INFELIZES

Anna de Castro Osorio

INFELIZES

(HISTORIAS VIVIDAS)

LISBOA
Empreza Litteraria Lisbonense
LIBANIO & CUNHA
145—Rua do Norte—145
1898

INDICE

INDICE

Áquelles que no mundo estimo

omo n'essa noite uma febre intensa me tomasse, uma grande saudade, uma grande piedade, me invadiu o espirito, por todos os tristes, por todos os humildes—os infelizes da terra...

No principio da doença, quando o corpo começa de sentir o embate grosseiro do mal, que o vencerá; quando o frio nos arrepia a carne, n'um estremecer sangrento, n'um espicaçar de venenosas agulhas; vem-nos um profundo egoismo, um completo esquecimento dos outros. Na contemplação das nossas dôres, tudo mais desapparece sem nenhum valor.

Depois, a intensidade da febre espiritualisa-nos, a alma desliga-se do corpo extenuado e sóbe a mais alto. O proprio soffrimento se desdobra n'uma vaga e serena piedade por tudo o que existe, por todos os que choram...

Então, n'uma d'essas horas de sonho e de nitidas recordações, eu lembrei pobres almas inferiores, tristes desvairamentos em grandes espiritos, máguas inconfessadas—que a minha alma conheceu ou presente nos humildes, nos desprezados...

D'alguns me lembrei fallar; outros ficaram na piedosa tristeza da minha memoria—não porque as suas lagrimas me pareçam menos dignas de serem recolhidas, não porque sejam menos estimados, mas porque quasi nada poderia interessar aos outros a repetição d'essas singelas historias de vidas simples, monotonamente eguaes pelo soffrimento.

Phantasmas sympathicos ao meu espirito, elles vieram todos rodear o leito, onde, febril, o meu corpo fatigado cahia.

A minha cabeça dorida abysmava-se n'um confuso recordar de cousas passadas.

E elles vieram, um a um, mostrar as suas pobres figuras empallidecidas pela distancia ou pela morte, n'um desejo de serem evocados...

Setubal, maio de 96.


DEZOITO ANNOS


DEZOITO ANNOS

tia Clara, essa adoravel velhinha que fez ha dias cento e quatro annos, teve tambem os seus dezoito—e por signal encantadores de frescura e graça.

Mal podemos crêr isto, nós que a vemos hoje tão serena, tão identificada com a nossa vida, tão egual a nós pela lucidez do espirito, sempre d'uma intelligencia e d'um interesse perfeitamente juvenil.

Eu adoro essa querida velhinha que não se envolveu nas recordações e remordimentos egoistas como n'uma antipathica couraça eriçada d'espinhos.

Não! Ella recorda todo o passado, mas suavemente, sem comparações desfavoraveis para nós, como os velhos impertinentes costumam!... Relembra, levemente melancolica, os tempos longinquos da mocidade, tão distante aos nossos olhos, tão vivos ainda na sua memoria.

A sua alma é um piedoso Campo Santo habitado pela saudade de todos os seus amigos, de toda a sua familia mais proxima, que a um e um a foram deixando na velha casa senhorial, já em parte abandonada de grande que é!... mas o seu coração santissimo vae florindo sempre joven, amando com egual affecto todos os que de novo chegam á familia...

Ah! Eu não me esqueço, minha boa amiga, da saudade reconhecida que me ficou na alma quando, a ultima vez que a visitei, a vi affastar-se lentamente na meia obscuridade do longo corredor. Seguia-a um ligeiro esvoaçar de recordações, toadas simples vindas de muito longe—os francezes, guerras, mortes, nascimentos, toda a sua vida singela passada na hereditaria quinta perdida entre serras, onde os echos do mundo devem ter chegado sempre esbatidos em meias tintas pallidas.

Tenho ainda no meu ouvido o som inolvidavel da sua vózinha quebrada dizendo serena e sorridente: «assisti ás ultimas endoenças no convento de Maceira Dão!...» E tudo morto n'esse passado cheio de poesia, visto assim de longe, evocado pelo seu espirito bondoso!...

Mas a desvairada fuga aos francezes é que eu, mais do que tudo, gosto de lhe ouvir contar.

*
* *

—Era uma tarde de fins de setembro, luminosa, quente ainda. O céo, todo em fogo no poente, flammejava n'um incendio colossal—toda a alma da Patria agonisante levantando para Deus a ultima esperança, no ultimo clarão de tiros ao longe.

«Os francezes, os francezes!...» Esse grito estridente como uivos de animaes apavorados corria de bocca em bocca, era um signal de fuga, de miseria, d'espanto geral.

O povo ignorante e bom voltava para o céo os punhos cerrados n'uma desesperada ameaça. Abandonado por todos na sua patria invadida, agarrava-se á terra como á sua unica defeza, o seu unico amôr, a unica razão d'existir.

As mães uivavam de dôr pelos caminhos, torciam os braços convulsos vendo do alto dos montes os filhos que partiam para a guerra. Outras estarreciam-se n'um silencio medroso...

Toda a alma portugueza fremia n'um anseio de liberdade.

Os reis fugiam despresivelmente covardes; os ricos ainda por vezes abriam os seus palacios em festa ao passeio triumphal dos invasores; só no povo era sem treguas o odio. Elle saberia resistir ou morrer! Miseravel povo que sacudiu n'um impeto de revolta olympica o jugo dos invasores e acurvou a cabeça humilde ás exigencias dos alliados! Desgraçada gente que não teve a hombridade de receber na ponta das suas baionetas ensanguentadas pelos inimigos os reis que o tinham abandonado nas horas más! Ingenuo povo que todos vão acordar em sobresalto quando o perigo bate á porta e de que todos se riem depois, quando não é já precisa a força do seu braço nem a furia da sua coragem!...

Tambem a Fornos de Maceira Dão, a esse cantinho da Beira que parecia dever estar esquecido, guardado pelos matagaes e serranias bravas, chegou o desvariado clamôr, o tremendo grito:

«Os francezes, os francezes!...» a pôr em fuga toda a familia da Clarinha—era assim chamada ha oitenta e seis annos a minha boa tia Clara.

Ella era a mais nova das irmãs; fina, graciosa, d'uma pallidez de reclusa, uma grande curiosidade perfulgindo nos seus olhos castanhos.

Ao saber a noticia o coração pulsou-lhe commovido n'uma inconfessada alegria... Qual de nós aos dezóito annos não comprehenderá essa alegria? Não ter sahido nunca do seu vetusto solar—salas e salas, quartos incontaveis, corredores tão compridos que é impossivel conhecer quem vem ao fundo!... Os santos da capella doirados e ridentes seriam os seus mais queridos companheiros, aquelles que melhor comprehenderiam a sua alma inquieta, sedenta de novo!... Se ella não havia d'estar alegre, no fundo, bem no fundo do seu coração, por essa fuga decidida que a ia tirar por algum tempo da monotona vida de todos os dias?!...

Era triste a existencia da Clarinha, passada na miseravel aldeia de casebres colmados, que rodeiam a quinta dos fidalgos como outr'ora as choupanas dos servos se encostavam medrosas ás fortificações dos castellos feudaes. As irmãs, casadas; os irmãos, passando a vida dos fidalgos d'aquelle tempo, caçavam, namoravam as primas de vinte leguas em redor, estafavam cavallos e corriam as feiras.

De quando em quando, pelas festas do anno, cortavam o fastidioso correr da vida cavalgadas que chegavam ao pateo, primos e primas que se apeavam contentes abraçando a Clarinha, que alvoraçada os vinha esperar á porta. Então, dançava-se, passeava-se e, mais do que tudo, comiam-se jantares phenomenaes e ceias lucullianas.

Mal os hospedes sahiam, a vida regulava-se tediosamente como de costume e apezar da familia ser muita, passavam uns pelos outros como sombras na enormidade da casa. Quantas vezes, pelas agonisantes tardes d'outomno, não atravessou ella a quinta e subindo o outeiro em frente se foi sentar nos degraus do Santo Christo, phantasiando o mundo, sonhando com alguma coisa nova que a fizesse soffrer e viver?!...

Já então, como agora, como será d'aqui a muitos annos, a imagem do Christo era ingenuamente feita d'uma fealdade que espanta, escondendo-se no seu nicho branco, erguendo na tristeza da paysagem os braços misericordiosos de Deus moribundo perdoando sempre á humanidade que chora.

Como agora tambem, a Clarinha ouvia pela quebrada das serras os carros chiando carregados com as dornas para os lagares... Os bois olhavam'na pensativos, sacudindo as cabeças phylosophicamente, fazendo retinir as campainhas das colleiras de coiro que lhes cingem os cachaços robustos... Primitiva e sempre egual a vida passada n'aquelle recanto de natureza agreste.

Que admira pois que a Clarinha ficasse intimamente alegre quando o medo aos francezes a atirou para longe—como um passarito engaiolado a quem de subito abrissem as portas do carcere e visse diante de si o luminoso espaço onde á vontade poderia bater as azas!?...

«Os francezes, os francezes!...» Era alguma coisa de vivo, e espirituoso e brilhante, que ella não conhecia, mas que a não assustava.

N'essa tarde luminosa de fins de setembro os cavallos esperavam no pateo desde muito e só a Clarinha, impaciente, estava montada. Toda a familia partia: quarenta pessoas, entre velhos, mulheres, crianças e criados—que eram, patriarchalmente, uma continuação menor da familia. Os homens válidos, os rapazes, esses lá andavam pela guerra, e bastante invejados pela Clarinha!.. Os velhos despediam-se chorosos. Arrancavam-se d'alli como quem tirasse d'um peito ainda vivo um coração sangrento. Fugia-lhes a vida em gemidos. Os cedros da quinta tinham para elles a maguada significação dos cyprestes da igreja, onde toda a sua familia, desde seculos, ia dormir descançadamente; mais felizes eram esses...

Pela madrugada chegaram a Vizeu. Deserta a pequena cidade, de sombrias e tortuosas ruas. Os cavallos batiam rijamente nas calçadas, pondo em sobresalto os pacificos habitantes. Abriam-se janellas a medo e caras enfiadas de susto espreitavam inquerindo: seriam os francezes?!...—Não, não eram ainda, mas gente que fugia d'elles!...—Então sempre era certo; vinham, vinham!...—E as janellas fechavam-se rapidamente como se quizessem espancar assim a visão dos francezes, monstros de pezadello!

Caminhavam sempre. Em São Pedro do Sul, a mais risonha terra da Beira, um jardim que a natureza cultiva amoravelmente entre as rudes serranias beirãs, o mesmo pânico estampado em todos os rostos que entreviam—que raros eram!.. Um deserto que se fazia por toda a parte ao grito terrificante: «Os francezes, os francezes!...»

E esse grito de pavôr perseguia-os sempre, como dobre a finados para os velhos e medo para as criancitas—que imaginavam o papão formidavel e negro levando os meninos nas garras aduncas!.. Só as mulheres, com o espirito mais vivo, mais aventuroso, começavam a achar deliciosa aquella correria louca diante do desconhecido. Para a Clarinha era sempre a mesma ideia:—elles seriam alguma coisa de vivo e espirituoso e brilhante, que ella não conhecia, mas que a não assustava!...

A noite cahia muito fria, d'esse frio secco e cortante da serra. As estrellas brilhavam mais do que nunca, com um nervoso piscar d'olhos bonitos... Ella olhava-as, sonhando acordada!—Via um cavalleiro vestido d'oiro que levava pela estrada da via lactea todo um povo conquistador e bello... E uma aguia enorme, com azas feitas de soes, cobria o mundo n'uma efabulação de luz!...

Alli tiveram que parar algumas horas. O pequenino irmão da Clarinha, o mais novo da familia, a criança que ella amava já com entranhas maternaes, ficou-lhe sem vida nos braços, morto quasi repentinamente pelo frio e incommodidades da jornada. E esse pequenino corpo que em circunstancias normaes ella teria chorado desesperada, cobrindo-o de beijos, sahiu-lhe quasi indifferentemente dos braços fatigados. Era a propria mãe que lhe dizia que não chorassem; era preciso fugir, fugir, fugir sempre: «Os francezes, os francezes!...» Era a propria mãe, tão estremosa, tão cheia de cuidados por todos, quem dizia aquillo!... Pasmava.

Bem certo é que as grandes dores se fazem pequenas quando não ha tempo para as sentir. O medo é um grande consolador.

Ao sahirem de São Pedro do Sul, entravam os francezes pelo outro lado. Algum destacamento perdido do grosso do exercito, ou talvez esfomeados procurando viveres... Em todo o caso levando o pânico até onde chegava o ruido das suas vozes de commando.

E esse dia passado sem comer, porque apenas tinham levado um pão para cada um, não contando com o deserto em que tudo se encontrava, enervava-os, fazia-lhes hallucinações, mal se podiam sustentar sobre os cavallos.

Chegaram á Trapa. Oh, a horrorosa terra!—Casitas negras e baixas, feitas de pedras soltas cobertas de colmo e telha vã, sem janellas nem frestas, uma unica porta para dar luz e para a entrada. Mais pareciam tócas d'animaes selvagens do que habitações de gente, n'um paiz civilisado.

O avô da Clarinha, apesar de velho a quasi não poder mexer-se, viera deitado n'um carro de bois até alli; mas então desanimou:—que o deixassem, que o deixassem!.. Morria mais descançado. Os francezes não o descobririam n'aquella terra inculta que se debruça no abysmo das montanhas e nem de longe se distingue da negrura d'ellas; que fugissem, que fugissem depressa!...—E no egoismo dos grandes perigos ninguem se lembrou de contradizer o velho. Elle era um estorvo na viagem; ficarem todos seria talvez a morte. Só a mãe da Clarinha ficou para acompanhar o sogro, que n'uma incoercivel lagrima de saudade deliu todas as maguas da sua ultima hora. Porventura elle revia n'esse momento unico toda a sua vida passada:—a casa onde nascera e contara morrer, as arvores muito amadas... Festas de familia, perfis de parentes mortos havia muito, casamentos, caçadas, presentimentos de desgraça para os filhos e netos, que andavam na guerra...—Tudo isso se devia confundir, amalgamar, no aturvado animo do pobre moribundo.

Os outros continuavam a jornada passando por terreolas abandonadas, d'uma desolação infinita. Essa região montanhosa, largamente bosquejada, d'uma austeridade de contornos que limita a phantasia, tem sempre uma estranha belleza selvatica, que intimida os mais alegres. Então, precipitadamente abandonada pelos seus bizonhos habitadores, devastada pelos fugitivos que passavam em caravanas, em familias, um a um, como lobos perseguidos, tinha um aspecto quasi tragico, macabro como um desenho de Doré, mas para elles tudo era bom, tudo divertia e alegrava na excitação da fuga. Aqui, tinham todos por cama uma casa terrea cheia de palha e de manhã acordavam cobertos com um frio e branco lençol de geada... Alem, comiam feijões cosidos sem nenhum tempero e pão de cevada negro e pegajoso como o pez... E tudo supportavam alegremente no egoismo brutal e profundamente humano—de viver e ter saude.

Tias e primas da Clarinha, velhas senhoras habituadas á doce paz do chásinho conventual, suspiravam, lamentavam-se muito por o não terem tomado havia uns poucos de dias! Affirmavam—que antes queriam ficar sem pão. Deu-se volta aos alforges e n'uma algazarra cheia d'alegria cada um appareceu triumphante com sua coisa, que na precipitação da ultima hora alli tinha mettido sem saber para quê, sem mais se lembrar de tal. Havia chá, assucar e agua, até chicaras appareceram; mas onde a chaleira?.. Todos os olhos se dirigiram para a panella de barro negro onde se tinha cosido o caldo... Era a unica coisa que havia e essa mesmo serviu; sem que ninguem se lembrasse d'aventar repugnancias... E por essa noite frigidissima de fins de setembro, n'uma casita negra esburacada, perdida entre serras e mattas, ellas tomaram o seu chásinho quente, que teve um sabor particular—nada bom a dizer a verdade—mas que lhes lembrou toda a vida.

Pela serra da Gralheira fóra era um nunca acabar de risos e gritos alegres, quando um cahia do cavallo, quando outro escorregava, e principalmente com as historias do guia, o padre Manuel da Trapa. Era um bom homem rustico, folgasão e fallador como poucos, um montanhez ás direitas, portuguez velho. Despresava os francezes; não chegava mesmo a acreditar n'elles. Por sua vontade tinham ficado todos na residencia e os taes francezes que apparecessem!...

Subito, interrompendo uma historia que elle ia contando aos da frente, um grito sahiu dilacerante d'uma bocca contorcida. Todos pararam ânsiados, voltando a cabeça para traz. Aquelle grito tinha vindo tão do fundo d'alma, revelava uma tal acuidade de soffrer, que a todos fez pulsar o coração pensando em que alguem tivesse rebolado pela montanha abaixo despedaçando as carnes pelos fraguedos! Não era isso, mas um sofrimento maior ainda, que gritava assim desesperado:—uma tia da Clarinha saltára do cavallo e, pallida de morte, estorcia-se no mais pavoroso inferno de dôres! Estava grávida no ultimo periodo e todas aquellas commoções e sustos tinham apressado a crise. Que fazer? Olhavam-se todos aterrorizados, indecisos... Impossivel parar n'aquelle descampado, seria mata-la... E os franceses!?...

«Com trezentos diabos, isto não pode ser assim!»—gritava furioso o padre Manuel, sem nenhuma attenção nem sombra de delicadeza pelo soffrimento crudelissimo da pobre mulher. Com uma voz que elle se esforçava por tornar ainda mais rude do que naturalmente era—para disfarçar o diabo d'um nó que se lhe puzera na garganta, explicava elle depois—mandou que lhe dessem a senhora que elle a levaria deante de si. A boa egua podia com tudo e depois—que diabo, já estavam perto da estalagem das Maçarocas, no caminho do Porto, bem conhecida por aquellas redondezas.

E lá continuaram a marcha, agora tristemente acompanhada pelos gemidos da infeliz creatura, que soffria cada vez mais.

Chegaram emfim a Carregal de Monhoce, uma insignificante aldeia quasi desconhecida de todo. Em frente era o Bussaco; sentiam-se tiros ao longe; o que iria por lá?...

«Os francezes, os francezes!...» E a Clarinha, pondo os olhos na linha arroxeada e muito nitida da montanha fronteira, pensava n'elles... Nunca os vira mas sonhára sempre com alguma coisa d'extraordinario e scintillante, que a não assustava no fim de contas!...

Terminada a guerra, tornaram pacificamente para a grande casa, que ella encontrou ainda mais sombriamente solitaria. Muitos faltaram á chamada, no primeiro repasto d'expatriados que reviam o seu lar bem amado!...

E a Clarinha lá continuou a sua vida, a mesma, sempre cortada pelos mesmos incidentes de visitas e festas.

O Santo Christo era, como hoje é tambem para nós, o seu passeio favorito nas tardes melancolicas d'outomno—estação de tristezas e desalentos, que morre lentamente em cada folha que se desprende das arvores, lagrimas silenciosas da natureza, que em breve será de luto, quando o inverno vier implacavel... Em frente, a verde cortina dos pinheiros mansos esconde o antigo convento de Maceira Dão. Triste, bem triste, é hoje esse convento em ruinas onde a herva cresce em liberdade, atravessado por todos os ventos, por todas as chuvas; é quasi um milagre estar ainda em pé! N'esses tempos, que tão remotos nos parecem já, como elle devia ser bonito! E a tia Clara, sentada nos degraus da capellinha, ouviria com um doloroso confranger de coração a austeridade do bronze chamando ao côro os bons frades cistercienses.

Aquelle som lacrimoso devia repercutir-se de serra em serra como um soluçar de penitencia. Como ia longe, a tarde luminosa de fins de setembro, quando o grito «Os francezes, os francezes!...» afugentou e confundiu tudo!...

Mais tarde houve ainda um rasgão de luz na sua vida monotona: um novo clamôr de guerra punha as almas em sobresalto. O grito de liberdade foi um rastilho de fogo que incendiou todas as cabeças. Os frades fugiram; os irmãos, os homens da familia, foram todos combater por D. Miguel. Quando elle foi expulso, quando a guerra acabou tão frouxamente que a esperança continuou por largos annos no ânimo dos legitimistas, os irmãos da tia Clara recolheram á velha casa de provincia onde por muito tempo ainda se reuniram todos os fieis partidarios do rei absoluto que viviam nas Beiras e Traz-os-montes.

Depois, tudo foi passando...

A morte e a vida vieram de mãos dadas terminar muita esperança, muita alegria, como enxugar muitas lagrimas com novas felicidades!.. Na memoria dulcissima da nossa adoravel velhinha é que tudo vive intacto. Principalmente os longinquos factos da sua mocidade, e, entre elles, essa aventurosa fuga aos francezes—o que eu mais gosto de lhe ouvir contar.

Recorda a com tantas particularidades, com tal clareza de incidentes, que me enche d'admiração. Coisas passadas ha menos tempo não as recorda ella tão nitidamente! Lembra o signal vincado com a unha na passagem mais interessante d'um romance e que de folha para folha se vae conhecendo menos até desapparecer de todo.

Um dia perguntei-lhe tambem: «Tia Clara, que ha de verdade no «Retrato de Ricardina», n'aquelle romance de Camillo passado aqui tão perto?!...»

«Alguma coisa ha!... Bem tristes tempos eram esses!...» E a sua veneravel cabeça branca inclinou-se umas poucas de vezes n'uma recordação que lamentava ainda—lagrimas vistas correr ha muitos annos e nunca esquecidas!..

Agosto de 96.


TIO BARREIROS

[TIO BARREIROS]

tio Barreiros:—Óra os senhores vão imaginar talvez que eu tenho para lhes contar a historia d'algum tio illustre, muito respeitavel na sua gravidade de conselheiro... Ou ainda d'algum general com o peito cheio de condecorações, fartos bigodes brancos, respirando nobreza e altivez... Nada d'isso. Era um simples e humilde criado de lavoura, de cara rapada, com uns olhos d'um azul luminoso, o tio Antonio Barreiros.

Encantador o costume patriarchal de viverem as crianças com antigos criados, quasi da familia, que ellas se acostumam a amar sem o respeito que enfastia, mas tambem sem a desagradavel auctoridade sobre essas velhas cabeças embranquecidas, sempre inclinadas para os mais pequeninos, os ultimos...

Por isso, o tio Barreiros é uma das figuras mais sympathicas que na minha memoria sorri.

Para criado de lavoura entrou elle em casa, já velho; pouco podia, o pobresito! Muito corcovado, o fato de saragoça grosseira, o chapéo braguez um pau na mão—quasi nos pareceu um mendigo.

Mas não; tinha seus brios o tio Antonio. Trabalhava como um rapaz; rejuvenescia, coitado!

Um risonho ar philosophal dava-lhe á face uma certa finura aristocratica. E contava-nos:—«Que eu, meninos, dizem que sou filho do Deão de Decermillo. Mas que monta?... Fui pastor em rapazelho; depois entrei para criado dos fidalgos de S. Thiago e por lá estive até que me casei. Bons tempos, bons tempos!...»

—«E depois, tio Barreiros?»

Uma lagrima diluia-se no azul dos seus olhos finos.

—«Depois, depois... A mulher morreu para alli, negrinha das bexigas, que foi uma dôr d'alma!»

—...«A rapariga, essa... Já depois de grande, um dia morreu tambem, que nem eu sei de quê!... Agora, a minha familia são os meninos, cá esta casa. Isto é como se fosse meu, pela amizade que lhes criei...»

A nota melancolica da conversa desapparecia por completo do nosso espirito para só avultar aquella estranha palavra:—Deão!—Que seria aquillo?... Talvez uma coisa escarlate franjada a oiro, como os guiões, que levavam uns pobres homens derreados, na procissão do Corpo de Deus!

E o velho Barreiros, com tal probabilidade de pae, avultava aos nossos olhos prodigiosamente, tornava-se quasi divino, n'um hieratico esplendor de festa religiosa.

Por fim, o pobre velho já não se atrevia a sahir ás propriedades de fóra—honestamente pediu que lhe baixassem a soldada, que elle ficava só para tratar da horta. E ás tardes, n'aquelles poentes tristissimos das regiões montanhosas, nós passeavamos sob a parreira da horta: elle de sacho na mão, parando de quando em quando a apanhar uma folha velha das enormes couves, que só elle fazia crescer espantosamente. Nunca mais vi couves assim! Talvez por ser eu muito pequena, tudo me parecesse grande; talvez porque o tio Barreiros tivesse receita especial para as fazer crescer!...—«Que isto, meninos, as criadas não devem pôr mão na horta. Uma desgraça, decepam tudo, uma estragação!»

Claro; nós eramos sempre pelo velho contra ellas.

—«Lá em casa dos fidalgos, havia couves ainda mais altas do que estas!...»—

—«Mais altas, tio Barreiros?!...»

Que grande coisa ser fidalgo!—pensava. Até a horta se resentia de tamanha altura heraldica!

Ah tio Barreiros, tio Barreiros, que loucuras risonhas nos mettia na cabeça a vossa bastardia fidalga! Que saudades, meu amigo!...

Uma vez—ha quanto tempo isso vae!—mal começava a aprender a ler, por premio assignaram-me um jornal, que devia vir directamente para mim.

Esperava n'uma febre a chegada do carteiro; e nada do jornal apparecer, para o meu nome, como eu sonhava noite e dia!... Desabafava com o tio Antonio, aquillo parecia-nos historia...—«Mas o papá pagou isso, menina?»

—«Pagou, tio Antonio, para vir para o meu nome.»

—«Pois olhe que foi no que elle andou mal. Nunca fiar!...»

E lá esperavamos, consternados, mais vinte e quatro horas. Mas um dia soube-se:—o jornal tinha vindo logo, mas, como eu tivesse n'uma terra proxima uma tia com o mesmo nome, os empregados do correio vá de lh'o remetterem. Eu, muito queixosa, fui ter com o Barreiros ao quintal. Elle indignou-se:

—«Vou já lá de caminho. Não, que uma coisa assim!... Nem que a minha ama nova não soubesse já lêr, não fosse capaz de ter um jornal!» Era uma injuria para nós ambos. E eu ficava consolada, vendo-o atravessar o pateo, seguido das gallinhas, gallos, perús, marrecos, com o ganso pae á frente—o Caetano—como lhe chamavamos.

E elle lá ia com toda a pressa que as suas velhas pernas lhe permittiam—um casaco que lhe tinham dado, arrastando na frente e muito curto atraz, tão dobrado andava elle, o pobresito, a pender para a terra!..

E o caso é que fez um discurso no correio. Mas por fim discutimos:—«Menina, o melhor é mudar de nome. Olhe que hade haver sempre enganos!»

E esta coisa de haver enganos—tocou-me. Toda a vida a não receber os meus jornaes...

—«Pois está dito, tio Antonio! É o melhor.» E assim foi.

Mas o velho começou a enfraquecer. De dia para dia o corpo se lhe dobrava mais para a cova. Já pouco comia, sustentava-se de vinho e marmellada, nada mais.

E n'um inverno muito rude, em que a neve cahiu mais a miudo e de manhã a agua dos tanques apparecia gelada—o tio Antonio Barreiros apanhou uma tossita; levantava-se tarde, já não ia com o sacho para a horta...

Sentiamos que o seu espirito, risonhamente infantil, já andava longe, n'um meio sonho, quasi desligado da terra...

Fallava na mulher, fallava na filha, com uma grande serenidade e um redobramento d'affecto—como quem pensava em as encontrar breve. Depois olhava-nos com uma tal saudade...

E n'uma fria manhã d'inverno, voltado para a parede, embrulhado na manta de riscas, elle appareceu serenamente adormecido para sempre. A sua bocca ironica eternamente risonha; fechados os olhos azues d'uma graça aristocratica... O seu perfil accentuado, desenhava-se muito nitido na brancura da parede. As glycineas, despidas de folhas, mettiam os braços hirtos pela abertura da janella, n'uma ultima despedida ao velho amigo que as tinha plantado... E elle dormindo na manhã brumosa, sem responder ao nosso chamamento!...

E que falta elle fazia, á noite, na ceia dos criados, contando historias, oh! lindas historias de feiticeiras e lobishomens—de que o velho se ria, um poucochinho sceptico, vamos lá!...—Guerras que elle vira, dramas de familia a que tinha assistido, trovoadas no meio da serra a quando pastor... Ah! tudo isso nos fazia muita falta, muita falta!... E nunca mais nós esqueceremos o tio Barreiros, dormindo socegadamente junto dos patrões, que primeiro nos tinham deixado.

Junho de 96.


SOLTEIRÃO

[SOLTEIRÃO]

inesperada morte do velho doutor Mendes fez-me volver os olhos um bom par d'annos atraz—a quando criancita gulosa lá ia ver passar as procissões e beber a minha chicara de leite com sopas de biscoitos caseiros.

Essa morte rastejou-me na alma uma pequena sombra de melancolia, não que eu amasse muito esse velho nem que a sua falta seja desventura para alguem,—mas é que os sinos, dobrando n'uma pardacenta tarde de fevereiro, são d'uma tamanha tristeza!...

Com uma persistencia dolorosa de choro, as badaladas succediam-se atirando para o espaço os seus pesados lamentos—unicos que acompanharam o doutor Mendes na sua primeira noite d'além.

Morreu, pobre velho inutil, despertando apenas a ironica piedade que inspiram aquelles cuja alma subalternisada não soube crear uma familia nem chegou á consciente bondade dos fortes.

Ninguem o estimava já. Outr'ora havia inspirado medo como mandão d'aldeia; diziam-no vingativo e cruel nos tempos aureos do seu poderio... Por fim, esse poder era uma triste caricatura.

...Porque—eu ainda lhes não disse?—fazem-me tristeza as caricaturas. D. Quixote é para mim mais commovente do que Jocelyn.

Em novo fôra o doutor Mendes um feliz conquistador de creadas e caseiras, que olhavam agora para os filhos grosseiros e brutaes, encarquilhando os olhos cúpidos, julgando-os possiveis herdeiros da bella fortuna do velho. Tudo podia sêr; se elle não tinha herdeiros forçados!

E lá ia vivendo, certo em todas as festas, imaginando-se imponente á força de tesura, o bigode branco cortado em escova, a calva luzidia, a face sanguinea. Dava realce ás festas—diziam rindo chocarreiramente aquelles que lhe tinham tirado o bastão de commando, deixando-o, mono de palha, para a imposturice da figura.

Estou a ve-lo, o senhor doutor, com a sua casaca prehistorica, lustrosa, d'um feitio unico; o lenço d'Alcobaça, azul escuro, com pintinhas brancas, a sahir dos bolsos; comprimentando receoso, estendendo apenas dois dedos gordos e vermelhos; soprando contente a cada palavra...

Levava a umbella em todas as procissões e na minha poderosa imaginativa infantil aquillo engrandecia-o a tal ponto que o revia no céo acompanhando as almas purificadas ante o throno d'oiro do Padre Eterno.

Se cahiu de tão alto no meu conceito, não foi d'elle a culpa, que impassivel continuou elle a sua vida quasi hieratica entre o incenso dos thuribulos e o cheiro fresco do rosmaninho—eu é que mudei, infelizmente!

Porque não detemos nós a vida; porque não conservâmos o nosso espirito na meia hallucinação dôce da infancia? Se vale a pena isto!... Andar a primeira parte da vida a construir altares, a enramalheta-los, a venera-los com todo o nosso enthusiasmo; gastar outro tanto tempo a destrui-los; e o resto da vida passar a chora-los! Não, não acho que vá bem assim o mundo! Ou as crianças teem que nascer com a sabedoria dos velhos ou os velhos ficarem com a ingenuidade das crianças. Quanta tristeza se pouparia a certos espiritos por demais vibrateis!... Assim, eu escusava de soffrer vendo a pobre cabeça do velho doutor Mendes, que diziam intelligente, ser agora uma coisa esteril e ôca.

O seu risito infantil, em hi, hi, hi, como dava uma prova dos frageis juizos humanos! E tinha sido terrivel em vinganças do tempo dos Cabraes, elle que hoje fazia rir as crianças!

A rodear o idoso doutor Mendes fazia-se uma atmosphera de coisas envelhecidas e desbotadas. A sala de recepção—forrada a pannos d'Arrhas, com ingenuas scenas da Biblia, onde as côres já murchas se confundiam e empallideciam suavemente a dar um tom uniforme á filha dos Pharaós salvando um esperto Moysés e ao seu terrivel pae affogando-se nas justiceiras aguas do Mar Vermelho—abria-se lá pelas festas ás raras visitas. Impunha respeito com os seus tectos altos, o delgado friso doirado a dividir os pannos, as suas doze cadeiras formadas aos lados do sophá incommodo como um potro inquisitorial, o indispensavel tremó e espelho a encima-lo.

Logo ao entrar no pateo, á noite sempre illuminado esperando problematicas visitas, uma gelida impressão de silencio nos envolvia. Subia-se meio receoso a escadaria de pedra, a abrir-se nobremente em dois lanços, como um velho amigo que nos recebe de braços abertos. Essas bellissimas escadas das casas antigas, que dão bem a nota carinhosa do nosso gosto pela hospitalidade, eram mais uma frisante ironia n'aquelle interior fechado, esquecido, só de longe em longe visitado por indifferentes.

Entrava-se a medo na sombria casa e esperava-se, em silencio, que os donos apparecessem. Passado um tempo, que nos parecia infindavel, vinham, as quatro manas—miudinhas, desbotadas ellas tambem, muito parecidas umas com as outras, fallando baixo, repetindo todas o que dizia a mais nova, sentenciosamente, a módos de oraculo. Muito devotas, um grande respeito pelo mano doutor, ellas lá iam todos os domingos, em carreirinho de formigas, á missa pacata da freguezia. Muito velhitas, com antigos enfeites na cabeça, vestidos de seda passados de modas ha tempos immemoriaes, lencinhos de renda no pescoço, restos d'antiga garridice, cheirando a alfazema e a camphora.

Como isto vae longe, perdido no montão de saudades que me enchem a memoria; e como eu sinto ainda toda a impressão de poeirento, de velhez, que me tomava toda quando as ia visitar ceremoniosamente!

Porque o tempo já ia longe em que a minha inconsciente criancice ousava penetrar sem receio n'aquelle tumulo. O tempo das procissões e do leite frio passára com a minha primeira infancia e com as passeatas á igreja para ver as mudanças de toilettes que Nossa Senhora soffria de cada vez que a passeavam procissional e dolorida.

E ainda hoje ellas córam e baixam os olhos admirando a immoralidade que vae por esse mundo.—«Tudo perdido, tudo perdido, manas...»—dizia a mais nova, fechando os olhos a cada palavra.—«É verdade, é verdade, é verdade...»—respondiam as tres a um tempo.—«Ainda bem que o mano não quiz casar!... Nem nós tambem, que fomos bastante pretendidas!...»—«É verdade, é verdade, é verdade!»—fazia o côro.—«Que módas, santo Deus! Os homens cruzam a perna deante das senhoras e apertam as mãos!! Que gente, que immoralidade!...»—E as outras abanavam a cabeça affirmativamente, emquanto o doutor Mendes, á janella, lia a Nação, escondendo das boas irmãs um sorriso velhaco.

E foi elle, tão córado e gorducho, o primeiro a morrer.

A sua morte déra brado. Murmurava-se: «Afinal não fizera testamento? Podera! Até na morte fazia partida. Fôra sempre assim.»—E lá iam seguindo o enterro, bocejantes, sem nenhuma pena, maçados. Enterro de indifferentes que nenhum respeito contêm no seu aborrecimento.

As pobres irmãs, mirraditas, gemiam frouxos lamentos. Tão velhinhas, tão longe d'este mundo—nem gritos já tinham para se lamentar. Era um correr de lagrimas, sem soluços nem febre, um resignado soffrer de pallidos phantasmas.

Por suprema ironia das coisas humanas, até o enterro foi causa de riso. Do antigo mandão d'aldeia, que inspirara medo e profundos odios, apenas restava esse corpo inerte deitado n'uma eça branca, com a fita do caixão risonhamente branca. Se elle fosse vivo como a levaria imperturbavel!...

Mas os sinos lá ao longe tangiam maguas, que se iam alastrando como nodoa d'azeite na pardacenta tarde de um fevereiro triste.

Como é enervante pensar na vida assim, sem interesse pelos outros, sem nenhum grande affecto que nos chore bem alto, a fazer calar todos os risos!...

N'essa paysagem, paralysada pelo inverno, só eu parecia viver—campos de vinha estorcendo os braços esqueleticos, pinhaes muito graves no seu eterno verde, o riacho a correr ao fundo do valle, e como gigantesca parede as serras violeta, escarpadas e selvagens... Ao fundo, vaporisando-se no poente, as torres alvas das igrejas lançavam pelo espaço o seu lamentoso dobre: dão!... dão!... dão!...

Uma grande amargura me affogava a alma, vinda d'essa paysagem desolada, d'esse cahir da tarde sombria, da lembrança de morte que fluctuava no ar—de qualquer coisa emfim que me segredava desalentos e angustias...

A chuva começou de cahir miudinha, sem ruido, para o fim da tarde... Que desagradavel noite essa primeira que o velho doutor Mendes passou solitario no seu tumulo, guardado pelas sentinellas esguias dos cyprestes!

1895.


HAMLET

[HAMLET]

uem o via, embrulhado em flanellas, apoiando-se a um grosso bambú, sorumbatico, fugindo a todo o convivio, apparecendo só de longe com a mulher e filhitos, procurando as estradas desertas para passear, tudo sujeitando á hygiene,—decerto nunca imaginaria que a sua lucida intelligencia de subtil penetração e réplica prompta nas mais intricadas questões cahiria n'aquelle phantasmagorico sonho de grandezas, que o levou á cella d'um hospital de alienados.

Jurisconsulto erudito, advogado eloquente e cuidadoso, tinha sempre que fazer; mas são poucos os lucros n'uma terra onde a propriedade está accumulada em meia duzia de felizes e só os pobres se mettem com justiças.

Vivia modestamente, n'um grande orgulho de trabalhador. Não queria favores de ninguem. Se tivesse muito, muito daria; pedir, nunca!...

E, subito, de volta d'uma estação d'aguas, eis que elle muda completamente. Luxo, passeios, viagens, projectos de compras, tantos e taes, descriptos com tal apparencia de logica, com tão ardente enthusiasmo de phrase, que chegava—não a convencer-nos da realidade de taes sonhos, mas a fazer nos viver na hallucinante miragem em que o seu espirito se perdia.

Depois que, no regresso da villegiatura, vira representar o Hamlet, apaixonára-se pela loira e ideal Ophelia, por essa pallida figura tão intensamente dramatica na sua passividade de amorosa, tão angelicamente resignada e feminil, que é já uma forma palpavel do ideal... Verdadeiras e dignas de piedade as suas lagrimas—symbolisando todas as que no mundo teem vertido olhos de tristes despresados.

E o sympathico doutor, um bom, um sincero, um sentimental, apaixonára-se por essa irmã da sua alma, que vae desfolhando as niveas flores do seu dôce amôr, cedo queimado pela ingratidão.

A crueza de Hamlet resgatou-a elle, levantando no seu coração de romantico um templo auriluzente onde a incensava com a myrrha do seu talento, que a loucura, parece, exacerbára, requintára, fazendo-o subir ás etherias regiões onde as mais solidas cabeças sentem vertigens!...

Todas as mulheres passaram a ser para elle suaves Ophelias; n'ellas via a amada, o seu puro ideal; adorava-as como se essa adoração fosse ainda uma homenagem rendida á dama dos seus pensamentos—alma de cavalleiro trovadoresco, vencendo emfim a gelida couraça da materialidade burgueza.

A medicina, o amôr e o delirio das grandezas eram as suas ideias fixas. E então—vendo uma loira e anemica rapariga de silencioso porte, obrigava-a a beber aguas de Vidago e gritava com grandes braçadas enthusiastas: «beba, beba, que eu hei-de fazer d'um pastel de nata um pastel de carne!...» Logo respondia irado a um primo, que, por troça, aconselhava uns tamancos e passeios pelas serras como remedio mais efficaz: «fallou o livro Caixa!... Uma estrella de tamancos!... É uma blasphemia sideral!...»

Tinha agudezas de ditos que nos punham em duvidas. Doido?!... Se isso podia ser, fallando elle tão prodigiosamente bem, encontrando com tanta facilidade a memoria da sua juventude!

A sua palavra quente, d'uma fluencia correntia e d'um enternecimento tão sincero que pelas lagrimas tinha arrancado muito perdão aos jurados commovidos—tomára um tom d'inspirado, quasi prophetico!

Doido, doido!?... E que seriamos nós, que o não comprehendiamos? A imperceptivel linha que separa o juizo da loucura tremia diante da nossa duvida.

Os seus pobres nervos exacerbados estalavam em ditos faiscantes, desfaziam-se em lagrimas, espalhavam o seu immenso talento em estilhaços—e apezar d'isso tão brilhante!—como aerolithos, atravessando a deprimente vida provinciana. Fazia-nos uma atmosphera de sonho, de desvairamento e d'exotismo; que a terriola já parecia—una casa de locos sin locura!...

Elle, que só por muito favor pegava d'antes no violão, recordava agora todas as antigas musicas com uma revivescencia da sua vida bohemia d'estudante. Cantava, com a mesma alegria da mocidade, a triumphal recita do quinto anno.

Fazia pena ver o pobre violão dobrar-se todo para gemer trechos de musica já passados de moda ha mais de vinte annos. E mais pena ainda ve-lo tão alegre, d'essa alegria que tanta vontade de chorar nos causa!

Ia ao cemiterio conversar com a mãe—affirmava. Narrava, em voz estrangulada, extraordinarias coisas que, parece, ella lhe dizia baixinho... Essa familiaridade com o desconhecido fazia errar em torno de nós as sombras dos bons mortos... uma nevoa revoluteante de estranhos sonhos...

Que as cabeças não andavam lá muito seguras, não!...

Quando o levaram para o hospital, despediu-se radiante—certo de que ia ser o director, projectando grandes reformas e esperando encontrar lá a sua pallida Ophelia, absorvida n'um delicioso sonho feito de sorrisos de noivos e de camelias idas na corrente de luar...

Com os seus cabellos fluctuantes, as suas mãos translucidas desfolhando flores, arrastando as alvinitentes vestes—ella o aguardava...


Assim se extinguiu aquelle brilhantissimo espirito! Assim ficou silenciosa aquella eloquentissima voz, que fazia repuxar lagrimas aos olhos dos mais ferozes julgadores! Assim morreu aquelle coração de romanticos arrebatamentos, naufragando na banalidade ultima da vida material!

Setembro de 96.


A SENHORA ANGELICA

[A SENHORA ANGELICA]

senhora Angelica forneira era a cara mais phenomenalmente feia que eu tenho visto—e verei. Espero esse favor de Deus Nosso Senhor, que nos fez á sua imagem e semelhança...

Eu nem sei explicar aquella mascara de gente! Não se pode mesmo comprehender como a face humana perde assim toda a forma macia de carne e se torna enrugada e musgosa como um velho carvalho—que vae morrendo aos pedaços e que todas as primaveras enverdece menos, lá para o cimo dos ramos.

Pois, apesar da horrivel fealdade da senhora Angelica, ella resumiu para mim, durante a minha infancia, um mundo de sonhos e phantasticas imaginações.

Mal a via assomar ao cimo do largo; a saia de riscado curta a mostrar um começo de pernas gretadas e uns pés enormes, deformados e sujos; saracoteando-se desgraciosa com o taboleiro de brôa cozida á cabeça; corria logo á cozinha para lhe ouvir recontar pela millesima vez o estranho caso.

E se dissessemos ainda que ella sabia muitas historias! Não, era só uma... Mas essa unica, verdadeira, accidentada de peripecias, era d'effeito. Enchia-me a cabeça e dava até assumpto para um grande romance rocambolesco.

Todas as semanas, quando a velha trazia a fornada de pão de milho para os criados, os tres alqueires do costume, era certo eu lá estar na cozinha á espera d'ella. Fazia-me muito amavel; pedia o meu bolo; mastigava fastienta em pequenas dentadas de coelho esse pão grosseirissimo, sabendo a farinha crua, adocicado e peganhento, ao qual nunca o amôr á terra natal me pôde habituar.

A velha ria parvamente, mettia com as negras mãos encarquilhadas o cabello frisado, d'um branco sujo, para dentro do lenço de chita, e contava sempre a mesma coisa, dita com as mesmas palavras, com uma precisão de phonographo. O bastante porém para fermento da minha phantasia.


Era no tempo em que os rapazes d'um certo nome imitavam, com mais ou menos parecença e espirito, as estravagancias do conde de Vimioso.

Por moda, por chic e muito por gosto tambem, faziam sociedade com os ciganos sem eira nem beira, embriagavam-se pelas tabernas, vestiam-se de fadistas e pouco ou nada se distinguiam d'elles, moral e intellectualmente. Aquillo que no Vimioso era um artistico grãosinho de loucura, nos outros não passava d'uma ridicula imitação, muito grosseira até.

Como houvesse lá na terra um d'estes esperançosos moços—tambem conde, por signal—os ciganos passavam frequentemente por alli e assentavam arraiaes mesmo no interior da villa.

Á noite as barracas illuminavam-se, deixando entrever, n'um clarão de magica, os finos perfis das gitanitas de cabello negro e olhar mortifero, envoltas em flammantes trajos; os acobreados ciganos vestidos de gala, jaqueta curta com alamares de prata; e ao fundo, acocoradas n'um espasmo de profunda estupidez, velhas repellentes, cobertas de trapos sujos, fumando por cachimbos de barro.

As forjas onde concertavam caldeiras, tachos, bacias, toda a bateria de cobre da gente da villa e arredores, abriam-se n'um crepitar incandescente, mostravam boqueirões de fogo a lembrar infernos dantescos.

As mulheres vendiam pannos, lenços, contas, tudo que podia seduzir a garridice feminina das boçaes aldeãs. Elles eram soberbos! O verdadeiro zingaro, com ares de grande de Hespanha e condottiére italiano; vendendo e trocando cavallos, experimentando-os em correrias pelo largo sem arvores, com uma maestria e uma elegancia de gaúchos.

Nada tinham dos miseraveis ciganos que atravessam os campos, melancholicos, seguindo-nos n'uma guincharia lamurienta, acompanhada pelos urros dos pobres ursos espancados e famintos e pelos intoleraveis macacos com os seus gritos de convulsionar os nervos... Perseguidos pelas auctoridades e pelo odio do povo, que encontra sempre para contar arrepiantes historias dos vagabundos—crianças dadas a comer aos animaes, colheitas devastadas, roubos...—esgueiram-se logo, passam de largo pelos povoados, com a falsa humildade dos cães batidos.


N'esse dia tratava-se d'um casamento e o arraial estava em grande animação. O conde era o padrinho; mandára para lá vinho a rodos e leváva convidados. Promettia ser luzida, fallada por muitos annos, a festa.

Os beirões, de cabeça dura, enraizados na terra como pinheiros selvagens, olhavam, com um mixto d'espanto e de desprezo, para esses eternos vadios, instaveis como a areia do deserto. Alguns, mais entendidos, contavam o que aquillo era:—Nada de padre, nem de pregões, nem de igreja! Quebrava-se uma bilha e ficariam juntos tantos annos, quantos os cacos em que ella se fizera.—Horrores!... E as velhas benziam-se, assustadas.—Credo, Santo nome de Jesus! E viviam assim! Criaturas que nem eram de Deus!... E o sr. conde mettido com aquella gente! Oxalá a mãe não andasse aos tombos no outro mundo pela estragação de mimos em que o criára!...»

A senhora Angelica forneira, n'esse tempo era ainda uma rapariga, casada de pouco com o seu Joaquim, que sempre fôra bom homem, isso é verdade! Amigo da pinguita, por isso não juntaram vintem; morrendo porque ella lhe levasse pontas de cigarro para se entreter lá pelo forno; mas bom homem, no fim de contas, bom homem. Se lhe batia ás vezes, era por amôr—claro!...

N'esse dia, como toda a gente da terra, embasbacava-se a sr.ª Angelica deante do acampamento em festa. Como se adeantasse mais, curiosa de vêr a noiva, depois de ter admirado a gentil figura do noivo, chegou-se a ella uma rapariga, a sahir da infancia, d'uma brancura de pelle, d'uma côr de cabello, d'uma reserva de maneiras que accusava uma raça bem differente. Approximou-se com o disfarce ondulante do gato, que quer fugir sem ser visto pelo dono; puxou-lhe pela saia e murmurou-lhe ao ouvido:—que a levasse d'alli, tinha uma coisa importante a dizer...

A senhora Angelica, que tinha todas as virtudes femininas, excedia quasi o seu sexo na curiosidade. Como pôde lá se metteu com a rapariga por entre o povo, sem que nem dentro nem fóra do acampamento dessem por isso, e levou-a para o cimo da villa onde ninguem estava áquella hora.

Imaginem o espanto da pobre mulher, quando a pequena se agarra a ella a chorar:—que a escondesse, que ella não era cigana! Tinha sido roubada lá muito longe, n'uma povoação da raia. Seus paes eram ricos—o que elles a não teriam chorado e procurado por toda a parte!... Havia dois annos que andava com os ciganos pelo mundo, sem ter podido fugir! Era raro que elles acampassem em povoado e quando assim acontecia não a perdiam de vista nem uma hora. N'esse dia a festa do casamento, com a assistencia do conde, puzera tudo em confusão e ella pudera escapar-se n'uma aberta. Que a não abandonasse, a senhora Angelica!...—O que lhe fazia mais horror era o seu proximo casamento com um dos mais lindos rapazes da tribu! Dois annos a viver com aquella gente e ainda não pudera vencer a repugnancia que a affastava d'elle cada dia mais! A inferioridade de raça enchia-a d'um instinctivo tedio, quasi aversão, por esse sadio rapaz que a escolhera, sem duvida o mais amado das outras raparigas.

A senhora Angelica era mulher de expediente. Consolou-a como pôde e levou-a a um sitio isolado, um cabeço árido, cemiterio dos velhos cavallos lazarentos que os corvos vêem comer deixando os ossos a branquejar ao sol, tristemente apertado entre pinhaes, onde só ella conhecia uma gruta formada pelos rochedos sobrepostos—que decerto era a Cova da Moira.

É que uma vez, ainda em solteira, fôra para alli ao matto e descobrira a caverna. Calára-se com aquillo porque é uma tradição velhissima na terra: que entre modorno e modorninho ha sete cargas d'oiro fino,—que uma moira encantada as guarda, tecendo n'um tear de marfim e chamando alta noite de luar, por quem a vá desencantar!... E ella não quizera dizer a ninguem a sua descoberta, esperando talvez que a moira lhe desse um dia os thezoiros.

Metteu lá a sua protegida e foi levar-lhe comida á boquinha da noite.

Tres dias a teve escondida alli, com medo dos ciganos. Elles é que, postos em rebate pela fuga da prisioneira, foram-se andando sem dizerem nada e sem ninguem lhes pôr estorvos.

Só então a senhora Angelica tomou ânimo, e lá foi, mais medrosa do que vaidosa da sua obra, sem ter grande consciencia de ter andado bem, contar o caso ao administrador...

Foi um alvoroto na terra! Toda a gente quiz ir ver a menina, que veio em triumpho para a villa. Todos lhe queriam fallar e tocar, perguntando-lhe, cada um por sua vez, a historia, que ella repetia sempre, contente por poder desabafar as suas máguas. Os que não conseguiam chegar até junto d'ella abraçavam a senhora Angelica, davam-lhe os parabens, tinham-n'a já como uma gloria patria, quasi uma padeira d'Aljubarrota. Ella andava radiante, contando e recontando o caso.

Nova e maior alegria foi ainda quando chegaram os paes da menina, no louco enthusiasmo de quem chora uma filha morta e a encontra cheia de vida e saude.

A senhora Angelica foi bem recompensada, mas sempre me dizia: «que dinheiro nenhum lhe pagaria o susto em que andára muito tempo, parecendo-lhe ver ciganos em todos os cantos, punhaes e navalhas reluzentes que de todos os lados lhe dirigiam ao coração!...

Não era mentira! Tão certo como haver Deus, que aquelle rapaz, que devia casar com a menina, rondára por alli muito tempo!... Um medo assim! Nem ella sabia em que se mettera!...»


Esta era a historia da velha. Depois, o que eu compunha e arredondava!... Muitas vezes visitei a Cova da Moira e não era essa com os seus lamentos de triste encantada, com os seus cabellos d'oiro, com o seu tear de marfim, a que me enchia a imaginação. Era a pobre rapariga fugida aos ciganos, alli sósinha, temendo ser descoberta, temendo o silencio da noite, a sombra dos pinhaes, os gritos lugubres dos corvos!... Punha-me no seu logar e pensava: Senhor, como pôde ella não morrer de susto?!...

Depois, como os amantes infelizes me fizeram sempre muita pena, acabava por ter dó do cigano que queria casar com a menina e que no dizer da senhora Angelica por alli rondára muitos annos, como alma penada.

Agosto de 1896.


ALGARVE

[ALGARVE]

lgarve era o seu nome. Tinha nos olhos leaes uma tal expressão de bondade, que inspirava logo confiança aos timidos, aos pobres, ás criancinhas.

Era muito distincto, com seu ar de grande senhor dos tempos passados. Ao atravessar o corredor para vir deitar-se aos meus pés, dir-se-hia um velho diplomata acostumado ás etiquetas palacianas.

Não fazia barulho; apparecia junto de nós como uma sombra. Nunca lhe vi aquella alegria ruidosa que faz bem ver, mesmo nos cães. Era silencioso, meigo, taciturno—como se uma saudade ou um remorso lhe pesasse na alma.

Ás vezes, quando a dormir, tinha sonhos afflictivos, gemia baixinho, com estremecimentos bruscos em todo o corpo—como se quizesse lançar-se n'uma corrida para salvar alguem que visse em perigo...

Todas as tardes sahia. Fechava-se-lhe a porta, saltava pela janella. Era a unica occasião em que mostrava a energia da sua vontade decidida e teimosa. Voltava ás dez horas, impassivel e sereno, tal qual como se tivesse ido ao club fazer dois dedos de conversa.

Um dia quiz segui-lo; presentiu-me e veiu ter commigo fazendo-me festas, como a pedir que voltasse para traz. Não quiz comprehender e elle então acompanhou-me disfarçadamente, algum tempo, e logo que me viu distrahida fugiu a bom correr.

E ás dez horas, inalteravelmente, voltava, sereno e grave, como homem elegante que atira o charuto e descalça a luva da mão direita, antes d'entrar em casa.

Mas—coitadinho!—era já muito velho e a sua mocidade parece ter sido um tanto aventurosa. Á mão me veiu elle ter, já cansado, quasi sem dentes, o pello a cahir.

Nos olhos do pobre Algarve queria eu ler toda a sua historia. E, quem sabe, talvez que me não engane muito contando o que li, tudo o que adivinhei nos olhos bons do meu pobre amigo—que um genio altivo e independente levou a uma triste morte.

Veria pela primeira vez a luz n'um paiz branco, todo branco de neve. Grandes montanhas, d'uma transparencia ligeiramente rosada quando o sol muito pallido as illumina, avançam lentamente, n'um deslizar de fadas em doce ronda nocturna... e lenta, mas seguramente, caminham para o seu fim—o grande leito amargo do Oceano.

Muitos navios vinham todos os annos á pesca; então, lembrava-se de ver homens que, de quando em quando, vinham a terra e tristissimamente iam depositar o corpo d'um companheiro, no cemiterio branco picado de cruzinhas negras que lá em cima se via... E a mãe, uma famosa cadella preta de pello luzidio ligeiramente ondeado, acostumára-o a seguir aquelles cortejos funebres, com respeito, quasi com magua...

Depois, ao primeiro annuncio do inverno, os navios fugiam, como as andorinhas vôam ligeiras para a dôce paz dos seus ninhos de lá baixo—andorinhas aventureiras que todos os annos voltam, mas á custa de quantos sacrificios! Quantos ficarão perdidos por esse mar sem fim! E esses homens rudes, que tanto e tanto trabalham por um pedaço de pão, seriam a melhor lembrança do meu pobre Algarve...

Quando maior, levaram-no um dia esses mesmos pescadores que elle se habituára a amar e a seguir humildemente. E então foi uma vida de sobresaltos e perigos, passada sobre as quatro tabuas d'um navio, tal qual um velho marinheiro muito affeito a perigos e tempestades.

D'um naufragio se salvou, salvando o capitão. Appareceu não sei como em Setubal. Depois, de mão em mão, chegou á minha.

Que nostalgia profunda a do seu olhar, quando se fitava n'essa bahia etherealmente e incomparavelmente azul! Com quanta saudade elle recordaria esses mares tão differentes, por onde a sua mocidade se passeára, sobre a tolda dos navios?!...

Nas longuissimas tardes de maio, sempre as mesmas, sempre doiradas e tepidas, eu gostava de me ir com elle até á praia. Alli, na aureola d'oiro fulvo com que o céo santifica o mar, ficava-me sonhando, os olhos fitos no pharol do Outão, que era um ponto mais brilhante na gloria do poente.

Oh! as lindas tardes, as lindas manhãs, as lindas paysagens que nós contemplâmos em extasi; veem-nos passar com a mesma serena indefferença e assim continuarão a encantar os homens na sua rapida passagem pela terra. E mais rapida ainda a d'esses pobres animaes tão intelligentes, tão bons, tão dedicados—e que tão poucos d'entre nós teem alma para comprehender e amar!

Uma noite o Algarve não appareceu ás dez horas regulamentares. Um palpite de tristeza me annuviou o espirito... Faltou essa noite e faltou em todas d'ahi em deante. Um bebedo tinha-se posto deante do seu caminho, n'uma estupida e humana graça. O cão voltou, para seguir por outra rua, e o homem, n'uma selvageria que envergonhava o animal, agarrou-o, entre as gargalhadas dos espectadores que da taverna proxima assistiam ao espectaculo—que na verdade devia ser d'uma infinita graça! O cão filou-o rijamente, sacudiu-o com os dentes e passou.

Mas a injustiça e o odio dos homens torna-os mais ferozes do que os proprios animaes. A alma—se homens como aquelle a teem—apenas lhes serve para mais conscientemente fazerem o mal.

Ao outro dia o meu pobre Algarve tinha desapparecido para sempre, levado para a suprema ignominia da sepultura dos cães vadios.

Junho de 97.


CÚMULO

[CÚMULO]

rabalhava muito, a mulhersinha. Era para admirar como um corpo tão debil podia com tanto. Ella era os recados, a lavagem das casas, as compras...

De manhã passava avergada por grandes cabazes, onde as cebolas côr de rosa conversam amigavelmente com os pimentos d'um bello verde de porcelana, a couve abre grandes folhas já murchas cobrindo as batatas ainda com terra, as cenouras doiradas, o raminho de salsa cheirosa e a carne junto da escama prateada do peixe é uma sangrenta mancha—como ramo de cravos n'um corpete branco. A extravagante mistura que as cosinheiras recebem torcendo o nariz, ralhando com as pobres compradoras e por fim acommodando-se, vencidas pela avalanche de commentarios e explicações... Tudo pela hora da morte! Não ha quem possa chegar á mais insignificante coisa! E cada vez peor. Verão que os pobres hão de morrer de fome qualquer dia!...

Com um sorriso estagnado, magrinha, grave, trabalhava muito, muito. Silenciosa, sem incommodar ninguem, passava ou, melhor, escoava-se por entre a multidão como um peixe dentro d'agua por entre os dedos da mão que o quer segurar. Não faltava ás missas, ouvia recolhida todos os sermões, frequentava as novenas, mas não tinha excessos devotos. Tudo fazia comedidamente, sem nenhum exagero.

Não sei como dizer em phrase vulgar a sua figura tenue. Que isto não dá a ideia, não completa a impressão que d'ella fica, leve como um desenho mal esboçado a esfuminho quasi limpo... Honesta, vestidinha d'escuro, aceada, faz gosto vê-la. Tem um ar senhoril, distincto, quasi d'uma velha fidalga sem fortuna que precisa agradar.

As filhitas andaram sempre muito arranjadinhas. Emquanto pequenas, era mesmo um encanto. Fatos velhos talvez, mas tão gentilmente postos, que ao vê-las dir-se-hia que eram duas meninas ricas. No collegio não se confundiam com as mais pobres, não. Mal ficára viuva deixára a renda na almofada encher-se de pó, amarellar com o tempo e confundirem-se os bilros n'uma indesmanchavel meada.

Viuva?!...

Se ella acaso o era!... Que o marido embarcára e ha dezeseis annos que não sabiam d'elle. Tantas vezes navegára n'aquelle navio mercante e sempre voltara tão alegre, trazendo tanta coisa estranha de paizes distantes, que ella nem comprehendia que podessem existir!.. O que o pobre homem ria de gosto com os espantos da sua mulhersinha! Porque a amava muito, apezar do seu feitio rude, das suas maneiras largas d'embarcadiço; morria por ella e pelas pequenas. Não pensava em mais nada, nas longas viagens trabalhosas por esses mares fóra.

E dezeseis annos sem dar conta de si—decerto que tinha morrido!... Mas sem o confessar, no fundo do coração alimentava ainda uma esperança... Custa tanto acreditar na morte das pessoas amadas, mesmo quando deixam de soffrer deante dos nossos olhos!... Que fará, assim?!...

As raparigas eram bonitinhas, belleza da mocidade, uma certa finura da mãe, com os instinctos aventurosos do pae, talvez. Queriam luxo, muito fato, como as outras. Côres claras, leques, fitas, plumas, rendas... coisas tão caras, mesmo quando ordinarias, para uma pobre mulher que mal ganha para a comida. Quantos recados era preciso fazer; quantas casas esfregar! Por mais que se estafasse não chegava a nada. Sempre as outras melhor do que ellas; sempre as raparigas a grazinar.

Um dia, furtivamente, tirou uma renda de sobre o mostrador d'uma loja de modas, onde comprava para outros o que tanto desejava para as filhas. E que linda golla fizeram! D'ahi em deante, nas casas que servia, ia tirando sempre, sempre, na tentação que crescia como serena maré n'um mar feito de lama amornada. Abria as gavetas, desapparecia dinheiro... desconfiavam e despediam-na. E as raparigas que desejavam blusas novas, casacos, lenços!... Por fim, até chapeo. A pobre mulher, que não tinha remedio a dar-lhe, dobrava-se sobre si mesma, compungida da sua desgraça. Não era remorso; era pena de não ter a quem roubar, devagarinho, sem haver escandalo.

Um dia, cançadas de não terem o luxo que desejavam, abalaram as duas deixando a mãe a governar-se sósinha. E ella—nunca mais tirou nada a ninguem! É tão fiel, tão honesta, que não haveria perigo em lhe confiar uma fortuna.

«Que as filhas são muito boas...—murmura a pobre, muito convencida,—dizem por ahi mal d'ellas; mas tudo é inveja. Coitadinhas, andam bem vestidas, andam, mas isso o que tem? A mais velha hade casar em morrendo a mulher do homem que a sustenta... E Deus hade fazer esse milagre!—Sinceramente o pede nas suas fervorosas orações.—A outra casa para a paschoa, com um empregado publico. Vive como senhora.»

E ha quantos annos que ella espera essas boas festas!...

Setembro de 96.


A AMA

[A AMA]

uando a Rosita do Simão casou, foi um desconsolo pela rapaziada. Pudera, se ella e a irmã eram das mais bonitas caras da aldeia! Claro que não se poderiam chamar bellezas em qualquer terra de formosuras, mas alli, entre a fealdade quasi geral, pareciam duas flôres. Decerto que era pena ve-la casar com o bruto do Antonio Marques!

A Mariquinhas estava a servir em Lisboa, n'uma bella casa arranjada pelo sr. vigario, e vinha á terra d'annos a annos, toda senhora, toda posta no seu serio—boas mantilhas, bons fatos, uma figurona! E á Rosa, a ter que casar com o Marques, mais lhe valêra ir tambem servir...

Ella é que se não importou com os commentarios, e lá foi toda contente, com o seu vestido preto, o lenço de seda, o chale de vêr a Deus, dar a mão de esposa ao sr. Antonio Marques, que ia todo taful, de capote ás costas e chapéo novo. Foi uma festa.

No poente rubro, tepido, da primavera que ia no fim, a passarada cantava umas alegres canções—coisas d'elles, d'esses vadios sem futuro. Umas pessimas cabeças, as da passarada!

E o Leandro, amigalhaço do Antonio Marques e convidado para o arroz doce, tocava os sinos todos n'um desaforo de repiques.

O velho campanario tremia entre os braços da hera. A pobre igrejita enchia-se do oiro mordente que o sol enfiava pela rosacea do côro. A vinha do passal perfumava a atmosphera como uma enorme corbêlha de reseda e os pinhaes, os soutos e os olivedos reviveciam n'uma vida fresca, novinha em folha. Errava no ar uma tal expressão de vida natural, que inconscientemente todas as boccas se abriam em risos. O sr. vigario, muito solemne, fez uma bella prédica á Rosita; as palavras cahiam-lhe dos labios, sérias, claras e precisas como se viessem classificadas, numeradas, sabendo d'antemão o logar que occupariam na vida. O latim era tão explicado, que fazia gosto ouvi-lo... «Ser casada por elle—dizia a Rosita—até dá felicidade. Parece que fica a gente mais bem casada!...»


Passados tempos, já não dizia o mesmo. O Antonio era um bruto, um avarento; tudo o que ganhava enterrava na fazenda. Em casa, a Rosa mortificava-se, com tres criancitas intanguidas de frio e fome—dizia mal da sua cabeça tonta. Ir casar com um trabalhador d'enxada já fôra uma tolice—e sahir-lhe elle assim!... Louvado seja Deus, que tão pouco juizo dá ás raparigas! Porque não fizera ella como a Mariquinhas, que vinha á terra tão bem vestida, que era a inveja de todos?!...

No baptisado do terceiro sobrinho foi ella ser madrinha, com incumbencia d'uma ama para Lisboa. O ordenado era bom e o Antonio Marques, muito avarento, lembrou a mulher. Lá por saudavel e bonita não havia outra nos arredores. Os pequenos ficavam com a avó e haviam de se crear como os mais, á graça de Deus!

Fallou-se ao sr. vigario—que dissesse elle a sua opinião. A Mariquinhas explicava—que era para casa da sr.ª viscondessa, prima da sua senhora, o sr. vigario sabia...

—«Óra se sabia! Perfeitamente. Ia muito bem; que fosse, que fosse!...»

Custou-lhe muito separar-se dos filhos, á pobre da Rosita. Chorava inconsolavel pedindo á mãe que lh'os tratasse bem, que ella mandaria dinheiro para isso; nada de o entregar ao homem que tudo iria enterrar na fazenda e deixaria morrer os pobres anjinhos.

Dois annos que a Rosa esteve por lá, mandou sempre bom dinheiro, que o marido guardava. Os garotos iam-se creando pelas portas, negros e sujos, tristonhos—uns selvagens. Acabada a creação chegou ella, esperada em triumpho por todos os parentes, que de fóra da gare lhe acenavam com os lenços chamando-a alegremente. Nem parecia a mesma! Mais bonita que nunca, a rapariga. Os filhos fugiam d'ella, enrodilhavam-se na saia da avó, choravam confundidos por se verem acariciados por mãe tão de grande gala. E ella olhava-os lacrimejante, sem grandes esforços de ternura, que os conquistasse. Achava-os tão feios no fim de contas!... Mostrava o retrato do seu menino—recostado entre almofadas e rendas, risonho e expressivo como se da photographia fosse estender os braços roliços á boa ama.

—«Que lindo menino, se vissem! Uma gracinha de criança, que tudo lhe ficava bem. Quando o levava pela rua toda a gente se voltava enlevada na sua belleza. Um amôr! Nunca poderia esquecer o seu menino, o querido anjo que criára ao peito...