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Rita Farinha (Fev. 2009)

O Presbyterio da Montanha:
[Volume I]
[Volume II]

Obras completas de A. F. de Castilho

XIX

O Presbyterio
da Montanha

VOLUME I

LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
95, Rua Augusta, 95
1905

OBRAS COMPLETAS
DE
ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

VOLUME 19.º

VOLUMES PUBLICADOS:

I Amor e melancolia.
II A chave do enigma.
III Cartas de Ecco e Narciso.
IV Felicidade pela agricultura (1.º v.)
V Felicidade pela agricultura (2.º v.)
VI A primavera (1.º vol.)
VII A primavera (2.º vol.)
VIII Vivos e mortos—Apreciações moraes, litterarias, e artisticas.
IX Vivos e mortos (2.º vol.)
X Vivos e mortos (3.º vol.)
XI Vivos e mortos (4.º vol.)
XII Vivos e mortos (5.º vol.)
XIII Vivos e mortos (6.º vol.)
XIV Vivos e mortos (7.º vol.)
XV Vivos e mortos (8.º vol.)
XVI Excavações poeticas (1.º vol.)
XVII Excavações poeticas (2.º vol.)
XVIII Excavações poeticas (3.º vol.)
XIX O Presbyterio da montanha (1.º v.)

NO PRÈLO:

XX O Presbyterio da montanha (2.º v.)

OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO
Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos

XIX

O Presbyterio
da
Montanha

VOLUME I

LISBOA
Empreza da Historia de Portugal
Sociedade Editora

LIVRARIA MODERNA TYPOGRAPHIA
RuaAugusta, 95 45, Rua Ivens, 47

1905

Advertencia dos Editores

Á MEMORIA
DO
EXEMPLAR DE IRMÃOS

AUGUSTO FREDERICO DE CASTILHO
PRIOR DE
S. Mamede da Castanheira do Vouga

Em testemunho publico e perenne
DE
AFFECTO E GRATIDÃO

Offerece
Antonio Feliciano de Castilho

PREAMBULO

I

...dapibus mensas oneramus inemptis,

*

II

*

*

III

*

IV

V

VI

*

VII

*

*

VIII

IX

*

*

X

*

XI

*

*

*

*

*

XII

*

*

*

XIII

*

*

*

XIV

*

*

*

*

*

XV

*

*

Negreja ao réz do Tibre annoso Helerno,

santo bosque, onde levam sacrificios
inda agora os Pontífices romanos.

Ali nasceu outr'ora, ali vivia

a que nossos avós chamavam Grane,
casta Nympha, de excelsos pretensores

pedida vezes mil e em vão pedida.
Era seu exercicio errar nos campos,
as feras perseguir com dardo agudo,
e as redes emboscar nos fundos valles.
Inda que aljava ao lado não trouxesse,
criam-n-a irman de Phebo; o parentesco
não poderia, ó Phebo, envergonhar-te.

Quando algum namorado a requestava,

tinha prompta a resposta.—«Aqui,—dizia—
ha nímia luz, e a luz dobra a vergonha...
Se preferes entrar n'aquella gruta,
sigo-te.»—Á gruta o crédulo voava;
ella torcia o passo, ia á carreira
das moitas na espessura homisiar-se;
d'ali desencantal-a era impossivel.

Viu-a Jano, e de a ver ficou perdido;

combateu lhe o rigor com brandos rogos,
e a sólita resposta obteve em prémio:
que entrasse além na gruta. Obedeceu-lhe;
segue-o a principio a Nympha... eis pára... eis foge.
O que lhe fica apóz vê Jano. Ó louca,
no usado esconderijo em vão confias;
olha como t'o observa, e t'o devassa.
Não ha que resistir-lhe... eis-te em seus braços;
eil-o comtigo a sós na cava penha,
onde havias buscado o teu refugio.

Saciados os sôffregos desejos,

—«Em paga d'este goso—exclama o Nume—
dos quícios a tutella eu te confio;
pela honra perdida esta conserva.»
Assim falando, candida varinha
lhe entrega, com que os tétricos asares
das protegidas portas afugente.

Existem de brutal voracidade

umas infames aves; não já essas
que de Phineu a meza espoliavam,
mas da mesma relé: cabeça grande,
fito olhar, bico audaz, grizalhas plumas,
garra adunca; esvoaçam pela noite;
onde encontram creança ao desamparo,
que a ama deixou só, prestes a empólgam,
arrancam-n-a do berço, e a dilaceram.
Diz que as lactentes vísceras co'os róstros
lhes picam, lhes devoram; teem as fauces
sempre repletas de sorvido sangue.
Do estridor com que as trevas alvorótam,
lhes vem o nome: estriges se nomeiam.

Estas pois, quer de si nascessem aves,

quer em aves, de velhas que antes foram,
fatal conjuro marso as encantasse,
penetraram de Proca no aposento.

Com cinco soes de edade, o innocentinho

era ao bando ferino egregio pasto.
Já co'as gulosas linguas ferem, sugam
o tenro peito nu; sôam do infante
os consternados trémulos vagidos,
com que, á falta de voz, auxilio pede.

Corre a ama assustada; acha nas faces

do caro alumno seu lavado em sangue
das brutas garras os crueis vestigios.
¿Que fará? vê-lhe o rosto exangue, murcho,
que na côr arremeda as tardas folhas
já do rígido inverno bafejadas.

Corre a Grane; o successo lhe relata.

—«Cobra valor—a Nympha lhe responde;—
viverá teu alumno.»

Entrada ao berço,

acha a mãe, acha o pae, sôltos em pranto.

—«Eis-me; enxugae as lágrimas—exclama;—

vou tornar-vol-o são.» Diz, e tres vezes
de medronheiro com frondosa vara
fere da estancia as portas; outras tantas
co'a mesma vara o limiar sinála;
rega o ádito; as aguas com que o rega
encerram salutifera mistura.
Entranhas cruas de bimestre porca
toma nas mãos, e diz:

—«Aves da noite,

í-vos, deixae as puerís entranhas.
N'esta pequena victima tenrinha
o tenro pequenino aqui resgato;
é coração por coração; tomae-o;
por visceras são visceras; redima
esta existencia immunda outra mais nobre.»

Finda a sacra oblação, corta o deventre,

e esmiunçado o vai pôr aos ares livres,
prohibindo do rito ás testemunhas
olhal-a então ninguem; por fim colloca
a vara de oxiacanta, o don de Jano,
na janellinha que dá luz ao quarto.

Consta que desde então não mais volveram

ao berço aves ruins; saude, cores,
tudo refloresceu no innocentinho. [3]

*

XVI

*

*

O loireiro bate bate,
que eu bem o sinto bater.
Para comigo cantares
has-de tornar a nascer.
Á couve se come a folha;
come-se a raiz ao nabo.
Só te espero ver casado
sendo mulher o diabo.
Navio d'el-Rei é grande,
é grande e chega ao Brazil.
Se namorares alguma,
não seja á luz do candil.
Sequidão cria o centeio,
frescura cria os repolhos.
¡Quem me estreára comtigo,
menina, os lençoes de folhos!

Al porto di Livorno
è giunto un bastimento.
Cara, morir mi sento!
mi sento, o Dio, mancar!

XVII

*

XVIII

*

*

*

—Ó ia, eu te digo ó Maria,
Ó iga, que se tu és minha amiga,
Ó á, botes as cabras para cá,
Ó enda para me ajudares a comer a merenda,
Ó eijo, que tenho aqui brôa e queijo,
Ó ôas, e umas maçans muito bôas.

XIX

*

*

*

.....que derruba o chapeo,

Nympharum domus.....

.....vivo sedilia saxo.

*

*

*

—¿San-João das barbas doiradas,
onde foste ter as orvalhadas?
—Fui as ter áquellas hortas,
recordar aquellas cachopas.
Recordae, recordae, perguiçosas,
que da fonte já veem as formosas,
com as talhas cheias de cravos,
que lh'os deram os seus namorados,
com as talhas cheias de flores,
que lh'as deram os seus amores.
San-João, rico cavalleiro,
companheiro de Nosso Senhor,
acompanhae a minha alma
quando d'este mundo fôr.
—¿Por que tendes, San-João,
esses sapatinhos brancos?
—Para passear ás moças
domingos e dias santos.
—¿D'onde vindes, San-João,
que assim cheirais á macella?
—Venho da serra da Estrella,
de fazer uma capella.
—¿D'onde vindes, San-João,
pela calma sem chapeo?
—Venho beber agua fresca,
que faz calor lá no ceo.

*

*

*

*

*

XX

*

XXI

........ munera nondum
Intellecta deum!....

..... Oh ubi campi!

*

Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in Urbem.

*

*

*

*

*

*

XXII

*

*

*

*

*

XXIII

*

XXIV

*

*

*

XXV

*

*

*

XXVI

*

FIM DO PROLOGO

Notas de Castilho a este Preambulo


NOTA I

Fontes de estudo

NOTA II

Parochos

FIM DO PRIMEIRO VOLUME

Os Editores

[2] Existe ainda este cedro que tem alcançado descommunal corpulencia. Chamam-lhe por lá o cedro do poeta, ou do Castilho.

Os Editores.

Os Editores.

Os Editores.


EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
Sociedade editora

Livraria Moderna
95—RUA AUGUSTA—LISBOA

Obras completas de A. F. de Castilho

XX

O Presbyterio
da Montanha

VOLUME II

LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
95, Rua Augusta, 95
1905

OBRAS COMPLETAS
DE
ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

VOLUME 20.º

VOLUMES PUBLICADOS:

I Amor e melancolia.
II A chave do enigma.
III Cartas de Ecco e Narciso.
IV Felicidade pela agricultura (1.º v.)
V Felicidade pela agricultura (2.º v.)
VI A primavera (1.º vol.)
VII A primavera (2.º vol.)
VIII Vivos e mortos—Apreciações moraes, litterarias, e artisticas.
IX Vivos e mortos (2.º vol.)
X Vivos e mortos (3.º vol.)
XI Vivos e mortos (4.º vol.)
XII Vivos e mortos (5.º vol.)
XIII Vivos e mortos (6.º vol.)
XIV Vivos e mortos (7.º vol.)
XV Vivos e mortos (8.º vol.)
XVI Excavações poeticas (1.º vol.)
XVII Excavações poeticas (2.º vol.)
XVIII Excavações poeticas (3.º vol.)
XIX O Presbyterio da montanha (1.º v.)
XXO Presbyterio da montanha (2.º v.)

NO PRÉLO:

XXI O Outono.

OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO
Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos

XX

O Presbyterio
da
Montanha

VOLUME II

LISBOA
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LIVRARIA MODERNA TYPOGRAPHIA
RuaAugusta, 95 45, Rua Ivens, 47

1905

I

A PRIMEIRA NOITE NA SERRA

... Ibi hæc incondita solus
montibus et silvis studio jactabat inani.

¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! ¿Em solitario monte,
que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte
nada avistou jamais, no amplissimo horizonte,
de mundo a tumultuar, de cidades a rir...

n'este ermo ignaro, frio, mudo...

aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo!

¡o meu presente e o meu porvir!

Genio invisivel da montanha,
de astros, de sol, o ceo te banha;
o mar de longe te acompanha
no livre cantico sem fim.

Escada de Jacob da terra ao firmamento,

a mansão tua é monumento

da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.

Emquanto, em derredor do solio teu sublime,
a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,
se volve, se transforma, e sua angustia exprime
n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,

a variedades sobranceiro

mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,

e do diluvio assolador.

Silencio e paz comtigo habita;
o ermo é como o eremita;
loucas vaidades não cogita;
ama o seu rustico trajar;

em apparente inercia ama que ferva occulto

de seus affectos o tumulto,

seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.

Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:
eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,
póde ouvir de tua harpa a casta melodia,
e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;

sim; mas eu, frivolo, profano,

á solidão extranho, affeito ao mundo insano,

¿que hei-de esperar? ¿que tenho aqui?

Toda a minh'alma se entristece,
e se confrange, e se ennoitece,
ao ver que a sorte lhe destece
de um sopro os aureos sonhos seus.

Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!

sonhava mundo... ¡acho um deserto!

sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!

Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.
¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,
quem me resurgirá? Dos montes a linguagem...
oiço... escuto... medito... e em vão quero entender

é como uns sons de ignota fala;

qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,

sem me abalar, nem me embeber.

¡Oh! ¿á minh'alma taciturna
que importa, ó montanha soturna,
que de perfumes sejas urna
da terra erguida sobre o altar?

¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,

que o sol doirado, ao teu deserto

mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?

Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,
¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,
só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,
bramirei:—«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!

¡são mais pesares, mais saudades,

mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,

mais tentações a dar-me fel!...»

¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!
¡Tanto vate a ceifar louvores!...
¡Tanto moço a colher amores!...
¡Tantos loireiros e rosaes!...

E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,

qual roble que geme indignado,

vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!

Assim ruge, baldão de vingativo nume,
esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;
assim, nos gelos sua, agrilhoado ao cume
do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.

Só o abutre de eterna fome,

que o grande coração algoz sem fim lhe come,

responde em ais á sua voz.

Fenece o dia. ¡Hora jocunda,
que eu tanto amava! ¡hora fecunda
dos cantos meus! ¿por que me inunda
nova amargura o coração?

¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?

a serra em luto se me encobre;

a nocturna mudez duplica a solidão.

Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.
De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;
tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,
nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir

de luzeiros um labyrinto.

¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto

é vento em selvas a rugir.

Calae, fugi, ventos agrestes;
sumi-vos, lampadas celestes;
n'um seio a delirios já prestes
não susciteis mais tentações.

Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...

vós, astros, cifras de diamantes,

o arcano me aclarae lá d'essas regiões.

¡Oh! ¡se á minha razão, contradictoria, altiva,
que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,
de vós, faroes do Ceo, baixasse a crença viva,
que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...

¡se me volvesseis as ditosas

esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,

com que se enfeita e esconde a Cruz!...

Tornar-se-me-hiam de improviso
a solidão, em paraizo;
a magua, em perenne sorriso;
em alto cantico, a mudez;

a mallograda lyra, o não colhido loiro,

em harpa augusta, em palmas d'oiro;

e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.

Delirios sempre vãos, fugi de um peito enfermo;
tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;
ermo para ambições, é inferno, e não ermo;
para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.

Gentis phantasmas de cidades,

vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,

como um esquife em aureo veo.

¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,
(embora em saudades me eu queime)!
O somno, as vigilias enchei-me
da vossa esplendida vizão.

¿Val o riso choroso as festas da loucura?

vinde, guiae-me á sepultura,

crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.

¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,
nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.
Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotos
dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;

não, no silvestre seio vosso,

nem de amenas ficções apascentar-me posso,

nem menos as posso esquecer.

¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futuro
sondou jamais o abysmo escuro?
¡Apenas chego e já murmuro!
¿O de que tremo acaso sei?

Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,

aqui me aguardem, recatados,

dias de estro e de paz, quaes nunca disfrutei.

Se além, no presbyterio, humillima choupana,
(Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)
mais que fraterno amor sollícito se afana
em me afôfar o ninho, a vida em me inflorar;

se n'um retiro verde e mudo,

por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,

sombras no estio, o inverno ao lar;

se a solidão que me apavora,
sómente o fôr vista de fóra;
se em seus recôncavos demora
gente feliz, povo de irmãos;

se do antigo viver, das crenças de outra edade,

vestigios guarda a soledade;

se poesia se vive entre estes aldeãos;

se a alegria, serena, isenta de pesares,
como a fresca saude, habita os puros ares;
se em toda a parte ha Deus, em céos, em terra, e mares,
se Deus em toda a parte á Natureza ri...

coração meu, não desanimes,

gozos que não prevês, e cantos mais sublimes,

encontrarás talvez aqui.

¡Ah! sendo assim, ¡que importa a fama!
Tambem philoméla derrama
sua harmonia ás selvas que ama
longe de ouvintes e do sol.

Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria

que a viva, a lustrosa poesia,

de perolas que a flux borbóta o rouxinol?

Castanheira do Vouga

Outubro de 1826.

II

O SEPULCRO
OU
HISTORIA DE UMA NOITE DE SAN JOÃO
(POEMA)


INTRODUCÇÃO
(QUE É MELHOR DORMIR, QUE LER)

(Ermo alpestre entre cabeços de rocha e pinheiros, na serra do Caramulo. É noite escura como breu. O autor e um arrieiro, ambos a cavallo, transviados na montanha.)

I

—Bem lh'o disse eu, perdemos o caminho;
a velha era por força alguma bruxa.
Logo eu zanguei co'a cara e mais co'a touca!
—Bom; a pobre mulher (¿que mais querias?)
tres vezes t'o ensinou.

—Nem trinta vezes

que eu passasse por elle, o aprenderia;
a não ser pelo rasto que deixasse
esmurrando o nariz por essas lapas.
Já levo sem ferrage ambas as mulas;
perdeu-se o norte; não descubro casa,
nem gente, nem caminho, e é quasi noite.

Patrão, por meia legua mais ou menos,
não se deixa uma estrada como aquella,
que costeava o monte á beira da agua.
A velha era uma bruxa, e nós dois asnos.
—Dize um que vale dois, mas dois não digas.
Se tomámos o atalho em vez da estrada,
toda a culpa foi tua; eu não queria,
porem teimaste; e eu não me opponho a teimas.
—Mas eu ¿por que teimei? ¡pois se a maldita,
com ar de santa, e palavrinhas manças,
nos rabiscou co'o pau no pó da estrada
tão claramente as idas, as venidas
d'esta serra sem fim, não lhe escapando
lomba, moiteira, torcicólo ou brenha,
que a mula mesma entenderia o mappa!
¿Quem não cahia em tal? cahiam todos.
E de mais ¿quem nos diz que aquelles riscos
não tinham diabrura ou nigromancia
capazes de encarchar um Santo em carne?
¿E quem me diz a mim que a grenha russa
não vai ao pé de nós? ¡talvez sentada
na anca da mula!... ¡fúgite, demonios!

Meu Doutor, pelo mundo ha muita coisa;

quem mais anda, mais sabe; e eu não sou tolo,
nem creancinha de honte. ¡Olha o diabo!
bem digo eu; a azinhaga aqui poz ponto;
caminho... ¡era uma vez! ¡Má raio a parta!
¿que havemos de fazer nestas alturas?
—Tornarmos para traz.

—¿Por este escuro?

¿quer dar cabo das mulas, e estoirar-me?
¡co'um milhão de diabos!!...

—Pois fiquemos.

—E as mulas comam terra, como os sapos,
e nós carqueja.

—As noites são bem curtas.

—Se ao menos se avistasse alguma venda...
—Em rompendo a manhan teremos tudo.
Por agora apeemo-nos.

(Apeiam-se.)

*

—No inferno

estoire entre um milhão de Satanazes
o que inventou primeiro andar de noite;
era o maior ladrão... ¿Que bulha é essa?
—Não é nada; uma pedra que rebola.
—¡Que rebola!? ¡e sem mão! será bonito,
mas nem por isso engraço. ¿E aquelle bruto
lá em cima no pinhal, que guincha tanto!
—Algum mocho.

—Más balas o atravessem,

e lhe acabem co'a casta antes de um'hora;
cuidei que era outra coisa. Eu na taverna
valho por cinco ou seis; mas cá perdido,
e então de noite, um pisco me põe medo.
—Pois dorme.

—¿O quê? ¡dormir! ¡co'a bruxa ás barbas!

só se eu fôsse algum bêbado. Esta noite
nem pregar olho, nem largar das unhas
dois penedos; e ao pé já está reforço.
—Golgan, já que não foi por nossa escolha,
busquemos contentar-nos co'a poisada,
que inda não é tão má como o parece.
¡Quantos ha menos bem acomodados
por esse mundo agora! uns em cadeias,
outros entre ladrões, náufragos outros,
estes em luto, aquelles em doença.
Bastantes em colxões de plumas fôfas
revolvem entre hollanda, e sedas, e oiro,
cuidados tristes, asperos remorsos.
¡Quantos até nas salas mais alegres,
entre as luzes, e as muzicas, e as danças,
mas em face de um sôffrego banqueiro,

padecem mais que um reo chegando á fôrca
Não ha mal sem peor; qualquer estado
se se compara, é bom; com cara alegre
suavisam-se os incommodos; um fardo
n'um hombro impaciente é fardo e meio.
Quem não soffre um descommodo pequeno
nos grandes morre; um leve desagrado
dá realce ao prazer quando nos volta.
Qualquer estado, e pessimo que seja,
tem seu lado risonho; e é da prudencia
d'entre os picos da silva achar a amora.
Amen.—Brava o latim; dá ceia e cama.
—A falta d'esta ceia é novo adubo
do almoço de amanhan; e emquanto á cama,
¿que outra melhor do que esta em mez de Junho?
Nem paredes nem tectos, que nos roubem
a viração da noite apoz a calma;
por entre essa quebrada dos penhascos
lá em baixo o mar co'os seus murmurios frescos;
sobre nós, e por baixo das estrellas,
pendendo como um lustre, este carvalho
cravejado de insectos que entre-luzem;
dois rouxinoes ao longe; as lageas, mornas.
Vê; que soberba camara!; que leitos
desde a origem dos seculos nos guarda
no seio d'esta brenha a Natureza!
—Ao menos não tem pulgas. ¡Xó, canalha!
¡leva rumor! é bom pregar de coices.
Não durma, Sôr Doutor.

—Não tarda muito

que eu não entre a sonhar ¡Que bellos sonhos
não devem ser os de uma noite d'estas!
—Tenha lá mão com isso; o que eu prometto,
para espalhar-lhe o somno, é uma enfiada
de casos que eu passei na minha vida;
tão rara, que podia ir á Gazeta!

*

Uma vez ia eu só; era em Novembro;
chuviscava e fazia um tal escuro
que era metter os dedos pelos olhos.
(Lembrou-me esta a proposito da mula
escoicinhar sem causa.) E era bom tempo
aquelle; andava Christo pelo mundo;
tinha eu mais duros, que patacos hoje,
e andava o oiro aos pontapés da gente;
tambem... ¡já cá não torna! O grande caso
é que n'aquelle tempo era eu solteiro,
e rapaz bonitote; e havia muitas
que me fizessem fogo; eu cuido, e é certo,
que não pelos vintens; nem pela cara;
mas isto de casar co'um almocreve,
seja elle o diabo dos infernos,
parece a todas bem: é uma delicia
ter o seu homem só de vez em quando,
em logar do espião de um pegamaço
com residencia fixa em ar de abbade.
Mas... não é bom falar na vida alheia.

*

Como lhe ia contando, era almocreve;
chamavam-me o Chupista. ¡Oh! que bolaxa
que eu pespeguei na cara do coécas
que me inventou a alcunha em certa venda!
qualquer creança lhe moia os queixos;
já lá está onde o pague ¿Onde ia o ponto?
¡ah! sim; era almocreve e recoveiro;
e andava com dez machos todo o anno
a correr quanto valle e monte havia
para cobrar o fôro aos Frades Cruzios.
Que isto do fôro é bom, nem que pareça;

uns pagam-lhe borel, outros centeio,
queijos, presuntos, lan, cevada, vinho,
gallinhame por arte do diabo,
ovos, e até o musgo onde se empalham.[1]
Não ha n'um pardieiro um desgraçado
que não deva pagar alguma nica.
Já vê donde me vinha a minha alcunha;
mas sem rasão; é porque andava ás ordens.
Tambem já tenho ouvido alguns autores,
tal como o meu cunhado, e mais uns certos,
que é coisa bem mal feita a tal derriça;
Mas bem feito ou mal feito, eu não sou Papa.
Vamos cá co'o meu conto.

*

Era uma noite,

cuido que já lh'o disse, ali por Maio,
e fazia um luar... que era um consolo.

Eu saio a meu avô; se é boa a estrada,

gósto de andar de noite havendo lua;
cá pelas brenhas não, que não sou lobo.
Vinha eu mui fresco em mangas de camisa,
em cima de uma carga de presuntos,
pela estrada real, co'os sete machos
a dormitar ao som da chocalhada.
Vinhamos caminhando em certo passo
de quem gosta da noite, ou vem sem pressa,
ou de quem traz comida a gente farta.

*

Que lhe digo, em abono da verdade,
que servir Santa-Cruz não dá desgosto:
pagam bem, fazem festa ao gallinheiro,

vendo os machos no pateo é uma alegria!...
¡aquillo até os olhos se lhes riem!
dão pinga, e de cear, e muitas vezes
vi eu estar vai não vai a dar-me um beijo
o Frade gordo que recebe o saque.
¡Bom tempo! ¡bom de lei! já cá não torna.
Não durma Sôr Doutor.

—Não durmo; acaba.

—¡Acabar! não acabo em toda a noite,
nem que estoire a barriga do diabo.
Inda eu não comecei. Lembra-me um Frade
que havia em Santarem; tinha um cachaço,...
por tal signal que até revia enxundia;
¡e era um demo, o maldito, a beber vinho!...
¡Mas aquillo! a prégar era uma joia;
um sermãosinho d'elle atarantava
e punha tudo azul. Tinha a constancia
de arrumar prègações de duas horas.
N'um que eu lhe ouvi, depois de falar muito...
(e olhe, foi tanto, que eu, e muita gente,
já tinhamos dormido á regalada)
disse muito pausado: «Eu principio.»

Assim faço eu tambem. Todos devemos

tirar das prègações algum proveito.
Ora pois, não me durma, e ahi vai a historia;
porém tenha lá mão, que a levo errada.

*

Nesse dia á tardinha, na estalage
tinha entrado uma velha; era um diabo,
que isso... só visto! pequenina, magra,
muito preta; era um bilro de pau santo.
Tinha pela cabeça um lenço pardo
atado pela barba, um manteo ruço,
e uma mantinha exotica e de agoiro.

Tinha então uma cara não sei como;
nem parecia cara; era um nó cego
que fazia azoar a toda a gente;
mas muito experta; e uns olhos como um bixo.
¡Tambem aquella rez tinha no corpo
muita pipa de sangue de creanças!

*

Cheguei eu á estalage, e ia com fome;
vou-me á carga do fôro, agarro uns ovos,
mando os frigir com mel, que é papa fina;
e então para quem tem de andar de noite
dizem que é bom, que livra do catarro,
já se sabe com quatro pingarolas.
Ia se preparando o meu guizado,
e era um cheiro tão bom pela cosinha,
que isso não ha dizer. Já dois gallegos,
e mais, tinham ceado; andavam tolos
a cochichar, e ás voltas pela casa,
um olho em mim, outro olho na tigella,
e eu muito concho a rir, e a pescar tudo.
Basta dizer que me pediram ambos
que vendesse um quinhão; ¡e isto em gallegos!

*

Emfim, cheirava bem, e estava d'alma.

Mas o monstro da velha era uma estaca
ali muito direita ao pé dos ovos,
com cada olho aberto, ¡que te parto!
Era mesmo um olhar de inveja e zanga.
Logo eu tive má fé co'a tal menina
quando ella perguntou quem era o dono.
Porém quem mal não usa mal não cuida;
sentei-me á meza a codear nos ovos.

Ora agora o vereis: a minha amiga
amúa-se n'um canto, mais vermelha
que um pimentão, e eu sempre a observar n'ella.
Ferra os olhos em mim com tal quezilia,
que a não ser por temer a Deus e a ella,
batia-lhe co'o prato pelas trombas.
Botava cada lagrima... ¡de punho!
dava cada suspiro, a excommungada,
¡que punha medo! accendo o meu cigarro,
pago, monto a cavallo, e sigo a estrada.

Era já noite escura, e um vento frio

como o gran Satanaz.

*

¿Que diabo é isso?

ressona?; ou já na costa anda algum moiro?
—Avante; são as ramas que sussurram.
—Pois deixe-as sussurrar. Vinha eu picando
pela estrada real por ser já tarde,
e a assobiar sósinho o tiroliro.
Vai senão quando, estacam-se-me as bestas.
Á esquerda, como ahi, ficava um monte;
d'esta banda um pinhal muito fechado;
de sorte que o caminho (e então mui longe
de todo o povoado) era um soturno,
que nem Roldão o andava áquellas horas.
Entrei logo a suar e a arripiar-me;
e as mulas n'um inferno de pinotes
sem quê nem para quê; davam taes rinchos,
que se fundia o chão; pregavam coices,
que assoviavam no ar; ¡que contradança!
era uma groza de diabos doidos,
e eu mais doido, no meio, á bordoada.[2]

Aqui digo eu como dizia o Frade
n'outro sermão de um Santo; não lh'o pinto
por não ter um pincel
. Mas faça ideia
que tal eu ficaria lobrigando
(¡eu te arrenego diabo!) uma luzerna
a ir e a vir, á roda, e acima e abaixo,
lá longe no pinhal. Que era bruxedo
tive eu logo de fé; muitos que m'o ouvem
riem-se, e tal; deixal-os rir; ha bruxas;
que isso sei eu; ¡e então ali! ¡tão tarde!
Por força era algum sabbado lá d'ellas,
que as taes amigas juntam-se de noite
a fazer os seus sabbados, o mesmo
como nós no Natal á meia noite...
Ha muita comezana de creanças,
sarrabulhos de sangue, cambalhotas,
e umas rizadas..... que até Deus se admira.
No meio anda um pretinho muito gordo,
que é o proprio diabo em carne e osso.
Diz então muita coisa a todas ellas,
dá-lhe lá seus conselhos, toma contas
do que teem feito, e..... acaba a tal comedia.
Untam-se co'uma untura que lá sabem,
transformam-se em corujas e mosquitos,
o diabo e o lume sorvem-se na terra
dizendo boa noite até tal dia,
e ellas voltam-se a casa a armar já outras.
Isto sabia-o eu como os meus dedos.
Lembrou-me a tal gulosa da estalage,
e então é que dei tudo por perdido.
Deitei fóra o cigarro, e entro em voz baixa
(¡sempre isto do pavor faz muita asneira!)

entrei eu co'as mãos postas para as mulas
a pedir-lhes co'as lagrimas nos olhos,
pelas Almas Bemditas, que deixassem
todo aquelle motim, que me perdiam;
que fugissem d'ali, que andavam bruxas,
e que pé ante pé viessem vindo;
que eu promettia uma ração dobrada.
Partimos. De repente desembésta
d'ao-pé da tal luzerna um certo vulto
direito para nós como uma xára.
Com seis milhões de grozas de diabos!
¿quem havia de ser, senão a velha?
Salta n'um pulo a estrada, atrepa ao monte,
chega ao cimo, e de lá muito sizuda
entra a dizer-me adeus, e (¡t'arrenego!)
a fazer-me uma cara dos infernos...
—¿E tu viste-lhe a cara em tanto escuro?
—Certo é que lembrou bem; tambem agora
lá me faz confusão ter visto a cara.
¿Escuro? isso era escuro como um prego;
não sei como isso foi, mas vi-lh'a, e vi-lh'a;
¡assim eu visse Deus! trago-a ainda hoje
tão bem encasquetada no juizo,
que a podia pintar, e era pintura,
que urrariam os bois se lh'a mostrassem.
Quer escuro quer não, vi-a, e está dito.

*

Mas o bom não foi isso; o mais bonito
foi entrar de repente o gallinhaço
nas canastras da carga em cantarolas,
a romper, a fugir, e eu pila pila
para aqui, para ali, correndo ás cegas
sem as poder juntar. Foi se-me a noite
n'esta labutação; de cada canto

sentia um cacarejo, ia ás carreiras,
gallinha... por um oculo. Já rouco,
moido e desesp'rado, ao romper d'alva
vejo as minhas senhoras mui contentes
todas juntas n'um bando ao pé das mulas.

*

Mas alto; esta é peor. ¿Não vê? repare:
¡um clarão para ali!! d'esta nos trincam;
¡meu Deus! ¡onde diabo eu tinha a morte!!
—Alegra-te, Golgan; ¿que noite é esta?
—Para nós ambos de Fieis defuntos.
—De San João.

—¡Ah! sim; pois é fogueira,

e não é outra coisa. ¡Ora o diabo!
sempre tive uma colica soffrível.
Mas vamos nós a andar, se lhe parece.
Dizia um Padre Mestre ali do Algarve,
n'umas rasões que teve com meu tio,
que era barbeiro então, e o Padre Mestre
era o Vigario d'elle; e elle, o meu tio,
ia fazer-lhe a barba e mais ao preto,
que era um tição que só á bofetada;
¡mas muito presumido! ¡e então por moças
dava o grande magano um cavaquinho!!...
Com que emfim, tinha o Padre este ditado:
aonde ha lume ha fumo; e eu então digo
que por força onde ha lume ha-de haver gente;
e que onde ha gente ha casa; e toda a casa
tem a sua cosinha, e então ceâmos.
E é partir de repente em quanto ha lume.
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II

Eis aqui um dialogo de ensanchas
sem geito, sem sabor, sem fim, sem nexo—
grita o leitor perdendo as estribeiras.
¿Onde foi isto? ¿ou quando? ¿quem são elles?
¿onde vão? ¿d'onde veem?

*

Leitor amigo,

ha duas horas que soubéras tudo,
se o cruel arrieiro o permittisse;
mas vais sabel-o em quanto enfreia as mulas.
Quanto a elle, presumo que o conheces;
o nome do outro autor dir-t'o-hei n'um verso
não peor que outros muitos portuguezes:
Antonio Feliciano de Castilho.
Venho do Minho de assistir a bodas;
recolho me outra vez á Castanheira [3]
a casa do Prior, a fazer versos,
beber-lhe o vinho verde, e dormir muito.
O theatro da scena é certo monte
de que me esquece o nome; o anno, e o dia,
Mil oitocentos e vinte e oito, á noite,
vespera de S. João. Se mais desejas,
é perguntar, que eu te respondo a tudo.

*

Mas o melhor (se queres um conselho)
é fazer-me um favor, ao qual protesto
ser toda a vida grato: anda comnosco;

a noite está bellissima; podemos
ir co'o nosso vagar pataratando,
e conduzindo as mulas pela redea.
Mas tens medo ao Golgan; pois boas noites;
fica-te em paz, regala te, que eu juro
que estando em teu logar fazia o mesmo.
Se queres, faze ás paginas seguintes
onde vai mais Golgan (porque já agora
hei-de contar a historia por miudo)
faze, digo, a taes paginas o mesmo
que eu, tu, e elle, e nós, e vós, e elles,
fazemos ás dos Martyres do Padre,
que são apezar d'isso uma obra prima.
Passa-as em claro, e dize que já leste.
Quem fala assim não quer suor alheio.
E adeus; até mais ver que vou com pressa.
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III

—Olhe lá, Sôr Doutor; diz um livrito,
que a gente sem falar é como os burros;
e eu digo que diz bem. Quero contar-lhe,
para ver se se encurta este caminho,
o mais que se passou depois da historia.
Mas vá picando a mula; ¡olhe a fogueira!

*

Com que, como eu já disse, ao outro dia
vi as gallinhas ao redor das bestas;
torno-as a pôr na carga, e digo logo:
A Santa-Cruz não vão vocês de certo;
nem vocês, nem a carga dos presuntos,
nem nada que aqui vai, ¡com trinta infernos!

Servos de Deus tão bons, tão meus amigos,
¡haviam comer tal! ¡metter no corpo
talvez quanto bruxedo ha neste mundo!
Deus me livre do mais, que de encarrêgos
posso-me eu bem livrar. Corto co'as mulas
direito á Hespanha, e vendo-as a uns ciganos,
com carga e tudo.

—¿As mulas!

—Pois as mulas

tinham tantos diabos na muchilla
como as gallinhas, os boreis, e os ovos.
Mas eu era rapaz; se fosse agora,
não digo que o fizesse. O divertido
foi andar eu trez annos para quatro
a correr Portugal e Hespanha toda
a buscar confessor; ¡tudo ignorante!
Padre douto, nem um que me absolvesse.
Por fim achei o filho de um cigano,
dei-lhe trez duros, e botou-m'a logo.
Mas então penitencia não falemos;
se a quizesse rezar, ¡nem toda a vida!
Tudo se arranjou bem; dei-lhe outro duro,
e elle por ter vagar, se incumbiu d'ella;
mas disse-me que havia até ser velho
mortificar o corpo co'um vergalho,
e com muitos jejuns. ¡Se eu fôra pato!
Sabe então o que fiz inda algum tempo?
era correr de chôto os meus pedaços,
e depois descançar.

*

Deixemos isto,

que não lhe importa muito, e a mim nem nada;
vim para a minha terra apenas pude,
muito pimpão, e cheio como um ovo.

Namorei, namoraram-me bastantes;
por encurtar rasões, casei com uma
que era filha do irmão de um primo ou tio
de um meu compadre Abreu, que era cunhado
da sogra d'esta mesma rapariga,
e enteado do irmão do Cura velho;
tudo gente limpinha, muito boa,
e temente ao Senhor, que é todo o caso.
Gastei para impôr Bulla os meus tanturrios,
¡e não foi lá tão pouco! ¡Veja agora:
¡para a gente casar largar dinheiro!
É como ir para a India ou para a fôrca,
e pagar inda em cima aos da sentença.
Perguntei ao Banqueiro a causa d'isto,
disse me elle que a causa era nós termos
quatro humores no corpo, e d'aqui vinha
haver os quatro grãos na parentela;
que ella era minha prima, e que entre primos
havia os quatro grãos todos inteiros.
Não se riu, nem me eu ri; paguei-lhe em peças
não só os quatro grãos que se não viam,
mas ainda mais cá certa brincadeira.

*

Deixar; fosse o que fosse; emfim, casei me.
Aquelle mez primeiro é uma delicia;
foi todo elle um cantate; muito amigos,
muito beijo, e comer; muita broega,
muita romage, e tudo muito e muito.
Nunca houve um par assim tão contentinho;
nanja na aldeia e na comarca em roda;
era até amizade escandalosa.
Tanto assim, que o Prior, mais era amigo
de fazer a vontade a toda a gente,
n'um dia santo á pratica da Missa

deu-me um foguete ¡caspite! Disse elle
que marido e mulher com tal namoro
era coisa mais vil que mil diabos.
Fizemos-lhe a vontade antes de muito;
ella entrou-me a azoar com trinta coisas,
e eu a dar-lhe a matar. Por fim de contas,
o asneirão do Juiz, que era vizinho,
tomou isto em trambolho, e ameaçou-me
de me encaixar no fundo dos infernos.

*

¿E então que lhe parece a entaladella?
Vivia em paz, ralha o Prior; dezanco-a,
vem o Juiz, promette-me a enxovia.
É como o conto de um palerma velho
que ia a pé co'um rapaz e mais um burro.
—Bem sei.

—Pois sim senhor. Com que, tivemos,

não digo bem; teve ella oito ou dez filhos;
e sempre a dois e dois; forte coelha!
Entrei a dar á bruta; acudiu povo,
ella fugiu, mas eu fugi sem ella.
E d'então para cá desandou tudo.
E hoje ando aqui por moço de arrieiro,
a perder noites, e a estrompar as ventas.
Aqui está por que eu digo que este mundo
é coisa muito celebre! uns ovitos
e uma pinga de mel fizeram tudo.
............................................................

*

¡Brava! ¿não ouve uns sinos que repicam?
¡olhe um foguete! ¡truz! ¡Viva o Vinagre!
¡e viva a ceia e a cama que estão perto!

IV

Com effeito, assim era; a poucos passos
já se ouvia tambor, gaita de folles,
risadas, bombas. Apressando as mulas
na direcção dos sons e da fogueira,
descemos uma encosta, a cujas abas,
entre uns poucos de antigos castanheiros,
uns cinco ou seis pastores se occupavam
a abobadar de murta uma fontinha.
Interromperam logo o seu trabalho
para nos vir saudar; mostraram pena
de ouvir que nos perdêramos no monte,
off'recendo á porfia os seus albergues.
Não findara a benevola contenda,
se um d'elles agarrando o freio á mula
me não posesse a andar; agradecendo
os desejos dos mais que inda ficavam,
segui affoitamente o nosso guia.

*

Uma ponte de pau que atravessámos
coberta de chorões, nos poz á borda
de um trigo já maduro e sussurrante,
contiguo ao seu casal. ¡Quanto eu folgara
de descrever tudo isto! Uma casinha
plantada ahi como risonha ilhota
n'um vasto mar de tremulas searas,
e clara como a neve, ou como a lua
que a espreitava do ceo por entre as folhas
de um esquivo parreiral. Junto ás paredes,
de rosas e limeiras revestidas,
canapés de cortiça apresentavam
a imagem do descanço e a do convite.
Não era necessario entrar a porta,

para já conhecer o domicilio
da hospedage e da paz; que as proprias auras,
como que em tão poeticas folhagens
se ouviam sussurrar: ¡«Bemvindo o estranho!»

*

Não longe lhe ficava a sua aldeia

na c'roa de um oiteiro; pensarieis,
vendo-as tão perto, e um bosque a separal-as,
a aldeia tão brilhante de fogueiras
e esta casa tão só mas tão alegre,
pensarieis, como eu, ver n'uma festa
moça ausente e feliz, amante e amada,
que entre o prazer commum não quer nem deve
ir desfazer seus pensamentos doces.

*

Visinho seu mui proximo era o templo,

aos valles do arredor alardeando
na sua torre branca um Anjo de oiro,
e a um lado a Residencia, occulta em parte
n'um ramilhete de altas cerejeiras.

*

Nunca mão de pintor juntou n'um quadro

objectos mais simpathicos. Tal como
trépido arroio em tacita espessura
das copas bebe a sombra, e envia ás copas,
do sol reflexo voadores raios,
do casal a presença alegra o templo;
a presença do templo está lançando
sobre o casal o sério da virtude.
Tudo isto sob um ceo de fertil benção,

sobre um chão de abundancia, e no ar mais puro!
—¡Meu Pae,!—grita o pastor entrando á pressa—
minhas irmans! ¡um hospede!—

*

A tal nome,

como se fosse á voz de alguma fada,
com repentina luz nos apparecem
creanças folgasans, esbeltas moças,
um ancião, e uma velha. Imagináreis
ver Graças, ver Amores, ver Napêas,
trajados de aldeãos, e honrando os lares
de Baucis e Philémon, que o parecem
na edade e na virtude os meus dois velhos.

*

Não mora entre seáras a etiqueta;
mas sobre herdada meza de pinheiro
em troco adeja a cordeal franqueza,
o bom desejo adubo da abundancia,
e a amisade dos bons, filha do instincto,
que nasce qual relampago, mas dura.
Deu-se o primeiro instante ao comprimento,
logo o segundo aos commodos;
o resto á conversa, e ao bulicio de tal noite.

*

Vem-nos do forno, envolto co'as risadas,
vital perfume de mellifluos bolos,
que em molles virações traz a alegria.
Aquella vai e vem compondo a meza;
esta afervora a ceia, e a cada instante
corre á janella que descobre a aldeia.
Juntam-se á bulha os sinos da parochia,

que o sacristão na vespera do Orago
jurou provar seu zelo aos Ceos e á terra.
O festivo repique exalta as mentes,
os meninos não param, correm, gritam,
repartem bombas, furtam-se valverdes,
e rindo ameaçam fogo á pipa velha.
A boa annosa mãe ralha do estrondo,
e o faz inda maior; o esposo enfia
uma sobre outra historias do seu tempo.
O avito candieiro de tres lumes
cobre da meza o centro, e chama á ceia;
a sôlta sociedade eis se lhe aggrega.
Não foi longo o festim, mas cada copo
lhe augmentava o praser. ¡Salve tres vezes,
ó dos tres lumes candieiro avito!
¡quanto amor, quanta paz, que bens, que festas
não tens visto florir em tua casa!
¡quantas mãos tão felizes como puras
te hão accendido em noite igual! ¡quem sabe
que de memorias para ti conservas!
¡Em premio da hospedage aqui te accendam
longas eras em noites semelhantes
dignos de seus avós contentes netos!

*

Iria a muda apostrophe adiante,
mas ouviu-se o zabumba.—¡Ahi veem! ¡são elles!—
dizem todos, e todos saem pulando.
—Olhae; olhae; ¡nem uma luz na aldeia!
este anno veio tudo. ¡Que alegria
terá o nosso Parocho!

—Maria,

dá cá o meu chapéo.

—¡Corre, Pedrinho!

—¿Onde está meu irmão?

—¡Não se demorem!

—Vamos dançar.

—Perdi as alcaxofras.

—Vinde por cá; passemos-lhes adiante;
que rancho que lá vem!.....................
..........................................................
........................... Golgan, que eu fosse,
não pintara a estrondosa miscellanea
que vôa do cazal ao Presbyterio.
Lavra nos proprios velhos o alvoroço;
vão co'os mais quasi a par; lavra em mim mesmo,
estranho á festa. O pateo illuminado
nos recebe, e comnosco a aldeia em pezo.
—Viva o nosso Prior!...

—¡Viva!!!...

Mil vozes

restrugem o ecco apenas avistaram
rindo á janella o velho gordo e alegre.
—¡Viva o Senhor San João! ¡viva a alegria!

V

Bate o zabumba; a muzica rebenta;
fogem foguetes pelos ares livres
estrepitando; o campanario ovante
de jubilo endoidece; repentina
por dez partes acceza alta fogueira
dentro de um vasto circulo purpureo
mostra o prazer brincando em cada rosto.
Bello é ver n'este lance as raparigas
compondo mais o lenço, alevantando
o chapeo, que o semblante lhes encobre,
dando, como a descuido, um toque leve,
mas gracioso, ás flores que lh'o adornam,
e á flor do seio, e ao laço do collete.
¡Quantos nós ata amor n'esses instantes!

¡quantos outros aperta! ¡em quantos outros
embebe o espinho de um sutil ciume!
¡Chiton! temos o Parocho na frente;
e as cangalhas vêem mais do que parece.
A alegria decente, eis o estribilho
com que recheia as praticas. Se cantam,
co'a cabeça e co'o pé bate o compasso;
se pulam boa dança em honra ao Santo,
bota fora uma can. Por isso o baile
circula agora a estridula fogueira;
por isso o San João vai toda a noite
injuriado em canticos devotos.

VI

Meia noite. Que som mysterioso!
interrupção no baile e nos descantes.

*

Fada das amorosas prophecias,
tu, tu passaste agora em concha aerea
tirada pelo zephyro; sentimos
todos nós tua magica presença.
¡Boa viagem, Fada, e boa noite!
¡Salve, hora duodecima; bateste,
e descerrou-se a porta do futuro.
Sua nevoa desfeita em orvalhadas
vai nas plantas eleitas, vai nas flores
mal chamuscadas, vai filtrar nas sortes
benção, certeza, amor, felicidade.
Já se interrompem bailes e descantes.
Embebida em potentes nigromancias

toda esta multidão por modos varios
exerce escrupulosa altos mysterios.
Mas renasce o alvoroço; é porque os copos
dos bilhetes fatidicos chegaram
da ama nas mãos com riso de importancia.
—Não falta aqui rapaz nem rapariga—
diz ella;—o senhor Padre escreveu todos,
mesmo á vista do rol dos confessados.
Meia noite já deu; quem quer casar-se,
pode vir vindo.

Ao grande reboliço

succedeu a attenção, que a cada sorte
outra vez se converte em gargalhadas.
Por cada par que amor approvaria,
veem disparates comicos ás duzias,
e dão rebate ás palmas e epigrammas.
O proprio bom do velho applaude a tudo,
e por primeira vez da sua vida
encontra em si chorrilhos de finuras.
Já pede a uma o bolo do noivado;
quer ser padrinho de outra; e ás mais bonitas
quer baptisar de graça os pequerruchos.
Muito custa no mundo o ser discreto
sem descambar o pé! coisas escapam...
que é por Deus não haver o Santo Officio,
como esta ao nosso padre:

—Olhae, rapazes,

vai n'estas sortes o que vai no mundo:
o acaso e a Providencia, ao que parece,
ambos lêem pelo mesmo Breviario.
Não foi dos mais christãos o epiphonema,
mas fez rir. O Golgan neste comenos

chega, furta uma sorte, e diz abrindo-a:
—Esta, seja quem fôr, é cá p'ra nostri.
Pede que a leiam; lê-se-lhe:—O coveiro.—
Mudo o povo se entre-olha; e de repente
co'as pragas do Golgan destampam risos,
como os que o padre Homero encaixa aos deuses;
¡inextinguiveis risos! Mas não cede
a chufas nem a agoiro o varão forte;
e com mão bem segura extrae sublime
do outro copo outra sorte:—Ambrosia Trécula.
Então do pateo o riso clamoroso
deveu-se ouvir no Artabro e Guadiana
retumbou nos ceos: Trécula... Trécula.
—¿Quem diabo é esta Ambrosia?—o heroe pergunta.
—Sou eu—responde a ama.

—¡Está brincando!

é talvez sua neta ou titrineta. —Vá-se, tolo.

—Olhe cá, senhora tia,

não vai a arrenegar; não lhe pergunto
por cara, corpo e modos, que são lindos;
¿mas tem fazenda ou bois, ou oiro, ou chelpa?
Com o desdem mais dramatico, a matrona
voltou costas; e o bêbado prosegue:
—Sô Reverendo, não lhe aceite os banhos,
que eu sou casado, e ponho impedimentos.
Obriguei-o a calar-se. Eis que me off'recem
tirar tambem; tirei; ¿quem tiraria?
uma das filhas do meu bom Philémon.
Recebi parabens de todo o povo;
deixei-o bem disposto a divertir-se,

e tornei co'o o meu sogro ao nosso albergue.
Instou que me deitasse; respondi-lhe
que em noite de San-João ninguem se deita;
que alem d'isso a jornada fôra curta,
e sem nimia fadiga; ultimamente
que, pois que elle esperava a mais familia,
esperava eu tambem; não sendo airoso
faltar á noiva no primeiro dia.
—Cedo, mas só co'a clausula—disse elle—
que inda amanhan sois nosso.

—Assigno.

—¡Bello!

*

Então toca a palrar até que venham.
Saiâmos, que faz calma; alem, na eira,
sobre a alta palha do centeio novo
tomaremos a fresca e as orvalhadas.

*

Disse, e fez se. ¡Que ceo! ¡que paz! ¡que noite!
na molle aragem das fagueiras horas
meu coração feliz desabroxado
me enchia de um perfume egual ao vosso,
nocturnas flores, que o gosais sosinhas.
¡Quem podesse apanhar, prender na vida
estes momentos lubricos, momentos
que só caem do ceo durante a noite,
e só na solidão! Temi perdel-os
co'a triste distracção de mutuas falas.
Lembrou-me haver notado no meu velho
um genio amigo de contar historias;
pedi-lhe uma qualquer, bem decidido
a deixal-o á vontade espanejar-se
sem lhe dar attenção; mas enganei-me,
Pondo o rosto na mão, nos céos os olhos,

entra a buscar pela memoria antiga
algum caso mais raro; e como desse
casualmente co'a vista em certo lume
n'um cabeço remoto,

*

—Ouvi—me disse;—

por aquella luzinha lá ao longe
lembra-me um caso, e um caso que foi certo,
passado ali no Minho ha largos annos.
Inda eu conservo em casa uns Breviarios
de um Padre irmão da minha avó materna,
que poderão servir de documento.
Elle mesmo o escreveu nas folhas brancas
do principio e do fim dos quatro tomos.
E era um clerigo honrado, o que escrevia;
merece tanta fé como a Escritura.
Diz elle então ali (nem é só elle;
minha Avó sua irman dizia o mesmo):
que esta nossa familia inda descende
da Rosa de quem fala a dita historia.
A minha avó foi Rosa, e tinha o nome
de sua mãe; a minha mãe foi Rosa;
a vossa noiva é Rosa; e n'esta casa,
querendo Deus, sempre ha-de haver o nome.

*

Depois d'este preambulo de Rosas,
veio a historia, e encantou-me; ou fossem causa
hora e sitio, ou a amavel singeleza
com que narrava o historiador das medas,
ou já disposição com que eu me achasse.
Creio que sim: do espirito do ouvinte
vem mais de meio o merito das obras.

Por exemplo: da Eneida o livro quarto
dias ha que me enfada; ha tambem dias
em que se atura o Italico do Padre;[4]
e em que se entende um pouco a pálrea bruta
que aos brutos deu do amavel Lafontaine.[5]
Nada parece mal, trazido a tempo;
fora de tempo, tudo. A mesma coisa
entre obras e leitores acontece,
que entre os garfos e as arvores: se enxertam
quando o não pede o tronco e o veda a lua,
¡adeus ramo bastardo! e se ao contrario,
penetra a seiva toda, e pula o ramo.
Fosse o que fosse, ouvi com tanto gosto,
que protestei contar-vol-o a meu modo;
e o poema seguinte é o desempenho.
Tivesse elle, o que em vão lhe hei procurado,
da prosa do meu sogro o tom singelo,
talvez, leitores meus, o relerieis.
Inventar, descrever, compor os versos,
são os tres pés, da trípode de Apollo.
Já sabereis do Reverendo Kinsey
que eu não tenho invenção; que nada pinto
co'a verdadeira côr da Natureza;
que os versos meus são bons, mas que aborrecem;
o que não tira que um poéta eu seja
digno de ser notado entre os que vivem.

Ora, quanto á invenção d'este poema,
bem vedes que a não ha, ou se a ha que é d'outrem.
E quanto ás descripcões, fiz o possivel
para não metter mais que as do meu sogro.
Mas faltava o melhor, e o mais difficil:
versificar á moda. Atirei fora
o Virgilio, o Racine, e o Metastasio,
gebos todos monótonos, que enfiam
os versos bons e os optimos aos centos;
atirei-me ao Filinto e aos Filintistas;
estudei, fiz ensaios, compuz paginas
de embréxados velhissimos e esdruxulos,
e não foi sem proveito o estudo acerrimo.

*

Perdoae se este livro inda vai falho
d'esses donaires que travêssos fogem
de mal expertas mãos; soffrei-o em quanto
vou destilar sobre outro o Elucidario,
qual se espreme um limão sobre um guizote.

Abril de 1831.

FIM DA INTRODUCÇÃO[6]

III

EPISTOLA
A JOÃO EVANGELISTA PEREIRA DA COSTA

(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)

Da paz de um ermo ao turbilhão da côrte
a Musa de Castilho á do seu Costa
saude e amor. Já outra primavera
se enflora, a seu pesar, desde que ausente
pede aos montes a irman, que a não suspira,
e dorme ao lado de um feliz ingrato.
Em quanto a minha, ignota, emprega os ocios
em cantos cujo ecco além não passa
..........................................................

1831—Abril, 21.

IV

O PRESBYTÉRIO

¡Salvè, principio e fim dos meus passeios!
¡Salvè, ó tu, cujo tecto, alva casinha,
cobre ha perto de um lustro os meus autores,
meus castellos no ar, meus faceis versos!
¡Salvè, co'o teu rosal; co'as tuas limas,
festivo ornato das paredes brancas;
co'o teu portão patente oppresso de heras;
e co'a tua nogueira; e co'o teu cedro,
brasão futuro do obumbrado pateo!
¡Salvè outra vez, meu presbytério! ¡Salvè!

*

Hoje, que o caprichoso do meu estro
(bem sabes se elle o é) deixa inconstante
versos índa no chôco, outros que apenas
vão da casca a sahir, outros que breve
teem de fugir do ninho em vôos livres,
entrou, mal veio a aurora esclarecer-te,
a doidejar-te em roda, a namorar-te,
qual borboleta ociosa ou leve abelha.
Pois que elle o quer.... cantemos-te; e perdôa
se o canto falador, transpondo os cumes
das tuas cerejeiras, fôr mais longe
revelar tua humilde obscuridade.

*

A antiga mediania, a segurança,
a paz, o amor dos Ceos, o amor dos homens,
genios foram, que em bençãos presidiram
aos alicerces teus. De Pário monte
não foi mistér que entranhas te enviassem
chão, columnas, e abóbadas, e estatuas;
tuas portas sem chave não cresceram
lá nas florestas do hemisphério opposto.
Foi visinho pinhal teu sôlho e tecto;
deu-te paredes mais visinho oiteiro;
portões e meza um cedro bom da extrema.
Não custaste nem lagrimas a pobre,
que á força te cedesse a choça avita,
nem odioso suor; e não se dormem
somnos melhores em Belem nem Mafra.

*

¿Que importa que no centro d'estes ermos
vivas tão só, que apenas descortines
n'um dos altos d'em torno esquiva aldeia?
Tu e o templo co'as messes que vos cingem
bastais no quadro agreste; em vós affluem
(como em sua Queluz) nos festos dias
ondas e ondas de amaveis saudadores.
Os rebanhos ociosos não desdenham
tôjo em flor, que te doira o chão das mattas,
d'onde envôltos co' os trémulos balidos,
veem cantos de amorosas guardadoras
endoidecer teu ecco.

Os caminheiros

abençôam-te a sombra; aqui teem fonte,
que em tua relva, ao fresco das parreiras,
detém, dessedentando-as, caravanas
que vão ou veem no alpestre Caramulo.

*

O anjo das flores liberal te arqueia
de bordada verdura as rescendentes
claras janellas.

Um bulicio manso

de amigas vozes teu recinto alegra.
Na sua tépida choça os bois ruminam
ante o feno em montões; dorme no páteo
farto esquadrão lanigero; ao sol pôsto,
cão, dos lobos terror, te vela as noites;
teus gallos as demarcam vigilantes.
Co'a luz primeira arrulha-te alvejando
cypria nuvem plumosa; e apenas saltam
da [dextra mão] mesquinha os grãos doirados,
em torno da gentil madrugadeira
de toda a parte os hospedes revôam.
Bicam por entre as pombas á porfia
a gallinha de filhos rodeada,
o manso grasnador do aquoso tanque,
o vaidoso perú, que ri cantando,
e vós, e vós, mais vivos do que todos,
não chamados, mas sempre a nós bemvindos,
passarinhos do ceo, turba sem dono.

*

Singelo presbyterio, ¡oh! ¡como te amo,
co'o teu ar casaleiro! Amo o teu forno,
tão social á noite; a simples sala,
quasi sempre deserta; a livraria,
deserta rara vez; estas alcôvas,
que enche um só leito; e a adega, assoviada
do alvo sôpro do Norte; e o fuso, e a pia
da cheirosa vendima; e o teu celleiro,
alto, arejado, e tão patente aos pobres,
como as portas do templo convisinho.

*

¡Floresças para o Ceo e para a terra
nos inconstantes seculos! ¡floresças,
feliz, co'o feliz dono, edade longa!
E se, lá no futuro, algum amigo,
sócio dos dias bons, saudoso e triste,
torcendo a estrada, a te pedir viesse
novas do teu cantor,—«Amou me, e amei-o—
lhe dirias mostrando-te; e—«Seus ossos—
juntaria o teu velho—aqui descançam.»

*

Sim; apraz-me cuidar que inda os meus restos,
gratos aos bons d'este recanto obscuro,
onde escapei no seculo de sangue,
cá ficarão n'este ocio, inda alguns dias
do simples montanhez talvez chorados.

*

Oh santa perseguida Liberdade,
¡onde te achei!.... Onde não vivem homens;
n'um torrão bravo que não chama invejas.

*

Em quanto, ora que a noite o ceo regela
humida e turva, tantos ricos enchem
de bocejante enôjo as assemblêas,
e tantos, tantos miseros, sem lares,
sem consôlo, sem pão, sem voz de amigo,
só reos de patrio amor, dormem nas furnas,
pelas praias do Oceano, e pelas rochas
(sublimes troncos pelo pé cortados)...

tua clara fogueira nos aquece;
¡graças, graças a um Deus!

Assim vagava

sobre o universo undoso a arca do justo.

*

Nós, depois de annos tres, inda esperâmos.
Ainda do trovão eccos retumbam.
Ainda os escarceos assoladores
remugem lá por fóra. Ainda a pomba
co'o ramo de oliveira inda não volve.

*

¡Oh santa perseguida Liberdade!
¡Oh! ¡Se eu podesse, a trôco dos meus dias,
restituir-te á minha Patria!....

*

Basta.

Esperemos ainda. Oremos sempre;
e talvez que não tarde a grata aurora,
em que, a adejar da serra pelos pincaros,
venha de longe a nuncia das venturas,
a pomba com o seu ramo de oliveira!...

Castanheira de Vouga

Maio de 1831.

V

A LYRA DO DESTERRADO

(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)

Era a noite dos finados;
sombria noite de outono.
Entre sinos acordados
lá jaz Roma entregue ao sono;
seus luzeiros apagados.
Do ceo pelo rôto manto
só brilham frouxas estrellas;
sai a custo o clarão santo
dos templos pelas janellas;
e Petrarcha vela emtanto.
Véla Petrarcha, e suspira
no leito amoroso e ermo;
olhos na véla que expira;
saudades no peito enfermo;
nem gloria sonha, nem lyra.
Qual raio sôlto de lua
por móveis aguas vibrada
n'um bosque inteiro flutúa,
tal adeja no passado
a saudosa mente sua.
¿Quem dirá seus pensamentos?
a douta lingua está muda.
¡Que paixões, que sentimentos,
no rosto, que aspeitos muda,
veem transluzir por momentos!
Ora é dor, ora é sorriso,
esperança, amor, transporte;
queixas, ternuras diviso;
desce aos abysmos da morte,
vôa aéreo ao Paraizo.
¡Não falar o Vate agora
co'os labios que move apenas!
¡Que torrente abrazadora!
¡que amor! ¡que incendidas penas!
¡quão nova a paixão não fôra!
Vai a noite adiantada;
humido vento assovia;
treme a luz quasi apagada.
Do grão Cantor que vigia
ferve a mente a sonhos dada.
—«Eís o templo conhecido
que os meus destinos encerra.
A mãe terna, o pae querido,
cá m'os tem no seio a terra.
Cá vi Laura, e fui perdido...
........................................

Castanheira do Vouga

1830...(?)

VI

EPISTOLA

(Fragmento achado entre os manuscritos de Castilho)

A minha primavera emfim renasce.
Té n'este horror selvatico dos montes
roupas traja nupciaes a Natureza.
O ceo azul, o ar morno, as aguas puras,
tudo nos diz «amor»; dizem-n-o as aves
chalreando ao florir das alvoradas;
bala o rebanho alegre; armento o muge;
na folha nova zéphiro o cicia;
a camponeza em meio de mil flores,
que lh'o exhalam balsamico, o suspira,
e ao viçoso tapiz, á sombra vasta
macia e tentadora lança os olhos.
Em quanto o rouxinol, Orpheu plumoso,
enleva a fonte e as arvores nocturnas,
cantando amor, da lua ao raio incerto,
lições que mais de um ente ao longe estuda
(e pratica talvez); em sons de lyra,
solitario eu tambem, lições de affectos
de cá te envio ao centro da cidade.

N'esse ruidoso vórtice de povo,
de vãos praseres, de negocios futeis,
a geral rotação te arrasta ás cegas;
é dever da amisade erguer-te aos olhos
luz, salvadora luz. Náufrago entre ondas
pode não ver a táboa ás vezes perto;
pode a praia ignorar, e tel a em face.
Táboa amor te lançou da praia firme;
ledo e fausto Hymeneu te está chamando.
..........................................................

VII

A ROMARIA

Lá vem Maio rosado. Já floreja
nas planicies, verdeja pelos montes;
é o mez de Amor, é o mez de Philoméla.
Aureo amanhece o dia suspirado
da romaria annual; léguas em roda
já tudo é festa, esp'rança, e regosijo.
As povoações, desertas. Por estradas,
por torcidos atalhos, por oiteiros,
correm de toda a parte ornados bandos.
Lá retrôa nos eccos aturdidos
a matinal girandola ruidosa;
acorda ao longe a torre com repiques;
um povo de cem povos misturado
enche a vozeada selva, a acceza ermida,
e de ondeado matiz cobre o terreno.
Arfa ao sol, no alto mastro volteando,
triumphante bandeira alvi-cerúlea.
Vai e vem, ora chega, ora se allonga,
não está em nenhum sitio, e assoma em todos,
a alma da festa, a gloria do Gallego,
a aguda gaita túmida e franjada,
que ao rufado tambor sócia, repete
a moda velha e alegre, amor dos campos.

Em vidrado alguidar reluzem n'agua
os doirados tremóços, que afadigam
com compradores a afrontada tia.
As navalhas e anéis, o apito, o espelho,
se assoalham mais além; na alva toalha,
alva e folhuda, estão chamando o exul.
Em cima de seus carros triumphantes
os laureados tonéis, reis da alegria,
dão n'um fogo perenne a vida a tudo.
Aqui se ouve o descante ao desafio,
que a viola ora segue, ora acompanha.
Ali se apinham para ver as danças,
que a discorde rabecca entorta ás vezes.
Lá, se entorna o licor em puros vidros;
ao pé se adoça a fresca limonada.
Aqui se comprimentam; além chamam;
um se perde, outro se acha, outro convida.
Este corre; esta pára a ataviar-se,
por mostrar o cordão e o lenço novo.
Estirados na relva os velhos palram;
grita o rapaz. O amante, recostado
ao páu, por onde um braço lhe serpeia,
faz longa côrte á tímida futura,
que em resposta de amor lhe dá tremóços.
N'isto vôa o foguete, e atrôa as nuvens.
Lá sai a procissão; lá foram todos.
¡Ah! depois do jantar comido ás sombras,
cada um levará, volvendo a casa,
gratas lembranças para o anno inteiro.

VIII

O DOMINGO GORDO DOS MONTANHEZES
OU
A MATTA DE S. SEBASTIÃO

Versos na plantação de uns carvalhos junto á egreja de S. Mamede
da Castanheira do Vouga pelos rapazes solteiros da freguezia
no Domingo do Carnaval de 183...

I

N'este dia, em que o povo tumultuando
nos casaes, nas aldeias, nas cidades,
troca a enxada, o tear, o livro, a agulha,
por copos, danças, máscaras, e risos
nas saturnaes christans; quando se espraia,
desde o seio de Roma aos fins da terra,
de um praser contagioso alta vertigem;
¿por que retreme ao golpe das enxadas
sob os meus pés a solitaria encosta?

*

¡Saude a vós, a vós louvor. Bemvindos,
montanhezes, fieis aos priscos usos!
O cântaro do estylo ahi está coroado,
risonho e prestes a inundar os copos;
o prémio á vista vos redobre as forças.

*

Rasgae co'o duro ferro a terra dura;
de vossos paes a matta veneranda
em torno de seu santo antigo dono
se accrescente por vós. Plantae, que é tempo,
no chão, sagrado de suor devoto,
ó presente annual, que o Ceo prospére.

*

Onde quer que elle jaz, abençoemos
as cinzas do homem bom, lá d'essas eras
que a pia usança introduziu primeiro.
¡Quanto a sua virtude era risonha!
—«Cada solteiro plantará n'este ermo
mais uma arvoresinha de anno em anno,
que lá em cima encontrará seu premio.»
¡Oh! estes rogos, sim, este pedido,
doce e desint'ressado, uncção respira;
manda mais do que as Leis; morrer não deve.

*

Produz, produz a miudo, ó Natureza,
por teu bem, por bem nosso, homens como esse.
Haja quem diga ao joven par, que ás aras
sobe apenas amante, e desce esposo:
—«Hoje, que são já fruto esp'ranças de hontem,
entrae sorrindo pelo chão da vida;
plantae, plantae um'arvore que o lembre.»

*

Quando a cabana festival se enrama,
se enflora a meza, e os aldeãos visinhos

veem festejar na casa um filho novo,
a mão paterna, de praser tremendo,
orne de um novo tronco o prédio avito.

*

¿Depois de suspirada e curta ausencia
volve um irmão das terras estrangeiras?
¿Convalesce um parente? ¿Em bem se acaba
suado, volumoso, eterno pleito,
que empobreceu o avô, o filho, e o neto?
¿Fizestes o adversario amigo vosso?
¿Sorriu-vos a ventura? ¿É farto o anno?
A sêrdes Reis, alçáreis monumentos;
¿que vale um monumento? O homem dos campos
melhores pode erguer a menos custo:
plante sobre o caminho arvores férteis.
Por elle o passageiro ardendo em calma
ache a sombra hospedeira que o recreie.
Por elle o pobre, que seu pão mendiga
de casal em casal, de monte em monte,
que não vê ceo, nem lar onde se aqueça,
nem feno onde descance, e em todo o mundo
só tem por património a caridade,
ache a fruta a pender em curvos ramos,
a acenar-lhe, a off'recer-se-lhe, a sorrir-lhe.
Assim, do bem de um só germinariam
mil bens communs; e do praser de um homem
o publico praser, publicas bençãos.

II

Se tendes de nascer, nascei mui breve,
sensiveis corações a quem Deus guarda,
a gloria de influir eguaes costumes.

Desde já nossas lagrimas de affecto
correm por vós; ao seio do futuro
nós vos lançamos desde cá louvores.

III

Sentemo-nos, em quanto os vossos filhos
aqui se embebem na tarefa honrosa,
sentemo-nos á sombra, a vós bem grata,
do carvalhal que as vossas mãos plantaram,
homens das cans, antigas testemunhas
dos tempos que não são.

*

Vós, deputados

das mortas gerações aos vivos de hoje
como pregões propheticos; thesoiro
de saudades, de dor, de experiencia;
bons velhos, á vossa alma taciturna
aprazem mais que a festa os pensamentos.

*

Falae: ¿d'onde vos nasce essa tristeza
profunda a um tempo e vaga, amarga e doce?
¿Será de enfeitiçada sympathia
que nos attrai á terra, ao chão da vida,
chão sempre cubiçado e sempre ingrato?

*

O coração, zeloso da existencia,
compara os dias seus do tronco aos dias,
e a conta desegual o opprime e o fecha.
¡Annos a nós, e seculos aos bosques!...
Planta o pae, mas a sombra hospéda os filhos;

netos, que não verá, gosarão d'ella;
e indiff'rentes incógnitos vindoiros
rirão contentes ao folhudo abrigo.

*

Mas, velhos, mui ditoso o que em seu predio
dispõe arvore fértil de esperanças,
que irá legada aos filhos de seus filhos.
Prophecias de amor lhe expande o seio,
sorri, e ama o que é seu, na esp'rança ao menos.
Mas feliz egualmente o que em seu predio
possue vaidoso um tronco hereditario.

*

Na réga, e ao vir da flor, e ao dar do fruto,
¿como ha-de não pensar em seus maiores?
Um lh'o plantou, os outros lh'o trataram;
¿Como ha-de recusar-lhe uma saudade,
um suspiro, um suffragio, um elogio?
A gratidão medita á mesma sombra
onde já meditára o amor paterno.
Esta arvore mortal é o santo marco,
em que se juntam, se entrelaçam, crescem,
dos idos o interesse e o dos vindoiros;
nó de affeição, que os seculos reune.

*

¿Vedes vós essa mãe, que ha tantos annos
chora um filho alem-mar, em longes terras?
Mostrae-lhe um passageiro a dar á vella
para o porto feliz; ¡com que ternura
lhe não dará, chorando, um longo abraço,
que leve, que lh'o entregue, ao seu querido,

e todo o amor de mãe lhe exprima n'elle!...
¡E com quanto alvoroço o desterrado
não cingirá o amavel mensageiro!...
Eis o emblema da arvore, cruzando
viva e lembrada o Oceano das edades,
mensageira de int'resse aos paes e aos filhos.

IV

¿Qual de vós, repoisando n'esta cama
de folhas mortas, qual de vós, no meio
d'esses troncos musgosos, seculares,
não viaja com o espirito espraiado
por esse mundo antigo e antigos homens?
Sim, vossa alma se apraz, phantasiando
de lhe restituir quanto houve d'elles:
uma vida, uma choça, herdade e patria.
Deslembram cans; rugosas faces riem;
reviveis n'um minuto annos de infancia
sob a affeição de um pae, de um pae nos lares;
sem cuidados, sem prole, e sem temores,
entrais folgando o limiar da vida.
¡Podesse n'este ponto o pensamento,
como ave em ramo flórido e viscoso,
deter-se a recordar, ficar pregado!
¿Vós suspirais?!... desfaz-se-vos o sonho,
e a extincta geração recai nas campas.

*

¿Mas quê? ¿d'esses antigos plantadores
nada mais resta além de uns troncos mudos
n'este universo movediço e instavel?
¿nem uma só lembrança, um dito, um nome?
Tudo passou sem mínimo vestigio,
como os sons leves de um descante ao longe.
................................................................

V

Bons aldeões, estas sombras regaladas
vos falam nos avós; porém comigo,
comigo, extranho, e novo em meio d'ellas,
conversam no aureo tempo a que assistiram;
recordam-me as edades do Universo,
e os varios povos, e os paizes varios,
contemporaneos do nascente mundo.

*

Intonsas, invioladas, venerandas,
outras selvas, como esta que nos fecha,
fecharam do homem a primeira origem.
Sob as verdes abóbadas immensas
as velhas tradições nol-os descrevem
pobres e alegres, nús e satisfeitos,
saboreando em ocio a glande e a fonte,
dormindo sobre a folha, e sem pedirem
outra casa, outro templo, outra cidade.

*

A pouco e pouco o numero crescia,
minguando a pouco e pouco a singeleza.
Infecta o vicio á terra; os ceos se mudam;
a um Maio eterno as estações succedem;
o ar se gela e accende, alaga e silva;
já bravejam leões, já bramam tigres;
o homem se acoita ao seio das cavernas.

*

Vós, troncos, até ali seus companheiros,
acudís a servil-o; ¡e em quantos modos!

lá, crepitais em rútila fogueira;
aqui, das feras prohibís a entrada;
dais uma clava ao caçador valente;
na serviçal cortiça um berço aos filhos;
leitos a amor, assentos á velhice,
aos enxames um lar, um copo ás festas.

*

Das precisões ao grito, o engenho acorda;
lá surgem povoações, curraes, tugúrios,
e uma capella ás rusticas deidades.
Lá rompe o novo arado a terra dura;
lá geme, a transportar enormes pezos,
o carro, e sulca atónitos caminhos.
O genio excita o genio; o exemplo, o exemplo;
a rudeza se pule; as artes crescem;
a especie racional das mais triumpha.

*

As gerações do ceo, do mar, da terra,
tudo é já seu; os campos lhe obedecem;
faltava o Oceano; affoita quilha o rasga.

*

Então foi, que estas arvores, tão uteis
no patrio continente, abriram vôo
sobre o liquido abysmo a novos climas.

*

¿E em que parte do globo, arvore excelsa,
te podes presentar, que não recordes
uma façanha, um culto, um grão successo?

*

¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta
que foste invicta clava em mão de Alcides;
vê-te, suspira, bate o chão raivando
de achar-se escravo, e de não ter-lhe as forças.
¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta
do arvoredo Dodónio as mil respostas,
o passado e o porvir patente a todos,
e o livro do destino aberto ao mundo.

*

¿Na Ausónia? Mas Cybelle amou teus ramos;
Roma os sagrou a Jove; e, fulminada,
eras tremendo agoiro a todo o Imperio.
¿Em Roma? ¿E a c'rôa civica?

*

¿Nos campos?

¿E Phílémon, o justo, o caro aos deuses?

*

¿Nas Gallias? em seus barbaros oiteiros
tu, só, eras o altar, o deus, e o templo.

*

¿Na Caledonia, em Morven, junto aos lagos,
sobre os cumes, á beira das torrentes?
Lá tu viste Tremnor, Fingal, e os bravos,
reunidos na vespera do sangue
em nocturno festim que allumiavas,
quando na harpa dos bardos reviviam
os feitos dos heroes do antigo tempo.

*

¡Salve, eleito Israel! Eis-nos em campos
de Sichem. Vejo os principes e os velhos,
os juizes, as tribus, apinhar-se
em torno ao tabernáculo de Sila.
Por cima d'este mar ondeado e vivo
reina de praia em praia alto silencio.
Sublime como o cedro do deserto,
se levanta Josué, braço do Eterno,
em nome do Senhor, que o manda e inspira;
os favores do Ceo recorda ao povo;
renasce a Fé; os idolos se arrazam;
—«¡Gloria ao Deus de Israel!—vozeia a turba—
¡ao Deus dos nossos paes, dos nossos netos!
—Erga-se um monumento,—exclama o chefe—
que, se infieis um dia os esquecerdes,
vos envergonhe, e acorde os votos de hoje.»
E a monumento põe no logar santo
enorme pedra á sombra de um carvalho,
que abrigava co'a copa o santuário.[7]
Despede o Povo, e em paz contente expira;
em paz, que já não vê perjúrios novos.

*

Escrava de Madian a plebe expia,
na miseria e no opprobrio, os males torpes
que fez ante o Senhor. Mas inda existe
um justo, a quem Deus fie o libertal-a:
é Gedeão, é o Josué segundo.[8]
Este, em quanto seu pae lança aos caminhos
medroso olhar á espera do inimigo

para fugir com elle, ajunta á pressa
o trigo que limpou.

Vê de repente

um Anjo, que debaixo do carvalho
se assenta, e lhe repete a lei do Eterno.
Esse mesmo carvalho é testemunha
da belleza do alado mensageiro,
da voz de salvação mandada ao Povo,
e do holocausto acceito e posto em cinzas,
e do altar, a quem Paz foi dada em nome.

*

E este, que tão frondoso opáca os valles,
¿por que o rodeia um bando taciturno
dos fortes de Galaad? as suas armas
jazem quebradas; sua dor vai funda;
dos olhos tristes para o ceo voltados
pelo rosto amarello lhes escorre
grosso pranto, que alaga as f'ridas frescas.
Choram Saul, e a régia descendencia,
que mortos no combate aqui descançam.
Para o Monarcha agigantado e invicto
nenhuma estátua se erguerá na campa.
Sua columna e funebre palacio
preparou-lh'os com tempo a Natureza:
o tronco, rei da selva, o está cobrindo.

*

¡Mas quanto é mais tocante o que se eleva
nas faldas solitarias da montanha!
Ali Débora jaz; ali Rebecca
chora na morte a que a nutriu na infancia,
ama no coração, mãe nos extremos,
de seus primeiros e ultimos segredos

confidente fiel no lar paterno,
querida socia na feliz viagem,
e no lar conjugal seu doce allivio.
¿Arvore a tanto affecto consagrada
na affectuosa Biblia irá sem nome?
o carvalho das lagrimas lhe chamam.

VI

¡Que uso tão doce aos corações piedosos!
Reverdecei, costumes do bom tempo,
quando o Rei, o pastor, o chefe, a virgem,
tinham sob um ceo livre a sepultura.
A Morte, menos barbara do que hoje,
com avarenta mão não ferrolhava
sob um tecto pezado, entre altos muros,
as prezas, cá de fóra em vão pedidas.
Não era um templo um cárcere de mortos.
Dormiam mollemente em terra franca,
em jardins frescos, em copadas selvas.
Esta esp'rança adoçava um pouco o amargo
do ultimo trago aos labios moribundos.
Este bem, tão pequeno em mal tão grande,
¡quanto valor não tinha aos que ficavam!
O irmão, o pae, o filho, o amigo, o esposo,
podiam livremente, a toda a hora,
ir regar de seu pranto amadas cinzas,
fartar saudades, inflammar lembranças,
delirar doce a noite, e o dia inteiro,
e de praser a um peito onde palpitam
superstições de amor ou de amisade,
dizer:

«Este tapiz relvoso o cobre;

esta ave lhe gorgeia; esta aura sôlta
o refresca; esta lua apraz-lhe aos manes;
a primavera m'o visita, e espalha

tambem por cima d'elle o seu regaço;
esta violeta é sua, hei-de colhel-a;
d'est'arvore a raiz sente-lhe a fronte,
nutre-se do seu pó, vive por elle,
é elle mesmo em parte; arvore amiga,
recebe o nome caro, hoje sem dono,
toma os abraços que não posso dar-lhe.»

*

Sim, sim, convém um bosque ás sepulturas.
A arvore, Deus a fez como passagem
do mundo que respira ao mundo inerte;
commum co'os animaes, commum co'a terra,
vive e não sente; habita e ignora o mundo,
sympathisa co'a morte e co'a existencia,
é grata ás cinzas, á saude é grata.

*

¡Que férreos somos nós, que a um como vago
atiramos sem dó perdidos, mixtos,
o detestado, o amigo, o estranho, e o nosso!
Se alguem da voraz Sylla aos sorvedoiros
arrojasse o que os seculos pouparam,
bronzes, escritos, marmores romanos,
ou, derrotando porticos, columnas,
theatros, colliseus, palacios, templos,
em serra inutil amontoasse as pedras,
¿quem não vertêra em lagrimas o sangue?
¡E ante a nossa affeição teem menos pezo
que as ruinas de Roma as que são nossas?!...
¡Dá-se tanto aos ditosos, aos contentes,
espectaculos, jogos, aureas festas,
jardins, parques!... ¡e aos miseros que gemem,
e aos peitos melancólicos, viuvos,

ha-de negar se um canto onde pranteiem!?...
¿De tanto mundo que pertence aos vivos
nada dareis aos seus antigos donos?
¡nem um torrão perdido, e uns troncos nullos?!...

*

¿Quando virá um dia, em que estes bosques,
semeados de tumulos não altos,
de lugubres saudades se povôem?
Então, a propria Morte, hoje tão sêcca,
terá sua grinalda; a dor, seu gosto;
e visitas o pó, e cultos o ermo.

*

Pelas noites mui placidas do estio,
ao duvidoso alvor da lua incerta,
bello será, sentado n'este sitio,
ver vir, d'aqui, d'ali, frouxos, dispersos,
o do casal, o morador na aldeia,
entrar chorando, e procurar seus mortos.
Aqui duas irmans resam de joelhos
sobre o seio materno sepultado.
Aqui o velho attento as contas passa
pelos dedos convulsos, e se encosta,
sem o saber, na fallecida esposa.
O filho aos pés da mãe co'os mais soluça
o Padre-Nosso apenas aprendido.
Deitado ao lado do submerso amigo,
o amigo devaneia antigos annos.
Por toda a parte, as lagrimas e affectos,
memorias doces, orações e esp'ranças.

*

¿E a quem não conviria egual retiro?
N'elle a tristeza encontraria um pasto;

a sciencia, reflexões; o vicio, escolhos;
a leviandade, assento; a desventura,
consolação; o amor, silencio e pranto.
Ensaiára-se o infante para a vida;
o velho, para a morte; o moralista
viria achar uncção para a verdade;
o orador, persuasões, ternura, encantos.

*

Ó filhos da montanha, ¡oh! libertae-vos
de um preconceito vão; é toda a terra
a terra do Senhor; afora o vicio,
debaixo d'este ceo nada é profano.
A benção do Pastor consagraria
vosso asylo feliz; e a Cruz em meio
todo de um santo influxo enchêra o bosque.

VII

Mas, em quanto esses dias vos não raiam,
bons velhos, vigiae que, de anno em anno,
aos juvenis futuros plantadores,
em vez de se afrouxar, se inflamme o zelo.
Cresça com seu favor por estas serras
a geração dos vegetaes gigantes.
Com todos vós conversam todos elles
sem cobrir campas; guardam-vos saudades,
são parentes de todas as aldeias,
e o brasão da montanha é o vosso parque.
Sobre tudo influi que a vossa raça
trema ao só nome do brutal machado
que ouse violar a veneranda herança.
O que só Deus medrou, só Deus derribe.

*

Crêde-me (eu já vi outras) vossa terra
é descrida, enteada á Natureza.
Cumpre a vós adoçar-lhe o aspecto agreste,
amiudar-lhe no oceano ermo dos ares
estas ilhas, virentes, graciosas,
que espalhem primavera pelos montes,
que attráiam as volantes caravanas
do rouxinol, da rôla, e da andorinha.

VIII

Lá em baixo a casa humilde que branqeja,
entre os alegres plátanos e o templo,
quasi que pasma, e se entristece e encolhe,
de ver em torno a solidão tão vasta.
Como que está pedindo... ao menos bosques;
não tem outros jardins, outros passeios,
que offereça a seu dono, o Pastor vosso.
Preparae desde já para o futuro
sombras novas aos novos successores,
e refrigério estivo ás cans do velho.
Casae co'o vosso int'resse o int'resse alheio.
Mil vezes sua voz reconhecida
rogará paz ditosa aos vossos netos,
quando, serena a mente, e sôlta a vista
lá fôrem divagar, ora embebidos
nos psalmos, nos poeticos arrojos,
ora admirando o Autor e o Nó dos mundos,
no largo azul dos ceos, no alto dos troncos
e no zumbir e no voar do insecto.

*

¡Surgi! ¡surgi! Lá jazem as enxadas.

Velhos, surgi! La voltam triumphantes,

findo o novo trabalho, os vossos filhos.

Agora espumem copos, sôem risos,
exulte a dança, alonguem-se os cantores.
Conquistastes o inculto á Natureza:
forçástel-a a sorrir, a ornar-se em festas.
Toda a vasta planicie, hontem tão erma,
¡que povoada vai já! ¡como promette
lembrar ao vosso gado, ás vossas filhas!

UM VELHO

Sim, dará sombra e vai povoado o valle:
mas fosse eu rico, e lhe dobrára encantos.

SEGUNDO VELHO

¿E como, irmão?

O PRIMEIRO

No alto d'este oiteiro,

d'onde se avista o mar, o ceo, a terra,
poria uma capella, e um San-Mamede
co'o rosto de um menino, e o rir de um Anjo;
nas mãos o cajadito, o alforge ao lado,
e o seu rafeiro ao pé todo soberbo
co'a colleira escarlate, e todo amigo
a lamber o seu Santo. É bom que os altos
se c'rôem de capellas, que levantem
o pensamento aos Ceos, no campo espalhem
devoção e piedade, e aos peregrinos
ensinem o caminho e a vista alegrem.

UM PASTOR

Sim, co'o santo pastor de guarda aos bosques,
¿que haviam de temer, nem cães nem gado?

Nos degraus da capella, á sombra inquieta,
longas séstas sonháramos de amores.

TERCEIRO VELHO

Já lá vão o bom tempo e os bons costumes;
foi-se a abundancia e os corações piedosos.
Esses fundavam templos, como o nosso,
n'um árido deserto; e hoje.... se estala
no campanario um sino, em ocio eterno
fica mudo a pender dos braços podres.

IX

Bem, bem. Mal que a fortuna me sorria,
serei eu quem consagre o vosso oiteiro;
não a Mamede, não ao pastor martyr,
mas á contrita amavel Peccadora.
¿Não valem mais as lagrimas que o sangue?
¿Mais que heroico valor não nos commove
doce humildade e penitencia longa?
E de mais: se ás aspérrimas proezas
vos não destina o Ceo, todos nascestes
captivos frágeis de amorosas culpas.
Muita virgem no monte solitario
tentada pelo amor e pelo amante,
só com ver a capella ha-de livrar-se,
e pela salva flor dar lhe-ha mil flores.
E quando aqui errantes missionarios
vierem dar, e á sombra dos carvalhos,
as turbas apinhadas instruirem,
¡que persuasões, que lagrimas, que exemplos
hão-de tirar da veneranda Imagem!....

*

¡Qual me ri já na mente o grão projecto!
Eu serei pois o fundador de um culto
que aos frutos da moral reuna flores.
im; ¿quem tolhe o prazer puro e innocente?
.............................................................

X

Partiram. E eis-me só. Todos partiram.
O alvoroço do entrudo os chama aos lares.
¡Oh! ¡Bemdita a ignorancia d'estas serras!
O rustico inda ri na Patria em luto,
e eu finjo o riso por dobrar-lhe o erro.
¡Bem sabe elle que lagrimas aos mares
d'este horizonte em roda estão correndo!
¿Sabe elle que o atro dia é menos atro?
A paz, a confiança, as alegrias,
a abundancia, a união de antigos Lusos,
não deixaram, fugindo, um só vestigio.
No vaivem das facções, que se entrevencem,
tudo se perde e esquece, afora a raiva.
Os bons usos, as festas populares,
a romaria alegre, as patrias danças,
vão-se apagando... Aqui, mesmo na brenha,
a pastora, esquecendo os seus amores,
canta a questão dos Reis, o hymno da guerra,
sons novos, que o seu gado e o ecco extranham.

*

Ó Patria, bella Italia do Occidente,
tu que egual a Parthénope repoisas
debaixo da invejada laranjeira
e do mirto florido, ao deleitoso
ruido de aguas limpidas, no abri

de um ceo inspirador tão proprio ao genio,
ó bella Italia do Occidente, ó Patria,
¿era pois fado teu lidar sem fruto
para seres a inveja, a flor das gentes?....
A guerra, sim, te coroou co'as palmas
das quatro partes do orbe, e as naus do mundo
trouxeram a teus pés thesoiros, sceptros.
Mas as flores das artes, mas os frutos
das sciencias, no chão dos outros povos
com tanto custo e com suor medrados,
¿espontâneos no teu medraram nunca?...
¿Tiveste nunca os dons, que em paz florentes
ornam e absolvem da conquista os loiros?
¡Que imperios teem cahido! e tu, tu ousas,
hoje ainda, aspirar á eternidade!!...
Talvez bem perto os seculos se cheguem,
que hão-de ver cego arado andar lavrando
tuas cidades de esquecido nome,
e o rebanho indiff'rente apascentar-se
sobre os teus tribunaes, theatros, praças.

*

Vê-te o sol com praser; deixa-te a custo,
Lusitania, que á borda do Oceano
brilhas qual deusa em majestade e em graça.
Deusa, e immortal, te crêram; mas tu jazes
entre tropheos em pó, lavada em sangue.
Deshonrada Cleópatra, inda és bella,
mas já nas veias te circula a morte.
¡Ai de quem nutre as áspides no seio!...

*

¡Ó Patria, ó Patria, com que voz tão baixa,
com que pejo te expróbro! ¡Ah! se podéres,

perdôa meu furor, vê só meu pranto;
ó Patria, ó mãe, ó misera querida!...

*

¿Que ouvi? ¡longinquo estrondo! ¿que seria?
¡Som de espingardas!... Sim, talvez... são homens
que nos matam irmãos... ¡Alerta!... oiçâmos...
.................................................................

IX

O SAN JOÃO NAS FALDAS DO CARAMULO

Dia em que o Poeta plantou por suas mãos um cedro no pateo
da residencia parochial da Castanheira do Vouga

(FRAGMENTO)

..........................................................

Se, de teus annos na madura força,

a mão que te ora planta inda fôr viva,
essa mesma, já trémula e caduca,
no tronco te abrirá, com pio exforço,
graciosa capellinha, onde sorria
um San-João, o Santo alegre do ermo,
trajo de pelles, juvenil frescura,
olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.

*

N'essa noite poetica e devota,
em que o praser, centuplicando aspectos,
povôa, anima, encanta o mundo inteiro,
agua e terra, ar e ceo, tudo é macio,
em que a velhice, a mocidade, a infancia,
sympathisam no vago da alegria;
quando n'alma insaciavel de delicias
se juntam, com mistura inexplicavel,
ao saudoso passado, aos bens presentes,
as mil visões do esplendido futuro;

quando em laço phantastico se aggregam
da vida e eternidade os pensamentos,
gosos, superstições, fraquezas, cultos,
qual ramalhete de cipreste e rosas
na caprichosa mão das feiticeiras;
n'essa noite, das noites invejada,
a ti concorrerão por toda a parte,
té das aldeias do horizonte extremo,
dançantes bandos que a viola guia.

*

Verás girar seus bailes clamorosos
em redor das estrídulas fogueiras;
ouvirás os seus cânticos em côro
devoto e ennamorado. A bomba foge,
zune fugindo, e sollapada estoira;
o buscapé no ar caracolando
morde n'um, morde n'outro, ameaça a todos,
dispersa os grupos, gasta-se raivando,
e entre os risos rebenta atroando os ares;
ali circula em vórtice perenne
a roda leve espadanando incendios,
chovendo oiro luzente e estrellas alvas;
aqui floreia o fúlgido valverde,
vesuviosinho que arremette ás nuvens;
arranca o vôo e vai rugindo aos astros
o ignívomo foguete estrepitoso.

*

¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas!
¡e os protestos de amor! ¡e a prece occulta!
¡e essa mão dada a furto e a furto acceita!
¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudes
da meia-noite em ponto! ¡e a flor crestada!

¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes,
e muitas mais a próvida malicia!
¡e a fonte que amanhece entre descantes,
e pasma rindo de se ver coroada
de festões verdes e entrançadas flores!
¡Que noites, que alegrias, que triumphos,
te aguardam no porvir, me estão na mente![9]
...............................................................

X

O MOSTEIRO

Vós, que sois do amavel sexo
ardentes adoradores,
que girais de bella em bella,
qual leve abelha entre as flores,
que sabeis n'um só momento
a mil deusas incensar,
e pareceis de ternura
não poder-vos saciar,
mancebos, o mundo é vosso;
mil bellas o mundo tem;
mas não choreis as que á sombra
repoisar das aras veem.
Se um jardim, florído, immenso,
encontrais na sociedade,
¿que importa que poucas rosas
lhe furte a mão da piedade?
poucas rosas, que dispostas
vão depois na solidão
lançar mais doces perfumes,
seguras de extranha mão.

Vagae, vagae livremente
nos jardins da Idália Venus;
segui as Nymphas e as Graças
pelos seus bosques amenos;
os prazeres vos rodeiem,
os jogos em torno vôem;
a mocidade vos ria;
espêssas rosas vos c'rôem;
¿que falta aos desejos vossos?
¡ah! soffrei, sem murmurar,
ver d'entre os vergéis florídos
poucas pombas desertar,
poucas pombas, que innocentes,
e temendo o caçador,
vão nos ermos solitarios
buscar um fado melhor.
Do Libano opacos cedros,
de Sião bosque tranquillo,
vós, palmeiras de Idumêa,
prestae-lhes seguro asylo.
Estranhas vistas não turbem
os seus piedosos segredos;
contentes á sombra vivam
dos sagrados arvoredos.
Silencio, paz, e ternura,
alva estrella de innocencia,
e a vista de um ceo risonho,
lhes doirem toda a existencia.

Murmúrio de castas fontes,
perfume de simples flores,
lhes paguem jardins que infestam
os abutres e os açores.
Eu vos lamento e vos chóro,
insensiveis corações,
que de um mosteiro entre os muros
não vêdes senão prisões.
Córae da vossa loucura.
Correi a ver de mais perto
o Eden recatado ao mundo
no seio d'este deserto.
Modestas virgens o habitam,
que só não teem liberdade
de colher em frutos de oiro
as festas da sociedade.
Segui-me, segui-me affoitos,
entremos. Abriu-se o templo.
Seus ermos, ao mundo ignotos,
inteiros d'aqui contemplo.
¿Não vêdes sobre os altares
com graça engrupadas flores
lançar torrentes de aromas,
brilhar co'as mais vivas cores?
N'esses prados invisiveis
tambem pois se eleva a aurora;
sol, e zephyros, e fontes,
lhes dão sorrisos de Flora.

Essas pois, que vós julgaveis
desgraçadas prisioneiras,
teem praseres, teem delicias,
teem jardins, são jardineiras.
Vêde ornar formosa Imagem
rico manto que fulgura,
de oiro e sedas matizado
com vistosa bordadura.
Vêde a grinalda florida;
vêde o ramo; estes jasmins,
estes lirios, estas rosas,
não são já de seus jardins.
Não devem sua existencia
nem á terra nem ao Ceo,
e nem zephyros nem fontes
serviram no augmento seu.
Formou-as arte engenhosa;
poude mais que a Natureza;
deu mais vida ás suas flores;
prestou-lhes egual belleza.
¿Sabeis, que mãos feiticeiras
obraram prodigios taes?
eis o trabalho e os recreios
d'essas piedosas Vestaes.
Ellas no côro apparecem;
e, ao som dos orgãos divinos,
de sua alma aos Ceos se elevam
devotos brilhantes hymnos.

Innocentes e macias,
d'estas vozes a mistura
sem perturbar os sentidos
infunde n'alma ternura.
Em seus canticos não reina
terreno vulgar affecto;
é mais puro, é mais sublime
de seus amores o objecto.
O pensamento que as ouve,
sai da térrea habitação,
deixa os ares, das esphéras
atravessa o turbilhão,
vê do Empyrio as portas de oiro
abertas á humanidade,
rompe audaz, vai submergir-se
no fulgor da Divindade.
Cessa a musica, e de novo
volve a mente ao patrio mundo;
mas dos virgineos desertos
primeiro se arroja ao fundo.
Lá divisa, em liberdade,
nas livres tranquillas horas,
dadas a cantos diversos
estas formosas cantoras.
Na sombra d'aquelles bosques,
n'aquelles molles passeios,
tambem pois das Musas entram
os aprasiveis recreios.

Olhae por fim seus aspectos,
¿Não vedes vós a bondade,
a alegria da innocencia,
as virtudes da piedade?
Eis os Genios que lhes tornam
encantadora a existencia:
as virtudes da piedade,
os praseres da innocencia.
A amisade entre ellas reina;
¿os encantos da amisade
não prestarão, por ventura,
delicias á soledade?
Mas basta, insensatos, basta;
á scena se corra o veo;
não profanem vossos olhos
mais tempo os átrios do Ceo.
Ide no mundo esquecel-as,
em vez de as irdes chorar;
e o vosso mundo vos baste,
como lhes basta um altar.
Mas esperae; respondei-me;
consultae vosso interior:
¿sois ditosos co'os sorrisos
de um falso inconstante amor?
¿Sabeis vós o que amor seja?
¿Satisfaz-se o coração
com esses fogos incertos,
e essa eterna agitação?

¿Não virá talvez um dia,
em que, mais sabios, queirais
unir os vossos destinos
á melhor d'entre as mortaes?
¿Como a haveis de achar no mundo,
no mundo, cujos enganos
vós conheceis, ajudastes,
seguistes, por tantos annos?
Tremereis de um laço eterno.
A vossa pena consiste
em pensardes que a virtude
que não tendes, não existe.
Então aqui vos espero,
n'estes quietos retiros.
Estes muros que insultaveis,
ouvirão vossos suspiros.
Entre estas virgens mimosas,
que severa educação
forma, longe dos humanos,
á sombra da solidão,
viréis procurar o objecto,
cuja ternura innocente
vos deve tornar a vida
risonha, pura, e contente.
Não detesteis um recinto,
onde Amor, onde Hymeneu,
onde um Genio, amigo vosso,
vosso thesoiro escondeu.

Pensae, pensae que ali vive,
cresce em virtude e talentos,
e em graças, aquella que ha-de
doirar os vossos momentos.
Qual arbusto delicado,
que a viçosa louçania
mostrar em seu proprio clima,
em seu proprio ceo, devia,
mas foi por mão inimiga
trazido a estranhos logares,
onde murcho cederia
a influxos de infestos ares,
se da estufa compassiva
lhe não fosse aberto o seio,
onde vegeta e floresce
de arbustos eguaes no meio;
ali não receia as neves;
não treme da tempestade;
gosa o sol; vive no mundo,
vivendo na soledade;
de extranhos somente é visto;
tem louvor; é cubiçado;
mas das flores, mas dos frutos,
não é jamais despojado.
¡Mil vezes feliz, mil vezes,
quem ousa, á luz da verdade,
queimar a máscara d'oiro
ás larvas da sociedade!

Medrae, sagrados mosteiros;
medrae, desprezando a inveja;
jamais fulminar-vos possa
calumnia que em vão troveja.
Brilhae, como ilhas florídas,
no meio do mar profundo
de vicios, crimes, e horrores,
que alaga, que abrange o mundo.
Sêde o asylo das virtudes,
do Eden a propria entrada,
o enlace dos Ceos co'a terra,
do Empyrio a sublime escada.

Coimbra—1826 (?)

XI

SANTA MARIA EGYPCÍACA

(Fragmento de um poema)

...........................................................
Prostrada aos pés da Cruz, ante a caveira,
jaz solitaria a Egypcia. Rios descem
de olhos lindos, que os ceos fitar não ousam,

*

¿Tão nova, e isenta? ¡Oh! não; mudou de amores.
Dos primeiros só guarda a dor e as penas;
mas os novos, os ultimos, protesta
conserval-os em vida, e em morte havel-os.

*

Té aqui, pela alma escura só lhe ardiam
relampagos dispersos; derretido
raio dos Ceos lhe côa pelas veias.

*

Brilhou no mundo como a flor de um dia.
Os soes vivos, os ventos importunos,
lhe ameaçavam fim; ruins borboletas
captivas da belleza iam murchal-a.
Imprevisto invisivel jardineiro
a tempo a salva, e a transplantou no ermo.

*

No mundo, sobre o abysmo, hontem folgava
impróvida e leviana; hoje pranteia
na solidão, mas sob um Ceo que a espera.
As cidades, em que ídolo brilhára,
inda a chamam em vão, e em vão a aguardam.
De um lustro que a houveram, ¡quantos lustros
lhe volveram saudade!

*

Em viço de annos,

e mais bella que as flores todas juntas
das dezassete suas primaveras,
qual fugaz sonho de manhan de estio,
foi-se, e não voltou mais, Deus sabe aonde.
Murcharam festas; esmorecem danças;
os banquetes, diffusos pela noite,
já não veem despertar ternura e risos.
Nas roseiras intactas se desfolham
os botões das grinaldas; o alaúde,
que falou tanto amor nas mãos da bella,
discorde jaz, e mudo...

*

Ella, entretanto,

co'os mimosos pés nús calcando areias,
desornado o cabello, envôlta em pelles,
timida, envergonhada, pesarosa,
vai caminho do Ceo co'a fronte baixa.
Mil vezes á avesinha se compára,
sem família, sem lar; corre erradia;
¿não ha-de ambas manter a paz que é de ambas?
Beija a caverna frígida que a hospéda,
e agradecendo este hórrido paraizo
ao Deus que lh'o depára, esquece o mundo,
ou sem saudade e com horror o aviva.

*

Ai coração tão amplo, onde estuava
mar de affectos sem conto, escoado agora,
¿quem o ha de encher? ¡em solidão tão funda!
¿quem o ha-de encher? Já o enche o que enche tudo,
o que brilha na luz, no sol, nos astros,
corre nos aquilões, anima os troncos.

*

Só conversa com Deus, e a Deus só ouve.
Este seio, estas tranças desatadas,
são brinco só do vento do deserto.
Esta mão, tão mimosa e tão querida,
só procura, excavando a terra ingrata,
a amorosa raiz, ou já se encurva
para dar agua aos labios sequiosos.
A aurora a vem saudar já de joelhos.
Não ha um sol, não ha na noite um astro,
que não saiba os seus ais e eternas preces.
Nem que passe o chacal, a hiena, a onça,
foge, ou quebra os devotos exercicios.
Treme a gazella, e encolhe-se aos rugidos;
e a Estrangeira não treme; ora, e descança.

*

Ao fresco desmaiar da extrema tarde,
quando os raios do sol já mal doiravam
da longinqua palmeira o incerto cume,
¡que vezes, assentada, e sustentando
na eburnea mão o pallido semblante,
atraz do astro fogoso e fugitivo,
mandava o coração, mandava os olhos!

*

—«Além—dizia—além, n'esse Occidente,
corre o santo Jordão delicias minhas,
que o Salvador banhou, que eu passei mesma.
Talvez aquella nevoa que lá brilha,
mudada em rosa, em purpuras, em oiro,
seja da santa veia alegre filha,
Além... Jerusalem, Sião, Judêa...»

*

E a taes nomes, enxames de memorias,
de saudades, de affectos, lhe adejavam
pela alma, alegre em parte, em parte escura.
Raro, mas inda ás vezes lhe assomavam
no involuntario somno ideias meigas.
Inda, uma vez ou outra, o amor banido
entrava de relance o antigo alvergue,
e apóz elle os passeios namorados,
os theatros esplendidos, as galas,
as mezas rindo, os bailes desenvôltos;
e as victorias, e as chusmas dos praseres,
como á sua rainha vão saudal-a.
Acordava sorrindo, a Cruz fitava;
e atirando se á terra, e sôlta em chóros,
pagava erros não seus com dor bem sua.

*

Taes se lhe vão no ermo deslizando
dias e annos, sem ver na areia impressos
mais vestigios que os seus.

*

De tempo em tempo,

só vê talvez, ou ver presume ao longe,

do horisonte nas sombras pavorosas,
o ténue pó da immensa caravana,
que vai de Alépo á Méka em certa estrada.
Por ella ora, e entre o orar lamenta
a devota fanática impiedade.

*

Tal vai manando a limpida existencia.
Egual ao ramalhete que desmaia,
e se esfólha no altar entre os perfumes,
tal, sem gosto e sem dor, e sem que o note,
perdendo vai co'o tempo a bella Egypcia
encantos, já seu mal, e mal do mundo.
O juvenil das formas exteriores
concentrou-se-lhe n'alma; em cans e em rugas
se esconde um coração de amor não farto.

*

Quem a tivesse visto, e a visse agora,
sentiria o que sente o viajante,
quando, perto d'ali, vai dar co'os restos,
saudosos restos, da gentil Palmyra.
Uma e outra já gloria do Universo;
agora mudas, sós, e deslembradas,
e socias no deserto, e eguaes no exemplo.

*

Meio seculo a viu prantear sosinha
annos ligeiros da fugaz infancia.
Ao fim da gran carreira, o Ceo lhe envia
o solitario Zózimo, como ella
ancião virtuoso, e habitador das covas,
que lhe oiça a longa vida, a anime, e exforce;
lhe dê perdão e paz de um Deus em nome.

*

Pela primeira vez contente e alegre,
ousando olhar os Ceos,

—«¿Trareis,—lhe disse—

á pobre peccadora o manjar de Anjos?»
—«Sim.»

E partiu.

Com vista prolongada

ella o segue; co'os olhos no deserto
o espera todo o dia; ¡e este é tão longo!...
¡tarda tanto o bom hóspede!...

*

Passou-se

um anno inteiro. É elle agora; é elle;
conheço o fraco andar que o zelo apressa,
e as cans, e a calva, e as faces penitentes...

*

Chega; clama; a caverna não responde;
grita, e só ouve a si. Olha em redondo,
vê-a jazer na areia, e a areia escrita
por mão trémula, errante, ao que parece:

Bom Zózimo, por santa caridade
enterra o corpo da infeliz Maria.
Aqui morri no dia em que te fôste.
Encommenda-me a Deus, e Deus t'o pague.

..................................................................

XII

EPISTOLA

Ao meu amigo o Desembargador Manuel Venancio
Deslandes

(NO DIA DOS MEUS ANNOS)
FRAGMENTO

Em torno ao teu amigo estão fervendo,
Deslandes meu, na hora em que te escreve,
de uma festa caseira o reboliço.

*

Bem que alveje de neve o Caramulo,
e um frígido suão de lá nos venha,
ninguem hoje de frio aqui se queixa.
Não descança nem pé, nem mão, nem lingua;
o sumptuoso lar arde em tres fógos;
o forno se afogueia; a branca meza
vai-se de loiça e vidros alegrando.

*

Uma estuda em compôr as sobremezas;
outra enrama de loiro alta ferrugem
das vigas da cosinha; esta, sizuda,
de riscado avental e nus os braços,

com importancia e afan revira espêtos;
aquella, anda scismatica, e raivosa
de eu nascer em Janeiro, um mez agreste,
que além de um alecrim, de umas violetas,
nascidas por engano, além de rosas,
frágeis, sem cheiro, e languidas, não cria
com que se enflore a meza dos meus annos.

*

¿Porque é, quando a sorrir divagam todos,
quando só para mim se andam tecendo
estas pompas domesticas, agora
que a potente amisade em meu obsequio
para tudo fazer até fez estros;
agora, emfim, que aos raios da alegria
não ha um coração que se não abra...
¿por que se fecha o meu? ¿Dará (não creio)
da Natureza o luto um certo assombro
ás festas do homem? ¿Pensas que enfartado
d'esta patria amargura, a filtre aos gostos,
qual vaso que azedado a tudo azéda?...
..........................................................

26 de Janeiro

de 1833.

FIM DO PRESBYTERIO DA MONTANHA

NOTAS DOS EDITORES
AO VOLUME I DO
PRESBYTERIO DA MONTANHA


*

*

*

[ Pag. 11] lin. ultima

Dapibus mensas oneramus inemptis

....Sero que revertens

nocte domum, dapibus mensas onerabat inemptis.

......Alembra-me que outr'ora,

lá por onde o Galeso arrasta a veia escura
por entre loiros chãos de cereal cultura,
junto á Ebália cidade, a de torreados muros,
conheci um corycio em annos já maduros,
dono de uma chanzinha ali desamparada.
O pobre do torrão de si não dava nada:
nem pasto para bois, nem para um fato hervinha.
Sumitico de pães, escasso para vinha,
era um sarçal fechado; e no sarçal, comtudo,
o bom velho, a poder de diligencia e estudo,
tinha hortaliça rara, e emmoldurada em torno
com seve de jardim para maior adorno,
alvos lirios, verbena, e papoilas de prato.
Não trocára co'os Reis seu parco haver tão grato.
Recolhia ao casal já noite; e, ¡que riqueza
de iguarias de graça a assoberbar-lhe a meza!

[Pag. 18] lin. 3

Passámos n'uma bateirinha, remada por uma velha moleira da margem, o víçoso rio de Bolfiar.

[Pag. 36] lin. 20

Uma especie de zimborio de doze palmos de altura.

[Pag. 37] lin. 3

Uma desconforme loisa inteiriça horizontalmente aguentada nos ares por esteios de pedra.

[Pag. 42] lin. 6

A Linguagem é ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucídez.

[Pag. 58] lin. 7

Lia, Rachel e Rebecca

[Pag. 72] lin. 15

Uma pobre mocinha ovelheira

[Pag. 80], lin. 9

Filinto e o entrudo

¡Viva o meu Portugal! ¡viva a laranja
que derruba o chapeo!

[Pag. 82] linhas 6 e 8

Citações latinas

Fronte sub adversa scopulis pendentibus antrum;
intus aquae dulces, vivoque sedilia saxo;
nympharum domus
.

[Pag. 87] lin. 21

As rogações de Maio

[Pagina 99] linha 23

O ubi campi!

Rura mihi et rigui placeant in vallibus amnes;
flumina amem silvasque inglorius. O ubi campi
Spercheosque, et virginibus bacchata Lacaems
Taygeta!......

Então amar só quero os rios e arvoredos,
de glorias desquitado. Ai, campos meus tão quedos!
ai ribeiras do Spérchio, oiteiros do Taygéto,
das virgens de Lacónia ás órgias predilecto,
¿onde, onde me estais vós?....

[Pag. 102], lin. 10

Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in urbem

Parte, ó meu pobre livro; irás sem mim, sosinho,
correr na gran Cidade incognito caminho
traduziu alguem

[Pag. 107], lin. 17

Zimmermann

[Pag. 108], lin. 6

O Passeio publico e o Marrare


ADDITAMENTO


IO sermão de S. Pedro, ou da Fé;
IIO sermão da esmola, ou da Caridade;
IIIO sermão nas exequias do senhor D. Pedro IV;
IVA pastoral dedicada ao seu rebanho episcopal de Beja;
VUns versos na Primavera de Antonio Feliciano.

SERMÃO
DA
ESMOLA OU DA CARIDADE

Prégado na 5.ª dominga da Quaresma de 1839
na Sé de Lisboa
pelo Conego Arcipreste da mesma Sé,
o Doutor de capello em Canones Augusto Frederico de Castilho

Jesus abscondit se, et exivit de templo.
Escondeu-se Jesus, e sahiu do templo.



INDICE


IA primeira noite na serra[5]
IIO sepulchro, ou historia de uma noite de S. João[11]
IIIEpistola a João Evangelista Pereira da Costa[41]
IVO Presbyterio[43]
VA lyra do desterrado[49]
VIEpistola a[51]
VIIA romaria[53]
VIIIO Domingo gordo dos montanhezes[55]
IXO S. João nas faldas do Caramulo[77]
XO mosteiro[81]
XISanta Maria Egypcíaca[91]
XIIEpistola ao Desembargador Deslandes[97]
Notas ao 1.º volume[99]
Additamento[107]
Sermão da Esmola ou da Caridade[109]

EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
Sociedade editora

Livraria Moderna
95—RUA AUGUSTA—LISBOA

Nota do autor.

Nota do autor.

Nota do autor.

Nota do autor.

Nota dos Editores.

Os Editores.

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

OriginalCorrecção
Volume I
[#pág. 20]a ém...além
[#pág. 33]«o salto)»...«o salto»)
[#pág. 56]lnes...lhes
[#pág. 69]fescenino,»...fescenino»,
[#pág. 94]acompapanhal-o...acompanhal-o
Volume II
[#pág. 45]dextra não...dextra mão
[#pág. 113]tarrestres...terrestres