QUATRO NOVELAS

Composto e impresso na Typographia França Amado,
rua Ferreira Borges, 115—Coimbra.{3}

ANNA DE CASTRO OSORIO

QUATRO NOVELAS

A VINHA.
A FEITICEIRA.
DIARIO DUMA CRIANÇA.
SACRIFICADA.

COIMBRA

FRANÇA AMADO—EDITOR

1908

{4}
{5}

[I
A Vinha]

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{7}

[A VINHA]

Luis sahira para o colegio ainda criança e de lá para as escolas superiores; assim os anos tinham decorrido sem que nunca mais visitasse a terra natal.

Dez anos, dez longos anos se tinham passado, e só agora voltava, como um foragido ou como um ladrão, que enlouquecido de saudades arrisca a vida e a liberdade para revêr a terra que primeiro conheceu e é sempre para o homem a mais querida, a mais bela, a melhor de todas.

E—pobre Luis!—era na verdade como um foragido que voltava, escondendo-se para que o não vissem, envergonhado dessa fraqueza sentimental que já não ia nada bem com os seus galões de guarda-marinha e o seu bonito bigode a ensombrar-lhe o labio superior.{8}

E voltava amesquinhado aos seus proprios olhos, elle que se julgava tão importante pelos estudos transcendentes, que seguira com certo brilho, porque só agora compreendia o sacrificio de cada momento, a luta de cada hora, o verdadeiro heroismo obscuro e respeitavel que a sua educação representava na vida da familia.

Compreendia, afinal, um pouco tarde demais para que a consciencia lhe ficasse limpa de remorso, quanta mentira santa fôra preciso inventar, com quanta delicadeza envolver as palavras, quanta historia arquitétar para que elle aceitasse sem desconfiança o propositado afastamento em que o tinham conservado durante esse longo periodo de tempo.

Chegara por vezes a pensar, as poucas ocasiões em que reparara nisso, que o desprezavam, que era um pária, que os pais afastavam receando a vergonha de o apresentarem como seu herdeiro e continuador.

Dizia-lhe a consciencia que tal procedimento não era justo, porque—se é verdade que não fôra nunca um estudante desses que se mostram com desvanecido orgulho, carregados de distinções e premios que esmagam o proprio dôno e irritam os companheiros,—é certo que o curso lhe sahira limpo, seguido como de empreitada, numa indiferença risonha{9} de quem o levava com uma perna ás costas.

Lembrava-se de pensar ás vezes no facto, um tanto irritante, do seu afastamento sistematico da casa paterna, e pôr-se consigo a acusar os pais; mas á mais leve referencia acudia uma carta de Eduarda, que varria do seu coração, voluvel e bondoso, a desconfiança cruel.

Era sempre a mesma delicadeza inteligente, procurando as palavras para não maguar nem esclarecer, fugindo graciosamente duma pergunta mais nitida, dizendo pouco em longas cartas, que satisfaziam plenamente a sua ansiedade de momento mas muito deixavam escondido nas dobras duma alma que se não pode expandir, sob pena de infelicitar os outros.

Eduarda, apenas mais velha dois anos do que Luis, fôra desde criança uma pequena figura simpatica de mulher, dessas mulheres adoraveis sem deixarem de ser profundamente humanas, ou talvez por isso mais adoraveis ainda, que tudo compreendem, por tudo se interessam, para todos são a providencia, o refugio e a esperança.

Quando fôra resolvida a sua entrada para o colegio militar, Luis ficara radiante. É que essa admissão fôra o seu maior empenho, a{10} ambição de largos mêses e dias—desde que na terra aparecera, a proposito de qualquer festa pública, um regimento de lanceiros, que o tinha enlouquecido com o seu ar soberbamente marcial e as bandeirolas, vermelho e branco, a panejarem ao sol.

Não pensava noutra coisa senão naquella sua entrada para o colegio em que todos os alunos são já pequeninos homens, pequeninos militares de botões reluzentes, barretina, dragonas, e duma compostura grave de disciplina rígida.

Fazia projectos, contava as peças do enxoval, que a mãe lhe ia empilhando na mala, lia e relia a relação das coisas que lhe mandavam levar e prometia a si mesmo só quebrar o seu, mialheiro de barro quando tivesse já a farda, para ir tirar o retrato de grande uniforme.

Mas quando chegou o dia da partida e viu á porta o carro em que devia seguir, os criados arrastando as malas, o pai gritando porque não estavam as coisas em ordem—e o comboio não espera!—quando viu a mãe soluçante por vêr partir o mais novo, o mais fraquinho, o preferido—todos o sabiam—o Luis perdeu a coragem. E chorou, chorou intensamente, num soluçar fundo, proprio dessas naturezas impulsivas, febris, doentias, a que{11} os nervos emprestam uma acuidade dolorosa, embora passageira, nas sensações.

E ella, a irmãsita, já com a orla do vestido a procurar o cano da bota, a trança loira cahida pelas costas, o corpo airoso e fino ainda sem o quebrado das linhas feminis, não tivera lagrimas que correspondessem áquella dôr excessiva, nem palavras que consolassem aquella alma desolada.

Sorria até, para esconder uma ligeira tremura significativa no labiosito ainda criancil, mas o seu olhar era limpido, e a face, ligeiramente enrubecida, em coisa alguma trahia o esforço enorme de vontade que a sua atitude representava. É que era realmente heroica aquella criança que represava as lagrimas, bem naturais no entanto, para encobrir o seu legitimo desgosto ao vêr partir o irmão, o seu companheiro e amigo mais certo.

Porque Luis e Eduarda eram, mais do que pelo sangue, que tantas vezes corre desemelhante em filhos da mesma arvore, irmãos pela camaradagem no estudo e nos passeios, nas distrações como nos desgostos, nesses tão maguados desgostos infantis, que todos desprezam e são talvez os mais violentos e os mais desesperadores de toda a vida.

Mas Eduarda tinha a rara delicadeza de certas almas de excéção, que em si concentram{12} a propria dôr e só têm para a dos outros carinho e consolo.

Se o Luis soubesse o que ella sofria, ficando ali a vê-lo partir, debruçado na portinhola da carroagem e ainda a recomendar-lhe as suas coisas—os animais, as flôres, os brinquedos abandonados!... Se elle soubesse como a pequena sentia já a solidão em que ia ficar, naquella pobre terra sem diversões e sem conhecimentos, ella que não cultivara mais amizades infantis álêm da delle!...

Nos primeiros tempos as cartas amiudavam-se: elle, contando tudo quanto via de novo e o trazia em contínua sobreexcitação, em duas linhas sugestivas, sempre apressado por falta de paciencia para escrever; ella, narrando detalhadamente os pequenos casos domesticos, que tanto interesse despertam sempre ás crianças. Eram recordações de passeios e brinquedos, a relação de todas as pessôas avistadas, os amigos da casa que perguntavam sempre por elle, os seus recados, as suas proprias palavras.

Luis bem o conhecia: eram verdadeiros recados aquelles,—não banalidades ceremoniosas—que evocavam, á sua recordação saudosa, as figuras amigas que as enviavam, de longe.

Depois, no fim das cartas, como repique festivo de sinos em vespera de dia santo, a{13} esperança das férias, a contagem dos dias que faltavam para essa felicidade tão desejada e retardada sempre.

Quando se aproximava esse abençoado mês de setembro e elle já só esperava a ordem para embarcar no grande comboio resfolegante que o levaria ao conchêgo da familia e ao abrigo das velhas paredes amigas, que tinham visto nascer e crescer umas poucas de gerações de rapazes como elle, uma carta vinha preveni-lo de que aguardasse o pai para seguirem ambos para uma dessas famosas praias do litoral onde um mês se passa sem se sentir na vida duma criança.

Assim foi passando o tempo: aos anos de colegio seguiram-se os da escola, sempre despreocupados e alegres, sem que coisa alguma o preparasse para o martirio incomportavel que estava agora sofrendo, sem que coisa alguma lhe fizesse supôr o doloroso drama, obscuro e martirisante, que lá longe se ia desenrolando lentamente, esmagando com ferocidade os corações que tanto lhe queriam...

Tambem, que satisfação, livre de preocupações, elle teve quando recebeu aquella carta em que Eduarda lhe dizia, entre coisas ligeiras e banais:—que tinham resolvido vender a velha casa e o quintal para irem viver para Lisbôa. Ficariam assim mais perto delle,{14} quando as suas longas viagens o deixassem descansar por algum tempo com a familia. Assim estariam juntos durante todo o tempo em que estivesse em Portugal.

Que alegria a delle! Nem sequer lhe passou pela cabeça a lembrança dessa velha casa, que os abrigara, carinhosa e maternal, como tinha já abrigado os pais e os avós, e vivia como sêr consciente dentro do fundo da sua alma.

Como Eduarda, querendo poupar toda a mágua ao seu coração mal preparado para a dôr, mostrava bem conhecer essa natureza de amoravel e sentimental, que um nada arrebata á mais acêsa alegria como á mais desolada tristeza!...

A vida intensa das grandes cidades, que mais a fariam a ella viver adentro de si mesma, concentrando-a no seu eu, tirava-lhe a elle a sensação nitida da sua vida propria e, apanhando-o nessa engrenagem barulhenta e niveladora, dava-lhe apenas as ideias e os sentimentos de toda a gente.

Agora, com a vinda dos pais e da irmã, sentia-se bem feliz para nem sequer se deter a pensar nos provaveis motivos que tinham determinado aquella resolução.{15}

Como estaria Eduarda, que deixara ainda uma criança, tantos anos volvidos sem se verem? E a mãe? Dizia-lhe sempre, nas suas cartas, que se sentia muito velha e doente, mas elle sorria-se confiante e não a via senão como a deixara, sorridente, laboriosa e desempenada, a alma de toda aquella colmeia que era a casa paterna.

Com que impaciencia febril esperou o dia marcado para a chegada, e como logo de manhã, ao alvorecer desse dia bemdito, se sentiu outro, alegre até á loucura de ter vontade de abraçar toda a gente, de saltar pelas ruas como uma criança, sentindo-se leve, surpreendendo-se diferente, mal cabendo na sua bonita farda de guarda-marinha!

Ás horas da comida não conseguiu engulir com desfastio os costumados manjares da velha hospedeira, a quem deu um abraço apertado prometendo-lhe trazer a familia para que os conhecesse,—havia ella de vêr como eram seus amigos...

E a velha D. Engracia, que tantas vezes se arreliara com as suas telhas, como ella dizia, sentiu que as lagrimas lhe vinham aos olhos com a comunicativa sensibilidade daquella{16} alma que se escancarava para lhe mostrar quanto sentia de bom.

Muito antes da tarde já elle se dirigia para o Rocio, na ideia inconsciente de se aproximar da estação onde os iria esperar, algumas horas mais tarde.

Falando com um e com outro, discutindo um pouco sem se interessar muito nas conversas, entrando no Tavares Cardoso para folhear um livro, indo ao Martinho beber uma cerveja, mastigando cigarros sobre cigarros, impaciente e febril, mas alegre e falador como nunca os seus amigos o tinham visto...

A hora chegou por fim, porque todas as horas chegam, por mais doloroso ou lento que seja o seu caminhar esmagante, como fogem todas, por mais que as queirâmos retardar um instante nos raros momentos que nos trazem felicidade. Elle lá estava, desde muito cedo, esperando na gare, sentindo o coração bater desordenado, quando ao fundo do túnel despontou a luz vermelha da locomotiva e o guarda tocou a corneta anunciadora, ao passar nas agulhas... Depois, que estranha sensação a sua ao vêr as três cabeças, que resumiam todos os seus grandes afectos, debruçarem-se nas janelas do vagão, sorrindo-lhe e reconhecendo-o de longe! E elle,{17} que só reconheceria o pai, com certeza, se os não esperasse, tal era a diferença que faziam as duas: Eduarda, uma mulher perfeita, sem nada que recordasse a criança esbelta que deixara; a mãe, debilitada e encanecida, tão vélhinha, que não podia afirmar que não houvesse engano.

Oh, mas a vélhinha é que o reconhecia bem, ao seu Luis, beijando-o e abraçando-o com frenesi e achando-o mil vezes mais bonito do que ao retrato.

Tambem Eduarda o abraçou alegremente e achou muito bom, apesar de um pouco menos forte do que ella, que se talhara e desenvolvera longe da atmosféra falsificada da cidade, no puro ar criador da montanha.

Chegou tambem a vez da Maria o abraçar,—Maria; a criada fiel que os acompanhara sempre, que era alguem na familia, uma pessôa que a todos satisfazia e com quem todos contavam.

Inolvidavel momento aquelle que os reunia, depois de tão grande e inexplicavel afastamento; encantador de contentamento esse primeiro repasto, num restaurante trivial da Baixa, para darem tempo a que as bagagens podessem chegar á casa muito alegre que elle escolhera, com vistas sobre todo o estuario azul do Tejo, onde a lua entornava, nessa{18} noite gloriosa de junho, a sua luz branca e leitosa, vagamente adormecedora...

Luis sentiu-se orgulhoso com os elogios que a sua escolha cuidadosa mereceu á irmã e queria convencer a mãe de que nada havia que se comparasse ao espétáculo grandioso de toda essa cidade picada de luzes, estirando-se ao longo do rio, que centenares de pequenos faroes faziam tambem palpitar e viver, como outra cidade flutuante.

A pouco e pouco, abertas as malas para que tudo fosse colocado no seu logar, Luis começou a reconhecer com enternecimento as velhas coisas que os seus olhos de petiz haviam conhecido e admirado. Foi com alegria quasi infantil que levou á mãe a velha caixa de xarão, herança da avósinha, onde eram guardadas cuidadosamente as pequeninas coisas preciosas que queriam roubar á curiosidade, nem sempre segura, das suas mãositas de criança.

Uma chavena, uma jarra, qualquer coisa emfim que ia aparecendo, lhe ia trazendo uma saudade da infancia longinqua e que esvoaçava agora na sua alma como farrapo branco de nuvem distante a dissolver-se num rubro poente.

A mãe, que um momento ficara só junto delle, chorava silenciosamente, olhando-o com ternura.{19}

Luis não compreendia—chorar!?... Então não estava satisfeita por estar em Lisbôa, com elle? Não viera por sua muito livre vontade?

E então a pobre senhora, incapaz de por mais tempo o iludir, desejando mesmo—no egoismo inconsciente dos que sofrem—associar todos á sua dôr, não se fez rogada e disse, disse tudo, tudo quanto de amargurado e desesperador lhe tinham dado esses anos em que o não vira.

—Fôra uma luta tremenda e desigual, essa que o pai sustentara durante anos, contra tudo e contra todos, sem perder a energia, sem trepidar nem recuar. Primeiro, ia muito bem nos seus negocios—o Luis devia lembrar-se... Depois, as fianças, os roubos, a má fé de uns, a inveja mesquinha de outros, abalaram-lhe o crédito, envolveram-no em questões e demandas, fizeram-no perder uma a uma todas as suas belas propriedades, as compradas á custa de muito trabalho e as que herdara pessoalmente, e até a sua propria casa de moradia, quando já nada mais tinha que desafiasse a cubiça alheia, lá se fôra embora, com o quintal. Sim, esse fôra o último e o mais certeiro dos golpes, que sangrava ainda e tarde se poderia cicatrisar na sua pobre alma dolorida.{20}

As lagrimas corriam sem parar pelas pálidas faces da bondosa criatura, que assim foi contando, uma a uma, todas as suas dôres, não poupando Luis a nenhum dos incidentes, a nenhum detalhe desse martiriologio incomportavel de lutar com os maus, os inferiores, esses que acorrem sempre a lançar a sua pedra quando presentem que a fortuna abandonou os que ha pouco invejavam.

Luis, calado, ouvia, sem a compreensão bem fixada da realidade, olhando com uma persistencia dolorosa essa vélhinha que chorava um passado em frangalhos, e era a sua mãe, a mesma que elle deixara rica e tão feliz dez anos antes.

—E porque lhe não tinham dito o que se passava?! Porque o tinham alheado assim de todos os desgostos da familia, como se fosse um estranho? Não era filho como os outros, não devia ser igualmente filho para as alegrias como para os sofrimentos?...

—Ah, sim! Por sua vontade ter-lhe-ia contado logo o que se ia passando, mas nem o pai nem Eduarda o consentiram para que elle se não impressionasse e desviasse a atenção dos estudos, que era preciso levar ao fim sem uma falta.

Luis padecia naquelle momento uma tão insofrivel amargura, que no fundo do seu{21} coração, humanamente egoista, sentia uma onda de reconhecimento pelos que o tinham poupado daquella maneira... Devia-lhes uma pacifica e alegre mocidade, que lhe preparava uma serena vida futura.

Então, nesse impulso que dá a propria revolta em toda a criatura contra a dôr que a esmaga, começou a consolar a mãe, consolando-se a si mesmo.

O pai, com o emprego que arranjara numa das principais casas bancarias que até ao fim o tinham sustentado, sustentando-lhe o seu crédito para a liquidação voluntaria, ganhava certamente mais do que negociando por sua conta. Depois, elle não estava ali com tudo quanto ganhasse para lhes dar, tudo sendo pouco, é claro, para o que lhes devia?!...

E a mãe sorria por entre lagrimas, numa grande consolação de apaziguamento, porque a sua dôr encontrava abrigo em outra alma que a lamentava.

—Sim, a situação economica não era de todo desesperada. Dispensariam apenas o superfluo, a que se tinham habituado, e mesmo esse não completamente, porque na liquidação grande parte do seu dote podéra ficar intacto.

—Oh, elle compreendia bem que não era a questão material a que mais os afligia, era{22} a recordação dum longo passado de paz e de desanuviadas venturas que já ia longe; era a amargura desses últimos anos em que todas as suas energias se concentravam em aparentar uma soberba que não sentiam, em mostrar um orgulho que era feito de toda a condensação amargurada da sua dôr por vêrem o egoismo e a maldade dos que ferozmente lhe espiavam as lagrimas e as decéções.

—Elle compreendia bem, finalmente, que o que mais lhe custara fôra o deixar essa casa que representava tanto na vida afectiva da sua bôa alma de sofredôra.

Desde esse dia nunca mais Luis perdêra aquella ideia, que se tornou uma obsessão: ir visitar a velha casa e reviver diante das suas paredes, que lhe falariam do passado, todo o martirio a que o tinham furtado generosamente. Em vão Eduarda o dissuadia desse capricho do sentimento, que classificava de criancice; em vão ella lhe dizia que o passado estava morto e ninguem mais o poderia resurgir; que não havia imaginação nem vontade humana capaz de fazer voltar atraz o curso da vida, que para elles se precipitara numa cachoeira desatinada e agora ia deslisar num mais bello e sorridente campo.{23}

Mas não! Elle fizera desse projecto o seu sonho, o seu misterio de apaixonado, e iria, sem que ninguem o podesse impedir de o fazer.

A ideia de que a casa que fôra o lar abençoado de toda a sua familia já lhes não pertencia, desvairava-o. Iria, acontecesse o que acontecesse, num romantico impulso de sentimento—que mal compreenderia quem lhe não tivesse compulsado os arrebatamentos de apaixonado—evocar todo o passado e embeber-se bem na dôr das eternas e irremediaveis separações.

Agora, elle ali vinha, como um namorado, revêr pela ultima vez as coisas que já lhe não pertenciam, e que indiferentemente iam tornar-se para outros as suas coisas, os seus afectos.

Para que viera?—pensava já—porque não se deixara guiar pelos conselhos da corajosa rapariga que tão alegremente ia entretecendo um novo ninho com os restos dispersos do antigo, desfeito pelo temporal? Porque viera?!...—É que queria sofrer, ali mesmo, tudo o que tinham sofrido aquelles que amava.

Fugir a isso parecia-lhe uma covardia excessiva. Imaginava sentir assim, pelo poder evocativo da sua memoria despertada pela visão, lagrima por lagrima, desespero por desespero,{24} vexame por vexame, revolta por revolta, a vulgar mas horrivel tragedia desse incidente numa familia burguêsa.

No vagão onde passou a noite, nem uma só vez os olhos se lhe fecharam num sôno reparador. Os nervos em sobreexcitação faziam-no reviver, na memoria, todas as circunstancias torturantes em que se déra o desastre final. Sentia uma doentia voluptuosidade em pensar nos tormentos por que o seu coração teria passado se a elles tivesse assistido.

Os nervos irritados por tantos dias de ansiedade obrigavam-no a agitar-se numa febre de movimento, um desejo de choro, de gritos convulsivos, que lhe desoprimissem o peito...

Cada nome de estação gritado monotonamente, cortando na noite arrastada o sôno dos viajantes, era para elle o martelar desesperador do condenado que assiste ao levantar da sua propria forca.

Em breve, mais um desses gritos ouvidos, a perder-se na noite, e estaria na linda terra, que revia: toda branca e faiscante nos dias ensoalhados de verão, varrida pelas nortadas ásperas da serra, nevada como uma noiva nas invernias inclementes—com as suas paisagens cristalisadas de sonho; as suas feiras rumorosas; as ladainhas atravez dos campos em flôr, pelo despertar das primaveras amorosas; as romarias{25} barulhentas, sob um sol sufocante de canícula... Depois, os descantes; os natais, em que fôra, romeiro piedoso e crente, ao presepe do menino; as janeiras, cantadas á sua porta e em que os versos laudatorios lhe agradavam sempre; as semanas santas, com procissões na rua, por esse agonisar de sol doirado em que um Deus assistia á morte doutro Deus...

Tudo isso elle revia, todo esse passado distante se apoderava da sua alma e o fazia viver por momentos uma existencia, que se não repetiria mais.

Agora, em frente da antiga casa que lhe enchêra de sonhos os últimos mêses de vida, Luis sentia-se frio.

Quizera sentir muito e não sentia nada. Nenhuma comoção, nenhuma dôr—na sua alma gelada.

Nem a casa lhe parecia a mesma—e decerto não era!—cortadas as trepadeiras que a revestiam de verde e lilaz e que a perfumavam dôcemente com os cachos exoticos das glicinias rôxas. Até as janelas tinham sofrido o insulto de serem repintadas de vermelho, e as paredes estavam caiadas de branco, essas paredes de granito polido que tinham ao sol faiscamentos de mica e escureciam sem se{26} resentirem das intemperies, suavemente, como se envelhece sem sobresalto nem luta, quando se vive sem preocupações.

Já não era a mesma—nada lhe dizia ao seu coração que era a mesma.

Lançou pelas janelas abertas um olhar de indiferente curiosidade para o interior e então quasi lhe deu vontade de rir, tanto era banal o mobiliario que a guarnecia, tão charramente burguêsa e sem gosto a decoração que a tornava uma casa trivial de endinheirados, de adventicios sem educação.

Fechou os olhos, concentrou-se por segundos na evocação do passado, quiz enganar-se a si proprio, mas não o conseguiu; a sua alma quedou-se, por fim, numa frieza e numa desolação de completo desmoronamento.

Faltava-lhe o quintal; voltou-se para seguir ao longo do muro, deitando um olhar prescrutador para o pequeno jardim gradeado, que era no seu tempo um tufo apenas de verdura, e sofrêra, como a casa, a influencia dos novos dônos.

Sim, no quintal ao menos iria encontrar as mesmas arvores, os mesmos recantos amaveis de sombra, o mesmo perfume saudavel do pomar e da horta verdejantes.

E seguia, rapidamente, olhando o muro de pedra solta e que era bem o mesmo que bastas{27} vezes saltara para comer os bellos cachos de uva ferral de grandes bagos córados.

Isso não mudara, ao menos; era o mesmo que conhecera e lhe fazia lembrar tantas garotices, tanta alegria passada...

Quando chegou ao alto do caminho descobriu a parte do quintal que menos estimava, porque tinha sido adquirida ulteriormente, poucos anos antes da sua ida para o colegio.

Lembrava-se bem de quando o pai comprara aquelle grande campo de oliveiras e terra centeeira a entestar com o pomar, que sempre tinham desejado na familia e por teima de camponios rudes lhes não pertencia desde muito.

Como elle ria, satisfeito, olhando a mulher, muito contente tambem, ao vêr cahir uma a uma as pedras do muro que ia fazer do seu pequenino quintal uma quintasinha deliciosa, mas que para elles nunca deixara de sêr o quintal.

Luis sentira então, ao correr pela carreira principal, tão comprida que ao fundo deixava de se avistar a casa, uma sensação de posse, que o fazia agora sorrir.

Lembrava-se bem como Eduarda estava melancolica naquella tarde de outôno, olhando o desmoronamento que lhe parecia um começo de destruição—porta escancarada por onde{28} entrariam todos os desastres... Presentimentos de alma extremamente vibratil, ou acaso sem nenhuma significação, quem pode ao certo dizer o que determinados estados de espirito representam?!

Ali tambem havia mudança... Luis começou a sentir a ansiedade da dúvida. Tinham plantado vinha nesse campo, que dantes ondulava num verde tenro pelas primaveras, e pelos verões era um manto de oiro, com as espigas acurvadas ao pêso do grão já maduro.

Entrou pelo fundo do quintal, que no seu tempo tinha apenas um pequeno muro como signal de posse e agora se alteara numa hipótese de muralha orgulhosa.

Seguindo pela rua mais larga, ia recordando, uma por uma, as arvores do pomar. Uma certa pereira que se erguia em roca, toda florida e branca como fogaça, e era a primeira a amadurecer as suas peras magnificas; uma rua de aveleiras baixas e tufadas, donde apanhavam ás mãos cheias as avelãs ainda em leite, que eram dum verdadeiro apetite... Depois lembrava-se dumas certas ameixas, muito rôxas e carnudas, que ainda lhe faziam crescer a agua na bôca. E a nespereira imensa que sombreava a horta, com grande desespero do velho Antonio hortelão... e a enorme cerdeira, que tinha uma historia engraçada,{29} que os pequenos sempre contavam ao ouvido dos visitantes e os fazia desenhar gestos de nojo, o que lhes provocava uma esfogueteada de risos!?... E tantas outras que eram mais conhecidas, como suas irmãs, que iria abraçar piedosamente numa despedida derradeira.

Se fosse tempo de lilazes, como teria gosto de levar um grande mólho de flôres para a mãe! Sim, roubaria, porque ao seu inconsciente criterio isso não lhe parecia um roubo: se o quintal era o seu, o mesmo que tinha deixado anos antes, que mal poderia haver nisso?!

Apressou o passo até avistar a grande nogueira, plantada no ano do nascimento de Eduarda, e que já no seu tempo era uma bela arvore que desafiava a cubiça do rapazio que de fóra namorava as suas verdes nozes de bôa casta. Se não fosse noite poderia vêr no tronco rugoso as iniciais do seu nome, que Eduarda tinha aberto, na vespera da sua partida para o colegio.

Mas ao chegar junto á arvore, donde se descobria todo o quintal, não poude reprimir um gesto de pavôr.

Ah, para que viera ali, numa febre apreensiva de lembranças,—para reviver uma vida que já não existiria mais, para materialisar{30} uma saudade que já não poderia sêr realidade... para quê?!...

Bem lho dissera Eduarda, aconselhando-o a não dar ao passado mais do que a melancolica e vaga recordação que merece, e lembrando-lhe o dever de caminhar para a frente, de viver, como ella, uma nova vida mais nobre e mais cheia de ideais, que a faziam até abençoar esse desastre material que a libertara de preconceitos e costumes seculares...

Mas elle sofria verdadeiramente e intensissimamente; era uma dôr material como a de lhe cortarem um pedaço do seu proprio corpo, ao vêr que tambem o pomar não soubera resistir á mudança de proprietario, na sua passividade de natureza vegetativa.

Oh, as lindas arvores de fruto, as ruas de plumeiras decorativas,—inuteis para o criterio mesquinho do vulgo—os crisântemos estrelados, os lirios rôxos, as roseiras já grossas como arvores, tudo, tudo fôra sacrificado ao ignobil desejo do lucro. Tudo desaparecêra, para dar logar á vinha!

Como sofria com tal hecatombe, e como sentia no seu proprio sêr os gemidos doloridos das suas plantas mortas, cujas almas erravam ali sem dúvida—elle ouvia-lhes e compreendia-lhes as queixas esparsas naquelle ar triste de cemiterio...{31}

Vinha: toda a horta, todo o pomar, o seu proprio jardinzinho cultivado com tanto disvelo!

Um soluço lhe subiu do peito oprimido, e as lagrimas vieram-lhe, sem querer, aos olhos ardentes.

O quintal tinha pouca agua, sim, elle sabia isso,—fôra até a grande preocupação da familia—estando numa encosta que declivava dôcemente até ao ribeiro... Mas nunca lá tinha morrido nada com sêde; pelo contrario, as arvores desenvolviam-se a olhos vistos.

Todo o desespero das coisas fatalmente irremediaveis o sacudia e fazia halucinadamente padecer.

A vinha! Como detestava essa planta, de que transformam em subtil veneno o dôce e aromatico sumo do seu fruto, e que estropia mais criaturas e faz correr mais sangue e mais lagrimas pelo mundo do que exercitos em campanha!

Como se tornava odiosa aos seus olhos essa planta, que torce convulsamente para o céo os braços descarnados de esqueleto, e como a desejaria queimar, numa furia vingativa de inquisidor!

Luis amaldiçoava mil vezes essa planta, que é tão estimada, porque representa a cupidez explorando o vicio.{32}

Diante dos seus olhos, embaciados pelas lagrimas, todos esses troncos nus se animavam e viviam dançando numa roda selvatica de possessos.

Como detestava entranhadamente, sagradamente, a vinha!

Não lhe lembrava, por certo, a alegria rubra e ruidosa das vindimas, quando elles iam todos, pelos poentes fulvos dos lindos outônos da sua terra, ás propriedades de fóra, e voltavam atraz dos carros que as dornas a transbordar faziam chiar doridamente, ora enterrando-se na areia solta das azinhagas orladas de silvas, ora trambulhando pelas lages e pedras dos caminhos carreteiros.

Nem sequer recordava o delicado e suave perfume a resêda da vinha em flôr, quando na primavera as noites são frescas e os rouxinois cantam pelas ramarias os lirismos dos seus amôres e as romanzas dos seus noivados.

Via sómente os esqueletos tristes que tinham expulso as suas arvores amadas, as suas flôres escolhidas, as esbeltas trepadeiras, tudo emfim que fazia o encanto daquelle pedaço de natureza que fôra uma parte da sua propria alma e deixara de existir para sempre.

Luis abraçou a nogueira, numa última expansão de sentimental, beijou-a devotamente, como a uma velha amiga que se lhe tivesse{33} conservado fiel ao coração, e afastou-se lentamente daquelle logar que fôra de martirio para a sua alma, como a mêsa de operações dum hospital onde se amputa um membro infermo.

Ainda de longe olhou para traz, e, num instintivo movimento, tirou o chapéo num último adeus á leal amiga que o vira nascer e fôra a unica que lhe soubera conservar a ilusão do passado.

Um adeus, um último e enternecido adeus, e tudo tinha acabado.

Foi quasi com indiferença que de novo transpôs o muro, sorrindo para o pinhal que marulhava como as vagas de vagabundo mar, e que era o mesmo ainda. Esse não tinha mudado.

Quando o comboio se pôs em marcha para o internar de novo na sua vida do presente, depois daquella tentativa de viver pela recordação um passado sepulto, Luis sentia a impressão estranha de que a terra que deixava não era aquella em que tinha vivido uma tão importante época da sua vida.

Essa, parecia-lhe ter desaparecido completamente, como se a tivessem rasgado do mapa e a tivessem substituido por uma outra vila{34} burguesinha, cheia de sol e de gente palradora e vasia, a mexer-se e a dançar indefinitamente.

Quasi a dormitar seguia vagamente essa gente, ia escutar-lhe as palavras para rir do mesmo riso banal, e ficava silencioso, sem nenhuma impressão de alegria ou tristeza.

Depois... tudo se foi diluindo, aos poucos, e adormeceu profundamente, revendo de novo a terra antiga, com varandas revestidas de trepadeiras perfumadas, silencios religiosos, as arvores, as casas, os costumes, e a gente que era dantes...{35}

[II
A Feiticeira]

{36}
{37}

[A FEITICEIRA]

«La peur qui met dans les chemins
Des personnages surhumains
La peur aux invisibles mains qui revet l'arbre
D'une carcasse ou d'un linceul
Qui fait trembler comme un aïeul
Et qui vous rend, quand on est seul,
Blanc comme un marbre.»

MAURICE ROLLINAT.

De todos os rapazes da aldeia era o Manoel da Clara o mais querido das raparigas.

Fôra sempre um belo rapaz de afugentar rivais, mas, desde que viera da tropa e de lá trouxera aquelle ar desdenhoso de feliz D. João, aprendido no convivio dos camaradas presunçósos e mulheres de vida airada, parece que as enlouquecia.

Acostumado a ajustar a farda, como apertava bem a cinta de lã preta ou carmezim, que parecia trazer espartilho, o démo do rapaz!{38}

Os sapatos com o lustro bem puxado, que pareciam de verniz; o chapéo garbosamente descahido sobre a esquerda; a ponta do cigarro atraz da orelha; e o lenço, com flôres e uma legenda bordadas a côres vivas, a sahir da pequena algibeira da jaqueta, as mais das vezes levada ao hombro; o Manoel era na verdade a nata da rapaziada do logar.

No meio dos outros, com as suas caras rapadas de lôrpas, valentes mas sem a elegancia dos gestos disciplinados pelo exercicio regular, o seu pequeno bigode de cidadão retorcia-se aos domingos com uma petulancia irresistivel.

Nas feiras e romarias, firmado no varapau metido debaixo do braço, toda a vaidade satisfeita a brilhar-lhe nos inquietos olhitos garços, desafiava toda a concorrencia desagradavel. Ás raparigas iam-se-lhes os olhos nelle, e mediam-se com o rancôr de rivalidades latentes.

E valentão!?—como aquilo poucos! E, como sempre, era a superioridade material da força e da coragem o que mais o fazia valer aos olhos de primitivas femeas, oferecendo-se orgulhosamente ao vencedor, ao macho forte e soberbo.

Quando o Manoel, com um rapido piparote atirava para a nuca o chapéo móle de largas{39} abas, dava um passo atraz, fazia girar o varapau em sarilho sobre a cabeça, e torcia a bôca espumante num esgare de raiva... podiam fugir delle!

Contavam-se na aldeia as valentias do Manoel com o mesmo entusiasmo e ufanía com que se contariam as de um heroi da historia, um heroi autêntico, de que a tradição nos deixasse o nome e a memoria de largos feitos.

Uma vez era todo o povo de Infias que se juntara para o desafiar, raivosos por uma questão de mulheres de que o Manoel era afortunado protogonista, e que elle enfiara pela serra abaixo—que até parecia que o vento os levava.

«Ó Manoel, lembras-te?...

«E daquella vez na romaria da Senhora dos Verdes?...

«E na feira, quando foi da compra dos meus bois?!...

As perguntas, as respostas, as diferentes versões e comentarios, envolviam o Manoel num côro de louvôres, que elle recebia mal disfarçando a vaidade num meio sorriso modesto emquanto ia enrolando o cigarro entre os dedos fortes onde brilhava um anel de cobra, o encanto e a inveja dos mais rapazes.{40}

No jogo da bola, ao domingo, no terreiro da igreja, nenhum o excedia, como ninguem era capaz de o vencer numa partida de chinquilho ou no jogo do pau. Um valentão, um rapaz ás direitas, sempre pronto a fazer um favôr, riso franco, coração nas mãos para os amigos; ninguem emfim mais digno da estima dos seus patricios e ninguem que de facto fosse mais estimado do que o Manoel da Clara.

Álêm de todos estes merecimentos fisicos, que o superiorisavam, ainda era senhor de algumas belgas, e unico herdeiro da meação da mãe, a viuva do Rezadeira, que ajuntara o seu peculiosito na casa dos fidalgos. E era uma mulher de trabalho, a velha Clara do Rezadeira, que só tinha olhos e coração para o filho, o seu enlevo e orgulho. Primeiro do que ninguem, como o galo da manhã, saltava da cama, onde a asfixia dum coração emperrado mal a deixava socegar, e começava a labuta de todos os dias: amassando o pão, chegando ao forno a prevenir a forneira, cosinhando a vianda para os cevados, chamando a gente para o trabalho, despachando serviço, ralhando com um, combinando com outro, e sem nunca perder de vista a panela onde se cosiam as batatas para o caldo verde que o seu Manoel havia de comer antes de sahir,{41} na sua tigela bem meada de brôa. Mal elle aparecia, ainda espreguiçando-se e os olhos mal abertos mas já risonho e feliz como soberano que se julga crédor de todos os afétos e homenagens, a vélhota aprontava tudo num ápice, rindo e ralhando num visivel contentamento de quem se revia no rapagão, que era o seu filho.

É claro que não havia rapariga na aldeia e arredores á qual não agradasse a ideia de poder vir a sêr a mulher estimada do Manoel, a senhora do seu coração e do rico bragal de linho que a velha mãe guardava avaramente nos grandes arcazes de madeira de fóra, grossamente chapeados de ferro.

Elle ria-se com todas, o patife, querendo gosar o mais possivel a sua situação de desejado, sem até ahi mostrar preferencias comprometedoras por nenhuma.

Mas, entre todas, havia duas que nos últimos tempos mais preocupavam o Manoel, com grande contentamento da mãe que ansiava por o vêr casado com rapariga que fosse do seu calhar:—só assim morreria descansada, pois uma cabeça alevantada como a delle precisava bem do arrimo duma bôa mulher de trabalho.

Por felicidade, as duas raparigas que o Manoel trazia debaixo de vista agradavam{42} por igual á velha Clara—assim tinha liberdade para á vontade consultar o coração.

Uma, Maria Tereza—a Terezinha, como lhe chamava quando acertava de a topar no seu caminho—era afilhada da fidalga e lá pelo palacio se tinha criado com mimos e delicadezas que as outras não conheciam. Era com uma graça toda senhoril que punha os olhos no chão e enrubecia como romã bem madura quando elle a fitava de frente, bem de frente, como fazia ás mais, sem conseguir com isso chamar-lhes o sangue ao rosto, mas fazê-las explodir em jocundas gargalhadas. O seu andar lento e ondulado dava um realce de elegancia exotica ao seu corpo delgado de anemica, flôr tristemente desabrochada entre paredes sombrias e velhas coisas impregnadas da melancolia dos tempos passados. Como era a unica que na terra sabia lêr, eram tambem os seus os unicos olhos que na missa se não levantavam do livro para andarem em leilão pela igreja á procura dos rapazes, que lá de longe, e de soslaio, não perdiam o grupo buliçoso da raparigada.

A madrinha queria-lhe muito, era o que todos afirmavam, e se não tivesse morrido nem a Terezinha sahia do palacio, onde era respeitada como filha da casa, e, talvez, se a morte não fosse repentina, tivesse ficado{43} senhora daquella fortuna, quem sabe!?... Tem-se visto coisas mais raras. E melhor teria sido para a terra, pois a casa dos fidalgos, que fôra sempre abrigo de miseraveis como consolação de desgraçados, mal a senhora morgada fechara os olhos fechara-se tambem á pobreza, com uma crueldade que revoltava toda a gente.

Os herdeiros, uns primos em último gráu legal, souberam da sua morte sem testamento e acorreram de Lisbôa em marchas forçadas. Mas, tudo liquidado á pressa, apartaram gulosamente, para figurarem nos salões da capital, as preciosidades que enchiam e decoravam o velho solar. Durante alguns dias não se ouviu senão o martelar dos carpinteiros fazendo e pregando caixotes e não se via senão a moderna condessinha, muito prática em antiqualhas preciosas, abrir portas e armarios, percorrer os salões e os sotãos, dar volta ás paredes e ás bojudas cómodas de floreados embutidos, que seguiram com os candelabros, as joias, os quadros e os Sèvres ricos como os incontaveis Chinas para o sorvedoiro de Lisbôa. Depois, mal o Conde, com o seu ar mais chic de fadiga, deu por terminadas as contas e entregues as propriedades ao feitôr trazido das lezirias ribatejanas como pessôa de inteira confiança, fugiram atemorizados{44} pela tristeza pesada e humida que resumbrava o casarão quasi deshabitado havia anos, desde que a fidalga se tolhêra de todo e passava os dias nos aposentos mais ensoalhados onde fizera a sua habitação e a da Terezinha, que lhe lia os autôres predilétos e a arrastava na cadeira de rodas pelas ruas ensombradas pelos buxos seculares do jardim.

Verdade seja que a Senhora Condessa, sabendo o amôr que a velha prima dedicava á afilhada e a docilidade e o desinteresse com que ella a servira e cuidara até ao fim, ofereceu-lhe o logar de sua criada de quarto e obrigou o marido a pôr em seu nome algumas propriedades arredadas ou a arbitrar-lhe o seu valôr em dinheiro, coisa duns cem mil réis, para os seus alfinetes, o que a tornaria na aldeia uma pequena morgada.

A Terezinha agradeceu cheia de reconhecimento a generosa munificencia da condessinha, a quem serviu, como ella nunca fôra servida, até á última hora que se demorou no palacio. Depois, quando se viu fóra do ninho onde a sua alma se emplumara e o seu corpinho debil de criança pobre crescêra e se tornara de mulher perfeita, sentiu-se como que isolada num vasto campo deserto.

Mas, séria e ponderada como era, tomou logo a mais acertada resolução: indo viver{45} com a tia, a Zéfa do Padre, uma que fazia belos dôces e fôra por muitos anos ama do velho abade. E para encher os dias, tão longos agora quanto lhe pareciam pequenos dantes a rodear de cuidados a madrinha paralitica, metêra-se a tecedeira. Em breve era a melhor, sem favôr, que havia na terra.

O seu tear, no monotono bater do pedal e correr da lançadeira, só parava aos domingos e algumas horas da noite.

Aquella vida de reclusão mais lhe amaciava a pele e dava um tom ligeiramente empalidecido ás suas feições miudas.

—«Mas era alegre dantes!... Agora, dês que o Manél da Clara veiu de soldado e entrou de atentar nella, é que de mais em mais se vai definhando, que nem já parece a mesma. Louvado seja Deus, que só trabalhos e desgostos me chegam pró fim da vida.

Dizia isto a Zéfa do Padre á Gertrudes Zarôlha, velha conhecida dos longinquos tempos da mocidade, assentadas á porta, com a roca á cinta e o fuso girando e torcendo o linho cuspinhado pelas suas bôcas palreiras.

—«Mas então aquelle desaustinado não diz nada cá á nossa cachopa?!...

—«Qual historia! Que eu saiba, ainda não lhe disse fala pró bem nem pró mal.{46}

—«Que desaforado! O que elle precisava sei eu!... Uma rapariga como a nossa Terezinha!... Crédo, santo nome de Jesus! Mal empregada é ella para tal libertino, que veiu mesmo perdido da tropa!...

—«Lá isso, ó Gertrudes, mau rapaz não é elle, e tem o seu bocadinho...

—«Ah, mas tem uma cabeça mais leve! No nosso tempo parece que não eram assim, ó Senhora Zéfa! Quando algum pretendia duma rapariga, dizia-lho, e estava acabado, iam prá igreja os banhos!...

—«Ora, eu sei lá! Haveria de tudo. Estas coisas esquecem muito, e o nosso tempo já lá vai ha tanto!...

—«Ai eu cá lembra-me perfeitamente, que o meu home assim fez. Foi até numa cava; calhou eu ficar ao pé delle, e fômos ao desafio. Como eu é que ganhei, elle então deu-me um abraço muito grande e disse-me assim:—Ó Gertrudes, és uma mulher duma cana; ámanhã se tu quizeres vou falar ao senhor abade e vame-nos a botar os pregões. E assim é que foi...

—«E eu que ainda me lembra do senhor abade vir p'ra casa a rir muito e a contar o caso á minha tia—que Deus haja! Ainda ella então andava rija e féra, coitadinha.

—«Mas vocemecê já lá estava, pois não estava?{47}

—«Pois estava, desde a idade de oito anos que fui p'rá companhia da minha tia até á idade dos cincoenta em que aquelle santo rendeu a alma a Deus! Ficou-me nos braços...

—«Coitadinho! Tão bom homem, tão sério, era como o nosso pai de todos. Veja lá se tudo não vai a peor! Olhe-me para o desatino em que este anda por ahi, com as raparigas e as mulheres dônas de sua casa, atraz, sempre em cantorias, e em rezas novas, que nem podem agradar a Nosso Senhor...

—«Já o dizia o senhor abade: a religião deve sêr a consolação da nossa vida e não o seu unico fim. Mas essa jesuitada entrou por toda a parte com este rapazelho do seminario—e bem mal têm já feito e hão de fazer ás familias!... O senhor abade bem dizia, bem dizia... E bastantes desgostos teve nos últimos tempos, que lhe amarguraram o resto dos dias... Coitadinho! Assim Deus lhes perdôe, que eu não posso tragá-los. Até me custa ouvir a missa daquelle avejão—Deus me perdoe se péco!

—«E o que me diz ás amizades delle com os feitôres da fidalga?! Ella toda trinques, caminho da missa logo de madrugada; as filhas de güelas abertas com as tais onzenices de cantorias na igreja, e mais florinhas p'rá{48} qui, e mais rendinhas novas nas toalhas do altar, confissão a cada passo... Eu nem sei, eu nem sei!...

—«E o marido? Vocemecê hade ouvir alguma coisa—está ali á beirinha da casa...

—«Ora o marido!... Tambem gosta muito daquellas coisas, e reza e canta e leva o padre p'ra casa a jantar e a tomar o chá, as mais das vezes.

—«Eia!—vivem como fidalgos!

—«Aquelles grandes excomungados! No tempo da fidalga, graças a Deus ninguem batia áquella porta com fome que não trouxesse uma consolaçãosinha; agora nem um chavo! Tudo querem para elles, aquelles ladrões!... Parece que ainda estou a vêr a Terezinha ir a correr contar á fidalga e vir logo com uma abada de pão ou de fruta, ou umas batatinhas, ou uma tigelinha de papas e o bocadinho de carne!...

—«Pobre Terezinha, tão mimosa foi da madrinha e agora tão triste a vejo!

—«Mas aquelle maroto não lhe dizer nada é o que me dá no gôto!...

—«Elle passa por ahi ás tardes, e ri-se para ella... Quando vai a alguma romaria sempre lhe traz uma prenda e um cravo com um verso bem calhante, mas nada mais! Ella então é uma tôla pelo rapaz! Mas quando{49} o vê faz-se encarnada como um pimentão, põe os olhos baixos, e nem sequer o salva.

—«Ora essa! Tem sua graça, tem!

—«Eu nem posso explicar isto. Que a minha Tereza—não é por sêr minha sobrinha—não é de engeitar... é a melhor cachopa cá da terra.

—«Ora isso, nem se fala! Compara-se lá! Basta saber lêr e têr a inducação que teve. É a flôrsinha da nossa vila.

—«Pois isto dá-me cuidado, dá! E não é pouco... A pequena só me tem a mim no mundo, e eu estou velha e cansada; queria-a vêr arrumada antes de fechar os olhos. E com o Manél da Clara do Rezadeira gostava, lá isso gostava: a mãe é rapariga do nosso tempo, e elle tem alguma coisa de seu, e no fundo não é mau rapaz. Mas então!... Parece bruxaria.

—«Ai senhora Zéfa, não pônha mais na carta. Isso hade sêr, hade! E não é mais nada senão coisas daquella atrevida da Maria do Próspero! Aquilo sempre fôram de má raça. Até o pai... hade saber! Não?! Pois eu lho conto. Crédo, santo nome de Jesus! Cada vez que me lembra até os cabelos se me põem em pé. O que aquelle malvado disse de mim, que sempre entrei em casa da fidalga, que Deus tem, com toda a franqueza!...

—«O que foi então?{50}

—«Ai não sabe?! Aquele grande diacho, Deus me perdôe! Então não disse elle que eu é que chupara o morgadinho, o filho da senhora fidalga!? Aquella aventesma!... Nem que eu não soubesse!... Bom, calo-me, que é melhor...

E mudando de tom, muito confidencial e amigavel:

—«Posso dizer-lhe de certeza: a Maria do Próspero conversa com o Manél e parece que o traz enfeitiçado. Olhe que lhe ouvi eu dizer—que primeiro estava ella, que já o namorava ha muitos anos, ainda antes de elle ir para a tropa, e que nunca a lesma da Terezinha o havia de apanhar! Desculpe, senhora Zéfa, aquilo é uma atrevida, uma doida!... Pois de que raça ella é!...

—«E o que é certo é que vai levando ávante o seu intento; tem artes do demonio!...

—«Deixe estar, deixe estar... Eu sei cá umas coisinhas que hãode voltar o Manél, oh se hãode!... Assim eu tivesse uma coisa que lhe pertencesse... Coisa de vestir era melhor... Punha-lhe a pedra de ara e dizia a oração... É coisa certa.

—«A Terezinha tem um lenço que elle lhe deu, mas fosse lá falar-lhe nisso!... Toda se zangava, não acredita nestas coisas...

—«Pois são bem verdadeiras...{51}

—«O outro dia ensinei-lhe que cruzasse as pernas mesmo de pé quando a atrevida da Maria passar por ella... Desatou a rir!

—«Ah, isso é uma coisa certa para livrar do mau olhado de quem nos quer mal. Sabe o que era muito bom? Era fazer á pequena um defumadoiro com hervas colhidas na manhã de S. João... É o alecrim, o funcho, a dedaleira, o rosmaninho, o sabugueiro... Se quizer, eu tenho lá.

—«Muito obrigada. Assim ella quizesse!... Bem se fazia um defumadoiro que a livrasse daquelle enguiço.

Assim continuaram em conversa larga, cheia de combinações e reticencias, que muito as interessava, emquanto a Terezinha dentro de casa trabalhava na teia branca, que parecia sempre a mesma, eterna como as suas máguas.

O tear monotonamente fazia subir e descer os pentes com um barulho sêco e igual, emquanto ella levantava a sua vózinha agradavel de soprano numa toada melancolica:

—«Eu heide amar uma pedra,
Deixar o teu coração;
Uma pedra não me deixa,
Deixas-me tu sem razão».

E ao dizer a quadra, que parecia sahir-lhe do proprio coração, os olhos enturvecidos de{52} lagrimas fitavam a estampa ingenua que elle lhe trouxera da Senhora do Castelo, a grande romaria de setembro.

Todos os anos lá ia—era o costume—e tambem a Maria do Próspero, que punha nos ranchos um contínuo esfusiar de gargalhadas terçando galhardamente com os mais afamados piadistas as armas perigosas da chalaça e da resposta á letra.

Cantavam ao desafio, ella e o Manoel. Tinham fama por todas aquellas redondezas, e, mal as suas vozes se trocavam num principio de duelo, os auditores cercavam-nos e apertavam-nos num círculo de admiração excitando-os com risos e ápartes.

Tambem era o par certo em todas as romarias—talhados um para o outro!

A Maria era alta e desempenada! A sua tez, dum moreno intenso, fôra brunida pelas soalheiras ardentes e curtida pelas ventanias agrestes. A bôca, sempre aberta em riso, era vermelha e fresca como cerejas maduras, e os dentes brancos e agudos cravavam-se com delicia no pão de milho, sua unica escôva.

As saias, rodadas em balão, faziam-lhe mais altas as ancas já de si redondas e fortes; o cabelo, em duas tranças pregadas, enchia-lhe a cabeça como uma touca de veludo negro.{53}

Quando punha o cáchené vermelho e amarelo de grandes ramagens verdes, o chale em bico traçado deixando livre o braço esquerdo, a chinela branca pespontada na ponta do pé, nenhuma como a Maria do Próspero para arrebanhar admiradores.

Depois, sempre satisfeita, radiava em plena expansão dos seus vinte anos sadios, vividos em plena natureza.

Nas ceifas, ao ardôr dos sóes caniculares, mangas arregaçadas mostrando os braços trigueiros e musculosos; ou no gesto mecânico de juntar as paveias e sobraçar os mólhos, tinha a harmonia escultural e grave duma Céres fecunda.

Nas vindimas, era a primeira dos ranchos, vermelha do môsto que corre como sangue generoso, a bôca escancarada em risos e cantigas... Tinha um aspecto quasi tragico e uma beleza perturbante e assustadora de bacante.

Pela apânha da azeitona, quando os campos amanhecem brancos da geada que toda a noite cahira manso e manso, tudo uniformisando sob a sua alvura de sudario, e o frio corta as mãos, que se engatinham, e entorpece os dedos que mal se podem dobrar, ella motejava de todos, sempre na frente, cantarolando e rindo, enchendo de ânimo os mais desanimados,{54} encorajando os mais entanguecidos pela friagem.

Sempre pronta para o trabalho, a Próspera, em todas as sáfaras e com todos os tempos!

Mas, tambem, não faltava ás romarias e ás feiras das cercanias, com o seu lenço berrante, o casaquito branco engomado a capricho, e a sua alegria saudavel, que fazia bem vêr.

O Manoel não resistia áquella força que chamava a sua força, áquella exuberancia de mocidade que atrahia a sua mocidade. Quando a via, nem sequer pensava na Terezinha, que se ia finando lentamente ao compasso triste e monotono do seu tear caseiro.

E, no fim de contas, para falar a verdade, a Maria era tambem uma bôa rapariga, que nunca tivera outro conversado. Nem havia lingua danáda de velha de soalheiro que se atrevesse a debicar nos seus créditos. Alegre, sim; rir com todos, vá! Mas atrevimentos não os consentia a ninguem. E tinham-lhe respeito—que a sua mão era lésta, e um sopapo da Próspera não era brincadeira!

Só o Manoel gosava da sua confiança e só com elle tinha as suas graças e brincalhotices mais livres, o que mais o afervorava naquelle amôr crescente que o ia conquistando dia a dia.{55}

Á noite, nas esfolhadas, quando o luar é môrno e as flôres têm um perfume mais intenso, corriam um atraz do outro, batiam-se fortemente, e cahiam ás vezes sobre a palha ainda quente do sol, com um cheiro sêco que entontece.

As gargalhadas seguiam-nos de todos os lados da eira, as chalaças cruzavam-se no ar como morcegos de pesado e estonteado bater de azas:—Eh lá, Maria, vê se tens mais força do que elle! Isso é que era um riso, o valentão deixar-se bater por uma mulher!...

—«Talhados um para o outro—isso é que não havia dúvida, nenhuma!

—«A Zéfa do Padre que se deixasse de querer casar a sobrinha com o Manoel.

—«Bôa rapariga, lá sobre isso não havia duas opiniões; mas a Maria é que estava a calhar para um homem de trabalho, uma mocetona daquellas que era capaz de voltar um campo sósinha.

Os homens votavam pela Maria, bela mulher para tudo e forte como uma torre. As mulheres, essas eram pela Terezinha, delicada e amavel, pondo sorrisos de aquiescencia onde a outra só tinha ruidosas gargalhadas de troça.

Era ella que lhes talhava e cosia á máquina, sem paga, as chitas pobres, mas apesar disso tão dificilmente compradas, e lhes ajustava os{56} coletes de linho grosso que tão irmanados lhes erguiam os seios até á raís do cólo:—«Ora, sempre era outra loiça! Podia lá comparar-se! Bem se via que tivera outra criação, lá em casa da fidalga, que a tratara como filha.

—«Que elle gostasse della, vá! Agora da Maria, uma cachopa como as outras!...

O Manoel, ainda indeciso, mas já a inclinar-se para a Maria, irritava as mulheres que se ofendiam com a insolente alegria da rapariga, que andava radiante com o seu ar de triunfo certo.

A velha Gertrudes Zarôlha vivia sobre brazas, nos últimos tempos.

Com meias palavras ou redundancias enigmaticas conseguia sobresaltar o coração do rapaz, mas não desviá-lo duma paixão que se harmonisava inteiramente com o seu modo de sêr moral e fisico.

—«Casar com a Maria—dizia a velha á bôca cheia—era até um pecado!...—e benzia-se com gestos de apavorada, que não explicava mas punha de sobre-aviso as consciencias timoratas.

Por uma noite de verão, sinistra pelo negrume de nuvens carregadas de eletricidade e prometedoras de fortes aguaceiros que toldavam{57} o céo, voltava o Manoel da Clara da vila proxima onde assistira á feira.

Um calôr asfixiante pesava como chumbo no abandono pungente da paisagen lugubre. Os pinheiros esguios tinham um murmurio mais triste e vago, como soluços suspensos de almas em pânico, e o olival verde negro destacava-se no fundo, apertando como num cilicio doloroso a pobre terra que se dependura de fraguedos rudes, sempre ameaçada pela montanha que a cavalga e lhe limita o horizonte, cortando-lhe toda a esperança de se expandir por ali, como o pecado véla e corta toda a esperança da alma piedosa...

O Manoel, que tinha ficado um pouco para tarde, conversando com uns amigos na taberna do Geitoso, vinha assobiando alegremente, caminhando despreocupado e sem grande pressa.

Ao passar pela Fonte do Inferno... diabo!... que ouviu elle?! Um rumôr confuso de gargalhadas, que aflavam no ar como grasnar longinquo de corvos...

Mêdo?.... Elle não tinha mêdo, mas desde que acontecera aquella historia da casa dos Carneiros... Crédo! Abrenuncio!

—E não se benzeu, o Manoel, como lhe cumpria fazer, ao lembrar-se de coisas daquellas!... A tropa é que estraga os rapazes, está visto...{58}

Agora, as gargalhadas já soavam mais perto... diria mesmo que ouvia a Maria do Próspero.

—Mas naquelle sitio, áquella hora!... Quem se atreveria?!...

—Em casa dos Carneiros,—lembrava-se involuntariamente—aquelle barulho de cadeias a arrastar, os ferros em braza que vinham cahir aos pés da gente da familia, o vozear sinistro que se escutava em toda a aldeia e trazia apavorados os mais valentes... Deus do céo, que terror fôra na terra toda! Já ninguem dormia nem descansava. Muitas mulheres tiveram então espiritos que os padres e os bentos esconjuravam, e se batiam com elles como forças iguais.

—Só depois que o senhor Vigario velho se resolveu a sahir, de capa de asperges, para benzer a casa endemoninhada, é que tudo socegou...

O Manoel já não assobiava, e ia olhando de soslaio para o Camborço, pedraria escalvada suspensa por milagre sobre o abismo e que a toda a hora parece desabar e soterrar as pobres casas de pedra solta tisnadas pelo tempo.

Um ventito picado e quente levantou-se então, trazendo o rumôr distinto de vozes, gritos surdos e gargalhadas abafadas...{59}

O Manoel era destemido; apesar da má fama do sitio, tido como logar de maleficas reuniões diabolicas, resolveu-se a transpôr o pequeno muro que separava o caminho da Fonte do Inferno, a propriedade de mais estimação dos velhos fidalgos.

Primeiro, não viu nada; depois, vaga e confusamente, luzinhas que saltavam e atravessavam-se corriam e perseguiam-se, juntavam-se e tornavam a afastar-se...

Um calafrio lhe percorreu o corpo e sentiu na espinha dorsal uma sensação desagradavel que o fez tremer. O Manoel era valente,—nisso não podia haver dúvida!—mas é que aquilo que via tão realmente como se á luz do sol olhasse as suas proprias mãos eram as feiticeiras, tal qual a sua mãe as tinha visto tambem quando em pequenino esteve ameaçado de sêr chupado por ellas...

Entre curioso e medroso—já agora não sahiria dali sem vêr o que aquilo era.

Acercou-se da eira onde a ronda sinistra era mais febril...—Jesus, que coisa horrivel!—Olharapos corriam vertiginosamente, que mais pareciam voar, na noite negra, com o seu unico olho flamejante no meio da testa, lanterna magica das profundezas do averno!...

Um lobis-homem passou a galope, no seu fado triste, procurando alma christã á qual{60} podesse, antes da meia-noite, entregar a sua cruz martirisante. Se elle o tivesse topado!... Até os cabelos se lhe punham de pé.

As luzinhas continuavam correndo alígeras, voando na escuridão dura da noite.

Surrateiramente foi-se aproximando da eira onde chamejavam em halucinado rodopio... A pouco e pouco ia-as distinguindo na sua fórma humana, girando buliçosas e gárrulas.

No meio da roda—cruzes! como podia aquilo sêr?!...—o Diabo passeando altivo, vestido de encarnado e de chapéo guisalhante, poisando os pés de forquilha sobre as cabeças das feiticeiras, que riam sarcasticamente.

Dessa vez o Manoel não poude deixar de rir, tão patusca lhe pareceu a cêna.

Ah! mas quando elle viu com os seus proprios olhos—tão certo como haver a luz do sol que nos alumia!—adiantar-se uma das luzinhas e, tornando rapidamente á sua figura de mulher, aparecer-lhe a Maria do Próspero, tal qual ella!... E quando a viu chegar ao pé do homem vermelho, estender-lhe os fortes braços roliços e trigueiros, abraçá-lo com ardôr, não poude retêr um surdo grito de raiva.

Aquelles braços, que só o pensar nelles lhe fazia febre; aquella mulher, que o trazia prêso havia tanto tempo e com a sua honestidade{61} alegre e simples conseguira o seu respeito e o seu amôr, estava ali em frente delle abraçando outro! E esse outro—Deus do céo, que até a sua alma tremia!—esse outro era o proprio Diabo em pessôa!

Tremia de desespero e horror por essa criatura, que não passava afinal duma feiticeira.

Uma tremura nervosa e um frio de gelo o faziam vibrar todo. O sangue subia-lhe á cabeça, punha-lhe zoeiras nos ouvidos, halucinando-o.

As luzitas recomeçaram a dansa, numa farandola de sabbat, correndo e saltando, num delirio de gargalhadas frias como entre-chocar de ossos numa dansa macabra.

Ao Manoel parecia-lhe que tudo dansava á volta delle, que elle mesmo se sentia voar num rodopio de entontecer. Agora o Diabo, sentado num trôno luminoso de feiticeiras, os pés de bode torcidos e negros a descansar sobre o formoso corpo de Maria, como se fosse um estrado, lia um grande livro de capas encarnadas. A cada folha que voltava, sahia uma nuvem de diabitos fantasticos, saltitantes, folgazões como garôtos ao sahir da escola, que iam juntar-se ás feiticeiras, e tudo corria, voava, num cabriolar estonteante e doido.

Uma das luzes aproximou-se então do Manoel, que ficara empedrado na contemplação{62} da cêna que o atordoava e lhe tirava toda a sensação da vida, e rapidamente se fez mulher. Ficou boquiaberto, pois a bruxa era nem mais nem menos do que a Gertrudes Zarôlha, a velha amiga e confidente da Zéfa do Padre.

Se tivesse pensado melhor não se teria espantado tanto, pois essa era tida e havida por tal desde que o compadre Marques, o alfaiate, a encontrara feita galinha, lá para as bandas da vila, arrastando após si uma ninhada de frangas, as discipulas que ia exercitando pela noite alta. Admirou-se:—uma galinha tão tarde fóra da capoeira!?—e dando-lhe com o metro partiu-lhe uma aza. Logo a Gertrudes tornou á sua fórma natural e lhe pediu que se calasse, pois em paga do seu silencio lhe daria todos os anos uma camisa nova.

Mas o que é certo é que toda a gente soube do caso, sob segredo, e elle nem por isso deixou de receber anualmente a bôa camisa de pano de linho.

A Gertrudes quedou-se diante do Manoel: feia e engelhada, a bôca vasia de dentes, o cabelo esbranquiçado e crespo a fugir do lenço de chita, uma cavidade vermelha no logar do olho direito perdido não se sabia por que desastre.{63}

—«Ai, Manoel, pobre rapaz, desgraçado!... Se o Senhor te visse, estavas perdido neste mundo e no outro!...

Elle olhava-a emparvecido, numa confusão labirintica de ideias, que não explicava nem compreendia.

—«Ouves, Manoel?—continuava a velha bruxa.—Eu sou tua amiga, não te quero vêr perdido. Olha, escuta, toma sentido no que te vou dizer: O Senhor vai perguntar quem corre mais, para lhe entregar a caldeirinha que veiu hôje do inferno para a nossa missa. Tu hasde dizer que corres como o pensamento, agarra nella, e foge. Corre quanto podéres! Só estarás em segurança agarrado á corda do sino da igreja, depois do galo preto romano cantar pela terceira vez depois da meia-noite. Corre, corre quanto podéres, e livra-te de olhares para traz, oiças o que ouvires, sintas o que sentires. Ainda que te chamem pelo teu nome, não olhes nem páres,—olha que depende dahi a tua salvação e a tua vida!

Afastou-se saltitando, outra vez luzinha, a misturar-se com as outras na dansa macabra.

O Manoel ficou estarrecido, mas o proprio mêdo lhe deu energia bastante para responder com segurança á pergunta que o homem vermelho{64} fazia em voz tão formidavel e soturna que toda a natureza estremeceu de pavôr e os corvos no visinho cemiterio grasnaram agoirentamente.

Tendo gritado, no meio de vozearia geral, como lhe ensinara a Gertrudes Zarôlha,—«corro como o pensamento!»—agarrou na caldeirinha magica que estava no meio da roda e desatou a correr com quanta força tinha, em diréção á igreja, cujo campanario singelo donde pendia a corda do sino era agora a sua unica esperança de salvamento.

Mas, fosse porque o conhecessem pelo andar ou fosse por penetração diabolica e subtil, o que é certo é que, logo que voltou costas, uma grita ensurdecedora lhe chegou aos ouvidos. Sentiu-se perseguido por toda uma canalha de demonios, fúrias vêsgas e feiticeiras esguedelhadas, pequeninos trasgos e enormes gigantes, que ardendo em sêde do seu sangue e da sua alma christã lhe corriam no encalço.

Via-se quasi perdido, sentia-se quasi agarrado por enormes braços descarnados e com unhas aduncas e enclavinhadas, que se lhe cravavam na carne como tenazes... Chamavam-no pelo seu nome, ouvia coisas pânicas, e ora o insultavam com palavras que se desprendiam como pedradas de funda, ora o seduziam com promessas tentadoras.{65}

E dizia mesmo que essas vozes sedutôras, que se misturavam ás outras brutais e agressivas, eram ditas pela bôca vermelha e fresca da Maria...

Mas, fiel á recomendação da Gertrudes, corria numa ânsia ofegante, num desespero de loucura. Na cabeça enfebrecida duas unicas ideias se lhe espetavam, como navalhas agudas:—a Próspera abraçando o Senhor, como lhe chamara a Zarôlha, e o campanario humilde onde estava a sua salvação.

Não compreendia nem via mais nada, e nada mais lhe interessava no mundo. Mas chegaria a tempo de poder agarrar a corda do sino antes do galo preto romano cantar pela terceira vez á meia-noite?!...

Já as pernas lhe fraquejavam, a cabeça andava-lhe á roda, e os gritos satanicos, que mais e mais se avisinhavam, davam-lhe a certeza do seu triste fim, se não conseguisse chegar.

Mas já estava perto—num último arranco, estava salvo!

Se fosse vinte passos mais longe não poderia resistir. Quando deitou a mão á corda do sino, que deu na noite negra uma badalada lugubre, o galo preto romano soltava pela terceira vez a sua voz clara e sonora de espancar visões e pesadelos.{66}

Um gargalhar surdo e um rumôr de maldições e pragas perderam-se no ar, emquanto o Manoel cahia pesadamente no chão, agarrado ainda á corda do sino que tremia nas suas mãos crispadas. Ao lado tombara a caldeirinha tilintando numa vózita escarnicadora.

Para quem duvide do caso, lá está ella na igreja matriz, da pequena terra triste, cortada na rocha bruta, estrangulada entre pinhais melancolicos e oliveiras de folhagem eternamente sombria.

Lá anda ella, cheia de agua benta, tilintando sempre a sua vózinha escarnecedora e fantastica, acompanhando enterros de cavadores tisnados que na terra encontram o seu unico repouso, e criancinhas frageis que vão para o céo aspergidas com a agua benta da caldeirinha infernal...

Lá anda, muito serena, orgulhosa do seu metal desconhecido forjado nas profundezas ardentes do mundo sobrenatural, a acompanhar o senhor vigario na visita anual em dia de Páscoa alegre e florída:—«Bôas festas, bôas festas, santas festas!, sorri no seu arzinho petulante.

De madrugada, quando os homens iam para o trabalho, encontraram o Manoel ainda desmaiado,{67} agarrando-se á corda do sino como naúfrago a táboa salvadora.

Levaram-no para casa, alvorotando toda a vila com o extraordinario caso. A Clara de Rezadeira,—coitada!—mal viu o filho, o seu Manoel, estendido como um cadaver sobre o leito de cabeceiras embutidas, para onde os homens o atiraram já cansados da caminhada com semelhante pêso, ia morrendo tambem, sufocada pelo sangue cujos impetos o pobre coração mal podia regular.

Mas o mestre barbeiro afiançou a cura para breve, dando uma picadélasita no braço do rapaz—que era de humôr muito quente, e apanhara algum golpe de sol lá pela feira.

A febre sobreveiu e teve-o entre a vida e a morte, dias e noites ardendo num fogo de que o delirio e a agitação eram o corolario logico. O que elle via, os sonhos e os pesadelos que lhe enchiam a pobre cabeça enfebrecida, mal o compreendiam os seus enfermeiros. E todo aquelle mal se agravava e a agitação chegava ao delirio furioso dum louco se por acaso a Maria do Próspero chegava á porta, a pedir noticias ou a querer ajudar a tia Clara nos arranjos domesticos.

Ninguem podia compreender tal horror á rapariga, nem ella, que se consumia e chorava{68} sem consolação por vêr a mudança brusca do seu Manoel.

Quando se levantou estava pálido, cambaleava, e uma tristeza profundissima lhe encovava os olhos.

No primeiro dia em que sahiu, o seu cuidado foi logo ir procurar a Gertrudes Zarôlha, que encontrou sentada á porta da casa, fiando e conversando com o gato preto gordo e pesado, seu unico companheiro e amigo.

O Manoel não esteve com ceremonias, foi direito ao fim. Contou á velha tudo quanto tinha visto na Fonte do Inferno quando viera tarde da feira, e exigiu explicações completas sob a ameaça duma sóva se ella não quizesse dizer a verdade.

Ao principio a Gertrudes indignou-se, pôs as mãos no peito, jurou a sua inocencia e negou que fosse feiticeira.

—Na Fonte do inferno?!

—O Manoel que não sonhasse em tal—crédo! cruzes, canhoto! Fôra aquelle patife do Próspero que levantara aquella calúnia e dizia a quem o queria ouvir—que fôra ella quem chupara o filho da fidalga...

Mas o Manoel atalhou:—não negassse a Senhora Gertrudes; tinha-a elle visto, ora essa! Querer dizer-lhe que não era verdade uma coisa que elle mesmo vira, com aquelles{69} mesmos olhos que a terra havia de comer?!... Demais, não tinha nada com a sua vida nem o contaria a ninguem, pois até lhe estava muito agradecido por o têr ensinado a livrar-se de tamanho perigo. Agora o que queria saber era a verdade—sobre a Maria do Próspero. Seria ou não certo tê-la visto abraçar o Senhor?... Seria ou não certo o sêr ella feiticeira a valer?! Podia têr-se enganado... podia-a têr confundido com outra... Ás vezes, e como foi ao longe...

Era a última esperança, e a ella se agarrava com todo o afinco de quem não quer perder uma dôce ilusão.

E pensava, horrorisado, que aquilo poderia sêr verdade e teria que deixar de pensar na Maria, agora que a paixão por ella chegara ao halucinamento, hesitante entre o amôr e o odio.

Quanto daria para que a Gertrudes lhe désse a certeza de que os seus olhos o tinham iludido, quanto daria!... Tornar a têr na Maria a confiança que tinha dantes; podê-la levar para a sua casa, como ainda na vespera lhe dissera a mãe, que morria pela rapariga—tão trabalhadeira, tão desembaraçada e bôa... Não tinha nada, mas isso o que importava? Ella, a Clara do Rezadeira, não se importava nada com isso e aconselhava-lhe a que escolhesse{70} antes uma rapariga de trabalho do que uma com dinheiro, que nada vale quando dá em mãos que o não sabem guardar nem aumentar.

Como elle esquecia, evocando a formosa rapariga, a pálida Terezinha, que lentamente se ia definhando e morrendo aos poucos, ao compasso surdo e monotono do seu tear!...

Mas a Gertrudes foi impiedosa. A pouco e pouco começou a dizer tudo; primeiro timidamente, tenteando o assunto, depois entusiasmando-se, contando detalhes, dizendo coisas que arrepiavam e indignavam o Manoel.

Era certo e mais que certo sêr a Maria feiticeira! Havia pouco tempo que aprendera, mas já a consideravam das mais finas e das mais queridas do Senhor.

—O lobis-homem que tinha visto—mas isso em grande segredo, porque tinha medo de levar alguma sóva—era o Próspero velho. Andava com o fado ha tantos anos! Não tinha sorte nenhuma, coitado!

Que de historias lhe contou, e elle ouviu pasmado, vencido por aquella verdade irrefutavel:—a Maria era feiticeira!

A Gertrudes comentava com gestos curtos e vozes de confidencia:—Ora essa! De que se admirava? Sempre lhe dissera que não era mulher capaz para um homem de brio e de honra.{71}

Tinha-lhe odio, o odio implacavel das velhas criaturas despresiveis aos que têm a insolencia da alegria, da juventude e da beleza. E então, depois que a rapariga dissera numa sacha, entre as gargalhadas do rancho, que não queria estar ao pé della porque lhe podia dar quebranto ou chupá-la como fizera ao filho da fidalga, a Gertrudes não a podia tragar.