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OPUSCULOS

POR
A. HERCULANO

SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

QUESTÕES PUBLICAS

TOMO I

LISBOA
EM CASA DA VIUVA BERTRAND & C.ª—CHIADO, N.º 73

M DCCC LXXIII

IMPRENSA NACIONAL

*ADVERTENCIA PRÉVIA*

Havia annos que os meus velhos editores e amigos, os fallecidos Irmãos Bertrands, admiraveis typos dessa modesta austeridade e dessa nobre honradez, em todas as relações da vida civil, que eram gloriosa tradição da classe burguesa, e que a burguesia destes nossos tempos, ensanefada já de ouropeis fidalgos, não parece inclinada a manter com excessivo ciume; havia muito, digo, que os meus editores instavam comigo para que ajunctasse em volumes alguns opusculos, escriptos por mim e publicados por elles em diversas conjuncturas, cujas edições se achavam de todo esgotadas. Na sua opinião, eu devia incluir tambem nessa collecção outros opusculos, que, ou impressos avulsamente por minha conta, ou inseridos em publicações periodicas, tinham feito certo ruido, e não se encontravam já no commercio. Entendiam igualmente que nesta compilação de trabalhos sobre assumptos tão variados poderiam introduzir-se quaesquer outros ainda ineditos, que me não parecessem indignos de virem a lume, o que, no seu modo de ver, daria certo realce á publicação que se propunham, e em cujo exito confiavam.

Apesar das ponderações que me faziam homens tão experimentados nas cousas da imprensa, hesitei muito tempo em acceder aos seus intuitos. Após largos annos consumidos na vida agitada das letras, em que o meu baixel mais de uma vez fora açoutado por violentas tempestades, tinha, emfim, ancorado no porto tranquillo e feliz do silencio e da obscuridade. Olhava com uma especie de horror para as vagas revoltas da immensa lucta das intelligencias, contraste profundo da vida rural a que me acolhera. Depois, o espirito sentia bem a propria decadencia, cujos effeitos a interrupção dos habitos litterarios devia aggravar. Reflectia, sobretudo, no tedioso de rever escriptos, parte dos quaes remontavam a tempos assás distantes. Podia, na verdade, devia talvez, deixá-los passar como estavam, no que respeita á maior ou menor exacção das doutrinas, porque a pretensão á infallibilidade é sempre ridicula no individuo, e eu nunca tive tal pretensão; mas era indispensavel castigá-los em relação á fórma. O methodo, o estylo, a linguagem, as condições, em summa, da arte de escrever são, no mundo das letras, o que a boa educação, a cortesia, as attenções, o respeito para com os usos recebidos são no tracto civil, o que os ritos são nas sociedades religiosas. No ente que cogita, a idéa póde e ha de variar com o decurso do tempo, com a ampliação dos horisontes do pensamento. Sobrepõe-se gradualmente a verdade ao erro, e ainda mal que, outras vezes, é o erro que succede ao erro, quando não á verdade. Aprender quasi sempre é esquecer; affirmar quasi sempre é negar: esquecer o que aprendemos; negar o que nós proprios affirmámos. É por isso que, no meio de milhões de duvidas, cada geração lega á que lhe succede poucas verdades incontrastaveis, e que a lentidão do progresso real é um bem triste e desenganador dynamometro da tão limitada potencia das faculdades humanas. Não assim pelo que toca ás formulas externas das manifestações do espirito. O incompleto, o barbaro, o vicioso, o tolhido, o desordenado, o obscuro não são o revolutear do oceano das idéas: são simplesmente ignorancia ou preguiçoso desalinho, mais ou menos indesculpaveis.

Ora a revisão de escriptos de tão diversas epochas, ainda limitando-me ao exame da contextura e execução, repugnava-me. Era renovar o tracto com as letras no que ha nellas menos attractivo, na questão da fórma. E todavia, sem esse trabalho preliminar, não podia decentemente satisfazer os desejos dos meus editores, desejos que o ultimo d'elles, pouco antes de fallecer, ainda vivamente manifestava.

Mas, o que era na realidade esta repugnancia ao trabalho, embora fosse um trabalho ingrato? Era o egoismo dos annos derradeiros; o amor á quietação da intelligencia, que, no outono da vida, é em nós como o prenuncio da completa, da eterna paz. Para vencer esta enfermidade dos espiritos cançados e gastos, cumpre que surja nelles um incitamento poderoso, uma necessidade instante. Foi, porém, este incitamento ou esta necessidade que, a final, nasceu para mim, justamente das condições da vida rural.

Para o velho que vive na granja, na quinta, no casal, como que perdidos por entre as collinas e serras do nosso anfractuoso paiz, ha na existencia uma condição que todos os annos lhe prostra o animo por alguns mezes, doença moral, mancha negra da vida rustica, facil de evitar nas cidades. É o tedio das longas noites de inverno; das horas estereis em que o peso do silencio e da soledade cai com duplicada força sobre o espirito. Para o velho do ermo, nesses intervallos da vida exterior, a corrente impetuosa do tempo parece chegar de subito a pégo dormente e espraiar-se pela sua superficie. A leitura raramente o acaricia, porque os livros novos são raros. A decima visão da mesma idéa, vestida do seu decimo trajo, repelle-o, não o distrahe. As convicções ardentes, as alegrias das illuminações subitas, as coleras e indignações que inspiram e que, na mocidade e nos annos viris, enchem a cella do estudo de turbulencias interiores, de arrebatamentos indomaveis, de debates inaudiveis, de lagrymas não sentidas, de amargo sorrir, cousas são que se desvaneceram. Matou-as o gear do inverno da existencia. Desfallece-lhe o animo, mal tenta embrenhar-se na selva das cogitações, engolfar-se nas ondas dos pensamentos, que, em melhor idade, lhe roubavam á consciencia os ruidos longinquos e confusos das multidões, e aquella especie de zumbido obscuro que ha no silencio profundo, e as passadas tenebrosas da noite, e o surgir e o galgar do sol ao zenith, emquanto a penna inspirada arfava, deslisando sobre o papel, semelhante á véla branca da bateirinha, que, ao refrescar do vento, vai e vem de margem a margem, atravez da ria. Não: para o velho não ha a febre da alma que devora o tempo. Sente-o gotejar no passado, como os suores da terra que cáhem, lagryma após lagryma, pela claraboia de galeria deserta na mina abandonada. É verdade que a natureza compensa o esmorecer e passar do vigor e da actividade intellectual com a propria somnolencia do espirito, voluptuosidade da velhice, ameno e dourado pôr-do-sol, que se refrange no espectro da sepultura já vizinha e o illumina suavemente. Mas o dormitar do entendimento, para ser deleitoso enleio, exige o movimento externo e as singelas occupações e cuidados da vida campestre. Sem isso, e é isso que falta muitas vezes nas interminaveis noites de inverno, a inercia da intelligencia, que vagueia no indefinito sem o norte da realidade, vai-se convertendo pouco a pouco em intoleravel tormento; tormento no qual ha, por fim, o que quer que seja da céllula circular e esmeradamente branqueiada, onde o grande criminoso é entregue, sósinho, á euménide da propria consciencia. N'esta extremidade, por mais somnolenta e obscurecida que esteja a mente, por mais que ella ame o repouso, o trabalho do espirito, ainda o mais arido, é preferivel, cem vezes preferivel, ao fluctuar indeciso no vacuo.

Foi por isto que comecei a ajunctar os disjecta membra de uma grande parte do meu passado intellectual; a accrescentar, a cortar, a corrigir, a completar. Vencido o primeiro inverno, vi desapparecerem os marcos negros juncto dos quaes cumpria que longamente me assentasse ao cabo de cada um dos poucos estadios que ainda me restam a transitar pela estrada da vida. Que esta confissão ingenua sirva para ser absolvido da especie da correria que, apesar dos mais firmes propositos, faço, ainda uma vez, na republica das letras.

Os escriptos aqui reunidos, os quaes, na sua maior parte, foram inspirados por impressões momentaneas, perderam o interesse que lhes provinha das circumstancias que os provocaram; mas, ainda assim, podem ficar como marcos milliarios que ajudem a assignalar as luctas e o progresso das idéas em Portugal no decurso de mais de trinta annos que as datas d'esses escriptos abrangem. Naquellas luctas o auctor dos seguintes opusculos teve largo quinhão, e se, como é possivel, nem sempre a razão esteve da sua parte, esteve-o sempre a convicção. É do que lhe parece hão-de dar testemunho a propria contextura e o proprio estylo dessas composições, que não vinham só da intelligencia, que vinham muitas vezes tambem do coração. A demasiada vivacidade, a talvez exaggerada energia, com que frequentemente ahi são expostas e defendidas taes ou taes ideas e combatidas outras, revelam a indole impetuosa mas sincera de quem escreveu essas paginas. Foi, porventura, este o melhor titulo do auctor á benevolencia publica largamente manifestada; benevolencia que encontrou ainda em muitos que estavam longe de commungar com elle nas doutrinas para as quaes buscava ou obter o triumpho ou adquirir sectarios.

Ordenando esta compilação, não me adstringi nem a conservar rigorosamente a ordem das epochas a que esses varios escriptos pertencem, nem a distribui-los precisamente conforme a sua indole. Adoptei um termo medio, que me facilitasse ao mesmo tempo o trabalho de revisão, e me habilitasse para ir successivamente publicando qualquer volume á medida que o coordenasse. N'uma grande variedade de assumptos, o espirito não se amoldaria a reconsiderá-los nem pela ordem das datas, nem pela identidade da materia. A intelligencia é caprichosa, e duplicadamente caprichosa na sua decadencia. Attendendo em geral á natureza dos diversos opusculos, entendi que podiam dividir-se em tres categorias—Questões publicas—Estudos historicos—Litteratura.—Estas tres categorias constituirão tres series separadas, servindo-lhes apenas de nexo o serem uma collecção geral das minhas opiniões, quer em questões litterarias ou historicas, quer em questões sociaes. Assim, um volume seguir-se-ha a outro da mesma ou de diversa serie sem inconveniente para a publicação, e sem se tornar necessario que, n'um trabalho tedioso e frequentemente interrompido, a attenção se dirija por muito tempo e sem desvio para idéas até certo ponto congeneres ou pelo menos analogas.

Ajunctando aos titulos dos opusculos as datas em que foram escriptos, o auctor teve em mira habilitar o leitor para o julgar com justiça. Sem querer no minimo ponto fugir á responsabilidade das suas opiniões, entende que a responsabilidade será ora maior, ora menor, se porventura se attender á epocha em essas opiniões foram manifestadas. O decurso de trinta a quarenta annos, no turbilhão, cada vez mais rapido, em que hoje as idéas passam, modificando-se, transformando-se, é um periodo que corresponde a seculos nos tempos em que o progresso humano era sem comparação mais lento. As doutrinas, as apreciações criticas, os systemas, os livros quasi que envelhecem tão depressa como o homem. O pensamento que ha vinte annos parecia uma verdade nova póde hoje parecer apenas um problema não resolvido, e até um erro condemnado; a observação profunda de então ser hoje trivialidade; a critica subtil, que levou um raio de luz a certos recessos obscuros dos factos, achar-se incorporada e transfigurada em apreciação mais complexa que illumine dilatados horisontes. Por isso, a data de cada um dos opusculos contidos nos seguintes volumes é um dos elementos indispensaveis para estes serem avaliados com justiça e imparcialidade. Nem sempre fugimos á pressão das idéas que se manifestam ao redor de nós, e muito faz aquelle que algumas vezes sabe elevar-se acima das preoccupações ou dos interesses da epocha em que escreve.

Não se associarão a estas considerações, que sollicitam a indulgencia, algumas instigações do amor proprio? Suspeito que sim. Nos seguintes escriptos ha, em mais de um logar, idéas, previsões, affirmativas, negações que não raro grangeiaram para o auctor as qualificações de temerario, de paradoxal, de visionario. Em certos casos, o decurso do tempo encarregou-se de decidir de que lado estava ou a perspicacia ou a boa razão: em alguns, o paradoxo, a visão, foram-se lentamente insinuando em outros espiritos, e mais de uma vez o visionario primitivo veio a achar-se como sumido na turba de tardígrados visionarios. Que o facto não contribuisse para se datarem estes opusculos ninguem o acreditaria, nem eu pretendo negá-lo. Chamarão uns a isso orgulho: chamar-lhe-hão outros vaidade. E uns e outros terão razão. A vaidade e o orgulho que são, senão duas especies de um genero unico de fraquezas? O vaidoso é o que chama o mundo para espectador do seu orgulho: o orgulhoso é o que se colloca a si como unico espectador da propria vaidade. Symptomas varios de enfermidade identica: manifestações diversas de uma só miseria do coração humano.

A VOZ DO PROPHETA

1837

INTRODUCÇÃO

1867

Depois da epocha em que o seguinte opusculo foi publicado e dos factos que lhe deram origem, têem decorrido mais de trinta annos. Os homens que intervieram nesses factos dormem já, pela maior parte, debaixo da terra. Com raras excepções, restam apenas alguns dos que eram mais moços. O auctor da Voz do Propheta pertence a esse numero. Contava vinte e seis annos naquelle tempo.

O homem de hoje póde julgar imparcialmente o escripto do homem de então. O animo tranquillo póde avaliar a paixão que o inspirou. Aquelles a quem esse verbo ardente feria viram no auctor um partidario que friamente calculava os resultados politicos das suas palavras. Injustiça ou erro; o mesmo que havia da parte delle em ver nos homens que forcejavam por dirigir a revolta de 1836, por fazer sair desse facto um governo regular, grandes criminosos. A verdade era que, n'uns davam-se ambições, mas ambições talvez nobres; n'outros houve, de certo, o sacrificio das proprias sympathias, o silencio imposto ás proprias convicções, para que a revolta não degenerasse em anarchia. Em muitos desses individuos, apparentemente revolucionarios, havia o patriotismo reflexivo, e até a abnegação, emquanto em nós, os que os aggrediamos com a sinceridade da indignação, havia, por amor exagerado aos bons principios, uma colera que em muitas cousas offuscava a razão. A Voz do Propheta representa esse estado dos espiritos.

Hoje a exageração sincera do insulto, a invectiva hyperbolica, inspirada, não pelo calculo, mas pelas irritações da consciencia, mal se comprehende. Neste crepusculo da vida publica, tão favoravel ás prostituições do cidadão, como o crepusculo do dia ás prostituições da mulher; nesta epocha de extrema agonia, iniciada pela proclamação dos interesses materiaes acima de tudo, fórmula decente de sanctificar o egoismo, porque para cada individuo o interesse material alheio é apenas um interesse de ordem moral; agora que a boa educação dos homens novos mudou a linguagem politica, e vai arrojando para os archaismos historicos a lucta face a face, a punhalada pelos peitos; agora que a strychnina da allusão calumniosa e amena, o enredo tortuoso, a traição ridente vão expulsando da arena das facções as objurgatorias, rudes na substancia e na fórma, a Voz do Propheta é, sem duvida, uma composição agreste e brutal. Inutil como exemplo e modelo, servirá todavia como amostra do que eram as malevolencias da geração cujos raros representantes, hoje quasi estrangeiros no seu paiz, não tardarão a ir esconder no tumulo as ultimas grosserias que deturpam a suavidade dos costumes e as tolerancias de toda a especie dos cultos filhos de barbaros.

Os homens que em 1837 se aggrediam violentamente na imprensa e no campo tinham, de feito, habitos e sentir diversos dos actuaes. As febres politicas eram então ardentes, indomaveis, porque derivavam de crenças. Naquella epocha havia, como houve sempre, belforinheiros da politica; mas constituiam a excepção. O geral era gente baptisada com fogo e com sangue nas duas religiões inimigas do absolutismo e do liberalismo. Chamo-lhes religiões, porque o eram. A guerra civil, que terminara em 1834, tivera muitos dos caracteres das antigas cruzadas. Sobretudo nos primeiros impetos della, haviam-se practicado actos de abnegação, de constancia, de valor e de soffrimento sobrehumanos, ao passo que se perpetravam outros de bruteza e ferocidade inauditas. A maior parte delles, factos obscuros, individuaes, reiterados cada dia, cada hora daquelle prolongado paroxismo de grandiosa barbaria, não os registou, não os registará nunca a historia, talvez. E todavia, é isso que explica a proceridade da estatura moral dos homens daquelle tempo, estatura a que não chegaram, nem provavelmente chegarão as gerações subsequentes. Sem paixões violentas e exclusivas, não ha as energias que assombram. Então a existencia e os commodos e gosos della eram tão casuaes e transitorios, as privações e dores de tão completa vulgaridade, que dar a vida ou tirá-la aos outros pouco mais significavam do que acções indifferentes. Diante do fanatismo politico, a reflexão que discrimina o bom do mau, o justo do injusto, quasi que era puerilidade. Podia ceder-se, e não raro cedia-se, a instinctos generosos para com o adversario: a justiça em apreciá-lo moralmente, ou em respeitar-lhe os direitos, isso é que se tornara difficil.

Taes eram os homens que, depois de esmagarem a monarchia absoluta, vinham, emfim, a aggredir-se mutuamente na imprensa e no campo. A revolta, desmembrando o partido liberal, constituia dous partidos violentos, daquella violencia a que estavam affeitos e cujo embate devia produzir males profundos e em parte irremediaveis.

Esta scisão, logo depois da victoria, era difficil de explicar fóra de Portugal. Aqui entendia-se, embora derivasse de um facto injustificavel. A harmonia de opiniões, a unidade de crenças e intuitos dos vencedores dissipava-se, porque realmente não existia senão nas suas relações negativas. Negava-se, combatia-se o passado. Era no que havia accordo. As apparencias de união e conformidade creara-as a grandeza do perigo. A phalange é e será sempre o mais poderoso instrumento de guerra, moral e materialmente. Embora, porém, houvesse diversidade de doutrinas, o que havia mais era contraposição de interesses. Para as primeiras se manifestarem e tenderem ao predominio bastavam a liberdade da palavra oral e escripta, e a discussão parlamentar. Aos segundos, dada a impetuosidade e impaciencia da ambição humana, sobretudo nas raças latinas, não bastava nenhuma liberdade. Recorreu-se ao illegal, ao tumultuario, e a revolta de septembro de 1836 appareceu.

Quem a preparou e fez surgir? Não sei. Ostensivamente, os seus auctores foram a plebe de Lisboa e alguns soldados que se negaram a dispersar os amotinados. Os individuos que, depois de consummado o facto, tomaram nas mãos as redeas do governo, recusaram para si a paternidade daquelle féto político. Creio que, affirmando-se innocentes, falavam verdade; senão todos, ao menos alguns. Fugir, porém, á responsabilidade de uma situação, que aliás se busca fortalecer e constituir, é indirectamente condemná-la; é dizer não com a consciencia; sim com os labios. A sentença daquelle motim lavravam-na os mesmos que forcejavam por convertê-lo n'uma cousa grave. Por outra parte, o que me parece evidente é que os governos que cahem como cahiu o que existia, embora simulem de vivos, estão já moralmente mortos.

E o governo de então estava-o. Por grandes que os seus serviços ao paiz houvessem sido durante a lucta, o seu proceder depois da victoria não o abonava. Havia quem fizesse sentir isso, quem até desmesuradamente o exagerasse. Exageravam-no, sobretudo, os vencidos. Emquanto durou o ruido das armas, os lamentos destes não se ouviam; mas quando o estrondo cessou, e asserenaram os terrores, os queixumes foram-se convertendo em invectivas colericas, e tambem em accusações não raro ou justificadas ou plausiveis. A liberdade da palavra falada e escripta tinha-se conquistado não só contra os defensores da censura e do absolutismo, mas tambem para elles. Nas expansões da sua dor e do seu despeito, no pouco ou muito que essas expansões contribuiram para o descredito dos homens que mais cordialmente odiavam, tiveram os vencidos occasião de reconhecer que a liberdade humana, ruim em these, sobretudo para a salvação eterna, póde, em tal ou tal circumstancia, não ser absolutamente má.

Os depositarios do poder executivo tinham, porém, adversarios mais perigosos. No gremio liberal houvera homens, alguns de dotes não vulgares, que, ou por despeitos pessoaes, ou por falta de animo para affrontarem os trabalhos e riscos de commettimento desigual, ou finalmente por obstaculos independentes do seu alvedrio, tinham ficado extranhos á guerra civil, sumidos em escondrijos na propria patria, ou acoutados na terra estrangeira para escaparem aos impetos da tyrannia. Desaccordos nascidos no exilio entre alguns destes ultimos e os homens de valia de quem o Duque de Bragança se rodeiara quando emprehendia a guerra da restauração, não tinham feito senão medrar e azedar-se progressivamente por diversas causas. Estes desaccordos, que pareciam pouco importantes emquanto durou a contenda, apenas essa epocha tormentosa cessou, tornaram-se mais graves, porque os individuos que se haviam conservado como extranhos á lucta em que se lhes conquistava uma patria, tinham amigos e parciaes numerosos entre os que pelejavam e venciam. Constituido o regimen parlamentar, as malevolencias, mais ou menos latentes, converteram-se em hostilidade acerba. Esta hostilidade podia ter, e tinha em parte, motivos maus; mas, contida no ambito constitucional, era, até certo ponto, bem fundada e util.

Os estadistas, que, cercados durante annos de espantosas difíiculdades, souberam superá-las exercendo o poder, eram indubitavelmente homens de alta esphera. Podia reputar-se problematica a virtude de um ou de outro: a capacidade e a firmeza não podiam disputar-se a nenhum delles. Affeitos a reger o paiz com o vigor de uma dictadura, inevitavel emquanto durara a guerra, e com as formulas militares, custava-lhes esquecerem-se dos habitos dessa epocha, confundindo mais de uma vez, na praxe da administração, as duas idéas oppostas, de paiz libertado e de paiz conquistado. Por outra parte, os que muito haviam padecido queriam gosar muito, e o reino, devorado por discordias intestinas superiores ás proprias forças e exhausto de recursos, via comprometter o futuro da riqueza publica por larguezas, não só desacertadas, mas tambem juridicamente injustificaveis. Homens que teriam legado á posteridade nomes gloriosos e sem mancha, e que, mais modestos nas suas ambições materiaes, seriam vultos heroicos na historia, pagaram-se como condottieri mercenarios, ao passo que outros, depondo as armas e voltando á vida civil, exigiam ser revestidos de cargos publicos para exercer os quaes lhes faltavam todos os predicados; homens cujo unico titulo era terem combatido com maior ou menor denodo nas fileiras liberaes ou haverem padecido nas masmorras os tratos da tyrannia. A grande, a séria, a profunda revolução que se fizera no meio do estrondo das armas levara de envolta com os dizimos, com os bens da corôa, com as capitanias-mores, com toda a farragem do absolutismo, os antigos officios, moeda que por seculos servira para pagar algumas vezes meritos reaes, muitas mais vezes, porém, prostituições e villanias. Mas as funcções publicas, os empregos vieram supprir essa moeda, tomando não raramente cunho analogo, e distribuindo-se com a mesma justiça e cordura. Estes e outros erros e abusos que o governo commettera, ora por impulso proprio, ora para satisfazer as influencias preponderantes com que o poder tem de transigir, necessidade fatal do regimen parlamentar, e um dos maiores defeitos da sua indole ainda tão imperfeita, engrossaram rapidamente, com os muitos desgostosos e indignados, a parcialidade que na origem representava antes malevolencias pessoaes do que antinomia de doutrinas.

Foi por isso que a revolta de septembro, se não achou eccho pelo paiz, também não achou nelle repugnancia manifesta, e pôde na capital constituir-se e tomar em poucos dias a importancia que não tinha em si. A consciencia da propria impopularidade, o inesperado dos acontecimentos, talvez, até o tedio e cansaço de aggressões continuas, haviam feito titubeiar os membros do governo decahido, tornando-os inhabeis para séria resistencia, emquanto os seus adversarios aproveitavam o successo com a energia de inimizades encanecidas e de ambições até ahi não satisfeitas.

Os homens que entenderam ser do seu interesse ou do interesse do paiz fazer surgir daquelle estado anormal uma situação regular viram que a primeira necessidade era elevar o motim á altura de uma revolução. Faltava o assumpto. O derribar um ministerio não o subministra. Basta para isso a acção mais ou menos lenta, mas segura e pacifica, da liberdade da palavra, da imprensa e do voto. O povo que com estes recursos não sabe tirar os seus negocios das mãos de quem lh'os gere mal, é um povo ou que ainda não chegou á maioridade ou que já se arrasta na senilidade. Urgiam, porém, as circumstancias. Á falta de outra cousa, proclamou-se irreflexivamente a constituição de 1822 com as modificações que decretassem as futuras constituintes.

Tinha-se, pois, feito uma revolução para obter um projecto, um texto de discussão constitucional? Se o intuito dos amotinados fôra só derribar os ministros, o facto era excessivo, injustificavel e portanto illegitimo e criminoso; se porém o motim, nobilitado em revolução, tinha por alvo alterar as instituições, não menos digno de reprovação se tornava, porque era um crime inutil. A Carta encerrava em si o processo da propria reforma, processo aliás prudente, regular, exequivel. Partir da constituição de 1822, acervo de theorias irrealisaveis, se theorias se podiam chamar, de instituições talvez impossiveis sempre, mas de certo impossiveis n'uma sociedade como a nossa e na epocha em que taes instituições se iam assim exhumar do cemiterio dos desacertos humanos, era mais que insensato. A revolução, reconhecendo a necessidade de reformar o codigo que restabelecia, condemnava-o, e condemnava-se.

Parece-me que me não engano se disser que, em geral, aos liberaes mais illustrados e sinceros a nova situação politica repugnava altamente. Ponderavam que a mudança das instituições politicas de qualquer paiz por via de uma revolução é sempre um abalo profundo cheio de riscos, e que mais de uma vez, longe de produzir o bem, tem conduzido as sociedades á sua ruina. Sem rejeitar de modo absoluto as revoluções como elemento de progresso, é certo que ellas são um meio extremo. Só, talvez, a necessidade de combater o despotismo as justifique, porque só debaixo de tal regimen são impossiveis quaesquer outras manifestações da opinião publica, e não existe campo diverso onde a lucta do direito contra a força, das idéas novas contra os velhos abusos possa travar-se. Em 1836 essas manifestações não tinham porém obstaculo algum, e o campo onde as doutrinas podiam debater-se, os interesses contrapor-se, os partidos digladiar-se, era amplissimo. Se em taes circumstancias uma revolução fosse legitima, quaes seriam aquellas em que se lhe negasse a legitimidade?

Depois, nas proprias relações politicas, o espirito humano não se dirige unicamente pela reflexão. As paixões e affectos modificam e alteram as suggestões do raciocinio; porque o homem imprime necessariamente em todos os actos da vida as condições do seu ser. A favor da manutenção da Carta não militava só a boa-razão; militavam affectos, e affectos profundos. A Carta havia sido o grito de guerra do campo liberal em lide de um contra dez. Havia sido, digamos assim, a traducção moderna do Sanctiago! de Affonso I, do S. Jorge! do Mestre d'Aviz. Nas reminiscencias indeleveis de muitos de então, (bem poucos hoje) estavam ainda os vivas á Carta proferidos por labios que iam cerrar-se na morte, quando as bayonetas inimigas desciam inexoraveis sobre o peito ou sobre o ventre dos nossos soldados feridos e derribados[1]. Em nome da Carta se tinha desfeito o triangulo fatal do patibulo, e quebrado o ferrolho da masmorra e da enxovia, em nome della se tinham aberto para os foragidos as portas da patria que davam para os desertos do desterro, do desterro que é sempre solidão e desventura. A Carta fora como a estrella polar da esperança nos dias, tão longos, da fome, da nudez, das tempestades, do desalento. Vivia depois como envolta na saudade desses dias, acre e quasi dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos, mas que será provavelmente uma cousa inintelligivel para as gerações novas.

A razão, pois, e o sentimento falavam a muitos energicamente em favor das instituições annulladas. Falavam tambem a favor dellas a consciencia e a dignidade humanas. Tinham jurado manter essas instituições milhares e milhares de homens; milhares e milhares de homens as tinham nobremente mantido com o sangue, com as privações, com a resignação illimitada no sacrificio. Podem valer pouco os juramentos politicos; póde, até, ser absurdo o juramento em geral. Mas a quebra de promessas solemnes e espontaneas, seja qual for a sua formula, será sempre uma villania emquanto tiverem culto a honra e a lealdade.

Taes eram os principaes incentivos que induziam grande numero de liberaes a constituirem um partido hostil á nova ordem de cousas. A denominação de cartista, que esse partido adoptou, não correspondia rigorosamente ás causas da sua existencia, nem aos seus intuitos ou á sua indole. Mas representava até certo ponto isso tudo, ao mesmo tempo que era conciso, e facilmente comprehensivel para o vulgo. O cartista não reputava todas as instituições, todos os preceitos da Carta como a mais alta manifestação da sabedoria humana. Nesta parte os liberaes eram em geral eclecticos. Tanto o partido da revolução, como o anti-revolucionario nenhum tinha em si unidade completa de principios; nem entre um e outro havia senão antinomias parciaes quanto ás doutrinas de direito politico. No primeiro, que tomava por base das ulteriores reformas uma constituição democratica, exagerada até o despotismo das turbas, havia individuos para quem, como o tempo mostrou, as theorias da democracia ainda mais moderada eram altamente odiosas, ao passo que outros forcejavam por chegar, senão á republica, ao menos a instituições republicanas. No partido cartista dava-se o mesmo phenomeno. Todas as modificações do governo representativo tinham ahi fautores; tinham-nos, talvez, até, as doutrinas do absolutismo illustrado. A meu ver, a distincção profunda e precisa entre o cartismo e o septembrismo consistia em negar o primeiro o principio da revolução, dentro das instituições representativas livre e solemnemente adoptadas ou acceitas pelo paiz, e em affirmá-lo o segundo. Tudo o mais em ambos os campos era fluctuante e vago.

É essa a explicação de um facto que os homens daquelle tempo poderão testemunhar recorrendo ás proprias reminiscencias. Alistaram-se nas fileiras cartistas talvez mais individuos que haviam sido adversos aos ministros derribados, do que amigos e parciaes seus, ao passo que alguns destes abraçavam sem hesitar a revolução. De uns e de outros se deve crer que preferiam nobremente as suas opiniões aos seus interesses, ás suas affeições ou inimizades pessoaes. Para muitas dessas opiniões havia logar em ambas as parcialidades. Os que, porém, só attendiam á moralidade e cordura dos actos de administração ordinaria, lançavam-se, por via de regra, na revolução; os que, sem desattender taes questões, sem approvarem corrupções ou iniquidades a que eram extranhos e que tinham condemnado, remontavam a mais elevadas considerações de ordem moral e politica, abraçavam o cartismo. Não falo dos especuladores que se resolviam conforme as vantagens que se lhes antolhavam n'um ou n'outro campo. O proceder destes taes tinha na consciencia publica então, como depois, como sempre, uma qualificação conhecida.

Mas, dir-se-ha, como nessa epocha se disse, que entre o cartismo e o septembrismo se dava uma distincção mais radical e profunda. A Carta, outorgada por D. Pedro IV, representava o direito divino dos reis; era uma concessão de senhor, em vez de um pacto social, ao passo que a constituição de 1822, derivada da soberania popular, era a consagração das doutrinas democraticas. Considerada a esta luz, a revolução adquiria as proporções de um facto gravissimo, porque assentava a liberdade em novos fundamentos, e vinha a ser um passo gigante dado na estrada do progresso politico.

Na epocha, quasi exclusivamente liberal, em que se passavam aquelles successos, a resposta do cartismo a estas allegacões parecia facil. Não sei se o seria agora; agora que se tem achado e demonstrado, segundo parece, não prestar para nada o liberalismo. As intelligencias vigorosas da mocidade hodierna têem aberto caminho a theorias ou novas ou rejuvenescidas que nós os velhos de hoje e moços de então ou ignoravamos ou suppunhamos estereis, e talvez pueris, e de que sorriamos, quando alguns engenhos que reputavamos tão brilhantes como superficiaes, buscavam, evangelisando-as, jungir por meio dellas as turbas, más porque ignorantes, odientas porque invejosas, espoliadoras porque miseraveis, ao carro das proprias ambições. A questão da soberania popular não era precisamente o que preoccupava mais os entendimentos, cultos, mas tardos, daquelle tempo, e a democracia não apaixonava demasiado os animos, sobretudo os animos dos que haviam pelejado desde os Açores até Evoramonte as batalhas da liberdade, ou padecido na patria durante cinco annos, sem o refrigerio sequer de um gemido tolerado, as orgias do despotismo. Uns tinham visto de perto a face da democracia; tinham-na visto por entre a selva de oitenta mil baionetas que fora preciso quebrar-lhe nas mãos para a liberdade triumphar; tinham-na visto nas chapadas e pendores das collinas que circumdam o Porto, até onde os olhos podem enxergar, alvejando-lhe nos hombros os cem mil embornaes preparados para recolher os despojos da cidade da Virgem, da cidade maldicta, rendida e posta a sacco; outros haviam-na visto de machado e de cutello em punho, mutilando e assassinando prisioneiros inermes e agrilhoados. O liberalismo achara a catadura da democracia pouco sympathica. Restava a soberania popular. Essa funccionara durante cinco annos e dera mostra de si. A soberania do direito divino, repartindo com ella o supremo poder, provava que não era tão ignorante como a faziam. Tinha litteratura. Applicava, modificando-o, o verso:

Divisum imperium cum plebe Caesar habet.

As classes inferiores constituiam então, como hoje, como hão de constituir sempre, a maioria do paiz, e foi a esta maioria que ella entregou os direitos que cedia. Era a legitimidade consagrando outra legitimidade. Amavam-se, comprehendiam-se ambas. É que entre as extremidades ha contacto ás vezes. A democracia americana cuida ter inventado a lei do Linch. Puro plagio. Inventou-a em Portugal a soberania popular. Havia uma differença. Na America a plebe prende, julga, condemna á morte e executa; em Portugal o direito divino reservara para si o tribunal excepcional e o privilegio do cadafalso. Modesta no exercicio do supremo poder, a soberania popular limitou-se á prisão, ao espancamento, á multa, elevada, quando occorria, até o confisco. Se o incendio, o estupro, o assassinio se ingeriam ás vezes nesses actos judiciaes, era por simples casualidade. Manchas, tem-nas o sol. O mercador, o artista, o industrial, o professor, o proprietario urbano e o rural, o homem de letras, o cultivador, o capitalista, todas as desigualdades sociaes, todos esses attentados vivos contra a perfeita igualdade democratica conservaram por muito tempo dolorosas lembranças do amplexo das duas soberanias.

O liberalismo, que durante a contenda fora um pouco aspero para com a democracia, mais de uma vez tambem, empregara sacrilegamente a prancha do sabre e a coronha da espingarda para cohibir o excesso de zêlo administrativo e judicial da soberania popular. A brutalidade do liberalismo obrigara esta a abdicar após a abdicação da soberania de direito divino. Os dogmas, pois, em que se estribava a constituição de 1822, e contra os quaes protestava a historia, ainda palpitante, dos ultimos annos, eram inefficazes, porque os tornava impotentes a heterodoxia das consciencias. Duvido de que nesses rudes tempos de positivismo liberal elles obtivessem uma só conversão sincera.

O amor do real e do evidente era um dos grandes defeitos dos homens de então. O cartismo argumentava: «Que nos importa, dizia, d'onde veio a Carta? A questão é se ella consagra a liberdade humana e a cérca de garantias. É deficiente? É defeituosa? Esperemos que a razão publica, a torrente da opinião force os poderes do estado a completá-la, a corrigi-la. A opinião illustrada largamente preponderante é irresistivel nos governos livres. O que não é irresistivel é a opinião de alguns ou de muitos que benevolamente se encarregam de interpretar pelo proprio voto o voto commum, o voto dos que têem capacidade para o dar.—«Não se reputaria louco, accrescentava o cartismo, o representante de uma familia outr'ora opulenta, mas reduzida á miseria por espoliação remota, que, ao vir, por impulso espontaneo, o descendente do espoliador restituir-lhe os bens extorquidos, repellisse aquelle acto de nobreza e virtude, achando desar recuperá-los pacificamente? E se tal desar existiu; se a outorga da Carta e a tacita acceitação do paiz não podiam, aos olhos da metaphysica politica, elevá-la á altura de um pacto social, os immensos sacrificios que o restaurá-la, depois de abolida, custou á parte mais illustrada, mais rica, mais activa e laboriosa da nação, ás forças vivas da sociedade, e as torrentes de sangue e de lagrymas que serviram de sacro encausto á assignatura do paiz não valeriam bem o plebiscito da maioria inintelligente, o plebiscito daquellas classes inferiores que pelejaram até o ultimo extremo, senão com valor, de certo com ferocidade, para conservar essa monstruosa e horrivel soberania que a servidão lhes trouxera?

Tem passado trinta annos depois daquella epocha; as paixões tempestuosas de então fizeram silencio, e o cartismo e o septembrismo são dous cadaveres sepultados no cemiterio da historia. O auctor da Voz do Propheta contempla tão placidameute o seu opusculo como se mão extranha o houvera escripto. A experiencia e os desenganos fazem-no sorrir daquellas coleras, daquellas hyperboles dos vinte e seis annos. Quantos erros, quantas ignorancias em muitas das suas opiniões desse tempo! E todavia, ainda os sentimentos que inspiravam o cartismo no seu berço lhe parecem nobres e elevados, as doutrinas que constituiam a sua essencia solidas e justas. É innegavel que o credo democratico, em que os adversarios se estribavam, tem desde essa epocha adquirido numerosos sectarios. O velho liberalismo passa de moda. O dogma da soberania popular, proclamado como supremo direito, substitue o unico direito absoluto que elle reconhecia, a liberdade e os fóros individuaes. Isso passou: agora a igualdade civil, que era um consectario do dogma liberal, transfere-se para o mundo politico, e um nivel imaginario passa theoricamente por cima de todas as desigualdades humanas, perpetuas, indestructiveis. A paixão da liberdade esmorece, porque a absorve e transforma a da igualdade, a mais forte, a quasi unica paixão da democracia. E a igualdade democratica, onde chega a predominar, caminha mais ou menos rapida, mas sem desvio, para a sua derradeira consequencia, a annullação do individuo diante do estado, manifestada por uma das duas formulas, o despotismo das multidões, ou o despotismo dos cesares do plebiscito.

O partido cartista tinha por si as grandes e recentes recordações, a consistencia politica, os bons principios que representava, e, sobretudo, o sensato e practico das theorias que predominavam entre os seus membros. Mas a eiva moral quasi que lhe começou no berço. O seu primeiro erro foi adoptar por chefes os homens eminentes que, pela gerencia dos negocios em situações difficilimas, tinham concitado contra si, como succede quasi sempre e a quasi todos, a animadversão publica, talvez a da maioria daquelles mesmos que acceitavam agora a sua direcção politica. Deviam honrar-se taes homens, embora muitos dos actos da sua administração não podessem defender-se, porque esses actos eram bem pequeno desconto aos immensos serviços que a liberdade lhes devia. Tomá-los, porém, por guias era acceitar uma parte da sua responsabilidade; era polluir a pureza das doutrinas com as manchas da fraqueza humana; era, sobretudo, arriscar que a irritação das paixões e os intuitos de desaggravo dirigissem o procedimento de um partido novo e cheio de vida, que só deveriam inspirar a razão tranquilla e a applicação logica das proprias doutrinas. Deste primeiro erro nasceram as tentativas infelizes de contra-revolução. Essas tentativas não podiam reputar-se crime, porque o elemento revolucionario tinha entrado como formula politica no direito publico do paiz, mas eram altamente illogicas em relação á índole e ao symbolo do cartismo. Por outro lado, o governo da revolução mostrava-se, ao mesmo tempo, tolerante para com as opiniões e energico em cohibir excessos. Por isso o partido cartista podia contar com a victoria incruenta que na urna lhe havia de dar o paiz; victoria para os principios, e não desaggravo para as paixões irritadas. Que este resultado era seguro, provaram-no os factos. Vencido na guerra civil, desauctorisado e moralmente enfraquecido, o cartismo viu triumphar em grande parte as suas idéas na contextura da constituição de 1838, votada por umas constituintes onde os vencidos estavam representados por insignificante minoria. Era a condemnação solemne da revolução, lavrada por um parlamento eleito debaixo da influencia della. O que no novo codigo politico parecia mais opposto á indole da Carta era a organisação da segunda camara, e todavia o cartismo adquiria por aquelle meio uma arma poderosa para de futuro reformar constitucionalmente o que havia mau na recente organisação de um dos corpos colegislativos, de modo que nem se restaurasse o absurdo pariato hereditario e illimitado, nem a assembléa conservadora significasse apenas a interposição de uma parede entre duas porções de parlamento unico. Uma vez que o senado procedia simplesmente da eleição, logo que o cartismo obtivesse a preponderancia eleitoral, dominaria completamente em ambas as camaras. Dentro em dous annos, de feito, o predominio do cartismo era indubitavel.

O ulterior procedimento deste partido estava estrictamente determinado pela sua origem e pelo seu passado. Como vimos, não era tanto a sua indole menos democratica, o seu apego á liberdade e aos direitos individuaes com preferencia a tudo, que o caracterisavam. Sans opiniões, erradas opiniões, havia-as tanto n'um como n'outro campo. O que constituia a essencia do cartismo era a lealdade ao juramento; a lealdade viril no cumprimento da palavra dada pelo homem honrado quando a dá no pleno uso do seu alvedrio. Os cartistas tinham feito tudo quanto materialmente podiam, mais do que moralmente deviam, para supprimir a revolução. Não o tinham conseguido, e ella fechara o periodo da sua duração, protestando na lei politica decretada pelas constituintes contra a propria origem, contra a sua razão de ser. A constituição de 1838 era um campo neutro onde todos se podiam encontrar pacificamente e procurar, sem sair da legalidade, o predominio das respectivas opiniões.

E o cartismo entrou naquelle campo. Quando o paiz viu os homens que tão tenazmente haviam mantido a fé que deviam ao seu juramento, jurarem solemnemente o novo pacto, acreditou que falavam verdade, e que o cyclo das revoluções terminara. Passados tempos, a urna provava aos cartistas, de modo indubitavel, que nas classes influentes, nas forças vivas da sociedade, a preponderancia era sua. No fim de tres annos podia-se dizer que o triumpho moral do cartismo estava consummado. O poder e o futuro pertenciam-lhe.

Um facto inopinado veio então desbaratar todos os calculos, desmentir todas as previsões. Uma grande parte, ou antes a maioria desse partido, cuja essencia era a lealdade a solemnes promessas, e a execração das revoluções no seio de um paiz livre, hasteou subitamente a bandeira revolucionaria, substituindo ao motim da plebe o unico motim peior do que elle, o da soldadesca. Quebrando inutilmente o seu ultimo juramento, derribava a constituição do estado e proclamava o restabelecimento da Carta pura, que, sem os acontecimentos de 1836, os mesmos homens que a achavam agora um codigo perfeito teriam constitucionalmente modificado. É que á victoria dos principios faltava um laurel, o desaggravo do amor proprio offendido. O partido cartista suicidava-se juncto, ao altar da vaidade, e amortalhava-se a si proprio, morrendo, no estandarte da revolução.

Depois houve muitos que continuaram a chamar-se cartistas, porque os vocabulos são propriedade dos homens, e a propriedade, conforme o velho direito, consiste na faculdade de usar e abusar. Era como os graus e veneras das ordens de cavallaria extinctas. Enfeitam, mas correspondem ao nada. Symbolos vãos sobre um sepulchro. Para a historia, como a historia ha-de ser quando de todo houverem calado as paixões dos que intervieram nessas tristes luctas, o cartismo tinha expirado com a restauração da Carta.

[Nota de rodapé 1: Assim vi morrerem alguns soldados do 5.° de caçadores e voluntarios da Rainha no temerario reconhecimento de Vallongo, que precedeu a batalha de Ponte-Ferreira.]

A VOZ DO PROPHETA

PRIMEIRA SERIE

Et irruet populus, vir ad virum, et unusquisque ad proximum suum: tumultuabitur puer contra senem et ignobilis contra nobilem.

ISAIAS, III-5.

I

O Espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vai, e faze resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade.

E eu obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos.

Povo!… breve soará a tua hora extrema: tu mesmo a assignalaste no decorrer dos tempos.

O anjo exterminador vibra sobre ti a espada da assolação, e tu danças e folgas ebrio das tuas esperanças.

Essa terra que pisas crês que é um solo remido por tuas mãos: repara porém; olha que é um sepulchro.

Amplo é o sepulchro de um povo: dentro em breve tu ahi calarás para sempre.

Creste-te forte, porque sabes rugir como a panthera: mas somente Deus é grande.

Encheste o vaso das tuas iniquidades; elle trasbordou, e a terra ficou polluida.

Maldictos os nomes dos que accenderam o volcão popular; nomes abominaveis perante o céu e a terra.

Portugal foi pesado na balança da eterna justiça, e a Providencia retirou a mão de cima delle.

Derribem-se os altares, cerrem-se as portas dos templos: Deus já não acceita os sacrificios, nem ouve as preces deste povo, senão como uma expressão de escarneo.

E como o aquilão varre a folha secca do outono, o sopro do Senhor varrerá da face da terra esta raça corrompida e immoral.

II

O que tem ouvidos para ouvir ouça: o que tem olhos para ver veja: o que tem coração para se contristar, contriste-se.

O povo tinha a liberdade e quiz a licença; tinha a justiça e quiz a iniquidade: o povo perecerá.

Desgraçado daquelle que anda fóra dos caminhos do Senhor: correndo despelado por despenhadeiros, sentir-se-ha por fim baqueiar no fundo de um precipicio.

Porque a lei e a virtude foram postas no mundo para proveito do homem, não para proveito de Deus.

Quando uma nação quebra todos os laços sociaes, della será todo o damno.

Para as turbas o cheiro do sangue é perfume suave; o roubo gloriosa conquista.

E ellas se fartarão de sangue e de rapinas com a voluptuosidade atroz do anthropophago que se banqueteia com os membros semivivos do seu semelhante.

Porque a plebe desenfreiada é como o phantasma do crime, como o espectro da morte, como o grito do exterminio.

Horrível é o aspecto do empestado, que, entreabrindo o lençol que lhe servirá de mortalha, descobre as pustulas, donde mana a podridão e o cheiro da sanie, e que por entre os labios amarellos e os dentes cerrados deixa fugir o som rouco do estertor.

Mas para o homem honesto, que contemplar uma scena das raivas da plebe e ouvir as suas blasphemias e vir as faces hediondas dos homens dissolutos, será como allivio a asquerosidade das chagas, o halito podre e o rouco estertor do empestado.

III

E o povo continúa a dançar em roda do seu mesmo sepulchro.

E as outras nações meneiam a cabeça em signal de compaixão.

Os tyrannos sorriem e dizem por escarneo aos homens virtuosos: ide, e dae a liberdade ás turbas: erguei á dignidade de homens livres servos devassos e educados no lodo: elles vos pagarão com a unica moeda que guardam em seus thesouros.

A relé popular é chamada as fezes da sociedade, não porque é humilde, não porque é pobre, mas porque é vil e malvada.

O sabio e o virtuoso indigentes são mais nobres do que os grandes da republica, do que os dominadores da terra.

O ferrete da abjecção e da infamia estampa-se em qualquer fronte sem excepção de berço, e aos que trazem este signal de reprovação é que a philosophia chama escoria da sociedade.

A medida por que Deus conta os graus dos meritos da vida é a da pureza de coração; é a do aperfeiçoamento da intelligencia.

Os typos das diversas alturas a que sobe o espirito humano na carreira indefinita da perfeição formam como uma pyramide, cuja base assenta no fundo de um tremedal, cujo ápice se esconde no interior dos céus.

Muitos nasceram no infimo da pyramide e subiram a grande altura: outros de grande altura desceram a mergulhar-se no lodo.

E tanto a uns como a outros julgará a immutavel justiça de Deus.

IV

Os soldados da liberdade morreram nos combates da patria e misturaram o seu sangue com o sangue dos satellites da tyrannia: os seus ossos alvejam nas serras e nos valles, como alvejam as ossadas dos servos com quem combateram.

Foi sasão essa de abundante messe de almas puras para o céu. Consolem as lagrymas dos justos as cinzas desses valentes.

Eram apenas um punhado; a morte ceifou os mais delles; o resto já não tem força senão para pranteiar sobre as ruinas da patria.

E o vidente pranteiará com elles, porque o Senhor lhe amostrou o futuro.

Se os homens do desterro e das tempestades podessem levantar-se da sua jazida, a terra de antigas glorias ainda seria salva: mas elles dormem o perpetuo somno do repouso.

E foi o ultimo leito honrado em que portugueses se reclinaram no seu dia extremo.

Felizes os que então se despediram do sol e misturaram com a terra o pó que lhes emprestara a terra.

Os dias dos que restamos não eram ainda contados; porque nossos erros pediam a punição do opprobrio.

O Senhor nosso Deus é justo; curvemos a cabeça diante da sua
Providencia.

V

Formosos eram os tempos em que pelejavamos pela liberdade do povo; tão formosos, quão negros estes em que a plebe peleja pela licença.

As nossas armas vomitavam a morte: semeiava-a tambem o inimigo pelas nossas fileiras: e nós estavamos firmes nos pincaros das montanhas, ou, descendo, faziamo-las resoar debaixo de nossos pés.

E arrojando-nos aos contrarios, as bayonetas reluziam á luz do sol; e o tinido dos ferros encontrados, e o clamor dos feridos, e o estampido dos tiros reboavam pelas quebradas dos valles.

Quando a victoria, embora sanguinolenta, nos coroava a fronte, o triumpho era para nós um delirio; porque o combate fora de homens valentes.

Na historia do soffrimento humano a mais bella pagina é a historia do nosso soffrimento. Nem a peste, nem a fome, nem a desesperação de todo o humano soccorro dobraram a robustez de corações ousados.

Porque pelejavamos por uma causa justa, e Deus estava comnosco.

Por serranias agrestes e aridas combatemos debaixo de sóes ardentes, e as entranhas mirravamse-nos de sede: tinhamos os labios resequidos como a urze já morta, e humedeciamo-los com as lagrymas da dor, e supportavamos a sede.

Encostados a mal construídos vallos e cercados por quarenta mil soldados, vigiavamos pelas noites longas e tenebrosas do inverno. A chuva cahia-nos em torrentes da atmosphera densa sobre os membros mal-vestidos, e o oeste sibillava em nossas armas.

Ou se as cataractas do céu se vedavam, o frio leste trazia-nos o seu sopro envolvido nas geadas dos montes penhascosos.

Cruelissimas eram estas entre as noites crueis desse tempo; porque ao redor de nós tudo estava devastado, e não havia um unico tronco para alimentar a fogueira do arraial.

E o frio recalcava a vida toda no coração do soldado; e elle sem um lamento soffria o rigor de noite dilatadissima.

A fome apresentou-se diante de nós: medonho era o seu aspecto: os membros desfalleciam-nos e as armas por vezes nos cahiam das mãos.

Mas o amor da patria estava vivo em todos os corações. A Providencia infundia-nos valor, e soffremos sem murmurar a fome.

Gloria a Deus!—Os ultimos portugueses saíram illesos da prova. Os antigos cavalleiros os receberam como irmãos lá onde são com o Senhor.

Bemaventurados os que deixaram esta terra de lagrymas, porque não viram que o seu sangue fôra derramado em vão.

VI

E depois dos combates íamos sepultar os mortos.

No campo da batalha abria-se uma grande cova, e simultaneante se lançavam nella os cadaveres de amigos e de inimigos.

Porque além do limiar do outro mundo calam todos os humanos odios.

E o tecto de terra estendia-se sobre os muitos que ahi dormiam no mesmo jazigo.

E algum pranto derramado sobre o pó revolto, e as preces da igreja proferidas pelo sacerdote consolavam os extinctos.

Plantava-se a cruz sobre a gleba para consagrar a memoria dos mortos; para pedir a esmola da oração ao que passasse, e para lhe annunciar que todos os que alli repousavam eram irmãos por Jesu Christo; eram irmãos pelo sepulchro.

Perdoavamos para sermos perdoados: perdoavamos porque eramos fortes.

VII

Alevantou-se a plebe, e logo commetteu um crime.

Agitava-se e ondeiava pelas ruas com clamor inintelligivel; arrastava-a o espirito das turbulencias civis.

Um homem inerme passou por entre os amotinados: era um dos votados ao exterminio: muitos tiros e golpes partiram do meio da turba, e o homem cahiu exangue e sem vida.

E arrastaram até o cemiterio publico, ao som de injurias e risadas, esses restos que a morte sanctificara. As maldicções do odio mais profundo param á beira do tumulo. A maldicção popular, essa é que não parou ahi.

Soterraram por meio corpo o cadaver e cuspiram naquellas faces lividas aonde já não podia subir do coração o rubor, e que os olhos cerrados não podiam já mundificar com lagrymas.

E esse homem assassinado e arrastado e cuberto da escuma fetida da gentalha, fora um dos que salvaram o povo do cutello dos tyrannos.

Plebe: commetteste um assassinio, e serás julgada. A ferro morrerá o que ferir com ferro: disse-o o Propheta do Golgotha.

Deixaste acaso a face da tua victima descuberta para monumento do crime?

Quizeste porventura desafiar a eterna justiça, e convocar a combate o
Regedor dos mundos?

Se na tua maldade e soberba assim o pensaste, sabe que baldada foi a profanação da sepultura.

Se nos confins da terra sumisses o morto; se o escondesses nos abysmos do oceano; se o arrojasses na cratera de um volcão encendido, lá Deus o havia de divisar.

Porque todo o gemido do moribundo resoa até o throno do Eterno.

Preparae-vos, vermes, se tanto ousaes: porque o Senhor se erguerá sobre os orbes, e o estridor da setta exterminadora sibillará atravez do Universo: ella se cravará na terra que pisaes e passareis como o fumo.

Ai daquelle que, impenitente, acordar ao som da ultima trombeta tincto no sangue injustamente derramado de algum de seus irmãos!

Em verdade vos digo que para esse já não ha perdão, mas só o ranger de dentes e o bramir sempiterno.

VIII

Povo! Onde estão os teus sabios, os teus generaes, os teus nobres, os teus abastados, os teus homens virtuosos!

Os timidos escondem-se diante da tua sanha: os valentes, não podendo combater com as turbas, erram no oceano á mercê das tempestades.

E é a segunda vez que se affrontam com ellas por amor da liberdade e da lei.

Deus proverá os foragidos, como provê de sustento os animaes que vagueiam na terra e as aves que cruzam os ares.

E os timidos que, ouvindo o rugido da plebe, se embrenham por antros de serranias, por profundezas de bosques, confiem tambem no Senhor.

Porque delle vem a salvação para os bons no dia da cólera e do castigo.

Que os perseguidos se consolem lembrando-se dos proprios erros, porque ninguem se isenta da culpa, e antes remi-la neste valle do desterro, do que além da sepultura.

O que padece não deve queixar-se, nem rebellar-se contra a Providencia: porque essa queixa inspira-a a soberba.

Que é um homem em comparação de uma cidade; uma cidade em comparação de um povo: um povo em comparação do genero humano; o genero humano em comparação do Universo?

E que intelligencia é capaz de medir a distancia que vai do primeiro ao ultimo?

Milhões de milhões de vezes menos importa a existencia de um individuo na somma das existencias, do que na pyramide de Cheops o mais miudo grão de argamassa importa á solidez do monumento.

Emquanto vive na terra, o homem é um atomo na immensidade: grande será depois da morte no reino do céu; grande ainda entre os bramidos do inferno.

Porque para elle existe a eternidade só então: só então comprehende a omnipotencia de Deus.

IX

Cinco annos em nome do Evangelho uma parte do povo perseguiu seus irmãos, e cobriu-os de opprobrio.

Em nome do Evangelho pregoou-se o odio, a vingança, e o perjurio: em nome do Crucificado pregoou-se o incendio, o roubo, o sangue e o exterminio.

Mas o dia da punição chegou, porque as lagrymas da innocencia orvalharam o seio de Deus.

Elle estendeu o seu braço, suscitou os ousados, e conduziu-os de milagre em milagre. Então os impios dobraram a cerviz altiva.

As nossas victorias foram de homens fortes; mas a robustez de animo vinha-nos daquelle que é fonte e origem de toda a humana virtude.

Vestia-se então a maldade dos trajos puros da religião para perpetrar impunemente crimes: hoje abriga-se á sombra da arvore sancta da liberdade para assolar a terra da nossa infancia.

Ai dos maus, porque os olhos do Todo-poderoso lhes vêem nus os corações em toda a hediondez da sua perversidade!

A justiça celeste nunca dorme, como na alma do criminoso nunca se cala o remorso.

E a hora da tribulação e das angustias chegará para os malvados; e elles amaldicçoarão o ventre materno e os peitos que os amamentaram.

X

Povo! os que hoje saudas como numes, ámanhã fa-los-has em pedaços, e arrastarás pelas ruas os seus cadaveres cobertos de feridas e pisaduras.

Porque, bem que tarde, conhecerás que elles te hão enganado.

Prometteram-te abundancia, e achar-te-has faminto; prometteram-te liberdade, e achar-te-has servo.

A licença mata a liberdade; porque se livremente opprimes, livremente podes ser oppresso; se o assassinio é teu direito, direito será para os outros assassinar-te.

Se a força, e não a moral, é a lei popular, quando os tyrannos tiverem mais força, legitimamente podem pôr no collo do povo um jugo de ferro.

Ministros da tyrannia são os que suscitaram a lucta das facções, os que deram o primeiro grito da revolta, os que accenderam a guerra civil;

Porque a nação se dilacerará, e enfraquecida passará das mãos da plebe para as mãos d'algum despota que a devore.

Lembrae-vos da Serpente, que enganou nossos primeiros paes: foi com palavras sonoras, com promessas de gloria e de ventura que ella perdeu a ambos.

Dado que para vós não houvesse liberdade e elles vo-la offerecessem á custa de perpetuo damno, devieis tê-los por vossos destruidores.

Porque a liberdade não é tanto um fim como um meio: quer-se a liberdade não tanto para as nações serem livres, como para serem felizes.

Que importa o respeito de propriedade ao que nada possue? Que vale a liberdade da palavra para o que só tem de proferir maldicções e queixumes? Que monta que os vossos pares vos julguem, se o odio das facções nos fez inimigos uns dos outros?

Sem concordia, inevitavel é que o edifício social desabe: e porventura nascerá a concordia do meio das sedições?

XI

Se no coração de algum dos concitadores da anarchia existe vislumbre de virtude, ai delle! Ai delle, se a sua alma é inteiramente negra!

Porque de qualquer dos modos um abysmo está cavado debaixo de seus pés: na estrada do arrependimento o da vingança popular, no seguimento do crime o da justiça de Deus.

Elles revelaram á multidão o segredo da sua força, e as turbas os levarão diante de si.

O leão ruge livre na arena, e o conductor que o desatrellou cumpre que mais ligeiro lhe preceda na carreira, aliás será o primeiro que elle desfaça entre as garras.

Aquelles que hoje são o amor das turbas serão chamados por ellas para presidirem a conselhos de sangue, a longos dramas de destruição e de angustias.

E se a consciencia lhes clamar com a voz do remorso, e se tremulos quizerem retroceder, a plebe lhes dirá—ávante!

E se ousarem implorar piedade para com as victimas do desenfreiamento e da barbaridade, rir-se-ha a plebe, e gritar-lhes-ha—ávante!

E se, aterrados da altura do precipicio, voltarem atrás um passo, este passo será o extremo: a plebe os anniquilará.

Elles encheram o calice das amarguras publicas: os justos o beberão aos tragos; mas as fezes serão para os escanções do banquete popular.

A salvação unica do instigador de revoltas e uniões está em admittir todas as consequencias dellas.

E então forçoso lhe é tornar-se conspicuo no crime e revolver-se no sangue.

Mas qual será a eternidade de tal homem?

Deus não deu palavras ás línguas da terra para o dizerem. É esse um dos mysterios do inferno.

XII

Temo as horas caladas da noite, e o coração aperta-se quando o somno me pesa sobre as palpebras amortecidas:

Porque para mim o somno não é repouso, e os phantasmas das sombras são mais crueis do que as crueis realidades do dia.

Deus converteu a sua voz no meu pensamento e collocou nos meus labios o grito da sua colera.

O seu verbo desfará a minha alma, como o ar aquecido dilatando-se dentro do vaso o desfaz em fragmentos.

O espanto cerca-me no meio das trevas, e o futuro está parado diante de mim como um pesadello eterno.

Em um momento reune o Senhor na minha alma as dores com que por largos dias gemerá esta desventurada patria.

E, em sonhos, oro ao Deus de nossos paes; mas na sua ira o Altissimo repelle as minhas preces; e acordo debulhado em lagrymas.

Este acordar arremessa-me á vida actual, a esta atmosphera de depravação, ao meio do deshonesto tumultuar de um povo corrompido.

E a oração, que em sonhos ousara levantar a Deus, cahe gelada na terra ao som das pragas e blasphemias da turba desenfreiada.

XIII

Eu vi uma visão do futuro, e o Senhor me disse: vai e revela-a na terra.

Como em panorama immenso, um reino inteiro estava diante dos meus olhos.

E nas duas cidades mais populosas delle homens de má catadura começavam de agglomerar-se nas praças e a trasbordar pelas ruas.

E nos campos e nas aldeias outros homens com aspecto de reprobos começavam tambem a apinhar-se nos passos das serras, nas assomadas das montanhas e nas clareiras das florestas.

E tanto nas faces dos filhos dos campos, como nas dos habitadores das cidades adivinhava-se o grito de exterminio que bramia no fundo dos corações.

Os magotes de serranos fundiram-se n'uma só turma; e o mesmo succedeu aos das cidades.

E cada uma das turmas se converteu em uma besta-féra, que se assemelhava ao tigre.

Agigantada era a sua estatura, e na fronte de uma lia-se—Fanatismo—e na da outra—Desenfreiamento.—

Com os olhos tinctos em fel e sangue, correram então os dous monstros um para o outro, ergueram-se em pé e estenderam as garras.

No mesmo instante abriram-se os céus: dous grandes cutelos afiados e dous fachos encendidos cahiram juncto das alimarias ferozes.

E nas laminas dos cutelos estavam escriptas com letras de fogo as palavras seguintes—Maldicção de Deus.

E cada uma das alimarias segurou com a esquerda um dos fachos, e com a direita um dos cutelos.

A das cidades arrojou o seu facho sobre os campos, e os campos ficaram em um momento áridos e ermos.

E a outra sacudiu o seu sobre as duas cidades, e subito no logar onde ellas foram estavam dous montões de ruínas.

Depois, combatendo por largo tempo e atassalhadas de golpes, cahiram e renderam os espiritos.

Então as lagrymas me offuscaram os olhos; porque bem entendia o que significava a visão.

Mas enxugando-os, tornei a lançá-los para o logar da peleja.

E vi uma solidão safara e negra, sobre a qual a perder de vista para todos os lados alvejavam milhares de ossadas.

E em cima dellas estavam assentados dous espectros gigantes. Chamavam-se
Assolação e Silencio.

XIV

Era uma noite serena, e, ao clarão da lua, a sombra de templo antigo estirava-se no terreiro contiguo.

Os sinos dormiam nos campanarios das torres erguidas, e tudo estava calado no ambito do monumento religioso, herdado aos homens impios deste seculo pelos homens crentes dos tempos que foram.

Atravez das esguias e ponte-agudas janellas da igreja transverberava na praça a luz amortecida das alampadas penduradas ante as capellas desertas.

Era a hora em que se passam cousas mysteriosas por adros e cemiterios, e em que vagueiam pela terra os mortos condemnados a assim cumprirem com sua justiça.

N'um angulo do terreiro estava eu. Não sabía que mão me tinha para alli arrastado; mas era a mão de Deus.

Ao longo de uma rua que naquelle logar desembocava vinha ondeiando um turbilhão negro, cujo rugido era semelhante ao rugido do pinhal da montanha em noite tempestuosa.

E parecia aquelle grande vulto um fragmento do cahos, a quem, de todos os elementos de harmonia e de ordem, só o Creador concedera o movimento.

E chegou o tumulto diante da igreja e espraiou-se por toda a praça, e houve profundo silencio.

E um homem alevantou a voz no meio do tropel, que pendia de seus labios, e disse:

«Vós sacudistes o jugo dos poderosos, e o nome de rei e o titulo de nobre são palavras sem significação na linguagem de nação regenerada.

O povo que jazia no lodaçal alevantou-se como gigante de prodigiosa altura, e estendendo os braços, estreitou os palacios dos abastados e dos potentados: os pannos dos muros vacillaram nos seus fundamentos de marmore e de granito, e começaram de desmoronar-se e baqueiaram por terra.

E o gigante popular riu-se e assentou-se em cima de montões de ruinas.
Foi este dia dia de sempiterna gloria.

Mas os monumentos da credulidade e do fanatismo de nossos paes ainda assoberbam a cidade dos homens livres. A hypocrisia abriga-se á sombra dos altares e invoca, talvez contra nós, um Deus que não existe.

O unico Deus de corações generosos é a liberdade. Quando cumpre, o altar della é o cadafalso: o seu sacerdote o algoz: o seu culto verter o sangue dos tyrannos.

A religião que tem por fundamento a humildade e a abnegação de si é a religião dos servos.

É por isso que nossos paes foram servos.

Amaldicçoemos, pois, o nome dos que nos geraram e derribemos a obra da superstição.

E cada um daquelles precítos amaldicçoou seu pae. Os cabellos erriçaram-se-me de horror.

Então a turba arrojou-se ao portal do templo, e os largos ferros dos machados scintillavam erguidos e faziam estourar as portas. Pelas naves da igreja retumbava um gemido longo e sonoro.

E o terreiro ficou esgotado dessas ondas de povo, vertidas pelo ádito da velha cathedral dentro de seu amplo recincto.

Como os vermes se arrastam vagueiando pelos membros do cadaver, assim os homens do sacrilegio se espalharam, arremessando-se aos altares e a todos os logares onde reluzia a prata ou o ouro.

E cuspindo sobre a hostia do Cordeiro, pisavam-na aos pés e motejavam do
Crucificado.

E despido o templo das riquezas alli depositadas em testemunho da piedade de seculos, os impios saíram delle carregados de despojos.

Depois, accendendo fachos, lançaram-lhe fogo por todos os angulos, e breve as chammas se ergueram ao céu com espantoso ruido.

O estalido das pedras que se desconjunctavam, e o fragor das abobadas desabando, e o estridor do incendio, que trepava em espiraes pelas columnas e se estendia em lençoes vermelhos, lambendo a face dos muros, e o ultimo gemido dos orgãos era a orchestra deste sarau popular.

E a plebe folgava de roda, e embriagava-se, passando de mão em mão as taças do vinho espumoso, e tecendo danças com as mais vis prostitutas.

Tal foi o sonho do futuro que o Senhor me enviou n'uma noite de agonia.

XV

O anjo das predicções mudou então na minha alma a scena do porvir.

Á mesma hora, á mesma luz da lua, estava eu no logar onde vira o povo quebrar as portas do sanctuario; onde vira os homens dissolutos transpor a ultima barreira que os separava dos tigres, e lançar de si o ultimo signal que os distinguia dos espiritos das trevas.

Dos fustes truncados das columnas do templo pendiam hervas bravias, e nos muros semi-rotos enlaçava-se a héra.

Nos campanarios afumados pelo incendio haviam as aves nocturnas construído os seus ninhos: ao cahir das trevas, em vez dos sons religiosos dos sinos, despenhavam-se lá dos cimos das torres os pios melancholicos da poupa solitaria.

E no meio do terreiro surgia o que quer que era negro e que não se assemelhava a nenhuma obra da natureza, a nenhuma obra das mãos do homem feita para o uso da vida.

Approximei-me. Era o patibulo.

Um vulto humano pendia do alto delle e volteiava para um e outro lado á mercê da brisa da noite.

E tinha as faces disformes e os olhos espantados, e da bôca meia aberta gotejava-lhe a espaços o sangue.

Eu estava com os olhos cravados nelle, e não os podia despregar do homem do patibulo.

E involuntariamente cahi de joelhos: as preces pelo morto íam-me a romper dos labios. Sentia ardente a fronte e batia-me o pulso rapido e com força.

Á primeira palavra de oração que proferi, um estremeção agitou o cadaver do justiçado.

E sem mecher os beiços murmurou sons inarticulados: depois proferiu algumas palavras: a sua voz era a de um ventriloquo.

Cala-te!—disse o cadaver.—A eternidade é já minha. Deus riscou-me do livro da vida: maldicto seja o seu nome!

Fartei-me de crimes na terra: por isso fui condemnado.

A minha existencia foi como um halito de pulmoens ralados: a minha voz nunca ensinou senão a destruição.

Hypocrita da liberdade, pregoei a anarchia e a licença, como os hypocritas da religião pregoam a intolerancia e o exterminio.

Fui eu o que nas trevas preparei a discordia dos homens livres; que suscitei o primeiro dia de furor popular.

Colloquei em frente dos amotinados alguns mancebos, em cujo seio havia fragmentos de virtude, mas cuja ambição era cega.

Porque bem sabia eu que a plebe immoral anniquilaria todos os que não fossem tão dissolutos como ella.

Deixei na arena dos bandos civis todos os meus émulos, e abandonei o paiz que de futuro devia ser minha prêa.

Quando voltei, o povo tinha feito pedaços os seus idolos de um dia, e havia-os sumido debaixo dos pés das turbas.

Era então que começava o meu imperio. Ai dos que eu tinha arrolado no livro da morte! Nenhum ficou sobre a terra.

Milhares deixaram a cabeça debaixo do cutelo do algoz: milhares volteiaram no cadafalso por noites de luar, como agora eu volteio.

E este baraço que ora me sobreleva do chão ainda o achei aquecido do collo da minha ultima victima.

Fartei a sede de vingança e de sangue que mirrava o meu coração, e morri seguro de que deixava atraz de mim a campa cerrada em cima de todos os virtuosos.

O tyranno do céu folgue embora em me ver no inferno: ao menos pude apagar o seu nome na terra que me deu o berço.

Um brado meu desmoronou os templos: o sacerdocio desappareceu; a oração calou para todo o sempre.

Agora tambem eu passei; porque na senda do crime o povo com uma passada vence o caminho de um seculo, e eu era apenas um homem.

Os que empolgaram o poder, que me foi arrancado, não os tinha ainda conhecido, porque se arrastavam hontem em regiões obscuras; aliás ter-me-hiam precedido em descer aos abysmos.

Aqui, dando um longo gemido, o suppliciado calou; os olhos fecharam-se-lhe, e a cabeça pendeu-lhe para o peito.

Emquanto falara, bem conheci quem era; mas o Senhor me ordenou não revelasse o seu nome.

XVI

O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

Era por noite fria de inverno: n'uma quadra desadornada de palacio meio arruinado jazia um homem em pobrissima enxerga.

No seu rosto estava pintada a doença e a fome, as bagas do suor da morte transudavam-lhe da fronte, e dos olhos fugia-lhe a lagryma extrema do moribundo.

Os farrapos que vestia não o resguardavam do frio; e o homem tremia, e os dentes batiam-lhe uns contra os outros.

E no seu delirio o misero soltava palavras cortadas.—Agua! agua!—dizia; porque a sede lhe roía as entranhas. E não havia quem lhe desse um pucaro de agua.

Tribunos da plebe, dae-me um pouco de pão. Ah! bem negro que seja! que tambem eu sou do povo.—E lançava os olhos para os seus farrapos.

Fui nobre e rico; mas esquecei-vos disso! Perdoae-me, porque nada me resta: tão pobre sou como o mais humilde mendigo, que d'antes estendia a mão para o ultimo dos meus servos.

E o homem sorria, e o seu riso significava a desesperação da sua alma.

Depois olhou para um crucifixo que estava encostado á parede, e estendeu para lá os braços.

Mas não havia quem lhe unisse ao peito a imagem do Salvador: não havia um sacerdote que lhe desse o extremo vale.

Então deixou descahir os braços, fechou os olhos, e morreu. Sobre o cadaver ir-lhe-ha amontoando o tempo as ruinas dos paços que lhe herdaram seus paes.

E será esta a campa republicana do homem que foi nobre e abastado.