Produced by Vasco Salgado
*ORPHEU*
*2*
*"ORPHEU"*
REVISTA TRIMESTRAL DE LITERATURA
Propriedade de: ORPHEU, L.^da
Editor: ANTONIO FERRO
DIRECTORES
*Fernando Pessôa*
*Mario de Sá-Carneiro*
*ANO I—1915* *N.^o 2* *Abril-Maio-Junho*
*SUMARIO*
ANGELO DE LIMA Poemas Inéditos
MARIO DE SÁ-CARNEIRO Poemas sem Suporte
EDUARDO GUIMARAENS Poemas
RAUL LEAL Atelier (novela vertígica)
VIOLANTE DE CYSNEIROS (?) Poemas
ALVARO DE CAMPOS Ode Marítima
LUÍS DE MONTALVÔR Narciso (poema)
FERNANDO PESSÔA Chuva oblíqua (poemas interseccionistas)
*Colaboração especial do futurista*
*SANTA RITA PINTOR*
*(4 hors-texte duplos)*
Redacção: 190, Rua do Ouro—Livraria Brazileira. Oficinas: Tipografia do Comercio, 10, Rua da Oliveira, ao Carmo—Telefone 2724
LISBOA
"Orpheu" iniciará na rentrée uma longa série de conferencias de afirmação, sendo as primeiras as seguintes:
A Torre Eiffel e o Genio do Futurismo, por Santa Rita Pintor.
A Arte e a Heraldica, pelo pintor Manuel Jardim.
Teatro Futurista no Espaço, pelo Dr. Raul Leal.
As Esfinges e os Guindastes: estudo do bi-metalismo psicologico, por Mario de Sá-Carneiro.
*SERVIÇO DA REDACÇÃO*
Varias razões, tanto de ordem administrativa, como referentes á assunção de responsabilidades literarias perante o publico, levaram o comité redactorial de ORPHEU a achar preferivel que a direcção da revista fôsse assumida pelos actuais directores, não envolvendo tal determinação a minima discordancia com o nosso camarada Luís de Montalvôr, cuja colaboração, aliás, ilustra o presente numero.
De principio, concordara o comité redactorial de ORPHEU em não inserir colaboração artistica: por isso mesmo se adoptou uma capa que o era, brilhante composição do arquitecto José Pacheco. Posteriormente á saída do primeiro numero, julgou, porêm, o mesmo comité que seria interessante inserir em cada numero desenhos ou quadros de *um* colaborador, em vista do que decidiu *fixar* a capa, tirando-lhe o caracter artistico e dando-lhe um simples e normal aspecto tipografico. A realisação desta parte do nosso programa começa no numero actual com a inserção dos quatro definitivos trabalhos futuristas de Santa Rita Pintor.
O Manifesto da Nova Literatura, que havia sido anunciado como devendo fazer parte do n.^o 2 de ORPHEU, não é nêle inserto nem o acompanha. É motivo disto a circunstancia de que, envolvendo a confecção dêsse manifesto o desenvolvimento de principios de ordem altamente scientifica e abstracta, êle não pôde ficar concluido a tempo de ser inserto. Ou aparecerá com o 3.^o numero da revista, ou mesmo antes, talvez, em opusculo ou folheto separado.
O 3.^o numero de ORPHEU será publicado em outubro, com o atraso dum mês, portanto—para que a sua acção não seja prejudicada pela época-morta.
Os hors texte de Santa Rita Pintor insertos no presente numero foram fotogravados nos ateliers da *Ilustradora* segundo clichés de
*BARROS & GALAMAS* 146, Rua da Palma—LISBOA
*CONDIÇÕES*
Toda a correspondencia deve ser dirigida aos Directores.
Convidamos todos os Artistas cuja simpatia esteja com a indole desta Revista a enviarem-nos colaboração. No caso de não ser inserta devolveremos os originais.
São nossos depositarios em Portugal os srs. Monteiro & C.^a, Livraria
Brazileira—190 e 192, Rua Aurea, Lisboa.
ORPHEU publicará um numero incerto de paginas, nunca inferior a 72, ao preço invariavel de 30 centavos o numero avulso, em Portugal, e 1$500 réis fracos no Brazil.
*ASSINATURAS*
(Ao ano—Série de 4 numeros)
Portugal, Espanha e Colonias portuguesas 1 escudo
Brazil 5$000 réis (moeda fraca)
União Postal 6 francos
*Livraria Brazileira de MONTEIRO & C.^ia—Editores* 190 e 192, RUA AUREA—LISBOA
Acaba de aparecer:
*CÉU EM FOGO*
NOVELAS POR
MARIO DE SÁ-CARNEIRO
GRANDE SOMBRA—MISTÉRIO O HOMEM DOS SONHOS—ASAS—EU-PROPRIO O OUTRO A ESTRANHA MORTE DO PROF. ANTENA O FIXADOR DE INSTANTES—RESSURREIÇÃO
1 VOLUME DE 350 PAGINAS
CAPA DESENHADA POR
JOSÉ PACHECO
Preço 70 centavos
*POEMAS INÉDITOS*
DE
ANGELO DE LIMA
*CANTICO—SEMI-RAMI*
—Oh! Noute em Teu Amor Silenciosa!
—Oh! Estrellas na Noute, Scintillantes,
Como Ideaes e Virginaes Amantes!…
—Oh! Memoria de Amor Religiosa!…
—Já Fui… uma Creança Pubescente
Que des'brocha em Amor Inconsciente
Como n'um Vago Sonho… Commovente
Desabrocha uma Rosa Olorescente
—A Adolescente… Casta e Curiosa!
—E já Fui… a Galante com Requinte
Para dar-me, Esquivando-me em Acinte
De P'rigos da Ventura Cyspresinte
—Sensitiva… Ao Brisar, do Sol Orinte…
—A Nubente… Temente e Desejosa!
—E já Fui… a Noivada pelo Amante,
A Cingida de Abraço Palpitante,
Anxe do Sacrificio Inebriante!
—A Flôr que Quebra o Gyneceu… Hiante,
—A Desvirgada… Grata e Dolorosa!
—Oh! Memoria de Amor Religiosa!
—Oh! Estrellas, na Noute, Scintillantes
Como Ideaes e Virginaes Amantes…
—Oh! Noute em Teu Amor… Silenciosa!
Já Fui… como a Senhora, sim, durante
Uns Tempos de Ventura Confortante
Nos Confortos de um Lar… Hoje Distante…
—Como Dista, da Noute, um Paço Encante…
Já Fui… uma Matrona Virtuosa!…
E já Fui… a Devota pelo Amor,
A Adulterin… que Trahe o seu Senhor!…
E a que sentiu Doer o Coração
Ao Fim de Tanta e Cada uma Vez
Por cada Intento só Colhêr Revez
Nas Esp'ranças da Sua Devoção!…
Oh! Noute! em Teu Amor Silenciosa!
Oh! Estrellas, na Noute, Scintillantes
Como Ideaes e Virginaes Amantes…
Oh! Memoria de Amor Religiosa!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
E se Ha de Amor, algum Amor Eleito,
Aquella Tambem Fui, que Ninguem Fôsse,
Que, n'um Mysterio, como o Inferno, Doce,
Amei a Minha Filha, no seu Leito…
Sim, se Ha de Amor algum Amor Eleito,
Minhas Irmãs, Cingi-me ao Vosso Peito
E Ouvi-Me esta Memoria Dolorosa…
Já Fui Aquella que Perdeu a Esp'rança,
E Errou Espasma Noutes sem Termino,
Entre a Treva das Selvas Pavorosa,
Anxe em busca de Amantes do Destino…
—E A que Lembrou os Tempos de Creança!…
—E já Fui como a Sombra da Saudade
Amando a Lua, pela Immensidade!
—Oh Noute! em Teu Amor, Silenciosa!
—Oh Estrellas, na Noute, Scintillantes
Como Ideaes e Virginaes Amantes!
—Oh Memoria de Amor, Religiosa!…
*NEITHA-KRI*
Ó Noute Immensa pela Immensidão!
Recebe em Ti a minha Confissão.
Eu Nunca disse ao Verdadeiro, Não!
Nem devoro em Remorso o Coração!…
Sou a Grande Rainha Neitha-Kri…
Sou Devota da Noute Pensadora…
E Neith é grande, pelos Ceus Senhora…
E Eu, Sua Filha, Sou Nofrei-Ari!…
Meu Irmão era o Rei Mentha-Suf'reh!…
—E Morreu Enlevado em Sonho Ideal
D'um Phyltro que Eu lhe dei para tomar!…
—Mentha-Suf'reh não Conheceu o Mal
—E o Destino Elegeu-me p'ra Reinar
Sobre os Milagres do Paiz d'Esneh!…
—Sou a Grande Rainha Neitha-Kri!
—Sou Devota da Noute Pensadora
—E Neith é Grande! pelos Ceus Senhora!
—Sou a Rainha!… Sou Nofrei-Ari!…
—No meu Corpo Divino e Perfumado
Tenho a Carne Côr Mate da Belleza
Que é Ammarella de Côr e Delicada,
Da Côr Loura da Chamma Incendiada…
—Tenho o Porte das Damas da Nobreza
Nas Formas do Meu Corpo Consagrado!…
—A Thiara Suprema que Investi
Coroa a Minha Fronte Sobranceira,
Real, Sagrada, Mystice, Altaneira…
—E Então—ó Neith—sou Divina em Ti!…
Na Sombra d'Esta C'roa dos Thanitas
Palpitam-me no Seio Delicado
Anceios de Desejos Escondidos,
Mysteriosos, quasi Indefinidos,
Mesmo ao Saber do Meu Olhar Velado
—Que tu, ó Noute! em Teu Amor Excitas…
O Peitoral Sagrado da Magia
Repousa nos seus Ouros Esmaltados,
Frio sobre os meus Seios Excitados,
Como tacite, Oraculo, do Dia…
—Sob o Pê-chênte Cintural Pendente
Sobre o Vigor suavemente Curvo
Das minhas Côxas no meu star de Hyerata
Que Antros Ardentes e que, Amor, Dilata
De um Ardor Fulguroso… porque Turvo…
De que Immanencia… de que Immanescente?…
—Ó Noute minha Mãe na Immensidão!
—Ó Noute Grande, pelos Céus Senhora…
—Scintil d'Estrellas n'Essa Solidão…
—Eu, Sobre a Terra, Sou a Vencedora!…
—Erguida nas Sandalias Encurvadas
Sou de Pé ante Ti, ó Verdadeira!
Dama da Vida, pelo Amor Ungida…
Senhora Principal… Dama da Vida!
Eu, Tua Padre-Mãe!—a Derradeira…
—Entre as Vagas de Incenso a Ti Votadas…
—Meu Olhar é Fulguro docemente,
Como se n'este Espelho da Verdade
Da minha Alma Polytica de Rei,
—N'Aquella Presciencia com que Sei
—Se Reflectisse a Minha Lealdade
—Ou a Luz d'Algum Astro Transcendente…
—E os meus Braços Frementes Alongados,
Cingidos nos Annilos Rictuaes,
Têem na Mão o Seter dos Grandes Paes
Como as Chaves dos Sellos Reservados…
Sou mais Sabia que os Sabios—Eu emfim
—Eu que Sei o Segredo Consagrado
Das Filtragens do Lotus Divinal
Que Floresce em o Rio de Occidente
E que Evoccam o Sonho Absorvente
Em que Esquecem—a par da Dor do Mal—
Os Estrangeiros, o seu Lar Deixado…
—Que Encontram outro Lar juncto de Mim…
—Meu olhar é Fulguro docemente
Em Profunda Dulcissima Certeza
Como as Astres do Ceu Immanescente…
E Mãe—ó Neith-eu! ó mais que Pura!
—Como as Estrellas d'um Fulgor Fremente…
—Sou a Ventura Filha da Tristeza
D'Esse Teu Medictar Saudosamente…
—E assim como os Astros Fascinantes
Geram Fatas as Horas dos Instantes,
—Meu Amor—o Sem Fim—gera a Loucura!
*NINIVE*
—Alem Foi—a Ninive da Piedade,
A Cidade do Lucto Singular
E a Sepultura da Semi-Rami…
—E Hoje… stá por Ali, Vaga, a Saudade…
—E anda no Ceu Supremo a Eterna Istar…
—E… Passa, ás Vezes, a Serpente…—Ali!…
Na Camara Longinqua e Silenciosa
Da Sepultura da Semi-Rami…
—Relegada da Vida Gloriosa
—Na Paz Final da Morte Mysterosa
—Fria e Saudosa
—Dorme a Semi!…
—Morreu na Guerra em um Paiz Distante…
—Na Expedição Fatal em que Morreram
Trez Milhões de Soldados…—e ainda Mais…
—E os Guardas d'A Que Fôra a Triumphante
—Fieis…, os Seus Cem Guardas Immortaes…
Na Piedade Final do Ultimo Preito
Denotando os Seus Corpos Vigorosos
—Mantendo sobre os Hombros Pressurosos
O Feretro Sagrado da Semi…
—Por Caminhos Infindos Escabrosos
Em Terras de Inimigos… e Chacaes…
—Por Soes de Fogo…—Vastos Areaes…
—E Pavôres Sacros de Paiz Levante…
—Trouxeram Seu Cadaver do Distante
—E Inhumaram-A Alli…
—Fria e Saudosa!…
—Na Camara Longinqua e Silenciosa
Da Sepultura da Semi-Rami!…
*….?….*
—Eras… nos Tempos… Antes da Edade…
Teu Gesto Gloro Gerou a Vida!…
—E Apoz Teu Gesto…
—Supremo… Immesto…
—Grande e Tacida…
—Depoz… É a Noute na Immensidade!…
—E a Mãe do Rei do Reino Sul-Occaso
Disse a Mu-Ang—Alguma Vez, Accaso…
—Olha a Nuvem no Céu… e como Corre!…
—Assim as Horas da Ventura Minha…
—Quem Tem Filhos na Terra—Esse Não Morre!…
—Despozae—Se Sois Rei—uma Rainha
—Que É Tanto como Vós Pela Grandeza…
—E… Depois… de Espozardes a Belleza
Podeis Seguir Então Vossa Encaminha!…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
—E o Rei Mu-An' disse á Rainha, Então…
—Junto de Vós… Enlevo-me de Encanto…
—Longe, Porém, do Meu Paiz—Ha tanto,—
Que Nem, Meus Reinos, Já Eu Sei se São…
—Volto ao Meu Reino… n'Esta Dôr Tamanha…
—Seja—A da Mãe do Rei—Esta Montanha
Onde Alastra Este Bosque de Arvoredo
Junto ao Lago… em que Estamos… em Adeus!…
—Ó Mãe do Rei… Vós M'Enlevaes nos Céus
—Mas o Meu Coração Soffre em Segrêdo!…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
—Quantos… desde Chu-Si a Kuan-Su
—Filhos do Céu nas Filhas do Kiang
—Consagraram no Throno dos Hoang
—Aureolados do Pavão Azu?…
—E Algum Dia… Encostaram-se Tranquilos
Sobre a Meza de Joias do Estar Manso
—E Cerraram os Olhos nos Seus Cilos…
—E Abateram Seu Gesto Socegado
De Imp'radores do Imperio Consagrado…
—No Gesto da Decencia e do Descanso!…
*EDD'ORA ADDIO…—MIA SOAVE!…*
Aos meus amigos d'ORPPHEU
—Mia Soave…—Ave?!…—Alméa?!…
—Maripoza Azual…—Transe!…
Que d'Alado Lidar, Canse…
—Dorta em Paz…—Transpasse Idéa!…
—Do Occaso pela Epopéa…
Dorto… Stringe… o Corpo Elance…
Vae Á Campa…—Il C'or descanse…
—Mia Soave…—Ave!…—Alméa!…
—Não Doe Por Ti Meu Peito…
—Não Choro no Orar Cicio…
—Em Profano…—Edd'ora… Eleito!…
—Balsame—a Campa—o Rocío
Que Cahe sobre o Ultimo Leito!…
—Mi' Soave!… Edd'ora Addio!…
—Estes Versos Antigos Que Eu Dizia
Ao Compasso Que Marca o Coração
Lembram Ainda?…—Lembrarão um Dia…
—Nas Memorias Dispersas Recolhidas
Sequer, na Piedosa Devoção
D'Algum Livro de Cousas Esquecidas?…
—Accaso o Que Ora Canta… Vive… Existe
Nunca Mais Lembrará—Eternamente?…
—E, Vindo do Não-Ser, Vae, Finalmente,
Dormir no Nada… Magestoso e Triste?…
ANGELO DE LIMA.
MARIO DE SÁ-CARNEIRO
*POEMAS SEM SUPORTE*
a Santa Rita Pintor.
ELEGIA
Minha presença de setim,
Toda bordada a côr de rosa,
Que fôste sempre um adeus em mim
Por uma tarde silenciosa…
Ó dedos longos que toquei,
Mas se os toquei, desapareceram…
Ó minhas bôcas que esperei,
E nunca mais se me estenderam…
Meus Boulevards d'Europa e beijos
Onde fui só um espectador…
—Que sôno lasso, o meu amor;
—Que poeira d'ouro, os meus desejos…
Ha mãos pendidas de amuradas
No meu anseio a divagar…
Em mim findou todo o luar
Da lua dum conto de fadas…
Eu fui alguem que se enganou
E achou mais belo ter errado…
Mantenho o trôno mascarado
Aonde me sagrei Pierrot.
Minhas tristezas de cristal,
Meus débeis arrependimentos
São hoje os velhos paramentos
Duma pesada Catedral.
Pobres enleios de carmim
Que reservara pra algum dia…
A sombra loira, fugidia,
Jámais se abeirará de mim…
—Ó minhas cartas nunca escritas,
E os meus retratos que rasguei…
As orações que não rezei…
Madeixas falsas, flôres e fitas…
O «petit-bleu» que não chegou…
As horas vagas do jardim…
O anel de beijos e marfim
Que os seus dedos nunca anelou…
Convalescença afectuosa
Num hospital branco de paz…
A dôr magoada e duvidosa
Dum outro tempo mais lilaz…
Um braço que nos acalenta…
Livros de côr á cabeceira…
Minha ternura friorenta—
Ter amas pela vida inteira…
Ó grande Hotel universal
Dos meus frenéticos enganos,
Com aquecimento-central,
Escrocs, cocottes, tziganos…
Ó meus Cafés de grande vida
Com dançarinas multicolôres…
—Ai, não são mais as minhas dôres
Que a sua dança interrompida…
Lisboa—março de 1915.
MANUCURE
Na sensação de estar polindo as minhas unhas,
Subita sensação inexplicavel de ternura,
Todo me incluo em Mim—piedosamente.
Emtanto eis-me sózinho no Café:
De manhã, como sempre, em bocejos amarelos.
De volta, as mesas apenas—ingratas
E duras, esquinadas na sua desgraciosidade
Boçal, quadrangular e livre-pensadora…
Fóra: dia de Maio em luz
E sol—dia brutal, provinciano e democrático
Que os meus olhos delicados, refinados, esguios e citadinos
Não podem tolerar—e apenas forçados
Suportam em nauseas. Toda a minha sensibilidade
Se ofende com este dia que ha de ter cantores
Entre os amigos com quem ando ás vezes—
Trigueiros, naturais, de bigodes fartos—
Que escrevem, mas têem partido politico
E assistem a congressos republicanos,
Vão ás mulheres, gostam de vinho tinto,
De peros ou de sardinhas fritas…
E eu sempre na sensação de polir as minhas unhas
E de as pintar com um verniz parisiense,
Vou-me mais e mais enternecendo
Até chorar por Mim…
Mil côres no Ar, mil vibrações latejantes,
Brumosos planos desviados
Abatendo flexas, listas volúveis, discos flexiveis,
Chegam tenuemente a perfilar-me
Toda a ternura que eu pudera ter vivido,
Toda a grandeza que eu pudera ter sentido,
Todos os scenarios que entretanto Fui…
Eis como, pouco a pouco, se me fóca
A obsessão débil dum sorriso
Que espelhos vagos reflectiram…
Leve inflexão a sinusar…
Fino arrepio cristalisado…
Inatingivel deslocamento…
Veloz faúlha atmosférica…
E tudo, tudo assim me é conduzido no espaço
Por innumeras intersecções de planos
Multiplos, livres, resvalantes.
É lá, no grande Espelho de fantasmas
Que ondula e se entregolfa todo o meu passado,
Se desmorona o meu presente,
E o meu futuro é já poeira…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Deponho então as minhas limas,
As minhas tesouras, os meus godets de verniz,
Os polidores da minha sensação—
E solto meus olhos a enlouquecerem de Ar!
Oh! poder exaurir tudo quanto nêle se incrusta,
Varar a sua Beleza—sem suporte, emfim!—
Cantar o que êle revolve, e amolda, impregna,
Alastra e expande em vibrações:
Subtilisado, sucessivo—perpétuo ao Infinito!…
Que calótes suspensas entre ogivas de ruínas,
Que triangulos sólidos pelas naves partidos!
Que hélices atrás dum vôo vertical!
Que esferas graciosas sucedendo a uma bola de ténnis!—
Que loiras oscilações se ri a bôca da jogadora…
Que grinaldas vermelhas, que léques, se a dançarina russa,
Meia-nua, agita as mãos pintadas da Salomé
Num grande palco a Ouro!
—Que rendas outros bailados!
Ah! mas que inflexões de precipicio, estridentes, cegantes,
Que vertices brutais a divergir, a ranger,
Se facas de apache se entrecruzam
Altas madrugadas frias…
E pelas estações e cais de embarque,
Os grandes caixotes acumulados,
As malas, os fardos—pêle-mêle…
Tudo inserto em Ar,
Afeiçoado por êle, separado por êle
Em multiplos intersticios
Por onde eu sinto a minh'Alma a divagar!…
—Ó beleza futurista das mercadorias!
—Sarapilheira dos fardos,
Como eu quisera togar-me de Ti!
—Madeira dos caixotes,
Como eu anseara cravar os dentes em Ti!
E os pregos, as cordas, os aros…—
Mas, acima de tudo, como bailam faiscantes
A meus olhos audazes de beleza,
As inscrições de todos esses fardos—
Negras, vermelhas, azuis ou verdes—
Gritos de actual e Comercio & Industria
Em transito cosmopolita:
*FRAGIL! FRAGIL!*
*843—AG LISBON* *492—WR MADRID*
Ávido, em sucessão da nova Beleza atmosferica,
O meu olhar coleia sempre em frenesis de absorvê-la
Á minha volta. E a que mágicas, em verdade, tudo baldeado
Pelo grande fluido insidioso,
Se volve, de grotesco—célere,
Imponderável, esbelto, leviano…
—Olha as mesas… Eia! Eia!
Lá vão todas no Ar ás cabriolas,
Em séries instantaneas de quadrados
Ali—mas já, mais longe, em lozangos desviados…
E entregolfam-se as filas indestrinçavelmente,
E misturam-se ás mesas as insinuações berrantes
Das bancadas de veludo vermelho
Que, ladeando-o, correm todo o Café…
E, mais alto, em planos obliquos,
Simbolismos aereos de heraldicas ténues
Deslumbram os xadrezes dos fundos de palhinha
Das cadeiras que, estremunhadas em seu sôno horisontal,
Vá lá, se erguem tambem na sarabanda…
Meus olhos ungidos de Novo,
Sim!—meus olhos futuristas, meus olhos cubistas, meus olhos interseccionistas,
Não param de fremir, de sorver e faiscar
Toda a beleza espectral, transferida, sucedânea,
Toda essa Beleza-sem-Suporte,
Desconjuntada, emersa, variavel sempre
E livre—em mutações continuas,
Em insondáveis divergencias…
—Quanto á minha chávena banal de porcelana?
Ah, essa esgota-se em curvas gregas de anfora,
Ascende num vértice de espiras
Que o seu rebordo frisado a ouro emite…
É no ar que ondeia tudo! É lá que tudo existe!…
… Dos longos vidros polidos que deitam sôbre a rua,
Agora, chegam teorias de vértices hialinos
A latejar cristalisações nevoadas e difusas.
Como um raio de sol atravessa a vitrine maior,
Bailam no espaço a tingi-lo em fantasias,
Laços, grifos, setas, azes—na poeira multicolor—.
*APOTEOSE.*
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Junto de mim ressoa um timbre:
Laivos sonoros!
Era o que faltava na paisagem…
As ondas acusticas ainda mais a subtilisam:
Lá vão! Lá vão! Lá correm ágeis,
Lá se esgueiram gentis, franzinas côrsas d'Alma…
Pede uma voz um numero ao telefone:
Norte—2, 0, 5, 7…
E no Ar eis que se cravam moldes de algarismos:
ASSUNÇÃO DA BELEZA NUMÉRICA!
[Nota do Transcritor: Aqui surge a composição com números.]
Mais longe um criado deixa cair uma bandeja…
Não tem fim a maravilha!
Um novo turbilhão de ondas prateadas
Se alarga em écos circulares, rútilos, farfalhantes
Como água fria a salpicar e a refrescar o ambiente…
—Meus olhos extenuaram de Beleza!
Inefavel devaneio penumbroso—
Descem-me as palpebras vislumbradamente…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
… Começam-me a lembrar aneis de jade
De certas mãos que um dia possuí—
E ei-los, de sortílégio, já enroscando o Ar…
Lembram-me beijos—e sobem
Marchetações a carmim…
Divergem hélices lantejoulares…
Abrem-se cristas, fendem-se gumes…
Pequenos timbres d'ouro se enclavinham…
Alçam-se espiras, travam-se cruzetas…
Quebram-se estrelas, sossobram plumas…
Dorido, para roubar meus olhos á riqueza,
Fincadamente os cerro…
Embalde! Não ha defesa:
Zurzem-se planos a meus ouvidos, em catadupas,
Durante a escuridão—
Planos, intervalos, quebras, saltos, declives…
—Ó mágica teatral da atmosfera,
—Ó mágica contemporanea—pois só nós,
Os de Hoje, te dobrámos e fremimos!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Eia! Eia!
Singra o tropel das vibrações
Como nunca a exgotar-se em ritmos iriados!
Eu proprio sinto-me ir transmitido pelo ar, aos novelos!
Eia! Eia! Eia!…
(Como tudo é diferente
Irrealisado a gás:
De livres pensadoras, as mesas fluidicas,
Diluidas,
São já como eu catolicas, e são como eu monarquicas!…)
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Sereno.
Em minha face assenta-se um estrangeiro
Que desdobra o «Matin».
Meus olhos, já tranquilos de espaço,
Ei-los que, ao entrever de longe os caracteres,
Começam a vibrar
Toda a nova sensibilidade tipografica.
Eh-lá! grosso normando das manchettes em sensação!
Itálico afilado das crónicas diarias!
Corpo-12 romano, instalado, burguez e confortavel!
Góticos, cursivos, rondas, inglesas, capitais!
Tipo miudinho dos pequenos anuncios!
Meu elzevir de curvas pederastas!…
E os ornamentos tipograficos, as vinhetas,
As grossas tarjas negras,
Os «puzzle» frivolos da pontuação,
Os asteriscos—e as aspas… os acentos…
Eh-lá! Eh-lá! Eh-lá!…
[Nota do Transcritor: Aqui surge uma composição com caracteres.]
—Abecedarios antigos e modernos,
Gregos, góticos,
Slavos, arabes, latinos—,
Eia-hô! Eia-hô! Eia-hô!…
(Hip! Hip-lá! nova simpatia onomotopaica,
Rescendente da beleza alfabetica pura:
Uu-um… kess-kresss… vliiim… tlin… blong… flong… flak…
Pâ-am-pam! Pam… pam… pum… pum… Hurrah!)
Mas o estrangeiro vira a página,
Lê os telegramas da Ultima-Hora,
Tão leve como a folha do jornal,
Num rodopio de letras,
Todo o mundo repousa em suas mãos!
—Hurrah! por vós, industria tipografica!
—Hurrah! por vós, empresas jornalisticas!
*MARINONI* *LINOTYPE* *O SECULO* *BERLINER TAGEBLATT* *LE JOURNAL* *LA PRENSA* *CORRIERE DELLA SERA* *THE TIMES* *NOVOÏE VREMIÁ*
Por ultimo desdobra-se a folha dos anuncios…
—Ó emotividade zebrante do Reclamo,
Ó estética futurista—up-to-date das marcas comerciais,
Das firmas e das taboletas!…
*LE BOUILLON KUB*
*VIN DÉSILES* *PASTILLES VALDA*
*BELLE JARDINIÈRE*
*FONSECAS, SANTOS & VIANNA* HUNTLEY & PALMERS *"RODDY"*
*Joseph Paquin, Bertholle & C.^ie*
*LES PARFUMS DE* *COTY*
*SOCIÉTÉ GÉNÉRALE*
*CRÉDIT LYONNAIS*
*BOOTH LINE* *NORDDEUTSCHER LLOYD*
*COMPAGNE INTERNATIONAL DES WAGONS LITS
ET DES GRANDS EXPRESS EUROPÉENS*
E a esbelta singeleza das firmas, LIMITADA.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Tudo isto, porêm, tudo isto, de novo eu refiro ao Ar
Pois toda esta Beleza ondeia lá tambem:
Numeros e letras, firmas e cartazes—
Altos-relêvos, ornamentação!…—
Palavras em liberdade, sons sem-fio,
MARINETTI + PICASSO = PARIS < *SANTA RITA PIN-
TOR + FERNANDO PESSOA
ALVARO DE CAMPOS
!!!*
Antes de me erguer lembra-me ainda,
A maravilha parisiense dos balcões de zinco,
Nos bares… não sei porquê…
—Un vermouth cassis… Un Pernod à l'eau… Un amer-citron… une grenadine…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Levanto-me…
—Derrota!
Ao fundo, em maior excesso, ha espelhos que reflectem
Tudo quanto oscila pelo Ar:
Mais belo através dêles,
A mais subtil destaque…
—Ó sonho desprendido, ó luar errado,
Nunca em meus versos poderei cantar,
Como anseara, até ao espasmo e ao Oiro,
Toda essa Beleza inatingivel,
Essa Beleza pura!
Rólo de mim por uma escada abaixo…
Minhas mãos aperreio,
Esqueço-me de todo da ideia de que as pintava…
E os dentes a ranger, os olhos desviados,
Sem chapéu, como um possesso:
Decido-me!
Corro então para a rua aos pinotes e aos gritos:
—Hilá! Hilá! Hilá-hô! Eh! Eh!…
Tum… tum… tum… tum tum tum tum…
*VLIIIMIIIIM…*
*BRÁ-ÔH… BRÁ-ÔH… BRÁ-ÔH!…*
*FUTSCH! FUTSCH!…*
*ZING-TANG… ZING-TANG…* *TANG… TANG… TANG…*
*PRÁ Á K K!…*
Lisboa—Maio de 1915.
MARIO DE SÁ-CARNEIRO.
[Nota do Transcritor: Aqui surge a fotogravação de Hors Texte de Santa Rita Pintor.]
*SANTA RITA PINTOR.* PARIS ANNO 1913.
Compenetração estática interior de uma cabeça—complementarismo congénito absoluto.
(SENSIBILIDADE LITHOGRAPHICA.)
*POEMAS*
DE
EDUARDO GUIMARAENS
SOBRE O CYSNE DE STÉPHANE MALLARMÉ
Um sonho existe em nós como um cysne num lago de agua profunda e clara e em cujo fundo existe um outro cysne branco e ainda mais branco e triste que a sua fórma real de um tom dolente e vago.
Nada: e os gestos que tem, de caricia e de afago, lembram da imagem tenue, onde a tristeza insiste em ser mais alva, a graça inversa que consiste a dolente mudez de um espelho presago.
Um Cysne existe em nós como um sonho de calma, placido, um Cysne branco e triste, longo e lasso e puro, sobre a face occulta de nossa alma.
E a sua imagem lembra a imagem de um destino de pureza e de amôr que segue, passo a passo, este Sonho immortal como um Cysne divino.
FOLHAS MORTAS
Dêste relogio belga, enorme, branco e triste,
tombam as horas como folhas mortas.
Por uma tarde outomnal, triste de spleen e folhas mortas:
Em cada vaso negro ha um lirio nobre e triste.
Em cada vaso negro ha um lirio nobre e triste e as horas tombam como folhas mortas. Porque não nasci eu um lirio nobre e triste, pétala sem perfume entre essas folhas mortas?
Um Versalhes fulgura em cada illusão triste, um Versalhes de outomno atapetado de folhas mortas! Em cada vaso negro ha um lirio nobre e triste e as horas tombam como folhas mortas…
SOB OS TEUS OLHOS SEM LAGRIMAS
Ah! não dirás por certo que não te amei, que não soffri! —Foi-me a tua alma assim como um salão deserto onde, uma noite, me perdi.
Um ramo de violetas fenecia em cada movel amortalhado pelo pó; a purpura das cortinas, rubra, estremecia presa a cada janella. Eu hesitava, só.
—E era meu coração, por ti quasi ferido, á duvida infantil que o emmudecera já, um velho piano adormecido que ninguem mais acordará.
EDUARDO GUIMARAENS.
*ATELIER*
NOVELA VERTÍGICA
POR
RAUL LEAL
*Atelier*
Em ondas de perfúme estranho as convulsivas exalações do Sonho iluminam vágamente o lár sombrio do artista que outra luz quasi não possue. A poucos pássos duma téla, profunda como a dor que ela evoca, o modelo por entre as vibrações duma alucinação sinistra todo vigorosamente contórce a alma, pelo semblante derramando a tortúra que a alma cava. Compreende a árte, no seu espirito sente a expressão do belo que todo o arrasta e anciósamente procurando ao artista transmitir a sublime inspiração da dôr, fórte, arrebatadora, na própria fisionomia a idialisa torturando o espirito que só assim, no semblante se concretisa… pela dôr! É gigantesca a sua personalidade que ao bélo tudo sacrifica, que só do bélo sábe vivér!…
Envolvido nas trevas convulsivas que o seu espirito concebe, Luar ardentemente transpira o delirio da morte, o espasmo eterno da Existencia que só ele póde sentir, e é nesse ambiente de horror vigorósamente concentrado nele, sintese suprema do Universo, é nesse ambiente, forte e sublime, que Luar, o modelo idial, procura eternamente arrastar a vida!… E o horror em que a sua alma se torna, ele domina e… vigorisa…!
Cresce nesse momento duma arte tragica que a matéria mal toca e em que só o espirito vibra em vibrações transcendentes que mal se concretisam pela sensação, cresce nesses instantes, apagados para a vida vulgar que o intimo das cousas não concebe, que o espiritualismo convulsivo da Existencia totalmente desconhece numa inconsciencia estranha, cresce na alma de Luar a loucura sublime de espirito que a tenebrosa, a imaterial vertigem do Universo, da Vida delirantemente acentua numa tragedia divina, que o transcendentalismo ardente da Ancia todo dolorosamente exprime pelo espasmódico histerismo que a Existencia forma, pelo arrebatamento convulsivo do Sonho Universal!… E nesses instantes tudo nele vibra, tudo que é nele o Espirito… Da sua concepção trágica se alimenta, alimentando-se, assim, da sua alma, da sua alma que se torna a alma da Existencia!
No atelier do pintor Luar vigorosamente assim prepara a alma, preparando assim, a expressão do semblante. E torna-se sublime, atinge a vertigem do Infinito… Através do seu delirio, do sonho convulsivo que todo o arrebata, ele desperta o artista que assim, todo se sublima tambem! É Luar a própria inspiração que o artista eterisa…
Num crescendo impetuoso o sonho em que Luar todo se torna, no génio do pintor se evóla todo e, assim, o artista em que o sonho vágamente se esbáte perdendo-se por fim, na mesma diáfana atmosféra idial se eléva, trágicamente divinisando a alma!… Tudo é etéreo e profundamente convulsivo; uma alucinação vibrante tudo transforma, tudo arrebata no seu turbilhão genial…! Uma poderósa acção mediumnica a levitação total das cousas, assim eterisadas, provoca então… E é Luar o fóco tenebroso da alucinação sinistra que em redór se esbáte, vagificando-se mais!…
No arrebatamento vibrante em que a alma de Luar, em que Luar consigo arrasta tudo, uma paixão crescente fortemente se esboça e ela que a personalidade genial do modelo agita toda, nas convulsões da carne toda se exprimindo, em ondas soluçantes d'ancia se espraia impetuosamente através do éter nebuloso que todo se perde na mansão do artista!… Formidavel se torna a paixão crescente que tudo arrebata e tudo quer arrebatar… Como duendes infernaes que mal se esbocem, a concepção doentia de Luar sombras efémeras vertiginosamente gera e tudo que os sentidos ainda pode ferir, num paroxismo de loucura se debate convulsivamente em estertôr qual caterva turbilhonaria de todas as expressões da dôr que só uma alma vigorosa conceber póde! Sim, tudo na alma de Luar se transforma e tudo ardentemente êle quer transformar…! Ele quer transformar, tudo no seu espirito arrebatando!…
É para o artista que a sua alma trabalha, é pois, o artista que na sua concepção mais se divinisa…! É êle o reflexo vibrante do seu sonho, do sonho que o forma, em que convulsamente todo se eterisa…! Suprema emanação se torna da sua alma!… Só a inspiração o sublima, o personalisa—e a inspiração é Luar!
Esse ser estranho que ele próprio criou e que na tela genialmente lhe derrama a alma, Luar, cheio d'ancia, conservar quer no seu espirito e transformando-se, então, em ondas de volúpia a sua paixão ardente, a paixão da dôr, como laços infernais as lança ao artista que num turbilhão de fôgo, o fogo da sua paixão, todo arrebatar quer para a sua alma!… Uma luta intima, obscura se gera! Impetuosas são as convulsões de espirito que, emanadas de Luar, a personalidade do artista sacodem toda mas, como resplendor diáfano duma luz infinita, no artista surgem esbatidas, perdendo-se através do espaço!… E Luar isto pressente e o seu próprio sonho, na imaginação do pintor rialisado, ele quasi deixa desprender… pelo temor duma vitória alheia! A sua própria fôrça inspiradora o aterrorisa. Se rialmente o artista se não deixasse enlevar no sonho de Luar, acaso na vaga eterisação espiritual encontrar-se-hia?… Não e, assim, qualquer fôrça esmagadora, de Luar mal vinda, abruptamente o não faria despenhar-se na matéria em que já permaneceria e que o hábito tornaria então, quasi insentivel. Luar teme ser incompreendido. Se toda a sua paixão sobre o artista desencadear num deboche supremo, paroxismo da arte, o artista que, simples reflexo do foco inspirador, o não atingiu ainda, e nubelosa instável, simples irradiação do sonho em que vagamente se banha, toda poderá romper, perdendo-se para sempre da alma de Luar numa queda fatal. Mas a ancia é igualmente forte, a ancia em completar a evolução do artista no foco tenebroso da sua alma!… Porém, a fôrça infinita Luar não possue ainda, a sua fôrça esbate-se, a continuidade do Infinito não contém… A arte, em seu luxurioso paroxismo espasmo da dôr, ainda na alma do artista se define, se concretisa em imagens, só a imagem ele concebe, não concebe o Espirito, o Absoluto Indefinido que num deboche de espirito vertiginosamente se desencadearia!… E acaso o vigôr duma luxúria transcendente e a selvática brutalidade material o artista não poderá confundir, despenhando-se do sonho diáfano que, emanado de Luar, nele se esboça, apenas?…
Luar quer o artista arrebatar emfim, por totalmente o interiorisar em si através dum deboche convulsivo—ardentemente anceia mas o temor hesitante o torna, o temor de ser incompreendido, de como simples animal, cheio de cio, ser considerado, emfim, de perder para sempre a alma a que tanto aspira!… Teme a sua fôrça e a sua fraqueza, a sua fôrça que, por uma ilusão cruel, o horror da matéria pode desenrolar perante o artista, erguido acima dela que, assim, desprezivel se mostra, a sua fraqueza que mais não pode elevar o artista, mais, até ao paroxismo da arte que é o paroxismo do deboche e… da dôr!… E o artista admira Luar, não o sente, nas convulsões da sua alma não se quer fundir… Não admiramos o que a nós é estranho, sentindo então, o que já não admiramos?…
E é horrivel a angústia em que Luar se debate, ele jámais sonhou uma dôr assim! Como farrapos de nuvens tenebrosas numa dança macabra, figuras vagas e obscuras da alma de Luar se erguem, dolorosamente se contorcendo todas e todas vertiginosamente se debatendo numa loucura genial, a loucura da Existencia, do Espirito…, e nessa vertigem suprema em que a tortura e a convulsão doidamente se misturam, se confundem, um ponto de luz sinistra, numa expressão vaga de sonho, ao fundo se esboça através da lividez da morte e como que indiferente ao turbilhão lúgubre de dôr que só a alma de Luar soube criar!… É o artista que, espiritualisado na concepção sublime do modêlo, na alucinação tenebrosa da sua alma estranha, ao longe vagueia a alma perdidamente, num cinismo de estéta friamente admirando a dôr que, num debate prodigioso, o espasmo da morte intensifica através dum cáos infinito, duma vertigem convulsiva…! Sôfregos turbilhões a alma de Luar do seu próprio âmago tenebroso arranca mas, quais vagas impetuosas que todas se despedacem, se percam de encontro ao trágico granito, as torrentes tempestuosas dêsse feérico oceano espiritual todas aterrorisadoramente se quebram por entre as rígidas malhas impenetráveis da alma do artista!
Todo êsse convulsionismo gigantêsco que sublima Luar, essa ancia invencivel, ardente de, por um deboche estulto, dominar o artista, o modêlo mais não pode suportar e, caindo, então, numa prostração infinda em que toda a sua alma se dissolve, como que um campo noturno se torna duma batalha passada o qual uma luz pálida, sombria de lua vagamente ilumine, a luz vaga que o artista da sua alma toda, então, exála!… Foi o artista a luz vaga do ultimo quadrante quando, num delirio de morte, numa cavalgada inconsciente, nuvens tenebrosas em convulsões a envolvem sem a arrebatar, e agora, sempre sereno, frio, lúgubre, a sua pálida luz derrama na alma do modêlo através duma vaga neblina silenciosa, da névoa melancólica em que a alma de Luar toda se exála, se esvai…!
Mas uma torrente de fôgo Luar novamente abraza e do seu repouso instantâneo, súbito, se erguendo, numa arrancada formidável sôbre o artista se lança, cravando-o de beijos em que lhe quer arrebatar a alma! Em convulsões que o repouso alimentou, todo o seu espirito se põe, torna-se indomável, gigantêsco, impetuoso qual vaga rancorosa que um vulcão eleve, qual torrente devastadora de Apocalypse Fatal!…
O artista cheio de pasmo o olha, e naquela arrancada impetuosa ambos na terra se despenham, esquecendo o sonho, a alucinação… A paz volta aos espiritos, uma paz lúgubre, cheia de preságios sinistros! O paroxismo da dôr não poude ser atingido, para ambos se perdeu…! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Passaram-se já alguns dias. O artista uma comoção profunda no seu espirito sofre, sob um novo aspecto olha o modelo, já quási lhe sente a alma… Encarna-se na tenebrosa escabrosidade do seu espírito trágico, sente-o mais belo, mais profundo, sublime…! Os transes variados em que bruscamente se lançára Luar naquela tarde tragica, essa variedade de transes que o modelo tão vigorosamente suportára, entontece-lhe a alma, já não o admira apenas, deseja-o e cheio de ardor, de ancia!…
Procura-o em toda a parte e, por fim, encontrando-o, repleto duma luxuria de espirito lhe diz: «Jámais te compreendi, Luar, como agora te compreendo. Talvez te não compreendesse ainda se logo tivesse cedido ao teu desejo. Mas o tempo tive de refletir, de sonhar em ti. A tua nobreza estranha que, após o meu pasmo, subitamente te acalmou os nervos, fundamente me impressionou, os contrastes da tua alma são maravilhosos e só a tua personalidade sublime, genial… a oscilações bruscas de caráter poderia resistir! Quero-te pois, a tua ancia é, hoje, a minha; sem os teus beijos profundos não posso passar, a minha carne na tua se entranhará para que na tua alma se espiritualise toda!…» E procura-lhe a boca. Luar suávemente o afasta, dizendo-lhe, apenas: «Refleti tambem, sonhei… Amanhã conhecerás o meu sonho.»
No dia seguinte, o artista recebe uma carta que os seguintes termos contém:
Meu querido amigo
Estranharás talvez que só agora te exponha o meu sonho derradeiro mas preciso de toda a minha alma e, só quando escrevo, aos borbulhões caudalosamente a broto de mim. Sem a pena, mantenho-me numa concentração trágica, mal mostro aos outros o meu espirito. É que o derramamento da alma no papel é ainda quási espiritual, a alma em excesso se não exteriorisa, impuramente se não materialisando.
Diz-me, se num drama, se numa tragédia vigorosa uma tempestade formidavel, num paroxismo fatal, se desencadeasse toda, atingindo, por fim, um limite definido que a banalisasse, acaso admirarias esse drama, essa tragedia?… Pois bem, o indefinido a que na arte nós aspiramos, essa ancia de idial que mais do que o idial para nós vale, essa ancia, esse desejo infinito e jámais satisfeito deve encher a nossa vida que a mais alta expressão se tornará assim, da arte pura!…
É vertiginosa a Existencia e espiritual, transcendente é a vertigem dela! Jámais a extensão conhece, no Espirito Puro que a extensão transcende, a vertigem se personalisa, se consubstancia, se acentua toda, não se espalha numa actividade mecanica, é a actividade espiritual, o dinamismo puro!… Está nisso a sua beleza, a sua propria existencia que, só assim, toda confundida num Todo, no Infinitesimal, na Mónada, que só assim se acentua toda, só assim se dá!… É sublime o convulsionismo espiritual e só ele é sublime! De que deriva a sua sublimidade? Da sua energia que só no Espirito, na Mónada se acentua toda!…
Ha pois, na vertigem convulsiva da Existencia uma expansão tenebrosa. Toda a actividade, a energia toda que a forma, no espaço e no tempo não se expande, mantem-se torturada no Infinitesimal. É infinita, eternamente tudo alcança, infinitesimalisa-se, espiritualisa-se pois…
Só no transcendental existe, só nele eternamente se debate!
Tem uma expansão, uma liberdade infinita que, como infinita, tudo atinge eternamente, como que eternamente se autodestruindo assim!… Se só no Transcendental existe, se é transcendente, se no mesmo ponto infinitesimal, na Mónada, eternamente se debate é que a si própria se contorce toda numa tortura infinita!… E não exprime a dôr e sobretudo a ancia o convulsionismo transcendente, torturado, contorcido da actividade pura, espiritual?… não é ela a expressão sublime da Vertigem?… Na dôr, na ancia devemos viver!
A transcendentalisação suprêma da energia pura, espiritualisando-a, em absoluto a indefine, o Infinitesimal em que a energia eternamente se debate, o indefinismo absoluto contêm. E ela propria, a própria atividade em si não exprime já o Indefinido?… Quando transcendente, é o indefinismo dela absoluto, ela torna-se a Vertigem! E que cousa é a ancia, a ancia em si, senão o limiar privilegiado dessa Vertigem Pura, o seu sintoma magnifico, a sua acentuação humana?… Ao indefinido na arte aspiramos pois, a um indefinido cheio de tortura, «rafiné» como o que o génio de Baudelaire compreendeu e quando essa tortura do Indefinido enche o intimo da nossa alma, então, cheia d'ancia—e, assim, Nietzsche quasi a desejou—ela quasi atinge o paroxismo eterno da Existencia que toda se debate na Vertigem Infinita! E não só na arte deve existir a ancia mas tambem na vida, a ancia dolorosa do Indefinido!…
A ancia não é só a dôr, não é qualquer dôr. Pode esta ser deprimente, humilhante: e sempre o é quando não compreendida, quando em sua beleza suprema sentida não pode ser!… A dôr forte, virilisadora, a dôr profunda e amoral, a dôr em que o eu domine, dôr de espirito… é que é a dôr suprema, a dôr estética! Dominar na dôr, sentir a fôrça de viver nela, prazer infindo…! E a tortura transcendental da Existencia em que a Vertigem toda se acentua, se impõe, se personalisa, a dôr suprema, a dôr personalisadora não exprime toda?…
Afastemos pois, a nossa carne. Se a satisfizéssemos, não, se satisfizéssemos o espirito que, só êle, através da carne atua, banalisar-nos-íamos, ao nosso drama daríamos um final burguez! Ele teria um fim, um limite determinado de que, em breve, as nossas almas se enfartariam decerto. Sejamos estétas, vivamos eternamente do desejo que, só êle, personalisa a alma, para a nossa vista espiritual gigantesca tornando-a!… É estranho o meu pedido mas, acaso, estranha não é a Vertigem da Existencia?…
Adeus!…
Luar.
Janeiro de 1913.
RAUL LEAL.
(Do livro inédito Devaneios e Alucinações.)
*POEMAS*
DUM ANÓNIMO OU ANÓNIMA QUE DIZ CHAMAR-SE
VIOLANTE DE CYSNEIROS
*N. B.*—Apareceram-nos na Redacção estes belos poemas, que um anónimo engenho doente realisou. Publicamo-los, porque disso são dignos, importando-nos pouco a personalidade vital de que possam emanar. Toda a obra de arte é a justificação de si-propria.
Orpheu.
_A ALVARO DE CAMPOS,
O MESTRE._
Na noite negra e antiga
Ha só a luz do Pharol:
Ora loira, côr do sol,
Ora vermelha, inimiga.
No seio negro e profundo
Da noite em treva dormindo
O Pharol é Outro Mundo,
Ora chorando, ora rindo.
Na noite negra, afinal,
Tudo a elle se limita:
Só o pharol é real!
A treva nunca tem fim,
Ó sensação infinita,
—Sou já só Pharol de Mim!
Junho, 1915.
* * * * *
Toda a minh'Alma se prende
Naquella forma de graça;
Mas não é na forma viva
Mas sim na Linha que passa.
Toda a minh'Alma se prende,
Bate as Asas—esvoaça…
E é como a sombra distante
D'aquella Linha que passa.
A vida é só o Espaço
Que vai da propria Linha
Á sombra d'ella num traço.
Quando a Morte fôr vizinha,
Fundidas no mesmo Espaço
Será tudo a mesma Linha.
Junho, 1915.
_A ALVARO DE CAMPOS,
O MESTRE._
I
Para Além d'aquelles montes
Não ha aves, nem ha fontes,
Nem ribeiros, nem campinas,
Nem casaes pelas collinas.
Para Além d'aquelles montes
Não ha segredos de fontes,
Nem Sombras nas Alamedas,
Nem hervas, passos ou sedas.
Para Além d'aquelles montes
Já não ha arcos de pontes,
Nem mãos finas de donzellas,
Nem lagos, barcos ou vellas.
II
Para Além d'aquelles montes
Existe apenas Espaço!
Espaço e tempo são Pontes
Que Deus tem no seu regaço.
Pontes que ligam de Auzente
Infinito e Eternidade.
Só sensações são Presente,
Só nellas vive a Verdade.
Passado nunca passou,
Futuro não o terei:
Pois sempre Presente sou
No que Fui, Sou e Serei.
Junho, 1915.
AO SR. MARIO DE SÁ-CARNEIRO.
Ha pouco quando bordava
Picou-me a ponta dos dedos
A agulha com que bordava…
E a seda toda de branca,
Branca da côr dos meus dedos,
Essa seda que era branca
Ficou com papoulas rubras…
Que o sangue das minhas veias
Já creou papoulas rubras…
Mas tão sós e tão alheias!
Junho, 1915.
AO SR. FERNANDO PESSOA.
Nada em Mim é necessario
Nem mesmo o que foi sonhado,
Ó contas do meu rosario
D'um sonho nunca acabado.
Tudo tão feito de Mim…
Só meu longe de passado
É como um sonho sem fim
Que o Outro tenha sonhado.
Cruso os meus braços. Não fallo.
Ouço uma voz dolorida
Dentro de Mim evoca-lo.
Marinheiro! Ilha Perdida!
E o meu sentido a sonha-lo
É a verdade da vida.
Junho, 1915.
AO SR. ALFREDO PEDRO GUISADO.
Sobre misterios já idos
Ergui-me em curva e de pé
Do meu corpo fiz sentidos
Num sonho de Salomé.
Curvos os olhos doridos…
Curvas as mãos e os braços…
Todo o meu corpo pedaços
Dos espelhos dos sentidos…
Dancei… Dancei… E o Ver-Me
Toda de curva e de pé
Era o sentido de Ser-Me.
Presente no meu olhar,
Eu fui Outra Salomé
Feita de Mim a dançar.
Junho, 1915.
AO SR. CÔRTES-RODRIGUES.
Passo no mundo a vivê-lo,
Passo no mundo a senti-lo,
E esta côr do meu cabello
É o vê-lo e o possuí-lo.
Passo no mundo a sonhá-lo,
Numa forma de vivê-lo,
E o meu sentido d'olhá-lo
É o sentido de vê-lo.
Só em Mim me concretiso,
E o Sonho da minha vida
Nesse Sonho o realiso.
E sempre de Mim Presente,
Todo o Meu Ser se limita
Em Eu Me Ser Realmente.
Junho, 1915.
_A MIM PROPRIA
DE HA DOIS ANNOS_
As minhas mãos são esguias,
São fusos brancos d'arminho,
Onde fiaste e não fias
O Sonho do teu carinho.
As minhas mãos são esguias,
Côr de rosa são as unhas,
E nellas todos os dias
Ponho a pomada que punhas.
Quando Eu as fico polindo
Perpassa nellas em ancia
A tua boca sorrindo…
Mas os meus dedos em i
Dizem a longa distancia
Que vae de Mim para Ti.
Junho, 1915.