso, e tantas vezes lho disseram que êle acabou por acreditar. Exactamente como aquele Marques a quem tantas vezes chamaram Marquez, que êle acabou por se julgar assim. Foi preciso um garôto, um garôto insurreccionado, atrevido, irreverente, encarrapitado numa árvore, berrar lá de cima «O rei vai em fralda!» para que êle caísse em si e corresse aquela choldra dos conselheiros. Se algum dia os conselheiros disserem a V. Magestade que mais isto e mais aquilo, V. Magestade duvide sempre. Duvidar não fica mal aos mortais, embora êsse mortal seja um rei.

Para reinar bem, é preciso ser sábio, ser prudente, ser justiceiro, recto e generoso. É muito para um homem só, mas com um pouco de boa vontade tudo se consegue. Ser sábio ainda é o menos. E por essa história fora há tanto bom rei de letras gordas... Ser prudente e ser justiceiro são qualidades indispensáveis. Prudente como a Prudência e justiceiro como Salomão. Assim se governa a contento dos governados e os governados se contentam com quem os governa. Já se dizia isto no tempo de Gôngora, em que parece escrito, pelo trocadilho.

Para bem reinar é preciso conhecer os homens. Para conhecer os homens é preciso ou ser filósofo ou ter sofrido. E, que demónio! não é difícil ser um bocado filósofo e sofrer o bocado que lhe falta.