OBRAS COMPLETAS
DE
ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
VOLUME 2.º
VOLUMES PUBLICADOS:
I—Amor e melancolia.
II—A chave do enigma.
NO PRÉLO:
III—Cartas de Ecco e Narciso.
CASTILHO
AOS CINCOENTA E NOVE ANNOS
(Reproducção de uma litographia feita em Paris por Desmaisons sobre photographia feita em Lisboa por Nasi)
OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO
Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos
======== 2.º ========
A CHAVE DO ENIGMA
NOVA EDIÇÃO
LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
Sociedade editora
LIVRARIA MODERNA
R. Augusta 95
TYPOGRAPHIA
45, R. Ivens, 47
1903[{5}]
[ADVERTENCIA ESPECIAL Á «CHAVE DO ENIGMA»]
Quando sahiu em 1862 a nova edição do Amor e melancolia, entendeu o poeta enriquecel-a com o precioso appenso que intitulou A chave do enigma.
N'essas paginas de brilhante prosa explicou ás legitimas curiosidades do publico portuguez os seus amores com a incognita recolhida do mosteiro de Vairão. Precedeu a narrativa d'esse caso com a historia da meninice, illustrando as suas formosas paginas com esboços de retratos de familia: sua Mãe, seu Pae, seu irmão querido, e outros, que servem de documentos autobiographicos, entre descripções de sitios, e ricas digressões sobre variados assumptos.
A incognita de Vairão era a senhora D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal, com quem o poeta ajustou casamento, sem ainda se conhecerem pessoalmente, e com quem veio a casar na egreja do mosteiro a 29 de Novembro de 1834; filha de Francisco da Silva Coimbra de Carvalho, e de D. Maria Fortunata Agostinha de Portugal.[{6}]
Algumas rapidas annotações irão acompanhando o texto; no mais deixemos falar o poeta. Melhor que ninguem nos saberá iniciar nos segredos da sua vida, que n'este livro decorre desde 1800 até 1837; isto é: desde o berço d'elle até á campa da sua virtuosa e digna primeira mulher, inspiradora, companheira, confidente, e amiga.
São paginas de saudade, em que elle a retrata, e se retrata a si.
OS EDITORES.
Áquella que já não sente, pendura com mão tremula n'um ramo do seu cipreste esta pequena corôa
O Autor.[{9}]
[A CHAVE DO ENIGMA]
Dezembro de 1861
Digam embora que me biographei; vou escrever uma pagina da minha vida.
Se mais ninguem a lêr, lêl-a-hão os meus amigos. Ella tambem, êrma de interesses grandes, desenfeitada de estilo, e só attendivel, se o fôr, por verdade e affecto, aspira unicamente a captivar a attenção dos poucos para quem um murmurio de folhas n'um retiro de estio, e de vez em quando uns gorgeios ou pios de duas aves que se entrereclamam emboscadas, supprem conversações, leituras, e até pensar.
Emfim, se nem para os meus intimos valer o que eu tenho de bosquejar, muito saudoso de tempos que lá vão, ficará sendo só para mim, e para quem m'o inspirou; ¡ah! quem m'o inspirou já m'o não póde lêr, mas por ventura o ouve. Será um devaneio,[{10}] e um solilóquio; será uma folha sôlta de uma deliciosa arvore longinqua, hospedeira minha ha muitos dias; folha que uma viração despegou, volveu nos ares, me atirou á fronte, e me lançou aos pés, para ahi fenecer esquecida.
Não vale a pena de mais prologo. Nem tanto me está parecendo agora que fosse necessario.[{11}]
[I]
Antes de tudo, releva conhecer o individuo. Não é empenho muito facil; mas tentemos.
Levanta-se logo a primeira difficuldade d'este capitulo na averiguação da identidade:
Reflicta cada um comsigo mesmo n'este grave ponto: ¿a repetição de nome, a similhança das feições, a conservação, com mais ou menos mudanças, da indole primitiva, dos gostos, e das relações activas e passivas com as pessoas e coisas do mundo externo, bastarão para que, em boa philosophia, um homem qualquer se repute unidade consoante, e unico indestructivel no meio da metamorphose universal? ¡Embaraçoso problema!
O espirito immaterial e immorredoiro quer, por instincto, por egoismo, por fé, acredital-o; mas o estudo da Natureza, e a propria experiencia quotidiana, desmentem em boa parte essa presumpção.
O individuo não é só a alma; o corpo que a reveste, a serve, e tantas vezes a domina, é mais que sujeito a continuas e espantosas variações; renova-se incessantemente, perecendo e renascendo a cada instante; a sua carne de hoje era ainda hontem vegetaes, ruminantes, aves, peixes, agua nas fontes, gazes na atmosphera, calorico no sol, terra debaixo dos pés, e electricidade sabe Deus por onde; congregaram-se[{12}] essas myriadas de particulas... existiu; ámanhan partirão, todas ellas destacadas para novas combinações e destinos, sem que o espirito lhes haja sentido a fuga, porque outras particulas, accorridas do universo, terão vindo rendel-as sem estrondo nem abalo.
N'este sentido cada individuo é simultaneamente filho, irmão, e pae, influidor e influido, conservador, destruidor, modificador, herdeiro, usufructuario, e testador, de quantos entes sensitivos, vegetativos, inorganicos, imperceptiveis, imponderaveis, são, como elle, parcellas componentes do planeta em que elle se proclama senhor e potentado.
Mas se esta desidentificação incessante do corpo escapa ás nossas percepções, por não apresentar de hora para hora mudanças apreciaveis no ser, no sentir, e no pensar, já assim não é quando nos outros, e em nós mesmos, confrontâmos a infancia com a puericia, a puericia com a adolescencia, a adolescencia com a virilidade, a virilidade com a velhice, a velhice com a decrepidez; ou, supprimindo os graus intermedios para maior evidencia, a caducidade com a madureza, a madureza com o desabrochar no berço.
¿Que ha ahi de commum?!
Unicamente o nome, accidente impessoal, insignificativo, nullo.
O corpo é manifestamente diversissimo, e em tudo outro; e com o corpo outro e tão diverso, outras e diversas egualmente são as faculdades intimas, outro e diverso o sentir, o querer, o recordar, o ambicionar.
Não são épocas de uma vida; são vidas verdadeiramente distinctas, talvez contrarias, que se encadeiaram por um trabalho simultaneo e occulto da Natureza e da fortuna, dos successos e de nós mesmos.
É por isso que o louvor ou vituperio, a recompensa ou o castigo, conferidos tarde, conteem sempre mais ou menos, uma injustiça distributiva; e talvez duas: preteriram aquelle que fez, e já não existe, e vão-se dar ao que existe mas não fez. ¡Que de vezes se não haverá suppliciado um justo pelo malfeitor que annos atraz o precedêra, e nada mais lhe legára que o seu nome e umas parecenças no semblante![{13}]
A solidariedade do homem comsigo, em remotos prasos da existencia, é pois tão infundada, como a de um individuo com outros, com quem nenhuns vinculos o prendem, e que operam, independente cada um na sua esphera, como elle na sua propria.
D'aqui vem que, sendo altamente suspeita de romance toda e qualquer historia que se escreva de um personagem, ou de um povo (ás vezes remotissimos em logar e tempo), sobre tudo quando o narrador pretenda assignar como causas aos successos o que se passou sem testemunha em tal ou tal coração, em tal ou tal espirito, pouco menos se eximirá de similhantes suspeições a noticia que o homem mais sincero pretenda transmittir-nos de si mesmo. «Escreve o seu preterito»—dirão os benevolos; mas escrever o seu preterito ¿não é escrever já de outrem?
Demais: ¡quantas perplexidades! ¡quantas conjecturas temerarias! ¡quantas supposições de boa fé, mas erroneas, quando ao clarão interrupto de reminiscencias enfraquecidas pretender levantar do pó as flôres, e os espinhos que n'elle se converteram, reedificar edificios, sobre os quaes se levantaram edificios novos, insuflar vida a sombras, resuscitar o coração de outr'ora, e achar a harpa interior com todas as suas cordas e a mesmissima afinação!
São estas, para quem bem o pensar, umas difficuldades, e tambem uns desenganos, e umas tristezas muito grandes. Nunca tão claro o senti, como ao reler agora este pobre livro. Forcejarei todavia por trazer á vossa intimidade, meus amigos, o autor d'elle, se ainda me fôr possivel, depois de tão apartados um do outro.
Um bem que ha n'esta desidentificação, n'este apartamento dos dois eus, é que, se algum bem me fôr necessario dizer do que foi, já ao que é se não poderá carregar em conta de vaidade.
[II]
Presupposto, como bem é de razão, que a Providencia fada para um destino especial a cada um dos que vimos a este mundo, ¿para que nasceria eleito,[{14}] ou precito, um menino que ha hoje sessenta e um annos desabrochava em plena luz, e recebia um nome que havia de ser meu? Cuido não me enganar muito affirmando, que simples e exclusivamente para haver ahi lá para o diante mais um cantor de affectos.
¿Que aproveita ao Pae da Natureza que haja mais um amante, mais um cantor? Nada sem duvida, pois lá tem em roda de si, para o amarem e cantarem, os seus Anjos; mas no seu systema de harmonias, entraram tambem os gorgeios dos passaros cá em baixo, musica das florestas e do oceano, a voz suavissima da mulher, e os canticos do poeta.
Assim como nem tudo na terra são seáras e frutos, nem tudo na humanidade lhe prouve a Elle que fosse laborioso e productivo no sentido grosseiro e restricto da palavra, como presumem economistas.
Emquanto o cavallo peleja, o boi lavra, a ovelha elabora o leite e a lan, um insecto o mel, outro a seda, plantas a saude, minas os metaes, ha boninas que só alegram e perfumam; ha murmurios no ar, e visões coloridas no ceo, que só recreiam: ha pedrarias scintillantes, que só adornam; ha balsamos, que só rescendem; ha o rouxinol para idealisar os mysterios da noite; ha no eremita a oração muda que se exhala para as alturas como aroma; ha na alma que sonha, miragens estereis, mas voluptuosas; e ha, no sonhar perenne do poeta, com que pague de sobra a seus irmãos as poucas espigas que rebusca das ceifas, os quatro palmos de solo em que se alberga, a agua da fonte commum em que se dessedenta, e o ar de que aspira reclinado o seu quinhão, para o exhalar convertido em melodias.
Fadada vinha pois, segundo cuido, aquella creança só para poeta, e poeta unicamente de branduras. Para a realisação do horóscopo se entendeu a Fortuna com a Natureza, como para o diante vim a reconhecer, quando, passadas as angustias da preparação, que assaz foram desabridas, e porventura insólitas, pude, chegado ao alto, abranger com um relance todos os pontos percorridos, vel-os, por effeito da distancia, aproximados, e descobrir-lhes então finalmente o systema e a harmonia.[{15}]
[III]
Foi a infancia do innocente, que eu ainda me recordo bem de ter conhecido, rosada, doirada, chilreada, alegrissima, como quasi todas as auroras. Mas os penates do seu berço haviam sido na cidade; e os passaros cantores não se criam e educam bem senão pelas amenidades tranquillas e scismadoras desses campos.
A ser verdade que a sciencia, com a imposição das suas mãos escrutadoras sobre uma cabeça, pode prognosticar o que a organisação interior contem de germes intellectuaes e moraes, capazes de grande producção, se as circumstancias lhes favorecem o desenvolvimento, parece-me que, desde que essa previdente fada humana,—a sciencia—annunciasse uma indole poetica, a sociedade mesma deveria tomar á sua conta essa nova indole privilegiada; e a fim de a pôr no mais seguro caminho para os seus destinos, fazel-a crear, o mais que possivel fosse, no seio da Natureza, sobre a terra larga que produz, ri, e canta, e debaixo do ceo que inspira, brilha, enamora, e enleva.
As forças do camponez, as graças de saude da camponeza, envergonham os enxames de frivolos e ephemeros dos grandes focos de população, ¿E porquê? A causa não deve ser outra senão, que das barreiras a fóra, longe do alcance do immenso carcere, se vive mais conchegado com a Natureza, mais debaixo da Mão invisivel, mas tepida e suave, do Creador.
Tudo na cidade é artificial (¡e de quão ruim e desentoada artificialidade as mais das vezes!). São prosaicas as occupações; prosaicos e arriscados os projectos e os desejos; apertadas, escuras, doentias, as vivendas; tolhidos os trajos; acanhadas as perspectivas. Se se escuta uma ave, é mais a queixar-se do captiveiro em que definha, do que a chamar pela companheira, que não tem, para fabricar berço a filhos, que nunca ha-de ter. Se se vê uma planta, uma d'estas mudas filhas de Deus que tanto sabem e dizem, tão bem florescem e medram na sua pacifica republica, é enfézada e triste na prisão de um vaso, debruçada[{16}] para uma encruzilhada immunda lá em baixo, ou alando-se n'um saguão á espreita do sol quando elle atravessar fugindo lá por cima pela estreita fita do céo, do céo immenso em toda a parte, e aqui só aos retalhos e sumiticamente repartido, ¿Que é da viração balsamica por estas ruas? ¿Que é da madrugada com os seus descantes? ¿o meio dia com os seus guardasóes verdes e movediços de trinta braças? ¿o crepusculo com as suas despedidas saudosas? ¿a noite com a sua orchestra suave tão grata ao amor, e com que se dão tão bem os somnos, os sonhos, as vigilias? Tudo isto, e infinitamente mais, tudo quanto era Natureza, desterrou-o a mão do homem quando desarraigou as arvores para plantar os seus estirados colmeiaes de pedra; desterrou as relvas, e as seáras, para assentar as praças; calçou as ruas, que não despontasse olhinho verde; multiplicou as fabricas, o commercio, o estrondo, para que os harmoniosos filhos do ar só muito por alto, e fugindo, se aventurassem a atravessar tão desmedida e nevoenta cratéra de prosa, de cuidados, de fadigas, e de desgostos.
Longe de mim negar puerilmente ás cidades suas vantagens sociaes; digo só que para a poesia se não fizeram ellas, e que, se n'essa frágoa algum engenho poetico resiste, se ahi canta, nunca ha-de ser tanto, nem tão bom, nem tão innocente, nem tão perfumado, como seria sem duvida nos campos; e apostaria eu uma hora de vida aldean, e até casaleira, contra dez annos bem medidos de um vegetar em côrte (apostaria e ganhava), que tudo quanto mais deliciosamente cantaram poetas em cidades, se elles nol-o quizessem ou soubessem declarar, das suas reminiscencias ruraes, porventura remotas e meio apagadas, lhes proveio.
De Virgilio só tiraria eu provas sobejas, irrefragaveis, se para coisa tão intuitiva fôssem ellas necessarias. Aquelle Virgilio, que florescia em Roma para coroar de gloria Cesares e deuses, tinha as mais vivazes raizes do seu genio, tão suavemente melancolico, longe e bem longe, onde ninguem lh'as enxergava: pelos cômoros, de murtas da aldeia de Andes, pelas margens do Mincio ciciadas de cannaviaes.
Redescendâmos de tamanho homem ao pequenino de quem iamos... historiar não, que lhe não sabemos historia, mas simplesmente conversar.[{17}]
[IV]
Importava que lhe chegasse com cedo a iniciação campestre. Com as impressões iniciaes se cunha a feição caracteristica de muita alma, se não fôr de quasi todas. Bem estreado aquelle, a quem as primeiras ideias do mundo exterior, puras e amoraveis, advieram afinadas pelo instrumento que a Providencia lhe armára dentro. Isso ao menos teve elle em seu favor.
Uma queda, que por pouco lhe não destruiu a vida logo no começo, foi seguida de resultados assustadores: pallido, descarnado, abatido, pareceu que poucos passos mediria do berço á sepultura. Uma noite acorda suffocado; golfa sangue em torrentes; sobresalta-se a casa; acredita-se que já não tornará a amanhecer-lhe; acodem os medicos; resolve-se como ultimo e unico regresso fuga precipitada para o campo.
Ao rasgar do dia já transpunha as portas da Capital, reclinado no regaço materno, rodando a carruagem tão vagarosa e precatada, que facil se adivinhava ir depositaria de uma existencia que ao minimo abalo se esvahiria.
Tanta coisa proxima e de vulto se me tem desluzido da lembrança, e ainda aquella noite angustiosa, e aquella manhan suavissima, aquella morte pranteada, e aquella resurreição de alleluia atravez de fragrancias, sombras verdes bordadas de oiro pelo sol, e emboras dos passarinhos, me estão impressionando como presentes. Não sei, nem ha já quem me diga, a quantos, nem em que mez, nem em que anno, fôra aquillo; o que sei é que todas as copas estão folhudas, e muitas floridas; que tudo quanto vem vindo para nós por um e outro lado do caminho ri contente, como em domingo de festa: as casas de quinta com as suas varandas e vidraças illuminadas do sol novo; bosques ociosos debruçando a cabeça por cima de um muro amarello para nos espreitarem; a porta vermelha entreaberta de uma horta viçosissima; aqui piteiras esguias e silvas recortadas nos cômoros; adiante estatuas, e vasos de marmore lavrados; um oiteiro com o seu rebanho a fluctuar,[{18}] e lá no cimo um moinho bracejando e cantando no trabalho, emquanto o dono á janellinha escuta ocioso a viração de Deus que lhe está chovendo pão lá dentro.
Notava eu, em meio d'este paraizo, lagrimas nos olhos de minha mãe, e não as comprehendia; deviam ser de commoção.
Minha mãe tinha alma poetica; (lá coração poetico todas as mães o teem). Se a tivessem apparelhado com educação e instrucção apropriadas, poderia ter escripto deliciosamente; florejou sem cultura, e sem saber que florejava. Nos festins de familia, quando a saude dos seus, a presença de quantos lhe eram caros, e a prosperidade da casa, a exaltavam, improvisava versos faceis e melodiosos, em que scintillavam faiscas de talento, e certa graça natural; pareciam aquelles uns meros reflexos involuntarios do seu contentamento intimo; e eram; mas o contentamento intimo só tem resplendores taes n'um espirito de eleição.
Meu pae, a quem a severidade da sciencia e a supremacia da razão não deixavam logar para ser poeta, que não tinha sequer nascido com a organisação propria para isso, mas que, pelo complexo de outras suas qualidades eminentes, era uma das pessoas mais proprias que eu nunca vi para reconhecer, aquilatar, criticar, e dirigir poetas; meu pae, costumava repetir que, se minha mãe não tivera sido obrigada a repartir todas as suas horas pelas occupações domesticas, e toda a sua poesia nativa pela educação dos filhos, se fôsse uma cenobita, por exemplo, com poucos livros, muito remanso, e a Natureza, por certo deixaria de si boa memoria para entre as escriptoras portuguezas.
Deviam ser logo aquellas preciosas lagrimas, com que minha mãe me rebaptisava renascido, menos causadas do manso alvoroço festival de terra e céo em primavera, que da lucta em que lhe iam, no coração, o temor e a esperança.
A immensa viagem, que não passou de uma legua, deveu lançar-me no espirito delicado e absorvente, os primeiros germes dos meus, já agora indestructiveis, amores, para com as lindezas do universo.[{19}]
[V]
¿Conheceis, para além do arvoredo do Campo Grande, no retirado sitio do Paço do Lumiar, aquelle edificio, nobre sem fausto, que faz frente ao pequeno Largo do Poço, e que talvez communicou á povoação o seu nome aristocratico? Eis ahi o termo da piedosa peregrinação de minha mãe; eis ahi onde a reflorescencia me aguardava, e com ella novas e abundantes sensações, das que a minha indole ia absorver com avidez, e assimilar, para fructificar alguma poesia em vindo a quadra.
Recebeu-nos com alvoroço, e com affecto patriarchal nos hospedou, a familia, ainda nossa parenta, a quem a vivenda pertencia, familia ainda mais ligada comnosco por laços de amisade, e de leal e não interrompida convivencia. Compunha-se de mãe, uma filha entre doze e treze annos, e seu irmão pouco mais idoso.
Amalia (era o nome da minha pequena prima) possuia, com o semblante mais vivo e sympathico, a indole mais expansiva e carinhosa; os seus olhos, cujo extraordinario brilho eu estou ainda admirando, eram dotados de um magnetismo precoce; é tal, que até os de uma creancinha, como eu, se pasciam n'elles com delicias; mas não era ainda assim nos olhos que estava o seu maior feitiço; a sua voz tão suave, como nunca depois ouvi outra alguma, sahia por uma bocca tão singularmente pequenina, que podéra quasi quasi haver tentação de a extranhar á primeira vista, se não parecesse, com o seu sorriso habitual, uma rosinha das mais pudibundas a entreabrir-se; era um ósculo perpetuo da innocencia.
Amalia, com a superioridade que lhe conferia sobre mim a differença dos annos, quiz tomar-me desde logo maternalmente sob a sua protecção, prohibindo-me, por interesse na minha saude, o participar dos brincos tumultuosos, para os quaes seu irmão me provocava. Meu primo era já então militar por genio; a barretina empennachada, o boldrié lustroso, a espada de madeira, as dragonas, e a banda de official, com que a si mesmo se despachára, faziam-n-o[{20}] preferir aos passatempos sedentarios, mais conformes aos gostos de sua irman, e á minha fraqueza, o estrondo e o movimento.
D'ahi provinha que as mais das vezes, emquanto elle marchava a passo dobrado ao som de um tambor imaginario, esgrimia contra uma estatua, ou degolava alguma papoila trémula, Amalia e eu, pacificamente sentados muito mão por mão a uma sombra do jardim, toucavamos de minhonetes e amores-perfeitos as suas bonecas, emmolhavamos ramalhetinhos para nossas mães, e interrompiamos a cada momento a esmerada tarefa, logo que uma abelha doirada, uma borboleta branca ou azul, ou um pio de ave escondida, como que por malicia, entre as folhas, vinham suscitar a minha curiosidade, e accender-me exclamações de maravilha e contentamento. Minha prima gosava-se da minha alegria, e tinha vaidositamente o ar de ser ella quem me estava fazendo as honras da primavera.
Dissereis, se reparasseis, como eu, na complacencia com que ella contemplava, ora o seu jardim tão formoso, ora o seu priminho tão attento, que era uma poetisa desvanecida com o effeito do seu ultimo poema n'um ouvinte encantadissimo; e que tudo aquillo que eu amava no seu jardim, os arbustos enfeitados, os ninhos palreiros, os insectos volteantes, as aguas harmoniosas, tudo ella tinha feito, ou pelo menos aconselhado e pedido a um Anjo feiticeiro, feiticeiro como ella. Eu quasi que assim o acreditava; se me tivessem dito que ao seu mando podiam rebentar das pedras lyrios e rosas, ia pedir-lhe esse prodigio como a coisa mais natural de todo o mundo.
Creio que nos amavamos; mais que no sentido da amisade; mais até que no sentido do amor; ¡no sentido do paraizo terreal, quando a humanidade vinha despontando resplandecente de innocencia!
Amavamos de certo; posso affirmal-o pela viveza e saudade com que estou, agora mesmo, sonhando tudo aquillo.
Não sei se o coração me latejava; sei que me palpita agora com a maior força; sei que dera eu hoje o throno do Celeste Imperio, e todos os thronos ao mundo, e até a gloria de Homero, e de, todos os poetas, pelo revivimento para mim de tal primavera[{21}] com todas suas circumstancias, embora com a certeza de vir eu proprio a murchar, e destruir-me com a sua ultima flôr.
[VI]
Todos os ridentes allegorisadores da antiguidade falaram de um Cupido filho de Venus, armado de fogo e settas, cruel e suave ao mesmo tempo, incoercivel e fugitivo como os sonhos. Existe esse, não ha duvida; mas ha outro amor, podéra eu affirmar-lhes, que nasceu do casamento de uma açucena com o zephyro; que mesmo suspirando está a rir; que sóbe em espiraes melodiosas para o ceo até se perder de vista, mas não foge; reapparece, e redescende fiel ás mesmas amenidades d'onde levantára o vôo. Não fere, nem envenena; encanta. Não accende fogo para deixar cinzas; brilha na alma como sol. Não se rodeia de aves de agoiro, nem de sonhos temerosos. Não desvela as noites, já com prazeres instantaneos, já com delirios, e arrependimentos contumazes, mas se imbebe na andorinha do beirado para nos acordar cada ante-manhan com as alegrias puras que ella sabe. Não cura de ciumes; quizera que todos amassem como elle. Não é um amor concentrado, exclusivo, incompleto, que só põe a mira n'um objecto caduco; é outro amor profundo e infinito como a Creação, com cujas maravilhas, maravilha elle proprio, se renova; a sua venda, se a tem, não escurece; é toda de brilhantes diaphanos e prismaticos, que redobram os prestigios do Universo. É o primogenito de todos os amores, e o que a todos sobrevive. É o que serviram, adoraram, e nos ensinaram a adorar, sem nome, todos os grandes poetas, desde Orpheu até o Thomaz dos passarinhos. É o que a virgem mais ingenua está sonhando voluptuosa, quando absorta suspira, e parece triste. É o que á mente do religioso levanta escadas floridas para o Empyrio. É o que annuncia, como boa nova, ao caduco, uma arregaçada de saudades, um chorão, um gorgeio estivo, e prateados raios da lua para cima da cova. É, em summa, o que aos impotentes da infancia segreda tantas coisas ineffaveis que os alvoroçam, e de que o outro amor, em chegando, ha-de receber porventura muita herança.[{22}] Tal era a mysteriosa divindade que presidia aos nossos passatempos, sem que eu então a adivinhasse.
Amavamos pois decididamente.
[VII]
Vigiava-nos inquieta, suspeitosa, sollicita, a mãe de Amalia... Não riais: o seu coração materno tinha razão; um coração materno tem razão sempre. Não era um impossivel o que ella temia; apavorava-a um perigo real; e quanto a ella, segundo todas as mostras, muito provavel, ¿Que perigo? o da communicação da minha doença a um ente a quem ella sentia vinculada a sua existencia, e sem o qual, ainda que o quizesse, não saberia já viver.
O sangue que eu perdêra, a minha debilidade, todo o meu exterior, induziam a crer que a enfermidade que trabalhava tão activa por dentro em me destruir, ¡era.... nada menos que a tysica! mal ainda então rarissimo, com que hoje pela generalidade se vive familiarisado, mas do qual no começo d'este seculo nem quasi se ousava proferir o nome senão em baixa voz.
A familia, em cujo seio despontava tal phenomeno, forcejava pelo encobrir a todo o custo aos de fóra, como um castigo divino e uma ignominia; e abria ella mesma uma area de respeitoso terror, em cujo centro languescia, soccorrida, mas desamparada, a pobre victima. A roupa, os moveis, até a loiça do seu serviço, tinham marca, para que ninguem lhes tocasse. O confessor, o medico, o amigo, os filhos, a esposa, não chegavam ao alcance do seu halito; era o leproso; era quasi o damnado aquelle triste esqueleto vivo, envolto na sua pelle livida e ardente, e a quem, para luxo de desgraça, a Natureza subtilisava a vista e o ouvido, conservando-lhe inteiras a memoria e a intelligencia até á ultima. Emfim, logo que o espelho apresentado aos labios por um braço estendido de longe, e tremente, testemunhava com o seu cristal não empanado, que o ultimo bafo se esvaecera, ainda a terra o não tinha recebido, quando já os seus vestidos, o seu leito, a sua cadeira de martyrio, o livro das suas derradeiras orações, tudo era entregue[{23}] ás chammas, e as mais prolixas ceremonias de lustração, tanto religiosas como physicas, acudiam á poisada; acontecendo, muitas vezes, que nem depois de picadas e renovadas as paredes, havia temerario que se aventurasse a occupal-a.
Deus louvado, o tempo não tardou em mostrar, pelas mais irrefragaveis provas, que a minha enfermidade, com toda a sua carranca de profunda e fatal, era passageira, e que d'aquella frágoa poderia sahir, como de feito sahiu, uma constituição vigorosa e duradoira.
Aos nossos amores, tão bem correspondidos de parte a parte, nem sequer faltou pois o estimulo de uma quasi prohibição, e o sainete de terem de se andar recatando, sobresaltados ao minimo rumor, como verdadeiros criminosos. Se não fosse a presença de minha mãe, e o affecto e delicadeza com que sua prima a tratava, ter-nos-hiam, provavelmente, separado, enclausurando na casa a amante, e deixando livres, mas desertos, para mim, o jardim e a quinta, largo e formoso banho dos ares balsamicos, de que eu então sobre tudo necessitava. Quem havia de lucrar com isso era João, meu primo; o que sua irman perdia, ganhava-o elle; era um namorado de menos, e um soldado de mais para o seu regimento, em que até então era elle só a força e o commando, o porta-bandeira e o tambor.
Havia muitas horas, entretanto, em que a mãe de Amalia, com a razão, ou com o pretexto do estudo ou dos bordados de sua filha, a retinha no gyneceu da casa; essas horas (bem o sabem todos os que amaram) deviam-me parecer eternidades; para as abbreviar, ora ia sentar-me n'um banquinho ao pé do seu bastidor, enlevado em vêr rebentar flôres debaixo dos seus dedos, e ouvindo os contos, que ainda hoje me lembram, da velha e gorda cosinheira Escholastica; ora me detinha encostado ao grande portão de grade de ferro no lado fronteiro do pateo, com os olhos pregados na janella do quarto de lavor; feliz quando de traz da vidraça me alvorecia a miude, saudando-me com um sorriso, aquella pequena rosa que eu esperava, e que já de lá como que me estava ensaiando os beijos que eu d'ali a pouco havia de colher ás escondidas no caramanchão, especial asylo, e o mais seguro, dos nossos furtos.[{24}]
[VIII]
É uma grande pena que não saibam as creanças escrever, e não registem, para depois as lerem, as suas memorias, e que a torrente caudalosa dos successos ulteriores lh'as desgaste e confunda quasi todas; a sua historia poderia ser muito mais gentil, muito mais elegante, muito mais instructiva, que as historias e novellas de outras idades.
Á mingoa de taes documentos, que bem preciosos me seriam agora, fui hontem 19 de Dezembro d'este 1861 visitar, ao cabo de tantos annos, logares tão queridos, e evocar n'elles os phantasmas verdes dos arbustos do meu tempo, o phantasma candido d'aquella que eu tantas vezes arraiei, como gentil Maia, á custa d'elles, e o meu proprio phantasma pequenino, alegre, buliçoso, tão puro, tão amante, e diante do qual, como diante d'ella, eu me ajoelharia, se o encontrasse. Palpitava devéras ao approximar-me, como sem falta deve acontecer a quem se acerca de um logar de mysterios, ou a quem excava um solo, de que espera enthesoirar reliquias santas da antiguidade. Parecia-me que o mal transparente veo, que, tanto ha, me collocou o mundo n'uma penumbra, de repente se levantaria por um milagre da vontade e do affecto, e que eu ia rever tudo tal como o levava no coração e na saudade.
¡Ai ninho de tantas delicias! ¡quem se atreveu a desfazer-te! De tudo que ali havia, e que era tantissimo, ¡quasi que só eu resto! Não importa: profanados, perdidos mesmo, esses logares conservam, indelevel ainda para a minha alma, a sua primitiva sagração. Tornarei a visital-os na proxima primavera; talvez se me recordem então do que hontem só confusamente lhes lembrava; encontrarei porventura valverdes florídos, rainunculos matizados, quinquagesimos descendentes, e mais, dos que tão suavemente brilhavam no meu tempo; e esses alguma coisa saberão relatar-me de tão antiga historia. O portico viçoso, estrellado de jasmins, que bordava de sombras graciosas o vestido branco de Amalia, quando, abrigados ali n'um meio dia de verão, escutavamos as cigarras emboscadas, ha-de por força com a sua fragrancia falar-me d'ella,[{25}] e avivar-me no espirito um cardume de sensações lyricas ineffaveis.
Por agora, que estou dictando a uma legua de distancia estas paginas, talvez indifferentes a todo o mundo, e frias como a estação em que nascem, que me acho diante de outras arvores nuas, que aguardam, saudosas como eu, dias de festa, o mais que posso dizer é que a primeira impressão photographica da bella Natureza, toda esplendida e de uma admiravel nitidez, foi ali que a minha mente a recebeu. Um tal quadro, que tinha de me ficar no sanctuario intimo para todo sempre inspirativo, fecundo, milagroso, e contendo a synthese da galeria do Universo real e imaginario, mal podéra haver tido tal perpetuidade e tal virtude, se lá m'o não collocassem uma fada e um genio, uma mulher e um amor; mulher recem-cahida das estrellas e ainda ignorante da sua destinação; amor puro como o dos Anjos encarregados de enfeitar a Natureza, e que, terminada a tarefa, dormitam entre os obeliscos que levantaram, e sonham céo.
Assim, ao mesmo tempo que as minhas forças medravam a olhos vistos de dia para dia, e que os diversos receios das duas mães diminuiam de manhan para manhan ao alegre florir do meu aspecto, se foi a minha indole compondo com duas religiões, que a final se reduzem a uma só: o culto das gemeas e eternas amantes universaes,—a Natureza e a Mulher.
[IX]
De tão ameno passeio na alva da vida chego de repente á escarpa de um precipicio, d'onde é inevitavel o despenho para um abysmo.
Encetava eu apenas a carreira do estudo, tão menino, tão menino, que o ouvirem-me já ler, e verem-me formar caractéres, era (nunca a minha vaidade o esqueceu) um thema de admirações e de felizes prognosticos para os parentes e amigos da familia. De repente outra doença, mais terrivel que a primeira, e menos esconjuravel do que ella, não paga com martyrisar-me, não contente de balançar-me por um fio largos mezes entre a vida e a morte, me atira vivo para um sepulcro! Eu respirava; mas os bellos olhos,[{26}] idolatras das flores e de Amalia, e vangloria de minha mãe, não sabiam se havia ainda no ceo o sol de Deus! É impossivel recordar-me d'esse prazo, prazo de não sei quantas eternidades, sem que ainda agora o coração se me confranja.
Imaginae um homem á hora em que se fosse embarcar n'um bergantim doirado, por um mar de prata, com virações balsamicas dos vergeis da terra, cuidando já velejar horizonte em fóra para um mundo de delicias... e lançado de improviso no mais fundo subterraneo de uma torre. Esse homem tão desafortunado, e desafortunado tão sem culpa, que nem ainda era homem, fui-o eu; e tanto mais sem-ventura, quanto ninguem então, nem eu por conseguinte, me julgava possivel a ressurreição, e a soltura.
Convalesci; d'esta vez sem os soccorros do campo. Tinha as forças e a edade para folgar, tinha o desejo e a precisão do movimento, da convivencia, da fraternisação geral, da conquista, emfim, que pelos olhos se opera de continuo nos inexhauriveis dominios da Natureza e da sociedade; não podia permanecer immovel; mas o meu carcere sem lanterna me seguia por toda a parte. A ave da poesia, que me pipilava dentro, debatia-se contra as grades, quando ouvia lá de fóra estrondear a vida festival, e pelo ecco deshumano das suas vozes se lhe revelava o sem numero de bellas coisas, que até os insectos e vermes senhoreavam pela vista.
[X]
Dera-me a Providencia, entre meus irmãos, um, dois annos mais novo do que eu, cuja indole sympathica inteiramente com a minha, cujos gostos em admiravel harmonia com os meus, nos constituiam mais que irmãos,—duas metades inseparaveis do mesmo todo. Ardia tambem n'elle a faisca sagrada. Não era tudo o palpitar o coração de cada um dentro no peito do outro; os nossos espiritos se adivinhavam de parte a parte; a nossa conversação tinha... (¿como hei-de dizer isto?) o que quer que fosse de um solilóquio, ou de um cantar ao ecco. Levava-lhe eu a vantagem de vinte e quatro mezes mais, elle me levava a de mais um sentido. Havia equilibrio, e compensação; cada um dava, e cada um recebia. Este mesmo interesse[{27}] mutuo contribuia para a espontaneidade da nossa fuzão necessaria e suavissima.
Chegou a edade dos estudos. Era tempo de aparelhar com as chamadas humanidades para as sciencias. ¡Que inveja e que tristeza, quando meus irmãos, ambos mais novos do que eu, sahiram pela primeira vez deixando-me só para se irem inscrever na classe de latim! Permittiu-se-me accompanhal-os; attendi; devorei; li pelos ouvidos; corri aposta com os mais applicados.
O preceptor, bom e honrado velho, que, trinta annos havia, professava com devoção o idioma de Cicero e Virgilio, observa a minha attenção; interroga-me curioso; reconhece e declara não ter discipulo que mais em cheio haja absorvido as suas doutrinas.
D'essa hora em deante fui eu o filho adoptivo, o predilecto, o mimoso, do seu enthusiastico romanismo. Não só erudito de amplos cabedaes, mas poeta, poeta elle mesmo, poeta utriusque linguæ, julgou reconhecer em mim, pelo modo como lhe eu traduzia as paginas inspiradas que elle me lia com fogo, e pela promptidão, sobre tudo, com que eu lhe restituia nos versos originaes os trechos que elle para isso me recitava das Musas cesáreas reduzidos a proza portugueza, julgou, digo, reconhecer uma indole fadada para a poesia; e pôz com generoso exforço peito a cultival-a.
Tratar as Musas, e em particular as latinas, é desenvover a um tempo phantasia e sensibilidade:
......lecto carmine doctus amet.
O poeta que assim cantára, logo ali se apossou de mim para toda a vida. O seu estudo, que eu nunca mais interrompi, que depois alarguei, e que ainda agora me é delicias, entrou pois como elemento energico, tanto como as amenidades do Paço do Lumiar, e os amores infantis de minha prima, na composição mysteriosa e providencial do meu verdadeiro destino, que nunca foi desde o principio, nem já agora póde ser outro até ao fim, senão, repito, a poesia.
Meus irmãos passaram-me dentro em pouco de condiscipulos a discipulos; e o mais novo, Augusto, de discipulo a inseparavel. ¡Que annos! ¡Que annos[{28}] esses! ¿Quem, tendo-os uma vez desfructado, os esqueceria em nenhum tempo, em nenhuma fortuna?!
Augusto e eu, que afinal já éramos um só, fanatisados deveras com as grandiosidades heroicas, com as fabulas ridentes e floridas que nos surdiam de continuo ao excavarmos por aquelle mundo fossil e classico, pode-se dizer que nos naturalisámos Romanos antes de sermos Portugueses; fomos antiquarios enthusiastas na puericia; os cobres, que os d'aquella edade desbaratam em doces e brinquedos, convertiamol-os nós em qualquer alfarrabio, que no frontispicio nos trouxesse um dos nomes Romanos immortaes, cuja ladainha sabiamos de cór, e recitavamos com veneração, desde o principio da edade aurea até ao cabo da edade ferrea e lutea, desde Livio Andronico até aos escriptores já christãos, ultimas reliquias do Imperio e da lingua a desfazerem-se. Devoravamos tudo aquillo sem guia, sem escolha, temerariamente, mas com uma perseverança, com um affecto, com um encantamento, inexplicaveis. Excusavamos, repelliamos qualquer outro passatempo; visitas, passeios, tudo nos era enfadonho, comparado com a delicia de vaguearmos pela Italia velha, de ouvirmos os seus heroes pela bocca de Tito Livio, de entrarmos com Virgilio familiarmente no palacio rustico d'el-Rei Evandro, de nos espairecermos com elle, Calpurnio, e Nemesiano, por entre as amenidades campestres, e ouvirmos cantar Horacio n'um pomar da sua Tibur:
...... ad aquæ lene caput sacræ
coroando-nos como elle
...flore, terræ quem ferunt solutæ
ou de escutarmos suspiros e galanteios de Tibullo, Propercio, Gallo, Catullo e Ovidio. Ovidio mais que todos nos levava traz si as vontades. (Não prégo moral; historío).
A poder de lidarmos com aquella gente, aformosentada pela distancia, e tão ideal vista de cá; tudo gue não era ella, o seu viver, o seu pensar, o seu idioma, as suas festas, nos parecia mesquinho, insipido, repugnante; sonhavamos acordados.[{29}]
D'isso me adveio, cuido eu, e não podia deixar de ser em edade tão branda para receber cunho, uma confirmação não pouco efficaz para a poesia.
[XI]
E na verdade, já que estamos conversando desenfadados, sinceros, e sem armar a vanglorias, ou, por outra, já que me estou confessando dos meus peccados de poesia pratica, direi aqui (embora quebre o fio da narração, depois o atarei) que, estendendo a consideração por todo o longo e variado decurso da minha vida até hoje, não descortino em toda ella senão... (¿como direi isto que me não afronte em demasia?) senão um predominio constante da phantasia sobre a realidade; uma extranheza activa e passiva dos homens, successos e coisas do mundo, em que vivo como que emprestado, semi-pagão, semi-classico, semi-republicano dos Gracchos, semi-conviva de Mecenas, semi-Tityro, semi-captivo das Corinnas e Delias, e, com tudo isto, a esvoaçar-me sempre da poesia que foi, ou que se nos figura lá traz, para outra que lá adiante ri aos santos amigos da humanidade, aos utopistas.
Sempre que o individuo, de quem falo, entrou, ou cuidou entrar, na politica (n'esta parte, Deus louvado, já escrevo o necrológio) foi sempre levado do enthusiasmo, ignorante da historia contemporanea, e da mesma politica, não ajuramentado a bandeira de côr alguma, não adstricto a tal ou tal plano de estadista, curando pouco de nomes, e menos ainda de interesses proprios; foi campeão sem divisa de uma causa apenas prophetisada, vaga, confusa, remotissima.—a civilisação pela moral, pelo amor, pelo trabalho, e pelo saber. Pueril e incorrigivelmente seduzido por miragens humanitarias e poeticas, nunca passou entre os politicos positivos de alvitrista chimerico, e homem para nada; pugnou com o ardor de quem reivindicasse algum morgado pingue, pugnou até vencer (¡vêde isto!) para que se fechasse aos tentados de suicidio a paragem vertiginosa que mais por seu contagio os attrahia; empenhou sabios em procurarem remedio, se o houvesse, que diminuisse as duas pestes:—duello, e infanticidio; incitou[{30}] para o cultivo serio das Lettras quantos talentos esperançosos descobriu; foi de todos amigo sem inveja, pregoeiro sem restricções; propoz para os veteranos dos estudos e da poesia uma Runa gloriosa, abundante, e aprazivel, em vez do hospital que ainda não mandou queimar a enxerga de Camões, á espera dos que poderão vir; pediu, e tambem debalde (¡debalde até isto!) um Campo Elysio terrestre para os mortos memoraveis; suas effigies postas pelo publico agradecido nos passeios, e uma lamina commemorativa pregada pelo Municipio na frontaria de cada casa, testemunha do nascimento, dos trabalhos, ou do obito, de um benemerito; procurou e descobriu as reliquias do Cantor dos Lusiadas, para que as desagravassem; forcejou com a persuasão para que se desse á agricultura o seu apreço, á imprensa o mais amplo favor, premios reaes aos talentos operosos e productivos, subsistencia e honra aos educadores, ensino liberal, christão e ameno á puericia; pela puericia, que é a nação de amanhan, fez mais, muito mais, quanto poude e mais do que podia: invocou por ella ceo e terra, throno e plebe, sabios e ignorantes, ricos e miseraveis, o clero e as mulheres; foi na vanguarda dos consociados para se promover a educação popular; fez-se, a expensas de tudo seu, mestre-escola de plebeus e descalços; evangelisou de terra em terra o novo ensino, o ensino racional, a centenares de professores honestos; pelejou na imprensa, com o amor e com o odio, desde a supplica até á verrina, em prol dos calcados direitos da infancia, da maternidade, e da Patria; e convencido, pela evidencia dos factos, resposta eloquente e peremptoria aos negadores das vantagens da reforma, que riem, que riem da caridade, que riem da philosophia, que riem do progresso, que riem de seus filhos, que riem de si mesmos, deixou pendente a envelhecer por dez annos, desenfeitada e esquecida, a sua lyra (¡oh! ¡milagre summo de uma fé verdadeira!), para andar sollicitando a redempção e o baptismo de luz dos captivosinhos de sete e menos annos; foi levar o beneficio espontanea e gratuitamente ao Brazil; ambicionou que lh'o acceitassem do mesmo modo na Hespanha e na Italia. Se n'estes dois lustros de lidas obscuras, só pagas com desgostos, alguma hora se recordou de poetar, foi só para convidar[{31}] com o exemplo e com o discurso talentos melhores que o seu a encetarem cantares de civilisação, a enxertarem nos loireiros estereis alguns ramos fructuosos; e não se levantou da cadeira de um ensino quasi ignobil aos olhos do mundo, senão para escrever livros sem vulto, mas necessarios ou uteis:—Noções rudimentaes;—Guia pratica de mestres;—Tratado de Metrificação;—Tratado de Mnemonica;—Felicidade pela instrucção;—Felicidade pela agricultura;—Tentativas grammaticaes—um Curso de lingua latina;—e, de envolta com tudo isso, requerimentos reiterados e instantes aos poderosos, ás sociedades, ás academias, aos principes, aos tribunaes de instrucção, para que o ajudassem.
Quando um Rei amigo dos que trabalhavam, e cheio elle mesmo de nobres ambições, convidava ao poeta de outr'ora para ir colher fructos de oiro num ensino altamente litterario, ousou o poeta pedir-lhe commutação no serviço, offerecendo-se-lhe operario para a trasladação dos monumentos classicos romanos á lingua patria, por entender que ia n'isso muito maior vantagem aos estudos e á poesia, ainda que para elle menos lucro e menos brilho.
Todos estes rasgos de loucura se provam e documentam d'aquelle pobre sonhador, a quem, deneguem tudo mais, coração e muitissimo não lh'o podem contestar.
[XII]
¡Que digo! ¿Esta mesma digressão aqui não é porventura uma sobreprova de quanto o amor, na sua mais vasta accepção, o amor que não suppre assim a poesia senão porque o é, constitue o caracter do pobre homem? Nem os desenganos o desenganam; nasceu affectivo; affectivo tem vindo caminhando pela vida fóra, da primavera para o estio, do estio para o outomno, que já se lhe desverdece, e nem os gêlos do inverno lograrão provavelmente resfrial-o.
Na festa da Primavera, n'esses dias do amor só sensual e egoista, bem que innocente, ¿que pedia elle aos amigos para quando já não existisse?
Deixae-me escutar n'um ecco d'alma aquelles versos:[{32}]
Depois que entre os abraços delirantes
de todos os que amei findar meus dias,
sepultae-me n'um valle ignoto e fertil.
Para marcar da sepultura o sitio,
sobre o cadaver que vos foi tão caro
mangeronas plantae, cuja verdura
em roda fecham variados lirios.
Na raiz funda da soberba olaia
poise a minha cabeça, e o tronco amigo
sobre mim curve a copa florescente.
Mil piteiras unidas, ostentando
na hastea vaidosa as flores amarellas,
em quadrado não grande me defendam
das incursões das cabras roedoras.
Em meu tronco se escreva este epitaphio:
Foi poeta amador da Natureza:
d'entre as sombras ancioso a procurava,
qual terno amante a bella fugitiva.
Sobre isto pendurae sonora flauta,
que se revolva á discreção do vento.
Não cerque os ossos meus, não m'os ensombre,
nem teixo nem cipreste; arvores quatro
quizera só no meu jardim de morte.
N'um canto a laranjeira graciosa,
que mescla util e doce, a flor e o fructo;
n'outro a figueira sob as amplas folhas
modesta occulte seus nectáreos mimos;
defronte um pecegueiro em fructos mostre
que amavel é pudor, quando enche faces
de penugem subtil inda cobertas;
no ultimo canto... (a escolha me confunde)
plantae no ultimo canto uma ginjeira;
é a arvore da infancia, até na altura;
d'esta por sua mão colhe um menino
a mui ridente baga, e ri de ufano.
Alguns tempos depois que a fria terra
meus restos encerrar, á minha olaia
vós, meus amigos, vós dareis meu nome,
pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.
Dos guerreiros nos tumulos afiem
faminta espada os barbaros guerreiros;
no sepulcro do sabio o sabio estude;[{33}]
e dos Reis nos marmoreos monumentos
vá sonhar a ambição grandeza e pompas;
vós soltos de freneticas loucuras
aqui vireis mil vezes visitar-me,
na amizade pensar que nos unira,
e unir-nos deverá transposto o Lethes.
¿Por que me interrompeis com taes suspiros?
¡ah! deixae-me acabar. Quando sentados
em torno a mim na flórida alcatifa,
guardardes meditando alto silencio,
se d'entre as mangeronas que me cobrem
sahir acaso a borboleta errante,
¿não vereis n'ella o espirito do amigo
que vem gozar do sol a claridade?
Quando o suave rouxinol de noite
da minha olaia gorgear nos ramos,
¿não pensareis, de santo horror tranzidos,
que feito rouxinol, meus cantos sólto?
Sim, pensareis, e erguendo-se inspirado
algum lhe ha-de bradar: «¡Oh! ¡meu amigo!»
Responderão: «Oh meu amigo» os bosques;
e vós direis que o meu phantasma errante,
da argentea lua á muda claridade,
á conhecida voz d'alem responde,
e em tudo encontrareis a imagem minha.
Se inda então meus costumes vos lembrarem,
se vos lembrar meu coração piedoso,
velae que em meu retiro as bellas aves
de caçador cruel cantem seguras;
Amor, o leve Amor, com arco d'oiro,
só elle, e mais ninguem logre atirar-lhes;
careço de amorosa melodia
que me poetize o somno derradeiro;
morto que nada tem, preciza d'estas
pobres delicias rusticas, se folga
que a namorada moça, o terno amante,
juntos, ou sós, a visitál-o acudam.
Então ao som de languidos suspiros,
de alegres cantos, de amorosos versos,
de ternas queixas, de perdões suaves,
muitas vezes contente a minha sombra,
formando ao pôr do sol vermelha nuvem,
girará n'estes ares revolvendo
da passada existencia almas lembranças.[{34}]
Andaram tempos. Amores mais serios, mais vastos, mais duradoiros, mais uteis, ainda que menos entendidos das turbas a quem se referiam, inspiraram já outros desejos:
Ó terra de Colombo, um navio de esmola
do abysmo te evocou, e aurea brotaste á luz.
Por outra regia Heroina esmolada uma escola
vai transformar-te em ceos, terra de Santa Cruz.
E eu, que já uma vez, largando o patrio ninho,
romeiro do progresso em balde te busquei,
retomarei de novo o undívago caminho,
e irei juntar meu hymno ao seu triumpho; irei
pender na escola-templo os festões da poesia,
e, novo Simeão, findar a vida em paz.
Onde o homem que se humana affoito invoca o dia
direi:—«A patria é esta; aqui viver me apraz;
«apraz-me aqui morrer, onde as mães porventura
co'os filhos pela mão me hão-de vir visitar;
saudades esparzir na minha sepultura,
e dizer: Este sim, que soube o que era amar.»
Passaram tempos ainda, e até essa esperança consolativa se desfloriu. Ouvi o esmorecimento não já cantar, mas gemer, no seio da amizade:[[1]]
«Depois vem a reparação, a rehabilitação, não ha duvida. Do sepulcro brota o loiro, e a posteridade amarra a elle os inimigos dos amigos dos homens, os areopagitas idolatras envenenadores dos Socrates crentes. Mas as cinzas não sentem; as estatuas não vêem nem ouvem.
«O premio que eu devaneava a principio, quando via tão ás claras a bondade da obra que estava fazendo, era que os filhinhos, e as mães, me acompanhariam, chorando, ao cemiterio. A esse côro de amor imaginava que até o cadaver se me alegraria. Não dava aquelle triumpho posthumo pelas torrentes de carroagens e salvas funebres dos magnates.[{35}] Pois nem já com isso conto. Conseguiu esta gente, não sei se invejosa, se quê, diffundir tão copiosamente os seus preconceitos, escurecer em tanta maneira a luz do beneficio, que nem já espero aquillo. As mães ver-me-hão passar, sem saberem quão grande amigo de seus filhos e netos ali vai; e d'estes só porventura me irão dar despedida os que n'esta hora estão cantando e amando por essa meia duzia de escolas regeneradas».
[XIII]
Saiamos d'aqui a toda a pressa, leitores amigos, antes que nos degenere em paginas de santa mas feia indignação, um escripto que eu vos prometti e destinei todo pacifico e amoravel. Torno-me pois á minha Arcadia da mocidade, como o soldado mal ferido das guerras, e ainda mais dos menoscabos que dos golpes, se acolhe á quieta poisada em que se creou.
Apóz algumas tentativas incertas e incoherentes de lavor poetico, de que o publico se esqueceu, e eu quizera esquecer-me tambem, foi a fabula selvatica de Narciso e Ecco a primeira producção que me rebentou nativa, e verdadeiramente congénita áquella indole campestre e amoravel, que os successos e os estudos me tinham andado a preparar desde o principio. Nunca jámais essas singelas Heroides, impetuosamente e quasi de improviso brotadas (posso hoje dizer isto sem jactancia, e sem que os entendidos m'o descreiam) ousaram esperar o extraordinario, o excessivo favor com que foram recebidas, multiplicadas em edições sobre edições em Portugal e no Brazil.
¡Ora, quem poderia jámais lembrar-se de que um livrinho assim, todo vão, todo fabuloso, uma especie de globo de espuma, nascido de um sopro para boiar nas virações por alguns instantes, espelhando os verdes da terra e o azul de cima, e apagar-se para sempre, filho do nada restituido ao nada, conteria o germen de uma historia muito real!
Pois foi assim: Das Cartas d'Ecco e Narciso, sahiu, como de flôr ephemera um fructo, o Amor e Melancolia, este Amor e Melancolia, que já não era[{36}] um devaneio e um canto, mas sim registo disfarçado de uma historia do coração: lacrimæ rerum.
[XIV]
Tres annos havia que tinham apparecido pela primeira vez as Cartas d'Ecco; e dois os poemetos da Primavera.
Residia então o autor de ambas estas bagatellas nos sitios mesmos, que, em harmonia com os vinte e quatro annos d'elle, lh'as haviam inspirado. Repoisava, já fóra do estádio academico, nos ocios tão poeticos do seu Mondego. A casa da vivenda conheceil-a vós, desde que o mais poeta dos nossos prosadores[[2]] pela magia da sua penna, que é ao mesmo tempo varinha de condão, vol-a descobriu, vol-a franqueou, vos fez, queridos leitores meus, entrar n'ella a visitar-me.
Pois bem: Era ali, n'aquella casa, ainda hoje lembrada do nosso nome, n'aquelle espaçoso e singular edificio, encostado, de uma parte á vertente de Subripas, de outra ao Arco moirisco de Almedina; dominando o rio convisinho e a margem ulterior, e dominado pelo castello de templarios, theatro do tragico fim de Maria Telles; era ali, n'aquella estancia, de aspecto meio senhoril, meio claustral, com seu pateo espaçoso, e escadarias de pedra, suas enormes laranjeiras enclausuradas, suas varandas ajardinadas, seus erguidos miradoiros; era ali, ali, para onde eu tantas vezes me recolho em espirito, ainda agora, a escutar os descendentes dos rouxinoes que festejavam, como nós, a Lapa dos poetas; ali, ali era, que os dias e as noites se nos devolviam, ao meu inseparavel e a mim, nas leituras amenas, nas conversações mais amenas ainda, com os bons engenhos juvenis, que a tão hospedeiro retiro nos acudiam de boa mente.
Era o Setembro de 1824; um donoso Setembro na verdade: estio em cheio e sombras á farta. Liamos os dois, isto é o um; por outra: recitavamos de cór pela centesima vez as elegias de Tibullo, á sombra de uma laranjeira merecedora de as ouvir, e muito[{37}] bem capaz de as ter ditado, se fôra em Italia, e para tanto lhe desse a velhice, que todavia não era pouca. (Nenhuma circumstancia d'aquelle tempo se me desbotou ainda da memoria).
¡Chega uma carta! ¡lettra desconhecida!... Abre-se, reza assim:
«Azurara, pelo correio de Villa do Conde, 27 de «Setembro de 1824.—
«Amar o mais perfeito é um dever:
«Virtudes tantas devem ser amadas:
«Se vos apparecesse uma Ecco, imitarieis vós o vosso Narciso?
«A desconhecida
«Maria da Expectação Silva e Carvalho.»
¿Que significava, que podia significar aquillo? ¿Era uma pergunta candida? ¿era um brinco malicioso? ¿era masculina, era feminina, a mão que tal escrevêra? ¿como responder? ¿a quem responder? O coração, ou presago, ou desejoso, dizia uma coisa; a prudencia, outra. O Tibullo era do parecer do coração; todos os mais poetas votariam como o Tibullo. O sol, que observa ha tantos mil annos coisas de todas as castas, e de certo não ignorava o segredo d'aquella, espreitava-nos, e ria. A laranjeira, scismava calada; como aia e enfeitadeira de noivas, lá se inclinava para o sim; mas tambem, como velha, desconfiava. O Samsão de marmore do angulo do terrado, esse continuava a escachar pacificamente o seu leão, e não se intromettia na contenda.
Por muitas vezes se releu a carta á espera sempre de algum subito reflexo revelador; ¡e o enigma cada vez mais fechado!
Era caso para pesquizas, pois de qualquer dos oppostos lados que a verdade estivesse, não faltava que fazer, e tinha-se de lhe acudir com resposta.
Armou-se uma verdadeira caçada; empenharam-se n'ella quantos visinhos e praticos de Villa do[{38}] Conde e Azurara se puderam desencantar; ¡e o mysterio a cerrar-se cada vez mais! ¡e a curiosidade, o interesse, a recrescerem-me na mesma proporção!
Respondi emfim ao meu phantasma:—«Que não ousava eu muito acreditar em apparições de Eccos para quem não fosse Narciso; mas que, se por milagre houvesse uma, nunca eu seria tão insensato como o filho de Liríope.»—
Até aqui podia eu chegar com a resposta sem me comprometter; para diante fôra já arriscar-me. Partiu. Fiquei aguardando com certo dessocego pela réplica. Chegou, correio por correio.
Era a mesma lettra sem disfarce, e a mesma assignatura supposta. Mas d'esta vez, em logar de linhas contrafeitas, paginas com todo o desartificio amavel e persuasivo, com toda aquella graça nativa feminil, que se não imita. Quasi com certeza andava ali mão e espirito de mulher. ¿Era ella porém interprete solitaria de sentimentos proprios?; ou consocia e agente de uma conjuraçãosinha zombeteira? ¿Como descriminál-o? Não havia melhores razões para uma, que para outra supposição.
A substancia d'aquella carta, que eu não devo nem quero tirar do sacrario em que a enthesoiro como reliquia, reduzia-se a querer-me convencer de quanto eu era injusto para comigo, e de quão mal conhecia o sexo amoravel, se o julgava todo unicamente sensivel aos encantos dos Narcisos; emfim: que o poeta, que tão verdadeiros affectos suspirára por uma deusa ideal,—a Primavera, merecia bem que uma mulher o procurasse para compôr a felicidade d'elle, e pela d'elle a sua propria.
Isto, e muito mais a este modo, expunha a carta; mas por uns termos tão obsequiosos, tão lisonjeiros, e ao mesmo tempo tão naturaes, como os eu não saberia expor aqui em traducção.
O inverosimil principiou ali a figurar-se-me provavel. Nas regiões imaginarias em que vivem os poetas, não ha extranhezas senão para o que é natural e corrente; o ordinario são os prodigios.[{39}]
[XV]
Sem me atrever a confessar a minha nascente, ou já nascida, persuasão, senti ir-se-me levantando n'um recanto do animo um altarzinho todo verde e florido para uma divindade ainda invisivel, mas cuja aproximação já por um certo calor suave se me denunciava.
Diz que muitas leguas ao largo de Ceylão já o gajeiro, embalado lá em cima no sol doirado do Mar Indico, percebe na fragrancia das virações tepidas as selvas de canelleiras da ilha, ainda occulta pela convexidade marinha, mas que vem correndo a encontrál-o. Assim me sentia eu levado para uma ilheta de amores, que, já aspirada, e ainda não descoberta, vinha por cima do seu mar de aljofares offertar-me, toda donosa e festiva, a hospedagem das suas sombras inebriativas. Um côro de sereias a meio caminho nos revelava, nos annunciava de parte a parte; e, assim como se vê tantas vezes no mar um navio pela acertada disposição das velas demandar a terra, com o mesmo vento que de lá sopra, a aura que me falava do meu porto, a mesma era que para lá me conduzia.
«Não ha cubiça do que se não conhece,» dizia um antigo poeta; extranha sentença; e para de poeta, muito mais extranha. A mui veridica historia que vos narro, duas vezes a desmentiu: nem a que me buscava me conhecia, nem eu conhecia a que buscava.
E nem por isso é a coisa tão para espantos como de fóra e á primeira vista se representa. ¡Que de consorcios se não teem celebrado, até com amor, entre ausentes, pela simples troca de retratos! ¿Que mancebo se poderá gabar de não ter sonhado muitas vezes, dormindo e acordado, com a heroina de um romance, ou com o invento prestigioso de um pintor? ¿Quem ha que não saiba o caso d'aquella moça franceza, que se finou de paixão pelo seu Telemaco? Ninguem o prediria a Fénelon, quando, accezo no santo amor do genero humano, compunha para a eternidade o seu homerico poema social. Temperae de um pouco de poesia a qualquer coração[{40}] (o nosso era temperado de muitissima) e vel-o-heis palpitar todo credulo por um phantasma. Para uma Virginia, este phantasma será Paulo; para um Paulo, Virginia; para um astronomo, um planeta, que elle, em nome do seu calculo, intima aos abysmos celestes lhe apresentem; os phantasmas das religiosas, são os anjos; os dos cenobitas, virgens do Empyrio; o dos artistas inspirados, a gloria na posteridade; o meu, tinha sido com effeito a Primavera, continuava a sel-o, mas agora humanada em figura feminil.
[XVI]
Se eu me não temesse da gente em prosa, que só acredita no que se palpa, havia de dizer que a aspiração para o bello desconhecido, para a perfeição ideal, entresonhada onde quer que seja, e com qualquer dos milhões de fórmas em que ella se póde metamorphosear, tanto não é extranha á Natureza, que não são unicamente os individuos privilegiados da nossa especie, os que a experimentam.
¿A rôla, a pomba, o rouxinol, a gemerem de saudade, a arrulharem de ternura, a gorgearem de immenso affecto, por que enlevam tanto, e tantas coisas inefaveis dizem aos animos devaneadores, senão porque os seus gemidos, suspiros, e canticos, almejam coisa diversa dos deleites faceis que os rodeiam, e que já possuem?
E depois: o Pae Commum não é avaro de seus dons, e ha-de folgar quando cada uma de suas minimas creaturas, alando-se quanto póde e sabe pela esphera dos gosos puros, se aproxima cada vez mais a Elle, que é a Summa Belleza, o Summo Bem, de que todos os bens são emanações ou reflexos.
¡O rouxinol, a pomba, e a rôla!... mas os insectos mesmos, ¿quem affirmará que não se pascem, como nós, ainda que muito longe de nós, á meza infinita, perenne, e perennemente renovada, do amor ideal?
¿Quem sabe até o que irá de mysterios nas flores e nas arvores!? ¡que idyllios, que elegias, que divinos poemas não correrão nas florestas com o murmurinho dos ventos em estrophes de aromas, intelligiveis[{41}] ás arvores congeneres, e ás flores da mesma especie!...
A carta, que de algures levantára vôo para algum fim, a carta que eu tinha nas mãos, tão candida, tão vivida, tão palpitante e amoravel, tão segura e tão certa, podia ser portanto, e, se o podia ser, era-o, uma especie de borboleta, que sahira das flores de uma alma solitaria e longinqua, para vir fecundar as da minha com um polen ardente e inesperado. Os effeitos que ella em mim produzia (logica ordinaria dos desejos) eram, á mingua de outras provas, uma vehemente presumpção de que o bom do papel vinha mensageiro leal, e não explorador perfido da minha credulidade; e entretanto mal sabia eu como lhe respondesse.
Deixar-me ir de vôo rasgado ao reclamo fôra temeridade indesculpavel; mas fôra tambem excesso de prudencia, repugnante a um sentir delicado, aventurar offensas, embora leves e disfarçadas, para rebater um aggravo só possivel; queria-se o meio termo; e esse era difficillimo; e difficillimo sobretudo como eu o desejava, que era propendendo mais para o coração, que para o espirito; para abraço, que para duello.
Meditei todo o dia.
O que eu nas falas gracejava por cautella, já no fôro intimo se me discutia como negocio.
Empenhei todas as potencias da alma, como poderia fazer o Edipo deante da Esphinge. Levei o serão e a noite a sós, no laranjal, a interrogar a lua, antiga confidente de namorados.
A lua, ou nada sabia no caso, ou, se o sabia, não o quiz dizer.
Mas a noite, grande terceira e fautora n'isto de amores, segredava-me ao sabor do appetite, com umas taes razões, tão cheias de poesia, isto é de verdade, que o genio fogoso dos meus vinte e quatro annos fez sahir, sem grandes evocações, não sei se de algum tronco, se das nuvens, se d'entre as pedras e heras da varanda de D. Maria Telles, uma Sombra de mulher, uma Fada, uma Sylphide, com quem eu tive ali horas ineffaveis de colloquio, desabroxando e enramalhetando futuros em commum.
Tenho pena de não poder já copiar aquellas praticas, nem as achar mesmo para mim bem inteiras na memoria.[{42}]
Se o leitor, ou leitora, tem a edade que eu tinha então, e é poeta, mas poeta verdadeiro, d'estes que não só lêem e escrevem a poesia, mas a vivem, lá rastreará por si aquella scena tão cheia, tão real, tão animada. Se bem a concebem, tenho-lhes inveja eu; digo como a Santa da lenda:—«Ai! ¡que saudades me não comem do tempo em que eu era tão infeliz!»—ou, como a outra, toda delirante de ternura:—«Tenho dó dos demónios; ¡pois se elles não amam!»—O meu Virgilio, tão poeta na voz, na alma, e no coração, exclamava saudoso:—«¡Oh! ¡quem me dera nos campos, lá pelas ribas do Sperchio; pelos cumes do Taygéte, bacchanalmente retoiçado das virgens lacedemonias! ¡Ai! ¡quem me pozera hoje nos valles, tão frescos, do Hemo, e com a sombra grande de suas ramarias me protegera!»—
¡Que melhores Sperchio, Taygéte, e Hemo, que melhores campos, delicias, e feitiços, que a adolescencia com o amor, e o amor com os seus extasis e raptos!
¡Que de coisas se não descortinam e ouvem então, que depois se calam e desvanecem!... engano-me: não se desvanecem, nem se calam; são vivazes e immortaes no seio da Natureza; mas nós, é que transpomos a paragem bemdita de reconcavos e eminencias, onde se recebem em eccos augmentativos todas aquellas vozes, d'onde se descortinam em cheio todas aquellas vistas maravilhosas.
¡Oh! detende-vos ahi; detende-vos; abraçae-vos aos troncos floridos o mais pertinazmente que poderdes, que em principiando a descida... ¡adeus primavera! ¡adeus amores! ¡adeus sabedoria das loucuras! ¡adeus miragens e musicas da vida! ¡adeus de vós a vós mesmos! ¡e adeus esperanças de reascenderdes nunca mais! Os leitos de rosas e as corôas de violetas, já lá estão hospedando a outros viajantes que vos expulsaram. Resignae-vos, se podeis, á peregrinação, por sobre espinhos, e por entre saudades, cada vez mais espessas.
¡Ah! ide quantas, e quantas não vou eu já carregado para o ciprestal que lá ao fundo me negreja! Tiremos d'elle os olhos, e deixemol-os ir ao que lá nos fica perdido, ¡perdido para todo sempre!...[{43}]
[XVII]
Passeava eu pois com a minha apparição candida; sentava-a ao pé de mim; apertava-a nos meus braços; mostrava-a com ufania ao astro das noites, que não era mais puro, nem mais limpido; pedia-lhe, promettia-lhe uma ventura ainda não experimentada na terra; unificavamos pelas nossas confidencias o nosso passado; o nosso porvir entretecia-se n'um ser unico. O existir eu, era para mim, n'aquelles momentos extraordinarios, a mais solemne e convincente demonstração da existencia, da realidade, da indispensabilidade d'ella: ella existia, visto que eu existia.
Não riais: eu amava perfeitamente. «¡A um espectro!» não: a uma mulher, a uma mulher, de quem só o corpo, talvez, ali faltava, e cuja entidade moral e espiritual me pertencia me acompanhava, me velava.
¿Não me sentia eu repassado do calor das suas azas invisiveis? ¿não tirava a cada momento de cima do coração palpitante, para a rebeijar, a carta por onde tinham girado os seus olhos, em que poisára a sua mão, que aspirára tão de perto as exhalações do seu seio, do seu coração e da sua alma?
Aquella carta exercia incontestavelmente em mim um influxo magnetico, dominador, prestigioso; eu não sabia, nem tentava, explicál-o; mas negál-o, por um scepticismo ingrato e mal philosophico, muito menos o podia, muito menos ainda o desejava.
Sentia-me tão bem sob aquella dominação absoluta, era tão bom permanecer assim, que o meu voto summo seria que nunca mais amanhecesse, se as falsas alegrias da madrugada me haviam de dissipar tão afortunado Elysio.
Mysterios intimos da grande Isis, religião do amor, ¡infeliz quem vos não conhece! ¡mais infeliz quem chegou a conhecer-vos e vos perdeu! Esse é como o tronco sêcco: vicejou, florejou cem annos, cantou com todas as aves debaixo do céo, mimoso da terra, familiar com o sol, confidente das estrellas, abrigo aos amantes, depositário dos seus nomes e votos, suspirando suave com elles, inebriando-os com suas exhalações, promettendo-lhes, e promettendo-se, primaveras[{44}] sem numero e sem fim; depois, murchou; cortaram-n-o, cahiu; fizeram d'elle, se o não deixaram apodrecer, ou o não queimaram, um instrumento grosseiro para revolver o solo, um barco para transportar mercadorias; ou, quando mais bem livrado, um Satyro tosco, de quem riem os passageiros, ou uma apparencia de Bemaventurado para um altar. ¡Oh! ¡como aquelle arado, se podesse pensar, trocaria com alvoroço o seu prestimo, aquelle barco os seus serviços, aquelle Satyro o seu arremedo de riso, aquelle Santo a sua alampada e os incensos, por uma só das horas frivolas e sem historia, da arvore, que vivia, que amava, e que era amada!
A minha visão, a minha mulher sem nome, nem fórma determinada, prestes para receber qualquer fórma, e qualquer nome, era, se me podem bem entender isto, uma cifra, um symbolo, e o ideal da feminidade. No seu ser se epilogavam para mim todas as perfeições, todos os encantos dispartidos por quantas existem, existiram, ou poderão jámais existir; por isso a minha ternura para com ella era sem limites; era um amor, que n'aquellas horas de enthusiasmo abrangia todos os amores, presentes e futuros.
¡Oh! ¡O amor! ¡o amor! se ha n'este mundo coisa que nos possa dar ideia da grandeza da alma, da profundeza da adoração, do infinito da bemaventurança, é o amor.
Contam que uma só noite de terror e angustia já cobrira de cans e rugas a um mancebo; uma só noite como esta no meu pomar de estio, abraçado, confundido com a minha invisivel, remoçaria a um Nestor.
¿Que seriam todos os gosos materiaes comparados com aquella religiosa voluptuosidade?
¿Onde ha ahi alcova de noivos, estreada apoz dez annos de suspiros, onde ha ahi harém de hurís circassianas sobre rosas, ao som dos epithalamios dos rouxinoes do Bósphoro, que se não trocasse por este noivado mystico, tão sem rumor, tão puramente celebrado debaixo do céo e no seio da Natureza estiva pela poesia e pelo amor?[{45}]
[XVIII]
Em quanto assim me corriam ali horas de feitiço, ¿onde estava e que fazia realmente ella?
Só muito depois o vim a saber: pela sympathia inexplicavel que nos attrahia mutuamente, sentia-me tambem comsigo na sua soledade. Eu era lá o seu phantasma carinhoso, como ella cá o meu; a lua que de cá e de lá contemplavamos em commum, observava lá e cá as mesmas scenas tão parecidas, tão eguaes, que a duplicidade lhes não tirava a identidade. Supprimam os accidentes de logar; era no mesmo ponto do oceano dos tempos um só ninho de duas alcyones, que, embaladas mollemente no seu bemquerer, ignoravam que houvesse mundo para fóra da esphera dos seus affectos. Assim, não eram já imaginarios os abraços que dava, os abraços que recebia cada um de nós; as nossas declarações, juras, e protestos, entravam nos ouvidos, desciam ao coração a que se dirigiam.
O amor, a quem os milagres são naturalissimos, triumphava já da distancia, como havia de triumphar do tempo e da fortuna.
O sol e o movimento mundano e prosaico do dia seguinte, enfraqueceram seu tanto as impressões do drama nocturno e intimo. Encerrei-me no meu quarto; fechei as janellas para revocar no remanso de trevas artificiaes a sombra magica; reappareceu-me, porém não já a mesma; faltava-lhe a animação que a vehemencia da minha fé lhe prestára; de tão real que tinha sido, tornava-se de novo problematica. As objecções da razão gelada e desabrida, oppunham-se outra vez á prophecia da vontade. A linguagem nativa e sincera da carta, era um protesto eloquente e energico da innocencia e do amor contra as suspeitas; mas as suspeitas murmuravam sempre; a vaidade (¿quem a não tem?) a vaidade, similhante áquelles rhetoricos subtis das escolas antigas, sustentava alternativamente o pró e o contra: ora pretendia se acreditasse n'um affecto, que enobreceria a quem lhe servia de objecto; ora repulsava uma crença, que, a sahir burlada, redundaria em vergonha muito grande e muito certa.[{46}]
N'estas alternativas passaram dias e noites; dias penosos, estirados, e ermos; noites acompanhadas, festivas, instantaneas. Só quando repoisava tudo, velava e vivia eu. Os meus pensamentos e as minhas alegrias, com as flores nocturnas se abriam, com as flores nocturnas se fechavam. Só as estrellas se podiam mirar n'elles, n'elles que tanto se lhes assimilhavam no brilho e na pureza.
Quando, apagadas em casa as ultimas luzes, e reinando já profundo silencio ao longe por toda a cidade, cerca de meia noite, eu entrava com pé furtivo e o coração pulando, no aprazado arvoredo dos meus amores, já ali encontrava á minha espera a figura branca. Com mil beijos soffregos nos saudavamos, vingando-nos em minutos da eternidade do sol. Pedia-lhe de joelhos perdão de a ter renegado, de ter duvidado da sua existencia, durante as horas insipidamente allumiadas. Com um abraço restauravamos as pazes.
Sentava-a ao meu lado, n'um banco rustico, afoufado para ella por minha mão com mangeronas, que as havia em grande espessura á sombra da laranjeira mais alta. Reclinava ella a sua cabeça languida para cima do meu hombro, ou eu a minha face ardente sobre o seu seio, a escutar-lhe e a interrogar-lhe o coração. Repetiamos os nossos incendidos dialogos da vespera, como novos. Misturavamos lagrimas de ternura e felicidade. Reviviamos antecipados os mais bellos futuros. A qualquer tenue rumor, d'estes com que a noite, maliciosa amiga dos namorados, se diverte a assustál-os, estremeciamos como dois culpados colhidos em flagrante; ella, forcejava por fugir; eu, escondia-a, rindo, com os meus braços contra o meu peito; guardava-a ali muito tempo como filha; embalava-a, adormecia-a, inspirava-lhe com beijos os sonhos que havia de sonhar, insinuava-me n'elles, e lhe repetia em voz baixinha as mais suaves coisas d'este mundo. Se um grillo cantava então, se um ramo ciciava lá por cima, impacientava-me de que m'a acordassem. Perguntava-lhe ao ouvido pelo seu nome, pela sua familia, pela terra da sua vivenda; não respondia. Inquiria-lhe, em tom ainda mais leve, se já porventura em algum tempo outro amor lhe sobresaltára o coração; levantava-se de repente, grande, sublime, aggravada da suspeita, prestes a desaparecer[{47}] para sempre; e fal-o-hia, se ambos os meus braços a não retivessem pela cintura:—«Se eu não tivesse um coração ainda virgem, ¡como ousaria offerecer-t'o! ¡offerecer-t'o espontanea! ¡a ti! ¡ao meu poeta!»—dizia ella com uma voz que não saberia mentir por mais que fizesse. Pedia-lhe outra vez perdão, agradecendo-lhe a ineffavel certeza que me dava da minha felicidade tambem no passado; outorgava-m'o generosa; mas impunha-me, como penitencia, que lhe improvisasse poesia. Era a poesia o que a fascinára? o que a attrahira para junto de mim; e eu (¡bemditos os vinte e quatro annos!) derramava, inspirado só por ella, poesia nova e fervente, por entre aquelles troncos mudos, como as Philomelas no seu enthusiasmo a esperdiçam pelos choupaes do seu Mondego.
Como a das aves, se perdeu a minha; mas nunca a exhalei tão de dentro, nem tão para a alma, como então.
[XIX]
Agora caio eu de repente em mim, e me envergonho de tudo que tenho estado doidejando. ¿Tinha eu direito, ou necessidade, de fazer em publico similhantes confissões? ¿Não deixarei ahi violados dois pudores: um meu, outro alheio e mais que meu? ¿Haverá indulgencia que baste para devaneios tão frivolos e pueris? ¿Não me desdenharão até, como ficções inverosimeis, absurdas, impertinentes, estes idyllios elegiacos, tão verdadeiros todavia? São verdadeiros, e eu prometti historiar; eis aqui a minha unica defensa.
De mais, eu confio em que os leitores, aliás benevolos, se não esqueceram do que se ponderou no principio d'este escripto; a saber:—que, nem em bem nem em mal, se póde carregar á minha conta o que fazia ha trinta e oito annos um que tinha o nome que eu hoje tenho; e que esse nascêra e se creára, unica, simples, e exclusivamente, para poeta, poeta de amores e delicias.
Pressupposto isso, continuemos o pobre romancinho, que nunca o houve mais historico; e tornemo-nos á carta, que, tantos dias ha, espera uma resposta.[{48}]
Ignorava eu pois, e de nenhum modo podia conjecturar, d'onde procedêra, e que mão a havia escripto; mas propendia, por não sei que vaga revelação, para crêr que não era senão mulher, poetisa, enthusiasta, e muito superior ao vulgar pelo talento, quem assim me desafiava o coração, enamorando-me o espirito.
¿Reflectistes alguma vez no que seja aquelle bichinho de Deus, que pelas noites de verão está scintillando do fundo de um relvado, sua immensa floresta? Pois aquillo é uma namorada. O seu resplendor, que allumia as hervas até á enorme distancia de um palmo em redondo, é a manifestação esplendida do vago e poetico amor em que ali se consome solitaria; é uma Hero, mais sublime, chamando e attrahindo com o seu facho um individuo da sua especie, que ella nunca viu, mas que adivinha ter-lhe sido predestinado pela Natureza. Deixae-o andar a elle saltitando inconstantemente pelo labyrinto dos silvados, nas chorêas aereas e loucas dos seus eguaes, como um cardume de pequenas faiscas intermittentes; deixae-o volitar tão altivo da sua liberdade, que a energia do luzeiro lá em baixo, tão formoso e mais vivido que o seu, o arrebatará em vindo a hora, e no leito de seda de uma florinha, sob o docel de uma folha verde, o amor e o hymeneu accenderão os seus fachos áquella duplice chamma confundida n'uma só.
Tal se me affigurava a minha ingenua correspondente, irradiando d'aquelle modo até a mim, lá do interior do seu pacifico retiro, o poetico brilho dos seus affectos innocentes.
Na carta refulgia, com effeito, um amor. Era como um carbunculo, que, trazido para o escuro, continua a expedir os raios de que o impregnou o sol.
Respondi finalmente. Foi heroica a determinação; foi o salto fatal de Leucade; foi dar de cabeça para baixo na voragem, que, ou me havia de atirar arrogado e desconhecivel para cima do lodo, ou restituir-me ao dia, feliz, glorioso, coroado dos myrthos de Paphos pelas sereias.[{49}]
[XX]
Entretanto, no meio da minha allucinação vaidosa, nunca me desamparou de todo o previdente instincto da dignidade; as minhas paginas confessavam, sim, o amor; amor profundo, amor immenso; mas este amor immenso e profundo, qual eu o emprestára á Nympha aerea dos montes, qual eu proprio o tributára á deidade phantastica da Primavera, e qual mulher nenhuma deixaria de o colher com avidez, se o encontrasse, apparecia aqui como um rico fructo do paraizo, ainda pendente no ramo, já maduro, já proximo a despegar-se, baloiçando-se a um lado e a outro, indeciso para onde haveria de cahir; era, na realidade, como fôra na fabula o ramo de oiro, passaporte para os campos ditosos de além mundo, mysterioso ramo que ninguem por força, nem por fraude, esgalharia da arvore, mas que por si se deixava tomar da mão chamada pelos destinos para o haver.
Tal foi, mas em phrase chan, e sem atavios de estylo, a substancia da minha resposta: enigma contra enigma, oraculo contra oraculo.
N'este vago, de que um e outro, por motivos differentes, mas com egual cautella, evitavamos deslisar para o positivo, se foi continuando, cada vez mais frequente, mais ampla, mais amigavel, mais sincera, e mais interessante, a nossa correspondencia.
Se quem escrevia era aquillo que eu desejava, devia estar contente de mim; se era outro, e mal benevolo, o empenho que dirigia aquella penna, esquivava-lhe eu escrupulosamente os azos para triumphos. Eu por minha parte estava satisfeito de mim, e encantado com tudo quanto se me ia de novo de dia a dia descobrindo de perfeições na minha Galatéa, que, ao exemplo da de Virgilio, me atirára a maçan refugiando-se para os salgueiros; entrevia-a eu por entre as ramas; não a chegava ainda a conhecer de todo, mas differençava já com evidencia, que não era satyro travesso, mas sim nympha, namorada e negaceadora como os passaros:
..............................lasciva puella.[{50}]
Não descontinuavam, no emtanto, diligencias para se descobrir o esconderijo, em que se homisiava sempre que se presumia ir-lhe já lançar a mão á ponta do veo. Com a obstinação do mysterio, recrescia o affinco das pesquizas.
Apparece um fio no labyrinto: as minhas cartas vão por Villa do Conde para Azurara; mas ¿quem as toma em Azurara? Espia-se, colheu-se: é uma servente do proximo convento de Vairão. Está pois a caçada circumscripta a um pequeno recinto, d'onde já não ha fuga possivel para a pobre corça: agora é deixar-se tomar ás mãos rendida e envergonhada.
[XXI]
É Vairão um nobre mosteiro de Donas da Ordem Benedictina. Está situado quatro leguas ao norte do Porto, na terra da Maia (Palencia dos antigos) entre Douro e Minho; corre-lhe perto o formoso rio Ave, que, por entre as villas do Conde e de Azurara, entra, grosso de caudaes, e já senhoril, no mar. As convisinhanças do edificio o tornam grave e meditabundo: a uma parte, serranias altas e solitarias; a outra, o Oceano, que rumoreja resguardado da vista por immensidade de pinheiraes.
É tão fidalga a antiguidade de Vairão, que ninguem, ha já muito, nem elle proprio, lhe conhece a origem. Fundal-o-hia, segundo uns, em 1148, D. Touris; segundo outros, na muito mais apartada era de 485, certa senhora nobre, Marispala, de quem se delettreia ainda o nome n'uma incompleta loisa grande, como campa de sepultura. Fôra, resam memorias, convento duplex de monjes e monjas da regra de S. Bento, que debaixo dos mesmos tectos tinham extremadas as clausuras, e communs no templo os exercicios religiosos. Exhala-se ainda agora d'aquellas paredes um grande e bonissimo cheiro poetico de seculos e santidade.
Ali pois vivia desde a meninice, secular e educanda, a minha desconhecida. Não foi difficil adivinhál-a d'entre as companheiras; de sobejo a denunciavam a notoria superioridade da sua instrucção e talento, e as suas tendencias todas litterarias e poeticas, herdadas no sangue e nos exemplos domesticos.[{51}]
Constava por tradição ter sido uma das illustrações longinquas da familia o classico Doutor Antonio Ferreira, autor da primeira tragedia de Ignez de Castro, e particular amigo de Antonio de Castilho. O não menos classico Nicolau Tolentino de Almeida fôra irmão da avó da nossa educanda, senhora de virtudes tão iguaes aos seus altos espiritos, que o grande satyrico usava dizer que só se casaria, se o casamento com irman fôra permittido.
Desappareceu a mascara: Maria da Expectação Silva e Carvalho é já, descoberta e confessa, D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal.
O meu romancinho devia terminar n'aquelle ponto, ou proseguir transformado em historia; estava escripto que proseguiria.
Tal era tambem, e fôra desde a primeira hora, a tenção resoluta e inabalavel da que viera despertar-me para a festa do coração.
Assenti; deixei-me por ella conduzir, indifferente a calculos, adverso por natureza a previdencias; tão poeta no real, como no imaginario o tinha sido, e como o hei-de já agora ser até ao fim; em summa: verdadeiro crente na Providencia.
[XXII]
Parecia que eu e Maria tinhamos ouvido da propria bocca do Salvador o admiravel sermão da montanha; ¡tanto nos estava profundamente impressa dentro a sua doutrina! Eram com effeito evangelicas, ou de boa nova, estas palavras de Christo:
—«Não hajais cuidado do vosso viver, d'onde comereis, d'onde bebereis, ou d'onde vos heis-de vestir.
«Olhae-me para as avesinhas do céo; vêde lá se ellas semeiam, ou ceifam, ou encelleiram coisa alguma; quem as mantém é o vosso Pae Celeste. Pois vós sois para elle muito mais que as avesinhas do céo.
«¡Vestido!... ¿A que vem o dessocegar-se por elle? Reparae no como crescem os lyrios dos valles: não trabalham, nem fiam.
«E mais vos digo, em verdade, que o proprio Salomão nunca trajou galas como qualquer d'elles.
«Ora: se Deus assim reveste umas hervas do campo,[{52}] hoje viçosas, amanhan queimadas no forno, ¿não vos revestirá de muito melhor grado a vós, creaturas de apoucada fé?
«Portanto, nada de vos inquietardes dizendo:—¿Que havemos de comer, que havemos de beber, que havemos de vestir?
«Que se desvelem com isso os pagãos; o vosso Pae Celeste bem sabe que todas essas coisas vos são mistér.
«Não vos atormenteis pelo amanhan; o amanhan lá curará do que lhe pertence: bem bastam a cada dia as suas penas.»—
Não sei, nem nos importava saber, se Thomaz Roberto Malthus, o economista algoz dos casamentos pobres, approvaria, ou não, esta nossa fé tão commoda, e que a mesma Providencia tomou depois a si o justificar.
Se quereis verdade ainda mais em cheio, e sem disfarces, nenhum de nós ambos se lembrava de pensar no futuro por esse lado; entre nós e o porvir material, mettia-se uma seve de affectos tão espessa, tão alta, e tão florída, que não nol-o deixava perceber. Era como o pinhal a cortinar o Oceano revolto de ante a vista do conventinho descançado.
Olhae que eu não vos prégo ó sermão da montanha para que nos imiteis, mancebos e donzellas na febre aguda do amor, vós para quem uma cabana, uma fontinha, quatro raizes do monte, e para postre amoras de silva, e as glandes do filho prodigo assadas n'uma fogueirinha de gravetos, se figuram banquete em palacio, sobrando-lhe para salsas o bemquerer; não, Robinsons do affecto e da adolescencia descuidosa e credula; o que só faço é relatar-vos, sem apologias nem recommendações, o que por nós passou n'uns tempos de loucura, que (¡ainda mal!) não podem já voltar. Lêde muito nas boas horas, como nós a reliamos, a consolativa prégação dos passarinhos e dos lyrios; mas, se vos parecer, não deixeis de folhear tambem um poucochinho os economistas; não será mau. Os corvos da Thebaida acudiam, verdade seja, aos santos eremitas á hora do jantar com pães tomados sabe Deus d'onde; mas não ha muitos d'esses hoje em dia, cá pelas cidades. Corvos que vos empolguem o vosso pão da mesa, e até da mão, isso mais depressa.[{53}]
[XXIII]
Maria conhecia-me pelos meus livros e pelas minhas cartas; alguma coisa era; mas os meus escrupulos melindrosos pediam mais: enviei-lhe o meu retrato, uma expressiva miniatura em marfim. A mão engenhosa do pintor, não paga de me reproduzir, enchera de um rosal florescente o fundo do seu painelinho; era o poeta da Primavera, rodeado dos seus preteritos amores. Guardo-o como preciosidade e reliquia; ¡se andou tanto tempo occulto no seio com que eu sonhava!... A carta em que ella me agradecia este pequeno penhor, repoisa, outra reliquia, no mesmo cofre junto d'elle; seria profanação o publicál-a. Fique ali a sonhar eternamente a immensa ternura de que a repassou a melhor, a mais carinhosa mão de quantas jamais pegaram na penna para revelar a uma alma a formosura de outra.
É a este segundo periodo das nossas relações, começado ao desfazer-se a nuvem da divindade, deixando apparecer a mais sympathica das mulheres, que pertence inteiro o livro sobre que emprehendi derramar agora alguma luz.
[XXIV]
Lêstes sem duvida a historia de Pygmalião; então sabeis como aquelle phantasioso escultor, com a arte no coração, e a fé na alma, lavrou uma estatua, se ennamorou e endoideceu por ella.
O sol da Grecia, que tantos portentos allumiou, nunca vira coisa assim formosa.
O Real estatuario, pois era Soberano, esqueceu por ella mais que o seu throno de oiro, e os seus estados que o adoravam; esqueceu todas as beldades de umas regiões como aquellas, digno berço de Venus e das Graças, e onde os lacteos marmores e as ceras coloradas, para copiarem aos olhos as formosas do Olympo, e povoarem os templos com Hebes e Junos, Dianas e Minervas, de mais não precisavam que retratar os bandos vivos e buliçosos das filhas da terra. A todas offuscava para elle, para[{54}] elle Jupiter do cinzel, a Pallas brotada da sua cabeça poetica e fogosa; assim a lua cheia, ao levantar-se de traz dos cumes selvaticos dos Dáctyles, desterra o scintillante cardume das estrellas.
Não contente de a vêr todo o dia, vinte vezes se levantava cada noite para tornar a vêl-a, e de cada vez lhe descobria gentilezas novas. Com a alampada trémula na mão, erguendo-a, abaixando-a, ora de longe, ora de perto, a rodeava, scismando, palpitando, sorrindo, figurando-se-lhe vêl-a corresponder com a expressão do aspecto ás blandicias com que elle, mais poeta que Anacreonte, a affagava. ¡Oh! ¡que não daria elle por ter a lyra de Orpheu e de Amphião, cujos sons escutados pelas pedras as animavam!
Ás plantas nuas da sua Galatéa, mil vezes rebeijadas, tomava as suas refeições, offerecendo-lhe sempre com suave convite as primicias de Baccho e Ceres, os mais perfeitos favos de Hybla e do Hymetto, e os mais delicados dons de Pomona, que em canistreis de vimes de prata lhe vinham pôr deante virgens, por quem o Pae dos numes se metamorphosearia vinte vezes.
Cochichavam ellas entre si, e riam doidinhas á socapa os mais tentadores risos que sabiam, sem nunca lograrem que os olhos fitos nos da estatua se abaixassem, nem por descuido, para os d'ellas. Retirada a mesa, fechava o Principe as portas eburneas do aposento, incendia-se com segundas libações rituaes de Naxos e Chios; exhalava o seu fogo tresdobrado em abraços e beijos; cingia de perolas e diamantes o collo e os pulsos da effigie; banhava-a com essencias de nardo e dictamo; engrinaldava-lhe a fronte com as rosas mais frescas das emmolhadas em vasos aureos esculpidos, coroando-se com as restantes a si mesmo; tornava a encaral-a; e o reflexo das flôres de Amathunta, que Sapho algum dia havia de proclamar rainhas de todas as flôres, e a que a Mãe de Cupido fadára as mais extranhas seducções, quando as viu retintas com sangue do seu Adonis, aquelle reflexo purpurino no alvor das faces lhe parecia, no seu estatico enlevo, uns assomos do pudor virginal sobresaltado com a desnudez propria, com a solidão e voluptuoso desamparo do sitio, com o olhar a um tempo supplicante e audaz do adorador.[{55}]
Era então que, delirante, perdido de desejos impossiveis, elle se lhe pendia amorosamente ao pescoço, forcejava por animal-a com ósculos; e reconhecendo quanto eram baldados os seus desejos, imbebia o rosto ardente entre os arfantes seios, frios, de marmore, e os áljofrava com um chuveiro de lagrimas. Nestas porfias, sem victoria nem derrota, se lhe exhauriam as forças; deixava-se cahir esmorecido para cima do tapete de purpura de Tyro, cerrava os olhos, e um somno transparente, um meio-sonho, dando-lhe por momentos a posse da sua beldade, ouvindo-a, sentindo-lhe palpitar o coração, repassando-se do seu calor, o restaurava, para se tornar com mais vehemencia, em acordando, á sua adoração perpétua, ás suas cubiças insensatas.
A deusa dos mil amores, que perscruta até ao intimo os corações dos mancebos, podia bem ter ciumes d'aquella pobre e insensivel beldade tão amada; mas foi generosa; generosa... não: antes muito justa. ¿Não era aquelle o mais solemne culto, o culto mais sincero e desinteressado que jámais se rendêra á sua divindade?
Não odiou a Galatéa; sorriu-lhe como para uma irman mais nova; mirou-se n'ella complacente como n'um espelho. A filha das ondas do Egeu foi benigna para a filha dos marmores de Paros.
—«¿O amor que nasceu de mim—dizia ella—não me tem a mim propria ferido e felicitado, tantas vezes? ¿Por que não farei eu que esse amor, não menos maravilhoso, que nasceu d'aquella, lhe dê tambem um quinhão nos céos que eu disfructo sem limite?»—
Pygmalião, o Rei artista, havia afeiçoado para muitos altares os mais perfeitos, os mais adoraveis simulacros da Immortal; e se não se inflammára por elles, como agora por este de Galatéa, era só por que a santa majestade do ser divino lh'o prohibira; mas os templos, em que os milagres d'essa arte crente e inspirada resplandeciam alvejantes, eram sempre os mais frequentados, os mais servidos com offertas, sacrificios, e grinaldas. A officina mesma, em que avultava entre um povo de outras estatuas e grupos a estatua da sua rival em fascinações, era sympathica aos olhos da Omnipotente, e sollicitava o seu favor. As pombas, que a ella lhe vogam o carro aereo, jungidas[{56}] com festões de murta, tinham ali entrada livre. Dos loireiros rosiflores, e das grutas dos jardins do palacio, esvoaçavam-se familiares até aos peitoris das janellas, sempre francas ás inspirações dos ceos diáphanos, do cicío das auras pela folhagem, e do estrépito das fontes, melodias como de nautas migdóneas. D'ali observavam, conversando umas com outras, a profusão que lá dentro ia, de coisas tão brancas, tão suaves: ¡tanta nympha! ¡umas, trajadas como para chorêas! ¡outras, despidas como para o banho! ¡e entre todas, e sobresahindo a todas, o vulto da propria deusa, tão sua conhecida, e o de Galatéa, não menos celeste, candida como ellas, e, a julgar pelo sorriso, como ellas affectuosa! Alguma das espreitadeiras aladas dizia então lá pela sua lingua ás companheiras:—«¡Olhae, olhae como está em ambas enlevado! os escravos chamam-lhe Rei, mas não é tal: é, como nós, um captivo do amor; ¡e de quão benigna condição!... é reparar-lhe no ar, nos movimentos. ¿Não vêdes como olha para nós, tão benevolo, e quasi invejoso, quando nos beijâmos? entremos sem medo, que nos não ha-de fazer mal. ¡Mal aquelle!... Apostaria eu que já foi pomba, antes de ser gente. Chôva-lhe a nossa rainha, como sobre nós, amores sem espinhos, e delicias renovadas de hora a hora.»—
A estancia era então invadida pelo bando festivo. Pygmalião exultava, tomando por feliz agoiro ver as conductoras do coche de Dióne arraiarem-lhe a casa toda com os reflexos argenteos das suas azas irrequietas, e cobrirem de ternura, de voluptuosidade, de poesia, como um veo alvo, roto, e esvoaçado, as estatuas dos dois idolos do seu coração.
¿Não era tudo isto mais que bastante para merecer á mãe do amor um prodigio sem exemplo, e que a ficasse glorificando nas lyras namoradas de todo o mundo?...
Acabava um dia o Principe de queimar aos pés de Venus, segundo o seu costume de todas as manhans, uma copiosa oblação do mais puro incenso. Tinha regado o fogo, em que elle fumava n'uma amphora de bronze, com vinho amadurecido havia cem annos pelos oiteiros pampinosos de Chypre, e reservado em talhas de barro para sacrificios aos deuses maximos. Tomada respeitosamente venia da Immortal,[{57}] transporta por suas mãos o vaso depositario do fogo para deante de Galatéa. Quer offerecer-lhe, ainda que em segundo logar, porção igual, tanto da rescendente massa, orgulho da Arabia, como do liquido generoso. Enganou-se-lhe a mão no incenso, e lançou nas brazas porção avantajada. Venus sorriu, e não se agastou. As distracções do amor, ninguem melhor do que ella as conhece por experiencia.
Emquanto o veo alvacento do innebriante fumo, elevando-se d'ante o pedestal da nympha, a envolvia toda, e tornava a sua presença mais celestial, Pygmalião, acompanhando-se com a lyra de sete cordas, cantava de joelhos um hymno, que as pombas escutavam n'um silencio religioso; pareciam querer decorál-o para o repetirem á sua rainha, quando ella se jazesse em amoroso ocio, reclinada sobre as violetas em algum secreto pavilhão de rosaes da sua Paphos:
—Tu que exhalas de ti, qual vérte a rosa aromas,
effluvios de prazer, universal ternura,
Mãe das Graças e Amor, deusa da formosura,
que envolves a nudez co'o veo das aureas comas,
Venus; pois que são teus os ceos, a terra, os mares,
e até ás sombras do Orço abrange o teu poder,
lança um propício olhar, Venus, aos meus pezares;
do teu jugo me solta, ou dá-me emfim morrer.
Com tão cruel supplicio, ignoto á humanidade,
ria teu filho em vão, tu, deusa, és mais piedosa.
Ardo por uma pedra em chamma vergonhosa,
perdi a paz e a gloria, o siso e a liberdade.
Qualquer ente alardeia ufano os seus amores:
a ave, piando; o peixe, aos pulos pelo mar;
o rebanho, mugindo; em cantos os pastores;
e eu, Venus, só a ti ouso este ardor mostrar.
¡Quão menos insensato o moço do Cephyso
se finou por si mesmo ao pé do espelho aquoso!
Suppoz a sombra nympha; espera ser ditoso;
cai no engano; perece; apiadas-te, é Narciso.
E eu, eu sei que a beldade, iman d'est'alma ardente,
só a mim deve o ser; nasceu de minha mão;[{58}]
não me ouve, não me vê, não se condoe, não sente;
não lhe pude formar lá dentro um coração.
¡Ó Venus! se ha mulher que eu possa crer retrato
do immenso que sonhei compondo a Galatéa,
revela-me onde habita a amavel Semidéa;
assim teu filho Amor jamais te offenda ingrato.
Seja embora pastora, obscura, humilde, escrava;
terá por choça um throno, e por captivo um Rei;
e eu, já salvo da insania, eu, que a teus pés chorava,
a ti uma hecatomba alegre immolarei.»—
Ainda bem não findára a prece, quando lhe pareceu notar nos labios da Immortal um sorriso auspicioso. O Cupido, que junto d'ella estava em pé, e que era tambem obra de suas mãos, agitou as azas de marmore, soprou as labaredas petrificadas do facho, que instantaneamente coruscaram, e rompendo por entre a cortina do incenso, que ainda envolvia a nympha, lhe lustrou com o milagroso calor a fronte, os olhos, as faces, a bocca, o seio, o coração. Ao fogo d'este segundo e divino Prometheu, a estatua estremece; a pallida brancura se tinge da côr da vida; o peito palpita; os olhos se voltam para o céo da Grecia, que logo os embebe do seu mais brilhante azul; baixam sobre Venus; ¡parecem attonitos! descem; ¡encontram-se com os de Pygmalião! duas rosas subitas se abrem nas faces; o sorriso, aurora de uma existencia de amores, alvorece em labios nacarados.
—«¡Filha dos meus sonhos!» «¡Galatéa!—» exclama o artista delirante, correndo a tomál-a em braços, ao vel-a descer do pedestal. «Galatéa, ¡filha dos meus sonhos! ¡se é esta uma nova illusão que Morpheu me envia, compassivo, mas cruel, possa eu não acordar jámais!»
¿Vistes vós alguma vez rasgar um dia magnifico depois de uma noite profunda? ¿Notastes como então sahiam do nada as amenidades das terras e dos rios, a animação e o movimento dos campos e das cidades, as côres, os cantares e as esperanças? assim, repassada a subitas de calor e luz pelo sol dos espiritos, pelo amor, a alma recemnascida de Galatéa adivinhou para logo a adoração de que era alvo. Comprehendeu a turbação que inspirava, pela que[{59}] sentia. Viu nas profundezas interiores do seu ser, diaphanas como um lago limpido, a sua pureza virginal, a sua magica-branca, a sua suavidade irresistivel, o seu destino de ser feliz felicitando.
A turbação instinctiva de um pudor que a si proprio se ignorava, cobriu o rosto de Galatéa do mais amavel escarlata; abaixou a vista sobre si mesma, e não sabendo para onde se refugiar, mariposa attrahida da luz, voou para os braços do amante, escondendo o seio no peito d'elle, fechando os olhos para não ser vista.
N'este momento a Philoméla, occulta na folhagem de um platano visinho, entoou um brilhante epithalamio, e o hymeneu fechou as cortinas purpureas do aposento.
[XXV]
Despidos os accessorios esplendidos e sobrenaturaes, a fabula de Pygmalião reproduziu-se na minha historia; o simulacro que eu incensára e servira, o simulacro filho da minha imaginação, era emfim mulher; mulher amante, capaz de bemaventurar-me, e desejosa de o fazer. Só a Philoméla do platano, e o hymeneu, andavam ainda tão longe e tão emboscados nas brenhas do futuro, que eu mesmo não ousava crer-lhes bem deveras na existencia.
Entretanto, como a encarnação e os sentimentos do meu idolo para commigo eram innegaveis, começou logo a haver entre nós uma especie de semi-consorcio tacito; era já a communidade dos corações, se não era ainda a dos somnos, visto que o bom Ducis, chamou ao casamento
Douce communauté de cœurs et de sommeils.
As nossas mutuas confidencias passaram a ser, por minha parte, o que por parte d'ella desde o principio tinham sido: reservadas inteiramente de ouvidos extranhos e curiosos. Com isso lucraram muito maior affoiteza, e um novo encanto, que nos concitou a ampliál-as de dia a dia.
Quanto é dado a ausentes conhecerem-se, conhecemo-nos. Pelas mutuas e circumstanciadas descripções[{60}] que trocámos das nossas vivendas, dos nossos gostos, do emprego das nossas horas, e de todos os nossos pensamentos, podemos, como sylpho e sylphide, visitar-nos de continuo. Estavamos simultaneamente: eu junto d'ella, no seu mosteiro; ella commigo, no meu castello. Já não havia lá nem cá, ladrilho de pavimento, nem abobada, accidentes de luz ou sombra, movel ou planta, que nos não fosse familiar. Via ella gostosa ao meu lado, o irmão inseparavel que me excitava a querer-lhe, a amál-a, com a mesma espontaneidade com que me acompanhava nas outras excursões poeticas; eu, achava ao pé d'ella a Religiosa sua intima, que a vira crescer, que a estremecia como a filha e irman, que a ajudava com os seus conselhos, a protegia como Anjo da guarda, se revia na sua bondade e no seu talento, e que, apesar de não saber como viveria se a perdesse, nem por isso apressava menos com os seus votos o momento de m'a entregar.
Assim mesmo, ¡grande era na verdade a minha solidão! mas tenho que a de Maria era ainda mais profunda, poetica, e enamorada.
Ha uma natural propensão que nos leva sempre o desejo do que possuimos, para o que não temos, para o que muitas vezes não poderemos alcançar; a imagem de um ermo attrai o mundano; a do mundo dessocega ao eremita. São palpitações e adejos da alma captiva para o ideal. Somos assim. Se o não fôramos, ¿onde estariam os horizontes luminosos da alma? ¿Onde, como, e de quê, podéra crear-se poesia?
Eu, que tinha em redor de mim uma cidade, e a liberdade de me expandir para toda a parte, punha as minhas mais cordeaes delicias em me ir encerrar não pressentido, nem presumivel, n'aquella remota clausura. Maria, costumada a ella, sem quasi conhecer outra coisa, e devendo estremecer só ao pensamento de trocar o seu pacifico viveiro pelas extranhezas e perigos do ar pleno e sem limites, Maria, compunha agora lá os seus melhores devaneios no phantasiar outro viver, outro sentir, outros deleites, e de todos os deleites o maior, dizia ella, o de gastar a sua existencia em amenisar outra; ambição verdadeiramente feminil: ¡a abnegação absoluta!
Se viessem no futuro a citál-a como a socia, a[{61}] guia, a auxiliar, a afinadora da lyra do poeta, e a serva ministra das suas festas, seria isso para ella um triumpho (mil vezes m'o repetiu). Mas, embora o seu nome viesse a esquecer de todo (acrescentava com uma effuzão de ternura encantadora), a certeza de haver obscuramente cumprido todo esse encargo, já lhe bastava para não trocar a sua dita pela de outra alguma.
[XXVI]
As abobadas de um claustro encobrem thesoiros de sensibilidade inapreciaveis, inexhauriveis, e bem mal avaliados dos profanos.
Cada um considera aquelles encerros mysticos á luz dos seus proprios preconceitos. Um espiritual, vê ali um alfobre de plantas para o Céo; uma terra de Gessen allumiada de cima pelo sol, no meio de um Egypto ennoitecido; um paraizo passageiro sotoposto ao Paraiso perennal, com a mais curta e directa serventia de um para outro. Ao incredulo, figura-se um pantano antigo de fanatismo e superstições. Um economista, lhe chama desperdicio anachronico de riquezas, de forças productivas, e de população. Um naturalista, execra, em nome da Natureza, que se ousem e se permittam votos de a renunciar; e, propheta de infortunio, commina, em nome d'ella, como infalliveis penas do desacato, as tristezas, as enfermidades moraes e physicas, as allucinações, os delirios, o definhamento, o envelhecimento no incompleto dos annos, a morte prematura. Finalmente, um romancista licencioso sonha, e se arroja a escrever os seus sonhos como historia, que o amor, bannido em vão d'aquelles recintos, em parte nenhuma é tão despota, tão insensato e monstruoso como lá. Segundo esses moralistas de abominação, os mysterios vergonhosos da deusa Bona, ter-se-hiam perpetuado ao abrigo e no seguro inviolavel dos nossos asylos religiosos.
Desprêso a tantos exageradores systematicos. Se um mosteiro não é Céo, porque o não ha nem cabe na terra, é um santo e bemdito refugio, onde muitas penas se atalham, e muitas se adormentam.
¿O caracter de contranatural, que acintosamente se exprobra ao mosteiro, existirá porventura, como se[{62}] comprazem de declamar os seus antagonistas? Não de certo; no mosteiro feminil principalmente.
Se a felicidade terrestre, por outra, o contentamento, é o unico alvo racional, a que tendem por diversas vias todos os exforços humanos, ¿quem affirmará com a mão na consciencia, que a mulher do nobre no seu solar, a do burguez na sua casa, a do artifice no seu sótão, a do rustico na sua cabana, a do pescador na sua choça, para não falarmos de tantas outras mulheres sem poisada certa, sem familia, e sem sociedade, disfructam maior quinhão de ventura que as Religiosas? ¿Será tudo, será mesmo o essencial para a felicidade, o ter um esposo e ter filhos, esses dois bens, essas duas ufanias tantas vezes descontadas pelos mais pungentes cuidados, pelos mais amargos desgostos, e não raro pelo encurtamento da existencia?
«Possuem a liberdade,» dirão elles. ¡A liberdade!... ¿que liberdade? interrogae-as a uma e uma; não ousarão responder-vos; mas um involuntario sorriso triste vos responderá por ellas. ¿Quantas são das forçadas que remam n'esta galé mundana, as que não terão muita vez pensado com inveja no viver manso e sem estrondo d'aquellas solitarias, sem os cuidados do amanhan, sem as fadigas improbas do hoje, sem os arrependimentos e os pesares do hontem?...
Cada uma d'estas diversas operarias do futuro, colhe, é verdade, aqui ou além, mais ou menos abundante, mais ou menos imperfeito, algum deleite que o mundo nega ás cenobitas; ¡mas quanto não compra ella caro esses deleites, essas escaças compensações dos seus pobres destinos, que vós, philosophos exclusivos da população e da riqueza publica, chamarieis naturaes, se vos atrevêsseis!
A eremita, pelo contrário, privada d'estes gosos passageiros, está livre das sollicitudes que tantas vezes os precedem, os envolvem, os seguem, os descontam, os aniquilam.
As faculdades amantes de que se compõe essencialmente o ser feminino, não se anihilaram entrando para o ermo; exaltar-se-hiam porventura; e, se lhes faltasse emprêgo e alimento, devorariam afinal miseravelmente, e com medonha rapidez, as miseras depositarias d'esses dons celestes. Felizmente não[{63}] succede assim. Ellas amam tambem.—«¿Amam?!» ¡Oh! ¡e quanto! ¡e quão bem! ¡e quão satisfeitas! «¿Ellas?!!» Sem nenhuma dúvida. Os seus amores são melhores que paixões: são simplices affectos.
Uma cultura especial, e o influxo dos ares que respiram, operaram n'ellas, sem as destruir, uma curiosa transformação: tinham nascido flores singelas para fructificarem vulgarmente; uma jardinagem milagrosa as converteu a pouco e pouco em flores dobradas, mais fragrantes, mais para cubiças. Do que originariamente havia de servir para a reproducção, fez petalas; fez viço; fez flor de flor: monstruosidade embora para o botanico e para o naturalista, mas ufania para a terra, e orgulho para a arte, que, sem destruir a natureza, logrou apresental-a com aspecto mais formoso. D'estas flores viventes póde coroar-se a Religião, que são dignas d'ella; póde inspirar-se a Poesia, que em nenhuma outra parte as encontrará tão celestiaes; e póde a Moral mesma comprazer-se, que tem n'ellas modelos perfeitos de virtudes, sempre raras, e cada vez mais recommendaveis.
¿Mas teimais em perguntar que é o que realmente amam estas mulheres? Tenho medo de que não chegueis a entendêl-o bem, porque eu mesmo, grosseiro, carnal, mundano como vós, não cheguei ainda bem a explicar-m'o. Para isto, falta-nos a nós todos um sentido, sentido sem nome, que descobre mil coisas subtis no mundo moral; a metade mais delicada da nossa especie é que o possue; as mulheres é que o saberiam explanar.
Se em espirito devassâmos a furto uma clausura, ¿que é com effeito o que descobrimos n'aquelle mundo tepido, tão suave, melodioso, e perfumado por dentro, como triste, áspero e mudo parece cá de fóra? A alteza dos muros, e as grades de ferro, têem razão: não estão ali para evitar a fuga; estão porventura para disfarçar a seducção do retiro, que, a ser conhecido, fascinava excessivamente; estão sobre tudo para rebater audacias de desejos impuros, qua a pureza mesma attrahiria, como o balir manso das ovelhas no aprisco está innocentemente chamando os lobos em seu damno.
Por traz d'aquellas gradarias severas, d'aquellas muralhas ameaçadoras, está uma cidadinha toda feminina,[{64}] sempre em paz e em festa; paz talvez com leves quebras, para melhor se apreciar; festa sem tumulto nem estrondo, sem custosos preparos, nem recordações afflictivas.
Os dormitorios são bellas ruas direitas, calçadas de lageas polidas, e onde o silencio, amigo da meditação, se casa harmoniosamente com a sombra fresca, e deixa perceber o som dos proprios passos que vêem da extremidade opposta, como se até o andar tivesse ali a sua reflexão.
Por ambos os lados d'estas ruas, abobadadas como hoje as de Herculanum, e condecoradas cada uma com o gracioso nome de uma Santa, se enfileiram os modestos palacios das habitantes. As portas sem chave, á primeira saudação affectiva, ao minimo toque, se descerram. Descobre-se no interior a riqueza da desambição; um sorriso hospedeiro, que illumina tudo como sol; o leito alvo para os alvos sonhos; os paineis meditabundos, que a musa da lenda explica, ora em idyllios, ora em phantasticos romances, ora em tragedias gloriosas. Sobre a mesa sem espelho, a jarra de flores entre duas velas de cera alvissima, e alguns livros, d'estes cuja leitura se interrompe a scismar, e se continua mentalmente por uns mundos nunca vistos, em que tudo são maravilhas. Um pintasilgo saltitando e scismando tambem n'alguma coisa do passado, do futuro, ou do possivel, alterna suspiros e cantares, pendente do tecto na sua thebaidasinha de arames, enfeitada de ramos frescos; vê de um lado a arqueta do seu pão sempre cheia, do outro a sua cisterna de vidro, em que se mira como Narciso, em que bebe como a Samaritana, ou se banha na sésta como odalisca; em baixo, vê a sua providencia, que em fórma de boa amiga o considera, lhe fala, e interrompe os seus lavores, ou orações, para lhe atirar beijos. Emfim: a janella completa as magnificencias do palacete, juntando-lhe, como dominios contiguos, o vergel proximo, e o ceo, que pouco mais distante se figura.
Nas casas d'esta singular cidade, que o mundo não vê, e muito d'elle não quer ver, para mais a seu salvo a poder negar, ajuntam-se frequentemente assembléas, em que se não gosa por certo á moda de nós outros, mas se gosa não menos, e talvez mais, á moda do ermo: são conversações entre espiritos. Se as paixões[{65}] vehementes as quizessem invadir, resvalavam-lhes pela superficie. Os affectos sim que as povoam, e constituem a sua essencia; é um papear como dos passarinhos n'um bosque ao principio e ao fim do dia; porque n'aquellas vozes meigas, ora transpiram os influxos de um crepusculo, que apoz as trevas se abre para um dia grande, ora os de outro crepusculo, que se vai a pouco e pouco fechando sobre as alegrias, para acabar na escuridão; mas, quer um, quer outro, todo o crepusculo tem rosas, todas as rosas teem amores.
Não se discutem ali, nem as novidades do periodico, jornal das modas dos politicos, nem os caprichos dos enfeites, politica das mulheres. Os eccos dos espectaculos, dos motins, dos escandalos, das heroicidades, das demolições e das edificações das outras cidades, das grandes, das Babylonias, ou não chegam até esta povoação, ou lhe entram tão amortecidos e como de coisa tão extranha, que nada ou pouco desconcertam a immutabilidade do pensar, e nada absolutamente a do viver.
O amor sensual é da Natureza, não ha duvida, e não entra ali; afugentam-n-o, exorcizam-n-o, como o demonio do meio dia e da meia noite; debalde o pobresinho se faz Protheu para as captar: agora cantando-lhes convites d'entre a copa de uma arvore, agora passando como viração que vem de ver namorados, e vai correndo por cima das hervas trémulas a espreitar outros; uma vez é som de flauta longinqua, que desperta suspiros por onde passa; outras, um nome de homem proferido ao acaso, palavra sem virtude onde elles abundam, mas ali occasionadora de devaneios; reveste a fórma de alguma coisa, de alguma pessoa, de algum sitio, de alguma scena, que se viu em quanto se andava lá por fóra, em que se ficou pensando, e que ainda na memoria do coração se não apagou.
Sim, sim; não ha negál-o: o Amor, ladeado das Graças, deve espreitar bem a miude, trepado nas grades exteriores, para o que vai lá dentro, como os passeantes n'um jardim devoram com os olhos as flores e moveis de uma estufa, ou como as pombas de Pygmalião lhe consideravam as frias e ridentes estatuas da officina.
¿Mas que mal faz isso? tambem as Amazonas haviam[{66}] de ser salteadas, não raro, por vagas tentações voluptuosas. Todavia, a gloria de lhes resistirem, junto ás occupações que lhes enchiam a vida, as mantinha satisfeitas umas das outras, e ufanas do seu forçado celibato.
Toda a differença é: que as heroinas do Thermodonte, cortando o seio direito para melhor pelejarem, como que despediam de si metade da sua feminidade, e, endurecidas com a prática das guerras, se indemnisavam com a alegria de vencer a inimigos, dos deleites de serem vencidas por amantes; ao mesmo passo que estas amazonas pacificas da Religião, conservando inteira toda a sua sensibilidade, a enganam, dispartindo-a, furtada aos impetos da natureza carnal, por um cardume de objectos qual a qual mais consentaneo á sua indole delicada: é o trato das flores, que são suas irmans; é a creação dos passarinhos, que são, voadores do ceo, os irmãos de suas almas; o canto, exercicio de Anjos; é a caridade, enlevo do Creador; são as miragens infinitas da esperança; são as perdoaveis altivezes de um estoicismo temperado; são tambem os entretenimentos manuaes: ora de vestir e ataviar a santa Imagem predilecta, que para o coração suppre uma filha, ora de coser o enxoval branco para a creança que está para nascer na cabana visinha, ora tambem de seroar na grinalda de flores de laranja, com que se ha-de enfeitar no seu dia grande uma noiva muito amiga.
¿Que são os presentes que saem continuos d'aquelas portas, se não coisas todas formosas e suaves como a cera e o mel das colmeias? laminas devotas e scintillantes; doces de mil gostos, de mil côres, de mil fórmas; flores e fructos artificiaes, com que as abelhas se enganariam; aromas para toucadores e festas; cartas, mensagens, e convites quasi pueris na simpleza, e sempre rescendendo á innocencia mais sympathica e mais alegre.