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and edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional Digital—http://bnd.bn.pt).

SONETOS

OS SONETOS COMPLETOS

DE

Anthero de Quental

publicados por

J. P. Oliveira Martins

PORTO
LIVRARIA PORTUENSE
DE

LOPES & C.^a—EDITORES

119, Rua do Almada, 123*

1886

PORTO

TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

Rua da Fabrica, 66

Escrevendo estas breves paginas á frente dos Sonetos de Anthero de Quental tenho a satisfação intima de cumprir o dever de tornar conhecida do publico a figura talvez mais caracteristica do mundo litterario portuguez, e decerto aquella sobre que a lenda mais tem trabalhado. Estou certo, absolutamente certo, de que este livro, embora sem écco no espirito vulgar que faz reputações e dá popularidade, ha-de encontrar um acolhimento amoroso em todas as almas de eleição, e durar emquanto houver corações afflictos, e emquanto se fallar a linguagem portugueza.

Procurarei, no que vou dizer, guardar para mim aquillo que ao publico não interessa: a viva amisade, a estreita communhão de sentimentos, o affecto quasi fraterno que ha perto de vinte annos nos une, ao poeta e ao seu critico de hoje, fazendo da vida de ambos como que uma unica alma, misturando invariavelmente as nossas breves alegrias, muitas vezes as nossas lagrimas, sempre as nossas dores e os nossos enthusiasmos ou o nosso desalento.

Discutindo em permanencia, discordando frequentemente, ralhando a miudo, zangando-nos ás vezes e abraçando-nos sempre: assim tem decorrido para nós perto de vinte annos. Mas o leitor é que nada tem que vêr com esses casos particulares, nem com o abraço que trocámos no dia em que primeiro nos conhecemos e que só terminará n'aquelle em que um de nós, ou ambos nós, formos descançar para sempre sob meia duzia de pás de terra fria.

I

Eu não conheço phisionomia mais difficil de desenhar, porque nunca vi natureza mais complexamente bem dotada. Se fosse possivel desdobrar um homem, como quem desdobra os fios de um cabo, Anthero de Quental dava alma para uma familia inteira. É sabidamente um poeta na mais elevada expressão da palavra; mas ao mesmo tempo é a intelligencia mais critica, o instincto mais pratico, a sagacidade mais lucida, que eu conheço. É um poeta que sente, mas é um raciocinio que pensa. Pensa o que sente; sente o que pensa.

Inventa, e critíca. Depois, por um movimento reflexo da intelligencia, dá corpo ao que criticou, e raciocina o que imaginou.—O seu temperamento apresenta um contraste correlativo: é meigo como uma creança, sensitivo como uma mulher nervosa, mas intermittentemente é duro e violento.

É fraco, portanto? Não. A vontade, em obediencia á qual, e com esforço, se faz colerico, fal-o tambem forte—d'esta força persistente, raciocinada e na apparencia placida, como a superficie do mar em dias de bonança. O Oceano, porém, é interiormente agitado pelo gulf stream quente e invisível: tambem ás vezes a placidez extrema da sua face encobre ondas de afflicção que sobem até aos olhos e rebentam em lagrimas ardentes. Sabe chorar, como todo o homem digno da humanidade.

É d'estas crises que nasceram os seus versos, porque Anthero de Quental não faz versos á maneira dos litteratos: nascem-lhe, brotam-lhe da alma como solluços e agonias. Mas, apezar d'isso, é requintado e exigente como um artista: as suas lagrimas hão de ter o contôrno de perolas, os seus gemidos hão de ser musicaes. As faculdades artisticas geradoras da estatuaria e da symphonia são as que vibram na sua alma esthetica. A noção das fórmas, das linhas e dos sons, possue-a n'um gráo eminente: não já assim a da côr nem a da composição. Aos quadros chama paineis com desdem, e por isso mesmo tem horror á descripção e ao pittoresco. É artista, no que a arte contém de mais subjectivo. A sua poesia é esculptural e hieratica, e por isso phantastica. É exclusivamente psychologica e dantesca: não pode pintar, nem descrever: acha isso inferior e quasi indigno.

Os seus versos são sentidos, são vividos como nenhuns; mas o sentir e o viver d'este homem é de uma natureza especial que tem por fronteiras phisicas as paredes do seu craneo, mas que não tem fronteiras no mundo real, porque a sua imaginação paira librada nas azas de uma razão especulativa para a qual não ha limites.

O poeta é por isso um mystico, e o critico um philosopho. O mysticismo e a metaphisica, o sentimento e a razão, a sensibilidade e a vontade, o temperamento e a intelligencia, combatem-se, ás vezes dilacerando-se. Eis ahi a explicação d'esta poesia que é o retrato vivo do homem. O genio, esse quid divinatorio, que não é honra para nenhuma creatura possuir, porque só nos dá merecimento aquillo que ganhámos á força de intelligencia e de vontade; o genio, que é uma faculdade tão accidental como a côr dos cabellos, ou o desenho das feições; o genio, que pode andar ligado a uma intelligencia mediocre, mas que o não anda no caso de Anthero de Quental—é o predicado particular e a chave do enygma d'este homem. O genio presuppõe a intuição de uma verdade visceral ou fundamental da natureza. Essa intuição, essa aspiração absorvente, é para o nosso poeta a synthese da verdade racional ou positiva e do sentimento mystico: uma poesia que exprima o raciocinio, ou antes uma philosophia onde caibam todas as suas visões. O proprio do genio é querer realisar o irrealisavel; é ser chimerico, no sentido critico da palavra, quando por chimera entendemos uma verdade essencial que não pode todavia reduzir-se a formulas comprehensiveis, ou uma cousa cuja realidade se sente, sem se poder ver.

Dos aspectos quasi inexgotavelmente variaveis d'esta singular phisionomia de homem, d'esta mistura excepcional de pensamentos e de temperamentos n'um mesmo individuo, resulta porém um typo de sinceridade e de rectidão mais singular ainda, porque mais facilmente podia resultar d'ella um grande cynico. É sobretudo um stoico, sem deixar de ter bastante de sceptico; é um mystico, mas com uma forte dose de ironia e humorismo; e um mysanthropo, quando não é o homem do trato mais affavel, da convivencia mais alegre; é um pessimista, que todavia acha em geral tudo optimo. Intellectualmente é a phisionomia mais dubia, complexa e contradictoria por vezes; moralmente é o caracter mais inteiro e melhor que existe. A sua intelligencia encontra-se permanentemente no estado de alguem que, querendo ir para um sitio, resiste por não querer ao mesmo tempo, sem todavia ter rasões bastantes para querer nem tambem para não querer. O nucleo da sua personalidade, se a encaramos pelo lado praticamente humano, está na energia do seu querer moral, e não na lucidez do seu pensamento; embora tenha a pretenção de julgar que a sua vontade obedece sempre á sua razão. É verdade que dentro de si tem permanentemente um espelho facetado que representa e critíca as modalidades do seu pensamento; mas, por isso mesmo, vê ou inventa faces de mais ás cousas, e tambem por vezes o cristal embacia. O que nunca esmorece é a bondade luminosa da sua alma. É um homem fundamentalmente bom.

A complexidade do seu espirito dá-lhe uma variedade de aptidões singular. Conversador como poucos, facil, espontaneo, original e suggestivo, ironico, humorista, espirituoso, descendo até á propria charge, não ha ninguem como elle para soltar o carro da sua phantasia critica na ladeira de uma these, e, explorando-a em todos os sentidos, architectar uma theoria. Os seus opusculos em prosa (da melhor prosa portugueza d'este tempo) têm em geral este caracter. São logicos, são bem deduzidos—sem serem sufficientemente pensados. São fructos da imaginação; são conversas escriptas, d'essas conversas que durante horas seduzem os que o ouvem—porque é um charmeur.

Elle proprio se embriaga, não com as suas palavras, mas sim com aquella theoria passageira que inventou ad hoc, e, quando alguem lhe objecta um pequeno senão, todavia essencial ao seu edificio logico, resiste, defende-se, irrita-se ás vezes, mas por fim é elle proprio que, com um dito, desfaz toda a construcção. Seria um orador, um jornalista de primeira ordem, se não tomasse apenas a sério a sua missão de poeta, ou antes de philosopho.

Depois de tudo isto dirão pessoas pouco dadas ao estudo do animal homem que Anthero de Quental é um assombro. Longe d'isso. A sua força e a prodigalidade com que a natureza dotou o seu espirito; mas essa força é uma fraqueza. Tem demasiada imaginação para ver bem; e por outro lado o raciocinio critico peia-lhe os vôos luminosos da phantasia. Vê de mais para poder ser activo, ou não tem a energia correspondente á sua visão. Se a tivesse, seria verdadeiramente um assombro. A imaginação e a razão, irreductiveis nos cerebros humanos com as circumvoluções limitadas que contêm, são egualmente poderosas no seu cerebro para que qualquer d'ellas domine. Luctam em permanencia, procurando entender-se, combinar-se, penetrar-se, e, no desejo chimerico da synthese, desequilibram o homem, atrophiando-lhe a energia activa. Ainda assim, felizes d'aquelles cuja inercia désse um livro comparavel a este!

Mas é que as suas paginas foram escriptas com sangue e lagrimas! E doe ver a vida do mais bello espirito consumir-se em agonias de uma alma em lucta comsigo mesmo! O commum da gente, ao ler as paginas d'este volume, dirá então: Quantas catastrophes, que desgraças, este homem soffreu! que singular hostilidade do mundo para com uma creatura humana!—E todavia o mundo nunca lhe foi propriamente hostil, nenhuma desgraça o acabrunhou; a sua vida tem corrido serena, placida, e até para o geral da gente em condições de felicidade.

É que o geral da gente não sabe que as tempestades da imaginação são as mais duras de passar! Não ha dores tão agudas como as dores imaginarias. Não ha problemas mais difficeis do que os problemas do pensamento, nem crises mais dolorosas do que as crises do sentimento. As agonias dilacerantes da morte com as ancias do stertor, os horrores mais inverosimeis dos crimes monstruosos, as afflicções mais pungentes da saudade, as tristezas mais dolorosas da solidão, as luctas do dever com a paixão, os gritos do homem arruinado, os ais da orphandade faminta… tudo, tudo, quanto no mundo pode haver de doloroso, desde a miseria até á prostituição, desde o andrajo até ao velludo arrastado pela immundicie, desde o cardo que dilacera os pés até ao punhal que rasga o coração: tudo isso é menos, do que a agonia de um poeta vendo passar diante de si, em turbilhão medonho, as lugubres miserias do mundo. Todas as afflicções têm o seu quê de imaginativas, e por isso ha apenas uma especie de homens que não sentem: são os cynicos, esses que perderam os nervos da moralidade, os anesthesiados do sentimento.

Quando se é poeta como Anthero de Quental, a imaginação exacerbada vibra como as harpas que os gregos expunham ás virações da brisa nos ramos das arvores. Nenhum dedo lhes feria as cordas, e todavia tocavam! Nenhuma d'essas desgraças do mundo feriu a harpa da vida do poeta; e todavia essa harpa geme e chora, solluça e grita, porque pelas suas cordas passa o vento agreste das idéas, passa o écco ullulante do egoismo dos homens, afflictivo como os uivos de uma alcateia de lobos famintos.

II

Esta collecção de Sonetos é, portanto, ao mesmo tempo biographica e cyclica. Conta-nos as tempestades de um espirito; mas essas tempestades não são os quaesquer episodios particulares de uma vida de homem: são a refracção das agonias moraes do nosso tempo, vividas, porem, na imaginação de um poeta.

O primeiro periodo, de 1860-2, contém em embryão todos os successivos, da mesma fórma que as flores incluem em si a substancia dos fructos. Denuncía uma alma sensivel, mas patenteia já a preoccupação metaphisica na sua phase rudimentar de duvida theologica, e apresenta uns assomos de tristeza que são como os farrapos de nuvens quando velam intermittentemente o sol, deixando antever a tempestade para o dia seguinte. Estes primeiros sonetos são o balbuciar de uma creança. Romantica? De modo nenhum. Este poeta não se filia em escholas, não obedece a correntes litterarias: a sua poesia é exclusivamente pessoal. Succedia, porem, que n'esse tempo já os nossos bardos classicamente romanticos tinham passado da moda; e a Coimbra chegavam por via de Paris os éccos do espirito novo, expresso nas obras de Michelet, de Quinet, de Vera-Hegel, etc.

Tudo isso fermentava no cerebro de Anthero de Quental, mas a sua personalidade não se deixava absorver pelo optimismo que, depois dos romanticos, se espalhou na Europa, lyricamente ingenuo no Occidente afrancezado, systematicamente philosophico na Allemanha hegeliana. Schopenhauer, ninguem o lia. Não era moda. Pois foi essa corrente, dominante hoje, aquella em que o nosso poeta, espontaneamente, por um movimento do seu temperamento, se achou levado. Aos dezoito ou vinte annos, ignorante ainda, mas inquieto e perscrutador, o poeta que desdenha sinceramente da fama e da gloria, vê no eterno feminino de que nos falla Goethe a synthese da existencia. Os seus amores já são phantasticos: só tem realidade no ceu.

Alli, ó lyrio dos celestes valles,
Tendo seu fim, terão o seu começo,
Para não mais findar, nossos amores.

E se ainda o dia, a luz, o sol esposo amado, têm o condão de o encher de enthusiasmo, é mister desconfiar de um homem mais caprichoso do que todas as mulheres, porque

Pedindo á forma, em vão, a idea pura
Tropeço, em sombras, na materia dura
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Esta nota é mais constitucionalmente verdadeira. «Seja a terra degredo, o ceu destino» diz n'um ponto; e n'outro:

Minha alma, ó Deus, a outros ceus aspira:
Se um momento a prendeu mortal belleza
É pela eterna patria que suspira…

Não acreditemos tambem demasiadamente n'isto, porque Deus não passa ainda de uma interrogação:

Pura essencia das lagrimas que choro
E sonho dos meus sonhos! Se és verdade,
Descobre-te, visão, no ceu ao menos!

As luctas infantís d'este primeiro periodo para saber se Deus é ou não é verdade, bastam, em si mesmo e no proprio modo por que estão expressas, para nos mostrar que o poeta não saiu ainda das espheras da representação elementar dos seres, para a esphera comprehensiva das abstracções racionaes. Os sonetos d'esta primeira serie desenrolam-se no terreno da phantasmagoria transcendente. O traço mais seguro de todos e o mais significativo está n'este verso:

Que sempre o mal peior é ter nascido.

A segunda serie tem a data de 1862-6. Psychologicamente é a menos original, artisticamente é a mais brilhante. O Sonho oriental, o Idyllio, o Palacio da Ventura, são obras primas, até de colorido. Talvez por isso mesmo que o estado de espirito do poeta o não obrigava a tirar tanto de si, e porque n'esta epocha viveu mais á lei da natureza; talvez por isso mesmo a sentiu e pintou melhor nas suas côres, nas suas imagens.

A nebulose do primeiro periodo começava a resolver-se n'uma tragedia mental, que umas vezes tem os sonhos dos que mastigam haschich, outras vezes furias de desespero, ironias como punhaes e gritos lancinantes:

Se nada ha que me aqueça esta frieza,
Se estou cheio de fel e de tristeza,
É de crer que só eu seja o culpado.

Meu pobre amigo, como foi amarga esta epocha! Outros soffreram tambem, outros penaram eguaes dores, sem conseguirem porem estrangular os monstros que defendem os áditos do templo da Sabedoria. Heine e Espronceda, Nerval e Baudelaire viveram vidas inteiras n'esse estado de ironia e de sarcasmo, de desespero e de raiva, de orgia e de abatimento, de furia e de atonia, que para ti representam quatro annos apenas!

Mas é que não havia em nenhum d'esses homens a semente de abstracção que se descobre no Palacio da Ventura:

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silencio e escuridão—e nada mais!

Os romanticos, mais ou menos satanistas ou satanisados, ficavam-se por aqui. Achando apenas silencio e escuridão onde tinham sonhado venturas, ou davam em bebedos como Espronceda, ou suicidavam-se como Nerval, ou faziam-se cynicos, á maneira de Baudelaire, cultivando com amor as Flores do Mal.

De 1864 a 74, n'esses dez annos em que a tempestade caminha, vê-se a onda negra da desolação espraiar-se; vê-se o «silencio e a escuridão» que antes surgiam como surprezas medonhas, ganharem um logar apropriado, embora eminente, no regimen das cousas; vê-se o espirito do philosopho reagir sobre o temperamento do poeta, e tornar-se systema o que até ahi era furia. Bom prenuncio.

N'esta epocha Anthero de Quental é nihilista como philosopho, anarchista como politico: é tudo o que fôr negativo, é tudo o que fôr excessivo; e é-o de um modo tão terminante, tão dogmatico e tão affirmativo, que por isso mesmo hesitamos em crer na consciencia com que o é. Da sinceridade não é licito duvidar, mas contra a segurança depõe a propria violencia. A nevrose contemporanea, que produzira n'elle a terceira epocha, dá de si ainda a quarta; mas se poude galgar a saltos por entre a floresta incendiada que devorou e consumiu os satanicos, não poderá tambem sair da steppe lugubre onde apodrecem os pessimistas, embriagados na negação universal, sem se lembrarem de que são contradictorios no proprio facto de prégarem o que quer que seja?

Ora a isto responde esta propria serie, porque, ao lado dos sonetos crepuscularmente desolados, levantam-se como auroras os sonetos stoicos. Para curar o poeta da vertigem satanica serviu-lhe a methaphisica pessimista; para o curar mais tarde d'essa metaphisica, servir-lhe-ha a reacção do sentimento moral sobre a razão especulativa. Quando pede Mais luz, quando chama ao sol «O claro sol amigo dos heroes», quando define a Idea acabando por estes versos diamantinos:

A Idea, o Summo bem, o Verbo, a Essencia
Só se revela aos homens e às nações
No ceu incorruptivel da Consciencia!

sentimo-nos bem distantes das phantasmagorias do principio e das loucuras da viagem, que todavia o poeta não terminou ainda.

Luctando furioso contra a desillusão, caindo esmagado pelo anniquilamento, Anthero de Quental ensimismou-se (para usar de uma feliz expressão hespanhola) metteu-se dentro de si, a sós comsigo, apellou para as energias do seu instincto de homem, e foi isso o que lhe inspirou o bello Hymno á Razão.

Porem na lucta entre o temperamento de stoico e a imaginação metaphisica, o seu espirito attribulado não conseguiu manter o equilibrio, porque as suas exigencias de critico e philosopho (alimentadas agora por leituras variadissimas e profundas) contrariavam ou contradiziam as suas vizões de poeta. Á maneira que a intelligencia se lhe cultivava, que o saber lhe crescia, que a experiencia o educava com mais de um caso doloroso ou apenas triste—apurava-se-lhe a imaginação até ao ponto de ver claramente o que para o commum dos espiritos são apenas concepções do entendimento abstracto. A sua poesia despe-se então de accessorios: não ha quasi uma imagem; ha apenas linhas, mas essas linhas de estatuas incorporeas tem uma nitidez dantesca.

O seu pessimismo torna-se systematico: é uma philosophia inteira, a que corresponde, como expressão sentimental, a ironia transcendente. Na Disputa em Familia, Deus responde aos atheus:

Muito antes de nascerem vossos paes
D'um barro vil, ridiculas creanças,
Sabia eu tudo isso… e muito mais!

No Inconsciente, este heroe metaphisico, diz assim:

Chamam-me Deus ha mais de dez mil annos…
Mas eu por mim não sei como me chamo.

Na Divina Comedia os homens queixam-se aos deuses do que soffrem, invectivando-os pelos terem creado.

Mas os deuses com voz ainda mais triste
Dizem:—Homens! porque é que nos creastes?

Como se vê, houve um progresso. No periodo anterior a negação era violenta e terminante; agora tem como expressão a ironia que é uma das formas conhecidas do saber, e uma das linguagens da verdade. Eis ahi o que a reacção moral conseguiu, acompanhada pelo esclarecimento da razão, da intelligencia e do conhecimento. O antigo poeta satanico, transformado em um nihilista, vemol-o agora na pelle de um pessimista systematico, sorrindo já bondosamente, com a ironia n'esses proprios labios que, primeiro cobertos de espuma, depois nos appareciam brancos de agonias.

Não tinha eu razão para chamar cyclica a esta collecção de sonetos? Não tem sido este o movimento das idéas, a evolução do pensamento creador na segunda metade do nosso seculo?

Quando escreveu o primeiro soneto da quarta serie (1880-4)

Já socega, depois de tanta lucta,
Já me descança em paz o coração…

Anthero de Quental resolveu destruir todas as suas poesias lugubres. Sentia remorsos por alguma vez ter estado n'uma disposição de animo que agora considerava com horror. Entendia que esses versos tetricos não podiam consolar ninguem, e fariam mal a muita gente. Destruiu-os, pois, com aquella violencia propria de um caracter intermittentemente meigo e frenetico como o de uma mulher. D'esse naufragio onde se perderam verdadeiras obras-primas, salvei eu as poesias que vão no fim d'este ensaio; e salvei-as porque as possuia entre os originaes remettidos em cartas, e mais de uma vez como texto de noticias do estado do seu espirito, ou cartas rimadas.

Que especie de paz era porem essa em que o seu coração descançava? Era o Nirvâna:

E quando o pensamento, assim absorto,
Emerge a custo d'esse mundo morto
E torna a olhar as cousas naturaes,

Á bella luz da vida, ampla, infinita
Só vê com tedio em tudo quanto fita
A illusão e o vasio universaes.

O Nirvâna é o ceu do buddhismo, a religião mais philosophica e menos phantasmagorica inventada pelos homens. É por este motivo que o buddhismo attrae hoje em dia todos os espiritos a um tempo racionalistas e mysticos, d'esta epocha em tudo similhante á alexandrina, menos no volume do saber positivo que já se não compadece com muitas das theorias sobre que os néoplatonicos especulavam. A theoria da Substancia levou-os a elles a uma concepção do Ser que produziu o mytho do Verbo christão, encarnado popularmente em Jesus-Christo. Ora hoje tudo isso vale apenas como documento historico, e, por paradoxal que isto pareça, o Não-Ser é, segundo a metaphisica contemporanea, a essencia de tudo o que existe. O Absoluto é o Nada. O Universo, a realidade inteira, são modalidades, aspectos fugitivos, que só se tornam verdades racionaes quando nos apparecem despidas de todos os accidentes. E como é pelos accidentes apenas que nós, distinguindo-as, as conhecemos, a realidade verdadeiramente e em si é Nada.

Religiosamente, Nada é egual a Nirvâna; e o buddhismo é a única religião que attingiu esta conclusão, summaria do pensamento scientifico moderno. O Nirvâna é esse estado em que os seres, despindo-se de todas as suas modalidades e accidentes, de todas as condições de realidade, condições que os limitam distinguindo-os entre si, adquirem a não-realidade (o não-contingente) e com ella a existencia absoluta e a absoluta liberdade. Essa liberdade é o typo e a essencia da vida espiritual; e o Nirvâna, puro Não-Ser para a intelligencia, é, para o sentimento moral, o symbolo e o vehiculo de toda a perfeição e virtude: radicalmente negativo na esphera da razão, é, na esphera do sentimento, absolutamente affirmativo. O pessimismo torna-se d'esta fórma um optimismo gigantesco; toda a inercia é condemnada, e o systema das cousas, agitando-se, movendo-se na direcção do anniquilamento final, move-se e agita-se no sentido de uma liberdade evolutivamente progressiva até attingir a plenitude. O Universo é uma grande vida que tem, no termo, o termo de todas as vidas—a morte, idealisada agora e tornada luminosa e appetecivel por essa idealisação.

Leiam-se os dois sonetos Redempção, talvez os mais bellos de todo o livro, e comprehender-se-ha melhor o que fica dito. Leia-se o Elogio da morte

Dormirei no teu seio inalteravel,
Na communhão da paz universal,
Morte libertadora e inviolavel!

e ver-se-ha quanto estamos longe do desespero tragico de outros annos. A tempestade acalmou.

Na esphera do invisivel, da intangivel,
Sobre desertos, vacuo, soledade,
Vôa e paira o espirito impassivel

presidindo á evolução dos seres (V. o soneto Evolução) desde a rocha até ao homem, evolução que seria absolutamente inexpressiva se não tivesse um destino, um fim, um ideal. A theoria do progresso indefinido é, com effeito, racionalmente absurda. Esse destino, para os neo-buddhistas, é o Nada transcendente; esse ideal é a Liberdade. A existencia está pois consagrada racionalmente: falta consagral-a sentimentalmente. Falta ainda ao systema um medianeiro: é o Amor.

Porém o coração feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do penar tornado crente,

Respondeu: D'esta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se é isto a vida,
Nem foi de mais o desengano e a dor.

O Universo está pois construido e sanctificado na mente do poeta e na razão do philosopho. Dir-se-ha portanto que a chimera de que a principio fallámos ficou desvendada, o problema resolvido, conciliada a visão com a razão, e que nos não resta mais do que fazermo-nos todos buddhistas? Supprema illusão! Creia-o embora o poeta: eu, como critico, observando que o pensamento humano, desde que existe e trabalha, progride sempre, com effeito, mas progride em tres estradas parallelas que, por serem parallelas, nunca podem encontrar-se, atrevo-me a affirmar a irreductibilidade do mysticismo, racional ou imaginativamente concebido, e do naturalismo, ponderada ou orgiacamente realisado. Atrevo-me a dizer que estes dois feitios ou temperamentos são constitucionaes do espirito humano, e que da coexistencia necessaria d'elles resulta um terceiro—o sceptico, o critico, o que provêm da comparação de ambos, e por isso não tem côr, nem é affirmativo; dando-se melhor com a natureza do que com a phantasmagoria, preferindo a harmonia mais ou menos equilibrada, ou mais ou menos claudicante do hellenismo, á orgia desenfreada dos orientaes; considerando a existencia como um compromisso, o dever como uma condição da vida, mas tambem a fraqueza como uma condição dos homens. Estes tres temperamentos são correspondentes a typos eternos e irreductiveis da consciencia humana; e, se o buddhismo é a melhor religião para um mystico do seculo XIX, saturado de sciencia e derreado de cogitações, o christianismo, como directo herdeiro do hellenismo, hade eternamente satisfazer melhor os scepticos e os naturalistas, cujo numero é e foi sempre infinitamente maior, entre os europeos.

«Um hellenismo coroado por um buddhismo» eis a formula com que mais de uma vez Anthero de Quental me tem exprimido o seu pensamento—a sua chimera! Chimera, digo, por que a corôa não nos póde assentar na cabeça, sob pena de a crivar de espinhos e de a deixar escorrendo sangue. Fundar o principio da acção na inercia systematica, a realidade no não-ser, a vida no anniquilamento, só é praticamente acceitavel para o commum de homens quando acreditem na metempsycose, dogma tão infantilmente mythico do buddhismo como v. g. o inferno do christianismo. Ao christianismo, porém, tirando-se-lhe tudo quanto a imaginação semita deu para a sua formação, fica ainda o hellenismo, isto é, um idealismo mais ou menos pantheista e uma theoria moral—cousas que eu não affirmo que resistam a uma analyse rigorosamente logica, por isso mesmo que todo o nosso conhecimento racional das cousas assenta apenas sobre axiomas do senso commum—ao passo que, em se tirando a metempsycose ao buddhismo, o buddhismo reduz-se a uma nevoa de abstracções.

Pobre humanidade, se se visse condemnada á coroação buddhista! Nós europeos, incapazes de nos sujeitarmos ao regime da contemplação inerte, soffreriamos as agonias, experimentariamos as afflicções do poeta que, tendo no peito um coração activo, tem na cabeça uma imaginação mystica, e, para obedecer ao pensamento, tortura o coração, sem poder tambem esmagal-o sob o mando da intelligencia.

D'este cruel estado vêm os documentos que attestam a transformação soffrida pela ironia dos periodos anteriores. Que nome se hade dar ao sentimento que inspira os sonetos Á Virgem Santissima e o Na mão de Deus que fecha o volume? Eu por mim chamarei humorismo transcendente a essa liga intima da piedade e da ironia, e declaro que nunca vi cousa parecida posta em verso. Em prosa, ha mais de um periodo de Renan inspirado por um espirito similhante, embora menos agudo.

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa,
E deixa-me sonhar a vida inteira!

A visão é a Virgem Santissima, e a poesia é tão sincera, tão verdadeira, tão cheia de piedade e uncção, que eu sei de mais de um livro de resas onde andam copias escriptas.

Dorme o teu somno, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Um monge christão escreveria isto. E Anthero de Quental nem é christão, nem crê em Deus, nem na Virgem, segundo o sentido ordinario da palavra crer.

Blasphemar era bom n'outros tempos; para a ironia tambem a idade passou; finalmente para o exercicio litterario nunca se inclinou a penna que o poeta molhou sempre no seu sangue. Como explicar, pois, o phenomeno?

Por acaso subiu já o leitor ao cume de um monte sufficientemente alto para que toda a paysagem lhe apparecesse á vista, fundida a ponto de não distinguir uma arvore de um cazal, nem um rio de um valle sem curso de agua? Pois succede assim nas campinas da historia do pensamento humano, quando as olhamos das cumiadas luminosas da critica. Vêem-se as cousas na sua essencia, não importam os accidentes. O fetiche que o selvagem adora, a imagem perante a qual se prostra o commum dos crentes, o architecto universal dos pensadores livres, e finalmente esse quid innominado a que a philosophia moderna chamou Inconsciente—tudo isso é egualmente Deus: sómente é Deus percebido pela imaginação infantil, Deus percebido pela intelligencia vulgar, Deus percebido pelo saber incipiente, e Deus finalmente incomprehendido, mas sentido, pela sabedoria. E todas essas modalidades de uma mesma impressão, recebida e representada de fórma diversa, consoante a natureza e o estado de educação dos homens, são egualmente verdadeiras, egualmente santas e egualmente humoristicas, para aquelle que tem coração para sentir as cousas por dentro, e olhos para as ver de fora—objectivamente, como os allemães dizem, e nós diremos criticamente.

Eis ahi a suprema liberdade do espirito, o Nirvâna apenas intellectual, a que eu prefiro chamar impassibilidade subjectiva: um estado que permitte comprehender todas as cousas, analysando-as e classificando-as, sem todavia nos transmittir essa especie de frialdade de coração, propria dos naturalistas quando estudam uma rocha, uma planta ou um animal. O philosopho, impassivel ao analysar e classificar os phenomenos do espirito humano, ha-de misturar ao sorriso que provocam todas as vaidades e illusões, o amor que merecem todos os sentimentos ingenuos e fundamentalmente bons; hade alliar á comprehensão da nullidade extrinseca das cousas, a comprehensão da sua excellencia intrinseca; exigindo que o homem seja activo, porque a actividade é boa por ser indispensavel á saude do espirito, embora os objectos da actividade sejam as mais das vezes irritos e nullos, quando considerados em si proprios e isoladamente.

E eis ahi as razões porque eu não sou buddhista… nem Anthero de Quental o é, embora julgue sel-o. A evolução dolorosa que terminou com o seu ultimo soneto, esta longa e tempestuosa viagem atravez do mar tenebroso da phantasia metaphisica, parece ter concluido. A edade, talvez, acima de tudo, trouxe ao espirito do poeta uma paz illuminada de bondade e sabedoria, e como a sua alma é san e a sua intelligencia firme e sempre activa, é mais que provavel que o declinar da vida de Anthero de Quental enriqueça o peculio por signal bem pobre da philosophia portuguesa com algum trabalho tão digno de se conservar na memoria dos tempos, como estes Sonetos que são as amargas flores de uma mocidade. Esse trabalho, porem, não será um cathecismo buddhista, não pode ser nenhuma revelação milagrosa do verdadeiro systema, porque a sabedoria nos diz que toda a pretenção de Verdade é illusoria, pois sendo nós, a nossa intelligencia, os nossos pensamentos, simples e fugitivas contingencias, é loucura pensar que jamais possamos definir o Absoluto. Cada qual sente-o a seu modo, segundo o seu temperamento; e sabio é aquelle que se limita a registrar as relações das cousas.

III

Quem deante d'estes versos não sentir elevar-se-lhe o espirito, como n'uma oração, áquella especie de Deus que é compativel com o seu temperamento ou com o estado de educação do seu pensamento, é por que tem dentro do peito, no logar do coração, um seixo polido e frio. Quem, no meio do lidar da vida, roçando os braços pelas arestas cortantes que a erriçam de angulos, pousar o olhar da alma sobre um d'estes sonetos e não sentir o que os sequiosos sentem ao encontrarem um arroio de agua limpida, é porque tem a alma feita apenas de egoismo. Quem, emergindo dos montões de papelada que as imprensas vomitam diariamente, deitar os olhos sobre estas paginas, e não sentir o deslumbramento que os diamantes produzem, é porque a sua vista se embaciou com o exame dos livros grosseiros em todo o sentido, e a sua lingua perdeu o habito de fallar portuguez.

Um dos nossos mais queridos amigos, um dos que conhecem de perto Anthero de Quental—e sómente o conhece quem com elle viveu largo tempo na intimidade—interroga-me geralmente d'este modo: «E santo Anthero, como vae?»

Dil-o com a convicção quente dos artistas, mas eu, que o não sou, tenho a pôr embargos, porque a santidade não é planta adequada ao clima do nosso tempo. Exige uma porção de sentimento ingenuo que já não ha nos ares que respiramos.

A vida contemplativa, porem, a vida asceta inclusivamente: essa virtude austera para comsigo, tolerante para com tudo e para com todos; esse observar constante de si proprio e o dispensar de um sorriso sempre bom, embora indifferente com frequencia, aos que alguma vez o rodeiam; a caridade, o amor, a abnegação, as tentações, as crises, as lagrimas, as afflicções, as duvidas cruciantes e as dores angustiosas: tudo o que, reunido, forma uma alma mystica—tudo isso móra na alma d'este poeta arrebatada pela visão inextinguivel do Bem.

Só no meu coração, que sondo e meço,
Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,
Em segredo protesta e affirma o Bem.

E para nada faltar a este mystico, anachronicamente perdido no meio do borborinho de um seculo activo até á demencia, tem tambem uma fé ardente—uma fé buddhista. Somente o seu Deus, Deus sem vontade, sem intelligencia e sem consciencia, é, para nós outros, a quem são vedados os mysterios da metaphisica buddhista, igual a cousa nenhuma.

Este homem, fundamentalmente bom, se tivesse vivido no seculo VI ou no seculo XIII, seria um dos companheiros de S. Bento ou de S. Francisco de Assis. No seculo XIX é um excentrico, mas d'esse feitio de excentricidade que é indispensavel, porque a todos os tempos foram indispensaveis os herejes, a que hoje se chama dissidentes.

Oliveira Martins.

OS CAPTIVOS

Encostados ás grades da prisão,
Olham o céo os pallidos captivos.
Já com raios obliquos, fugitivos,
Despede o sol um ultimo clarão.

Entre sombras, no longe, vagamente,
Morrem as vozes na extensão saudosa.
Cae do espaço, pesada, silenciosa,
A tristeza das cousas, lentamente.

E os captivos suspiram. Bandos de aves
Passam velozes, passam apressados,
Como absortos em intimos cuidados,
Como absortos em pensamentos graves.

E dizem os captivos: Na amplidão
Jamais se extingue a eterna claridade…
A ave tem o vôo e a liberdade…
O homem tem os muros da prisão!

Aonde ides? qual é vossa jornada?
Á luz? á aurora? á immensidade? aonde?
—Porém o bando passa e mal responde:
Á noite, á escuridão, ao abysmo, ao nada!—

E os captivos suspiram. Surge o vento,
Surge e perpassa esquivo e inquieto,
Como quem traz algum pezar secreto,
Como quem soffre e cala algum tormento.

E dizem os captivos: Que tristezas,
Que segredos antigos, que desditas,
Caminheiro de estradas infinitas,
Te levam a gemer pelas devezas?

Tu que procuras? que visão sagrada
Te acena da soidão onde se esconde?
—Porém o vento passa e só responde:
A noite, a escuridão, o abysmo, o nada!—

E os captivos suspiram novamente.
Como antigos pezares mal extinctos,
Como vagos desejos indistinctos,
Surgem do escuro os astros, lentamente.

E fitam-se, em silencio indecifravel,
Contemplam-se de longe, mysteriosos,
Como quem tem segredos dolorosos,
Como quem ama e vive inconsolavel…

E dizem os captivos: Que problemas
Eternos, primitivos vos attrahem?
Que luz fitaes no centro d'onde saem
A flux, em jorro, as intuições supremas?

Por que esperaes? n'essa amplidão sagrada
Que soluções esplendidas se escondem?
—Porém os astros tristes só respondem:
A noite, a escuridão, o abysmo, o nada!—

Assim a noite passa. Rumorosos
Susurram os pinhaes meditativos,
Encostados ás grades, os captivos
Olham o céo e choram silenciosos.

OS VENCIDOS

Tres cavalleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cae a noite do céo, pesadamente.

Vacilam-lhes nas mãos as armas rotas,
Têm os corceis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhe cae o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As fontes lhes curvou, com mão potente.
No horisonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos tres, erguendo os braços,
Diz n'um soluço: «Amei e fui amado!
Levou-me uma visão, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo vôo, penetrei na esphera
Onde vivem as almas que se adoram,
Livre, contente e bom, como os que moram
Entre os astros, na eterna primavera.

Porque irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu halito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paixão
Abre languida ao raio matutino,
Mas seu profundo calix purpurino
Só reçuma veneno e podridão.

Irmãos, amei—amei e fui amado…
Por isso vago incerto e fugitivo,
E corre lentamente um sangue esquivo
Em gotas, de meu peito alanceado.»

Responde-lhe o segundo cavalleiro,
Com sorriso de tragica amargura:
«Amei os homens e sonhei ventura,
Pela justiça heroica, ao mundo inteiro.

Pelo direito, ergui a voz ardente
No meio das revoltas homicidas:
Caminhando entre raças opprimidas,
Fil-as surgir, como um clarim fremente.

Quando ha de vir o dia da justiça?
Quando ha de vir o dia do resgate?
Trahio-me o gladio em meio do combate
E semeei na areia movediça!

As nações, com sorriso bestial,
Abrem, sem ler, o livro do futuro.
O povo dorme em paz no seu monturo,
Como em leito de purpura real.

Irmãos, amei os homens e contente
Por elles combati, com mente justa…
Por isso morro á mingoa e a areia adusta
Bebe agora meu sangue, ingloriamente.»

Diz então o terceiro cavalleiro:
«Amei a Deus e em Deus puz alma e tudo.
Fiz do seu nome fortaleza e escudo
No combate do mundo traiçoeiro

Invoquei-a nas horas affrontosas
Em que o mal e o peccado dão assalto.
Procurei-o, com ancia e sobresalto,
Sondando mil sciencias duvidosas.

Que vento de ruina bate os muros
Do templo eterno, o templo sacrosanto?
Rolam, desabam, com fragor e espanto,
Os astros pelo céo, frios e escuros!

Vacila o sol e os santos desesperam…
Tedio reçuma a luz dos dias vãos…
Ai dos que juntam com fervor as mãos!
Ai dos que crêem! ai dos que inda esperam!

Irmãos, amei a Deus, com fé profunda…
Por isso vago sem conforto e incerto,
Arrastando entre as urzes do deserto
Um corpo exangue e uma alma moribunda.»

E os tres, unindo a voz n'um ai supremo,
E deixando pender as mãos cançadas
Sobre as armas inuteis e quebradas,
N'um gesto inerte de abandono extremo,

Sumiram-se na sombra duvidosa
Da montanha calada e formidavel,
Sumiram-se na selva impenetravel
E no palor da noite silenciosa.

ENTRE SOMBRAS

Vem ás vezes sentar-se ao pé de mim
—A noite desce, desfolhando as rosas—
Vem ter commigo, ás horas duvidosas,
Uma visão, com azas de setim…

Pousa de leve a delicada mão
—Rescende amena a noite socegada—
Pousa a mão compassiva e perfumada
Sobre o meu dolorido coração…

E diz-me essa visão compadecida
—Ha suspiros no espaço vaporoso—
Diz-me: Porque é que choras silencioso?
Porque é tão erma e triste a tua vida?

Vem commigo! Embalado nos meus braços
—Na noite funda ha um silencio santo—
N'um sonho feito só de luz e encanto
Transporás a dormir esses espaços…

Porque eu habito a região distante
—A noite exhala uma doçura infinda—
Onde ainda se crê e se ama ainda,
Onde uma aurora igual brilha constante…

Habito ali, e tu virás commigo
—Palpita a noite n'um clarão que offusca—
Porque eu venho de longe, em tua busca,
Trazer-te paz e alivio, pobre amigo…

Assim me fala essa visão nocturna
—No vago espaço ha vozes dolorosas—
São as suas palavras carinhosas
Agua correndo em crystalina urna…

Mas eu escuto-a immovel, somnolento
—A noite verte um desconsolo immenso—
Sinto nos membros como um chumbo denso,
E mudo e tenebroso o pensamento…

Fito-a, n'um pasmo doloroso absorto
—A noite é erma como campa enorme—
Fito-a com olhos turvos de quem dorme
E respondo: Bem sabes que estou morto!

HYMNO DA MANHÃ

Tu, casta e alegre luz da madrugada,
Sobe, cresce no céo, pura e vibrante,
E enche de força o coração triumphante
Dos que ainda esperam, luz immaculada!

Mas a mim pões-me tu tristeza immensa
No desolado coração. Mais quero
A noite negra, irmã do desespero,
A noite solitaria, immovel, densa,

O vacuo mudo, onde astro não palpita,
Nem ave canta, nem susurra o vento,
E adormece o proprio pensamento,
Do que a luz matinal… a luz bemdita!

Porque a noite é a imagem do Não-Ser,
Imagem do repouso inalteravel
E do esquecimento inviolavel,
Que anceia o mundo, farto de soffrer…

Porque nas trevas sonda, fixo e absorto,
O nada universal o pensamento,
E despreza o viver e o seu tormento.
E olvida, como quem está já morto…

E, interrogando intrepido o Destino,
Como reu o renega e o condemna,
E virando-se, fita em paz serena
O vacuo augusto, placido e divino…

Porque a noite é a imagem da Verdade,
Que está além das cousas transitorias.
Das paixões e das formas illusorias,
Onde sómente ha dor e falsidade…

Mas tu, radiante luz, luz gloriosa,
De que és symbolo tu? do eterno engano,
Que envolve o mundo e o coração humano
Em rede de mil malhas, mysteriosa!

Symbolo, sim, da universal traição,
D'uma promessa sempre renovada
E sempre e eternamente perjurada,
Tu, mãe da Vida e mãe da Illusão…

Outros estendam para ti as mãos,
Supplicantes, com fé, com esperança…
Ponham outros seu bem, sua confiança
Nas promessas e a luz dos dias vãos…

Eu não! Ao ver-te, penso: Que agonia
E que tortura ainda não provada
Hoje me ensinará esta alvorada?
E digo: Porque nasce mais um dia?

Antes tu nunca fosses, luz formosa!
Antes nunca existisses! e o Universo
Ficasse inerte e eternamente immerso
Do possivel na nevoa duvidosa!

O que trazes ao mundo em cada aurora?
O sentimento só, só a consciencia,
D'uma eterna, incuravel impotencia,
Do insaciavel desejo, que o devora!

De que são feitos os mais bellos dias?
De combates, de queixas, de terrores!
De que são feitos? de illusões, de dores,
De miserias, de maguas, de agonias!

O sol, inexoravel semeador,
Sem jamais se cançar, percorre o espaço,
E em borbotões lhe jorram do regaço
As sementes innumeras da Dor!

Oh! como cresce, sob a luz ardente,
A seara maldita! como treme
Sob os ventos da vida e como geme
N'um susurro monotono e plangente!

E cresce e alastra, em ondas voluptuosas,
Em ondas de cruel fecundidade,
Com a força e a subtil tenacidade
Invencivel das plantas venenosas!

De podridões antigas se alimenta,
Da antiga podridão do chão fatal…
Uma fragrancia morbida, mortal
Lhe reçuma da seiva peçonhenta…

E é esse aroma languido e profundo,
Feito de seducções vagas, magneticas,
De ardor carnal e de attracções poeticas,
É esse aroma que envenena o mundo!

Como um clarim soando pelos montes,
A aurora acorda, placida e inflexivel,
As miserias da terra: e a hoste horrivel,
Enchendo de clamor e horisontes.

Torva, cega, colerica, faminta,
Surge mais uma vez e arma-se á pressa
Para o bruto combate, que não cessa,
Onde é vencida sempre e nunca extincta!

Quantos erguem n'esta hora, com esforço,
Para a luz matinal as armas novas,
Pedindo a lucta e as formidaveis provas,
Alegres e crueis e sem remorso,

Que esta tarde ha-de ver, no duro chão
Cahidos e sangrentos, vomitando
Contra o céo, com o sangue miserando,
Uma extrema e importante imprecação!

Quantos tambem, de pé, mas esquecidos,
Ha-de a noite encontrar, sós e encostados
A algum marco, chorando aniquilados
As lagrimas caladas dos vencidos!

E porque? para que? para que os chamas,
Serena luz, ó luz inexoravel,
Á vida incerta e á lucta inexpiavel,
Com as falsas visões, com que os inflamas?

Para serem o brinco d'um só dia
Na mão indifferente do Destino…
Clarão de fogo-fatuo repentino,
Cruzando entre o nascer e a agonia…

Para serem, no páramo enfadonho,
Á luz de astros malignos e enganosos,
Como um bando de espectros lastimosos,
Como sombras correndo atraz d'um sonho…

Oh! não! luz gloriosa e triumphante!
Sacode embora o encanto e as seducções,
Sobre mim, do teu manto de illusões:
A meus olhos, és triste e vacillante…

A meus olhos, és baça e luctuosa
E amarga ao coração, ó luz do dia,
Como tocha esquecida que allumia
Vagamente uma crypta monstruosa…

Surges em vão, e em vão, por toda a parte,
Me envolves, me penetras, com amor…
Causas-me espanto a mim, causas-me horror,
E não te posso amar—não quero amar-te!

Symbolo da Mentira universal,
Da apparencia das cousas fugitivas,
Que esconde, nas moventes perspectivas,
Sob o eterno sorriso o eterno Mal,

Symbolo da Illusão, que do infinito
Fez surgir o Universo, já marcado
Para a dor, para o mal, para o peccado,
Symbolo da existencia, sê maldito!

A FADA NEGRA

Uma velha de olhar mudo e frio,
De olhos sem cor, de labios glaciaes,
Tomou-me nos seus braços sepuleraes.
Tomou-me sobre o seio ermo e vasio.

E beijou-me em silencio, longamente,
Longamente me unio á face fria…
Oh! como a minha alma se estorcia
Sob os seus beijos, dolorosamente!

Onde os labios pousou, a carne logo
Myrrou-se e encaneceu-se-me o cabello,
Meus ossos confrangeram-se. O gelo
Do seu bafo seccava mais que o fogo.

Com seu olhar sem cor, que me fitava,
A Fada negra me qualhou o sangue.
Dentro em meu coração inerte e exangue
Um silencio de morte se engolfava.

E volvendo em redor olhos absortos,
O mundo pareceu-me uma visão,
Um grande mar de nevoa, de illusão,
E a luz do sol como um luar de mortos…

Como o espectro d'um mundo já defuncto,
Um farrapo de mundo, nevoento,
Ruina aerea que sacode o vento,
Sem cor, sem consistencia, sem conjuncto…

E quanto adora quem adora o mundo,
Brilho e ventura, esperar, sorrir,
Eu vi tudo oscilar, pender, cahir,
Inerte e já da cor d'um moribundo.

Dentro em meu coração, n'esse momento,
Fez-se um buraco enorme—e n'esse abysmo
Senti ruir não sei que cataclismo,
Como um universal desabamento…

Razão! velha de olhar agudo e cru
E de halito mortal mais do que a peste!
Pelo beijo de gelo que me deste,
Fada negra, bemdita sejas tu!

Bemdita sejas tu pela agonia
E o lucto funeral d'aquella hora
Em que eu vi baquear quanto se adora,
Vi de que noite é feita a luz do dia!

Pelo pranto e as torturas bemfazejas
Do desengano… pela paz austera
D'um morto coração, que nada espera,
Nem deseja tambem… bemdita sejas!

*1860—1862*

IGNOTO DEO

Que belleza mortal se te assemelha,
Ó sonhada visão d'esta alma ardente,
Que reflectes em mim teu brilho ingente,
Lá como sobre o mar o sol se espelha?

O mundo é grande—e esta ancia me aconselha
A buscar-te na terra: e eu, pobre crente,
Pelo mundo procuro um Deus clemente,
Mas a ara só lhe encontro… nua e velha…

Não é mortal o que eu em ti adoro.
Que és tu aqui? olhar de piedade,
Gota de mel em taça de venenos…

Pura essencia das lagrimas que chóro
E sonho dos meus sonhos! se és verdade,
Descobre-te, visão, ao céo ao menos!

LAMENTO

Um diluvio de luz cae da montanha:
Eis o dia! eis o sol! o esposo amado!
Onde ha por toda a terra um só cuidado
Que não dissipe a luz que o mundo banha?

Flor a custo medrada em erma penha,
Revolto mar ou golfo congelado,
Aonde ha ser de Deus tão olvidado
Para quem paz e alivio o céo não tenha?

Deus é Pae! Pae de toda a creatura:
E a todo o ser o seu amor assiste:
De seus filhos o mal sempre é lembrado…

Ah! se Deus a seus filhos dá ventura
N'esta hora santa… e eu só posso ser triste…
Serei filho, mas filho abandonado!

A M.C.

Poz-te Deus sobre a fronte a mão piedosa:
O que fada o poeta e o soldado
Volveu a ti o olhar, de amor velado,
E disse-te: «vae, filha, sê formosa!»

E tu, descendo na onda harmoniosa,
Pousaste n'este solo angustiado,
Estrella envolta n'um clarão sagrado,
Do teu limpido olhar na luz radiosa…

Mas eu… posso eu acaso merecer-te?
Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,
Anjo! Deu-te o Senhor um mundo á parte.

E a mim, a quem deu olhos para ver-te,
Sem poder mais… a mim o que me ha dado?
Voz, que te cante, e uma alma para amar-te!

A Santos Valente

Estreita é do prazer na vida a taça:
Largo, como o oceano é largo e fundo,
E como elle em venturas infecundo,
O cális amargoso da desgraça.

E comtudo nossa alma, quando passa
incerta peregrina, pelo mundo,
Prazer só pede à vida, amor fecundo,
É com essa esperança que se abraça.

É lei de Deus este aspirar immenso…
E comtudo a illusão impoz à vida.
E manda buscar luz e dá-nos treva!

Ah! se Deus accendeu um foco intenso
De amor e dor em nós, na ardente lida,
Porque a miragem cria… ou porque a leva?

Tormanto do Ideal

Conheci a Belleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o mundo e o que elle encerra
Perder a côr, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à fórma, em vão, a idea pura,
Tropéço, em sombras, na materia dura.
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Recebi o baptismo dos poetas,
E assentado entre as fórmas incompletas
Para sempre fiquei pallido e triste.

ASPIRAÇÃO

Meus dias vão correndo vagarosos
Sem prazer e sem dôr, e até parece
Que o foco interior já desfallece
E vacilla com raios duvidosos.

É bella a vida e os annos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor fallece…
Mas, se a belleza aqui nos apparece,
Logo outra lembra de mais puros gosos.

Minh'alma, ó Deus! a outros céos aspira:
Se um momento a prendeu mortal belleza,
É pela eterna patria que suspira…

Porém do presentir dá-me a certeza.
Dá-ma! e sereno, embora a dôr me fira,
Eu sempre bemdirei esta tristeza!

A FLORIDO TELLES

Se comparo poder ou ouro ou fama,
Venturas que em si têm occulto o damno,
Com aquele outro affecto soberano,
Que amor se diz e é luz de pura chama,

Vejo que são bem como arteira dama,
Que sob honesto riso esconde o engano,
E o que as segue, como homem leviano
Que por um vão prazer deixa quem ama.

Nasce do orgulho aquelle esteril goso
E a gloria d'elle é cousa fraudulenta,
Como quem na vaidade tem a palma:

Tem na paixão seu brilho mais formoso
E das paixões tambem some-o a tormenta…
Mas a gloria do amor… essa vem d'alma!

PSALMO

Esperemos em Deus! Elle ha tomado
Em suas mãos a massa inerte e fria
Da materia impotente e, n'um só dia,
Luz, movimento, acção, tudo lhe ha dado.

Elle, ao mais pobre de alma, ha tributado
Desvelo e amor: elle conduz á via
Segura quem lhe foge e se extravia,
Quem pela noite andava desgarrado.

E a mim, que aspiro a elle, a mim, que o amo,
Que anceio por mais vida e maior brilho.
Ha-de negar-me o termo d'este anceio?

Buscou quem o não quiz; e a mim, que o chamo,
Ha-de fugir-me, como a ingrato filho?
Ó Deus, meu pae e abrigo! espero!… eu creio!

A M.C.

No céo, se existe um céo para quem chora.
Céo, para as magoas de quem soffre tanto…
Se é lá do amor o foco, puro e santo,
Chama que brilha, mas que não devora…

No céo, se uma alma n'esse espaço mora.
Que a prece escuta e encharga o nosso pranto…
Se ha Pae, que estenda sobre nós o manto
Do amor piedoso… que eu não sinto agora…

No céo, ó virgem! findarão meus males:
Hei-de lá renascer, eu que pareço
Aqui ter só nascido para dôres.

Ali, ó lyrio dos celestes valles!
Tendo seu fim, terão o seu começo.
Para não mais findar, nossos amores.

A João de Deus

Se é lei, que rege o escuro pensamento,
Ser vã toda a pesquisa da verdade,
Em vez da luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento;

É lei tambem, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.

O que ha-de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora crê de fé, logo duvida:
Se procura, só acha… o desatino!

Só Deus póde acudir em tanto damno:
Esperemos a luz d'uma outra vida,
Seja a terra degredo, o céo destino.

A Alberto Telles

Só!—Ao ermita sósinho na montanha
Visita-o Deus e dá-lhe confiança:
No mar, o nauta, que o tufão balança,
Espera um sopro amigo que o céo tenha…

Só!—Mas quem se assentou em riba estranha,
Longe dos seus, lá tem inda a lembrança:
E Deus deixa-lhe ao menos a esperança
Ao que á noite soluça em erma penha…

Só!—Não o é quem na dor, quem nos cançaços,
Tem um laço que o prenda a este fadario.
Uma crença, um desejo… e inda um cuidado…

Mas cruzar, com desdem, inertes braços,
Mas passar, entre turbas, solitario,
Isto é ser só, é ser abandonado!

A J. Felix dos Santos

Sempre o futuro, sempre! e o presente
Nunca! Que seja esta hora em que se existe
De incerteza e de dor sempre a mais triste,
E só farte o desejo um bem ausente!

Ai! que importa o futuro, se inclemente
Essa hora, em que a esperança nos consiste,
Chega… é presente… e só á dor assiste?…
Assim, qual é a esperança que não mente?

Desventura ou delirio?… O que procuro,
Se me foge, é miragem enganosa,
Se me espera, peor, espectro impuro…

Assim a vida passa vagarosa:
O presente, a aspirar sempre ao futuro:
O futuro, uma sombra mentirosa.

A M. C.

Porque descrês, mulher, do amor, da vida?
Porque esse Hermon transformas em Calvario?
Porque deixas que, aos poucos, do sudario
Te aperte o seio a dobra humedecida?

Que visão te fugio, que assim perdida
Buscas em vão n'este ermo solitario?
Que signo obscuro de cruel fadario
Te faz trazer a fronte ao chão pendida?

Nenhum! intacto o bem em ti assiste:
Deus, em penhor, te deu a formosura;
Bençãos te manda o céo em cada hora.

E descrês do viver?… E eu, pobre e triste,
Que só no teu olhar leio a ventura,
Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?

A Alberto Sampaio

Não me fales de gloria: é outro o altar
Onde queimo piedoso o meu incenso,
E animado de fogo mais intenso,
De fé mais viva, vou sacrificar.

A gloria! pois que ha n'ella que adorar?
Fumo, que sobre o abysmo anda suspenso…
Que vislumbre nos dá do amor immenso?
Esse amor que ventura faz gosar?

Ha outro mais perfeito, unico eterno,
Farol sobre ondas tormentosas firme,
De immoto brilho, poderoso e terno…

Só esse hei-de buscar, e confundir-me
Na essencia do amor puro, sempiterno…
Quero só n'esse fogo consumir-me!

A Germano Meyrelles

Só males são reaes, só dor existe;
Prazeres só os gera a phantasia;
Em nada, um imaginar, o bem consiste,
Anda o mal em cada hora e instante e dia.

Se buscamos o que é, o que devia
Por natureza ser não nos assiste;
Se fiamos n'um bem, que a mente cria,
Que outro remedio ha ahi senão ser triste?

Oh! quem tanto pudera, que passasse
A vida em sonhos só, e nada vira…
Mas, no que se não vê, labor perdido!

Quem fôra tão ditoso que olvidasse…
Mas nem seu mal com elle então dormira,
Que sempre o mal peor é ter nascido!

A M. C.

Não busco n'esta vida gloria ou fama:
Das turbas que me importa o vão ruído?
Hoje, deus… e amanhã, já esquecido
Como esquece o clarão de extincta chama!

Foco incerto, que a luz já mal derrama,
Tal é essa ventura: eccho perdido,
Quanto mais se chamou, mais escondido
Ficou inerte e mudo á voz que o chama.

D'essa coroa é cada flor um engano,
É miragem em nuvem illusoria,
É mote vão de fabuloso arcano.

Mas coroa-me tu: na fronte ingloria
Cinge-me tu o louro soberano…
Verás, verás então se amo essa gloria!

AD AMICOS

Em vão luctamos. Como nevoa baça,
A incerteza das cousas nos envolve.
Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve,
Nas suas proprias redes se embaraça.

O pensamento, que mil planos traça,
É vapor que se esvae e se dissolve;
E a vontade ambiciosa, que resolve,
Como onda entre rochedos se espedaça.

Filhos do Amor, nossa alma é como um hymno
Á luz, á liberdade, ao bem fecundo,
Prece e clamor d'um presentir divino;

Mas n'um deserto só, arido e fundo,
Ecchoam nossas vozes, que o Destino
Paira mudo e impassivel sobre o mundo.

A um crucifixo

Ha mil annos, bom Christo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: ha Deus! e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!

Porque morreu sem eccho o eccho de teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste… ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojáras de nova á campa os membros lassos…

Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario…

E agora, como então, viras o mundo exangue,
E ouviras perguntar—de que servio o sangue
Com que regaste, ó Christo, as urzes do Calvario?—

Desesperança

Vae-te na aza negra da desgraça,
Pensamento de amor, sombra d'uma hora,
Que abracei com delirio, vae-te, embora,
Como nuvem que o vento impelle… e passa.

Que arrojemos de nós quem mais se abraça,
Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora
D'essa alma o sangue, com que vigora,
Como amigo commungue á mesma taça!

Que seja sonho apenas a esperança,
Emquanto a dor eternamente assiste.
E só engano nunca a desventura!

Se era silencio soffrer fôra vingança!..
Envolve-te em ti mesma, ó alma triste,
Talvez sem esperança haja ventura!

BEATRICE

Depois que dia a dia, aos poucos desmaiando,
Se foi a nuvem d'ouro ideal que eu vira erguida:
Depois que vi descer, baixar no céo da vida
Cada estrella e fiquei nas trevas laborando:

Depois que sobre o peito os braços apertando
Achei o vacuo só, e tive a luz sumida
Sem ver já onde olhar, e em todo vi perdida
A flor do meu jardim, que eu mais andei regando:

Retirei os meus pés da senda dos abrolhos,
Virei-me a outro céo, nem ergo já meus olhos
Senão á estrella ideal, que a luz d'amor contém…

Não temas pois—Oh vem! o céo é puro, e calma
E silenciosa a terra, e doce o mar, e a alma…
A alma! não vês tu? mulher, mulher! oh vem!

1862—1866

AMOR VIVO

Amar! mas d'um amor que tenha vida…
Não sejam sempre timidos harpejos,
Não sejam só delirios e desejos
D'uma douda cabeça escandecida…

Amor que vive e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser—e não só beijos
Dados no ar—delirios e desejos—
Mas amor… dos amores que têm vida…