Anna de Castro Osorio

Ás mulheres
Portuguêsas

LISBOA

LIVRARIA EDITORA

VIUVA TAVARES CARDOSO

5—LARGO DE CAMÕES—6


1905


Typ. a vapor da Emprêsa Litteraria e Typographica

178, Rua de D. Pedro, 184—Porto


INDICE

pag.
Prologo[5]
Feminismo:
I—Ser feminista[11]
II—Uma resposta[27]
III—A Instrução[43]
As mulheres e a politica[57]
Ser português[67]
No anniversario duma escola[85]
A mulher de ha trinta annos e a mulher de hôje[101]
As pobres mães[113]
A miseria do povo[133]
A ignorancia do povo[149]
Mulheres desnaturadas, mães desnaturadas[161]
A proposito duma gréve[177]
A mulher em Portugal:
I—A mulher e o casamento[193]
II—A mulher casada perante o codigo civil[207]
III—A mulher solteira perante o codigo civil[223]
IV—O trabalho da mulher[241]

Prologo

Na incerteza pelo futuro, caracteristica muito acentuada do actual momento historico, não ha ninguem, por mais ferozmente que se ensimesme ou por mais alto que se alheie em sonhos e ficções, que se não surprehenda, um dia, meditando, transido de duvidas, nalgum dos multiplos problemas que agitam a alma moderna.

São tantos e tão variados, tão dolorosos por vezes, recordam tanta lagrima, evocam tanta dôr soffrida pela mísera humanidade—que em vão lhe quer fugir e se debate e grita de desespero, ou ri de inconsciente goso, conforme é alevantada aos ares em triumfo ou mergulhada na indifferente desgraça—que o nosso espirito se detem e pergunta, no augusto silencio da propria consciencia—se vale a pena existir num mundo assim?!

Todos os sinceros têm formulado esta interrogação: uns, fortificados pelo pensamento, no desejo de remediar o mal, concebem a esperança de trazer, embora com o sacrificio proprio, alguma melhoria á sociedade; outros desanimam, a mesma dôr os mata ou anula para o trabalho paciente do futuro.

Mas o desânimo e a renuncia é uma dupla falta—pelo que deixâmos de fazer e pelo que consentimos que os egoistas e os sem escrupulos façam impunemente.

Para todos é de responsabilidade a hora presente, na qual, a par de muito crime e muita injustiça, um bello e salubre movimento se opéra por todo o mundo.

Ninguem se poderá isentar dessa tremenda responsabilidade moral, que tanto cabe ao homem como á mulher, a esta mais ainda porque nas suas mãos, com a educação da infancia, que lhe pertence, está confiado o futuro.

Á mulher, pois, ou seja pobre operaria que mal ganha para o pão de cada dia, ou opulenta dama avergada ao pêso dos seus deveres sociaes; ás mães que têm filhos a entrar na lucta pela existencia e que ansiados esperam o conselho, que os guie para a felicidade e para o bem, dos labios que lhes ensinaram as primeiras palavras e lhes deram os primeiros beijos; como ás raparigas que, mal iniciadas nos seus deveres, têm de arcar com um futuro de que nem chegam a comprehender as responsabilidades; a todas, repetimos, corre o dever de se deterem, ao menos um instante, a pensar no remedio a dar a tanto mal e a tanta iniquidade.

Por isso é ás mulheres, e principalmente ás mulheres do meu paiz—que tão insuficientemente são educadas para serem as companheiras e as mães do homem moderno—que me dirijo.

Possa este modesto trabalho corresponder dalgum modo ás necessidades espirituaes da alma feminina, que desperta emfim para uma nobre e mais util missão social.


FEMINISMO


I
SER FEMINISTA

Feminismo: É ainda em Portugal uma palavra de que os homens se riem ou se indignam, consoante o temperamento, e de que a maioria das proprias mulheres córam, coitadas, como de falta grave cometida por algumas colegas, mas de que ellas não são responsaveis, louvado Deus!...

E, no entanto, nada mais justo, nada mais rasoavel, do que este caminhar seguro, embora lento, do espirito feminino para a sua autonomia.

O homem português não está habituado a deparar no caminho da vida com as mulheres suas iguais pela ilustração, suas companheiras de trabalho, suas colegas na vida pública; por isso as desconhece, as despresa por vezes, as teme quasi sempre.

Mas siga a mulher o seu caminho, intemerata e digna, sem recear o isolamento como o ridiculo—que nem um nem outro atingem o verdadeiro mérito e a sã razão.

Tenha o coração alto e o espirito alevantado; não faça do amôr o ideal unico da existencia nem o seu unico fim. Pense no trabalho e no estudo, e deixe que as suas faculdades afectivas se desenvolvam livremente, ou se não desenvolvam mesmo, que isso deve ser indiferente á sociedade. Cuidados de amôr devem ser cuidados tão absolutamente pessoais e intimos, que não os assoalhar deveria ser a maior prova de pudôr.

Tal não sucede, porêm. Toda a gente publíca os seus afectos, puros ou impuros, verdadeiros ou falsos; e, por mais absurdos, por mais indesculpaveis que sejam, despertam mais simpathia e compaixão do que verdadeiras desgraças sociaes. Na vida real, como no drama, no romance, na poesia, ou na musica, só cai bem no gosto do publico o amavío voluptuoso do amôr sentimental.

Assim o quer a sucessão de seculos, em que a mulher foi a reclusa do convento ou da familia, tendo na vida um só fim—agradar.

Assim o estima o homem, que fez do amôr carnal o seu culto e da mulher a sacerdotisa desse culto. Mas sacerdotisa que se torna em escrava, deusa que se cobre de injurias e se lança ao monturo das velhas coisas inuteis, logo que o capricho, a paixão dos sentidos, foi como o fumo desfeito no céo sem nuvens.

O homem, passada a idade da poesia, segue triumphante o caminho da existencia, sem mais lhe importar com a sua inspiradora. Da deusa ideal dos seus sonhos faz a cozinheira habil, a dôna de casa ignorante e util, mixto de costureira e governante, a mãe paciente e sofredora dos filhos que são o seu orgulho.

A mulher, em geral, é, quando esposa, a companheira só para a vida banal e mesquinha—que nem por sombras deve abordar os graves pensamentos que preocupam o marido!...

Porque quando o homem, por acaso, encontra méritos intelectuaes que o confraternisem com um individuo do sexo feminino, é rarissimo confessar que a sorte lho deu para companhia da sua vida.

Mas quantas vezes se enganam na escolha, e, por castigo, na companheira ignorante e inferior que procuram para seu descanço, não encontraram, hipocritamente velados por uma habil ingenuidade, todos os baixos instinctos dos seres inferiores?!

Quantos, procurando nas ignorantes criaturinhas que nunca se poluiram com o estudo e com o trabalho, as previdentes mães de familia, destinadas a fazer prodigios de economias, de método e de arranjo, não depararam com desditosas mulheres roídas de ambições e vaidades, tanto mais ásperas quanto maior é a sua impotencia para as realisar—a fantasia só presa nas galanices e módas, inuteis para os trabalhos caseiros como para outro qualquer, sofrendo e fazendo sofrer todos os seus por não possuir o que deseja e vê ás outras, transformando os lares em gehenas onde féras da mesma raça se espesinham e abocanham?!

Quando ao homem fôr dado encontrar facilmente a mulher sua igual, comprehenderá quanto era louco preferindo-lhe esses pobres sêres que não têm assumpto para conversa fóra do ultimo figurino, da vida alheia e das criadas e seus costumes.

Comprehenderá então o que é o verdadeiro afecto entre esposos, e não mais preferirá essas que hoje diz amar, mas que no intimo despresa, como suas inferiores, que supõe.

E digo que supõe, porque está provado pela sciencia que intelectualmente não ha sexos privilegiados, mas unicamente individuos e, quando muito, raças.

Foram os sabios que desmentiram esse grosseiro e velho erro de que o cerebro feminino é menos pesado e consequentemente inferior ao do homem. Foram elles, os mesmos que lhe tinham levantado barreiras sobre barreiras e escreveram sobre cada porta da sciencia o fatal non possumus, os primeiros a desmentir-se e a penitenciar-se próbamente a cada manifestação da mentalidade feminina.

Foi a sciencia, fonte de toda a verdade e de toda a justiça, e na qual devemos pôr os olhos como na unica libertadora, que fez cahir por terra esse argumento tão falado da superioridade intelectual do homem, fundando-a no peso do cerebro.

Se a massa cinzenta contida no craneo feminino é menor, corresponde harmonicamente ao tamanho do corpo, em regra mais pequeno.

Foi esse o primeiro passo, o mais importante e decisivo, para o triumfo da ideia feminista. Até lá, quando a mulher pretendia estudar, trabalhar, ser um ente de razão e de luz, cahia-lhe como avalanche de gelo, a sufocar-lhe as aspirações, essa cruel e deprimente opinião. E a pobre, se não era um espirito de excepcional brilho ou um caracter de excepcional tempera, sentia-se amesquinhada aos seus proprios olhos e desistia do enorme esforço requerido para subir onde a multidão das suas pobres irmãs nem sequer se atrevia a pôr as vistas ambiciosas.

Ás vezes, ou porque fossem realmente excepcionaes, ou porque as condições mesologicas as favorecessem extraordinariamente, dentre as mulheres sahiam algumas que os proprios homens eram os primeiros a reclamar e incensar, mas passando-lhes cautelosamente o diploma de raridades, quasi fóra do sexo, sêres hibridos, masculinos pela inteligencia e só fisicamente femininos.

De modo que essas aclamadas, e afastadas do caminho trilhado pela turba-multa das ignorantes, exactamente porque eram superiores e se julgavam intangiveis, abandonavam a causa das suas irmãs, que já não era a sua, concedendo-lhes apenas, e isto nem sempre, a sua piedade diluida em conselhos de resignação e submissão para desempenharem o papel de escravas, nascidas sómente para a felicidade e regalo do homem. Desta maneira, a causa feminina perdia as suas mais legitimas defensoras, deixando nas mãos dos homens os melhores argumentos.

É como algumas esposas, que, por serem ditosas no casamento, porque tiveram a fortuna—que não digo rara—de encontrar para maridos homens inteligentes e justos, encolhem os hombros com indiferença á desgraça das que tiveram destino contrario.

É uma prova de egoismo, que é uma deploravel qualidade, e é, peor do que isso, o abandono duma causa justa que, se não toca individualmente a cada mulher, interessa colectivamente o sexo a que pertencem.

Acabar com os fenómenos, com os monstros femininos, julgar todos os individuos intelectualmente semelhantes sem distinção de sexo, aptos igualmente a estudar e progredir pelo trabalho, foi sem dúvida o passo definitivo para a libertação feminina.

As mulheres poderão, assim como os homens, distinguir-se pela sciencia, pela industria, pela arte, pelo comercio, pela pedagogia, ou ficarem tão-sómente dônas de casa,—mas fazendo do seu lar a primeira e a mais nobre escola dos filhos.

Haverá, decerto, tal-qual entre os homens, umas que se superiorisam num trabalho, outras em outro, mas serão todas educaveis, todas melhoraveis, todas uteis, laboriosas e conscientes obreiras, ajudando á melhoria da grande colmeia social.

As mulheres de hôje não têm desculpa se continuarem na ignorancia e na inactividade, tudo esperando do homem, que as hade procurar para a sua conveniencia.

As escolas estão abertas por igual aos dois sexos e não ha já quem, nesta hora alta da civilisação, se atreva a banir dellas um individuo que as queira frequentar sob o pretexto da diferença do sexo.

Tempos atrás, quando a mulher pensava em sahir do anonimato da sua missão caseira, tinha apenas por campo aberto á sua actividade, a literatura, visto que é a unica profissão onde o talento e o estudo individual dispensam a educação preparatoria.

Hoje não é assim. Toda a gente aceita uma senhora que tem a profissão de medica, pintora, esculptora, engenheira ou professora, tudo que requer habilitações e estudos publicos, e que lhe tinham ensinado a crêr que nunca poderia atingir por falta de genio criador e persistencia no estudo.

Não se sobresaltem os homens com a concorrencia, que é antes auxilio. Pequena, por mal da humanidade, hade ser sempre a percentagem dos cerebros verdadeiramente superiores em qualquer dos sexos. Não é, pois, justo que por falta de educação se percam aptidões que nem sequer chegaram a manifestar-se, talentos de que nem sequer se suspeita...

Se os mais ardentes sectarios dos velhos preconceitos já chegaram á conclusão egoista de que é preciso educar o povo para que se não percam tantissimos talentos que podem beneficiar a humanidade, não é justo—ainda que não seja senão pelo mesmo motivo—condenar á ignorancia, na mulher, metade dessa mesma humanidade.

Dever-se-ha pensar que Clemence Royer, honra e gloria da França, sabia entre os sabios, espirito todo precisão, clarêsa e método, não teria sido o que foi se, por um mero acaso, tivesse nascido em Portugal ou em outro qualquer paiz, onde, como no nosso, se descure a educação feminina.

As mulheres conservam-se entre nós numa indiferença quasi total pelas conquistas que dia a dia vão marcando um passo de avanço para o triumfo definitivo do espirito sobre a materia, da inteligencia sobre a força, da educação sobre a ignorancia, embora doiradas pela fortuna ou pelos privilegios de classe.

Mas esperemos serenamente, porque á mulher portuguêsa hade chegar tambem a sua vez de comprehender que só no trabalho póde encontrar a sua carta de alforria. Não no trabalho esmagador, exercido como castigo, mas no trabalho que enobrece o espirito, que dá o bello orgulho dos que só contam comsigo e nunca foram um peso para ninguem.

E desde que se torne independente pelo seu proprio esforço, desde que saiba agenciar o pão que come, a casa que habita, os vestidos que veste, sem estar á espera do homem, fonte perene de todo o dinheiro que hoje a sustenta—seja como pai, como marido ou irmão—a sua alforria está decretada.

Uma vez será um artigo do codigo que se modifica (porque as leis devem seguir e não preceder os costumes); ámanhã um preconceito que cahe no desuso; depois um habito que se vence; até que obrigações e direitos se igualem entre as duas metades do genero humano, hôje em guerra sob a aparencia do amôr e do respeito social.

Os proprios homens as ajudarão nesse empenho, porque nenhum ha que não seja feminista se a mulher victimada fôr a sua propria filha, aquella para quem ambicionou maior soma de venturas e de bem estar.

Não ha pai que não aspire a deixar nas mãos de suas filhas, senão um dote em dinheiro—cada vez mais dificil de juntar honestamente, com as necessidades sempre crescentes da vida moderna—pelo menos um dote em educação e aptidões de trabalho que as pônha ao abrigo de toda a servidão.

Não haverá pai que se não insurja contra a lei, se vir o marido de sua filha pôr e dispôr da fortuna que lhe deu, e sem que a dôna possa sequer gastar o rendimento. Nenhum que se não indigne se o genro a despresar ou maltratar, se lhe prohibir qualquer intervenção na educação dos filhos, se a não atender nos seus conselhos e opiniões, se a não consultar para os negocios decisivos da sua vida, se por capricho ou vaidade se oposer a que exerça uma profissão honesta que a dignifique a seus proprios olhos, se, emfim, o homem fizer da esposa o que de facto a lei quer que seja—a menor sem vontade nem discernimento, a coisa de que o marido é o senhor, o ser humano pertença absoluta doutro sêr, que devia ser seu igual.

Os homens mais autoritarios e rotineiros como maridos, são, como pais, incapazes de apoiar um estado de coisas que apenas dá por garantia de felicidade á mulher que casa, a bondade, a inteligencia e a tolerancia do marido.

É evidente que, na maioria dos casos, mórmente no nosso paiz onde o homem é bondoso por temperamento, ninguem se importa com a letra do codigo feito para uma sociedade onde a esposa era ainda, ou apenas, uma escrava submissa, sem azas para grandes vôos de vontade nem ansias de libertação.

Nas mãos de um doido ou de um perverso, porém, o que poderá ser a vida da mulher que se volta para a lei e a lei manda-lhe simplesmente e implacavelmente: que obedeça! Que se volta para a sociedade, que lhe ordena hipocritamente: disfarce e submissão! Que se volta para a familia, e essa propria, temendo o escandalo, a violação das conveniencias sociaes, lhe aconselha: que se resigne!

Portanto, ser feminista é o dever de todos os pais. Porque ser feminista não é querer as mulheres umas insexuais, umas masculinas de caricatura, como alguns cuidam; mas sim desejá-las criaturas de inteligencia e de razão, educadas util e praticamente de modo a vêrem-se ao abrigo de qualquer dependencia, sempre amarfanhante para a dignidade humana.


II



II
UMA RESPOSTA[1]

Não imagina V. Ex.a o prazer que me deu a sua carta, sabido como é que da discussão inteligente e sincera têm sahido as mais claras verdades, conhecido como é, por todos os propagandistas, quanto se ganha em fazer interessar pelas nossas opiniões, ainda os adversarios que mais as combatem.

E não sendo V. Ex.a um adversario, mas um confesso adepto, embora moderado, maior prazer o meu em lhe vir expôr serenamente as ideias feministas, tais como as comprehendo e preconíso. Diz V. Ex.a que é feminista, embora moderado, que o é como todos os ilustrados não poderão deixar de o ser, segundo a sua propria frase.

Eis o nosso primeiro triumfo, a nossa principal batalha vencida; tudo mais, creia, é questão de tempo, de paciencia, de serena e pertinaz energia, e de muito bom senso.

Ora aquellas qualidades não faltam ás mulheres, este é que ás vezes tem faltado, e não estamos longe de confessar que faltará ainda por largos annos á maior parte...

Mas, neste ponto, ninguem no nosso paiz poderá lançar á mulher a primeira pedra; culpados dessa falta somos todos e talvez mais o homem do que a mulher, talvez...

Voltando ao assumpto dizia eu, que está ganha a principal batalha do feminismo; efectivamente assim é desde que todos os homens, que se presam de inteligentes, reconhecem a mulher como um sêr quasi autonomo, com direito a pensar, trabalhar e luctar pelo seu proprio ideal. Nós não temos a fazer mais do que expôr ideias, e realisar pela prática as conquistas a que nos julgâmos com direito.

Que victoria imensa não representa essa sua simples frase! Que soma enorme de trabalho intelectual, que acumulação de esforços, para que os homens inteligentes nos concedam a outorga da sua restricta carta constitucional!...

E se pensarmos que esta primeira, mas definitiva conquista do espirito masculino, representa quasi o trabalho de meio seculo, temos vontade de dizer como o mais brilhante dos feministas francêses, Camille Mauclair:—que as mulheres apresentando as suas ideias e luctando pela educação que as superiorisa, lembram a paciencia das aluviões que fazem recuar o mar e mudam o aspecto de um paiz.

Se á geração que nos precedeu alguem falasse em feminismo, que apenas lá fóra começava a fazer-se perceber pela guarda avançada de exageradas e desiquilibradas, como adeante das procissões solemnes vem sempre o rapasío gralhando e correndo a foguetes, não haveria homem inteligente que não soltasse uma gargalhada escarninha, nem, com certeza, rapaz das escolas, que madrigalisasse pelos passeios publicos ou para os balcões floridos das vizinhas, que não encolhesse os hombros com desdem.

Os que não rissem, por temperamento sombrio e sentimentalesco, ergueriam os braços em clamôr chamando em auxilio da propria opinião a ignorancia das pobres mães e descrevendo, com enthusiasmo lamecha, o encanto duma carta amorosa com erros de ortografia como ironisava dôcemente Gonçalves Crespo, elle que na prática tão flagrantemente mostrou estimar o contrario.

Homens de incontestavel mérito não se pejavam de dizer—que só apreciavam as mulheres para os lavores caseiros, chegando a pôr em duvida a competencia intelectual do sexo feminino, não obstante as tradições gloriosas de excepcionaes, que tem vindo sempre a acompanhar a humanidade na sua evolução social através dos seculos.

Se a um dos mais bem organisados cerebros da geração a que me refiro, ouvi responder a quem citava o enorme talento de George Sand como prova da igualdade intelectual dos sexos—que essa não era mulher, era o diabo!...

Se é do meu tempo, se ouvi muitas vezes, eu mesma, a novos e a velhos, a homens e a senhoras, troçar das doutoras, citar por troça aquelle estupido dictado portuguez da mulher que sabe latim... já V. Ex.a vê o que representa para nós a sua simples confissão de que não ha hoje homem inteligente que não deva ser feminista.

Agora permita-me que explique o meu pensamento, que, certamente por deficiencia de clareza na fórma, não foi interpretado como desejava que o fosse.

O que entendo por—desenvolver livremente as qualidades afectivas na mulher,—é deixar-lhe o pleno direito da escolha, o direito sagrado de amar ou não amar, de casar ou ficar solteira, sem que isso represente uma vergonha ou, pelo menos, um ridiculo.

Entendo que o ser humano que pertence ao sexo feminino, não deve ser coagido pela educação, nem pelos costumes, nem pelas conversas, nem pelos pais—que têm a mania de talhar muito discricionariamente o futuro dos filhos—a vêr no casamento um fim, um ideal completo e único, quasi uma obrigação.

Assim como o homem pode ser professor, jornalista, sabio, artista, empregado, operario, tudo emfim, sem que ninguem lhe pergunte pela certidão do matrimonio, sem embargo de serem quasi todos chefes de familia, não vejo inconveniente a que a mulher procure a sua colocação, tenha o seu curso scientifico, estude, trabalhe para si, para o seu futuro, para a sua vida autonoma, sem se lhe inquirir do seu estado...

Que essa mulher fique solteira, porque não encontrou o companheiro ao qual lhe seria grato ligar o seu destino, ou que, encontrando-o, seja sentimentalmente feliz, que temos nós com isso?

Por acaso nos preocupa a vida conjugal do politico A. ou do artista B.?

O maior erro do homem é, a meu ver, estar convencido de que a mulher nasce e existe só para o seu prazer e encanto. Partindo deste principio, é claro que não nos encontraremos nunca, visto eu pensar de modo tão contrario.

A mulher, como o homem, nasce para si mesma. Tanto um como o outro fazem parte da sociedade, de que são factores igualmente imprescendiveis, que se não comprehenderia nem sequer existiria sem a união dos dois sexos, mas na qual individuos isolados podem coexistir igualmente, decentes, honestos e respeitaveis—quando muito pagando maior contribuição, como querem alguns economistas francêses...

Quando digo que não temos nada com a vida sentimental de cada um, não quero dizer que a mulher case por ambição monetaria ou intelectual, se é exatamente para a livrar dessa baixesa que a desejamos independente pelo seu trabalho, quando o não seja pela fortuna, e mais independente ainda pela razão que a torne um ente de consciencia justa.

Diz V. Ex.a que é o amôr que salva a mulher?!...

Efectivamente, por muito amar se salvou uma—a biblica Magdalena.

Mas não é desse amôr que se trata, dirá, é do amôr puro e honesto da mulher honesta por temperamento, educada e instruida, que escolhe com toda a liberdade do seu coração e do seu espirito o homem que lhe agrada.

Ora não é esta mulher assim elevada, assim honesta, assim livre na sua escolha, a que, pelo mais futil motivo, irá mudar de afecto, enredar-se em aventuras galantes, para as quais geralmente não tem vocação, e que podem preencher a existencia duma frívola e ignorante criaturinha cheia de vaidades e que no triumfo dessas vaidades tem os seus unicos gosos intelectuaes.

O que não quer dizer que todas as mulheres instruidas sejam honestas—quem o pudésse dizer, que seria essa a nossa maior gloria!—mas tão sómente que a mulher, que por seu desgraçado temperamento, educação ou influencia de meio, é deshonesta, o é, tanto ou mais, quando ignara e frívola.

Um dos mais graves defeitos da raça latina é o de dar ao amôr a importancia maxima da vida. Os romancistas não sabem nem podem falar em outros assumptos, querendo ser lidos e comprehendidos. O theatro explora-o em todas as gamas, desde o amôr ingenuo e sentimental até ao amôr falsificado dos adulteros. Os poetas choram os seus e os alheios; os musicos dão-lhe a fórma ritmica; os pintores e os esculptores divinisam-no no marmore polido e na policromia das suas telas...

Rapazes e raparigas, antes mesmo de chegar á puberdade, não pensam noutra coisa, e uns e outros julgar-se-hiam inferiorisados se estivessem cinco minutos na mesma casa sem se defrontarem valorosamente num complicado tiroteio de olhadelas amorosas.

Não será muito pensar num assumpto que só interessa a duas criaturas e por um tempo relativamente curto na vida humana?! Sim, que não interessa nem póde interessar senão a quem o sente e com elle é feliz ou infeliz.

Senão vejamos: V. Ex.a, que leu e respondeu ao meu artigo, sabe porventura se eu sou casada ou solteira, feliz ou infeliz no casamento, ou pensou sequer em tal?

Porcerto que não, nem isso importaria para lêr o que escrevo e responder o que entende.

É a prova de que a vida psíchica de cada individuo é completamente autonoma do seu estado civil.

A independencia da mulher não pode importar o não reconhecimento da autoridade do marido, (um dos grandes receios de V. Ex.a) porque essa autoridade existe, senão de facto, pelo menos de direito, emquanto existirem as leis que hôje nos governam, leis que a mulher deveria conhecer quando vai casar, leis que a tornam uma menor sob a tutella directa do homem.

O que será o futuro não o podemos prevêr, de tal maneira a educação da mulher modificará a sociedade.

Diz V. Ex.a que a mulher independente poder-se-ha desafrontar do marido que a atraiçôa atraiçoando-o por sua vez.

Poderá ser, mas isso o que prova? Apenas o que já disse—que, infelizmente, o cultivo da inteligencia nem sempre acompanha a honestidade e que essas mulheres se subalternisam tornando-se criminosas como aquelles que condemnam, irmanando-se ás levianas que hôje o fazem, a maior parte das vezes por inconsciencia.

A mulher independente que tal fizer, não terá por motor a independencia mas tão sómente o capricho ou o temperamento, e em qualquer circumstancia, portanto, faria o mesmo.

Com respeito á proscripção da mulher erudita da familia, não é, não pode ser, uma regra. Assim como ha homens que, não obstante serem intelectuaes, são bons chefes de familia, o mesmo sucede ás mulheres.

Nem em Portugal temos o direito de pensar doutra maneira, tendo na ilustre mulher, que é uma verdadeira erudita, D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, o exemplo vivo do que se pode ser ao mesmo tempo como mulher de sciencia, como esposa e como mãe exemplar.

Haverá mulheres que, pela sua profissão, se vejam obrigadas a estar afastadas do lar e dos filhos uma parte dos seus dias?... É certo; mas quantas os não abandonam hôje, sem esse imperioso motivo? E quantas, tambem, estando sempre em casa, tendo por unica obrigação o seu amânho ou direcção, não mandam as criancitas, ainda mal desmamadas, para a sujeição das mestras?! Quantas?!... Quasi todas as mães sem oficio nem emprego, as da pequena burguesia, essas mesmas que não querem instruir-se mais, nem se querem tornar independentes,—exatamente para não terem a maçada de trabalhar...

Se, em geral, a mulher portuguêsa filosófa—que para trabalhar escusava de casar!... Já os senhores estão vendo o que lhes devem.

Depois, álêm dessas mulheres que mandam os filhos para os colegios embora não tenham emprego fóra de casa, o que diz ás que têm as suas visitas, os seus passeios, os seus divertimentos, e que por igual são por esses motivos imperiosos afastadas dos filhos, com menos utilidade, parece-me, do que pela doença de um semelhante ou pela retorta de um laboratorio?!

Poder-se-ha dizer que a mulher intelectual despresa os modestos mesteres do seu lar, quando a propria Clemence Royer costurava a sua roupa e entretinha os seus ocios trabalhando como qualquer críaturinha que não saiba ao certo em que parte do mundo está situado o paiz que tem a dita de lhe ser berço?

Não se póde dizer que a mulher erudita tem fatalmente de ser uma proscripta do lar exactamente quando o nome de um homem e duma mulher, ligados pelo casamento, se uniram para a sciencia, num triumfo para os dois sexos; exactamente quando as revistas francêsas nos trazem o retrato de Mr. e M.me Curie acompanhados muito burguezamente de seu filhito.

É possivel que eu esteja enganada e seja exatamente V. Ex.a quem tenha razão, mas como estamos de acôrdo em que se não regateie educação ao sexo feminino e se acabe assim com o regimen de prodigios e excepções que só á causa das mulheres tem prejudicado, é o principal.

Que o resto não nos deve preocupar muito nem devemos aventar hipóteses faliveis, como tudo que pertence ao futuro e que não temos base segura para julgar.

O homem de ámanhã hade procurar a sua felicidade e a maior porção de bem estar compativel com a sociedade do seu tempo. Como o fará não o sabemos, mas é certo que pensará de maneira diferente do de hôje, como o de hôje, como V. Ex.a mesmo, pensa decerto diferentemente do que pensou seu pai e seu avô sobre os mesmos transcendentes assumptos.

Acabe-se com todas as prepotencias e todos os privilegios, tanto de raça, como de classe, como de sexo, e deixemos que, individualmente, cada homem e cada mulher, procurem ser felizes a seu modo, organisem os seus lares como entenderem,—desde que esse conjuncto se harmonise numa sociedade de mais justiça e tolerancia.


III



III
A INSTRUÇÃO

É fundamental este assumpto, visto que a nossa civilisação se baseia não na força mas na inteligencia, não na rotina mas no progresso.

Todos sabem, e apregôam aos quatro ventos, que a mulher portuguêsa é ignorante e futil, que a mulher portuguêsa tem todos os defeitos dos incultos, não merecendo do homem a consideração que se tem pelos iguais, mas a tolerancia que se dispensa ás crianças irresponsaveis.

Coisas de mulheres, dizem por vezes os homens, mostrando o seu despreso; notando-se que os que mais clamam esta superioridade são, quasi sempre, os mais inferiores...

Não é isso, porém, o que nos interessa; é certo que o homem português tem tantos ou mais defeitos do que a mulher, mas se ella se transformar, facilmente o corrijirá.

A mulher tem, em si mesma, bastantes elementos bons para se modificar, sem se queixar do homem e esperar que lhe ensine o que elle mesmo não sabe nem é da sua competencia saber.

O homem tem culpa em não elevar a mulher, em não fazer della a sua companheira de trabalho e luctas, em temer a ilustração da mãe de seus proprios filhos; o homem faz mal, porque rebaixando a mulher não se lembra que se rebaixa a si proprio que nasceu della e dos seus labios escutou as primeiras lições da vida. Mas a mulher póde reagir, póde educar-se a si mesma, póde, pelo menos, mostrar desejo de progredir, de se igualar ao homem pelo trabalho e pela inteligencia cultivada.

A mulher falha de educação é muito mais inferior do que o homem, porque são os seus proprios defeitos que se tornam qualidades, elevados pela cultura, encaminhados pela educação. O que na mulher educada é espirito, é na outra grossería; o que numa é presciencia, é na outra desconfiança; o que numa é desenvoltura e graça, é na outra descaramento; o que numa é observação, é na outra bisbilhotice...

Vai-se a uma fabrica ou a uma oficina, passa-se por uma rua onde ha desenas de homens, principalmente se forem do povo, não se ouve um dito desagradavel, não se ouve um riso que moleste; mas onde estiverem duas mulheres ás quaes a educação não depurou os defeitos, ou cujos espiritos não estejam perfeitamente humilhados pela dependencia, temos dois intoleraveis animaesinhos que riem, falam, troçam, olham miúdamente, com o proposito ferino de irritar e de ferir.

Por isso, tanto ou mais do que o homem, necessita a mulher ser educada e ilustrada, e é, a meu ver, por onde deve principiar a remodelação duma sociedade que seja progressiva.

Educar a mulher—eis o problema maximo a desenvolver e pôr em prática.

A isso é que chamâmos feminismo, que não em pôr gravatas e colarinhos de homem, que se podem usar como prova de simplicidade ou de extravagancia, mas nunca como afirmação de opiniões.

Educar a mulher dando-lhe meios de poder auferir com o seu trabalho o suficiente para a sua sustentação—quando é só—de auxiliar o homem, esgotado pelo trabalho de sobre-posse que lhe exige a concorrencia e a carestia da vida moderna,—quando casada,—parece-nos a maneira mais prática de a tornar um ser livre, apta a escolher por motu-proprio o caminho a seguir direitamente na vida.

Não temam os homens que a mulher instruida, por mais liberta, quebre mais facilmente os laços de conveniencias com que a sociedade a prendeu. Nem sempre foram os conventos, com todas as suas grades e portarias, o mais puro exemplo da castidade feminina; ainda hôje os harens, com todos os seus guardas e eunúcos, são para o ciume do macho bem fragil garantia...

A mulher entregue ao seu proprio discernimento fará o que a consciencia esclarecida e o respeito proprio lhe ensinam, e não o que o mêdo lhe dictar.

Que mérito tem a criatura que não falta aos seus deveres porque está guardada á vista, como um doido furioso?

É certo que no nosso povo está tão enraísado o habito de fazer acompanhar as mulheres, como signal de grandêsa, que é mais uma nobilitação do que uma prova de desconfiança.

Andar só é, ainda hôje, em muitas terras de provincia, uma vergonha para a mulher, mostrando que o marido a não présa bastante para a fazer acompanhar.

Lá diz a cantiga:

—«Senhora D. Maria
O seu Dom não vale nada,
Vai á fonte, vai ao rio,
Vai á missa sem criada.»

Ir á missa sem criada seria, realmente, para as nobres damas que abrigavam em casa uma legião de serviçais—criados e filhos de criados, como outrora tambem os escravos trazidos das terras conquistadas a moiros e a negros—a maior prova de miseria, ou de decadencia financeira.

A vaidade da fidalguia que é, ainda hôje, um dos caracteristicos do genio português, nesta terra em que todos se dizem filhos dalgo e se sentem com direitos de senhores para escravisar os mais pequenos, não tolerava á mulher que aparecesse em publico sem comitiva... ainda que constasse apenas duma pequena criadinha.

É esta fidalguia, mal interpretada, que faz com que o homem fuja ao trabalho, como á mais deprimente das servidões, reflectindo-se bem claramente na educação que se tem dado, até aqui, á mulher, convencendo-a de que se inferiorisa se trabalhar para ganhar dinheiro e auxiliar o homem.

O nosso paiz resente-se dum mal-estar e desiquilibrio que vem do conflicto entre o passado que se desmorona, com todas as suas velhas ideias e preconceitos, e o presente que ainda não conquistou todos os espiritos ligados ás convenções, que já despresâmos no fundo.

A nossa geração sofre duplamente pelo embate dos sentimentos que se entrechocam em nós mesmos e nas nossas proprias familias...

Todos apresentam as suas queixas, todos falam, mas tudo se diz no ar, sem provas nem proposito firme de conhecer o mal e enveredar pelo caminho que se nos afigura ser o melhor.

Quem quizer fazer alguma coisa entre nós é preciso revestir-se duma paciencia sem limites e ter uma coragem excepcional, por isso que tem de se defrontar com a indiferença de toda uma nação cançada de aventuras, exausta por um longo periodo de desilusão e enganos. Tudo contribue para o desleixo fisico e moral em que vivemos, desde o sol dôcemente enlanguecedor, até á ironia dissolvente com que se recebem todos os enthusiasmos e todas as emprezas que não tenham por fim o lucro material.

E no emtanto não devemos desistir da lucta, devemos pelo contrario ir juntando elementos e amontoando verdades até que a luz se patenteie a todos os olhos e seja visivel a todos os cerebros.

Uma das nossas maiores vergonhas nacionaes é, por certo, o analfabetismo, mas o que agrava essa vergonha é que, no continente, é a grande maioria das mulheres que eleva pavorosamente a cifra dos analfabetos.

E ha ainda quem lhes diga que fiquem em casa a educar os filhos, em vez de pretenderem ganhar o seu pão honestamente pelo trabalho!

Mas ensinar o quê, se ellas não sabem o mais elementar, se muitas vezes nem sabem ler e escrever!?

Dirão que só a mulher do baixo povo é tão completamente ignorante, mas o que é certo é que pequenissimo é o numero das mulheres que, embora saibam ler, se preocupem com as questões intelectuais e possam, portanto, ser educadoras dos proprios filhos.

E todos sabem, principalmente os professores, quanto custa ensinar crianças que não tiveram a abrir-lhe o caminho da inteligencia, o cultivo amoravel da familia, principalmente da mãe.

Para ellas tudo é novidade, desde o que seja uma montanha até ao pão que metem na bôca.

Os professores, mesmo sem querer, o fazem sentir ás crianças, e é esse sem dúvida o maior castigo das mulheres ignorantes, que julgam cumprir o seu dever de mães de familia governando a casa e vestindo com elegancia os filhos.

Mas a triste verdade a confessar, e que é muito para meditar, é que—do milhão de portuguêses que sabem ler e escrever a sua lingua, apenas um terço são mulheres!

E ainda se queixam quando se diz que a mulher no nosso paiz é inerte, ignorante e frivola!

A unica superioridade admitida no nosso tempo, por mais que se queiram iludir os grandes da terra, é a da inteligencia. Os mais instruidos são, evidentemente, os superiores, os fortes, seja qual fôr a sua posição.

No tempo em que o mundo se levava á espadeirada, a força fisica era superior á intelectual e os homens podiam tornar-se senhores pelo poder musculoso do seu braço; hôje a força fisica vale muito como educação e muitissimo para produzir saudaveis criaturas, mas vale muito pouco para aferir superioridades. Aliás teriamos de acatar o moço de fretes, que pega numas poucas de arrobas como quem pega num braçado de flôres, e proclamá-lo superior, nosso indiscutivel chefe.

Ninguem irá buscar um hercules de feira broncamente estupido para o comparar e achar superior ao sabio empalidecido e enfraquecido pelas vigilias do estudo.

O que falta no nosso paiz é a instrução, principalmente a instrução prática que faz progredir um povo. Quando é preciso traçar uma linha ferrea, vêm engenheiros do estrangeiro; quando necessitâmos dum porto, lá estão as companhias estrangeiras; quando uma cidade quer abastecer-se de agua, lá estão os estrangeiros para lha fornecer; quando é preciso montar um arsenal ou uma fabrica, lá estão os especialistas estrangeiros.

Quasi tudo o que se faz no nosso paiz é práticamente dirigido por estrangeiros e estrangeiras. Ainda destas a quantidade não é tão grande, mas lá chegaremos, e quando quizermos utilizar as nossas mulheres em muitos e variados mesteres, que o futuro por força lhes hade entregar, já não encontraremos logares vagos.

Não nos deixemos embalar com o sonho do passado; pensemos no futuro, que é o trabalho e a educação.

Fomos ha tres seculos um punhado de aventureiros que realisou a maior aventura que ainda se havia visto, e imaginâmos que tudo será perdoado a quem tanto fez e a quem tão maravilhosamente o soube cantar.

Mas os tempos são outros, as necessidades muito outras, e a vida já se não leva a descobrir caminhos por mares nunca dantes navegados.

Hôje, que o nosso pequeno planeta está visto por todos os lados, achâmo-lo pequeno e temos fome e sêde de mais alguma coisa. O homem não se cança de saber, de procurar lêr o passado nas pedras fragmentadas dos monumentos soterrados, como de procurar o futuro nos espaços faiscantes de sóes; a tudo aspira pela inteligencia, tudo quer comprehender e possuir.

A mulher entre nós não póde, por deficiencia de educação e excessivo acanhamento, ser a util companheira de tal homem.

Na idade-média a mulher podia esperar o marido, que ia ás aventuras fabulosas, sentada ao bastidor ou á róda de fiar, tecendo com suas brancas mãos o linho que por si e pelas suas criadas fôra fiado. Ignorante e passiva, era a digna esposa do senhor brutal que só conhecia o direito da força.

No seculo XX a mulher tem de ser outra, porque outro é tambem o homem e muito diferente o seu ideal.

Educar a mãe para ser a educadora dos filhos; educar a mulher em geral para viver de si mesma, e para si, quando pertença á enorme legião das que ficam solteiras e portanto,—sem filhos a educar nem casa a governar, deve ser um dos nossos mais porfiados empenhos.

É este o verdadeiro feminismo.


AS MULHERES E A POLITICA


As mulheres e a Politica

A mulher não hade fazer politica? Então não hade ocupar-se, já não digo da sua, mas da sorte de seu marido, dos seus filhos, ella que é toda dedicação?!

Dr. Bernardino Machado.

Transcreve um diario radical,[2] não sei se irritado pelos ultimos casos da politica portuguêsa, um artigo de Urbain Gohier, publicado no jornal L'Action, em que as mulheres são verberadas violentamente, por isso que se prova que em politica só se obedece aos seus caprichos, e os seus desejos se antepõem aos mais urgentes negocios de estado, de que dependem os destinos duma nação.

Porventura é isso novidade para alguem? Julgaram os homens, por acaso,—tamanha será a sua ingenuidade?!—que podiam em vão dispôr de metade da humanidade, redusi-la ao papel farfalhudo de deusa do lar, nuvem, anjo, demonio, e todas quantas mais banalidades se têm dito e escripto ha seculos, e dizer-lhe:—fica ahi! o teu destino é agradar-me ou servir-me, conforme o meu capricho de senhor!?

Não penses; não queiras sahir dos meus braços, que é só onde podes encontrar o luxo, a alegria, a vaidade satisfeita, a preguiça que te pode conservar a belleza material, mas que te anúla por completo a vontade e a inteligencia, que dispenso... Salvo se precisar da tua graça e do teu espirito para chamar aos meus salões os que a minha energia não conseguir domar, mas é conveniente que esse mesmo espirito seja frivolo, feito de sorrisos e de frases do dia, facil para qualquer mulher, medianamente inteligente, posta num meio em que as emoções de arte aguçam os nervos, e o conforto, o luxo, e o convivio com pessôas distinctas, adelgaçam intelectos e limam as arestas plebeias, que denunciariam logo a humilde procedencia...

Pois a mulher que só vive de vaidades, que tem a sua orbita limitada a seguir o astro rei como palida lua sem luz propria; a mulher que geralmente só tem um nome respeitado quando o homem lho dá; a mulher que é educada para agradar ao homem, para arranjar pelo casamento uma situação definida na sociedade; a mulher sem um fim determinado na sua vida individual, sem um pensamento nobre a elevar-lhe as aspirações; a mulher escrava pela força e submetida pelas leis, vinga-se como sempre se vingaram os escravos—corrompendo.

O que desejam as mulheres auferir do homem que as não associou a nenhum dos seus pensamentos e actos, que a aceita como um presente e a conserva como um luxo? O que todo o inferior pretende tirar do que se lhe quer impôr como senhor, numa revolta amarga de impotencia—a maior soma de gôso proprio junto ao menor esforço para o conseguir; o seu prazer, a felicidade egoista de quem não tem um nobre ideal a orientar-lhe a senda da vida.

É pois criminosa a mulher, e muito, mas criminosa como a criança que inconscientemente empurrasse para o abysmo o seu proprio irmão.

Responsavel é só o homem, que, cheio de orgulho, não procura na mulher uma companheira, uma igual, mas uma inferior, embora finja endeusá-la para a conservar na rotina e no servilismo. Tira-lhe a instrução e a sciencia, como alimentos improprios para estomagos delicados, e deixa-lhe o sonho e a fantasia, que as tortura na ânsia louca de encontrar na vida real o imprevisto de sensações romanescas, que seduz principalmente os ignorantes.

Culpado é só o homem que afastou a mulher proba e culta de todas as luctas em que o destino de ambos se joga,—pois que a politica é, ou deve ser, a arte de bem dirigir uma nação, e a nação pertence tanto ao homem como á mulher—para se deixar governar por intrigantes quasi sempre deshonestas, as mais das vezes inconscientes instrumentos doutros ambiciosos.

Afastaram a mulher das altas preocupações do espirito, puzeram-lhe ao pensamento e á vontade uma barreira de preconceitos e de ignorancia, e queixam-se porque ella usa das armas que tem e gosa o fructo do orgulho masculino!

Indignam-se contra as mulheres e são os proprios homens cultos que transigem com ellas, nas suas crenças e prejuisos; elles, os que não têm pejo de dizer publicamente que—embora se sintam libertados, embora os seus espiritos pairem alto numa atmosfera de saber e de certeza que os orgulha—consentem que as esposas continuem a crêr o que elles descrêm, a vêr o que elles não vêem, a seguir o que elles não seguem,—porque querem ser tolerantes!

Não comprehendem, ou não querem comprehender, o que é peor, que a mulher representa mais do que o homem na constituição da familia, porque é a ella que pertence o filho nos seus primeiros annos, porque á mãe está confiada a filha até passar para as mãos do marido. E quantas vezes o homem, num ingenuo sorriso de criança, encontra os laços que no futuro lhe hão de manietar o espirito, ou, em caso de resistencia, o fundamento para luctas que lhe despedaçarão a felicidade se teimar em não se deixar vencer pela persistente e dôce propaganda das crenças femininas.

A mulher não póde cortar abruptamente com um passado, que é toda a sua vida espiritual.

É preciso que uma forte instrucção a liberte de caprichos infantis e lhe dê a lucida e precisa noção do que deve ser a sua força moral.

Torna-se preciso que o homem já educado eduque a sua companheira; que o homem livre escolha a mulher já livre; ou que o homem saiba transigir com os laços seculares que muitas vezes ligam a mulher solteira á familia e á tradição, mas só quando tiverem a certeza de que esses espiritos, momentaneamente libertados pelo amôr, não voltarão mais tarde, numa crise de fastio e abandono, aos ideaes com que fôram embalados os seus aureos sonhos de menina...

Não é negando e demolindo que se fórma a nova alma feminina, que, por sua vez, transformará o mundo; é elevando a consciencia e construindo um novo templo de amôr e bondade humana, irredutivel e forte, onde o espirito se inunde de luz e não possa mais mergulhar na treva.

O homem livre, o mais responsavel, aquelle que nos seus jornaes, nos seus livros, nas suas conferencias, mais clama pela educação da mulher, reconhecendo na sua falta toda a servidão das sociedades burguêsas; esse mesmo, falto de logica quasi sempre, não se faz acompanhar da sua esposa ou das suas filhas, não as póde apresentar como exemplo ás outras mulheres, porque, em geral, são ellas as primeiras a abominar as suas ideias.

Quando mesmo as não contrariem nem abominem, perfilhando-as algumas vezes, são raras as que o queiram confessar publicamente, sabendo muito bem que o homem português tem o terror instinctivo da mulher culta e intelectualmente independente.

E só assim ella deixará de ser a pedra atada ao pescoço do homem, que em vão se esforça por fugir á corrente da moda em que a maior parte dos espiritos masculinos vem a naufragar.

Não é a mulher educada e orientada na consciencia dos seus deveres e obrigações sociaes a que merecerá nunca a frase seguinte do jornal a que me refiro:—capricho que é um erro proprio da fórma de ser do espirito feminino.

O espirito da mulher não tem atributos proprios, como a sua inteligencia e as suas aptidões não podem ser limitadas autoritariamente, circunscriptas a um certo e inultrapassavel perimetro.

Ha mulheres caprichosas por defeitos de educação ou de temperamento, consumidas de mesquinhas invejas e pequenas revoltas de impotentes, como ha tantissimos homens sem energia, que nas suas proprias revoltas são irritantes, falsos e untuosos, como costumam classificar as mulheres.

Escolham os homens livres companheiras que egualmente o sejam; determinem-se os campos, forme-se a familia pelas convicções de cada um e não pelas convenções duma sociedade que não tem sinceridade nem nobrêsa, e a transformação será completa.


SER PORTUGUÊS


Ser português

«Como hade a mulher educar os filhos no civismo, se o não praticar?»

Dr. Bernardino Machado.

Conserva-se a mulher portuguêsa numa entorpecida indiferença pelas questões da actualidade, mesmo por aquellas que mais de perto a deviam interessar.

Alem dos cuidados, mais ou menos caseiros, deveria a mulher interessar-se pelas questões de civismo, como pelos varios problemas sociaes, que tambem de perto e profundamente a tocam, não só na sua vida individual como na sua influencia na familia.

O individuo pertence á familia, a familia á sociedade, e o que interessa esta por força hade interessar aquelle, numa sociedade bem organisada e equilibrada.

Não póde pois a mulher, principalmente quando é mãe, conservar-se na abstenção culposa em que tem vivido até aqui a mulher portuguêsa.

Ao seu espirito desocupado passa tão despercebido que um pedaço das colonias seja retalhado á patria, como um novo emprestimo ou uma sobrecarga de impostos—que venham agravar as condições geraes da vida, já de si tão dolorosas—sejam votados e postos em execução.

Qual a alma de mulher que vibra de enthusiasmo ao lêr uma pagina vehemente de patriotismo? Qual a que se desespera e indigna vendo a derrocada de caracteres que nos arrasta para um fim vergonhoso?!

Convenceram-na—e ella acreditou!—de que não deve pensar em politica, porque isso lhe tira toda a modestia e ductil graça tornando-a uma desagradavel Maria da Fonte; e, no entanto, não sendo ouvida quando se trata de novos emprestimos, despesas extraordinarias e desequilibrios orçamentaes, mais do que ninguem os sente e sofre ella, na sua qualidade de reguladora das despesas da familia.

A mulher, e, o que é mais, a mãe, não se interessa pelos trabalhos intelectuais que o filho tem a seguir, não estuda as questões pedagogicas, não impõe a sua vontade, só se fôr para lamentar a criança, que tem de se maçar com tantos livros... Não pensa nem dá importancia á educação dos rapazes, isto é, dos homens que hão-de ser os maridos das suas filhas, os pais educadores dos seus netos; não se indignam nem protestam contra as injustiças e prepotencias que a seu lado se praticam, como não se enthusiasmam por uma manifestação da arte nacional ou por um acto de coragem e hombridade que levante, ao menos por instantes, o nome português.

A mulher, a mãe, recebe com o mesmo sorriso carinhoso o filho que passou num exame por empenhos, como se elle fosse um consciencioso estudante; o que compra o emprego, sabendo que comete uma ilegalidade; o marido que por comodismo ou por interesse aceita todas as imposições dos superiores, sem um protesto de consciencia; o noivo que apresente mais valiosos titulos de renda, seja qual fôr a sua procedencia.

A mulher, que hade no futuro ser acusada por todas as faltas civicas do seu tempo, julga-se desobrigada porque delegou no homem todas as responsabilidades e todos os encargos da governança publica.

Ora isto não é assim, porque, de todos os crimes civicos do homem, é a mulher a verdadeira culpada.—«Deante da esposa e talvez ainda mais das filhas, quando civicamente educadas—diz o sr. dr. Bernardino Machado—ninguem se atreveria a aparecer depois duma má ação na sua vida publica.»

Grande é pois a responsabilidade da mulher no estado de depressão moral, que é a caracteristica da sociedade portuguêsa dos nossos dias.

Não posso crêr que seja isto falta de sentimento, essa flôr delicada que dizem ser apanagio do coração feminino e que é a ultima que nelle fenece; não posso crêr que a generosidade, o altruismo, a coragem, que em todos os tempos nimbaram de luz o espirito da mulher portuguêsa, a tenham abandonado de todo, para sómente se manifestarem em algumas almas masculinas.

Não, não é isso possivel, que seria contrariar todas as leis da natureza, falsear todas as tradições, duvidar de tantissimos factos que nobilitam a mulher do nosso paiz.

É que hoje, desinteressadas por educação e por habito das questões que tanto preocupam o espirito masculino, não pensam que—em todos os actos da vida nacional em que os seus nomes entrassem, protestando pelo direito e pelo dever contra a injustiça, a força e a intriga politica, seria uma afirmação dos seus sentimentos civicos e a próva de que comprehendiam as questões de que depende a felicidade da sua Patria, o futuro honrado dos seus filhos.

Com esse simples acto espontaneo da vontade, provariam que o seu sexo, embora afastada das luctas que se dirimem dia a dia no jornalismo e na politica de dize tu direi eu, que é a politica portuguêsa dos ultimos tempos, acompanha e apoia os homens, quando justa e nobre é a sua causa.

Mostrariam conhecer os deveres e os direitos que assistem a todo o cidadão livre, seja homem ou mulher, de protestar contra os actos que a sua consciencia repudía, embora praticados á sombra das leis.

Tendo dado essa prova de individualidade mostrarieis ser, senhoras, as mulheres que deveis ser para que os vossos filhos, no futuro proximo que os espera—quem sabe de que vergonhas e miserias tecido!—tenham a nobre coragem de se sacrificarem pelo resurgimento da Patria Portuguêsa.

Mas sabeis porventura o que é sêr português, vós que falais a lingua que tem todas as energias do mar bravo e todas as doçuras dum poente entre pinhaes rumorejantes?...

Sabeis o que é sêr português, vós que pizais indiferentes uma terra tantas vezes embebida em sangue dos que luctaram até á morte para a tornar uma Patria livre?...

Sabeis o que é sêr português, vós que respirais o aroma das flôres que por toda a parte desabrocham em hilariantes coloridos, neste abençoado canto do universo?!...

Sabeis o que é sêr? português, vós que recebeis a dulcida caricia dum céo limpido, que passeais os vossos olhos sobre as aguas movediças que levaram os nossos antepassados á aventura gloriosa de descobrir novos caminhos e novos mundos maravilhosos, essas aguas que trouxeram, em paga de tanto esforço e tanta heroicidade, o oiro, as pedrarias, a riquêsa que deslumbrou o mundo e—ai de nós!—pela vaidade nos perdeu!?

Sabeis o que é sêr português, senhoras!?...

Pesa-me dizer-vos que, salvo algumas excepções, não o sabeis.

Que isto vos não cause enôjo, e que sobre a minha cabeça não cáiam as vossas ironias e odios!

Se vós o não sabeis, pouca ou nenhuma culpa tendes, que de longe vem o despreso pela vossa educação, que de bem longe vem o mal que nos está ligando como cadaver embalsamado prompto a entrar para o tumulo historico das nações que só vivem do passado.

Mas podeis ainda resistir. É tempo ainda de sacudir a apathia egoista em que vos conservaes ante todas as angustias colectivas do paiz, e mostrar ao mundo que o povo português não morreu ainda, porque as suas mulheres, as mães, têm sempre no coração a imagem estremecida da Patria, e ensinam os filhos a respeita-la, a ama-la mais do que á sua noiva, mais do que aos seus proprios pais.

A nação amada pelas mulheres não morre nunca na historia.

Martirisada, dividida, conquistada, não morre emquanto as mães transmitirem aos filhos, com o leite dos seus peitos, o sangue das suas veias, o fogo das suas palavras, o despreso aos vencedores e o amôr á terra que foi de seus avós, á terra onde existe a sua casa, que é o seu lar.

Começam por ensinar-lhes no berço, acalentando-os com ellas, as lendas e cantares da sua patria; acabam por lhes indicar o caminho por onde enveredaram os que sofreram e morreram contentes pela sua gloria.

Falo-vos ao sentimento, eu sei, mais do que á razão, mas prouvéra a Deus que fôsse o sentimento que guiasse ainda o nosso paiz! Quando uma patria é nova, crente, esperançada e forte, firmando-se no amôr e no enthusiasmo dos seus filhos, não se prende por conveniencias, não recúa ante o perigo, não sabe contar os inimigos que a atacam, para os vencer. Por isso avança, torna-se inolvidavel na historia, como nós o fômos!

Só na decadencia se aprende a transigir, decadencia que tanto póde ser material como moral, decadencia que é, a maior parte das vezes, filha só do egoismo, do desejo inferior de gosar sem que o gôso dos outros nos seja preciso para a felicidade propria.

E no nosso paiz transige-se para se estar bem com todos, transige-se por preguiça de discutir, transige-se por uma emaranhada teia de preconceitos, de pequeninas considerações que amolecem o ânimo, quebrantam as vontades, e fazem das oposições uma coisa ridicula, porque não têm éco nas almas, ou são, quando muito, um brado louco e desacompanhado de quem vê uma grande multidão correr para um abismo e nada póde fazer para a sustêr e salvar.

Mas não ensineis a vossos filhos essa excessiva transigencia, senhoras! Deixai aos moços o enthusiasmo e a fé; não estanqueis a fonte de coragem e energia e justiça que existe em toda a alma joven!

Levantai o espirito para mais nobres ideais, não vos amesquinheis numa abstenção que não é modestia mas ignorancia, indiferença, covardia das vossas almas que assim querem fugir á dôr forte e nobre do sêr que aspira—a ascender, na escala zoologica, de simples animal de instinctos para criatura de espirito e de vontade.

Não tenhais mêdo da dôr intelectual que retorce febrilmente os nervos em convulsões de agonia e aperta a garganta inchada de soluços num estrangulamento de desespero, vós, as mães, que sofresteis corajosamente a dôr fisica de ter um filho! Tornai-vos conscias da grande missão que é de vosso dever desempenhar, com a firme certeza de que não ha paiz grande onde a mulher seja inferior.

Vós, mães e educadoras, que tendes a vosso cargo pequenas almas em embrião a despertar para a luz, ensinai-lhes primeiro do que tudo, e antes de tudo,—a serem portuguêses.

E ser português é amar a sua terra entranhadamente, religiosamente, esta terra de que somos filhos e não podemos despresar sem nos despresarmos a nós mesmos.

Ser português é aprender a sua lingua antes de nenhuma outra; é lêr os livros que portuguêses têm escripto; é conhecer os seus artistas; não despresar as suas industrias; comer o producto da sua terra; amar as paisagens, ora recortadas em fundo grandioso de montanhas, ora espraiando-se em campinas onde as searas ondulam em marés verdes de esperança e os gados pastam com fartura; cantar as suas canções; folgar com as festas do seu povo; amar a sua flóra tão simples e graciosa; estudar a sua arte em todas as manifestações, desde a bilha de barro abrindo-se em duas azas, recordando a amfora romana, tão gentilmente posta sobre a cabeça da rapariga de Coimbra, até á magnificente fabrica do mosteiro da Batalha, sem esquecer o mobiliario severo e nobre dos nossos avós, a ourivesaria subtilmente trabalhada, os tecidos, a ceramica, as rendas, que, em tudo, houve tempo em que fomos alguem.

Se o não somos hôje, cuidais que os artistas e a patria é que são os responsaveis de tão grandes decadencias?

Não; uma, não póde nada, prisioneira do oiro nas mãos dos usurarios; os outros, sem estímulo nem público que lhes pague as fadigas e os empurre para o exito, ou lhes mostre pelo despreso a inferioridade do trabalho, retiram-se do campo onde a mediocridade dá leis. São poucos os que á força de vontade e coragem conseguem não esmorecer, trabalhando mais para satisfação propria do que pelos lucros materiais.

Que a Arte não dá hôje gloria em Portugal, e muito menos riqueza.

Se não sômos o que já fômos é que uma educação fundamentalmente portuguêsa falta por completo no nosso paiz.

A criança começa por interessar os olhos ingenuos nas estampas dos livros estrangeiros—ou vindas do estrangeiro para adaptar a coisas portuguêsas, o que é peor ainda!—por lêr traduções das historias que nos outros paizes se fazem para os pequeninos; por vestirem luxuosos vestidos cujos modelos vieram de fóra; por só apreciarem as flôres exoticas cultivadas com mimos de estufa, despresando a simples e honesta flora portuguêsa, tão espontanea e bella; por vêr as habitações dum tão duvidoso gosto de importação, os brinquedos, a loiça, os navios, os carros, os velocipedes, que tudo nos vem do estrangeiro e nos dá o aspecto banal e miseravel de povo sem nacionalidade.

Só vós, senhoras, podereis levantar-nos desta situação por demais incaracteristica e infamante!