OBRAS
DE
Antonio Feliciano de Castilho

Constando-me ter havido quem reimprimisse em França, sem licença minha, dois volumes de minhas Obras, e sendo isto sobre iniquidade, manifesto roubo, declaro que perseguirei em juizo com acção de furto, em quanto a nossa Lei sobre imprensa não estabelecer outra propria para taes casos, a quem quer que, sem minha expressa licença, reimprimir esta ou outra qualquer Obra minha, ou impressas fóra as introduzir e vender neste reino.

A. F. de Castilho.

A PRIMAVERA

POR

Antonio Feliciano de Castilho,

Bacharel Formado em Direito, Socio da Academia das Sciencias de Lisboa, da Sociedade Juridica e da dos Amigos das Letras da mesma Cidade, da Sociedade Literaria Portuense, do Instituto Historico de Paris, da Academia Real das Sciencias e Bellas Letras de Roão.

Mais correcta, emendada, e copiosissimamente accrescentada.

Lisboa.
Na Typografia de A.I.S de Bulhões.
Rua do Soccorro de Cima N.º 39. 1.º andar.
1837.

Stet quicumque volet potens

Aulœ culmine lubrico:

Me dulcis saturet quies;

Obscuro positus loco

Leni perfruar otio;

Nullis nota Quiritibus

Ætas per tacitum flua

Sic cum transierint mei

Nullo cum strepitu dies,

Plebeius moriar senex.

Illi mors gravis incubat,

Qui notus nimis omnibus,

Ignotus moritur sibi.

Sen. Thyest. Act. 11.

ANTE-PROLOGO.

Bem será para alguns motivo de maravilha, e de riso para muitos, a declaração por onde me agrada começar este Ante Prologo; e he, que o estou principiando, e querendo Deos o levarei ao cabo, antes de conhecer a Obra para que vai feito. Quatorze annos, e não poucos d’elles bem estirados, são hoje discorridos depois de impressa, e por tanto segundo meu costume aposentada e esquecida, a minha Primavera. N’estes quatorze annos, começados a contar aos vinte e dois da minha vida, não só se encerrou, e desvaneceo aquella melhor, mais florída e derramada parte d’ella, que tanto discrimina, e afasta o periodo seguinte do anterior, senão que ahi se desatou tão desfeito temporal de successos estranhos, de terrores e calamidades publicas; tantas certezas saírão vãs, realisarão-se tantos impossiveis; por tal arte se transtornou e renovou ora em bem ora em mal a face do nosso Portugal; tão fracas e tenues reliquias de um passado, que ainda nós os moços alcançámos, subsistem já agora quer nas pessoas, quer nas cousas e costumes, e emfim por tudo isto nos petreficámos, e envelhecemos em tanta maneira, que por mim digo, n’estes quatorze annos me parece ter a Fortuna desbaratado cabedal de seculos, e o Tempo uma larga idade do mundo. Tantos e taes annos que da minha Obra me separão, não custará muito a crer ma tenhão tornado ao cabo tão alhea, como se d’ella só mui por longe me houvera susurrado uma leve noticia. Esta idea confusa, mas suave e suavissima como apagado retrato de antigos amores, como lua de estio contemplada em fundo de ermo, ou como vista de remotas velas ao coração do que alem-mar definha desterrado entre asperezas, esta idea toda mansa, toda rosada, toda primavera, mais temo perdê-la do que todas as minhas outras illusões, se por ventura já hoje alguma tenho. Talvez receie, e se receio talvez me não falte rasão, que ao reler estes Poemettos, nem ache n’elles as côres que os longes me figuravão, nem os gostos com que os hia não compondo, mas para assim dizer colhendo e enramalhetando pelas varzeas e valles do Mondego: tanta foi a metamorphose que de mim fizerão os livros, as couzas, e a idade! Como que tenho uma dolorosa certeza de que me acontecerá com isto o que ja me succedeo visitando, depois de espaçosissima ausencia, as cazas onde a minha primeira infancia fôra brincada, amada e perdida: tudo achei mesquinho, solitario e quasi mudo, tudo me dizia muita saudade e nenhum prazer; cada pedra tinha sua historia, mas todas me clamavão outros tantos desenganos. Grande differença esta entre as nossas proprias antigalhas e as do mundo! as do mundo pelo seu mesmo misterio nos deleitão, são a primeira pagina de um romanse para a imaginação; as nossas pela sua certeza nos contristão, e são a pagina ultima de uma historia que assaz nos corria formosissima.

Apraz-me por tanto boiar ainda por algumas horas ao de cima d’estas fantasias, e antes de se me apagarem, se já he que isso tem de ser, alegrar com o seu reflexo estas paginas, que mal poderáõ ser muitas: sempre he cedo para lançar pelas janellas fóra os brinquedos de nossa puericia; e mal haja quem o faz sem que todo o coração se lhe aperte dentro no peito.

Por isto que digo, entenderáõ meus leitores o porque, exhausta logo no primeiro anno a primeira impressão da Primavera, tantos se tem devolvido sem que jamais me deliberasse a reimprimi-la. Pelos fins de todos os invernos e começos da melhor estação, me era ella de todos meus livreiros requerida; por mais de uma vez me senti abalado, mas a lembrança do meu desencantamento me era sempre esquiva, e repugnava-me, como uma certa simonia, o arriscar-me a por alguns cruzados malbaratar uma dilicia do sanctuario de meu animo. N’esta parte não me entenderáõ todos, mas os meus intimos confirmarião com juramento o que digo. Agora porem que até a minha pobre bibliotheca já se ahi vai rareando e desfazendo vendida, e me importa pôr entre mim e a terra do meu nascimento muita outra terra de permeio, e Deos sabe para quanto tempo, obedeço aos desejos de muitos dos que ainda lem, ao conselho dos amigos, e á lei da necessidade. Reverei para a impressão, e perderei para mim este livro de saudades, livro que só fechado eu poderia ler como me convinha. E por quanto, depois de sua leitura talvez me desamparasse a vontade de aventurar algumas reflexões sobre este genero de poemas, fa-las-hei antes, e já aqui; deixando para o Prologo as que ácerca da Obra me forem por ella mesma suggeridas.

A Poesia campesina, ou segundo vulgarmente lhe dão nome, pastoril, com ser de todas a mais antiga, nunca em nenhuma parte se perdeo, dado em muitas decaisse não raro do seu credito e lustre; e segundo todas as mostras, deitará ainda até ao fim das idades literarias. Sempre moça como a terra sua mãi, mansa como os arroios seus irmãos, formosa como as flores que lhe guarnecem o chapeo de palha, livre e leve como os zefiros pela assomada dos montes, alegre, namorada e innocente como as aves na madrugada do anno, he de ver qual se vai sozinha e vivissima por entre tantas couzas mais fortes que morrem; com o seu cajado de pastora, segura entre tantos inimigos; girando todo o orbe, e por todo elle bem vinda; vingando e vencendo todos os seculos; dando a alguns d’elles de mais amoravel indole a sua propria fórma; e relevando-lhe, ainda os mais ferozes e guerreiros, que lhes ella misture com a sua frauta do serão os himnos da guerra, lhes entreteça maliciosa violetas com os louros, e os campos que elles a ferro e fogo devastarão os repovoe ella de imaginadas verdura, flores e felicidade.

Hum curioso reparo poderáõ ter feito os que os fazem no ler poetas, e he, que apenas haverá algum dos chamados Epicos, para quem o campo e sua vivenda não fosse deleitoso assumpto. Compraz-se Homero de travar com as façanhas dos heroes toques e pinturas do viver natural e primitivo; Virgilio, que ja primeiro que se abalançasse ás armas e guerras tinha cantado os pastores, e doutrinado os lavradores, particularmente se recreia quando no meio das batalhas pode a uns e outros mandar algumas saudades; nos dois Orlandos e em todos os livros de cavallaria, vai igual mistura; o mesmo na Jerusalem, cujo autor havia escrito o Amintas: e d’entre os nossos, para por todos citar um, mas um que por todos valha, Camoẽs, não só afamou os Portuguezes sujeitadores de elementos e homens, mas todo se deleita em conversar os pegureiros e campos da nossa graciosa Lusitania, terra cujos filhos, se me não engano, são por indole dotados destes dois extremos, de brandura e de valor, de amor ao obscuro rusticar e ao glorioso correr de aventuras e perigos: por onde entendo que para muito mais do que são os fizera Deos, assim como fizera para muito mais do que he o grandioso torrãozinho que habitão.

Disse engenho subtil, e bons juizos crêrão, que o desejo, ancia e esperança de bem que todos temos innatamente, era claro argumento de uma vida futura, ja que nesta se nos não deparava contentamento: assim tambem dissera eu, que este natural e universal gosto á poesia amena he um indicio de que, se jamais o homem foi homem e ditoso, la nos campos o foi; que as plantas d’onde nos brotão sustento e recreação, exhalão secretamente amor para os seus vizinhos, e que pelos saudosos valles das idades patriarchaes, em quanto os bosques não caírão para em sua vez se levantarem as muralhas, as bençãos do ceo orvalhavão muito mais amiude. Alguma couza farão para aqui palavras do meu Florian, que porque d’elle são as verterei de muito boa mente—“Oh se nós podessemos ler em seu original texto os bons autores d’essa Allemanha, enlevar-nos-hia a tanta singeleza, a tanta doçura por onde de todas as outras se estremão suas obras! Em conhecer a natureza, e especialmente a natureza campezina, levão-nos elles uma infinita vantagem: amão-na mais deveras, retratão-na com tintas mais fieis. Todos nossos poemas pastoris nada tem que ver com as meras traducções de Gessner. Ninguem jamais fecha a Morte de Abel, os Idyllios ou Daphnis, sem ja se sentir mais soffrido, mais terno, mais mavioso, e porque tudo diga, mais virtuoso que antes da lição. Não respira senão moral pura e facil, e virtude d’aquella que logo vem trazendo bemaventuranças. Fosse eu parocho de aldea, que sempre á estação da missa havia de ler e reler Gessner aos meus fregueses: e por certissimo tenho que todos meus aldeões se farião probos, todas minhas parochianas castas, e ninguem me havia de ao sermão adormecer.”—

Isto dizia de Gessner Florian, digno de o louvar pelo mui bem que o sabia comprehender e seguir. Isto não escrevia eu nem o dizia, mas amplamente o sentia n’esse bom tempo que ja la vai. Gessner não era para mim um nome, senão um individuo presente, um suavissimo contubernal; nem ja suas obras me erão livros, mas realidade, vida e mundo.—Sei que se não leva a bem o muito fallar um individuo de si proprio, mormente em publico, e mormente ainda quando esse individuo he tão mesquinho sujeito como eu: mas de que outra couza posso eu escrever? dos outros? não os conheço; erudito, não o sou; descubrimentos não os fiz, nem ja agora os farei: fólgo de espraiar conversa com os meus patricios, na falta de melhor assunto, fallo-lhes de mim e de meus gostos.—O mais selecto de todos elles era pois Gessner, no qual e na escolha de Poesias Allemãs por Huber, andou por alguns annos cifrada toda minha leitura, porque de quantos autores patrios meus conhecidos havião escrito e poetado de couzas rusticas, nenhum havia que ou por sobejidão de engenho e argucia, ou por mal cabida escuridade, ou pelo trivial do pensamento e dicção, ou pelo desageitado do metro, ou pelo urbano artificio do que lhes parecia singeleza, ou emfim por um não sei que de mais ou de menos, lhe não lançasse lodo e arêa no jardim que bem ao meio da alma me havia sido por Gessner plantado.[1] Muito aproveitei em tão boa escola: como poeta não, que bem o sabem meus leitores; como homem sim, que disso tive mui cabal e experimentada certeza. Minhas nativas propensões beneficas se arraigarão; minha interior aspereza, que todos de si a tem, se amolleceo; sentia-me palpitar no peito um coração da idade de ouro; esvoaçava-me na cabeça uma alma inteira de Arcade; compunha todo o meu economico futuro de uma choupana, um pomarinho, e pombas mui brancas e cordeiros mui nedios; em summa, se Florian fosse meu parocho, propor-mehia nas suas homilias como um santo da sua bemaventurança. Assim, e por esse tempo, foi a minha Primavera improvisada, e como ella as Flores e as Quatro Partes do Dia, Poemas que brevemente sairáõ estampados, e inteirão com o presente volume o fragil monumentinho dos annos, em que fui tal, qual desejava permanecer toda a vida.

Passe ainda adeante a sinceridade: com vergonha não só minha, mas do tempo em que vivo, confesso que d’essa ingenua bondade, pela qual eu mesmo a mim me comprazia, o de mais (como espirito que era subtilissimo) se evaporou; parte se azedou no vaso com as más sementes de odio que de fóra lhe lançavão; o resto se recozeo e estragou ao fogo das civis dissensões: procuro-me e não me acho, ou se me acho não me amo. Ainda a minha antiga choupana, os cordeiros nedios e as pombas alvissimas se me fazem lembrados por uma noite de estio, mas riem menos, e não me acenão senão fracamente. Tanto vi e vejo de alhêas maldades, tanto tem procurado os entes mais abjetos e vis amargurar-me, que nem quasi na virtude acredito, nem na possibilidade de ser feliz: e este estado, se não he de todos o mais antipoetico, se na escola romantica pode até lograr os foros do bello ideal e ultimo sublime, pelo menos he o mais avêsso á filosofia e mansidão Gessnerica. Oh quando poderáõ os dois monstros, em cujas garras inexpertamente caí, quando poderáõ Politica e Romantismo dar-me um longe, uma sombra dos interiores commodos que me lá ficarão com a poesia natural e singela? E igual pergunta dolorosa poderia fazer o mundo, a ter um coração e uma voz. Ja quanto á Politica me calo, que esse voto fiz eu; mas quando será que o Romantismo exclusivo e tiranno qual se presenta, se gabe de perfumar entendimentos para o amor, de reclinar o amor como filho nos braços da virtude, e de transformar o templo da virtude em caza do contentamento? Quando será que outro homem, da laia e costumes dos nossos velhos, possa dizer na sinceridade da sua alma:—“Se eu fosse parocho, leria Byron ou Schiller á estação da missa, para tornar castas e probas as minhas ovelhas”? Mas todas estas reflexões de nado valem: a torrente vai funda e rapida, ninguem, e muito menos eu lhe poria dique. E até (que tão pouco dou pela minha filosofia) talvez que tudo o que por ahi vai, que certamente: parece bem triste e bem máo, seja bem necessario ao concerto e melhoria do mundo. Não digo eu o que as couzas são, sim o que se me ellas figurão: não as sentencêo sem appellação; na minha primeira instancia as julgo, e o que moralmente me parecem isso assento com afoita liberdade. Perde ou ganha a humana especie em cada vez mais se apartar por obra, por palavra, e por pensamento, do rural e simples theor de seu primitivo ser? por minha experiencia affirmaria que perde, mas os sabios que o decidão, e a mim seja-me licito pôr duvidas.

Não me intrometterei com o que vai por outros reinos; esse uso de qualquer contrabandista literario de nunca chegar ás couzas patrias sem primeiro haver tocado nas de França e Inglaterra, não me quadra a mim, que ao menos tenho a sufficiente consciencia e pejo para não citar o que mal conheço: em Portugal me limito. Somos nós mais felizes ou melhores que nossos avós? Certo que não; e tanto, que se esses bons e honrados velhos podessem ter adivinhado quaes seriamos nós, nós herdeiros de seus nomes, escarnecedores de seus exemplos, e deshonradores de seus castos e amigaveis costumes; nós que ao seu velho fallar e escrever de deveres, substituimos o nosso novo fallar e escrever de direitos, e á moda de ter palavra, a moda de ter palavras, ter-se-hião horrorisado como de abominação, do pensamento de gerar. Acordai do sepulchro um d’esses anciãos, que depois de pagar inteira a divida a pai e mãi, viveo todo para a mulher, matou-se pelos filhos, guardou a palavra como religião, a religião como necessidade, e cada paschoa de flores, bem com Deos, contentissimo comsigo, se ufanava de sentar ao melhor lugar de sua mesa o parocho, e todos os seus vizinhos de envolta com seus filhos. Mostrai-lhe todos os nossos progressos, que em sós algumas vantagens materiaes e corporaes se resumem: alardeai-lhe o que esperamos, mas não lhe escondaes o que destruimos: lede-lhe a primeira pagina do primeiro Jornal que topardes d’esse mesmo dia, raza de impudencia, empapada com fel, estillando lagrimas, revendo sangue, suando calumnias e desavergonhamentos, respirando e soprando odios de nação contra nação, de cidade contra cidade, de familia contra familia, de irmão contra irmão, de povos contra reis, de reis contra povos, e dos homens contra a Providencia. Supponde que Deos lhe offerece renovação da vida, e offerecei-lhe vós todas as blazonadissimas excellencias do nosso viver e do nosso esperar: repellir-vos-ha com aquelle braço que antigamente defendia e não apunhalava a Patria; tapará com o resto da mortalha o rosto que só depois de cadaver córa pela primeira vez; e cerrando rijo os olhos contra a luz, e deixando-se recair pezadamente, de vós não pedirá mais do que um favor, o de lhe restituirdes a sua lagea.[2]

Emquanto assim vai o presente avesso do preterito pelo que toca á moral e á felicidade, fallo da verdadeira felicidade, d’aquella em que a moral entra como elemento, e não da fizica e corporal, da de fazenda e honras, como hoje se entende; vejamos a que ponto subirão com o movimento e progresso as nossas letras. Entrai as typografias, e dizei-me porque assim amotinão com o seu noturno e diurno lavor a vizinhança? perguntei-lhes porque assim gemem e se afadigão? em quaes livros nos estão preparando mananciaes de doutrina, ou de costumes, ou de suave, honesto e ja tão precizo desenfadamento? Dissereis que nossos laboriosos maiores as deixarão esfalfadas com os copiosos frutos de suas lucubrações: o mais com que se atrevem, são ridiculos farrapos de bestiaes torpezas. Seguem-se os mezes aos mezes e os annos aos annos, sem outras literarias novidades. Terra he que ja deo optimas searas e vinhas abundosas; agora descultivada e baldia, e á lei da natureza bruta, desata toda sua força e substancia em cardos, em ortigas, em venenos e serpentes. Quantos livros, e quantos bons livros, que nós outros nem conhecemos nem ja valemos a sopesar, saíão dos nossos prelos, nos tempos em que a probidade, e a mansidão, e a concordia tinhão seu preço. Um só reinado, e ainda bem chegado a nós, e de rei que por bom se não cita, com tanta copia de literarios monumentos nos deixou avergadas as bibliothecas, que dez centos de annos como o presente não produziráõ a decima parte. São os nossos typógrafos de hoje, se com aquelles os comparamos, como os nossos cutileiros de punhaes, comparados com os bons armeiros que forjavão espadas como as de nossos heroes de boa data, que só com sua pezada presença nos maravilhão, a nós, que por nossa verbosa sabedoria, acabaremos de desbaratar tantas e tão longes terras, como nos ellas ganharão esgremindo-se.

Tal vai pois o estado literario como o social; e nem menos podia ser, porque estas duas couzas, como alma e corpo, se pertencem inseparaveis: Mão de Deos que ao corpo politico quizesse restituir a saude, por ahi lhe fortaleceria não menos o espirito; Sopro de Deos que ao espirito restituisse a luz, por ahi lhe ordenaria e vigoraria todos os movimentos. Por tanto, conhecendo e confessando que nem facil he nem possivel torcer a carreira desenfreada que o nosso mundo leva não sei para onde, todavia para mim tenho, se na cabeça está isto, se no coração, não o direi, mas tenho para mim, que mui bem fará, e muito amado será dos rectos juizos quem nos fizer volver olhos de saudade para a vida que ja se viveo, o que ainda um ou outro, aqui ou acolá poderá inteira, ou quando mais não fôr, em partes, em amostras reviver. E pois será isto uma illusão minha? Se o geral da gente vai por entre dores para uma couza que se chama perfeição, não pode um individuo em particular deixar-se ficar atraz, despir essas suadas armas de milicia conquistadora, e recolher-se, honrado desertor, lá onde viva seguro com Deos, comsigo, com poucos vizinhos, logrando-se da natureza, e desfrutando em variados prazeres todos as estações; prezentes que Deos enviou para todos os homens, mas de que os das cidades só pela folhinha tem noticia! Por quão feliz se não devêra dar o escritor desambicioso, se aos puros sons de sua lira afinada nos bosques, lograsse, não como Anfião fundar e povoar cidades, não como Orfeo arrancar as feras dos arvoredos e domestica-las; mas arrancar d’entre feras humanas homens inda não corrutos, e assenta-los, para sempre feriados do reboliço dos grandes povos, no divino remanso de uma campestre solidão! De mui leves cousas e tenuissimos momentos pende ás vezes o destino de toda uma vida: assim como de um encontro fortuito resulta uma affeição amorosa, que logo produz um consorcio e um sisthema completo de existir, assim de uma palavra em uma conversa casual, da substancia de uma pagina lida em certa hora, do aspéto de um painel, podem nascer, e mil vezes terão nascido, determinações, vocação, e fados de individuos. E para vir a um exemplo recente e meu, aquelle bom livro das Prisões de Silvio Péllico (todo imbuido, releve-se-me a expressão, de uma christã e filosofica filosofia, que a maior parte das assim chamadas nem uma nem outra couza tem) aquelle bom livro, ja principiou e talvez acabará de me curar o animo: não lhe restituirá a muita harmonia com que o de Gessner mo temperára, porque a mocidade das illusões passa e não volta; mas deixar-mo-ha provavelmente assaz alto e forte, que ainda no meio das maiores tempestades repouze e abençoe tudo. E não he isto maravilha, que a alguns outros que o lerão ja eu ouvi iguaes, senão maiores encarecimentos de sua medicinal virtude.[3]

Este desvio, por onde me agora deixava ir, levar-me-hia longe, que assim he accomodado a meus gostos; mas porque he desvio o largo, e retomo o caminho que hia seguindo. A poesia amavel, a que nas mãos e seio nos vinha offerecendo ramalhetes, e frutos no regaço, e amores nos olhos, e nas fallas consolações, afastou-se d’entre nós, onde ainda a alguns poderia aproveitar, e assim como outras muitas boas artes e prendas, foi reclinar-se á espera na beira da torrente dos dias, d’onde não volverá, sem que primeiro se restaurem muitas optimas couzas e todas suas, que o mundo velho tinha produzido. Mas d’onde viráõ estas couzas? Do mesmo mundo velho? mal o creio, que o novo quebrou a ponte que os juntava, e rio de ufania vendo abismar-se fábrica que assim parecia eterna. Renasceráõ por tanto da propria natureza da terra, da indole da alma humana que ja uma vez as produzio, ou do sopro do ceo: renasceráõ tarde; renasceráõ quando nós ja não formos; renasceráõ, talvez diversas, mas renasceráõ. E quaes são estas couzas do mundo passado, cuja perda tanto dóe ás Musas e á Virtude? são as formosuras e magnificencias da religião, o respeito aos finados e a seus sepulchros, ás lições da experiencia, ás obras dos antigos homens, a veneração ás cãs, o quasi culto ás mulheres, a benevolencia e sociabilidade, o aferro aos usos e modas patrias, o amor do estudo, que nós dissipámos com as leituras efemeras, e o amor do torrão natal, nobre fecundissimo sentimento, mas impossivel onde se vive sem muita brandura e sem firme certeza de permanecer. Tudo isto se perdeo para nós, e não sei que bens haja em seu lugar posto a Filosofia. A que verdadeiramente o he, ainda que esse nome se não dê, a que realmente faz homens livres e felizes, não he Furia que destrua tão venerandos objetos; ama-os, defende-os, reforma-os quando o tempo os viciou, concerta-os que se amparem mutuamente, pede-lhes frutos, e com seus frutos se fortalece.

Quando de espaço me dou a escavar estas verdades, nada me assombra a nossa crassa e desdenhosa ignorancia, mãi ou filha, e certamente socia da nossa immoralidade. Esta mal agoirada ignorancia e esta immoralidade cresceráõ; ja nossos filhos apenas saberáõ ler, e se o turbilhão que a roda leva não houver quem o suspenda, brutos e ferozes sairáõ os netos. Applicai todos os vossos sentidos ao coração da nossa Cidade: se a vida he movimento, ahi trabalha vida; se porem a vida ha-de ter um perfume, uma harmonia, ahi não ha senão morte, e aquelle movimento he de cadaver que fermenta para se dissolver. Poesia, verdadeira poesia ja n’este Reino, onde em todos os tempos pullullava espontanea, posto que raro amadurecesse, ja por consequencia acabou: quanto desde hoje se poetar nas enamoradas doçuras da vida aldeã, mais não será que recordações sem germen de futuro. D’entre a memoria e o espirito, não da experimental convicção do poeta, nasceráõ esses versos, como lagrimas de balsamo, que não de dentro da arvore, mas d’entre a casca e o libro vem raras gotejando, para cairem e se perderem no terreno bravio da solidão. Oh Liberdade, Liberdade! quão mal te comprehendem os que te separão do bello! quão mal te servem os que te malquistão com os homens de bem! como involuntariamente te levão á morte os que só te pedem como summa felicidade, o direito de nada respeitar, estradas de ferro, navios de vapor, um himno, e punhaes ou carceres contra quem quer que não beber ás suas mesas! Pobre Liberdade, não he este ainda o teu dia: não és tu idolo de selvagens, mas Divindade benefica de homens prudentes.

Eis-me outra vez com a Politica, e o meu voto quebrado. Ja vejo que a minha cura não está tão adeantada como o eu suppunha: não ha remedio, amanhã releremos Silvio Péllico, e por hoje voltemo-nos com toda a diligencia a rematar, como quer que seja, este escrito.

Sáe pois o presente livro por todos os modos extemporaneo, ja porque a estação nem he d’elles nem para elles, ja porque lhe fallecêrão dias para amadurecer e sasoar, e ja porque dos que lhe tomarem o sabor, uns o taxaráõ de temporão, outros de serodio, sendo que uma e outra couza he elle, e demais a mais pêco, segundo a planta de que se creou. Uma só lembrança me consola, e he, que assim mesmo ja deveo ser peor, quando da primeira vez appareceo, e mais lhe não faltárão gostadores; tanto he assim que nunca faltaráõ simpathias ao que de sua origem he bom, ainda quando desbotado e estragado pela impericia de quem o tratou. Melhor he hoje do que então era; não porque o eu tornasse á forja e á bigorna, ou o recorresse e lustrasse com esmerada lima, senão porque havendo hoje menos dados á lição dos livros, e em especial d’este genero, tambem ja não ha criticos, senão he para as acções da vida publica e domestica; por onde as obras escritas podem passar a seu salvo, sem que suas pobrezas e vergonhas sejão vistas e apupadas na praça. Desconsolada consolação he esta de se poder desafinar cantando, por se cantar entre surdos: mas esse mal, se o he, só a mim me toca, e para o descontar me sobra a lembrança, de que alguns caladamente me agradeceráõ o diverti-los do publico espetaculo. Para estes em boa hora sáia e sai o livrinho fallador de campos e amores: suave appareça como a violeta sozinha encontrada no passeio de inverno: suave e não estranhado como o raio de sol por cima de campo de batalha apoz uma noite de geada; nada aproveita elle aos cadaveres, mas alegra e consola como esperança aos que mal feridos jazião, e a quem o regelado lentor das trevas coalhava o sangue, desesperava as dores, tranzia os ossos, e os descoroçoava da providencia.

Ramalhete he de flores silvestres que a meus amigos deixo na hora do apartamento, que ao menos em quanto durar lhes recordará que os amei. Terra de Portugal e outr’ora de Portuguezes, terra namorada do mais formoso ceo, terra sombreada de larangeiras e murtas, acobertada de verde e bordada alcatifa, amorosamente abraçada do Oceano, talhada e regada de tão espelhados rios, terra de tanta poesia e de tanto amor, eu te deixo! E para que ja nunca onde quer que a fortuna me detenha, me cuides de ti esquecido, terra do meu Portugal lembre-te que o meu ultimo pensamento ao sair das tuas praias foi o da tua Primavera e o da minha Mocidade.

Lisboa: 1 de Dezembro 1836.

PROLOGO.

Não erão vãos os meus receios; acabo de visitar a Primavera, não ainda para lhe emendar as miudezas, mas para a conhecer por alto, e podê-la sentenciar no todo. Reconheci-a, mas demudada, mui outra da que a tinha deixado na graça, geito e amores; trocarão-ma os annos, trocando-me. Desama-la ainda não, mas ama-la tambem ja não! Se lhe não quero mal, he só porque lhe quiz muito bem, e foi minha; mas como ja me risquei de seu namorado, não hei de chamar-lhe formosa, que o não he, nem dissimular que sejão defeitos, muitos que em bom tempo ja talvez lhe tive por perfeições e primores. Não ha remedio, prometti-me seu juiz, passará por onde houvéra de passar, se de inimigo fôra. Se ella perder do seu preço, e eu do meu, consolemo-nos ambos d’esse pouco damno; ella por não receber de mim injustiça, eu com ter obedecido á consciencia, que tambem em letras a ha. Antes porem que entremos a contas e lhe formemos o summario, releva anticipar uma dúvida não leve, que se me pode pôr, e desfazer um reparo, que deixado a si pareceria de fôrça.

He o reparo e a dúvida; que pois he o Livro inamavel por defeitos a seu proprio autor, não havia porque de novo o semear em público, antes importava pôr todos os meios para que o nunca mais vissem, nem d’elle se fizesse menção; que o contrario he faltar a toda a reverencia, que aos leitores se deve, dando-os por broncos para conhecer o máo; ou á caridade natural comsigo proprio, expondo-se sem fôrça de obrigação a menoscabos, se não injurias.

Não quero responder que em dar o que ha quando ou emquanto não ha melhor, ja o que o faz se ha de haver por desempenhado; nem que, para reo que sem tratos e sôlto confessa os delitos, sempre por bom direito se usou de misericordia; melhores me parecem do que estes, os meus fundamentos: e ei-los aqui.

Primeiro: que andando a Primavera ja impressa e corrente por muitas mãos, e não podendo ser recolhê-la eu de novo, e desluzi-la da memoria de muitos que a bem agazalharão, melhor arbitrio he, pois que tem de se conservar no mundo, renascer n’elle expurgada de muitos vicios da primeira impressão, e se a paciencia me acudir com o preciso valor, retocada no que pertence ao literario.

Segundo: que havendo talvez ainda, e podendo vir a haver, moços que se dem a poetar, acontecerá que entre os mais livros portuguezes que ás mãos lhes cheguem, vão de envolta os meus (assim mo promette sua boa fortuna, que os livros a tem como os homens, e ás vezes os mais ruins muito melhor do que os bons): mãos de principiantes não sabem escolher, os amores, amenidades e branduras da Primavera cáem muito a gente moça, ir-se-hião traz o gosto, e beberião muitos defeitos; do que seria minha a culpa, se eu não procurasse agora arrancar boa parte d’elles, e contra os demais os não precavesse com honestas advertencias.

Terceiro, finalmente: que eu pretendo antes ser bem conhecido pelo que fui, sou, e hei de ser, do que só pelo que sou; porque nascendo-nos o presente do passado, ainda que diverso, e produzindo-nos ainda que tambem diverso, o futuro, o sermos só conhecidos pelo que somos não he sermos conhecidos. He pensamento que merece ser entendido. Alexandre Dumas o explicará. Sem pedir venia traduzo o passo, com quanto seja longo, certo de que o não parecerá.

—“A maior desgraça da crítica, ainda quando se não sae com ignorancias e velhacarias (diz elle no prologo da Catharina Howard) consiste em sentenciar uma Obra nova desmembrada do feixe literario cuja he parte: ahi está porque nunca se póde avaliar um livro com exacção antes da morte do autor; e mais ainda he preciso que Deos lhe haja concedido desde o primeiro até o ultimo, os dias, que para acabar seu edificio se lhe fazião mister; por quanto, se antes de tempo morreo, o monumento que traçára tem de ficar incompleto para sempre como a Sé de Colonia, e os homens mal justos para com elle ainda para alem da sepultura, lançar-lhe-hão á conta de humana fraqueza o ter-lhe ficado certo vão por tapar, quando a morte de invejosa e apressada lhe veio atar as mãos, e ja talvez para se arrematar mais não faltava que uma só pedra: ora por aquelle vão, he que a crítica se mette e entra, quer o autor esteja vivo, quer defunto.”

“De trez idades se compoem a vida de quem nasceo fadado a dar de si produções, e em trez periodos se desparte: como couza alta e nobre que he, tem primeiramente sua base por onde se começa; depois um cume onde se chega; ultimamente la por dentro um motivo, tenção e fim particular para onde se torna a descer. Pelo que, he necessario que o homem tenha vivido todas estas trez idades e que o seu talento haja cursado estes trez periodos, para se poder avaliar aquelle talento no seu todo, aquelle homem na sua produção.”

“Primeira idade, quando a fantasia prevalece á rasão. A esta idade de viço pertencem as horas que tão despedidas voão dos vinte e cinco aos trinta e cinco. He o periodo para dever inventar Hamlet quem se chamar Shakespeare, o Cid quem tiver nome de Corneille, os Salteadores quem for Schiller.”

“Segunda idade, em que a fantasia e a rasão se embalanção, ajudando-se mutuamente, e vindo a formar das suas duas uma só força neutra. A esta idade vigorosa pertencem os dias que vão correndo dos trinta e cinco aos quarenta e cinco. He o periodo em que os mesmos trez sujeitos produzem O Rei Lear, Cinna, Wallenstein.”

“Terceira idade, em que a rasão prevalece á imaginação. A esta idade de reflexão pertencem os annos que descem dos quarenta e cinco aos cincoenta e cinco. He o periodo em que elles compoem Ricardo III, Polyeuctes, Guilherme Tell.”

“Ora pergunto, ficarião completos Schiller sem Wallenstein e Guilherme Tell, Corneille sem Cinna e Polyeuctes, e Shakespeare sem O Rei Lear e Ricardo III?”

“Parece-me portanto que nunca devêra a crítica requerer de um poeta, senão as obras de sua idade; e bem sabemos nós como o faz ella sempre ao revez, sendo as obras que mais se empenha em querer extorquir de um engenho as dos annos que ainda não vingou, ou as dos outros annos que ja deixou transpostos. Pelo que toca a uma obra que vem condizendo com o periodo d’onde dimana, nunca a impertinencia dos juizes a dá por cabal: são uns Aristarchos sem paciencia, que acodem logo com a crítica a cada pedra de per si, ao passo que ainda se está guindando, sem advertirem que aquella pedra só assente e junta com as outras pedras he que ha de dar prova da traça e desenho geral do architéto: são como uns pomareiros esquipaticos, que não tomando em conta o inalteravel fio das quadras do anno, pedem fruta madura á primavera, frutos verdes ao verão, e ao outono flores.”—

Bem haja Alexandre Dumas, que tão artificiosa e claramente me decifrou, e me ajudou a pôr em limpo uma verdade, cujos ares muito ha que eu tomava de longe; uma verdade que eu andava adivinhando como por entre nevoas.

Ora pois, dos trez apontados motivos de determinação, foi este ultimo o de maior momento: quiz dar completo o meu retrato, menos o intellectual do que o moral, a quem desejasse conhecer-me: não podia omittir como feição o que eu havia sido, e ainda antes d’aquella primeira idade, que dos vinte e cinco decorre até os trinta e cinco annos. A Primavera, escrita aos vinte e dois, tinha por tanto de entrar encorporada na collecção das minhas Obras. Se a refundisse pelo meu gôsto de hoje em dia, não sei se ficára melhor, mas sei que ficára outra, e por conseguinte falsa como feição. Tudo quanto era seu geito, seu pensar, seu ser proprio passará intato; e n’isso, se se hão de perdoar gabos a quem sem disfarces nem dó se disciplina deante do Povo por peccados poeticos, n’isso digo, alguma couza ha de bom, sem o que não tivera agradado a tanta gente. O por onde a lima pode e deve correr afoita e sem dó, são—as numerosas faltas de boa falla portugueza—desleixo de frase—e estiramento de períodos.

Quero-me explicar, não para os Mestres, sim para os novéis no officio de escrever, com os quaes particularmente converso nos meus prologos; e porque não havia eu repartir do fruto de minha tanta ou quanta experiencia com quem não a póde ainda ter, nem suppri-la com seguir cursos de Bellas-letras que entre nós se não ensinão? Um dos maiores delitos literarios, e em que mais usualmente cáem os moços, he o desprezo de lingua e corréção; delito que per si basta para descontar muitos meritos intrinsecos de escritura. Sem bem saber sua lingua, diz Boileau, o autor mais divino nunca passará, por muito que faça, de máo escritor. He ella a ferramenta para este genero de lavor da alma; e quem poem as mãos na obra sem primeiro ajuntar, conhecer, escolher e apontar bem os instrumentos de que se ha de valer, nem se pode mostrar bom artífice, nem merecer desculpa de o não ser.

Toda a Musa em creança padece dispepsia de versos, diabetes disséra quem se menos prezára de cortez com Divindades. Na primeira idade he costume, e por muitas rasões, das quaes não será a mais fraca a aversão ao trabalho, presumir-se antes de facilidade e presteza no escrever, do que de corréção e primor: coração e fantasia tudo anda ligeiro, querem que a penna lhes obedeça, como se ella podesse; forção-na, e dahi resulta que pensamento ou afféto que lá dentro era soberbo, apparece cá fora frio, mesquinho, desengraçado; e maravilha-se o escrevedor quando a mesma couza que valentemente o agitava, em quanto em si a revolvia, depois de passada para o papel adormenta os ouvintes, e a elle proprio o desconsola. De todos os defeitos de autor, talvez se podesse affirmar que só este he verdadeiro, real e absoluto defeito; porque, se os pensamentos e affetos de cada idade são della, e dessoão e descontentão a todas as outras, tem por si o serem d’ella, e como taes se defendem por conterem verdade e pintarem o homem; não assim a lingua, que em todas as idades he ou deve ser uma, não provando outra couza o faltar-se a ella, senão que se quer fallar antes de se ter aprendido. Sou experimentado, e por bem do proximo direi com vergonha minha, que no que me ficou escrito d’essa quasi infancia poetica, as couzas nem me espantão nem me offendem, ainda quando as desapprovo, mas a linguagem e o dizer me fazem de continuo caír as faces; e por isso que he escolho em que naufraguei tão desastradamente, o assignalo com tanta miudeza e teima; nem cançarei de o assignalar e accender-lhe em cima boa luz de farol, em quanto vir, como vejo, outros, que nem por idade se absolvem, esbarrar n’elle e perder-se a todas as horas. Mancebos, (se os ha ahi que se dem ás letras) vós que encetaes a mui ardua e perigosa vereda que pelas letras conduz á fama, seja qual fôr o genero de poesia para onde propendais, seja qual fôr o vosso não vulgar engenho, sejão quaes forem os louvores que os velhos na arte vos concedão, e os applausos com que as sociedades vos afoutem, não vos deis pressa de apparecer: os conselhos que Horacio vos deu, durão com toda a fôrça que a natureza e a pratica lhe bafejarão. Deve-se compor de espaço, consultar os bons e peritos, guardar por nove annos, chamar, e tornar a chamar dez vezes á unha a obra ja perfeita. O amor proprio nos persuade e impelle a apparecermos cedo, devia elle, se não fôra cego, ter-nos mão para nos não sairmos senão a horas;

A melhor fruta colhe-se mais tarde.

(F. R. Lobo.)

Muito mais vale começar jornada com dia claro, do que, para adeantar horas, largar a pouzada pelo escuro da noite, em que os tropeços são faceis, perigosas as quedas, e quasi certo o extravio, que a final lançadas as contas nos farão chegar mais tarde e menos gostosos ao lugar que demandâmos. Repetirei, porque nunca o repeti-lo será de sóbra, o que ja por semelhante occasião disse em outro meu livrinho, contra esta enfermidade que se tornou praga, e nos traz a todos lastimosamente gafados; não ha mais remedio senão soccorrermo-nos aos livros mestres de nossa lingua. A aversão que vós outros, gente moça, lhes tendes, bem sei d’onde nasce, que tambem eu por ahi passei: correm para vós como rio caudal os livros d’essa França, todos especiosos e doirados, todos galhardos e louçãos, arrebicados e argutos no dizer, promettedores de maravilhas nos titulos e indices, conversando comvosco paixões fortes e brandos affetos, uns vomitando republica por todas as folhas, outros por todos os poros exhalando commodissima incredulidade, e todos á uma embebidos do presente, afinados pelo vosso ponto, e se o posso dizer, mancebos como vós mesmos. Não ja assim os nossos patrios autores: estes não vos sáem ao caminho; pouzão, antes jazem, pela escuridão êrma das bibliothecas, mal envoltos na grosseira capa de seu tempo, enterrados no pó, meio devorados dos bichos; se os olhais por fóra, parece-vos que a vida vos não daria para um só volume: se os consultais por dentro ja os titulos vos não namorão, os indices vos descoroçoão: folheai-los por alto, vem os milagres incriveis, a historia encarecida ou chã, a poesia enleada e escura, o estilo incorreto e desflorido, o amor grave e sizudo, os costumes castos, a moral severa, a fé religiosa e inconcussa: cada pagina na sua simplicidade apregoa Deos, revem por cada poro o cheiro do mundo velho: mas esforçai, affazei-vos por alguns dias a soffrê-los e comsenti-los; continuá-los-heis sem tedio, logo com gôsto, com ancia, reconhecendo a final quanto as primeiras mostras vos havião mentido, como pelo meio e fundo d’aquelle enganoso dissabor andavão sumidas galas, joias, riquezas, maravilhas, que vos enchem os olhos, vos cativão a vontade, e fazem que vos peze do tempo que os não conhecestes. Assaz nos divertimos do caminho, rasão he que a elle nos tornemos.

O segundo defeito geral que me occorreo n’esta leitura, foi o que eu chamei desleixo de frase. He este muito menos grave que a impureza da lingua, sendo-o todavia assaz que mereça quanta reformação lhe eu possa fazer. Quando quem não cura da pureza de sua lingua, cura ao menos de lhe não deitar remendo de panno estranho ou novo que não seja vistoso e garrido, quando o que se não preza de dizer limpa e castamente, ao menos timbra no exprimir com viveza não vulgar, com certo matiz, com certa novidade, algum passo mais se lhe póde conceder. Procurei se ao menos teria eu posto algum pouco d’isto, e achei um desconsolado não. A locução não me pareceo tão poeticameme figurada como convinha em poesia, ainda pastoril; os epíthetos erão tão sem succo e bastos como a caruma no mato. Uma e outra couza requerião, em quem as quizesse bem emendar, muita paciencia, e muitissima mais da que eu tenho. De ambas, mormente dos epíthetos, procurarei limpar a maior; todos não he possivel: tanto e por tal geito estão com toda a Obra cozidos e enraizados, que lhes vale o que ás ervas parasítas em parede velha mas necessaria; foução-se-lhe algumas demazias, perdoa-se ao resto, com o medo que em faltando, se esboroe a parede, e venha ao chão toda delida.

Tambem me queixei de estiramento de períodos. He defeito portuguez, peninsular, meridional. Dava-me agora na vontade tornar a culpa ao sol, que n’estas suas terras faz que tudo se desaperte, e derrame, e desate em viço e sobejidão: mas fiquem esses milagres do sol para os esquadrinhadores metafisicos, a quem inda assim, não quero mal; e eu, melhor que a nenhuma outra causa, lançarei aquella minha diffusão ás costas dos annos em que escrevia, com o que sempre fico de bom partido, por das minhas a tirar. O que he grandemente verdade, he ser este defeito para muitissimos leitores, principalmente mancebos ou hospedes nas regras de escrever, virtude, e a virtude contrária vicio. Saírão a Noite do Castello e Ciumes do Bardo muito mais contraídos e apanhados em couzas e palavras, do que estes Poemettos e as Cartas de Echo: pois comtudo muitos houve e ha, que por isso mesmo ficárão preferindo aos novos os antigos e até velhos opusculos. A cada hora me diz um que me torne ao meu primeiro caminho; outro que não desampare o novo: uns, que estas ultimas obras se não lem senão de escaço numero; outros que as passadas não occupão meia hora os olhos dos homens graves e bons juizes. Oh! quem reconheceo nunca a verdade da fabula do velho, do rapaz e do burro como o triste, que para expiação talvez d’algum grande peccado, entrega e desampara a público os partos do seu tinteiro! Pois que não póde ser contentar a todos, ir-me-hei como e por onde o meu juizo, gôsto e natureza me levarem.

A poesia substancial e severamente escrupulosa, he o mais das vezes descontada por uma certa desharmonia: a muita harmonia, ainda quando mais apoucada de ideas, ja entretem suavemente: qualquer leitor se entende com taes escritos, ninguem com elles se cança; são um genero de musica facil, que ainda quando não exprime affetos, se ouve com gosto; são como um deslizar de barco por uma agoa mansa: por isto he que os livros do Porto e Tristezas de Ovidio se lem de um cabo a outro com muita deleitação.—Inter utrumque: nem tanto apêrto como Almeno na chamada tradução de Ovidio; nem tanta soltura como o seu amigo, e outr’ora meu mestre, Elpino Duriense[4] nas poesias originaes; nem tanto pospor a harmonia e clareza á brevidade como Filinto; nem tanto sacrificar o entendimento ao ouvido como Elmano. Isto foi o que me pareceo lograr na Noite do Castello, e Ciumes do Bardo, e não me arrependo se por ventura o consegui.

Tanto não, mas alguma couza d’isto fôra o que eu quizera na Primavera: alguma couza, para poder com ella reconciliar os severos; tudo não, por não dessimilhar em demazia esta parte do retrato.

Até aqui descubrimos defeitos que importa emendar, agora os vamos ver do outro genero, em que me não he licito bolir, por serem essencia do livro: erão aquelles no tocante á lingua, estilo, e metro, que ainda que importantes, não passão de accidentes da obra; estes são da alma, vida, e pensamento da mesma obra. Entremos pelo descritivo (não será portugueza a voz, mas o uso e necessidade lhe valeráõ.) Descritivos se chamão em geral todos os poemas deste genero, e como a taes, parece que tudo quanto for pintar dentro do quadro do seu painel, lhes compete e convem. Não he comtudo bem assim, porque as descrições, por mui formosa e naturaes que se ostentem, tambem canção a imaginativa de quem lê, quando umas ás outras se vem succedendo perennemente e sem um bom entremeio de narração, ou outro valente interesse, que por um modo verosimil as reuna, separando-as ao mesmo tempo, para que se não confundão, nem se afrontem, nem esmoreção. Não o advertio Delílle, e d’ahi procedeo não bastar seu altissimo engenho para livrar seus poemas de enfadosos. Ora este livro he quasi um embrechado massiço de descrições; e assim, se o posso dizer, mais para ou olhos da alma do que para o seu entendimento. Mas serão ao menos estas pinturas, consideradas uma por uma, de algum preço por fineza de tintas, ou pontualidade de desenho? autos são em que me não compete dar sentença. O Padre Kinsey, ou o Portuguez que em seu nome escreveo, disse que eu não pintava bem a natureza; talvez que outro tanto, e ainda peór, se devesse dizer da mór parte de nossos poetas; mas não he contra elles, senão contra mim só que eu enfeixei varas no princípio d’este prologo: como os applicados noviços se não enganem comigo por minha culpa, que se desvairem e percão com os outros, paciencia! Aqui está comtudo o que me parece; este descritivo he desbotado e de côres pouco vivas e proprias se com o de Gessner ou Kleist se compara, mas he o melhor que eu soube; eu que nem podia ir-me pelos campos fazendo, como de si dizia Kleist, caçadas poeticas de imagens, nem discorrê-los como Gessner, de lapis na mão. Ja póde ser que o Padre Kinsey, ou o seu ponto, não houvessem de se me avantajar muito, se lhes coubesse tirar ás escuras, ou quasi, o retrato da natureza: muito mais faz quem atravessa o Tejo a nado, do que hum Almirante Inglez que em segura e bem apercebida náo rodêa a esfera; poderá este trazer mais riquezas e informações, mas á fé que não prova mais fôrças e esfôrço que o desconhecido nadador de uma só corrente.

Passemos ávante, e das descrições entremos nos affetos. N’esta parte direi pouco, porque sem embargo de que o desabrimento com que me castigo onde entendo merecê-lo, me podia deixar alguma licença para tambem me louvar pelo que em mim visse de bom, melhor he que nos louvores, em que mais facilmente nos podêmos enganar, nos contentemos de ser ouvintes. Ainda assim, não acabo eu de dizer tão pouco, que muito bem se não entenda ja que no tocante a affetos não quero muito mal á minha Obra: fallo dos affetos em geral, porque passos ha n’ella a cujo affeto não sei ja hoje querer mal nem bem; honesto, formoso, e macio me parece, sei que n’esse tempo devia ser meu, porque eu não compunha, tirava do coração, mas ja o não posso entender cabalmente, e avaliar. Esses passos, apezar de tudo e de mim, hão de passar intatos, que em assunto de branduras o eu de hoje respeita religiosamente ao eu de algum dia; e porque tudo diga, ainda que quizera emendar, não saberia. Sim me inclino a que haverá (e ja de alguns m’o boquejarão) excesso, redundancia, languidez em tantas suavidades, caricias e extremos de bem querer a tudo, e a todos. Inclino-me e talvez o creio: mas que havia de cortar? a que havia de perdoar, se assim como o eu antigo valia tanto mais que o eu presente, póde ser que o melhor se me figurasse agora peór, e o peór melhor?

Digamos duas palavras da Mithologia. Ja não sou tão emperrado pagão como n’outro tempo; desconsola-me ver o desmedido uso que d’ella fiz. Não se entenda por isto que me alistasse debaixo das bandeiras triunfaes dos modernos espanca-numes, nem que tiro vãgloria de botar pelo mundo pregáõ, como Beranger, que os Deuzes ja saírão do meu credo. Todo o excesso em crer ou não crer, em admittir, ou recusar me parece hoje em dia um disparate, de que sempre, mais por aqui mais por ali, vem a resultar contras e arrependimentos. Enjoa-me a fabula dos Lusiadas, e muita, e muita, e muita outra: aborrece-me quasi todo o emprego que dos Romanos para cá se tem feito d’ella, incredulus odi. Só consinto na fabula parca, explicavel, e só a amo quando soberbamente poetada. Alumiarei com um exemplo: quero-a assim como a derrama ás mãos chêas por suas tão poeticas prozas o christianissimo Chateaubriand, esse mesmo que de longe visto, assim parece guerrea-la. Nada d’isto acho eu pelo commum no meu livro: de cada canto me surde uma Divindade; a boa parte d’ellas não responde verdade, e se alguma couza ahi vierão fazer, certo que não foi inspirar-me um só rasgo poetico. Porque pois as deixarei? porque não substancia do livro, e n’elle tem posse velha e apozentadoria.

Dêmos a derradeira parte do prologo, que em prologos deve ser sempre esta a de vantagem, a algum poucachinho dizer sobre a moral. Moral hoje, moral em livro de poeta, grande novidade e grande estranheza! Sim hoje, que ainda ha muito quem se preze de viver honesto, virtuoso e pela antiga: sim em livro de poeta, e por isso mesmo; visto como tudo quanto era contra ella o tem a proza a si tomado, não será muito que lhe abra sua porta a poesia, e lhe dê guarida em um pobre cantinho térreo de sua pousada, como he este: inda mal, que até cá, no fundo de tamanha escuridão e penuria, por todas as fendas e agulheiros do mal reparado edificio poetico lhe chegaráõ as risadas sem alma nem sal de seus inimigos, e contra essas não ha valer-lhe. Ha pois do titulo d’este livro a dentro, dado se não prometta senão primavera, um como ar de bondade e saude para o animo, de socego e bemaventurança para a vida: e por isso he que, a despeito da todas suas manchas, me parece bem, como ja no Ante-Prologo deixei tocado, atira-lo, como sementinha de erva medicinal, ao baldio sáfaro e corruto d’esta idade. Bem estou eu antevendo quantos de mim hão de haver lástima, por me assentar no meio de tão ferida e accesa batalha, por cantar entre tantas vozerias de odios. Paciencia! tambem sei que homem sentado não sóbe, nem a trôco de cantigas se comprão riquezas e valimentos: mas cada qual tem sua estrella, e a minha, que outra vez descobrio depois de largo eclipse, esta foi, e esta ha de ser; oxalá que para sempre! Com o bom de Archimedes me pareço n’isto, o qual na hora que a cidade estava sendo entrada do inimigo, e alagada das torrentes de ferro e fogo, nem tinha ouvidos para o estrondo, nem deixava de proseguir na composição da lustrosissima esfera celeste, unicos amores que no canto calado de sua casa o desvelavão. Havia ahi uma não sei que magnanimidade; e a ninguem deixa de doer a cutilada do soldado feroz que despede tal cabeça para cima de tal obra. Mas quando me ólho, e me vejo a brincar com flores e cordeiros, ao tempo que em redor de mim estão no chôco tão grandes destinos do mundo, não me lastimo, porem rio-me, e cuido estar vendo em mim proprio um menino, que por um dia de tempestade, enthesoura conchas e forma lagoazinhas na praia, emquanto andão á vista galeões alterosos á luta com os elementos, e na mesma praia uns pasmão, outros se aterrão, outros suspirão pelo instante do naufragio para se arremessarem aos despojos, apenas o mar os cuspir.—Fugindo me hião agora outra vez os pés pela antiga ladeira abaixo: e a moral, esquecida até por quem lhe deo couto! Com ella sou, e com ella determino acabar.

He a moral na maior parte d’estes poemas pura, facil e amavel; e se não tão efficaz como a de Gessner, não he porque o eu dezejasse menos, he porque podia menos atavia-la, e aformozea-la do que elle, e atavios e formozuras até servem para fazer do bom optimo. Todos os amores de que se urde e tece a domestica felicidade, se achão aqui representados por um modo que se recommendão, e d’elles se imbue de mui bom grado o animo; o amor filial, o paterno, o materno, o conjugal, a amizade, até o affeto aos animaes, arvores, flores, e mais creaturas de Deos, companheiras nossas n’este mundo, aqui vem de envolta com a recreação. Porque tudo diga, pelo gostador ou gostadora d’este livro daria eu mais, e mais quizera viver com elle debaixo do mesmo telhado, e tratar quer negocios quer passatempos, do que, se dizê-lo ouro, com gostadores e pregoadores d’outros livros que estamos vendo rebentar de muito mais avultados engenhos. Se eu tivesse filhos e filhas a quem dar criação, sei que emquanto não podessem ler Gessner, e seus bons imitadores estrangeiros, lhes daria a Primavera; e ja não digo o mesmo das Cartas de Echo, e muito menos da Noite do Castello, e Ciumes do Bardo. Mas, acudirá algum prudente, couzas se deparão na Primavera que mais são para ser defendidas a donzellas, e resguardadas de fantasias ainda verdes, do que para se aconselharem por doutrina. Sim as ha, e todas essas paginas que para idades encorpadas e apercebidas de experiencia bem podem não ser damnosas e parar em mero deleite, todas rasgára e déra ao fogo antes de lhes entregar a obra para lição: e porei exemplos; na Festa de Maio, os fins dos episodios de Galatea e Ignez de Castro, no mesmo poema boa parte da republica de Chipre, como o culto religioso da Natureza, os bens em communidade, a nudez, o divorcio, o cazamento de um com muitas et cetera. Antes de passar adeante, trasladarei, que alguma couza fará para aqui, parte de uma Nota que ácerca da republica de Chipre se lia na primeira edição, a pag. 169.

—“Note-se que este poema está muito longe de dever ser considerado como didático; que toda esta republica de Chipre he meramente um Dithirambo, aonde a licença do poeta he muito mais ampla do que em outro qualquer genero de poesia; que esta sociedade de que se ha de formar a republica, he de poetas, homens de quem vulgarmente se diz que mais dão ao prazer do que á rasão; e que em boca de poeta se poem a arenga recitada no templo. Para os avisados escusada fôra a nota, mas para os fanaticos, que ignorão ter a Musa do Dithirambo licença para nos seus delirios arremetter contra tudo, he indispensavel.”

Era este arrasondo o melhor que o caso admittia, porem melhor houvéra sido não carecer d’elle; e se ainda por elle se pode perdoar á republica de Chipre, não assim ás demais desenvolturas, como as dos dois ja apontados episodios. Porque as puz umas e outras? vá mais penitencia. Puz as pinturas amorosas em quasi nudez, porque estava n’aquella sazão da vida e do anno, em que todos nos deliciamos nas fantasias sensuaes, e se somos poetas, cuidamos morrer abrazados e afrontados em não desabafando. Porque não expurguei d’ellas esta segunda edição? pelo mesmo motivo do retrato, e não outro. Quanto ao culto da Natureza, e á gente nua, e aos maridos de muitas mulheres, são necedades taes, que não merecem que nos detenhâmos em as refutar: são d’aquellas demencias, cujo aggregado dá o que entre moços que esfolheão livrinhos bem doirados e térsos, se denomina filosofia, e que só dura emquanto a experiencia e o tempo nos não desmamão da presunção; pelo que, e pela rasão geral, ja muitas vezes apontada, de querer mostrar-me qual fui, vivão, durem e passem, que depois d’isto ja a ninguem farão mal.

Eis aqui por alto, mas com toda a lealdade, o juizo que da Primavera formei; he primavera por matos de serra, com mais flores do que graças, com mais ares saudaveis do que ervas medicinaes, mui tibia de fragrancias mimosas, mui nua em muita parte de terreno, mas com seus longes de campos e cazaes felizes, e muitas saudades lá pelos extremos confusos do seu horizonte. Quem se d’estas cousas contenta, fico se recreie com ella; e quem com ella se recrear, para amigo o quero, que esse saberá, como eu, amar muito os homens, fugindo-os; e enfadado, como eu, das terras onde não ha ver passaros senão em gaiola, nem verdura fóra de gigas, nem arvoredo que não seja pintado, nem pastores e innocencia senão na opera e trajados de seda e veludo, nem felicidade senão em promessas de políticos, irá procurar-se, achar-se, e lograr-se de Deos, de si, e dos penhores de sua alma no seio e entranhas da vida campestre. Oh, se assim fosse!... e se Deos a um tal me désse ainda por vizinho!...

Lisboa 4 de Dezembro de 1836.

Post Scriptum.

Lisboa 29 de Março de 1837.

Quando todo estava no trabalho de desempenhar minha palavra, e fazer ainda mais do que no Prologo deixára promettido, revendo cuidadosamente, afeiçoando, podando e enxertando de novo este volume, sobreveio-me aos 2 de Fevereiro passado, o maior infortunio de minha vida, uma perda de que em nenhum tempo se me poderá o coração consolar. Quebrarão-se-me as forças para continuar no trabalho, bem como se esvairão muitos, antes todos, meus projetos. Ja não arrancarei (e para que?) este pouco e inutil resto de mim mesmo da terra que encobre a minha melhor metade: aqui procurarei, se tanto podér ainda, pagar com uma pouca fama e muitas lagrimas, a quem a mim me deo até á sua ultima hora seus olhos, seu amor, toda sua alma. Qual ficou este livro tal sae, e muito inferior ao que eu promettia, podia e devia fazer. Se algum de meus leitores entende por experiencia o que seja padecer n’uma viuvez uma completa orfandade, esse passará com indulgencia, e ainda suspirando, pelos muitos defeitos que na leitura lhe occorrerem. Aos sem alma não tenho que dizer: se quizerem castigar o espirito meio morto, porque não pôde mais, fação-no, que dôres d’essas não acharáõ ja em mim lugar nenhum.

EPISTOLA
Á
PRIMAVERA

Vai a Epistola em tudo outra da que fôra na primeira Edição: conserva a invenção e os pensamentos, mas emendou-se a linguagem, apertou-se o estilo, deu-se alguma côr mais ás imagens, explicarão-se melhor alguns pensamentos, reformarão-se e afinarão-se quasi todos os versos.

DEDICATORIA
A MINHA IRMÃ.

Eu mandei o meu Genio campestre apanhar flores por entre os gelos do inverno. Formosas não saírão, bem o sei, porem n’esta estação do anno não mas dá melhores o estreito jardimzinho que me as Musas doarão nas fraldas do Parnaso. A ti, minha Irmã, me ordena o coração que as offereça. Felicidade será para mim, se quando para o teu lado me tornar, tu me disseres abraçando-me:—“Eu amo as flores que tu me enviaste, no meu seio as guardo: as da primavera menos me contentão do que estas, que o teu Genio campestre colhe no teu jardim, por entre os gelos do inverno.”

DUAS PALAVRAS DE INTRODUÇÃO

Fôra o inverno de 1821 para 22 dos mais desabridos e temerosos de que entre os vivos se faz memoria. Na Beira, onde me então achava, vião-se arrancados e espedaçados bosques, olivaes e pomares, sementeiras afogadas, pontes demolidas, e os rios sem margens. Dos 25 de Dezembro até os 9 de Janeiro, que me demorei em uma aldeinha, uma legua desviada de Coimbra, saboreando no trato cordeal de alguns amigos e parentes as férias, então mui festivas, de meus estudos, foi sempre tão atada e rigorosa a porfia das invernadas, que nos falseou quasi de todo a recreação mais apetecida dos que fartos da cidade, vão alguma hora ao campo desenfadar-se. De não passear nos vingavamos o melhor que o tempo e lugar no-lo consentião: práticas desaffrontadas de constrangimento, temperadas de bom sal, e muitas vezes substanciaes; a voltas d’ellas, leituras accommodadas ao mais dos gostos, poesia, e improvisos de charadas e adivinhações nos enchião as horas não contadas. As espaçosas noites e boa parte dos dias, se levavão n’estes e semelhantes passatempos, em de redor de uma farta fogueira, segundo he costume d’aquellas terras. Por alguma rara tarde, quando o sol descobria, e o ar um pouco mitigado nos consentia saír, nos hiamos, ora pelo jardim onde se explanava um soberbo lago, outr’ora pela orla mais assoalhada dos laranjaes, que mui corpulentos e viçosos, acenavão de seus ramos com frutos e flores, pondo a vista, o cheiro e o gôsto em doce competencia de delicias. Era ainda aquillo, ou ja era, umas lembranças, uns longes de primavera no coração do inverno, saíamos da prisão dos lares, aproveitavão-se com sofreguidão: talvez nenhum dia de perfeita primavera na longa cadêa d’elles me pareceo nunca melhor e mais ledo, do que estas pobres tardes sonegadas ao mez do Natal. A fantasia enganada do sol, toda se me desatava em poeticas flores, o que n’esses tempos só por maravilha me acontecia fóra da primavera, e luares do verão. Quando vinha a noite, acceita ao meu coração, (que sempre de si o conheci, não sei porque, amigo de com ella suspirar saudades), e ja todos ao conchego do nosso lume fiel nos tornavamos alvoraçados, comigo só me hia pouzar a um canto, colhendo, concertando e accrescentando com mui entranhado contentamento, quantas florinhas me havia brotado a fantasia. De saudades da primavera me parece ainda agora que nascião todas; o que certo sei, he que ahi, e n’um imaginar d’estes meus, me veio a lembrança e desejo de escrever á Primavera uma Epistola. Se n’isto abusei ou não da licença tão concedida a poetas, não o sei; sei que no ditar estes versos para se escreverem, e no conceber-lhes o assunto a passear ou a seroar, gozei prazeres que ja a crítica me não póde tirar. Se contra o bom juizo pequei, todo o meu pezar he não poder outra vez peccar pelo mesmo modo, nem outra vez namorar-me da Primavera: os annos que a trazem ás arvores no-la levão a nós, e ja la vão quinze, (quinze annos!) sôbre o tempo em que eu brincava com estas innocencias.

Lisboa: 9 de Dezembro de 1836.

EPISTOLA
Á PRIMAVERA.

Corre a Noite, jaz muda a natureza;

Os campos solitarios esmorecem;

Mal se ouve ao longe o estrondo da corrente:

De quando em quando a lua desmaiada

Mergulha em nuvens, surde, outra vez morre;

E das planicies a extensão geosa

Ora resae e alveja, ora se apaga.

N’esta cabana de grosseiros troncos,

Tecido vime e colmo, onde sereno,

Vento, e cuidados não coárão nunca,

N’esta onde habita perennal fogueira,

E onde he Penate o Genio da hospedagem,

Venho entre amigos deslembrar tristezas:

Do frio lá de fóra o ultimo resto

Ja o atirei á chama tragadora.

Em ti, Amores meus, em ti só fallo

Ó Primavera minha; em ti só cuido;

A ti quero escrever: inda ha bem pouco

Em meu passeio a flor das larangeiras,

E do sol que hia a pôr-se o extremo raio,

Cá me derão de ti saudades tristes.

Desde que ao scetro do raivoso Junho

Tu doce com teus Zéfiros fugiste,

Meu dia estendo em languidos suspiros.

A noite em vagos sonhos me afigura

Ver-te, cantar-te, desfrutar teus mimos:

Mal desponta a manhã, mal foge o sono,

Desespero-me, lido entre amarguras;

Peço aos bosques sem folha, aos ermos campos,

Aos rochedos de neve, ás turvas fontes,

Ao ceo toldado, aos ares tempestosos,

E a toda a natureza, a minha Amada.

“Primavera, onde estás?” do outeiro exclamo;

De valle em valle, de um cabêço em outro,

“Primavera, onde estás?” responde o echo:

No prado o guardador, no monte o Fauno,

Pelo arvoredo as Dríades á escuta,

“Primavera, onde estás?” depois exclamão.

Emquanto assim fiel, por ti ó Deosa

Me desentranho em ais, onde te escondes,

Perguiçosa gentil? onde vagueas

Bella inconstante que estes ais não ouves?

Algum Deos namorado, em plaga estranha,

Encheria de amor teus olhos livres?

Esquecer-te-hião, (Ceos!) promessas tantas?

Sim: que te importa o definhar de um vate?

Do vate que te amou, te adora ausente?

Tu folgas e elle gema; elle delire,

Tu a prados sorris vestindo prados,

Revês-te, amante nova, em novas flores:

Fontes ha tambem lá, que importão éstas?

De fonte ao claro espelho te engrinaldas;

E ufana de encantar sensiveis peitos,

Tambem, como entre nós, por lá dardejas

Fogo de amor aos entes insensiveis.

Volta, volta, ó cruel, aos campos nossos.

Qual paiz no universo, a não ser Pafos,

He mais digno de ti? ¿por onde achaste

Para o cortejo teu, Ninfas, pastoras,

Como éstas que entre a murta o ceo nos cria?

Amantes mais fieis? florestas, rios

Namorar-se, mais frescas, mais formosos?

Mais doces flautas quando amor entoão,

Aves mais doces quando amor gorgêão?

¿A tua Cintra, Elisio dos desejos,

Nobre jardim do Oceano, onde folgavas

Contemplar na alta noite em mista dança

Ninfas das ondas, Ninfas das florestas,

Assim te descaío? ja não proteges

Os córos virginaes que ali passêão

Sorrindo ao ver seu nome em bosque e bosque?

¿Por toda a parte as Graças que espairecem;

Do aligero esquadrão travêssos brincos,

Frechas doiradas em contínuo vôo

Aqui e ali aos peitos descuidados,

E se errão corações, ferindo os bosques,

Porque os bosques ali tambem suspirão,

Tudo pois te esqueceo? Volve, ó Querida;

Cede, não sejas dura, a amor, aos versos.

Desde que te ausentaste ahi pende a lira

Nos braços nus de um álamo sem folhas,

A minha lira ao vento abandonada!

A lira d’oiro, onde entoei teu Nome,

Onde a minha paixão soou mil vezes

Na linguagem dos ceos a teus ouvidos,

Ei-la sem honra; os ventos lhe roubárão

Dos antigos festões o escaço resto!

Ao passar com seu gado, e vendo-a muda,

Diz suspirando a turba dos pastores:

“E’sta a que dava alento ás nossas festas:

Mal haja quem a trouxe a tal desterro!”

Dríades ternas, que meu canto ouvião

Não talvez sem prazer, dizem passando:

“O vate emmudeceo longe da Amada!”

Mas apenas teus Silfos precursores,

C’roados de violetas assomarem

Na ethérea região de nossos climas;

Apenas este ceo pezado e turvo

Mandar á terra os ultimos chuveiros;

Apenas rebentando as novas folhas

Se remoçar esse álamo tristonho,

E entre a nova ramage, emtorno á lira,

Cançada de seguir-te andar pouzando

A rolinha estrangeira, e sócia tua,

Á lira despirei do inverno o musgo;

E n’ella, de aureas cordas melhorada,

Só de ti chêo, na presença tua,

Brotarei versos, como brotas flores.

Oh voa, acode a consolar Cibele,

Cibele a térrea mãi da especie humana,

Cibele, amores teus, qual tu Deidade!

Se ora a visses! ... do carro verdejante

Os rebeldes tufões a derrubarão:

Co’a trança descomposta, o manto em rios,

A altiva c’roa em parte destruida,

Nua jaz á vergonha, ao vento, á neve.

Seu tanto desamparo he mágoa aos filhos:

Mas para dar-lhe a mão, torna-la a Nume,

Poder, qual em ti ha, não ha nos homens:

Do fundo do teu lodo a ti só chama,

Ai, leve-te algum vento as queixas d’ella!

As torrentes sem freio divagando

Contra marmóreas pontes indignadas,

Investem, chocão, despedação, rojão

Ruinas em montoẽs aos fundos mares.

As Dríades, teu povo e tua gloria,

Tremem, oh dor! ao furioso assalto

D’Euros, e Notos, e Africos em guerra:

A seu brutal furor nenhuma escapa:

Crer-se-hia que as prisões da Eolia furna

Para sempre arrazára a mão de Jove.

Dríades nobres de arvores antigas,

Refugio outr’ora das calmosas séstas;

Dríades bellas de arvores vaidosas

Co’a idade juvenil, verdura e fôrças,

Tem a seus pés quaes vítimas caído.

Co’os negros frutos oliveira amiga

Baqueou; não lhe valeo celeste guarda;

E Minerva prantêa o estrago enorme:

Cáe o pinheiro amedrontando os valles,

E Pan, sentado nos troncados restos,

Triste espera por ti co’a flauta muda.

¿D’esta cabana a rustica fogueira

Sabes quem a sustenta? ah! corre, vôa:

Cedro, que eu te sagrei, caío por terra,

E onde brincou favonio estalão chamas.

Mui tarde chegarás se não-te apressas;

Do colono e pastor os ais te invocão,

A mesma natureza he morta quasi!

Que fragor, que trovão! piedade ó Numes!...

Este deu raio, e pérto.—Outro rebrama!...

O Olimpo sobre nós desaba em fogo!

Chlóe, e Amarilis trémulas, gritando,

Desfeita a rubra côr em côr da morte,

Enchem de seu terror esta cabana.

O’ innocentes, miseras pastoras,

Não griteis, não tremais; vereis em breve

Dissipado este horror nos longes ares;

Contra o crime orgulhoso os Deoses troão,

Não fere o raio a rusticos alvergues.

Não, não me engano, ouvís como se afasta?

Como la vai ja longe? o mais do estrondo

Ja he toada vã no vão dos bosques.

Chuva propícia em caudalosa enchente

Desce na escuridão; resoa o této

Com o crebro saltitar das frias gotas:

Sibila o vento na vizinha serra.

Chlóe a porta fechou: nós apertâmos

O cerco estreito em deredor do fogo.

Cantou o gallo esperto: he meia noite!

E eu vélo ainda, e velarei saudoso

As horas todas que á manhã precedem!

Horas, horas de paz no horror das trevas;

Horas de estro, misterio, omnipotencia

Ao que nasceo das Musas bafejado!

Sonhe a ambição com purpuras, e scetros;

Torpe avareza com os inuteis cofres;

A vingança, fatal a si e aos outros,

Cogite embora nas traições, no engano,

Nos agudos punhaes, no sangue em jorros;

Vulgar amante afine, esmere astucias,

Com que succumba a tímida innocencia,

E aos laços venha destramente armados:

Eu dando a amor o que se deve ao sono,

Em chama pura, porque he tua, ardendo,

Alégro com teu Nome a horrenda noite,

A saudade em saudades apascento,

E inda ausente, comtigo ausente fallo.

Como o perdido em temeroso escuro,

Que ao mais leve rumor trémulo pára,

Assacinos agoura em cada tronco,

Não ouza resfolgar, prosegue a medo,

Aqui lhe surde a silva, alem penedos,

E lhe abrem fauces mil os precepicios,

Só tem na aurora esp’rança, e mal que ao longe