AMBIÇÕES
Obras de ANNA DE CASTRO OSORIO
INFELIZES (historias vividas)—Livro de contos.
PARA AS CRIANÇAS (bibliotheca infantil)—Publicação mensal illustrada:
Contos tradicionaes portuguezes—7 volumes.
Contos originaes, educativos—2 volumes, (Alma Infantil e As boas crianças).
HOMENAGEM A GARRETT (de collaboração com Paulino de Oliveira)—Opusculo commemorativo do centenario garretteano, edição de luxo.
A BEM DA PATRIA (folhetos de propaganda, distribuição gratuita):
I As mães devem amamentar seus filhos.
UMA MISSÃO DO PADRE GRAINHA, por Alberto Osorio de Vasconcellos—Edição em livro, feita e apreciada por Anna de Castro Osorio e Paulino de Oliveira.
AMBIÇÕES (romance de costumes).
A PUBLICAR
A VICTIMA (romance em continuação do Ambições).
HOJE E AMANHÃ (revista mensal illustrada, litteraria, scientifica e educativa, sob a direcção de Anna de Castro Osorio)—A sahir em fevereiro d’este anno.
OS ANIMAES (10.º volume da publicação: Para as crianças)—contos originaes, já em publicação.
ANNA DE CASTRO OSORIO
AMBIÇÕES
ROMANCE
1903
LIVRARIA EDITORA
Guimarães, Libanio & C.IA
108, Rua de S. Roque, 110
LISBOA
I
É na botica d’uma villa de provincia, velho burgo acastellado, orgulhoso dos seus foraes e brazões como da nobreza que em tempos d’alli sahiu e se espalhou pelo reino, deixando fortes raizes na terra, que ainda exporta fidalgos como podia exportar qualquer mercadoria.
Despoetizada pela moda que tudo confunde e baralha e pela turba de veraneadores que a procuram para refazerem os pulmões e os nervos, a que os invernos de Lisboa esgotam a energia, é ainda assim das mais typicas e formosas da provincia.
Afóra dos muros, os campos estendem-se verdes—do verde escuro dos pinheiros, do verde cinzento das oliveiras, do verde brilhante dos castanheiros... de longe em longe, manchas risonhas de pomares, salpicadas de casaes brancos, com recortes de velhos campanarios, fachadas ennegrecidas dos antigos solares, e as ermidas caiadas nos cimos dos montes cobrindo com um leve e translucido véo de mysticismo pagão a hilariante festa da natureza.
Nada mais proprio, em verdade, para uma villegiatura alegre, do que esse recanto de provincia,—valle ameno entre montanhas, com o rio cachoando ao fundo, deslisando mais adeante entre salgueiraes, como assustado da sua propria fúria.
Ha alli de tudo para deleite dos ociosos que no verão passeiam pelas provincias os tedios e as toilettes da moda.
Para os pic-nics, a sombra de velhas arvores em quintas senhoreaes; o rio, com as madrugadas de pescarias alegres; e lá para setembro a caça a rôdos pelos matagaes da serra; e para cúmulo as estradas bem conservadas pelo interesse que a gente da villa mostra em dar boa conta de si perante a civilisação dos pur-sangs e dos cocheiros inglezes.
Mas estamos no inverno, n’uma fria tarde de fins de janeiro. Ora o que se hade fazer no inverno n’uma terra de provincia, quando a neve cobre o cimo das serras e o vento corta as carnes como vergastadas? Procura-se então um bocado de sociedade para encurtar as noites sempre grandes para os preguiçosos e os paroleiros.
Vae-se para a botica, pois para onde se hade ir?...
Aquillo é o club, o centro onde tudo se reúne e as novidades se sabem e commentam, primeiro que em parte alguma.
Toda a gente tem entrado n’uma pharmacia e conhece mais ou menos o cheiro especial dos remedios, o feitio classico dos boiões das pomadas, os frascos bojudos com tampas de vidro e letreiros em grossas lettras sábias, os passaros empalhados entre o aquario com peixesinhos vermelhos e a balança na sua maquineta de mogno polido.
Em coisa alguma sahia dos antigos moldes consagrados a propriedade do sr. Domingos José da Silva, chamada a botica velha, para se distinguir da nova: envernizada de fresco, com mobilia de casquinha folheada em mogno, fabricado n’uma marcenaria do Porto.
Comtudo, a velha pharmacia rotineira e modesta não perdêra os freguezes antigos, como se não cançava de o apregoar o seu feliz dôno, que não soffria sem verdes olhares d’inveja o luxo sybarita do competidor.
Por largos annos fôra o unico pharmaceutico n’umas poucas de leguas em redor e gabava-se que não havia quem lhe levasse a palma na confecção d’umas certas pastilhas contra os vermes. Essa e a dos cães damnados eram muito suas e a ninguem as daria senão no ultimo arranco.
Mas um dia—questões de politica, infamias, invejas!...—eis que lhe surge pela prôa a nova pharmacia, com proprietario rapaz a modos litterato e suas vistas altas de quem tem um curso e faz os rótulos em latim.
Ia tendo uma apoplexia o sr. Domingos! A cada innovação que o seu rival trazia ás velhas costumeiras de botica provinciana, elle desabafava em murros no mostrador e furioso sorver de rapé.
Andou atrapalhado uns tempos. O filho aconselhava que mandasse dar uma pintadella ás portas, comprasse estantes e livros encadernados, e lá emquanto aos letreiros mandava-se ao mano, que estudava no seminario, que os escrevesse.
—Que não!—berrava o velho em vermelhas guinadas d’orgulho—que assim tinha vivido sempre e assim queria morrer; que levasse o diabo os modernismos!
N’estes sentimentos era appoiado pela mana Joaquina, resmungando sempre encatharroada contra as novidades e contra o rheumatismo que mal lhe deixava arrastar as pernas trôpegas.
Mas o caso é que a botica nova não lhe tirou freguezia, apezar dos fumos de sabichão do pharmaceutico, porque a boa gente da provincia gosta sempre de andar pelo seguro:—ná, diziam elles, temo-nos governado com o sô Domingos, e com as suas drogas nos iremos medicando; nada de venenos, que são os remedios novos!
E batiam familiarmente nas costas do velhote, que esfregava as mãos triumphante.
Passára-lhe já a maior furia, mas o rancor ficára latente e resmungão, como cachorro mal acostumado ao canil. Pessoa que, por acaso, ou propositadamente, entrasse na nova—como dizia com ironico despreso—era certo incorrer para sempre no desagrado geral da familia.
Mas, isto era ao accender dos candieiros de petroleo,—não chegou ainda a civilisação do gaz a todos os cantos de Portugal—por um fim de dia de frigido janeiro.
Lá fóra a escuridão fazia-se rapidamente, com um tremôr d’estrellas que annunciavam muita geada por essa noite fóra.
O sr. Domingos José da Silva, matriculado pharmaceutico no largo da Fonte, (como de si proprio dizia com grossa voz fanhosa e expedimentos de perdigotos por demais explicativos para quem lhe ficava em frente) estava nos seus momentos felizes.
Era á hora a que os parceiros do solo e da má lingua começavam a chegar, e toda a sua grossa pessoa rejubilava festiva.
Não que elle fosse positivamente um mau homem, que não era! Mas aquelle fraco por saber o que se passava na terra, fazia-o esperar pela noite como pelo melhor bocadinho da sua estupida vida, partilhada entre as tizanas, as descomposturas aos freguezes pobres, e o desvanecimento pela esperteza propria e a da familia.
Não era raro ouvir-lhe contar os adeantamentos e habilidades da sua prole, n’estes e n’outros discursos por igual demonstrativos.
—«O meu filho Antoino, cabalidade, cabalidade!... Deu os riscos p’ró chafariz novo. Ainda os pintava melhor, a cambra é que não quiz gastar dinheiro. Mas deixem-me ser vérador que o caso é oitro...»
Tinha ferrado no bestunto esse ideal supremo de labrego, que ao acaso de muito pontapé da sorte conseguira largar o cabo da enxada pela mão do almofariz.
Passeava, pois, o sr. Domingos José da Silva ao longo e largo da pharmacia, para melhor aquecer os pés mettidos em tamancos forrados; esfregava as mãos vermelhas e enfrieiradas vestidas de mitenes d’algodão verde salsa; tossia para o cache-nez enrolado ao pescoço, e esperava os parceiros emquanto o filho Antoino accendia as luzes e preparava as cartas para a partida.
N’uma das voltas do passeio, que o poz em frente da porta, deu de cara com a Engracia da Luz, a velha criada, quasi da familia, de casa dos Mellos.
Estacando deante d’aquella visita inesperada, onde farejou um principio d’intriga para o serão do padre cura e mais freguezes, perguntou solicito:
—«Que é lá isso, nhora Engracia? Está alguem doente lá por casa?! Parece que a vejo assim a modos assarapantada!...
—«Ai! deixe-me aqui sô Domingos. Eu vinha em busca do sr. dr. Ramalho. Disse o Zé Leandro que vira chegar umas malas grandes no carro da estação, que talvez fosse o senhor doutor... E vae eu vim em cata d’elle, porque a minha menina está muito mal, muito mal!...—puxando a ponta do avental, n’um arremesso á desgraça, limpou as lagrimas que lhe corriam em fio.
—«Olha que lanzudo aquelle! Essas malas que diz são do caixeiro das amostras, que até está em casa do Brito. O bruto não sabe cabriram as cambras e o dr. Ramalho é deputado? Que eu tamem, não sei o que alli anda!... Elle não pára cá em chegando o inverno...—piscava os olhos ao filho com ar de finura laponia, o que escancarava n’um regosijo a bocca do rapazola. Mas, reparando no ar desinteressado da Engracia que se voltava já para a porta, tornou:
—«Olhe cá, então o dr. Viegas, o doutor novo, não está lá sempre mettido em casa, não é até o noivo da Pillarsinha?
—«Pois é, é!... E não sei que lhe diga, sô Domingos, mas aquelle casamento foi a nossa desgraça. Nem elle se faz, que a minha menina morre!...
—«Elle que é medico hade curá-la, e com remedios da nova a sua menina irá a melhor, verá!...
Ria n’um pigarro escarninho, que arrepiava.
—«Olhe, sô Domingos, eu não sei d’essas coisas. Os senhores é que lá entendem d’essas guerras! Só cá me consolava o coração que o sr. dr. Ramalho visse agora a minha menina. Está finadinha de todo. Aquillo é uma fraqueza de peito, uma canceira que nem parece a mesma! Decoadinha como a senhora da Solidade! Valha-me o Senhor dos Afflictos da egreja, que só a elle a gente se póde apegar!...
—«E os paes!?...
—«Ora, os paes?!... A mãe chora dia e noite e o pae anda assim como maluco, nem toma tento no que se lhe diz.
—«Mas porque não mandaram vir o dr. Ramalho?
—«Todos os dias fallâmos n’isso, mas a menina não quer, diz que está melhor e se o mandam vir é porque a acham muito mal. Até disse que se escondia, que lhe não fallava. Não se hade contrafazer uma doentinha. O dr. Vilhegas tambem diz que não é preciso!... Ai, não estar cá o Joãosinho!...
—«E a prima, a Candidita, o que faz?
—«Está uma boa delambida, essa!... Aquillo nem parece prima da minha menina, uma soberbona, uma tola... Emfim... vou me que tenho pressa. Adeus, sô Domingos, recados á sora Joaquina.
—«Obrigada. Até outra vez, nhora Engracia!
Deixou-a partir sem mais conversa, por lobrigar o gabão do padre cura que atravessava o largo.
—«Boa noite, meus senhores,—entrou dizendo e deitando para baixo a golla de pelles, o padre, novo ainda, espadaúdo, cacete nas unhas, cigarro nos beiços, e grossas botas tamancos.
—«Então como vae isso, mestre Domingos, rijo e fero, hein? Isto por cá está hoje muito só. Estes senhores teem medo do frio, que está de rachar. Não temos parceiros para o sólo, aposto!—escarrava para o chão, raspando com o pé.
—«Ainda não é tarde, ainda não é tarde. O Neves não tarda por hi.
—«Aquella que sahiu não era a Engracia dos Mellos?
—«Era, vinha em busca do dr. Ramalho; imaginava que tinha vindo, porque, plos modos a Pillarsita está a espichar.
—«Ora adeus! A você o que o faz fallar é a inveja.
—«Inveja, eu?! Agora de que havia eu de ter inveja? Pois qu’é o Antoino de Mello mais camim? A mulher sim, não digo nada, agora elle!... Olha a grande jaração!
—«Não é lá d’isso que você tem inveja, sô Domingos; deixe-se de cantigas! O que a você o rala é a pequena ser tratada pelo Vilhegas que os levou para a nova.
—«Quê?!...—rouco de furia contida, recomeçava o Domingos o passeio n’uns impetos de fera, vendo o padre torcer-se ás gargalhadas.
Era o pratinho do cura metter ferro ao pharmaceutico; e este, sabendo isso, não queria responder para não dizerem que dava o cavaco.
O padre cura era o unico a quem elle desculpava umas certas graçolas e o unico que acceitava na sociedade depois de o saber frequentador da nova. Um pouco por medo, porque o padre tinha genio de varrer uma feira e não raro se fallava de romarias em que o seu cacete se cruzára com o dos mais pimpões, e um pouco, tambem, por curiosidade de saber o que se passava no campo inimigo.
Ainda o padre se torcia com riso quando entraram o Braga uzurario e o recebedor, que, só de o verem rir, começaram tambem a rir, comprehendendo logo do que se tratava pela cara apopletica do boticario.
O recebedor—muito vermelho, quasi cego, atarracado e obeso—interveio, conciliador!
Lá está o Domingos a dar a casca; deixe lá, homem, não faça caso. Ó sr. padre Mathias, deixe-o lá!
—«Eu pego-lhe?! Só lhe digo as verdades, e vae elle põe-se que nem uma barata.
—«Podéra não! Vem cá dizer que tenho inveja da nova...
—«Pois não tem, não!...—recomeçava o riso que endoidecia o outro.
—«Ó padre!...—avançava irado.
—«Deixe lá, deixe lá, aquillo é graça—amansou o Braga, lambendo-se por novidades... Vamos a saber a que veio a historia?
—«Conta lá homem, desembucha.
—«É a pequena do Mello que está doente—explicou o cura, levantando-se para ir contar as cartas em cima do mostrador—e cá o mestre Domingos diz que são venenos da nova...
—«Ó sr. padre Mathias! O senhor põe-me doido, olhe que me póde metter em trabalhos. Eu disse lá semelhante coisa, crédo, que home este, como as inventa!...
—«Ora, se o não disse pensou.
—«Não pensei, não senhor!
—«Então hade pensar.
—«Ora isto, isto! Mas que mal fiz eu a Deus, para aturar este home!
—«Pois sim, diga-lhe d’essas. Venham os senhores jogar uma partida emquanto elle desabafa.
—Mas conte sempre—acudiu o Braga, muito curioso.
—«Não é mais nada. A pequena está doente: nem ella melhorou em termos desde a pneumonia, pleurosia ou lá o que foi...
—«Aquillo foi doença do diabo, foi—commentou o recebedor.
—«E depois?—apressou o uzurario.
—«Depois, o medico é o Vilhegas que vae á nova. E o Domingos desespera-se porque não está o Ramalho, que é cá da velha. Vae pelo antigo regimen...
—«Não, o Ramalho não tem preferencias, e lá bom medico é elle.
—«Ó recebedor, você está sempre a defender todos, sem que ninguem lhe pague o sermão. Não digo que seja mau, mas muito adiantado não está, não se póde comparar com um rapaz sahido da escola, conhecedor de todos os processos mais modernos.
—«Não sei. Eu cá só me quero com elle. O Vilhegas será muito bom, não contesto, mas cheira-me a intrujão.
—«Pois não é, fique sabendo que é um talento!
—«Será!...
—«Mas o que tem a pequena?—perguntou o Braga, que não estava ainda satisfeito.
—«Não sabem ao certo. Dizem que é nervoso. O nervoso agora serve para tudo. Ella é fraquita. O João é que fica um bom partido, para mais de quinhentos contos!...
—«Hum! Não lhe hãode durar muito, acostumado a viver no estrangeiro...
—«Deixe lá, amigo Braga, um estudante lá fóra não gasta mais do que gasta por cá; e sempre trazem outro lustro—contradictou o cura todo de ideias avançadas e amigo do progresso.
—«Ha o perigo de se não darem cá depois, como succedeu ao Pedro d’Athayde da casa da Fradosa. Veio lá de Paris com taes ideias que não podia tolerar a familia—ponderou o recebedor.
—«Não, esse caso foi outro. Sei-o eu melhor do que ninguem, porque fui amigo do Pedro desde a escola do padre Zé. Era um bom rapaz! Generoso, franco, não podia ver uma desgraça que não a alliviasse com dinheiro, conselhos e favores, tudo! Era uma joia. Mataram-n’o os beatos que se metteram lá em casa e que elle não podia supportar. Com as suas ideias livres, a sua consciencia clara, era um escandalo na casa que se tornou um asylo de quantas irmãsinhas, frades e freiras, apparecem por ahi. O rapaz dizia, e dizia bem, que não se importava que rezassem e jejuassem sempre que lhes appetecesse, mas que o não quizessem converter a elle, que o deixassem em paz ir para o inferno ou para o céo á sua vontade. Houve questões horrorosas entre elle e o pae, que é o verdadeiro beato da casa. Por fim descoroçoou e partiu outra vez para França. Lá morreu, ou se matou. Viram-se livre d’elle e agora resam-lhe por alma. Eu sou padre, mas não gosto de beaterios. Tambem tenho tanta vocação para isto como para fiar na roca.
—«Ora, deixe se de contos, homem! Aquillo são tolices do Mello que perdeu o juizo com o dinheiro do Brazil. Metteu-se a fidalgo, casou com a prima da viscondessa, já quer os filhos educados como principes.
—«E soberbo!...—começou o Domingos, já serenado, visto que a critica principiava—não ha quem lhe chegue! E quer fazer lordes de toda a familia. Ao Vilhegas, lá porque era primo em decimo grau, emprestou-lhe o dinheiro p’rós estudios. Já se viu assim uma coisa?!
—«Quem os conheceu!...—grunhiu o Braga entre uma baforada de cigarro e um solo resmungado a mezza voce.
—«Deixem lá, que elle é bom homem—terminou o cura, com a ultima carta que lhe sahiu das mãos. Só o que elle tem feito á sobrinha, que a tem em casa como filha!
—«Hum! Uma boa prenda a tal menina, segundo diz a Engracia—informou o Domingos.
—«Bonita a valer. Se a vissem no verão passado, nos annos da viscondessa!
—«Então eu não estava lá? É muito bonitinha, é!
—«Bonitinha! Onde tem você visto melhor, seu Braga?! É uma bella mulher!
—«Ó cura, você parece que se lhe não dava de casar com ella.
—«Se não fosse este diabo da batina, não lhes digo nada. Ainda que mulheres d’aquellas não são boas para pobres.
—«E parece que não tem namorado—lembrou o recebedor, sempre comezinho nos commentarios.
—«Pois quem ha por ahi capaz de a tentar?! Você imagina que ella é parva, que se não conhece? Ó Braga, você é que podia casar com ella. Levava uma mulher que muitos lhe invejariam.
—«Eu?!... Na minha idade, uma rapariga bonita, que hade querer luxos... Você vê-me algum t na testa?!
—«Não sei; ella é de fazer perder a cabeça... e você é rico... Sabe o que é ser rico? É ter tudo quanto se deseja. Se eu fosse rico como você, deixava crescer a corôa e ia até Roma para que me livrassem das ordens; depois casava com a pequena, olá se casava!...—estendia as pernas e cantarolava, esperando as cartas que o recebedor muito myope a custo despegava das mãos.
—«Hum! Ella hade pentear se para o primo.
—«O João, sim! Quer lá agora a Candida sem vintem e sem educação!...—acudiu o recebedor—Que isso lá, verdade, verdade, eu não quero nenhuma; sou casado, não ha que desconfiar, mas a Pillar é outra fazenda. É muito fina, muito boa, não se compara...
—«Pois sim, mas a Candida é uma mulher a valer! Depois, a Pillar está noiva do Vilhegas, não ha que pensar n’ella.
—«Casar?... Se não morrer primeiro, intrometteu-se o boticario.
—«Lá torna você, homem; olhe que já é mania!
—«Nan sei! Elle lá está de dentro, vê as duas; talvez se arrependesse e...
—«Calle-se ahi, homem de Deus, não diga barbarismos. Lá vem o Neves.
O Neves, ainda rapaz, entrou tossindo a sua asthma, magrizella, sem emprego certo, mas cheio sempre d’affazeres, muito prestavel e comprimentador para os grandes, risonho no seu ar de pobre diabo.
—«Vivam, meus senhores!
—«Adeus, Neves, então o que ha lá por fóra?
—«Não sei nada—respondeu sacudido, como se as phrases lhe sahissem aos pedaços, aos arrancos, da bocca embrulhada.
—«Dizem que a Pillarsita está doente. É verdade?—interrogou o cura.
—«Verdade, é; mas o meu primo disse-me hoje—não perdia occasião de referir-se ao parentesco que o engrandecia, com a grandeza do Vilhegas—que não era coisa para as afflicções dos paes. Noivo é elle e não vê motivo para tanta apoquentação.
—«Talvez não veja bem... disse entre dentes o pharmaceutico.
—«Que é lá isso, ó sô Domingos? Você parece que me traz quesilha desde que veio o meu primo. Olhe que eu não tenho nada com as suas zangas...
—«Quem diz isso? É que hãode ver muita coisa!... Eu cá sei!...
—«Sabe o quê? Diga aos amigos, desembuche.
—«Nada, nada!...
—«Está doido—rematou o cura, ainda preoccupado com a belleza da Candida.
II
Era verdade. A Pillarsita havia uns tempos—depois d’uma pleurezia que a tivera entre a vida e a morte—puzera-se n’um esmorecimento de flôr que se estiola.
Não se queixava, que a doença não lhe pedia remedios nem desejos de melhorar—só os que ainda teem esperança de felicidade se apegam á vida e querem convencer-se de que o queixar-se lhes traz allivio.
A pequena, dantes tão alegre, d’uma vivacidade gárrula d’avesinha amorosa, entristecêra subitamente, e, taciturna, aborrecida, ninguem diria que era a mesma. De bondosa e tolerante que era, tornára-se impertinente e irritavel, como se os nervos lhe andassem desorientados sob a pressão d’um grande mal.
Essa mesma susceptibilidade morbida, que transformára a rapariga d’outr’ora, alegre, boa e egual, n’uma nevrotica, minada de desejos e caprichos que logo se convertiam em saciamentos de vontade doente, dava-lhe por vezes tambem dias de tanta meiguice e passividade que o seu espirito não parecia ter mais energia do que o d’uma criança recemnascida.
O noivo, o Emygdio Vilhegas, tinha para desculpar estes caprichos e phases, discursos e theorias sobre as doenças nervosas, que deixavam os paes, senão satisfeitos, ao menos mais socegados sobre a gravidade do estranho mal.
Elle e a prima da Pillar, a Candida, que fôra a sua companheira e amiga intima desde a infancia, não podiam comprehender a quasi aversão com que a enferma os olhava e por vezes até repellia.
No principio da doença, quando a pleurezia se apresentára dupla e d’uma violencia mortal, elles arvoraram-se em enfermeiros solícitos e era impossivel exigir aos seus affectos maior vigilancia e cuidados. Mas desde que a febre cedêra e a doente começára a reconhecê-los, affastára-os systhematicamente, com uma friesa de maneiras que mais se evidenciava pelo contraste com a mãe, a quem desejava sempre ao pé do leito, sem uma hora de repouso que não fosse substituida pela velha Engracia.
—«Porquê?!...» os dois, no vão d’uma janella, n’um fugitivo momento de solidão, olhavam-se apavorados e trocavam rapidamente essa pergunta.
—«Porquê?!—dizia o Emygdio—terá acaso desconfiado alguma coisa?
—«Parece!...
—«E se diz aos paes?!
—«Que importa? Não o devem saber mais dia menos dia?...—murmurou a Candida, fitando os seus olhos carregados de duvidas nos olhos que o Emygdio desviava intencionalmente, ao mesmo tempo que respondia:—«Ah, mas por emquanto não... Bem vês!... Devemos-lhes tanto!... É urgente saber, custe o que custar, o que ella sabe de nós.
A conversa, cheia de reticencias e sub-entendidos, foi interrompida pelo arrastar de passos trôpegos no soalho do corredor. Era a Engracia que entrava para levar um caldo á doente, que no quarto ao lado se ia finando. Olhou os dois com severa desconfiança, emquanto o medico n’uma voz de perfeito socego fingia dar as ultimas recommendações á inferma:
—«Logo que venha o remedio da pharmacia dê-lho d’hora a hora, até que eu volte.
A Candida affastou-se silenciosamente, emquanto o rapaz a ficava olhando embevecido. Era na verdade linda, mulher de fascinar e não d’encantar, talvez, de uma belleza cheia, fria, e esculptural, que se impunha.
Branca como um lirio e tão branca que o seu busto triumphal mais parecia talhado no marmore de que se fizeram as maravilhas da estatuaria grega. Cabeça alta e pequena levemente inclinada para traz, como que vergando ao peso dos fartos cabellos d’um castanho que á luz toma reflexos d’oiro; a bocca delgada, sempre aberta n’um sorriso frouxo de contemplação propria; e nos olhos negros, velados d’uma placidez funda d’abysmo, nada se poderia lêr do que lhe ia na alma. Muito alta e direita, nobremente lançadas todas as linhas do seu corpo—era uma verdadeira maravilha da carne.
Nada parecida com a Pillar, que fôra sempre d’uma graciosidade fina de intellectual; alta apenas para ser elegante; magra, sem o aspecto quebradiço dos doentes; d’uma pallidez moreno-perola: era em tudo o contraste da prima.
Criadas juntas, mas desemelhantes, tanto physica como moralmente, tinham-se feito mulheres e seguiam os seus gostos e inclinações, que os paes da Pillar não contrariavam na filha, que adoravam, e menos ainda na sobrinha orphã e pobre, que a bondade d’elles agasalhára e criára como egual aos seus.
Antonio de Mello, o pae da Pillar, fôra uma criança ainda para o Brazil, chamado por um tio que, como elle, partira havia muitos annos, deixando com lagrimas d’amarga saudade os amigos e companheiros de jogos e romarias, o seu rebanho, a terra amada, que era a sua patria.
Voltára annos depois—quando a morte do tio lhe déra liberdade para liquidar a fortuna—um pouco abatido pela nostalgia, mas ainda vigoroso de corpo e são d’alma, como fôra. Um bom coração de rapaz que adormecêra na trabalheira mercantil, acordando já quando os outros, os que passam a mocidade em folgança, se sentem sem energia para amar sã e nobremente.
Como viera bastante rico e tinha uma finura natural, de temperamento delicado, na maneira de apresentar-se, conseguiu captar as boas graças d’um velho fidalgo da terra, que tinha ao tempo uma filha para casar. Tinha a filha, o velho original, e uma pequena mas solida fortuna ajuizadamente administrada, e uma e outra, as paixões dos ultimos annos, elle queria entregar em mãos de homem capaz de asestimar.
—«Emquanto a fidalguia—dizia a quem fallava na humildade do nascimento do Antonio de Mello—era coisa de que nunca lográra comer...
Era bonita a joven Josephina, bonita e sadia de corpo e d’alma, como quem fôra criada nas serras e com a natureza aprendêra a bondade natural e humana dos fortes.
Mal que a viu alegre e moça, como arbustosinho agreste que em seu tempo proprio se reveste de perfumadas flores, sem complicações de tracto, nem agasalhos de estufa, amou a Antonio de Mello apaixonadamente. Doía-lhe no entanto recebê-la acompanhada d’um valioso dote, elle que a amava com a simplicidade primitiva d’uma alma e d’um corpo que se dão em troca de outro corpo e de outra alma por egual amante.
O homem que sahira do povo mais humilde, que arrastára uma vida trabalhosa luctando pela fortuna, encontrava ainda, no seu coração de trinta e oito annos, um crepitar de paixão e um desinteresse verdadeiramente juvenis.
Confessára-lho; e tão simples, tão honestamente, que a rapariga o ficára amando toda a vida.
Foram felizes como o podem ser dois espiritos que se ligam sem se absorver, que se estimam e comprehendem, desculpando-se mutuamente.
Com a felicidade inesperada do coração, Antonio de Mello tornára-se alegre, quasi criança; era a phantasia alada que doira a existencia e que um bom casal não pode dispensar, sob pena de cahir na realidade banal que mata o amôr.
Josephina, a boa e resignada alma, com a sua maneira serena e pacificante de encarar a vida, trazia áquella felicidade um não sei quê de intimamente religioso, que infundia respeito ainda aos mais familiares.
D’essa união tão completa nasceram dois filhos. Primeiro, o João, que fôra sempre uma bella e forte criança de boas côres e moderada phantasia, como a mãe. Alegre, prompto a defender os mais fracos, o seu espirito não se perdia nas nebulosidades dos sonhos, que atormentam as crianças precocemente, doentiamente emotivas.
Oito annos depois, quando o pequeno já bocejava sobre os livros das primeiras letras, nasceu a Pillar, de uma finura, de uma graça de estatueta. O irmãosito adorava-a e ria perdidamente, quando a via nos braços da mãe procurando o seio como um animalsinho voraz, e de farta deixá-lo depois e adormecer como um anjo. Mal entrava em casa, lá ia elle, pé ante pé, se a criança estava a dormir no bercinho, afogada em rendas e cambraias, contemplá-la com um affecto que mais parecia d’uma pequena mamã. E já quando maiorsinha, João servia-lhe de protector e amigo, de promotor de todos os festejos e brincadeiras que distrahissem a irmã. E assim, ella criou-se sob o affecto carinhoso dos que a rodeavam, como avesita fragil que um nada pode matar.
Talvez mesmo por isso, desde pequenina que os nervos lhe vibravam intensamente todas as alegrias e tristezas da alma. Intelligente e com uma grande vivacidade, a imaginação, como a do pae, viajava sempre pelos caprichosos trilhos do ideal. Não sendo positivamente bella, as suas feições eram tão finamente desenhadas, que o perfil esbatido em sombra sob a cabelleira revolta fazia-lhe uma verdadeira cabeça de modelo. Depois, quando fallava e ria, os olhos castanhos irradiavam um tal fulgor de intelligencia que, incondicionalmente, a diziam bonita.
Um dia, quando ella era ainda muito criança, o pae levára-a, e ao João, a uma quinta arredada onde deixava viver um irmão, que viera encontrar na miseria, apezar do muito que do Brazil lhe mandára. Um mandrião, um vicioso, que para alli ia morrendo aos encontrões da mulher e dos filhos que o não estimavam. Só o irmão não se esquecia do desgraçado, visitando-o amiúdadamente e dando-lhe tudo que elle necessitava.
Quando n’essa tarde chegaram á quinta encontraram a familia em gritaria confusa, porque o homem, n’um phrenesi de bebedo, cahira do patamar da escada de pedra e o sangue sahia-lhe ás golphadas pela bocca.
Assim morreu, sem dar mais accordo de si, apezar de todos os remedios ordenados pelo medico, que o irmão mandára buscar immediatamente.
A Pillar sentiu uma impressão tão forte, que os seus frageis nervos de precoce e feminil sentir conservaram eternamente a lembrança de aquella espantosa scena. Chorou muito, abraçada á primita, a Candida, que era a mais nova dos filhos do morto, mas apezar d’isso tres annos mais velha do que ella.
D’uma friesa quasi hostil, a pequena torcia na bocca a ponta do bibe de riscado, contemplando, com admiração inconsciente de pequena selvagem, o vestido bordado, d’alvura deslumbrante, que a Pillar trazia com a indifferença do habito.
Não querendo prolongar o espectaculo doloroso, que o acaso dera ás crianças, Antonio de Mello quiz mandá-las na carruagem, emquanto elle ficava até ao fim, mas a filha, muito enthusiasta e affectiva, é que já não quiz partir sem levar a prima.
E foi desde essa hora amargurada que as duas ficaram inseparaveis—mais do que duas amigas, irmãs.
Os sobrinhos, empregados; a cunhada e uma filha mais velha partiram para a terra, deixando-lhe naturalmente, sem quasi o agradecer, o cuidado da pequena Candida, que era um estorvo para todos, sendo na verdade «formosa de mais para pobre», como dizia a mãe.
Ficaram juntas, dormindo no mesmo quarto, tendo os mesmos professores e criados, os mesmos brinquedos e alegrias.
Diziam-nas as melhores amigas, apezar da profunda desemelhança dos caracteres; mas se da parte da Pillar havia sinceridade no affecto, o mesmo não succedia á Candida, que invejava a prima por tudo em que lhe era inferior.
A vaidade enchera-lhe a alma d’ambições e ruins invejas e a belleza physica não correspondia ao desenvolvimento das faculdades intellectuaes.
D’uma passividade infermiça para tudo quanto não fosse o seu prazer, desde criança que o tempo que a prima levava a lêr e a estudar o passava ella a contemplar-se ao espelho, a ataviar-se, ou a entregar-se a pensamentos de que ninguem podéra nunca conhecer o fito.
Orgulhosa, d’uma susceptibilidade irritante, filha d’esse mesmo orgulho que a dilacerava, supportava mal a posição que a sorte lhe destinára.
Se os primos e os tios a tratavam com a confiança que dá a amizade, ella lia nas suas maneiras sómente o dó. Soffria porque os criados, que adoravam os filhos dos patrões, tinham sorrisos e ápartes de despreso pelos seus modos de rainha de emprestimo; soffria porque a Pillar tinha a graça e o espirito, que traz a intelligencia cultivada; mas soffria principalmente e desesperadoramente pela falta de fortuna que a punha n’aquella dependencia.
E calava-se, comprimindo sob a frialdade do sorriso um fundo de entranhadas cobiças. Incapaz de procurar a independencia pelo trabalho, incapaz mesmo de considerá-lo uma coisa possivel para naturezas excepcionaes como a si mesma se considerava, ia continuando a receber tudo d’aquelles que no seu intimo odiava, por isso mesmo que tudo lhes devia.
Não tendo sido nunca uma criança ingenua, porque o convivio d’uma familia em que o pae era bebedo e a mãe e os irmãos mal educados lhe tinha feito muito cedo conhecer da vida tudo quanto ella tem de inferior e baixo; foi muito precoce no desejo de agradar e no convencimento de que só um marido rico lhe daria a superioridade que ambicionava sobre todas, a do luxo e dos faceis triumphos que o dinheiro traz a uma mulher bella.
Por isso, ainda de vestidos curtos e tranças cahidas, começára a olhar para o João, já então um rapaz que entrava na vida com todo o enthusiasmo dos vinte annos.
Mas elle, ou porque realmente não gostasse da prima, ou porque a achasse criança, ou talvez por ter a cabeça cheia d’outros sonhos, o que é certo é que a tratava com mais indiferença do que affecto.
A Candida soffria com isso, tanto mais que os rapazes ricos não abundavam por alli e aos pobres não queria dar nem sequer a sombra d’uma esperança; consentia-lhes apenas que a admirassem, de longe...
A Pillar, é que parecia querer fazer-lhe esquecer, á força de bondades e delicadezas, a desegualdade das suas fortunas. Enchia a prima de presentes, queria-a sempre egualmente bem vestida, e muitas vezes puzera de parte joias de valor para não maguar a amiga. E dizia-lhe ingenuamente, não vendo que irritava uma ferida que o despeito fizera:—que seria o seu maior prazer vê-la casada com o irmão.
—«Porque razão não gostam vocês um do outro? Seria tão bom sermos irmãs a valer!...
—«Não é preciso, querida! Pois não somos nós irmãs pela amizade?...—respondia-lhe a Candida sorridente e beijando-a.
Como Antonio de Mello era muito bom para a familia, os parentes, ainda os mais arredados, vinham sollicitar-lhe os maiores e mais abusivos favores. Foi assim que o pequeno Emygdio, companheiro de João em instrucção primaria, se valêra d’um affastado parentesco para pedir o seu auxilio e continuar a estudar.
Conhecendo-lhe sagacidade e uma grande e tenaz vontade de subir, sympathisou com o rapaz e mandou-o para o collegio onde o filho fazia os preparatorios na mais alegre despreoccupações.
Quando vinham a férias, João apresentava o companheiro como modelo dos estudantes, não lhe regateando elogios, apesar de lhe não seguir o exemplo.
Macambuzio como um aldeão espantado, humilde, mal vestido, não despertava senão despreso á Candida. Emquanto a prima o tratava com a affabilidade que merece o companheiro e amigo d’um irmão, ella olhava-o desdenhosa, com o despreso com que tratava os inferiores em posição, vingando-se n’elles da sua propria inferioridade.
Mas o Emygdio não ligava importancia a tal coisa; tinha, como ella, um só desejo, um unico horizonte se abria á sua pesada imaginativa de ambicioso vulgar—subir, ser alguem. Para isso estudava, que não para saber. Agarrara-se aos livros com a persistencia estreita e contumaz d’um homem que por aquelle caminho intentou trepar para o futuro de gosos e de vaidades satisfeitas de que a pobresa e a humildade de posição o tinham affastado até ahi. Com os olhos fitos na futura grandeza pouco se lhe dava com as humilhações da hora presente.
Assim, que lhe importava o despreso da Candida, tão rica como elle? O que o tentava, o que o fazia rojar-se no pó para um dia se poder erguer triumphante, era o dote da Pillar.
Teimosamente, com a paciencia d’um colleccionador, sem descançar nem se desviar do seu fim, começára, desde os primeiros annos de intimidade com João, um cerco muito habil á meiga criatura que lhe levaria a posição e a fortuna almejadas.
Ella que primeiro o estimára como a um bom rapaz, companheiro do irmão e a quem este fazia os mais rasgados elogios, que o admirára depois pela fama de talento que a applicação persistente ás aulas lhe trouxe, n’um paiz em que os rapazes geralmente pouca energia de vontade dispensam ao estudo, começára por fim a enlear-se na rede invisivel que elle lhe tecêra e ia armando, com a sua calculada timidez de caracter probo, mal encobrindo um irresistivel affecto, que a ingenua acreditou muito puro.
Amou-o então, sinceramente, cegamente, com tudo quanto na sua alma havia de enthusiastico e nobre.
Era tão feliz na embriaguez d’aquelle primeiro amôr, que desabrochava n’um esbanjamento de força e perfume como na primavera as flores nascem e crescem espontaneamente, que não soube occultar de ninguem o absorvente anseio em que toda a sua pessoa se prendia.
Os paes, sabedores do desejo da filha, annuiram logo ao casamento—para quando o Vilhegas acabasse a formatura em medicina e ella completasse os vinte e um annos.
Porque não? Se a filha o amava tanto, e elle parecia tão bom, tão sincero, tão intelligente; porque razão se opporiam?
—Ser pobre não era motivo para recusas, pois que a pequena tinha, graças a Deus, o bastante para os dois...—dizia o pae satisfeito por ver na escolha da filha uma sinceridade e desinteresse que toda lhe transmittira com o seu sangue salubre de generoso plebeu.
De maneira que a Pillar passára do desejo á realidade, n’um deslumbramento de sonho, que a tornava a mais ditosa das mulheres.
A alegria radiosa d’um grande amôr que se julga correspondido e não tem preoccupação que lhe empane o fulgor, fazia d’ella a noiva mais adoravel que um homem de espirito e de coração poderia desejar. O Emygdio mostrava-se d’uma correcção e d’um enthusiasmo, que talvez fossem sinceros, no seu papel de noivo feliz e enamorado.
Porque, se era verdade que intimamente não sentia a paixão que aparentava, tambem lhe não era indifferente a rapariga, que alem de rica e bem educada tinha a intelligencia e a graça que conveem á mulher d’um grande politico, que ambicionava vir a ser.
Não sentia por ella impetos de paixão, como ainda os não sentira por outra qualquer. A ambição de subir, aspiração exclusivista e absorvente, parecia ter-lhe embotado toda a affectividade do seu ser.
III
«Porquê?—perguntára o Emygdio. Porque razão os despresava a Pillar, ella que os tinha amado tão ardentemente, que fundira a amizade pela prima e o amôr pelo noivo em tão intima communhão, que não sabia bem como destrinçar qual occupava maior e melhor logar em sua alma?!...
Presentia que os seus sonhos de grandeza desabavam, que toda a sua ambição de subir baqueava ante aquelle estupido amôr que o enlouquecêra. Amar a Candida—que loucura!... Como fôra que isso se lhe mettêra em cabeça? Como se deixára vencer pelo capricho d’uma rapariga leviana, enlear ingenuamente n’uma intriga perigosa, quando se julgava superior a bagatellas de sentimento?!...
—«Oh que estupido—que estupido e que fraco!—dizia a meia voz, levando os punhos á fronte na ansia de arrancar do cerebro aquella ideia mortificante.
Dava-se uma situação d’estas quando já se via formado, quando apenas esperava que a noiva completasse os vinte e um annos para encetar a vida de prazeres que de criança vinha ambicionando com tão feroz egoismo! Quando o triumpho lhe estava assegurado é que esbarrára n’esse escolho imprevisto—a paixão por uma rapariga pobre.
Que ironia da sorte! E não poder fugir ao imperio que a belleza material da Candida exercia despoticamente sobre o seu organismo, mortificava-o, por deprimente para o seu orgulho de forte. Elle, que unicamente amára o seu sonho de grandeza, vergára todo inteiro ao primeiro olhar em que essa soberba mulher o envolvêra.
Soffria no cachoar de paixões, em que se sentia tão outro; escravo d’um sentimento imprevisto, quem fôra sempre tão senhor dos seus desejos, quem soubera guiar os seus mais insignificantes actos com a pericia e sangue frio d’um habil sportman guiando os cavallos de fina raça por entre o turbilhão da multidão que se acotovella. Parecia-lhe uma illusão da sua cabeça enfebrecida; nem comprehendia como isso lhe viera só agora, tendo conhecido a Candida desde pequena.
Não comprehendia, mas o problema era de facil solução. Criados juntos, era verdade, mas affastados moralmente como se os separassem milhares de leguas, tinham-se visto sem se vêr, empolgados um e outro pelos seus aureos devaneios.
Quando o João partira para a Belgica, n’um subito desejo de sérios estudos, sem ter manifestado á prima a mais leve sombra sequer de amoroso interesse, teve ella uma decepção fundissima. O seu orgulho de mulher bonita fê-la sentir, como um insulto, a indifferença d’um homem que tinha desejado conquistar. Julgou-se victima de injustificavel perseguição do destino e o seu fundo invejoso de egoista azedou se mais ainda.
Despresára o Emygdio, achára o vulgar e desageitado; quando a prima lhe confessára o seu amôr, tivera mesmo um mordente risinho de troça, mas agora que o via com uma posição bastante para a tirar da dependencia que a torturava, embora para viver modestamente, começára a notar que não era de todo feio aquelle solido rapaz de hombros largos, cabeça loira e rosto imberbe e rosado, agora, desde que ganhava dinheiro, sempre enfiado em collarinhos da ultima moda e gravatas espectaculosas. Convenceu-se de que o casamento da Pillar seria mais uma injustiça revoltante. Era um medico, afinal! Não teria sido melhor ter pensado antes n’elle do que no João?...
Desde que esta ideia se lhe fixára na cabeça, foi d’uma provocante e tenaz amabilidade, dando-se um ar quasi ingenuo de fraternal carinho, a que o rapaz não soube resistir. Conhecia pouco a vida para se poder esquivar ao dominio d’uma formosa mulher que ia ao seu encontro, o requestava quasi.
Conquistado, julgou-se conquistador—o que o envaideceu e lhe fez perder o sangue frio.
—«Talvez fosse ella quem lh’o dissesse—pensava o rapaz passeando inquieto pelo quarto onde se encontrára com a Candida.
Mas não fôra. Não estimava por certo a prima, odiava a mais do que a estimava, mas tinha habilidade bastante para não comprometter o presente sem ter a certeza do futuro. Ora a certeza de que o Emygdio se resolvesse a desmanchar o auspicioso casamento que tinha contractado, para a tomar como esposa, não a tinha; porque, se em conversas de amôr o achava de uma eloquencia de que até o julgára incapaz, logo que se tratasse de interesses e de futuro encontrava-o d’uma frialdade e d’um mutismo muito para desconfiar. Se não era d’uma intelligencia excepcional, era bastante fina para comprehender até onde chegava o dominio exercido sobre os seus adoradores—o que de resto não é prova de talento, antes de preoccupação mesquinha de quem se occupa sómente com a sua pessoa e funda as mais caras esperanças no agrado dos outros.
Não fôra pois ella, mas um simples acaso que tudo revelára á Pillar.
Uma noite já fria do ultimo outomno, acordára altas horas, muito contra o costume dos seus bons somnos de saudavel e feliz. Voltara-se na cama, aconchegando a roupa, enterrando mais a cabeça na almofada macia, mas uma pallida claridade que vinha do quarto de vestir sobresaltou-a pelo inesperado. Abriu muito os olhos para se convencer de que não sonhava, sentou-se na cama e chamou a prima. Como lhe não respondesse, chamou mais alto, n’uma voz entrecortada de sobresalto, e só ouviu o bater do proprio coração de encontro ás paredes do peito.
Não sabendo como explicar somno tão pesado em quem de ordinario pouco dormia, saltou ao chão e foi á cama acordá-la. A cama estava vazia.
Não poderia explicar o que pensou, porque ha momentos em que o instincto, de ordinario emudecido pelas conveniencias, pela educação e pelo sentimento, se insurge, apodera-se de todo o nosso ser animal, impelle-nos com a força bruta da natureza que se vinga, para a frente, para a verdade, para o abysmo muitas vezes...
Correu ao quarto de vestir e viu que a claridade que tanto a intrigára era a do luar que entrava a jorros por essa mesma porta de vidros a que o Emygdio ora se encostava, e era sahida para o jardim.
Um ligeiro sussurrar de vozes veio morrer ao seu ouvido sobreexcitado.
Estaria a Candida no jardim? E com quem?
Perguntava a si mesma, sem poder adivinhar a resposta... Talvez que n’esse rapido instante de incerteza ella presentisse o derruir de todos os sonhos de ventura, architectados com tão amoroso enthusiasmo, talvez...
Abriu a porta de vidros mal encostada, com a cautella, o susto de quem pratica o primeiro crime, e, de subito, encostou-se á hombreira para não cahir, e alli ficou por instantes, trémula, tiritante, como assombrada.
Viu-os de costas, affastarem-se enlaçados; ouviu a voz, que sempre aos seus ouvidos tinha chegado como symbolo do amôr e da verdade, murmurar blandicias aos ouvidos de outra mulher; toda a vida se lhe concentrou nos olhos e nos ouvidos, que n’esse esforço de vontade adquiriram uma acuidade suprema.
Conhecia-os bem; a imagem d’elle, principalmente, estava gravada tão funda na sua retina de apaixonada, que o reconheceria logo, ainda mesmo que o som das suas vozes não lhe viesse bater no ouvido como enxadadas de coveiro que lhe estivesse abrindo a cova sob os olhos apavorados.
A decepção foi d’uma surpresa tão triturante, tão esmagadora, que para alli se ficou como empedrada, encostando-se á parede branca de cal, como ella immovel e livida. Envolta em luar, a cabeça descahida, a bocca entreaberta n’um estorcer de angustioso espasmo, apenas vestida pela camisa fluctuante que só lhe descobria os pés nús, as mãos finas e a cabeça que a surpresa desvairava—era a verdadeira encarnação do desespero.
Voltavam; já as vozes se aproximavam, n’um murmurio que se confundia com o tremor das folhas emurchecidas que se desprendiam das arvores que o outomno amarellecêra e com o cahir da agua nos tanques.
A Pillar estremeceu; voltar para traz, esconder-se, fugir, foi o pensamento que a assaltou, logo seguido de outro, de muitos outros, d’um tumultuar de desejos desencontrados, que a deixavam indecisa, esbogalhando os olhos para a mancha empastada das arvores onde os dois se escondiam.
A noite muito clara, n’uma cheia de luar, estava fria, d’essa algidez penetrante que dá a proximidade das montanhas coroadas de neve.
Um estremecimento prolongado e doloroso lhe sacudiu o corpo. O sangue batia-lhe na cabeça e punha-lhe nos ouvidos uma zoeira de atordoamento, cascalhavam os dentes uns contra os outros, todo o seu fragil organismo se debatia n’uma crise de nervos assustadora.
Teve medo de morrer alli, e sob o esforço, pela pressão violenta da propria dôr, conseguiu entrar e fechar a porta como a encontrára, e depois, aos solavancos, desequilibrando-se, esbarrando nos moveis, chegou á cama onde se metteu mais por habito do que pelo claro juizo do que fazia.
Quando a Candida recolheu já não estava em estado de a sentir; e ella, nada ouvindo de anormal, julgou que mais uma vez a aventura passaria despercebida.
De manhã a febre era intensa e o delirio hallucinado. O dr. Ramalho e o Vilhegas, chamados a pressa, olharam se preoccupados, n’uma clara demonstração de desânimo. Ambos os pulmões estavam atacados e a pleuresia manifestava-se com a violencia d’aquellas de que só um prodigio póde salvar a doente.
Salvaram-na com effeito, á força de cuidados e desvelos; como que a arrancaram á morte, n’uma lucta braço a braço travada.
O Vilhegas foi o mais cuidadoso enfermeiro, não se deitando, não comendo senão de pé ao canto d’uma meza, alli mesmo no quarto de vestir.
A Candida, presentindo que a doença era mortal, teve um momento de orgulhoso triumpho, mas calára-se, fingindo esquecer o Emygdio, affectando um enorme interesse pela doente. Não queria escutar os tios que a mandavam repousar e despresava os conselhos que a velha Engracia lhe dava, n’um modo arreliento de desconfiança.
—«Não, minha tia, não me obrigue a desobedecer-lhe—porque eu não deixo a Pillar, dizia, abraçando a pobre mãe lavada em lagrimas de reconhecimento.
Não a deixava de facto, nem de dia nem de noite, como expiando a morte bemfeitora que lhe arredaria aquelle unico estorvo ao seu sonho supremo.
Mas a morte foi vencida d’esta vez.
Quando o dr. Ramalho e o Vilhegas participaram aos paes que o grande perigo passára, elles não souberam senão chorar, tão verdade é ser o grande contentamento quasi doloroso pela intensidade do sentir.
Começou a melhorar devagarinho, n’um ateamento de vida que vem aos poucos, preenchendo as lacunas da memoria; mas á proporção que a luz se fazia no cerebro abalado da doente, um desespero sem nome se lhe ia pintando no rosto. Os olhos tinham uma expressão de desvairamento quando se fixavam na prima e no Emygdio pelos quaes manifestára uma subita aversão, que parecia desolá-los. Só os consentia no quarto, quando de todo não encontrava pretexto para os affastar. A Candida, principalmente, causava-lhe uma irritação profunda, que roçava pela repugnancia.
Os nervos, n’aquelle organismo depauperado pela doença, tornaram-se senhores absolutos e d’uma susceptibilidade que lhe chamava lagrimas aos olhos a cada momento.
Infantil por vezes, muito tolerante para os paes e para a velha Engracia que a acompanhava sempre como pessoa da familia, que quasi já o era pela quantidade d’annos que servia a casa, deixava que a boa velha a entretivesse como em criança a contar historias, visto que o dr. Ramalho a prohibira de todo o trabalho intellectual—nada que a emocionasse!...
—«Conta lá, Engracia—dizia a sorrir vagamente, os olhos esquecidos a fixar qualquer coisa—conta aquella historia d’uma princeza que morreu d’amôr...
—«Ora, ora! Sempre a mesma não tem graça, menina! Agora hade ser a do «Bernal Francez».
—«Pois sim, a que tu quizeres...—No fim do rimance, que a velha entoava com modalidades de voz apropriadas:
—«Filhos que d’ella tiveres
Ensina-lhe melhor que a mi.
Que se não percam por homens,
Como eu me perdi por ti...»
Ella sorria ainda, com o mesmo vago sorriso e o mesmo olhar fixo, enternecidos de tantissima tristeza...
IV
O dr. Ramalho—homem de trinta e oito annos, mais insinuante do que bello—fôra para alli logo ao sahir da Universidade, era a Pillar ainda uma criancita a quem beijava e contava contos. Vira-a crescer com o desvanecimento d’um pae ou irmão mais velho, não a considerando mulher senão quando ella lhe confessou, n’um impeto de franqueza, o seu enthusiastico amôr pelo Emygdio. Um d’estes amôres romanticos de rapariga, que sente um prazer morbido de sacrificada em offerecer ao homem, julgado infeliz, todas as alegrias e felicidades da terra. O dr. Ramalho tentára então tratá-la com ceremoniosas excellencias, o que a fazia rir perdidamente, terminando por lh’o prohibir.
É que a intimidade acarreta mais vezes affeições assim ternas e simples do que traz o amôr—paixão.
N’esta altura abriram-se as camaras e o dr. Ramalho, que era deputado, teve que sahir para Lisboa.
Á despedida animára os paes, dizendo lhes que, a pleuresia aguda estando vencida, ella ficava livre de perigo e bem entregue aos cuidados do collega; mas se sobreviesse qualquer imprevista recahida o chamassem logo. E terminava em confidencia—«o abalo physico foi tão forte e a fraqueza é tanta que ha muito a recear um desequilibrio nervoso, que temperamentos como o d’ella teem sempre mais ou menos latentes. Que era urgente uma radical mudança em toda a sua vida... Que apressassem o casamento. A realisação d’esse ardente desejo do seu coração havia de a curar.
Os paes concordaram de boa vontade em apressar o casamento; tudo quanto a filha desejasse elles fariam para a melhorar. Mas a doente sorrindo desdenhosa á proposta e olhando o Emygdio que a fitava ansiado e a Candida que se fingia desinteressada da conversa, respondeu que não tinha pressa, que havia muito tempo... queria que o João assistisse, queria melhorar de todo...
Desde esse dia é que o Vilhegas se mortificava a procurar o motivo d’aquella mudança da noiva, que lhe roubava assim a fortuna ambicionada quando elle já estava de mãos estendidas para a agarrar.
Redobrou de cuidados e de medicamentos, mas a Pillar, em vez de melhorar, de dia para dia se mostrava mais enfraquecida, mais desanimada e perto da morte. Quando os paes, cheios de dôr, fallavam em mandar vir o dr. Ramalho, ella oppunha-se, chorava, dizia que estava melhor, e que se elles o queriam chamar é porque a julgavam muito mal, em estado desesperado...
Sabia-se condemnada, e comprazia-se em ver o Vilhegas soffrer sósinho, na impossibilidade de a curar; e elle, vaidoso, preferia tambem ser o unico a tratá-la para assim ganhar o terreno que sentia esboroar-se-lhe sob os pés. Queria illudir-se, não vendo que a noiva tinha na face, quasi cadaverica, um sorriso torturado de quem tudo comprehendia; e morria vingada porque a sua morte era o castigo d’elle. Á Candida sabia bem que o não deixava; conhecia-o agora ambicioso e vulgar tal qual era, incapaz de se sacrificar por uma mulher ou por um interesse que não fosse exclusivamente seu.
Morria, a pobre, mais por ter visto morrer o seu ideal do que pela doença que lhe consumia o corpo.