OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO

—5—

Felicidade pela Agricultura

LIVRARIA BARATEIRA
LISBOA
34-RUA DO DUQUE-36. Tel. T. 1264

OBRAS COMPLETAS
DE
ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO


VOLUME 5.º

VOLUMES PUBLICADOS:

I—Amor e melancolia.

II—A chave do enigma.

III—Cartas de Ecco e Narciso.

IV—Felicidade pela agricultura (1.º vol.)

V—Felicidade pela agricultura (2.º vol.)

NO PRÉLO:

VI—A Primavera.

OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO
Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos


FELICIDADE
PELA AGRICULTURA


SEGUNDA EDIÇÃO


VOLUME II

LISBOA
Empreza da Historia de Portugal
Sociedade editora
LIVRARIA MODERNA TYPOGRAPHIA
R. Augusta, 95 45, R. Ivens, 47

XI
Quinto serão do casal

Tres novidades aos amigos lavradores

SUMMARIO

O autor já tinha saudades do Casal.—Onde passou o mez de Maio.—Desencantamento que trouxe da Capital.—Insiste-se na necessidade de representação agricola.—Testemunho que lhe levantam attribuindo-lhe desejos de ser Deputado.—Rasões por que o não deve nem quer ser.—Que fazem e como são os nossos inimigos.—Não se lhes deve oppôr a violencia bruta, mas juizo, e salvarmo-nos por uma eleição de consciencia.—Duas novidades traz o autor da Côrte—Primeira: que a Sociedade de Agricultura Michaelense vai sendo imitada em Portugal.—Segunda: a publicação do Guia e manual do cultivador.—Louvor d’esta obra, e de quem a fez.—A Sociedade promotora da Agricultura a coroou—O que os premios produzem de bem.—Torna-se ao projecto da Ordem do arado.—Noticia do banquete da Sociedade da Agricultura.—Hymno dos Lavradores.

Já tinha saudades de vós, meus bons amigos. Lá passou, e bem a meu pesar, o mez de Maio, sem eu visitar este casal.

¡Maio sem vós! ¡e sem campo! ¡Maio n’uma cidade, e Capital! ¡e das maiores! ¡onde o que só dá flores, mas não para frutos, é a rhetorica dos politicos, e onde, para nada verdejar, nem sequer esperanças já verdejam!

¡Oh meus excellentes lavradores! Quizera eu, não que vos arrancasseis do vosso torrão, para irdes ver o que é uma Côrte, e aprenderdes a amar-vos; mas que ao menos a sonhasseis uma vez, tal como ella é, e como são todas: magnifica de marmores e architecturas, rumorejante de festas e musica, trovejada de carroagens, refulgente de gaz, que supprime a noite, alardeando senhores e principes, remirando-se nos enxames de suas damas; mas, no meio de tudo aquillo, esteril, desencantada, e não tirando de si os olhos com medo de os lançar para o futuro...

Pois se fosseis lá com algum pensamento sincero de amor dos homens, com alguma santa loucura de alma desinteressada, d’estas que alguma vez devaneámos na calada das vossas solidões, e que tão faceis foram de realisar; se vos désse em ir mendigar para a civilisação, e para os filhos e netos de nós todos, algum favor muito pequeno, e muito justo, ¡como vos não recolherieis ás vossas poisadas, descrentes e esmorecidos, para nunca mais arredardes d’ellas nem os pés, nem os olhos, nem o pensamento!

Meus amigos, meus amigos, deixae falar os nescios, que tão mal vos querem a vós como a mim; e crêde no que vos repito com a mão na consciencia e nos Evangelhos: para que, do meio das leivas rusticas, nos saiam emfim Deputados representantes da terra, semeemos o juizo, se desejamos colher a felicidade; se não fôr já hoje a hora do desengano, medo tenho de que seja amanhan a de acabarmos.

¿Sabeis o que dizem lá nos seus pagodes estes mexeriqueiros ruins, vossos inimigos e meus? ¿estes ingratos, que, devendo-vos tudo, invejam até o pé do inhâme que semeais para os filhos, e, de vaidosos que são, até a figura humana vos tirariam, se podessem? ¿Sabeis? ¿adivinhais, não o que elles pensam, mas o que elles dizem? Dizem, que no dar-vos este conselho, o unico bom conselho que hoje se vos pode dar, só armo á popularidade, para algum dia me ir d’aqui, Deputado feito por vós, sentar-me triumphalmente n’uma cadeira do Parlamento.

¿Então que lhe quereis? Dão o que teem, e fazem o que podem e costumam.

¡E dizer que ha ainda ferrenhos, que não crêem na jumenta de Balaão!

Não, boa gente, nem vós, quando escolherdes os vossos pares na lavoira, me haveis de nomear a mim, que desgraçadamente o não sou, nem, que o fizesseis, eu vos acceitaria a nomeação. Essas honrarias, já por mais de uma vez as rejeitei; e não foi para me andar agora á caça d’ellas.

¡Eu Deputado!... ¿Para quê?

Aqui, no vosso serão, ou entre outros amigos, n’um colloquio poetico, ou na minha cellasinha phantasiando para um papel alguns amores do coração, tenho o meu préstimo como outro qualquer. Passeio na herdade em que me creei; não tenho medo de me perder. ¡Mas a bordo d’aquella grande náu! ¿Quem me ensinou a mim a sua mareação? ¿E depois ... o enjôo!... ¿Eu na tribuna? ¡eu orador?! Melhor sorte me dê Deus.

Sou muito humilde, ou muito soberbo, para lá subir. Assentae bem isto em lettras grandes na vossa folhinha detraz da porta. Votae em amigos vossos, sinceros e desenganados como eu, porém mais sabedores e praticos, do que eu, de vossas coisas, e mais affeitos ao mundo positivo, que o escrevedor de livrinhos, que metade de sua vida a passa por essas nuvens, e a outra metade entre creanças. Affronta vos faria ao bom-juizo, se vos allegasse mais rasões.

Quando se trata de lavras, não é a andorinha, nem a cotovia, que vós jungís á canga do arado. Assim, não é do poeta, que vós, gente grave e sizuda, farieis o vosso representante; como tambem o não farieis d’esses descendentes da jumentinha de Balaão, que, sendo muito pobres de cérebro, muito mais o são ainda de coração.

A mim já vós me conheceis; mas ¿quereis acabar de os conhecer tambem a elles? Pois ouvi.


Fundou-se ahi uma Sociedade de Amigos das Lettras e Artes, para fazerem, a bem da instrucção primaria e dos officios mechanicos, o mesmo que em vosso proveito faz a Sociedade da Agricultura. Era santo instituto; ¿não era? Pois declararam-lhe guerra, pozeram-lhe nomes, levantaram-lhe testemunhos pela bocca pequena, enredaram com cartas anonymas, que mandaram imprimir n’outras terras, imprimiram outros aleives aqui mesmo, mas com datas fingidas e de longe, porque tamanhas vergonhas eram, que, sem mascara, nem elles as ousariam; peitaram, por baixo de mão, creancinhas desvalidas a desertarem das nossas escolas, para continuarem a apodrecer na ignorancia; aos que eram seus servos, prohibiram-lhes frequental-as.

Quando me eu ia de proposito, viagem de mais de duzentas leguas por esses mares de Christo, para requerer se nos désse aqui um chãosinho em que edificarmos, á nossa custa, uma albergaria para as pobres Lettras e Artes, mandavam elles, atravez de egual Oceano, quem lá fosse pedir que nos indeferissem; quem nos denegrisse bem denegridos; quem patrocinasse e advogasse, por todos os modos (sobre tudo pelos secretos), a causa da ignorancia; quem lidasse por vos perpetuar na condição ignominiosa de servos da gleba, um pouco mais que troncos, um pouco menos que bestas de carga.

—«¿E vingaram esses tramas diabolicos?»—perguntareis vós.

¡Quem sabe! talvez sim; o tempo o descobrirá.

Ahi tendes o que elles são; guapos corações, e guapissimas cabeças para legisladores; admiraveis amigos da terra em que nasceram, ou que os abortou, e do Povo, que sua de trabalho para que elles suem de praseres, que anda nu para que elles se enroupem com arminhos, e cospe sangue nas mãos por elles, que lhe cospem desprezo sobre ambas as faces.

Meus amigos, se queremos ser salvos, é olharmos por nós, e forcejarmos por destecer todas estas cerradas teias de barbarias. Trabalhemos tão activamente, de dia, e ao sol, como elles o fazem de noite, nos esconderijos, com vigilantes expertos e terriveis a guardal-os. Opponhâmos ás mentiras traidoras, e ás cobardes calumnias, a verdade e a franqueza; ao anachronico feudalismo, o seculo XIX, que é o nosso, que é vivo, e que é forte. Nada de violencia; a força bruta nada cria, e ameaça tudo; o incendio, o exterminio, as sublevações, o converter as enxadas em machados, e as arvores, que alimentam, em clavas que derribem, fôra curar a doença com a morte, enredar-se mais nas cadeias, pretendendo sacudil-as, querer subir ao cume, e afogar-se no abysmo.

A redempção, toda a redempção, só Leis sabias, e zelosamente mantidas, nol-a hão de trazer; e é para as termos, que eu vos exhorto e vos supplico vos associeis, para darmos a um Povo, que é e deve ser agricola, umas Côrtes agrárias e um Ministerio lavrador; isto é: a um Paiz, que pode e quer produzir, uma providencia e cultura apropriadas. Pelo menos, façâmos o que de nós depende para o bem, como os inimigos fazem quanto podem para o mal. E depois... sahirá o que Deus quizer.


Por novidades da Côrte me requereis. Das politicas, nenhuma vos trago, que não curei d’ellas, nem já entendo essa linguagem. Das operas e passeios, das modas, e do aformoseamento das praças, não curais vós. O que só vos importa, é a terra.

Pois bem: duas novidades vos trago quanto á terra, que vos devem ambas aprazer.

A primeira, é que a vossa tão bem augurada Sociedade promotora da Agricultura Michaelense, ao mesmo passo que vos fecunda por cá o solo por via da instrucção, faz nascer lá pelo Reino, por via da emulação, outras semelhantes Sociedades, que, se forem avante, e imitarem sempre a sua predecessora, transformarão a final a Patria, de mendiga despresada e decrepita, em abastada, juvenil, e formosa, mediante aquelle Congresso e aquelle Ministerio que já sabemos, e para que ellas hão-de, quando crescerem e se propagarem, contribuir infallivel e irresistivelmente.


A outra novidade, tambem para alviçaras, é um Livro.

Um Livro nem sempre é uma obra; as mais das vezes é palavras, das quaes as obras distam muito.

Este, porém, que vos eu annuncio, deveras é obra; custou bom estudo; fez-se com amor e consciencia; allumiará os vossos espiritos; e contém em germes grande copia de frutos, que, em vós querendo, entrarão logo a rebentar pela superficie do vosso solo. Tem por titulo Guia e Manual do Cultivador, ou Elementos de Agricultura.

Antes que d’elle vos fale, ou para supprir o que d’elle vos poderia encarecer, deixae-me falar-vos do seu autor, que, melhor do que eu, sabeis vós como pela arvore se adivinha o fruto.

José Maria Grande, Doutor abalisado em Medicina e Philosophia, e Lente ha annos de Botanica e Agricultura na Escola Polytechnica de Lisboa, é um d’aquelles espiritos eleitos, que a Providencia predestina ao bem commum, e que, para melhor se habilitarem ao desempenho do seu sacerdocio, lhe saem das mãos ao mesmo tempo graves, e amenos; sizudos, e poeticos; para a rasão, convincentes; para a vontade, persuasivos.

Desde a flor da mocidade o amo eu, que desde então nos conhecemos. N’aquellas famosas festas da Primavera, celebradas nas margens ridentissimas do Mondego, e de que já póde ser ouvirieis falar ou ler alguma coisa, foi elle um dos que mais por engenho se extremaram.

D’ahi para cá (e não são tão poucos annos), sem renegar o culto das Musas, que tão dadivosas o prendaram, entrou, comtudo, a combinar com aquelle affecto outro mais alto; com a poesia espontanea da imaginação, que é só rosas e fragrancias, a poesia cultivada e frutifera da Natureza. As sciencias d’ella, foi-as enxertando no talento, foi-as nutrindo e robustecendo com a seiba, assim melhor aproveitada, do seu engenho. Imaginae ¡o que não estarão hoje produzindo!

Então, era a primavera, a florescencia, o poeta. Hoje, é o sabio, a meditação, o outono, a abundancia. Então, o rouxinol que enfeitiçava as ociosas noites de luar. Hoje, a aguia que se remonta ás alturas, d’onde abrange largo mundo, e que fita os olhos escrutadores no proprio sol. Coração e indole não lhe mudaram; mas os amores que tinha, ideaes e volateis, concentrou-os no amor grande, no que é bemvindo em todas as edades, e a todas as ennobrece: no amor dos homens. Como Virgilio, passou das cadeias de rosas de Amaryllis, ao magisterio das Georgicas, á grave doutrinação dos camponezes.

Lavrador elle mesmo, e imbuido copiosamente nas theorias por sua experiencia verificadas, comprehendendo (até onde é dado) os mysterios da Natureza, affeito a explical-os, e sabendo realçal-os ainda com a lucidez e côres do estylo, commetteu com a melhor estreia, e com as fadas mais propicias conseguiu, crear para vós o que de toda a parte, ha muito tempo, se pedia em vão: o codigo succinto, mas completo, dos vossos trabalhos.


Em dois volumes, e não grandes, é a sua obra repartida. O 1.º anda já no Publico, procurado e festejado; o 2.º não tardará, podendo-se-lhe desde já prophetisar egual fortuna.

Presente bem rico vos será já per si o que vos trago. N’elle aprendereis, como introducção ao que vos cabe fazer, para que a fazenda, como dizia Virgilio, satisfaça ás vossas cubiças, parte do muito, e do infinito, que a Divina Sabedoria fez para vós e para todos, ao crear a terra, as aguas, os ares, e as plantas.

N’este sentido, o livrinho, sem o dizer, é tambem dos mais religiosos. Descobrir os segredos da Creação é adorar o Creador. Newton, que mais os sondou, nunca de Deus falava sem inclinar aquella grande cabeça, que abrangia mundos.

Quando houverdes lido, no vosso Guia e Manual, os maravilhosos segredos do nascimento e crescimento, da florescencia, frutificação e reproducção das plantas, da sua alimentação, da sua vida, do seu respirar, do seu dormir, dos seus amores, das suas relações de beneficios mutuos com o ar, com a terra, com os animaes, e comnosco; fico-vos eu que a minima hervinha vos inspirará mais devoção, e vos dará mudamente mais conselhos, que a mais devota Imagem da vossa aldeia. O que no campo vos parecia solidão e ermo, deixará de o ser aos vossos olhos, porque direis:

«Tudo isto, que vegeta em derredor de mim, me está amando, e amando a seu modo ao nosso Deus; tudo isto é vivo, tudo isto é sabedoria e bondade em acção.»

E depois, com este conhecimento especulativo, que vos ala para as alturas, ¡quantas ideias para applicação e pratica! Cada verdade, cada phenomeno, que se descobre dos entes a dentro, é um raio de luz que nos encaminha no mais acertado modo de os servirmos e os aproveitarmos. A herdade d’aquelle que aprendeu o capitulo da grande Theologia Universal chamado Botanica, entre os predios dos ignorantes se distinguirá, como a porção de terreno em que Franklin mandou á Natureza escrever com grandes lettras viçosas um invento prestadio. Isto foi adubado com gesso—bradavam aos olhos, no meio de um prado mal fértil, pomposas lettras de verdura. Isto pertence a quem entende o viver das plantas—dirá a duplicada fertilidade da vossa lavoira.


Para que não suspeiteis que é a amisade quem me fascina, quando assim vos exalto o valor e prestimo do livro; ou para que, por ser de extranho á vossa bella arte, me não desdenheis a recommendação, haveis de saber que o mesmo que vos eu digo, foi já sentença de tribunal mui competente, qual é a vossa Sociedade promotora.

Tanto a obra lhe cahiu em graça por sua singelez e verdade, por sua sciencia e clareza, pelo mui serviçal que se vem accommodando a esta e áquella necessidade do lavrador, e pela segura sonda com que o autor vai tenteando as novidades antes de as adoptar (o que nem sempre se acha nos agrónomos que só teem por geira a folha de papel, por charrua a penna, por bois os dedos, e por experiencia as suas phantasias), emfim por sua sciencia e consciencia, tanto namorou o livrinho a estes sinceros juizes, que, a par com os louvores e agradecimentos, que já não seriam pequena corôa, lhe decretaram unanimes uma medalha de oiro. Fizeram o que o Governo havia de fazer, se já existira n’elle o que em nossos votos existe ha muito: um paternal Ministro da Agricultura.

Em quanto o não ha, nem Côrtes que legislem premios condignos a taes serviços, necessario é que a virtude dos particulares vá pagando, como pode, dividas sacratissimas, que não são só do Estado, se não tambem da Humanidade. ¡A Deus praza que as outras Sociedades agronomicas do nosso Portugal, edificadas com o santo exemplo o imitem, e o subam ainda por sua parte a maior ponto!

Os talentos dos que podem escrever para utilidade dos seus semelhantes, são como as flores femininas: conteem no seu ovario, lá bem no fundo do calix, germes optimos; mas o pólen, que os fecunda para frutos, só lhes vem na aura do favor publico. Esse pólen fragrante, que os activa deliciando-os, e encantando a quantos no transito o aspiram, é o louvor e o premio.

Flores d’alma hermaphroditas, que a si mesmas se bastem para frutificarem, tambem as ha, tambem; mas são muito raras.

Sem premio, nem esperança d’elle, nasceu em verdade, e amadureceu, e está já colhido, o Manual do lavrador; mas agora, depois do exemplo, ¿quem póde calcular o que no engenho e saber de outros procreará a louvavel ambição?

¿Lembrais-vos d’aquellas condecorações em que vos eu falava aqui ha tempos, que se deviam instituir com titulo de Ordem do Arado, e de que tanto escarneceram os parvos, que, a propôr-se a votos uma Ordem da maledicencia, calumnia, e mexericos, talvez a approvariam? ¿Lembrais-vos, meus amigos?

Pois, se tivesse já havido um Parlamento que a decretasse, e tivessemos um Ministerio dos Negocios da Agricultura.... um Commendador da Ordem do Arado para venerações teriamos nós já; e vós m’o direis quando houverdes devorado o livro.


Antes de nos apartarmos, falemos de outra coisa, que tambem vos toca.

Sabereis, que, no dia folgasão do nosso patricio Santo Antonio, teve a Sociedade promotora da Agricultura Michaelense um banquete campestre, muito lauto, muito alegre, mas (o que mais vale, que tudo isso, quanto a mim) muito excitativo para mutuas harmonias de vontades, e muito desafiador de forças para os trabalhos que mais importam. Com vinho patrio se bebeu á vossa saude, á prosperidade da lavoira, e á perseverança e bons fados da Sociedade, que tanto lhe quer a ella, e mais a vós.


Em nossos precedentes serões, aqui no casal, vos ponderava eu, e vos provava com exemplos, como os poetas foram sempre os mais certos amigos e devotos dos campos e vida rustica. No livro que vos hoje trouxe lá vereis mais uma prova; e agora concluirei com uma recentissima, de minha lavra; é o Hymno dos lavradores, que eu apresentei como postre entre os vinhos e fruta da vossa terra, n’aquelle patriotico jantar de nossos amigos e irmãos.

Tambem eu, ensinado pelos annos, passei das festas da primavera para as do trabalho. Outros tempos, outros gostos; os mais seguros e abençoados sempre são esses.

Ouvi pois o vosso Hymno; se vos aprouvér decorae-o, e no meio de vossos trabalhos entoae-o muitas vezes. Poesia e Musica são uns bons adubos, que se haviam de empregar muito mais a miudo, para estimulo de entendimentos perguiçosos e vontades indolentes. De Poesia e Musica muito se ajuda a civilisação onde ha philosophia, como em terras de Allemanha. Os Antigos por instincto o adivinharam, quando metteram entre as lições de suas fabulas a de Orpheu e de Amphião domando rudezas, amançando feras, e erigindo cidades de cem portas e immenso trato, ao som de suas lyras.

O que a minha entoou para inspirar o santo amor dos campos, ainda que não seja de nenhum Amphião nem Orpheu, eil-o aqui. Com mãos limpas vol-o entrego; recebei-o com boa sombra.

HYMNO DOS LAVRADORES

Voz

Cantae, passarinhos; cantae, arvoredos;

cantae, frescas fontes; cantae, virações;

cantae, ceos e terra, cantae os segredos

da vida inefavel que anima as soidões.

Côro

De espigas e palmas coroemos a enxada,

morgado, e não pena, dos filhos de Adão.

Mais velha que os sceptros, mais util que a espada,

thesoiro é só ella, só ella brasão.

Voz

Romper tenta o Sabio do mundo a cortina;

ao Bello dá cultos o Artista, o Cantor;

o Obreiro transforma; o astuto domina;

mas o homem dos campos só é creador.

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

Da terra sahimos, á terra volvemos;

a terra nos veste, nos traz, nos mantem.

¿Quem, mais do que a terra, merece os extremos

que obtém dos bons filhos a próvida mãe?

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

É cárcere, e livre se acclama a cidade;

infernos de penas, disfarça-os em si.

A léda, abundosa, gentil liberdade,

sem fausto, sem nome, nos campos se ri.

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

As ruas sombrias, as turbidas praças,

só brotam miserias, vaidades, motim.

No campo a abundancia pululla entre as graças,

e adoçam-lhe as lidas delicias sem fim.

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

Gentil liberdade nos campos impera;

nas médas das eiras seu throno reluz;

diadema de flores lhe dá Primavera;

em choça de colmo tem régia Queluz.

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

¿Quem nutre as cidades, as frotas, e armadas?

¿Quem serve ás mil Artes banquete Real?

A mãe do Commercio, rainha das Fadas,

a Fada incançavel, a Industria rural.

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

Esgotam-se as minas; dissipa-se o oiro;

perguiça e pobreza lhes crescem de apoz.

No solo aos activos poz Deus um thesoiro,

tão rico entre netos qual fôra entre avós.

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

A aurora dos campos floreja saude,

nas faces a rir-nos qual ri na maçan;

a terra dá frutos, o Ceo dá virtude,

e a lida folguedos á turba aldean.

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

Os mezes das flores, os soes do ceifeiro,

a quadra das frutas, o ocio invernal,

são gostos variados, que em vôo ligeiro

matizam nos campos o giro annual.

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

Viver de colono devolve-se em festa;

o dia lidado lhe escapa a folgar.

Com a alva renasce; repoisa na sésta;

triumpha ao sol posto; descanta ao luar.

Côro

De espigas e palmas, etc.

Voz

De dia, o trabalho n’um chão florescente.

A noite, em bons sonhos, amor e prazer.

¡Ditosa mil vezes a rustica gente,

se os bens que disfruta soubera entender!

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

Ver Nymphas nas selvas, nas aguas, nos montes,

foi de animos gratos delirio em pagãos.

Nas serras, nos troncos, nos ventos, nas fontes,

Deus sentem, Deus amam, colonos christãos.

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

¿Dos Céos quem, no mundo, quem vive mais perto?

Lavrando ou colhendo, medita-se em Deus.

Com preces e hosannas palpita o deserto.

¡Oh! Fé, os seus filhos inda hoje o são teus.

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

¡Oh! Tu, que os expulsos do teu Paraiso

ás quedas e á enxada fadaste, ¡oh! ¡Senhor!

nas lidas põe bençam, nas mentes põe sizo,

nos corpos saude, nos peitos amor.

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

Mantém nas esposas fiel castidade;

na prole innocencia; fartura no lar;

concede aos visinhos fraterna amisade,

e á Patria virtudes que a possam salvar.

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

¡Virtudes á Patria! ¡virtudes ao Povo!

!virtudes aos Chefes que dictam as Leis!

Já foi sceptro a enxada; que o seja de novo.

Diniz lá da campa que a mostre inda aos Reis.

Côro

De espigas e palmas etc.

Voz

Aos roucos triumphos das eras antigas,

succêda o da Arcadia cantar festival.

Da ceifa das palmas á ceifa de espigas

volvei, Cincinattos do bom Portugal.

Côro

De espigas e palmas coroemos a enxada,

morgado, e não pena, dos filhos de Adão.

Mais velha que os sceptros, mais util que a espada,

thesoiro é só ella, só ella brasão.

Junho de 1840

XII
Sexto serão do casal

Tristes effeitos da ignorancia

SUMMARIO

Singular processo de feitiçaria e homicidio.—Como se sentenciou.—Encontradas opiniões acerca da sentença.—Tem para si o autor que n’este crime, como em outros muitos, não cabe imputação.—Brotou-o a ignorancia; e a ignorancia é culpa das Leis e Autoridades.—Todos os cidadãos teem direito a instruir-se, e o Governo, por conseguinte, obrigação de lhes facultar os meios de se instruirem.

¡Processo bem raro para em nossos tempos!

No banco dos accusados occupa o primeiro logar uma mulher já de dias, com a serenidade da innocencia no rosto, nos modos, e nas falas. A fama publica e as testemunhas a dizem digna do seu nome: chama-se Angelica. A sua casa foi sempre asylo franco a feridos e enfermos, mórmente pobres, que dizem acharam sempre n’ella muita sabedoria, mãos mui primas para curar, e palavras de consolo tão efficazes como os seus remedios; tudo pelo amor de Deus, e esmolas ainda por cima.

¿Que a metteria entre ferros d’el-Rei, onde jaz, faz hoje um anno dia por dia?

Matou outra mulher.

No banco dos accusados lá estão, não menos, os complices que a ajudaram: o marido e viuvo da victima, que lh’a levou a casa, e lá permaneceu em quanto durou a tragedia; os que a estiveram sopeando de pés e mãos, até que cessou de bulir; o que, por espaço de horas, com uma vella na mão allumiou; os que, depois de consumado o acto, carregaram o cadaver, como um fardo, para cima de uma cavalgadura, para o irem lançar de uns penedos no mar, que a elle lhe servisse de sepultura, e a elles todos de encobridor. O que o mar havia de sonegar á Justiça, o Céo, que vê tudo, o descobriu. Os culpados, a fóra um, que medo ou remordimentos da consciencia trazem a monte, os culpados ahi estão todos no meio do tribunal.

¿Mas quem era a morta? Que fizera para haver tão miseravel fim?

Chamavam-lhe feiticeira os visinhos.... sem embargo de ter nome de Maria, que dizem preservar de coisas ruins. A artes suas diabolicas se attribuiam muitos achaques, desconcertos de fortuna, e mortes. Todos (até seu marido) aborreciam n’ella o «Espirito immundo», que, para não ser constrangido a desamparal-a, a trazia pertinazmente erradia dos confessionarios.

Para a desendemoninhar, a fez a serva de Deus conduzir a sua casa; combateu com as resas e ceremonias que por mais acertadas tinha; exorcismou, á sua moda; ameaçou, espancou o inimigo; em vão. Com a teima d’elle, houve de crescer n’ella o fervor da caridade, e a santa cólera. Lançou-se sobre a infeliz derrubada; recommendou aos circumstantes lhe tolhessem os movimentos, a fim de se não espalharem os feitiços (com o que, todos ficariam perdidos, e voaria a casa pelos ares); e tanto fez, e fizeram, sobre aquelle triste corpo, tanto e por tanto tempo lhe cerrou a garganta ao som de esconjuros, que a pobre expediu de si, não o espirito infernal, mas a propria alma.

Lê-se o processo; ouvem-se as testemunhas, os réos, a accusação, a defensa. Ao cabo de dezasseis horas, pelas 2 da manhan do dia 11 d’este mez, publica-se a sentença: Angelica, desterrada por dois annos para fóra da comarca; seus complices, restituidos á liberdade.


Sem quebra do acatamento que todos devem á Justiça, arvoremo-nos aqui, no casal, em juizes de tal sentença.

De injusta, por benigna, a accusam muitos da cidade, e a accusa o proprio Ministerio publico; em quanto cá nos campos, segundo oiço, não falta quem ainda a taxe de cruel. Aquelles, horrorisados com o homicidio, que as circumstancias aggravaram até martyrio, para o expiar invocam o homicidio legal. Estes dão benções, do coração, a quem purgou a terra de uma procuradora e agente dos infernos.

Em rasões de humanidade se fundam uns e outros; e a uns e outros, todavia, tem a mesma humanidade rasões que oppôr para defender esta sentença, em que tanto reluz ella como a justiça.

E quando não, discursemos chanmente, e com os animos despreoccupados.


Maria, em verdade, não era feiticeira; não o podia ser; não as ha; não pode havel-as.

Foi crença de pagãos a que admittia pactos secretos com espiritos malfasejos, para se obrarem no mundo maravilhas. O Christianismo não a acceitou, que seria negar peremptoriamente a Providencia, e renunciar Deus, renunciando a rasão.

Nem a tradição respeitavel da Egreja, nem os escritos dos Santos Padres e Doutores, nem as Decisões dos Concilios, nem os Theólogos, nem, sobre tudo, as Escrituras santas, deram jámais o seu assenso a essas fabulas despresiveis, filhas da velhacaria interesseira, ou da ignorancia crédula, ou, mais ao certo, de uma e de outra.

De balde nos argumentarão com as penas estabelecidas contra os que professem a feitiçaria. Nós mesmos, que na feitiçaria não acreditamos, defendemos por sensatas e justas essas penas; porque todo o individuo que se inculca alliado, e braço direito de potencias invisiveis e maléficas, para alterar, em muito ou em pouco, a natural corrente das coisas, calumnía a Deus, mente a si e a seus semelhantes em materia grave e de consequencia; arroga-se, de feito, e pelo terror, um predominio que lhe não cabia; perturba, por querer, a sociedade; lança n’ella novas sementes de fanatismo e crimes.

Uma de duas: dando-se por alliado dos demonios, ou não o crê, ou crê-o. No primeiro caso, abusa tirannicamente da rudeza e pusillanimidade alheia. No segundo, teve necessariamente a criminosa intenção de pactuar com os genios das trevas; quiz dar-lhes a alma, a troco do privilegio de malfazer; suppôz ter consumado este pacto nefando, e obrou em conformidade com a sua persuasão.

Uma e outra coisa, não podiam as Leis ecclesiasticas, e as civis, deixar de punir rigorosamente.


Maria não era feiticeira. ¿Mas dava-se ella por feiticeira? Não era esse o processo; não se provou; não o sabemos.

Mas, quer se desse quer não, quer tivesse, quer não, abusado de sua alma negociando-a com o inferno, ou dos espiritos de seus visinhos, submettendo-os ao influxo do seu querer, sempre ficava sendo, no conceito da gente rude e desallumiada, um ente muito infeliz para si, para os outros mui perigoso e mui funesto.

Era assim que, na sua timorata phantasia, indispensavelmente a devia representar a mulher, cuja vida, já de annos largos, era toda caridade, esmolas, e orações. ¿E que fez? uma grande façanha moral; uma sublime loucura de generosidade.

Só escudada de suas orações, resolveu entrar em duello com inimiga, em seu entender tão medonha e tão possante, que tomar-se com ella era tomar-se com o proprio inferno. Duas palmas lhe promettia a consciencia com aquella victoria, se a ganhasse: redimir uma possessa do captiveiro diabolico, restituindo-a á Egreja, ao marido, e a si mesma, á amisade dos visinhos, á quietação interior, e á esperança do Ceo; e desafrontar de adversidades os que as estavam por via d’ella padecendo, ou podessem para o futuro padecer.

Eis aqui a magnanima loucura que a seduziu. Aventarmos-lhe outro intuito não é possivel. Das intenções mais santas brotou o homicidio.

¡Mysterios da Providencia! não os sondemos. A morte appareceu ali como o raio, sem ter sido chamada, nem prevista.


¿Quem reuniu jámais setenta testemunhas, e na propria casa, e com luz, e em terra populosa, para assassinar?!...

¿Quem, para assassinar, empregou jámais, como unicas armas, resas de longas horas, e mãos inermes?!...

¿Que mulher poderia arrancar a existencia, por querer, a outra mulher, quando n’essa existencia fosse envolta a de um terceiro ente inda não nascido?!...

¿Desde quando se mudou a natureza humana, a ponto de entrar o pensamento e proposito do homicidio mais nefando, mais covarde, mais inutil, e mais perigoso, n’um coração que era todo benevolencia e caridade?


—«Mas a morte perpetrou-se.»

—Sim.

—«Perpetrou-a ella.»

—Sim, sim, mas sem o querer, sem o pressentir, sem entender ainda agora o como.

No delirio do seu fanatismo, julgava-se a braços, não já com uma mulher, senão com o rei dos malfeitores de além-mundo. ¿Que muito que o terror lhe centuplicasse as forças? ¿que as empregasse ás cegas? ¿que destruisse uma vida fragil e atenuada, sem saber? Logo que descobriu debaixo de si um cadaver ¿não cahiu ella quasi cadaver? ¿não lhe fugiu espavorida a razão? ¿não permaneceu por muito tempo n’esse estado entre vida e morte, de que ainda inteiramente não sahiu?

Meus amigos, ¿onde está o crime?

Uma desgraça, e muito grande desgraça, essa existiu sem duvida. Mas n’aquillo em que se não dá crime, ¿a intenção malfaseja quem a provou? ¿quem a allegou? ¿quem a demonstrará verosimil? ¿quem ao menos possivel?


Mas, deixando a justiça á Justiça, falemos de coisa quanto a mim mais util, mais fecunda, e mais pratica para entre nós.

Os processos são meras formas, sujeitas a opiniões e erros. O que tem importancia real são os factos sobre que elles versam; e mais real importancia ainda as ideias, de que esses factos se derivam necessaria e fatalmente, como a planta da semente, e o animal do ovo.

Não ha grande virtude nem grande crine, que antes de ser obra não fosse vontade, e antes de vontade pensamento, e antes de pensamento embrião de ideia; é o pontinho negro e imperceptivel no horizonte, nuncio do tufão que revolve mares e afoga armadas, varre a terra, arranca e arrebata animaes, arvoredos, e habitações.

De duas causas, só, proveem quantos males commettidos por homens se podem no mundo deplorar: uma são as ruins vontades, as paixões, os interesses mal entendidos; a outra, a ignorancia, e os erros que d’ella nascem, sendo esta segunda muitas vezes (e quasi sempre) a que virtualmente contém em si a primeira.

O Adão da maldade é o absurdo; instruir é fazer a cura adiantada.

Não são os terrenos desmoitados e lavradios os que dão plantas venenosas, reptis peçonhentos e feras bravas; formosuras e suavidades com a luz se criam, assim na alma como na Natureza.

Metter conhecimentos no Povo devêra ser o empenho dos empenhos para todo o Governo, que tivesse por norte a civilisação. Não é torcendo, decotando, nem enxertando, que se melhora a arvore, que por dentro está enferma, mas ainda não de todo contaminada; é cavando-lhe e medicando-lhe a terra, em que as radículas invisiveis estão de dia e de noite bebendo caladamente.


¡Quantas desaventuras na vergonhosa historia que vos acabo de contar, nascidas todas de ignorancia!

Um povo laborando em terrores, por julgar existente o que nem sequer era possivel.

D’aqui, odios atrozes contra uma pobre mulher, que n’isso de maleficios, de que a accusavam, não era mais incursa do que vós e eu.

Logo, ella morta do modo mais afrontoso; e com um filho nas entranhas; e com um marido ao lado, que lhe não pode acudir, que ao desamparo de viuvo sentirá accrescer-lhe o opprobrio de conjugicida.

Outra mulher, tornada a subitas e involuntariamente assassina; arrastada de sua casa, onde era procurada e festejada pelos pobres, e de sua terra que a citava com ufania, para uma prisão, para um tribunal, para a publicidade do odio, para todas as humilhações da justiça, para a eterna agonia que precede a leitura da sentença.

Além d’estas duas casas, abaladas ou destruidas, seis homens, ou chefes ou filhos de seis outras casas, passando eguaes amarguras, eguaes transes, depois de um anno sem liberdade na sentina moral da cidade, chamada cadeia.

¡Que de dias e de noites já perdidos sem remedio para esta gente! ¡e quantos annos, talvez, do seu futuro já devorados pelo desgosto! ¡Que de despezas inesperadas! ¡que de transtornos nos negocios, nos projectos, nas relações! ¡que brechas na reputação, e talvez na moralidade, pelo trato de annos com entes corrompidos e perversos, em ocio já de si corruptor, e com os brios quebrados, pelo desprezo de quantos viam tranzitar por diante das suas grades!

Todos esses desconcertos, e os milhares de outros que d’elles se haverão originado, ¿d’onde provieram? de um erro; como o erro, da ignorancia; a ignorancia, da falta de educação publica; e esta do vergonhoso e criminoso, do vergonhosissimo e criminosissimo desleixo de legisladores e governantes.

Para tudo ha Leis; para tudo se andam ellas de continuo a refazer e emendar; mas o codigo cabal, judicioso, sincero, franco, inexoravel, que obrigue todos os cidadãos a aprender, para o serem, e para serem homens; ¿esse código onde o temos? ou quem pensou nunca em o pedir, quanto mais em o fazer?

Se alguem quizer edificar na cidade o seu predio fóra do alinhamento e risco municipal, achará quem lh’o coarcte. Se se espairecer nu pela praça em dia ou noite de verão, irá prezo, quándo menos por louco. Como estes, mil outros actos, natural e essencialmente indifferentes, são todavia cohibidos por providencias legislativas.

¿E a minha alma? ¿Esta parte optima de mim mesmo, nascida com a maravilhosa faculdade e com o desejo instinctivo de se aperfeiçoar, a minha alma, hei-de poder deixal-a, de poisio, sem que me constranjam a cultival-a, eu, que para ter obstruida ou immunda a minha testada não sou livre?!!

¿Hei-de poder condemnar o espirito de meus filhos a uma infancia eterna, eu, que não sou livre para lhes mutilar um braço ou um só dedo?!

Dizer-se que ha-de o fisco extorquir-me do producto do meu suor, o que ás vezes me não sobeja, para occorrer ás necessidades do Estado, e que o Estado me não ha-de compellir a ter riquezas moraes para com ellas ajudar o patrimonio da felicidade commum!...

A soltura do viver silvestre não m’a perdoariam; ¡e o conservar silvestre o entendimento, e conseguintemente silvestre e indómito o coração, com tão estupida magnanimidade m’o relevam!!!...


Meus amigos: se, como já vos ponderei, é crime contra a Natureza e contra a Sociedade deixar devoluto a terra da Patria, de que o acaso nos fez donos ¡quanto mais apertada nos não correrá ainda a obrigação de lhe não deixarmos improductiva a nossa rasão, fundo muito mais creador e social, mina de muito mais incalculavel opulencia, morgado de instituição divina, superior em nobreza a todos os morgados!

Caberia pois ao Parlamento, chão, sizudo, e nacional, que vós algum dia (em Deus o espero firmemente) nos haveis de dar, caber-lhe-hia proporcionar a todos os cidadãos meios faceis de se instruirem, e, proporcionando-lh’os, constrangel-os, sob as mais severas penas, a aproveital-os.

Desde então haverá cessado, para sempre, a possibilidade de processos, e desgraças, como estas que hoje vos relatei, opprobrio do seculo, e escandalo da civilisação.

Mas não só isso: quando todos formos, mais ou menos, instruidos, cada um segundo as suas faculdades, o seu estado, a sua edade e a sua profissão, a lista dos crimes de toda a especie haverá diminuido. O que em escolas e livros se houver gasto, poder-se-ha forrar em prisões e agentes de Justiça.

Não é tudo: ¡Com estes bens negativos, da maior importancia, que de bens positivos e palpaveis se não verão affluir! Os deveres domesticos e civicos, mais bem conhecidos, serão menos incompletamente desempenhados. Os laços da sociabilidade se apertarão e doirarão. Tornar-se-ha a convivencia mais frequente e mais amena. Medrando o numero dos leitores o dos bons escritores crescerá na devida proporção; ir-se-hão opulentando as sciencias, as artes uteis e fabris desenvolvendo-se; a Agricultura allumiando-se e florindo; as Artes chamadas bellas por excellencia acharão o que hoje lhes falta: alumnos, cultores, consumo. Os seis dias da semana deixarão em cada casa dobrados haveres, e um domingo muito mais desejado, e muito mais desejavel.


¿Serão isto ainda utopias, como os nescios chamam a tudo quanto nasce da alma e vôa por cima do lodaçal em que se elles afogam? Não são, meus bons camponezes, não são.

Vêl-o-hieis já hoje, se as horas nos não appertassem; mas vel-o-heis para a minha proxima visita. Havemos de conversar muito assentadamente sobre isto; porque emfim, ninguem me tira da cabeça, que, pése a quem pesar, ainda algum dia vos hei-de ver legisladores.

¡Oh! quando isso fôr... então é que é pôr luminarias de nove dias, nos campanarios, nas casas das Camaras, nas granjas, nas officinas, nas estradas e nos rios, e nas escolas ¡sobretudo nas escolas!