COLLECÇÃO DE AUTORES PORTUGUEZES.

Tomo I.

CANTOS.

COLLECÇÃO DE POESIAS

DE

A. GONÇALVES DIAS.


TERCEIRA EDICÇÃO.
COM O RETRATO DO AUTOR.

LEIPZIG:
F. A. BROCKHAUS.


1860.

AO SEO AMIGO
o
DR. G. S. DE CAPANEMA

OFFERECE ESTA EDICÇÃO
DOS SEOS CANTOS

O AUTOR.

SIRVA DE PROLOGO.

A collecção de poesias, que agora reimprimo, vae illustrada com algumas linhas de A. Herculano, a que devo a maior satisfação que tenho até hoje experimentado na minha vida litteraria.

Merecer a critica de A. Herculano, já eu consideraria como bastante honroso para mim; uma simples menção do meo primeiro volume, rubricada com o seo nome, desejava-o de certo; mas esperal-o, seria da minha parte demasiada vaidade.

Ora, em vez da critica inflexivel, que eu devera, mas não ousava receiar; em vez da simples noticia do apparecimento de um volume, que não seria de todo ruim, pois que teria merecido occupar a sua attenção; o illustre escriptor poz por alguns momentos de parte a severidade que tem direito de usar para com todos, quando é tão severo para comsigo mesmo,—e, benevolamente indulgente, dirigio me algumas linhas, que me fizerão comprehender quão alto eu reputava a sua gloria, na plenitude de contentamento, de que as suas palavras me deixarão possuido.

O escriptor conhecia-o eu ha muito, mas de nome e pelas suas obras: essas obras que todos nós temos lido, e esse nome que eu sempre ouvira pronunciar com admiração e respeito.

Se pois, n’aquella occasião, me fosse dado escolher auctor para esse artigo, não podia recahir em outro a minha escolha. Hoje, com mais razão. Tive ensejo de o conhecer pessoalmente, e a fortuna de encontrar nelle um d’aquelles poucos, d’alta intelligencia, que não perdem em serem admirados de perto, e cuja amizade se pode ambicionar como um thesouro: fortuna, digo, por que o é de certo, quando se admira o escripto, que se possa ao mesmo tempo estimar o escriptor; e ainda maior fortuna, quando queremos manifestar o nosso reconhecimento, que nos não remorda a consciencia, previnindo-nos, de que ainda quando digamos mais do que a verdade, ficaremos sempre aquem do que devemos.

Ahi vae o artigo tal qual o transcreveo e remetteo-me de Lisboa o meo bom amigo Gomes de Amorim.

Dresde 30 de Março de 1857.

FUTURO LITTERARIO DE PORTUGAL E DO BRAZIL.[1]

POR OCCASIÃO DA LEITURA DOS

PRIMEIROS CANTOS: POESIAS DO Sr A. GONÇALVES DIAS.


Bem como a infancia do homem a infancia das nações é vivida e esperançosa; bem como a velhice humana a velhice dellas é tediosa e melancholica. Separado da mãe patria, menos pela serie de acontecimentos inopinados, a que uma observação superficial lhe atribue a emancipação, do que pela ordem natural do progresso das sociedades, o Brazil, imperio vasto, rico, destinado pela sua situação, pelo favor da natureza, que lhe fadou a opulencia, a representar um grande papel na historia do novo mundo, é a nação infante que sorri: Portugal é o velho aborrido e triste, que se volve dolorosamente no seu leito de decrepidez; que se lamenta de que os raios do sol se tornassem frouxos, de que se encurtassem os horisontes da esperança, de que um crepe funebre vele a face da terra. Perguntae, porêm, ao povo infante, que cresce e se fortifica alem dos mares, que se atira ridente pelo caminho da vida, se é verdade isso que diz o ancião na tristeza do seu vegetar inerte, e que, encostado na borda do tumulto, deplora, pobre tonto, o mundo que vae morrer!

Em Portugal, os espiritos que o antigo poeta designou pelo epitheto de bem nascidos; aquelles que ainda tentam esquivar-se no sanctuario da sciencia ou da poesia ao pego da podridão dissolvente que os cerca, no meio dos seus generosos esforços chegam a illudir a Europa com essas aspirações do futuro, que tambem nelles não são mais do que uma illusão. As suas tentativas quasi fazem acreditar que para esta nação moribunda ainda resta uma esperança de regeneração; que nas veias varicosas deste corpo semi cadaver de novo se vae injectar sangue puro; que temos ainda algum destino a cumprir antes de nos amortalhar-mos no estandarte de D. João I. ou na bandeira de Vasco da Gama, e de irmos emfim repousar no cemiterio da historia. O desengano chega, porêm, em breve. O talento que forcejava por fugir do lethargo febril que nos consome, retrocede ao entrar no templo, e volve ao lodaçal onde agonisamos. É que a turba que ahi se debate, ou o apupa, ou lhe arroja adiante tropeços, ou o corrompe com dadivas e promessas; e fallando-lhe ás paixões más, ás ambições insensatas, lhe clama: vem refocilar-te no lodo. E, desanimado ou tentado, o talento despenha-se, e attufando-se no charco, acceita as lisonjas ou o oiro immundo, que lhe atiram, embriaga-se com os outros perdidos, e renega da missão sacrosanta, que se lhe destinára no ceu.

Que é feito de tantos engenhos que despontaram nesta nossa terra desde que a imprensa libertada chamou os que sentiam chamejar em si um espirito não vulgar ao convivio das intelligencias? Que é feito dessas tres ou quatro épochas em que, nos ultimos quinze annos, a mocidade parecia querer deixar inteiramente aos pequeninos homens grandes do paiz o agitarem-se, o morderem-se, o devorarem-se acerca dos graves interesses, das profundas questões das bolhas de sabão politicas? Que é feito dessa phalange ardente, ambiciosa de uma gloria pura, que principiava a exercitar-se nas lides do entendimento? De tudo isso; de toda essa mocidade brilhante e esperançosa que resta? Algum crente solitario, que deplora em silencio a queda de tantos archanjos. Os outros sacerdotes, apostatando da religião das lettras, attiraram-se á arena das facções, e manchados pela baba dos odios civis, cobertos da lama das praças, arroxeados e sangrentos pelas punhadas do pugilato politico, desbaratando em esforços estereis a seiva interior, la vão disputando no meio de homens, gastos como a effigie de velha moeda, sobre qual ha de ser a forma do ataúde, e como se talhará a mortalha, em que o cadaver de Portugal deve descer á sepultura. Que outra coisa, de feito, ha ahi sobre que se dispute ainda?

Por isso, quando vejo começar a surgir entre nós um novo poeta; quando oiço a primeira harmonia que sussurra nas cordas de lyra noviça, quizera poder chegar-me escondidamente ao descuidado e inexperiente cantor, e dizer-lhe ao ouvido: Cala-te, alma virgem e bella; cala-te, que estás n’um prostibulo! Olha que elles não te ouçam! Se o teu hymno reboar por essas torpes alcovas, sabe que pouco tardará a hora de te prostituires.

O poeta portuguez d’hoje é a avezinha que enlevada nos seus gorgeios se balança depois do pôr do sol no ramo do ulmeiro pendente sobre o rio. As outras voaram para os seus ninhos, e ella deixou vir a noite, e ficou alli, triste, só, desconsolada, soltando a espaços um doloroso pio.

Poeta, n’esta terra é noite! Por que não te acolheste ao teu ninho? Agora o que te resta é morrer. Vae abrigar-te entre os orbes; vae derramar em canções a tua alma no seio immenso de Deos. Ahi é que sempre é dia.

Nós somos hoje o hilota embriagado, que se punha defronte da meza nas philitias de Sparta, para servir de licção de sobriedade aos mancebos. O Brazil é a moderna Sparta, de que Portugal é a moderna Helos.

Estas amarguradas cogitações surgiram-me na alma, com a leitura de um livro impresso o anno passado no Rio de Janeiro, e intitulado: Primeiros Cantos: Poesias por A. Gonçalves Dias. N’aquelle paiz de esperanças, cheio de viço e de vida, ha um ruido de lavor intimo, que sôa tristemente cá, n’esta terra onde tudo acaba. A mocidade, despregando o estandarte da civilisação, prepara-se para os seus graves destinos pela cultura das lettras; arroteia os campos da intelligencia; aspira as harmonias dessa natureza possante que a cerca; concentra n’um foco todos os raios vivificantes do formoso ceu, que a allumina; prova forças emfim para algum dia renovar pelas ideias a sociedade, quando passar a geração dos homens praticos e positivos, raça que lá deve predominar ainda; por que a sociedade brazileira, vergontea separada ha tão pouco da carcomida arvore portugueza, ainda necessariamente conserva uma parte do velho cepo. Possa o renovo dessa vergontea, transplantada da Europa para entre os tropicos, prosperar e viver uma bem longa vida, e não decahir tão cedo como nós decahimos!

É geralmente sabido que o jovem imperador do Brazil dedica todos os momentos que pode salvar das occupações materiaes de chefe do Estado ao culto das lettras. Mancebo, prende-se á mocidade, aos homens do futuro, por laços que de certo as revoluções não hão de quebrar; porque o progresso social não virá accomettel-o inopinadamente nas suas crenças e habitos. Quando a ideia se encarnar na realidade, o seu espirito como as outras intelligencias que o rodeiam, ter-se-ha alimentado della, e saudará como os seus mais alumiados subditos o pensamento progressivo. Não notaes n’estas tendencias do moço principe um symbolo do presente, e uma prophecia consoladora acerca do porvir do Brazil?

A imprensa na antiga America portugueza, balbuciante ha dois dias, já ultrapassa a imprensa da terra que foi metropole. Ás publicações periodicas, primeira expressão de uma cultura intellectual que se desinvolve, começam a associar-se as composições de mais alento—os livros. Ajuncte-se a este facto outro, o ser o Brazil o mercado principal do pouco que entre nós se imprime, e será facil conjecturar que no dominio das lettras, como em importancia e prosperidade, as nossas emancipadas colonias nos vão levando rapidamente de vencida.

Por si sós esses factos provariam antes a nossa decadencia, que o progresso litterario do Brazil. É um mancebo vigoroso que derriba um velho cachetico, demente e paralitico. O que completa, porêm, a prova é o exame não comparativo, mas absoluto, de algumas das modernas publicações brazileiras.

Os Primeiros Cantos são um bello livro; são inspirações de um grande poeta. A terra de Sancta Cruz que já conta outros no seu seio, pode abençoar mais um illustre filho.

O auctor, não o conhecemos; mas deve ser muito jovem. Tem os defeitos do escriptor ainda pouco amestrado pela experiencia: imperfeições de lingua, de metrificação, de estylo. Que importa? O tempo apagará essas maculas, e ficarão as nobres inspirações estampadas nas paginas deste formoso livro.

Quizeramos que as Poesias Americanas que são como o portico do edificio occupassem nelle maior espaço. Nos poetas transatlanticos ha por via de regra demasiadas reminiscencias da Europa. Esse Novo Mundo que deu tanta poesia a Saint-Pierre e a Chateaubriand é assaz rico para inspirar e nutrir os poetas que crescerem á sombra das suas selvas primitivas.

Como argumento disso, como exemplo da verdadeira poesia nacional do Brazil citarei aqui dous trechos das Poesias Americanas: o Canto do Guerreiro e um fragmento Morro do Alecrim.

(Aqui vem transcripta por inteiro a poesia intitulada «O canto do Guerreiro» ([pag. 4]) e as ultimas strophes do «Morro do Alecrim».)

Abstendo-me de outras citações, que occupariam demasiado espaço, não posso resistir a tentação de transcrever das Poesias Diversas uma das mais mimosas composições lyricas, que tenho lido na minha vida.

(Aqui vem transcripta a poesia intitulada «Seos olhos». Veja-se [pag. 19].)

Se estas poucas linhas, escriptas de abundancia de coração, passarem os mares, receba o auctor dos Primeiros Cantos o testemunho sincero de sympathia, que a leitura do seu livro arrancou a um homem, que o não conhece, que provavelmente não o conhecerá nunca, e que não costuma nem dirigir aos outros elegios encommendados, nem pedil-os para si.

Lisboa (Ajuda) 30 de Novembro de 1847.

A. HERCULANO.

PRIMEIROS CANTOS.

PROLOGO DA PRIMEIRA EDICÇÃO.

Dei o nome de “Primeiros Cantos” ás poesias que agora publíco, porque espero que não serão as ultimas.

Muitas dellas não tem uniformidade nas strophes, porque menospreço regras de mera convenção; adoptei todos os rhythmos da metrificação portugueza, e usei delles como me parecérão quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir.

Não tem unidade de pensamento entre si, porque forão compostas em epochas diversas—debaixo de céo diverso—e sob a influencia de impressões momentaneas. Forão compostas nas margens viçosas do Mondego e nos pincaros ennegrecidos do Gerez—no Doiro e no Tejo—sobre as vagas do Atlantico, e nas florestas virgens da America. Escrevi-as para mim, e não para os outros; contentar-me-hei, se agradarem; e se não ... é sempre certo que tive o prazer de as ter composto.

Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa arena politica para lêr em minha alma, reduzindo á lingoagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as idéas que em mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano—o aspecto emfim da natureza. Casar assim o pensamento com o sentimento—o coração com o entendimento—a idéa com a paixão—colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia—a Poesia grande e sancta—a Poesia como eu a comprehendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir.

O esforço—ainda vão—para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor; talvez seja este o só merecimento deste volume. O Publico o julgará; tanto melhor se elle o despreza, porque o Auctor interessa em acabar com essa vida desgraçada, que se diz de Poeta.

Rio de Janeiro—Julho de 1846.

INDICE.

Pag.
Sirva de Prologo[vii]
Futuro litterario de Portugal e do Brazil, artigo do Sr. A. Herculano[ix]
Prologo da primeira edicção dos Primeiros Cantos[xv]
PRIMEIROS CANTOS.
POESIAS AMERICANAS.
Canção do Exilio[3]
O Canto do Guerreiro[4]
O Canto do Piaga[7]
O Canto do Indio[9]
Cachias[11]
Deprecação[12]
POESIAS DIVERSAS.
A Leviana[14]
A minha Musa[15]
Desejo[19]
Seos olhos[19]
Innocencia[21]
Pedido[22]
O Desengano[23]
Minha vida e meos amores[24]
Recordação[27]
Tristeza[28]
O Trovador[30]
Amor! delirio—engano[34]
Delirio[37]
Epicedio[39]
Soffrimento[41]
VISÕES.
I. Prodigio[43]
II. A Cruz[44]
III. Passamento[46]
IV. ——[50]
V. A Morte[53]
O Vate[55]
A morte prematura da Illma Sra D.....[57]
A Mendiga[59]
A Escrava[63]
Ao Dr. J. D. Lisboa Serra[66]
O Desterro de um pobre velho[68]
O Orgulhoso[71]
O Cometa[72]
O Oiro[73]
A um Menino[74]
O Pirata[77]
A Villa Maldicta[81]
Quadras da minha vida. Recordação e desejo[87]
HYMNOS.
O Mar[95]
Ideia de Deos[97]
O romper d’alva[100]
A tarde[103]
O Templo[107]
Te Deum[109]
Adeos aos meos Amigos do Maranhão[110]
SEGUNDOS CANTOS.
Consolação nas lagrimas[115]
Canção[116]
Lyra[117]
Agora e sempre[118]
A Virgem[119]
Rosa no mar![121]
O Amor[123]
Sempre ella[124]
Mimosa e bella[126]
As duas amigas[128]
Sonho[130]
Solidão[131]
A um Poeta exilado[134]
Palinodia[135]
Os suspiros[139]
Queixumes[141]
Ao Anniversario de um casamento[145]
Canto inaugural.—A memoria do Conego J. de C. Barbosa[146]
Tabyra. Aos Pernambucanos[149]
Tabyra (Poesia Americana)[150]
A Lua[157]
A Noite[160]
A Tempestade[162]
NOVOS CANTOS.
O homem forte[169]
Dies irae[170]
Espera![172]
A Saudade[174]
Não me deixes![176]
Zulmira[177]
A uma Poetiza[178]
Angelina[178]
Rola[180]
Ainda uma vez—adeos![181]
O Somno[186]
Se eu fosse querido![186]
A flôr do amor[187]
A sua voz[190]
Se se morre de amor![191]
A morte é vária[193]
SEXTILHAS DE FREI ANTÃO.
Loa da Princeza Sancta[196]
Gulnare e Mustaphá[211]
Soláo do Senhor Rey Dom João[240]
Soláo de Gonçalo Hermiguez[251]
ULTIMOS CANTOS.
Dedicatoria ao meo amigo A. T. de Carvalho Leal[271]
POESIAS AMERICANAS.
I. O Gigante de pedra[275]
II. Leito de folhas verdes[280]
III. Y-juca-pyrama[281]
IV. Marabá[296]
V. Canção do Tamoyo[298]
VI. A Mangueira[301]
VII. A Mãe d’agua[302]
POESIAS DIVERSAS.
Nenia á morte sentidissima do Serenissimo Principe Imperial, o Senhor D. Pedro[310]
Olhos verdes[314]
Cumprimento de um voto[316]
Lyra quebrada[318]
A Pastora[319]
A Infancia[322]
Urge o tempo[325]
Sobre o tumulo de um menino[326]
Menina e moça[326]
Como eu te amo[327]
As duas corôas[330]
Harpejos[333]
Triste do Trovador[335]
Velhice e mocidade[336]
As flores[341]
O que mais dóe na vida[344]
Flôr de belleza[346]
O Anjo da harmonia[348]
A Historia[349]
A concha e a virgem[350]
Sei amar[351]
Amanhã[352]
Por um ai[353]
Protesto—(Imitação de uma poesia javaneza)[355]
Fadario[357]
O assassino[359]
A uns annos[361]
Quando nas horas[362]
Retractação[366]
Anhelo[369]
Que me pedes[370]
O Ciume[370]
A Nuvem doirada[373]
Sonho de virgem[374]
Meo anjo, escuta[378]
Os beijos[379]
Desesperança[381]
Se queres que eu sonhe[383]
O Baile[385]
Desalento[387]
A queda de Satanaz[390]
Canção da Bug-Jargal[392]
Agar no deserto[394]
HYMNO.
O meo Sepulchro[404]
Saudades á minha Irmã[410]
Notas[417]

PRIMEIROS CANTOS.

POESIAS AMERICANAS.

Les infortunes d’un obscur habitant des bois auraient-elles moins de droits à nos pleurs que celles des autres hommes?

CHATEAUBRIAND.


CANÇÃO DO EXILIO.

Kennst du das Land, wo die Citronen blühn,

Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn?

Kennst Du es wohl?—Dahin, dahin!

Möcht’ ich ... ziehn.

GOETHE.

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorgeião,

Não gorgeião como lá.

Nosso céo tem mais estrellas,

Nossas varzeas tem mais flores,

Nossos bosques tem mais vida,

Nossa vida mais amores.

Em scismar, sósinho, á noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,

Que taes não encontro eu cá;

Em scismar—sósinho, á noite—

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Não permitta Deos que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfructe os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

COIMBRA—Julho 1843.


O CANTO DO GUERREIRO.

I.

Aqui na floresta

Dos ventos batida,

Façanhas de bravos

Não gerão escravos,

Que estimem a vida

Sem guerra e lidar.

—Ouvi-me, Guerreiros,

—Ouvi meo cantar.

II.

Valente na guerra

Quem ha, como eu sou?

Quem vibra o tacápe

Com mais valentia?

Quem golpes daria

Fataes, como eu dou?

—Guerreiros, ouvi-me;

—Quem ha, como eu sou?

III.

Quem guia nos ares

A frexa implumada,

Ferindo uma preza,

Com tanta certeza,

Na altura arrojada

Onde eu a mandar?

—Guerreiros, ouvi-me,

—Ouvi meo cantar.

IV.

Quem tantos imigos

Em guerras preou?

Quem canta seos feitos

Com mais energia?

Quem golpes daria

Fataes, como eu dou?

—Guerreiros, ouvi-me:

—Quem ha, como eu sou?

V.

Na caça ou na lide,

Quem ha que me affronte?!

A onça raivosa

Meos passos conhece,

O imigo estremece,

E a ave medrosa

Se esconde no céo.

—Quem ha mais valente,

—Mais dextro do que eu?

VI.

Se as matas estrujo

Co’os sons do Boré,

Mil arcos se encurvão,

Mil setas lá vôão,

Mil gritos rebôão,

Mil homens de pé

Eis surgem, respondem

Aos sons do Boré!

—Quem é mais valente,

—Mais forte quem é?

VII.

Lá vão pelas matas;

Não fazem ruido:

O vento gemendo

E as matas tremendo

E o triste carpido

D’uma ave a cantar,

São elles—guerreiros,

Que faço avançar.

VIII.

E o Piaga se ruge

No seo Maracá,

A morte lá paira

Nos ares frexados,

Os campos juncados

De mortos são já:

Mil homens viverão,

Mil homens são lá.

IX.

E então se de novo

Eu tóco o Boré;

Qual fonte que salta

De rocha empinada,

Que vai marulhosa,

Fremente e queixosa,

Que a raiva apagada

De todo não é,

Tal elles se escôão

Aos sons do Boré.

—Guerreiros, dizei-me,

—Tão forte quem é?


O CANTO DO PIAGA.

I.

Ó Guerreiros da Taba sagrada,

Ó Guerreiros da tribu Tupi,

Fallão Deoses nos cantos do Piaga,

Ó Guerreiros, meos cantos ouvi.

Esta noite—era a lua já morta—

Anhangá me vedava sonhar;

Eis na horrivel caverna, que habito,

Rouca voz começou-me a chamar.

Abro os olhos, inquieto, medroso,

Manitôs! que prodigios que vi!

Arde o páo de resina fumosa,

Não fui eu, não fui eu, que o accendi!

Eis rebenta a meos pés um phantasma,

Um phantasma d’immensa extensão;

Liso craneo repousa a meo lado,

Feia cóbra se enrosca no chão.

O meo sangue gelou-se nas veias,

Todo inteiro—ossos, carnes—tremi,

Frio horror me côou pelos membros,

Frio vento no rosto senti.

Era feio, medonho, tremendo,

Ó Guerreiros, o espectro que eu vi.

Fallão Deoses nos cantos do Piaga,

Ó Guerreiros, meos cantos ouvi!

II.

Porque dormes, ó Piaga divino?

Começou-me a Visão a fallar,

Porque dormes? O sacro instrumento

De per si já começa a vibrar.

Tu não viste nos céos um negrume

Toda a face do sol offuscar;

Não ouviste a coruja, de dia,

Seus estridulos torva soltar?

Tu não viste dos bosques a coma

Sem aragem—vergar-se e gemer,

Nem a lua de fogo entre nuvens,

Qual em vestes de sangue, nascer?

E tu dormes, ó Piaga divino!

E Anhangá te prohibe sonhar!

E tu dormes, ó Piaga, e não sabes,

E não pódes augurios cantar?!

Ouve o annuncio do horrendo phantasma,

Ouve os sons do fiel Maracá;

Manitôs já fugirão da Taba!

Ó desgraça! ó ruina! ó Tupá!

III.

Pelas ondas do mar sem limites

Basta selva, sem folhas, hi vem;

Hartos troncos, robustos, gigantes;

Vossas matas taes monstros contêm.

Trás embira dos cimos pendente

—Brenha espessa de vario cipó—

Dessas brenhas contêm vossas matas,

Taes e quaes, mas com folhas; é só!

Negro monstro os sustenta por baixo,

Brancas azas abrindo ao tufão,

Como um bando de candidas garças,

Que nos ares pairando—lá vão.

Oh! quem foi das entranhas das aguas,

O marinho arcabouço arrancar?

Nossas terras demanda, fareja...

Esse monstro...—o que vem cá buscar?

Não sabeis o que o monstro procura?

Não sabeis a que vem, o que quer?

Vem matar vossos bravos guerreiros,

Vem roubar-vos a filha, a mulher!

Vem trazer-vos crueza, impiedade—

Dons crueis do cruel Anhangá;

Vem quebrar-vos a maça valente,

Profanar Manitôs, Maracás.

Vem trazer-vos algemas pesadas,

Com que a tribu Tupi vai gemer;

Hão de os velhos servirem de escravos,

Mesmo o Piaga inda escravo ha de ser!

Fugireis procurando um asilo,

Triste asilo por invio sertão;

Anhangá de prazer ha de rir-se,

Vendo os vossos quão poucos serão.

Vossos Deoses, ó Piaga, conjura,

Susta as iras do fero Anhangá.

Manitôs já fugirão da Taba,

Ó desgraça! ó ruina! ó Tupá!


O CANTO DO INDIO.

Quando o sol vae dentro d’agoa

Seos ardores sepultar,

Quando os passaros nos bosques

Principião a trinar;

Eu a vi, que se banhava....

Era bella, ó Deoses, bella,

Como a fonte cristallina,

Como luz de meiga estrella.

Ó Virgem, Virgem dos Christãos formosa,

Porque eu te visse assim, como te via,

Calcára agros espinhos sem queixar-me,

Que antes me dera por feliz de ver-te.

O tacápe fatal em terra estranha

Sobre mim sem temor veria erguido;

Dessem-me a mim sómente vêr teo rosto

Nas agoas, como a lua, retratado.

Eis que os seos loiros cabellos

Pelas agoas se espalhavão,

Pelas agoas, que de vel-os

Tão loiros se enamoravão.

Ella erguia o collo eburneo,

Porque melhor os colhesse;

Niveo collo, quem te visse,

Que de amores não morresse!

Passára a vida inteira a contemplar-te,

Ó Virgem, loira Virgem tão formosa,

Sem que dos meos irmãos ouvisse o canto,

Sem que o som do Boré que incita á guerra

Me infiltrasse o valor que m’has roubado,

Ó Virgem, loira Virgem tão formosa.

As vezes, quando um sorriso

Os labios seos entreabria,

Era bella, oh! mais que a aurora

Quando a raiar principia.

Outra vez—d’entre os seos labios

Uma voz se desprendia;

Terna voz, cheia de encantos,

Que eu entender não podia.

Que importa? Esse fallar deixou-me n’alma

Sentir d’amores tão sereno e fundo,

Que a vida me prendeo, vontade e força.

Ah! que não queiras tu viver commigo,

Ó Virgem dos Christãos, Virgem formosa!

Sobre a areia, já mais tarde,

Ella surgio toda núa;

Onde ha, ó Virgem, na terra

Formosura como a tua?

Bem como gotas de orvalho

Nas folhas de flôr mimosa,

Do seo corpo a onda em fios

Se deslizava amorosa.

Ah! que não queiras tu vir ser rainha

Aqui dos meos irmãos, qual sou rei delles!

Escuta, ó Virgem dos Christãos formosa.

Odeio tanto aos teos, como te adóro;

Mas queiras tu ser minha, que eu prometto

Vencer por teo amor meo odio antigo,

Trocar a maça do poder por ferros

E ser, por te gozar, escravo delles.


CACHIAS.

Quanto es bella, ó Cachias!—no deserto,

Entre montanhas, derramada em valle

De flores perennaes,

Es qual tenue vapor que a brisa espalha

No frescor da manhã meiga soprando

Á flor de manso lago.

Tu es a flor que despontaste livre

Por entre os troncos de robustos cédros,

Forte—em gleba inculta;

Es qual gazella, que o deserto educa,

No ardor da sésta debruçada exangue

Á margem da corrente.

Em molle seda as graças não escondes,

Não cinges d’oiro a fronte que descanças

Na base da montanha;

Es bella como a virgem das florestas,

Que no espelho das aguas se contempla,

Firmada em tronco annoso.

Mas dia inda virá, em que te pejes

Dos, que ora trajas, simplices ornatos

E amavel desalinho:

Da pompa e luxo amiga, hão de cahir-te

Aos pés então—da poesia a c’roa

E da innocencia o cinto.


DEPRECAÇÃO.

Tupan, ó Deos grande! cobriste o teo rosto

Com denso velamen de pennas gentis;

E jazem teos filhos clamando vingança

Dos bens que lhes déste da perda infeliz!

Tupan, ó Deos grande! teo rosto descobre:

Bastante soffremos com tua vingança!

Já lagrimas tristes chorárão teos filhos,

Teos filhos que chórão tão grande mudança.

Anhangá impiedoso nos trouxe de longe

Os homens que o raio manejão cruentos,

Que vivem sem patria, que vagão sem tino

Tras do ouro correndo, voraces, sedentos.

E a terra em que pisão, e os campos e os rios

Que assaltão, são nossos; tu es nosso Deos:

Por que lhes concedes tão alta pujança,

Se os raios de morte, que vibrão, são teos?

Tupan, ó Deos grande! cobriste o teo rosto

Com denso velamen de pennas gentis;

E jazem teos filhos clamando vingança

Dos bens que lhes déste da perda infeliz.

Teos filhos valentes, temidos na guerra,

No albor da manhã quão fortes que os vi!

A morte pousava nas plumas da frexa,

No gume da maça, no arco Tupi!

E hoje em que apenas a enchente do rio

Cem vezes hei visto crescer e baixar...

Já restão bem poucos dos teos, qu’inda possão

Dos seos, que já dormem, os ossos levar.

Teos filhos valentes causavão terror,

Teos filhos enchião as bordas do mar,

As ondas coalhavão de estreitas igáras,

De frexas cobrindo os espaços do ar.

Já hoje não cáção nas matas frondosas

A corça ligeira, o trombudo coati...

A morte pousava nas plumas da frexa,

No gume da maça, no arco Tupi!

O Piaga nos disse que breve seria,

A que nos infliges cruel punição;

E os teos inda vagão por serras, por valles,

Buscando um asilo por invio sertão!

Tupan, ó Deos grande! descobre o teo rosto:

Bastante soffremos com tua vingança!

Já lagrimas tristes chorárão teos filhos,

Teos filhos que chórão tão grande tardança.

Descobre o teo rosto, resurjão os bravos,

Que eu vi combatendo no albor da manhã;

Conheção-te os feros, confessem vencidos

Que es grande e te vingas, qu’es Deos, ó Tupan!


POESIAS DIVERSAS.


A LEVIANA.

Souvent femme varie,

Bien fol est qui s’y fie.

FRANCISCO I.

Es engraçada e formosa

Como a rosa,

Como a rosa em mez d’Abril;

Es como a nuvem doirada

Deslisada,

Deslisada em céos d’anil.

Tu es vária e melindrosa,

Qual formosa

Borboleta n’um jardim,

Que as flores todas afaga,

E divaga

Em devaneio sem fim.

Es pura, como uma estrella

Doce e bella,

Que treme incerta no mar;

Mostras nos olhos tua alma

Terna e calma,

Como a luz d’almo luar.

Tuas formas tão donosas,

Tão airosas,

Formas da terra não são;

Pareces anjo formoso,

Vaporoso,

Vindo da etherea mansão.

Assim, beijar-te receio,

Contra o seio

Eu tremo de te apertar;

Pois me parece que um beijo

É sobejo

Para o teo corpo quebrar.

Mas não digas que es so minha!

Passa azinha

A vida, como a ventura,

Que te não vejão brincando,

E folgando

Sobre a minha sepultura.

Tal os sepulcros colora

Bella aurora

De fulgores radiante;

Tal a vaga maripôsa

Brinca e pousa

D’um cadaver no semblante.


A MINHA MUSA.

Gratia, Musa, tibi; nam tu solatia praebes.

OVIDIO.

Minha Musa não é como nympha

Que se eleva das agoas—gentil—

Co’um sorriso nos labios mimosos,

Com requebros, com ar senhoril.

Nem lhe pouza nas faces redondas

Dos fagueiros anhelos a cor;

N’esta terra não tem uma esp’rança,

N’esta terra não tem um amor.

Como fada de meigos encantos,

Não habita um palacio encantado,

Quer em meio de matas sombrias,

Quer á beira do mar levantado.

Não tem ella uma senda florida,

De perfumes, de flores bem cheia,

Onde vague com passos incertos,

Quando o céo de luzeiros se arreia.


Não é como a de Horacio a minha Musa;

Nos soberbos alpendres dos Senhores

Não é que ella reside;

Ao banquete do grande em lauta mesa,

Onde gira o falerno em taças d’oiro,

Não é que ella preside.

Ella ama a solidão, ama o silencio,

Ama o prado florido, a selva umbrosa

E da rola o carpir.

Ella ama a viração da tarde amena,

O susurro das agoas, os accentos

De profundo sentir.

D’Anacreonte o genio prazenteiro,

Que de flores cingia a fronte calva

Em brilhante festim,

Tomando inspirações á doce amada,

Que leda lh’enflorava a eburnea lyra;

De que me serve, a mim?

Canções que a turba nutre, inspira, exalta

Nas cordas magoadas me não pousão

Da lyra de marfim.

Correm meos dias, lacrimosos, tristes,

Como a noite que estende as negras azas

Por céo negro e sem fim.

É triste a minha Musa, como é triste

O sincero verter d’amargo pranto

D’orfã singela;

É triste como o som que a brisa espalha,

Que cicia nas folhas do arvoredo

Por noite bella.

É triste como o som que o sino ao longe

Vai perder na extensão d’ameno prado

Da tarde no cahir,

Quando nasce o silencio involto em trevas,

Quando os astros derramão sobre a terra

Merencorio luzir.

Ella então, sem destino, erra por valles,

Erra por altos montes, onde a enchada

Fundo e fundo cavou;

E pára; perto, jovial pastora

Cantando passa—e ella scisma ainda

Depois que esta passou.

Alem—da chóça humilde s’ergue o fumo

Que em risonha spiral se eleva ás nuvens

Da noite entre os vapores;

Muge solto o rebanho; e lento o passo,

Cantando em voz sonora, porém baixa,

Vêm andando os pastores.

Outras vezes tambem, no cemiterio,

Incerta volve o passo, soletrando

Recordações da vida;

Roça o negro cipreste, calca o musgo,

Que o tempo fez brotar por entre as fendas

Da pedra carcomida.

Então corre o meo pranto muito e muito

Sobre as humidas cordas da minha Harpa,

Que não resôão;

Não chóro os mortos, não; chóro os meos dias,

Tão sentidos, tão longos, tão amargos,

Que em vão se escôão.

Nesse pobre cemiterio

Quem já me dera um logar!

Esta vida mal vivida

Quem já m’a dera acabar!

Tenho inveja ao pegureiro,

Da pastora invejo a vida,

Invejo o somno dos mortos

Sob a lage carcomida.

Se qual pegão tormentoso,

O sopro da desventura

Vae bater potente á porta

De sumida sepultura;

Uma voz não lhe responde,

Não lhe responde um gemido,

Não lhe responde uma prece,

Um ai—do peito sentido.

Já não têm voz com que fallem,

Já não têm que padecer;

No passar da vida á morte

Foi seo extremo soffrer.

Que lh’importa a desventura?

Ella passou, qual gemido

Da brisa em meio da mata

De verde alecrim florido.

Quem me dera ser como elles!

Quem me dera descansar!

Nesse pobre cemiterio

Quem me dera o meo logar,

E co’os sons das Harpas d’anjos

Da minha Harpa os sons casar!


DESEJO.

E poi morir.

METASTASIO.

Ah! que eu não morra sem provar, ao menos

Siquer por um instante, nesta vida

Amor igual ao meo!

Dá, Senhor Deos, que eu sobre a terra encontre

Um anjo, uma mulher, uma obra tua,

Que sinta o meo sentir;

Uma alma que me entenda, irmã da minha,

Que escute o meo silencio, que me siga

Dos ares na amplidão!

Que em laço estreito unidas, juntas, presas,

Deixando a terra e o lodo, aos céos remontem

N’um extasis de amor!


SEOS OLHOS.

Oh! rouvre tes grande yeux dont la paupière tremble,

Tes yeux pleins de langueur;

Leur regard est si beau quand nous sommes ensemble!

Rouvre-les; ce regard manque à ma vie, il semble

Que tu fermes ton coeur.

TURQUETY.

Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,

De vivo luzir,

Estrellas incertas, que as agoas dormentes

Do mar vão ferir;

Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,

Tem meiga expressão,

Mais doce que a briza,—mais doce que o nauta

De noite cantando,—mais doce que a frauta

Quebrando a soidão,

Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,

De vivo luzir,

São meigos infantes, gentis, engraçados

Brincando a sorrir.

São meigos infantes, brincando, saltando

Em jogo infantil,

Inquietos, travêssos;—causando tormento,

Com beijos nos págão a dôr de um momento,

Com modo gentil.

Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,

Assim é que são;

A vezes luzindo, serenos, tranquillos,

As vezes vulcão!

As vezes, oh! sim, derramão tão fraco,

Tão frouxo brilhar,

Que a mim me parece que o ar lhes fallece,

E os olhos tão meigos, que o pranto humedece,

Me fazem chorar.

Assim lindo infante, que dorme tranquillo,

Desperta a chorar;

E mudo e sisudo, scismando mil coisas,

Não pensa—a pensar.

Nas almas tão puras da virgem, do infante,

As vezes do céo

Cae doce harmonia d’uma Harpa celeste,

Um vago desejo; e a mente se véste

De pranto co’um véo.

Quer sejão saudades, quer sejão desejos

Da patria melhor;

Eu amo seos olhos que chórão sem causa

Um pranto sem dôr.

Eu amo seos olhos tão negros, tão puros,

De vivo fulgor;

Seos olhos que exprimem tão doce harmonia,

Que fallão de amores com tanta poesia,

Com tanto pudor.

Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,

Assim é que são;

Eu amo essos olhos que fallão de amores

Com tanta paixão.


INNOCENCIA.

Sans nommer le nom qu’il faut bénir et taire.

S. BEUVE.

Ó meo anjo, vem correndo,

Vem tremendo

Lançar-te nos braços meos;

Vem depressa, que a lembrança

Da tardança

Me aviva os rigores teos.

Do teo rosto, qual marfim,

De carmim

Tinge um nada a côr mimosa;

É bello o pudor, mas chóro,

E deploro

Que assim sejas tão medrosa.

Por innocente tens medo

De tão cedo,

De tão cedo ter amor;

Mas sabe que a formosura

Pouco dura,

Pouco dura, como a flôr.

Corre a vida pressurosa,

Como a rosa,

Como a rosa na corrente.

Amanhã terás amor?

Como a flôr,

Como a flôr fenece a gente.

Hoje ainda es tu donzella

Pura e bella,

Cheia de meigo pudor;

Amanhã menos ardente

De repente

Talvez sintas meo amor.


PEDIDO.

Hontem no baile

Não me attendias!

Não me attendias,

Quando eu fallava.

De mim bem longe

Teo pensamento!

Teo pensamento,

Bem longe errava.

Eu vi teos olhos

Sobre outros olhos!

Sobre outros olhos,

Que eu odiava.

Tu lhe sorriste

Com tal sorriso!

Com tal sorriso,

Que apunhalava.

Tu lhe fallaste

Com voz tão doce!

Com voz tão doce,

Que me matava.

Oh! não lhe falles,

Não lhe sorrias,

Se então só qu’rias

Exp’rimentar-me.

Oh! não lhe falles,

Não lhe sorrias,

Não lhe sorrias,

Que era matar-me.


O DESENGANO.

Já vigilias passei namorado,

Doces horas d’insomnia passei,

Já meos olhos, d’amor fascinado,

Em vêr só meo amor empreguei.

Meo amor era puro, extremoso,

Era amor que meo peito sentia,

Erão lavas de um fogo teimoso,

Erão notas de meiga harmonia.

Harmonia era ouvir sua voz,

Era ver seo sorriso harmonia;

E os seos modos e gestos e ditos

Erão graças, perfume e magia.


E o que era o teo amor, que me embalava

Mais do que meigos sons de meiga lyra?

Um dia o decifrou—não mais que um dia—

Fingimento e mentira!

Tão bello o nosso amor!—foi só de um dia,

Como uma flôr!

Porque tão cedo o talisman quebraste

Do nosso amor?

Porque n’um só instante assim partiste

Essa annosa cadeia?

De bom grado a soffreste! essa lembrança

Inda hoje me recreia.

Quão insensato fui!—busquei firmeza,

Qual em ondas de areia movediça,

Na mulher,—não achei!

E da esp’rança, que eu via tão donosa

Sorrir dentro em minha alma, as longas azas

Doido e nescio cortei!

E tu vás caprixosa proseguindo

Essa esteira de amor, que julgas cheia

De flôres bem gentis;

Pódes ir, que os meos olhos te não vejão;

Longe, longe de mim, mas que em minha alma

Eu sinta qu’es feliz.

Pódes ir, que é desfeito o nosso laço,

Pódes ir, que o teo nome nos meos labios

Nunca mais soará!

Sim, vai;—mas este amor que me atormenta,

Que tão grato me foi, que me é tão duro,

Commigo morrerá!

Tão bello o nosso amor!—foi só de um dia

Como uma flôr!

Oh! que bem cedo o talisman quebraste

Do nosso amor!


MINHA VIDA E MEOS AMORES.

Mon Dieu, fais que je puisse aimer!

S. BEUVE.

Quando, no albor da vida, fascinado

Com tanta luz e brilho e pompa e gallas,

Vi o mundo sorrir-me esperançoso:

—Meo Deos, disse entre mim, oh! quanto é doce,

Quanto é bella esta vida assim vivida!—

Agora, logo, aqui, além, notando

Uma pedra, uma flôr, uma lindeza,

Um seixo da corrente, uma conxinha

A beiramar colhida!

Foi esta a infancia minha; a juventude

Fallou-me ao coração:—amemos, disse,

Porque amar é viver.

E esta era linda, como é linda a aurora

No fresco da manhã tingindo as nuvens

De rosea côr fagueira;

Aquella tinha um quê de anhelos meigos

Artifice sublime;

Feiticeiro sorrir dos labios della

Prendeo-me o coração;—julguei-o ao menos.

Aquella outra sorria tristemente,

Como um anjo no exilio, ou como o calix

De flôr pendida e murcha e já sem brilho.

Humilde flôr tão bella e tão cheirosa,

No seo deserto perfumando os ventos.

—Eu morrêra feliz, dizia eu d’alma,

Se podesse enxertar uma esperança

N’aquella alma tão pura e tão formosa,

E um alegre sorrir nos labios della.

A fugaz borboleta as flôres todas

Elege, e liba e uma e outra, e foge

Sempre em novos amores enlevada;

N’este meo paraiso fui como ella,

Inconstante vagando em mar de amores.

O amor sincero e fundo e firme e eterno,

Como o mar em bonança meigo e doce,

Do templo como a luz perenne e sancto,

Não, nunca o senti;—somente o viço

Tão forte dos meos annos, por amores

Tão faceis quanto indi’nos fui trocando.

Quanto fui louco, ó Deos!—Em vez do fructo

Sasonado e maduro, que eu podia

Como em jardim colher, mordi no fructo

Putrido e amargo e rebuçado em cinzas,

Como infante glotão, que se não senta

Á mesa de seos paes.

Dá, meo Deos, que eu possa amar,

Dá que eu sinta uma paixão,

Torna-me virgem minha alma,

E virgem meo coração.

Um dia, em qu’eu sentei-me junto della,

Sua voz murmurou nos meos ouvidos,

—Eu te amo!—Ó anjo, que não possa eu crer-te!

Ella, certo, não é mulher que vive

Nas fezes da deshonra, em cujos labios

Só mentira e traição eterno habitão.

Tem uma alma innocente, um rosto bello,

E amor nos olhos...—mas não posso crê-la.

Dá, meo Deos, que eu possa amar,

Dá que eu sinta uma paixão;

Torna-me virgem minha alma,

E virgem meo coração.

Outra vez que lá fui, que a vi, que a medo

Terna voz lhe escutei:—Sonhei comtigo!

Ineffavel prazer banhou meo peito,

Senti delicias; mas a sós commigo

Pensei—talvez!—e já não pude crê-la.

Ella tão meiga e tão cheia de encantos,

Ella tão nova, tão pura e tão bella...

Amar-me!—Eu que sou?

Meos olhos enxérgão, em quanto duvída

Minha alma sem crença, de força exhaurida,

Já farta da vida,

Que amor não doirou.

Máo grado meo, crer não posso,

Máo grado meo que assim é;

Queres ligar-te commigo

Sem no amor ter crença e fé?

Antes vai collar teo rosto,

Collar teo seio nevado

Contra o rosto mudo e frio,

Contra o seio d’um finado.

Ou supplíca a Deos commigo

Que me dê uma paixão;

Que me dê crença á minha alma,

E vida ao meo coração.


RECORDAÇÃO.

Nessun maggior dolore....

DANTE.

Quando em meo peito as afflicções rebentão

Eivadas de soffrer acerbo e duro;

Quando a desgraça o coração me arrocha

Em circulos de ferro, com tal força,

Que delle o sangue em borbotões golfeja;

Quando minha alma de soffrer cançada,

Bem que affeita a soffrer, siquer não pode

Clamar: Senhor piedade;—e que os meos olhos

Rebeldes, uma lagrima não vertem

Do mar d’angustias que meo peito opprime:

Volvo aos instantes de ventura, e penso

Que a sós comtigo, em pratica serena,

Melhor futuro me augurava, as doces

Palavras tuas, sofregos, attentos

Sorvendo meos ouvidos,—nos teos olhos

Lendo os meos olhos tanto amor, que a vida

Longa, bem longa, não bastára ainda

Porque de os ver me saciasse!... O pranto

Então dos olhos meos corre espontaneo,

Que não mais te verei.—Em tal pensando

De martyrios calar sinto em meo peito

Tão grande plenitude, que a minha alma

Sente amargo prazer de quanto soffre.


TRISTEZA.

Que leda noite!—Este ar embalsamado,

Este silencio harmonico da terra

Que sereno prazer n’alma cançada

Não expreme, não filtra, não diffunde?

A brisa lá susurra na folhagem

D’espessas matas, d’arvores robustas,

Que velão sempre e sós, que a Deos elevão

Mysterioso côro, que do Bardo

A crença quasi morta inda alimenta.

É esta a hora magica de encantos,

Hora d’inspirações dos céos descidas,

Que em delirio de amor aos céos remontão.

Aqui da vida as lastimas infindas,

Do myrrado egoismo a voz ruidosa

Não chegão; nem soluços, risos, festas,

—Hilaridade vã de turba incauta,

Nescia de ruim futuro; ou queixa amarga

Do decrepito velho, enfermo, exangue,

Nem do mancebo os ais doídos, preso

Ao leito do soffrer na flôr da vida.

Aqui reina o silencio, o religioso,

Morno socego, que povôa as ruinas,

E o mausoléo soberbo, carcomido,

E o templo magestoso, em cuja nave

Suspira ainda a nota maviosa,

O derradeiro arfar d’orgão solemne.

Em puro céo a lua resplandece,

Melancolica e pura, simelhando

Gentil viuva que pranteia o extincto,

O bello esposo amado, e vem de noite,

Vivendo pelo amor, máo grado a morte,

Ferventes orações chorar sobre elle.

Eu amo o céo assim, sem uma estrella,

Azul sem mancha,—a lua equilibrada

N’um céo de nuvens, e o frescor da tarde,

E o silencio da noite adormecida,

Que imagens vagas de prazer desenha.

Amo tudo o que dá no peito e n’alma

Tregoas ao recordar, tregoas ao pranto,

Á v’hemencia da dôr, á pertinacia

Tenaz e acerba de crueis lembranças;

Amo estar só com Deos, porque nos homens

Achar não pude amor, nem pude ao menos

Signal de compaixão achar entre elles.

Menti!—um inda achei; mas este em ocio

Feliz descança agora, em quanto aos ventos

E ao cru furor das verde-negras ondas

Da minha vida a barca aventureira

Insano confiei; em céo diverso

Luzem com luz diversa estrellas d’ambos.

Ai! triste, que houve tempo em que eu julgava

As duas uma só,—co’o mesmo brilho

Uma e outra nos céos meigas brilhavão!

Hoje scintilla a delle, em quanto a minha

Entre nuvens, sem luz, se perde agora.

Meo Deos, foi bom assim! No immenso pégo

Mais uma gota d’amargor que importa?

Que importa o fel na taça do absyntho,

Ou uma dôr de mais onde outras reinão?


O TROVADOR.

Elle cantava tudo o que merece de ser cantado; o que ha na terra de grande e de sancto—o amor e a virtude.—

N’uma terra antigamente

Existia um Trovador;

Na Lyra sua innocente

Só cantava o seo amor.

Nenhum saráo se acabava

Sem a Lyra de marfim,

Pois cantar tão alto e doce

Nunca alguem ouvira assim.

E quer donzella, quer dona,

Que sentira commoção

Pular-lhe n’alma, escutando

Do Trovador a canção;

De jasmins e de açucenas

A fronte sua adornou;

Mas só a rosa da amada

Na Lyra amante poisou.

E o Trovador conheceo

Que era trahido—por fim;

Poz-se a andar, e só se ouvia

Nos seus labios: ai de mim!

Enlutou de negro fumo

A rosa de seo amor,

Que meia occulta se via

Na gorra do Trovador;

Como virgem bella, morta

Da idade na linda flôr,

Que parece, o dó trajando,

Inda sorrir-se de amor.

No meio do seo caminho

Gentil donzella encontrou:

Canta—disse; e as cordas d’oiro

Vibrando, a triste cantou.

«Teo rosto engraçado e bello

«Tem a lindeza da flôr;

«Mas é risonho o teo rosto:

«Não tens de sentir amor!

«Mas tão bem por esse dia

«Que viverás, como a flôr,

«Mimosa, engraçada e bella,

«Não tens de sentir amor!

«Oh! não queiras, por Deos, homem que tenha

«Tingida a larga testa de pallor;

«Sente fundo a paixão,—e tu no mundo

«Não tens de sentir amor!

«Sorriso jovial te enfeita os labios,

«Nas faces de jasmim tens rosea côr;

«Fundo amor não se ri, não é corado...

«Não tens de sentir amor;

«Mas se queres amar, eu te aconselho,

«Que não guerreiro, escolhe um trovador,

«Que não tem um punhal, quando é trahido,

«Que vingue o seu amor.»

Do Trovador pelo rosto

Torva raiva se espalhou,

E a Lyra sua, tremendo,

Sem cordas d’oiro ficou.

Mais além no seo caminho

Donzel garboso encontrou:

Canta—disse; e argenteas cordas

Pulsando, o triste cantou.

«Aos homens da mulher enganão sempre

«O sorriso, o amor;

«É este breve, como é breve aquelle

«Sorriso enganador.

«Teo peito por amor, Donzel, suspira,

«Que é de jovens amar a formosura;

«Mas sabe que a mulher, que amor te jura,

«Dos lindos labios seos cospe a mentira!

«Já frenetico amor cantei na lyra,

«Delicias já sorvi n’um seo sorriso,

«Já venturas fruí do paraiso,

«Em terna voz de amor, que era mentira!

«O amor é como a aragem que murmura

«Da tarde no cahir—pela folhagem;

«Não volta o mesmo amor á formosura,

«Bem como nunca volta a mesma aragem.

«Não queiras amar, não; pois que a ’sperança

«Se arroja além do amor por largo espaço.

«Tens, brillando ao sol, a forte lança,

«Tens longa espada scintillante d’aço.

«Tens a fina armadura de Milão,

«Tens luzente e brillante capacete,

«Tens adága e punhal e bracelete

«E, qual lúcido espelho, o morrião.

«Tens fogoso corsel todo arreiado,

«Que mais veloz que os ventos sorve a terra;

«Tens duellos, tens justas, tens torneios,

«Que os fracos corações de medo cerra;

«Tens pagens, tens varletes e escudeiros

«E a marcha afoita, apercebida em guerra

«Do luzido esquadrão de mil guerreiros.

«Oh! não queiras amar!—Como entre a neve

«O gigante volcão borbulha e ferve

«E sulfurea chamma pelos ares lança,

«Que após o seo cahir torna-se fria;

«Assim tu acharás petrificada,

«Bem como a lava ardente do volcão,

«A lava que teo peito consumia

«No peito da mulher—ou cinza ou nada—

«Não frio mas gelado o coração!»

E o Trovador despeitoso

De prata as cordas quebrou,

E nas de chumbo seo fado

A lastimar começou.

«Que triste que é n’este mundo

«O fado d’um Trovador!

«Que triste que é!—bem que tenha

«Sua Lyra e seu amor.

«Quando em festejos descanta,

«Rasgado o peito com dôr,

«Mimoso tem de cantar

«Na sua Lyra—o amor!

«Como a um servo vil ordena

«Um orgulhoso Senhor,

«Canta, diz-lhe; quero ouvir-te:

«Quero descantes de amor!

«Diz-lhe o guerreiro, que apenas

«Lidou em justas de amor:

«—Minha dama quer ouvir-te,

«Canta, truão trovador!—

«Manda a mulher que nos deixa

«De beijos murchada flôr:

«—Canta, truão, quero ouvir-te,

«Um terno canto de amor!

«Mas se a mulher, que elle adora

«Atraiçôa o seo amor;

«Embalde busca a seo lado

«Um punhal—o Trovador!

«Se escuta palavras della,

«Que a outros jurão amor;

«Embalde busca a seo lado

«Um punhal—o Trovador!

«Se vê luzir de alguns labios

«Um sorriso mofador;

«Embalde busca a seo lado

«Um punhal—o Trovador!

«Que triste que é n’este mundo

«O fado d’um Trovador!

«Pezar lhe dá sua Lyra,

«Dá-lhe pezar seo amor!»

E o Trovador n’este ponto

A corda extrema arrancou;

E n’um marco do caminho

A Lyra sua quebrou:

Ninguem mais a voz sentida

Do Trovador escutou!


AMOR! DELIRIO—ENGANO.

Y el llanto que en su cólera derrama,

La hoguera apaga del antiguo amor!

ZORRILLA.

Amor! delirio—engano.... Sobre a terra

Amor tão bem fruí; a vida inteira

Concentrei n’um só ponto—ama-la, e sempre.

Amei!—dedicação, ternura, extremos

Scismou meo coração, scismou minha alma,

—Minha alma que na taça da ventura

Vida breve d’amor sorveo gostosa.

Eu e ella, ambos nós, na terra ingrata

Oásis, paraiso, eden ou templo

Habitámos uma hora; e logo o tempo

Com a foice roaz quebrou-lhe o encanto,

Doce encanto que o amor nos fabricára.

E eu sempre a via!... quer nas nuvens d’oiro,

Quando ia o sol nas vagas sepultar-se,

Ou quer na branca nuvem que velava

O circulo da lua,—quer no manto

D’alvacenta neblina que baixava

Sobre as folhas do bosque, muda e grave,

Da tarde no cahir; nos céos, na terra,

A ella, a ella só, vião meos olhos.

Seo nome, sua voz—ouvia eu sempre;

Ouvia-os no gemer da parda rola,

No trepido correr da veia argentea,

No respirar da brisa, no susurro

Do arvoredo frondoso, na harmonia

Dos astros ineffavel;—o seo nome!

Nos fugitivos sons de alguma frauta,

Que da noite o silencio realçavão,

Os ares e a amplidão divinisando,

Ouvião meos ouvidos; e de ouvil-o

Arfava de prazer meo peito ardente.

Ah! quantas vezes, quantas! junto d’ella

Não senti sua mão tremer na minha;

Não lhe escutei um languido suspiro,

Que vinha lá do peito á flor dos labios

Deslisar-se e morrer?! Dos seos cabellos

A magica fragrancia respirando,

Escutando-lhe a voz doce e pausada,

Mil venturas colhi dos labios d’ella,

Que instantes de prazer me futuravão.

Cada sorriso seo era uma esp’rança,

E cada esp’rança enlouquecer de amores.

E eu amei tanto!—Oh! não! não hão de os homens

Saber que amor, á ingrata, havia eu dado;

Que affectos melindrosos, que em meo peito

Tinha eu guardado para ornar-lhe a fronte!

Oh! não,—morra commigo o meo segredo;

Rebelde o coração murmure embora.

Que de vezes, pensando a sós commigo,

Não disse eu entre mim:—Anjo formoso,

Da minha vida que farei, se acaso

Faltar-me o teo amor um só instante;

—Eu que só vivo por te amar, que apenas

O que sinto por ti a custo exprimo?

No mundo que farei, como estrangeiro

Pelas vagas crueis á praia inhóspita

Exanime arrojado?—Eu, que isto disse,

Existo e penso—e não morri,—não morro

Do que outr’ora senti, do que ora sinto,

De pensar nella, de a revêr em sonhos,

Do que fui, do que sou e ser podia!

Existo; e ella de mim jaz esquecida!

Esquecida talvez de amor tamanho,

Derramando talvez n’outros ouvidos

Frases doces de amor, que dos seos labios

Tantas vezes ouvi,—que tantas vezes

Em extasis divino aos céos me alçárão,

—Que dando á terra ingrata o que era terra

Minha alma além das nuvens transportárão.

Existo! como outr’ora, no meo peito

Férvido o coração pular sentindo,

Todo o fogo da vida derramando

Em queixas mulherís, em molles versos.

E ella!... ella talvez nos braços d’outrem

Com sua vida alimenta uma outra vida,

Com o seo coração o de outro amante,

Que mais feliz do que eu, inferno! a goza.

Ella, que eu respeitei, que eu venerava

Como a reliquia sancta!—a quem meus olhos,

Receiando offendel-a, tantas vezes

De castos e de humildes se abaixárão!

Ella, perante quem sentia eu presa

A voz nos labios e a paixão no peito!

Ella, idolo meo, a quem o orgulho,

A força d’homem, o sentir, vontade

Propria e minha dediquei,—sugeita

Á voz de alguem que não sou eu,—desperta,

Talvez no instante em que de mim se lembra,

Por um osculo frio, por caricias

Devidas dum esposo!...

Oh! não poder-te,

Abutre roedor, cruel ciume,

Tua funda raiz e a imagem d’ella

No peito em sangue espedaçar raivoso!

Mas tu, cruel, que es meo rival, n’uma hora,

Em que ella só julgar-se, has de escutar-lhe

Um quebrado suspiro do imo peito,

Que d’éras ja passadas se recorda.

Has de escutal-o, e ver-lhe a côr do rosto

Enrubecer-se ao deparar comtigo!

Preza serás tambem d’átros cuidados,

Terás ciume, e soffrerás qual soffro:

Nem menor que o meo mal quero a vingança.


DELIRIO.

Quando dormimos nosso espirito véla.

ESCHYLO.

A noite quando durmo, esclarecendo

As trevas do meu somno,

Uma etherea visão vem assentar-se

Junto ao meu leito afflicto!

Anjo ou mulher? não sei.—Ah! se não fosse

Um qual véo transparente,

Como que a alma pura alli se pinta

Ao travez do semblante,

Eu a crêra mulher...—E tentas, louco,

Recordar o passado,

Transformando o prazer, que desfructaste,

Em lentas agonias?!

Visão, fatal visão, porque derramas

Sobre o meo rosto pallido

A luz de um longo olhar, que amor exprime

E pede compaixão?

Porque teo coração exhala uns fundos,

Magoados suspiros.

Que eu não escuto; mas que vejo e sinto

Nos teos labios morrer?

Porque esse gesto e morbida postura

De macerado espirito,

Que vive entre afflicções, que já nem sabe

Desfructar um prazer?

Tu fallas! tu que dizes? este accento,

Esta voz melindrosa,

N’outros tempos ouvi, porém mais leda;

Era um hymno d’amor.

A voz, que escuto, é magoada e triste,

—Harmonia celeste,

Que á noite vem nas azas do silencio

Humedecer as faces

Do que enxerga outra vida além das nuvens.

Esta voz não é sua;

É accorde talvez d’harpa celeste,

Cahido sobre a terra!

Balbucias uns sons, que eu mal percebo,

Doridos, compassados,

Fracos, mais fracos;—lagrimas despontão

Nos teos olhos brilhantes...

Choras! tu choras!... Para mim teos braços

Por força irresistivel

Estendem-se, procurão-me; procuro-te

Em delirio afanoso.

Fatídico poder entre nós ambos

Ergueo alta barreira;

Elle te enlaça e prende ... mal resistes...

Cédes emfim ... acórdo!

Acórdo do meo sonho tormentoso,

E chóro o meo sonhar!

E fecho os olhos, e de novo intento

O sonho reatar.

Embalde! porque a vida me tem preso;

E eu sou escravo seo!

Acordado ou dormindo, é triste a vida

Desque o amor se perdeo.

Ha comtudo prazer em nos lembrarmos

Da passada ventura,

Como o que educa flôres vicejantes

Em triste sepultura.


EPICEDIO.

Passa la bella donna e par che dorma.

TASSO.

Seo rosto pallido e bello

Já não tem vida nem côr!

Sobre elle a morte descança,

Involta em baço pallor.

Cerrárão-se olhos tão puros,

Que tinhão tanto fulgor;

Coração que tanto amava

Já hoje não sente amor;

Que o anjo bello da morte

A par desse anjo baixou!

Trocárão brandas palavras,

Que Deos sómente escutou.

Ventura, prazer, ledice

D’uma outra vida cantou;

E o anjo puro da terra

Prazer da terra engeitou.

Depois co’as azas candentes

O formoso anjo do céo

Roçou-lhe a face mimosa,

Cubrio-lhe o rosto co’um véo.

Depois o corpo engraçado

Deixou a terra sem vida,

De tenue pallor coberto,

—Verniz de estatua esquecida.

E bella assim, como um lirio

Murcho da sésta ao ardor,

Teve a innocencia dos anjos,

Tendo o viver d’uma flôr.

Foi breve!—mas a desgraça

A testa não lhe enrugou,

E aos pés do Deos que a creára

Alma inda virgem levou.

Sáe da larva a borboleta,

Sáe da rocha o diamante,

De um cadaver mudo e frio

Sáe uma alma radiante.

Não choremos essa morte,

Não choremos casos taes;

Quando a terra perde um justo,

Conta um anjo o céo de mais.


SOFFRIMENTO.

Meo Deos, Senhor meo Deos, o que ha no mundo

Que não seja soffrer?

O homem nasce, e vive um só instante,

E soffre até morrer!

A flôr ao menos, nesse breve espaço

Do seo doce viver,

Encanta os ares com celeste aroma,

Querida até morrer.

É breve o romper d’alva, mas ao menos

Traz comsigo prazer;

E o homem nasce e vive um só instante:

E soffre até morrer!

Meo peito de gemer já está cançado,

Meos olhos de chorar;

E eu soffro ainda, e já não posso alivio

Sequer no pranto achar!

Já farto de viver, em meia vida,

Quebrado pela dôr,

Meos annos hei passado, uns após outros,

Sem paz e sem amor.

O amor que eu tanto amava do imo peito,

Que nunca pude achar,

Que em balde procurei, na flôr, na planta,

No prado, e terra, e mar!

E agora o que sou eu?—Pallido espectro,

Que da campa fugiu;

Flôr ceifada em botão; imagem triste

De um ente que existio...

Não escutes, meo Deos, esta blasfemia;

Perdão, Senhor, perdão!

Minha alma sinto ainda,—sinto, escuto

Bater-me o coração.

Quando roja meo corpo sobre a terra,

Quando me afflige a dôr,

Minha alma aos céos se eleva, como o incenso,

Como o aroma da flôr.

E eu bemdigo o teo nome eterno e sancto,

Bemdigo a minha dôr,

Que vai além da terra aos céos infindos

Prender-me ao creador.

Bemdigo o nome teo, que uma outra vida

Me fez descortinar,

Uma outra vida, onde não ha só trevas,

E nem ha só penar.


VISÕES.


I.
PRODIGIO.

N’aquelle instante em que vacilla a mente

Do somno ao despertar, quando pejada

Vem doutros mundos de visões ethereas:

Quando sobre a manhã surge brilhante

A luz da madrugada,—eu vi!... nem sonhos

Era a minha visão, real não era;

Mas tinha d’ambos o talvez.—Quem sabe?

Foi caprixo fallaz da phantasia,

Ou foi certo aventar d’eras venturas?

A ira do Senhor baixou tremenda

Sobre uma vasta capital!—em pedra

Tomou-se a gente impura. Muitos homens

As portas ferreas, largas, vi sentados.

Melhor do que um pintor ou statuario

A morte, que de subito os colhera

No ardor, no afan da vida, conservou-lhes

A acção—partida em meio, com tal força,

Que a mente seo máo grado a completava.

Um tinha os labios entre-abertos; outro

Parecia sorrir; mais longe aquelle

Derramava um segredo, baixo, á medo,

Nos ouvidos do amigo; austero o guarda

Com rosto carregado e barba hirsuta

Nas mãos callosas sopesava a lança.

Dos mercadores na comprida rua

Passavão muitos compradores;—este

Contava montes d’oiro;—á luz aquelle

Expunha a seda do Indostão, de Tyro

A purpura brilhante, a damasquina

Custosa tela entretecida d’oiro.

Cortez sorrindo, o mercador gabava

As cores vivas, o tecido, o corpo

Do estofo que vendia. Nos serralhos

Era o Eunucho imperfeito; das Mesquitas

Bradava á prece o Muezzin...

—N’um largo,

Fofo e vasto divan sentado, um velho

Os versos lia do Alcorão;—só elle

D’entre tanto punir ficára illeso.


II.
A CRUZ.

Era um templo d’arabica structura,

Magestoso, elegante;—alem das nuvens

Se entranhava nos céos subtil a agulha;

Sobre o zimborio retumbante e vasto

Ondas e ondas de vapor crescião.

Dentro corrião tres compridas naves

Sobre dois renques de columnas, onde

Baixos relevos da sagrada historia

Da base ao capitel se emmaranhavão.

Ardia a luz na alampada sagrada;

No sagrado instrumento o som dormia.

Junto á cruz—da fachada egregia pompa—

Muitos homens eu vi de torvo aspecto;

Muitos outros, servís, com mão armada

Profundos golpes entalhavão nella.

Um daquelles no emtanto assim fallava:

«Quando esta humilde cruz rojar por terra;

«Levando a crença de Jesus comsigo

«Nós outros, da verdade Sacerdotes,

«Nós Doutores do mundo, nós Luzeiros

«Que desvendamos a impostura, o erro,

«A mentira sagaz, a crença louca,

«Entrada facil da razão no templo

«Teremos todos; e de então no throno,

«Do nescio vulgo imparciaes sob’ranos,

«Sanctos juises da verdade sancta,

«Pregaremos o justo, a paz, concordia

«E os seus deveres que dimanão faceis

«Do amor do lucro e do interesse; todos

«—Vasallos da razão, nossos vassallos—

«Um eden terreal farão do mundo.»

No emtanto aos crebros golpes do machado

A cruz pendia obliqua sobre a terra.

Creando novas forças com tal vista,

Os operarios mais frequentes golpes

Repetem, vibrão, continuão;—sôa

Por toda a parte o echo,—o som, mais longe,

Retumba, morre—e novamente echôa.

Nisto a cruz—geme—estrala; um grito sóbe

Unisono e geral!...

Como sois grande,

Senhor, Senhor meo Deos!—Eu vi, morrendo

Os obreiros cahir; e a cruz erguer-se,

Como aos raios do sol a flor mimosa

Que a raiva do tufão vergára insana.


III.
PASSAMENTO.

Era um quarto espaçoso;—alli se vião

Rojar no pavimento, ha pouco, as sedas,

Ricos tapetes multicor bordados,

E franjas complicadas d’um céo d’oiro

Pendentes,—vastos rases narradores

De lenda pia ou de briosos feitos.

Mas de tanto luzir, de tanto ornato

Ora por mãos aváras depredado

O vasto d’área revelava aos olhos,

Tendo n’um canto escuro um leito apenas.

Do leito alguem rasgára o cortinado.

E da curva amação polida e bella

Aqui, alli, pendia a seda em fios,

Bem como tranças de mulher formosa

Por sobre o seio nú.—Alli no leito

Jazia um moribundo; em torno os olhos

Cheios de pasmo e de terror volvia,

Bebendo pelos sofregos ouvidos

Mal sentido rumor d’outro aposento.

Confusas vozes, altercar ruidoso,

E o tinir de metal ouvia apenas!

Então por vezes tres no leito afflicto

Erguer-se maquinou de raiva insano!

Por tres vezes cahio, gemendo, sobre

O leito que da queda se sentia.

Da morte o cru torpor nos membros frios

Pouco e pouco s’espalha; mas teimoso

Da vida o amor debate-se nas ancias

Desse passo fatal...

—Eis nisto á porta.

Um Padre assoma,—d’entre as mãos erguidas

Da hostia sancta resplendor luzia;

E palavras de paz, de amor, divinas,

Que nos labios do justo Deos entorna,

Abundantes soltava. Longos annos

De piedoso soffrer o corpo enfermo

Alquebrárão por fim; as cãs nevadas

Raras tremião sobre a testa, como

Tremia na garganta a voz cançada.

Dizia o bom do velho:—«Irmão, nas ancias,

«No extremo agonisar da morte amiga

«Ergue os olhos ao céo;—do céo te venha

«Esse divino amor, que só lá mora,

«Que filtra por nossa alma, que nos deixa

«Mais celeste prazer, mais doce arroubo,

«Do que a terra sóe dar...

«Infames, trédos,

«Bufarinheiros de palavras, corvos

«De negro, feio agoiro, que esvoação

«Com grito grasnador por sobre o campo,

«Onde a peleja de reinar começa;

«Dizes-me tu—a mim! a mim que ao fóro

«Caminho inda hoje entre alas de clientes,

«Que so me visto de velludo e d’oiro,

«Em quanto vives de burel coberto,

«Co’os labios sobre o pó mordendo a terra!

«Dizes-me tu—a mim!...»

Ergueo-se,... e o corpo

Cahio de fraco sobre o leito; o velho

No emtanto humilde orava, que alma sancta

Do mal cabido insulto não se offende.

Jehovah, que entre myriadas

Vives de estrellas formosas,

Que das flôres melindrosas

Da terra—os anjos formaste;

Jehovah, que pela agoa

Lustrar quizeste o Messias,

Que ao beato, ao sancto Elias

Nas chammas purificaste;

Jehovah, que a mente apuras

No fogo do soffrimento,

Que divino, alto portento

Déste fazer á Moisés,

Quando a negra rocha dura

Tocando co’a tenue vara,

Rebentou a lympha clara,

Lambendo-lhe mansa os pés;

Jehovah, que eterno existes,

Cujo ser em si se encerra,

Que formaste o céo e a terra,

Que te chamas—o que é,[2]

—Faz, Senhor d’altos prodigios,

Com que a mente empedernida

Não se aparte desta vida

Sem sentir a sancta fé.

E tu, Christo, que soffreste

Martyrios por nosso amor,

Tu que foste o Salvador,

Salva-o, Senhor, por quem es.

Dá que em palavras piedosas

Se derrame contristado,

Como o rochedo tocado

Pela vara de Moisés.

E o confuso rumor do outro aposento

Crescia mais e mais.—Do moribundo

Os cúpidos herdeiros dividião

Por si a vasta herança; os torvos olhos

Ião de rosto a rosto, fusilando

Ameaças de morte.

No entanto o velho exanime e sem forças

Curtia amargos transes, que avarento,

E tendo a vida inutil presa a terra

Com toda a força d’alma,—agora em ancias

Sentia o halito vital fugir-lhe,

E a terra abandonal-o.

Estuava-lhe a dôr no peito afflicto!...

Só não chorava, que do pranto a fonte

Jazia extincta; mas pensava triste:

—Não tinha alguem que lhe cerrasse os olhos

Nem quem chorando lhe abrandasse o amargo

Do extremo agonisar.

E a mente, já medrosa, em feio quadro

Lhe pintava os seos feitos;—a vingança,

Que tão grande prazer lhe tinha sido,

Ora em martyrios se tomava; a chusma

Dos homicidios seus crescia torva,

E no leito o cercava.

Crença infantil! dizia; loucos, cegos

Prejuizos do vulgo;—e assim dizendo

Os vãos phantasmas repellir buscava.

Mas a crença infantil, os prejuizos

Do nescio vulgo, rispidos tornavão,

Como insecto importuno.

Debalde por não ver cerrava os olhos,

Sobre os olhos debalde as mãos crusava,

Que as sombras nos ouvidos lhe fallavão,

E mais distinctas se pintavão n’alma

—Tão bem molesta, qual se pinta o corpo

Do espelho no polido.

E do seo passamento o caso infando

Narrava uma após outra, sobre o peito

Mostrando o golpe funebre e cruento;

Sorvendo o fel da taça amarga o enfermo

Parecia sorrir!... era qual louco

Que soffre e um riso finge.

E das visões indo a fugir se arroja

De sobre o leito delirante; as sombras

Vôão sobre elle, e em circulo se ordenão.

O moribundo a esta, a aquella, a todas

Volvo o pavido rosto, no mover-se

Progressivo, incessante.

E preso ao duro embate da vertigem.

As mestas sombras ao redor com elle

Fugir sentia; o pavimento, a casa

Rapido rodava; a terra e tudo,

Como aos soluços d’um vulcão tremendo,

As forças lhe tolhião.

E o orgulhoso que feliz vivera,

Movendo a seo bom grado mil escravos,

Querendo a terra dominar co’um gesto;

Ora mesquinho, solitario e louco,

Face a face lutando com seos crimes,

Morria impenitente.


IV.
——

Era o vulto de um homem morto que afastando o sudario se hia erguer do tumulo para revelar alguns dos temerosos mysterios, que encerra a apparente quietação dos sepulchros.

O PRESBYTERO.

O negrume da noite avulta; e cresce

Mais feia a escuridão

Á luz da sacra pyra que derrama

Frouxo e tibio clarão.

Calou-se o canto, a prece,—é mudo o templo;

Apenas fraco sôa

Da torre o bronze, que a nocturna brisa

De rumores povôa.

Mas eis que de um sepulchro a pedra fria

S’ergue e sobre outras cáe.

Não se escuta rumor!—da campa livre

Medroso espectro sáe.

O rosto ossificado em torno volve,

Volve a suja caveira;

Do liso craneo os longos dedos varrem

A funebre poeira.

Mas inda inteiro o coração se via

Do peito nas cavernas,

Inda sangrento lagrimas chorava

De negro sangue eternas.

E caminhando, qual se move a sombra,

Ao orgão e assentou!

Já não dormem os sons, não dormem echos...

—O triste assim cantou:

«Onde estás, meo amor, meos encantos

Por quem só me pezava morrer,

Doce encanto que a vida me prendes,

Que inda em morto me fazes soffrer?

«Doce amor, minha vida no mundo,

Desse mundo em que parte serás;

Em que scismas, que pensas, que fazes,

Onde estás, meo amor, onde estás?

«Ah! debalde na campa gelada

Fria morte me poude deitar!

Foi debalde,—que eu sinto, que eu ardo;

Foi debalde, que eu amo a penar.

«Ah! si eu triste no mundo podesse

Como outr’ora viver, respirar....

Não soubera dizer-te os ardores

Que o sepulchro não poude apagar.

«Onde estás?—Já da morte o bafejo

Por teo rosto divino roçou;

Já na campa descanças finada,

Que o teo corpo sem vida tragou?

«Mas a morte não poude impiedosa

Crua foice vibrar contra ti!

Ah! tu vives, que eu sinto, que eu soffro

Crús ardores quaes sempre soffri.

«E eu não posso o teo nome á noitinha

Entre as folhas saudoso cantar,

Nem seguir-te nas azas da brisa,

Nem teo somno de sonhos doirar.

«Nem lembrar-te os queridos instantes

Que a teo lado arroubado passei,

Sem cuidados de incerto futuro,

Só cuidoso da vida que amei.

«Não te lembras da noite homicida

Em que um ferro meo peito varou,

Quando a facil conversa de amores

Teo marido cioso quebrou?!

«Desde então hei penado sósinho,

Verte sangue meo peito—de então;

Poude a morte acabar-me a existencia,

Mas delir-me não poude a paixão!

«Nosso adultero affecto no mundo

Não se acaba;—assim quiz o Senhor!

Não se acaba...—qu’importa?—hei gozado

Teos encantos gentis, teo amor.

«Por te amar outras fragoas soffrera,

Outros transes e dôr e penar;

Oh! poder que eu podesse outra vida

E outro inferno soffrer por te amar!»

Mas da aurora ja raiava

Macio e brando clarão;

Macia e branda a canção

Do negro espectro soava.

E medroso se collava

Ao orgão seo negro véo,

Que imiga não se ajuntava

Ao seo vulto a luz do céo.

Pouco a pouco se perdia

O negro espectro; a canção

Pouco a pouco enfraquecia:

Do dia ao tenue clarão,

Era o cantar um soído

Fraco, incerto e duvidoso;

Era o vulto pavoroso

D’uma sombra vão tremido.


V.
A MORTE.

Dans sa douleur elle se trouvait malheureuse d’être immortelle.

FÉNÉLON.

Da aurora vinha nascendo

O grato e bello clarão;

Eu sonhava! já mais brandos

Erão meos sonhos então.

Condensou-se o ar n’um ponto,

Cresceo o subtil vapor;

Vi formada uma belleza,

Cheia de encantos, de amor.

Mas na candura do rosto

Não se pintava o carmim;

Tinha um quê de cera juncto

Á nitidez do marfim.

—Quem es tu, visão celeste,

Bello Archanjo do Senhor?

Respondeo-me:—Sou a Morte,

Cru phantasma de terror!

—Ah! lhe tornei: Es a morte,

Tão formosa e tão cruel!

—Correndo o mundo sósinha

No meo pallido corsel,[3]

Assim dizia—«Tu julgas

Que não tenho coração,

Que executo os meos deveres

Sem pesar, sem afflicção?

—Que inda em flôr da vida arranco

Ao joven, sem compaixão,

Á donzella pudibunda

Ou ao longévo ancião?

—Oh! não, que eu soffro martyrios

Do que faço aos mais soffrer,

Soffro dôr de que outros morrem,

De que eu não posso morrer;

—Mas em parte a dôr me cura

Um pensamento, que é meo,—

Lembro aos humanos que a terra

É só passagem pr’a o céo.

—Faço ao triste erguer os olhos

Para a celeste mansão;

Em labios que nunca orárão

Derramo pia oração.

—É meo poder quem apura

Os vicios que a mente encerra,

Ao fogo da minha dôr;

Sou quem prendo aos céos a terra,

Sou quem prendo aos céos a terra,

Ao ser do seo Creador.

—Mas qu’importa? Sem descanço

É-me forçoso marchar,

Abater impías frontes,

Regias frontes decepar.

—Passar ao travez dos homens

Como um vento abrasador;

Como entre o feno maduro

A foice do segador.

—E prostrar uma após outra

Geração e geração,

Como peste que só reina

Em meio da solidão.»—

Desponta o sol radioso

Entre nuvens de carmim;

Cessa o canto pesaroso,

Como corda aurea de Lyra;

Que se parte, que suspira

Dando um gemido sem fim.


O VATE.

NO ALBUM DE UM POETA.

Moi ... j’aimerai ta victoire;

Pour mon coeur, ami de toute gloire,

Les triomphes d’autrui ne sont pas un affront.

Poète, j’eus toujours un chant pour les poètes,

Et jamais le laurier qui pare d’autres têtes

Ne jeta d’ombre sur mon front.

V. HUGO.

Vate! vate! que es tu?—Nos seos extremos

Fadou-te Deos um coração de amores,

Fadou-te uma alma accesa borbulhando

Hardidos pensamentos, como a lava

Que o gigante Vesuvio arroja ás nuvens.

Vate! vate! que es tu?—Foste no principio

Sacerdote e propheta;

Erão nos céos teos cantos uma prece,

Na terra um vaticinio.

E elle cantava então:—Jehovah me disse,

Magestoso e terrivel.

«Vês tu Jerusalém como orgulhosa

«Campêa entre as nações, como no Libano

«Um cedro a cuja sombra a hyssope cresce?

«Breve a minha ira transformada em raios

«Sobre ella cahirá;

«Um fero vencedor dentro em seos muros

«Tributaria a fará;

«E quando escravos seos filhos, sobre pedra

«Pedra não ficará.»

E os reprobos de sacco se vestião;

Em pó, em cinza involtos;

E collando co’a terra os torpes labios,

E açoitando co’as mãos o peito imbelle,

Senhor! Senhor!—clamavão.

E o vate emtanto o pallido semblante

Meditabundo sobre as mãos firmava,

Supplicando ao Senhor do interno d’alma.

Forão sanctos então.—Homero o mundo

Creou segunda vez,—o inferno o Dante,—

Milton o paraiso,—forão grandes!

E hoje!... em nosso exilio erramos tristes,

Mimosa esp’rança ao infeliz legando,

Maldizendo a soberba, o crime, os vicios;

E o infeliz se consola, e o grande treme.

Damos ao infante aqui do pão que temos,

E o manto além ao misero rachitico;

Somos hoje Christãos.


Á MORTE PREMATURA DA ILLma Sra D.....

(No album de seo Irmão Dr. J. D. Lisboa Serra.)

Il semble que le ciel aux coeurs les plus magnanimes

Mesure plus de maux.

LAMARTINE.

Perfeita formosura em tenra idade

Qual flôr, que anticipada foi colhida,

Murchada está da mão da sorte dura.

CAMÕES, Soneto.

Lá, bem longe d’aqui, em tarde amena,

Gozando a viração das frescas auras,

Que do Brazil os bosques brandamente

Fazião balançar,—e que espalhavão

No ether encantado odor, pureza—

Do que a rosa mais bella,—meiga e casta,

Como as virgens do sol,

Que de vezes não foi ella pendente

Dos braços fraternaes em meigo abraço;

Como mimosa flôr presa, enlaçada

A tenro arbusto que a vergontea debil

Lhe ampara docemente!...

E o Irmão que só n’ella se revia,

O Irmão que a adorava, qual se adora

Um mimo do Senhor;

Que a tinha por pharol, conforto e guia,

Os seos dias contava por encantos;

E as virtudes co’os dias pleiteavão.

E ella morreo no viço de seos annos!...

E a lagem fria e muda dos sepulchros

Se fechou sobre o ente esmorecido

Ao despontar de vida

Tão rica de esperanças e tão cheia

De formosura e graças!...

Campa! campa! que de terror incutes!

Quanto esse teo silencio me horrorisa!

E quanto se assemelha a tua calma

A do cruel malvado que impassivel

Contempla a sua victima torcer-se

Em convulsões horriveis, desesp’radas;

Crúas vascas da morte!...

Quem tão má te creou?

Tu que tragas o ente que esmorece

Ao despontar de vida

Tão rica de esperanças e tão cheia

De formosura e graças?!

O pharol se apagou! a luz sumio-se!

Como o fugaz clarão do meteóro,

Extinguio-se a esperança;—e o mal-fadado

Sobre a terra deserta em vão procura

Traços d’essa que amou, que tanto o amára;

Da joven companheira de seos brincos,

Pezares e alegrias.

Elle a procura!... o viajor pasmado

Nos campos de Pompéia, alonga a vista

Pela amplidão do praino,

Destroços e ruinas encontrando,

Onde esperava movimento e vida.

Não poder eu a troco de meu sangue

Poupar-te dessas lagrimas metade!

Oh! poder que eu podesse!—e almo sorriso,

Que tanto me compraz ver-te nos labios,

Inda uma vez brilhasse!

E essa existencia,

Que tão cara me é, t’a visse eu leda,

E feliz como a vida dos Archanjos!

Infeliz é quem chora: ella finou-se,

Porque os anjos á terra não pertencem;

Mas lá dos immortaes sobre os teos dias

A suspirada irmã vela incessante.

Vinde, candidas rosas, açucenas,

Vinde, roxas saudades;

Orvalhai, tristes lagrimas, as c’roas,

Que hão de a campa adornar por mim depostas

Em holocausto á victima da morte.

Innocencia, pudor, belleza e graça

Com ella n’essa campa adormecêrão.

Anjo no coração, anjo no rosto,

Devera o amor chorar sobre o teo seio,

Que não grinaldas funebres tecer-te;

Devera voz d’esposo acalentar-te

O somno da innocencia,—não grosseira

Canção de trovador não conhecido.

COIMBRA, Junho de 1841.


A MENDIGA.

Donnez:—

Et quand vous paraîtrez devant le juge austère,

Vous direz: J’ai connu la pitié sur la terre,

Je puis la demander aux cieux!

TURQUETY.

I.

Eu sonhei durante a noite...

Que triste foi meo sonhar!

Era uma noite medonha,

Sem estrellas, sem luar.

E ao travez do manto escuro

Das trevas, meos olhos vião

Triste mendiga formosa,

Qu’infortunios consumião.

Era uma pobre mendiga,

Porém candida donzella;

Pudibunda, affavel, doce,

Amorosa, e casta, e bella.

Vestia rotos andrajos,

Que o seo corpo mal cubrião;

Por vergonha os olhos d’ella

Sobre ella se não volvião.

Pelas costas descobertas

Cortador o frio entrava;

Tinha fome e sede,—e o pranto

Nos seus olhos borbulhava.

E qual vemos dos céos descendo rapido

Um fugaz meteóro, vi descendo

Um anjo do Senhor;—parou sobre ella,

E mudo a contemplava.—Uma tristeza

Sympathica, indizivel pouco e pouco

Do anjo nas feições se foi pintando:

Qual tristeza de irmão que a irmã mais nova

Conhece enferma e chóra.—Ella no peito

Menor sentiu a dôr, e humilde orava.

II.

De um vasto edificio nas frias escadas

Eu vi-a sentada;—era um templo, dizião

Secreto concilio de socios piedosos,

Que o bem tinha juntos, que bem só fazião.

Defronte um palacio soberbo se erguia,

E d’elle partia confuso rumor:

—A dança girava, e a orchestra sonora

Cantava alegria, prazeres e amor.

E quando ao palacio um conviva chegava,

Rugindo-se abria o ruidoso portão;

Effluvios de incenso nos ares corrião

Da rua esteirada com vivo clarão.

E a triste mendiga alli ’stava ao relento,

Com fome, com frio, com sede e com dôr;

E eu vi o seo anjo, mais triste no aspecto,

Mais baço, mais turvo da gloria o fulgor.

E á porta do vasto sombrio edificio

Um vulto chegou.

—Senhor, uma esmola!—bradou-lhe a mendiga:

E o vulto parou.

E rude no accento, no aspecto severo,

Lhe disse:—O teo nome?—

Tornou-lhe a mendiga:—Senhor, uma esmola,

Que eu morro de fome.

—Não dizes teo nome?—lhe torna o soberbo.

—Sou orphã, sosinha;

Meo nome qu’importa, se eu soffro, se eu gemo,

Se eu chóro mesquinha!

Em vís meretrises não cabe esse orgulho,

Tornou-lhe o Senhor,

Que á noite, nas trevas, contractão no crime,

Vendendo o pudor.

E a porta do templo—erguido á piedade

Com força batia;

Co’o peso do insulto accrescido a crueza

A triste gemia.

III.

Ouvi depois um rodar que a todo o instante

Mais distincto se ouvia; e logo um forte,

Fascinador clarão por toda a rua

Se derramou soberbo.—Infindos pagens

Ricas librés trajando, mil archotes

Nos ares revolvião;—fortes, rapidos,

Fumegantes corseis, sorvendo a terra,

Tiravão rica sege melindrosa.

Sobre a terra saltou airosa e bella

A dona, em frente do festivo paço;

E a mendiga bradou:—Senhora minha,

Dai uma esmola, dai!—Á voz dorida

Volveo-se o rosto d’anjo, porém d’anjo

Não era o coração;—foi-lhe importuno,

Mais que importuno ... da mesquinha o grito!

E da mendiga o protector celeste

Parecia fallar em favor d’ella;

E a rica dona o escutava, como

Se ouvisse a interna voz que dentro mora.

E eu dizia tambem:—Ó bella Dona,

Dai-lhe uma esmola, dai;—de que vos serve

Um óbolo mesquinho, que não póde

Siquer um diche sem valor comprar-vos?

Ah! bella como sois, que vos importão

Custosas flôres, com que ornais a fronte?

Para a salvar do vortice do crime,

O preço d’ellas, de uma só, da coisa,

Que sem valor julgardes, é bastante.

Sabeis?—Além da vida, além da morte,

Quando deixardes o oiropel na campa,

Quando subirdes do Senhor ao throno,

Sem andrajos siquer, tambem mendiga,

Alli tereis as lagrimas do pobre,

A benção do affligido, a prece ardente

Do que soffrendo vos bemdice,—ó Dona...

........................................

Fechou-se a porta festival sobre ella!

E a donzella se ergueo, córou de pejo,

Lançando os olhos pela rua escusa,

E segura no andar, e firma, á porta

Do palacio bateo—entrou—sumio-se.

E o anjo, como afflicto sob um peso,

Um gemido soltou; era uma nota

Melancolica e triste,—era um suspiro

Mavioso de virgem,—um soído

Subtil, mimoso, como d’Harpa Eolia,

Que a brisa da manhã roçou medrosa.

IV.

Dos muros ao travez meos olhos virão

Soberba roda de convivas,—todos

Velludos, sedas, e custosas galas

Trajavão senhoris.—Reinava o jogo

Aváro e grave, leda e viva a dança

Em vortices girava, a orchestra doce

Cantava occulta; condensados, bastos,

Em redor do banquete estavão muitos.

A mendiga alli estava,—não trajando

Sujos farrapos, mas delgadas telas.

Chovião brindes e canções e vivas

Á Deosa airosa do banquete; todos

Um volver dos seos olhos, um sorriso,

Uma voz de ternura, um mimo, um gesto

Cubiçavão rivaes;—e alli com ella,

Como um raio do sol por entre as nuvens

Lá na quadra hibernal penetra a custo

Quasi sem vida, sem calor, sem força,

Menos brilhante vi seo anjo bello.

Nos curtos labios da feliz mendiga

Passava rapido um sorriso ás vezes;

Outras chorava, no volver do rosto,

Na taça do prazer sorvendo o pranto.

Encontradas paixões sentia o anjo:

Parecia chorar co’o seo sorriso,

Parecia sorrir co’o choro della.


A ESCRAVA.

O bien qu’aucun bien ne peut rendre,

Patrie, doux nom que l’exil fait comprendre!

MARINO FALIERO.

Oh doze paiz de Congo,

Doces terras d’além mar!

Oh! dias de sol formoso!

Oh! noites d’almo luar!

Desertos de branca areia

De vasta, immensa extensão,

Onde livre corre a mente,

Livre bate o coração!

Onde a leda caravana

Rasga o caminho passando,

Onde bem longe se escuta

As vozes que vão cantando!

Onde longe inda se avista

O turbante musulmano,

O Yatagan recurvado,

Preso a cinta do Africano!

Onde o sol na areia ardente

Se espelha, como mar;

Oh! doces terras de Congo,

Doces terras d’além mar!


Quando a noite sobre a terra

Desenrolava o seo véo,

Quando siquer uma estrella

Não se pintava no céo;

Quando só se ouvia o sopro

De mansa brisa fagueira,

Eu o aguardava—sentada

Debaixo da bananeira.

Um rochedo ao pé se erguia,

D’elle á base uma corrente

Despenhada sobre pedras,

Murmurava docemente.

E elle ás vezes me dizia:

—Minha Alsgá, não tenhas medo;

Vem commigo, vem sentar-te

Sobre o cimo do rochedo.

E eu respondia animosa:

—Irei comtigo, onde fores!—

E tremendo e palpitando

Me cingia aos meos amores.

Elle depois me tornava

Sobre o rochedo—sorrindo:

—As agoas d’esta corrente

Não vês como vão fugindo?

Tão depressa corre a vida,

Minha Alsgá; depois morrer

Só nos resta!...—Pois a vida

Seja instantes de prazer.

Os olhos em tomo volves

Espantados—Ah! tão bem

Arfa o teo peito anciado!...

Acaso temes alguem?

Não receis de ser vista,

Tudo agora jaz dormente;

Minha voz mesmo se perde

No fragor d’esta corrente.

Minha Alsgá, porque estremeces

Porque me foges assim?

Não te partas, não me fujas,

Que a vida me foge a mim!

Outro beijo acaso temes,

Expressão de amor ardente?

Quem o ouvio?—o som perdeo-se

No fragor d’esta corrente.

Assim praticando amigos

A aurora nos vinha achar!

Oh! doces terras de Congo,

Doces terras d’além mar!


Do rispido Senhor a voz irada,

Rabida sôa,

Sem o pranto enchugar a triste escrava

Pavida vôa.

Mas era em mora por scismar na terra,

Onde nascera,

Onde vivera tão ditosa, e onde

Morrer devera!

Soffreo tormentos, porque tinha um peito,

Qu’inda sentia;

Misera escrava! no soffrer cruento,

Congo! dizia.


AO DR. JOÃO DUARTE LISBOA SERRA.

23 de Agosto.

Mais um pungir de acerrima saudade,

Mais um canto de lagrimas ardentes,

Oh! minha Harpa,—oh! minha Harpa desditosa.

Escuta, ó meu amigo: da minha alma

Foi uma lyra outr’ora o instrumento;

Cantava n’ella amor, prazer, venturas,

Até que um dia a morte inexoravel

Triste pranto de irmão veio arrancar-te!

As lagrimas dos olhos me cahirão,

E a minha lyra emmudeceo de magoa!

Então aventei eu que a vida inteira

Do bardo, era um perenne sacerdocio

De lagrimas e dôr;—tomei uma Harpa:

Na corda da afflicção gemeo minha alma,

Foi meo primeiro canto um epicedio;

Minha alma baptizou-se em pranto amargo,

Na fragoa do soffrer purificou-se!

Lancei depois meos olhos sobre o mundo,

Cantor do soffrimento e da amargura;

E vi que a dôr aos homens circumdava,

Como em roda da terra o mar se estreita;

Que apenas desfructamos,—miserandos!

Desbotado prazer entre mil dôres,

—Uma rosa entre espinhos aguçados,

Um ramo entre mil vagas combatido.

Voltou-se então p’ra Deos o meo esp’rito,

E a minha voz queixosa perguntou-lhe:

—Senhor, porque do nada me tiraste,

Ou porque a tua voz omnipotente

Não fez seccar da minha vida a seve,

Quando eu era principio e feto apenas?

Outra voz respondeo-me dentro d’alma:

—Ardão teos dias como o feno,—ou durem

Como o fogo de tocha resinosa,

—Como rosa em jardim sejão brilhantes,

Ou baços como o cardo montesinho,

Não deixes de cantar, ó triste bardo.—

E as cordas da minha harpa—da primeira

Á extrema—da maior á mais pequena,

Nas azas do tufão—entre perfumes,

Um cantico de amores exaltárão

Ao throno do Senhor;—e eu disse ás turbas:

—Elle nos faz gemer porque nos ama;

Vem o perdão nas lagrimas contritas,

Nas azas do soffrer desce a clemencia;

Sobre quem chora mais elle mais vela!

Seo amor divinal é como a lampada,

Na abobada d’um templo pendurada,

Mais luz filtrando em mais opácas trevas.

Eu o conheço:—o cantico do bardo

É balsamo ao que morre,—é lenitivo,

Mas doloroso, mas funereo e triste

A quem lhe carpe infausto a morte crúa.

Mas quando a alma do justo, espedaçando

O envolucre de lodo, aos céos remonta,

Como estrada de luz correndo os astros,

Seguindo o som dos canticos dos anjos

Que na presença do Senhor se elevão;

Choro ... tão bem Jesus chorou a Lazaro!

Mas na excelsa visão que se me antolha

Bebo consolações,—minha alma anceia

A hora em que tão bem ha de asilar-se

No seio immenso do perdão do Eterno.

Chora amigo; porém quando sentires

O pranto nos teos olhos condensar-se,

Que já não póde mais banhar-te as faces,

Ergue os olhos ao céo, onde a luz móra,

Onde o orvalho se cria, onde parece

Que a timida esperança nasce e habita.

E se eu—feliz!—poder inda algum dia

Ferir por teo respeito na minha harpa

A leda corda onde o prazer palpita,

A corda do prazer que ainda inteira,

Que virgem de emoção inda conservo,

Suspenderei minha harpa d’algum tronco

Em off’renda á fortuna;—alli sosinha,

Tangida pelo sopro só do vento,

Ha de mysterios conversar co’a noite,

De acorde extreme perfumando as brisas;

Qual Harpa de Sião presa aos salgueiros

Que não ha de cantar a desventura,

Tendo cantos gentis vibrado n’ella.


O DESTERRO DE UM POBRE VELHO.

Et dulces moriens reminiscitur Argos.

VIRG.

O! schwer ist’s, in der Fremde sterben unbeweint!

SCHILLER.

A aurora vem despontando,

Não tarda o sol a raiar;

Cantão aves,—a natura

Já começa a respirar.

Bem mansa na branca areia

Onda queixosa murmura,

Bem mansa aragem fagueira

Entre a folhagem susurra.

É hora cheia de encantos,

É hora cheia de amor;

A relva brilha enfeitada,

Mais fresca se mostra a flôr.

Esbelta joga a fragata,

Como um corsel a nitrir;

Suspensa a amarra tem presa,

Suspensa, que vai partir.

Em demanda da fragata,

Leve barco vem vogando;

Nelle um velho cujas faces

Mudo choro está cortando.

Quem era o velho tão nobre,

Que chorava,

Por assim deixar seos lares,

Que deixava?

«Ancião, porque te ausentas?

Corres tu traz de ventura?

Louco! a morte já vem perto,

Tens aberta a sepultura.

«Louco velho, já não sentes

Bater frouxo o coração?

Oh! que o sente!—É lei d’exilio

A que o leva em tal sazão!

«Não ver mais a cara patria,

Não ver mais o que deixava,

Não ver nem filhos, nem filhas,

Nem o casal, que habitava!...

«Oh! que é má pena de morte,

A pena de proscripção;

Traz dôres que martyrisão,

Negra dôr de coração!

«Pobre velho!—longe, longe

Vás sustento mendigar;

Tens de soffrer novas dôres,

Novos males que penar.

«Não t’ha de valer a idade,

Nem a dôr tamanha e nobre;

Tens de tragar vis affrontas,

—Insultos que soffre o pobre!

«Nada acharás no degredo,

Que falle dos filhos teos;

Ninguem sente a dôr do pobre...

Só te fica a mão de Deos.

«O sol, que além vês raiando

Entre nuvens de carmim,

N’outros climas, n’outras terras

Não verás raiar assim.

«Não verás a rocha erguida,

Onde t’ias assentar,

Nem o som bem conhecido

Do teo sino has de escutar.

«Ha de cahir sobre as ondas

O pranto do teo soffrer,

E n’esse abysmo salgado,

Salgado, se ha de perder.»

Já chegou junto á fragata,

Já na escada se apoiou,

Já com voz intercortada

Ultimo adeos soluçou.

Canta o nauta, e sólta as velas

Ao vento que o vai guiar;

E a fragata mui veleira

Vai fugindo sobre o mar.

E o velho sempre em silencio

A calva testa dobrou,

E pranto mais abundante

O rosto senil cortou.

Inda se vê branca a vela

Do navio, que partio;

Mais além—inda se avista!

Mais além—já se sumio!


O ORGULHOSO.

Eu o vi!—tremendo era no gesto,

Terrivel seo olhar;

E o senho carregado pretendia

O globo dominar.

Tremendo era na voz, quando no peito

Fervia-lhe o rancor!

E aos demais homens, como um cedro á relva,

Se cria sup’rior.

E o pobre agricultor, junto a seus filhos,

Dentro do humilde lar,

Quizera, antes que os d’elle, ver de um Tigre

Os olhos fusilar:

Que a um filho seo talvez quizera o nobre

Para um Executor;

Ou para o leito infesto alguma filha

Do triste agricultor.

Quem ousaria resistir-lhe?—Apenas

Algum pobre ancião

Já sobre o seo sepulchro, desejando

A morte e a salvação.


Alguns dias apenas decorrêrão;

E eis que elle se sumio!

E a lagem dos sepulchros fria e muda

Sobre elle já cahio.

E o barbaro tropel dos que o servião

Exulta com seo fim!

E a turba applaude; e ninguem chora a morte

De homem tão ruim.


O COMETA.

AO SR. FRANCISCO SUTERO DOS REIS.

Non est potestas, quae comparetur ei
qui factus est ut nullum timeret.

JOB.

Eis nos céos rutilando igneo cometa!

A immensa cabelleira o espaço alastra,

E o nucleo, como um sol tingido em sangue,

Alvacento luzir vérte agoireiro

Sobre a pavida terra.

Poderosos do mundo, grandes, povo,

Dos labios removei a taça ingente,

Que em vossas festas gyra; eis que rutila

O sanguineo cometa em céos infindos!...

Pobres mortaes,—sois vermes!

O Senhor o formou terrivel, grande;

Como indocil corsel que morde o freio,

Retinha-o só a mão do Omnipotente.

Alfim lhe disse:—Vai, Senhor dos Mundos,

Senhor do espaço infindo.

E qual louco temido, ardendo em furia,

Que ao vento solta a coma desgrenhada,

E vai, nescio de si, livre de ferros,

De encontro ás duras rochas,—tal progrede

O cometa incansavel.

Se na marcha veloz encontra um mundo,

O mundo em mil pedaços se converte;

Mil centelhas de luz brilhão no espaço

A esmo, como um tronco pelas vagas

Infrenes combatido.

Se junto d’outro mundo acaso passa,

Comsigo o arrastra e leva transformado;

A cauda portentosa o enlaça e prende,

E a astro vai com elle, como argueiro

Em turbilhão levado.

Como Leviathan perturba os mares,

Elle perturba o espaço;—como a lava,

Elle marcha incessante e sempre;—eterno,

Marcou-lhe largo gyro a lei que o rege,

—As vezes o infinito.

Elle carece então da eternidade!

E aos homens diz—e magestoso e grande

Que jamais o verão; e passa, e longe

Se entranha em céos sem fim, como se perde

Um barco no horisonte!


O OIRO.

Oiro,—poder, encanto ou maravilha

Da nossa idade,—regedor da terra,

Que dás honra e valor, virtude e força,

Que tens offertas, oblações e altares,—

Embora teo louvor cante na lyra

Vendido Menestrel que pôde insano

Do grande á porta renegar seo genio!

Outro, sim, que não eu.—Bardo sem nome,

Com pouco vivo;—sobre a terra, á noite,

Meo corpo lanço, descançando a fronte

N’um tronco ou pedra ou mal nascido arbusto.

Sou mais que um rei co’o meo docel de nuvens

Que tem gravados scintillantes mundos!

Com a vista no céo percorro os astros,

Vagueia a minha mente além das nuvens,

Vagueia o meo pensar—alto, arrojado

Além de quanto o olhar nos céos alcança.

Então do meo Senhor me calão n’alma

D’amor ardente enlevos indiziveis;

Se tento ás gentes redizer seo nome,

Queimadoras palavras se atropellão

Nos meos labios;—prophetica harmonia

Meo peito anceia, e em borbotões se expande.

Grandes, Senhor, são tuas obras, grandes

Tens prodigios, teo poder immenso:

O pae ao filho o diz, um sec’lo a outro,

A terra ao céo, o tempo á eternidade!

Do mundo as illusões, vaidade, engano,

Da vida a mesquinhez—prazer ou pranto—

Tudo esse nome arrastra, prostra e some;

Como aos raios do sol desfeito o gelo,

Que em ondas corre no pendor do monte,

Precipite e ruidoso,—arbustos, troncos

Comsigo no passar rompidos leva.


A UM MENINO.

OFFERECIDA Á EXma Sra D. M. L. L. V.

I.

Gentil, engraçado infante

Nos teos jogos inconstante,

Que tens tão bello semblante,

Que vives sempre a brincar,

—Dos teos brinquedos te esqueces

Á noitinha,—e te entristeces

Como a bonina,—e adormeces,

Adormeces a sonhar!

II.

Infante, serão as côres

De varias, viçosas flôres,

Ou são da aurora os fulgores

Que vem teos sonhos doirar?

Foi de algum ente celeste,

Que de luzeiros se veste,

Ou da brisa é que aprendeste,

Que aprendeste a suspirar?

III.

Tens no rosto afogueado

Um qual retrato acabado

De um sentir aventurado,

Que te ri no coração;

É talvez a voz mimosa

De uma fada caprichosa,

Que te promette amorosa

Algum brilhante condão!

IV.

Ou por ventura es contente,

Porque no sonho, que mente,

Phantasiaste innocente

Algum dos brinquedos teos!...

Senhor, tens bondade infinda!

Fizeste a aurora bem linda,

Creaste na vida ainda

Um’outra aurora dos céos.

V.

O som da corrente pura,

A folhagem que susurra,

Um accento de ternura,

De ternura divinal;

A indizivel harmonia

Dos astros no fim do dia,

A voz que Memnon dizia,

Que dizia matinal;

VI.

Nada d’isto tem o encanto,

Nada d’isto póde tanto

Como o risonho quebranto,

Divino—do seo dormir;

Que nada ha como a Donzella

Pensativa, doce e bella,

E a comparar-se com ella...

Só de um infante o sorrir.

VII.

Mas de repente chorando

Despertas do somno brando

Assustado e soluçando...

Foi uma revelação!

Esta vida acerba e dura

Por um dia de ventura

Dá-nos annos de amargura

E fragoas do coração.

VIII.

Só aquelle que da morte

Soffreo o terrivel córte,

Não tem dôres que supporte,

Nem sonhos o acordarão:

Gentil infante, engraçado,

Que vives tão sem cuidado,

Serás homem—mal peccado!

Findará teo sonho então.


O PIRATA.

(EPISODIO.)

Nas azas breves do tempo

Um anno e outro passou,

E Lia sempre formosa

Novos amores tomou.

Novo amante mão de esposo,

De mimos cheia, lh’off’rece;

E bella, apesar de ingrata,

Do que a amou Lia se esquece.

Do que a amou que longe pára,

Do que a amou, que pensa n’ella,

Pensando encontrar firmeza

Em Lia, que era tão bella!

N’esse palacio deserto

Já luzes se vêm luzir,

Que vem nas sedas, nos vidros

Cambiantes reflectir.

Os echos alegres sôão,

Sôa ruidosa harmonia,

Sôão vozes de ternura,

Sons de festa e d’alegria.

E qual ave que em silencio

A face do mar desflora,

Á noite bella fragata

Chega ao porto, amaina, ancóra.

Cáe da popa e fere as ondas

Inquieta, esguia falua,

Que resvala sobre as agoas

Na esteira que traça a lua.

Já na vacua praia toca;

Um vulto em terra saltou,

Que na longa escadaria

Preságo e torvo enfiou.

Malfadado! por que aportas

A este sitio fatal!

Queres o brilho augmentar

Das bodas do teo rival?

Não, que a vingança lhe range

Nos duros dentes cerrados,

Não, que a cabeça referve

Em mãos projectos damnados!

Não, que os seos olhos bem dizem

O que diz seo coração;

Terriveis, como um espelho,

Que retratasse um vulcão.

Não, que os labios descorados

Vociferão seo rival;

Não, que a mão no peito aperta

Seo pontagudo punhal.

Não, por Deos, que taes affrontas

Não as sóe deixar impunes,

Quem tem ao lado um punhal,

Quem tem no peito ciumes!

Subio!—e vio com seus olhos

Ella a rir-se que dançava,

Folgando, infame! nos braços

Porque assim o assassinava.

E elle avançou mais avante,

E vio ... o leito fatal!

E vio ... e cheio de raiva

Gravou no meio o punhal.

E avançou ... e á janella

Sosinha a vio suspirar,

—Saudosa e bella encarando

A immensidade do mar.

Como se vira um espectro,

De repente ella fugio!

Tal foge a corça nos bosques

Se leve rumor sentio.

Que foi?—Quem sabe dizel-o?

Forão vislumbres de dôr;

Coração, que tem remorsos,

Sente continuo terror!

Elle á janella chegou-se,

Horrivel nada encontrou...

Sómente, ao longe, nas sombras,

Sua fragata avistou.

Então pensou que no mundo

Nada mais de seo contava!

Nada mais que essa fragata!

Nada mais de quanto amava!

Nada mais!...—que lh’importava

De no mundo só se achar?

Inda muito lhe ficava—

Agoa e céos e vento e mar.

Assim pensava, mas n’isto

Descortina o seo rival,

Não visto;—a mão na cintura

Cingio raivosa o punhal!

Mas pensou...—não, seja d’ella,

E tenha zelos como eu!—

Larga o punhal, e um retrato

Na dextra mão estendeo.

Porém sentio que inda tinha

Mais que branda compaixão;

Miserando! inda guardava

Seo amor no coração.

Infeliz! não foi culpada;

Foi culpa do fado meo!

Nada mais de pensar n’ella;

Finjamos que ella morreo.

Por entre a turba que alegre

No baile—a sorrir-se estava,

Mudo, triste, e pensativo

Surdamente se afastava.

De manhã—quando o saráu

Apagava o seo rumor,

Chegava Lia a janella,

Mais formosa de pallor.

Chegou-se;—e além—no horisonte

Uma vela inda avistou;

E co’a mão tremula e fria

O telescopio buscou!

Um pavilhão vio na pôpa,

Que tinha um globo pintado;

E no mastro da mesena

Um negro vulto encostado.

Erão chorosos seos olhos,

Os olhos seos enxugou;

E o telescopio de novo

Para essa vela apontou.

Quem em o vulto tão triste

Parece reconheceo;

Mas a vela no horisonte

Para sempre se perdeo.


A VILLA MALDICTA, CIDADE DE DEOS.

AO SEO QUERIDO E AFFECTUOSO AMIGO

A. T. DE CARVALHO LEAL.

Peccata peccavit Jerusalem, et propter
ea instabilis facta est; omnes qui glorificabant
eam, spreverunt illam, quia viderunt ignominiam
ejus; ipsa autem gemens conversa est retrorsum.

LAMENT.

I.

O immenso aposento a luz alaga

Com soberbo clarão,

E as mezas do banquete se devolvem

Pelo vasto salão;

E os instrumentos palpitantes sôão

Frenetica harmonia;

E o côro dos convivas se levanta

Pleno d’ebria alegria!

Alli se ostenta o nobre vicioso

Rebuçado em orgulho,—o rico infame,

Cheio de mesquinhez,—o envilecido,

Immundo pobre no seo manto involto

De miserias, torpeza e villanias;

—A prostituta que alardêa os vicios,

Menospresando a castidade e a honra,

Sem pejo, sem pudor, d’infamia eivada.

E o livre dithyrambo, a atroz blasphemia,

Os cantos immoraes, canções impudicas,

Gritos e orgia involta em negro manto

De fumo e vinho,—os ares aturdião;

E muito além, no meio d’alta noite,

Nos echos, ruas, praças rebatião.

II.

Depois, ainda suja a bocca, as faces,

D’immundo vomitar,

Com vacillante pé calcando a terra

Os viras levantar.

A larga porta despedia em turmas

A nocturna cohorte;

Ouviu-se depois por toda a parte

Gritos, horror de morte!

E ninguem vinha ao retinir de ferro,

Que assassinava;

Porque era d’um valente o punhal nobre,

Que as leis dictava.

Outra vez a cahir se emmaranhavão

Da porta pelo umbral:

Tinhão tinctas de sangue a face, as vestes,

Em sangue tincto o punhal.

E vinha o sol manifestar horrores

Da noite derradeira;

E a morte vária revelava a furia

Da turba carniceira.

E o sacrilego padre só vendia

O tum’lo por dinheiro;

Vendia a terra aos mortos insepultos,

O vil interesseiro!

Ou lá ficavão, como pasto aos corvos,

Por sobre a terra núa;

E ninguem de tal sorte se pesava,

Que ser podia a sua!

«E Deos maldisse a terra criminosa,

«Maldisse aos homens della,

«Maldisse a cobardia dos escravos

«D’essa terra tão bella.»

III.

E a mortifera peste luctuosa

Do inferno rebentou,

E nas azas dos ventos pavorosa

Sobre todos passou.

E o mancebo que via esperançoso

Longa vida futura,

Doido sentio quebrar-lhe as esperanças

Pedra de sepultura.

E a donzella tão linda que vivia

Confiada no amor,

Entre os braços da mãi provou bem cedo

Da morte o dissabor.

E o tremulo ancião qu’inda esperava

Morrer assim

Como um fructo maduro destacado

D’arvore emfim,

Sentio a morte esvoaçar-lhe em torno,

Como um bulcão,

Que affronta o nauta quando avista a terra

Da salvação.

Era deserta a villa, a casa, o templo—

Ar de morte soprou!

Mas a casa dos vis nos seos delirios

Ebria continuou!

«E Deos maldisse a terra criminosa,

«Maldisse os homens d’ella,

«Maldisse a cobardia dos escravos

«Dessa terra tão bella.»

IV.

Eis o aço da guerra lampeja,

Do fogoso corsel o nitrido,

Eis o bronzeo canhão que rouqueja,

Eis da morte represso o gemido.

Já se aprestão guerreiros luzentes,

Já se enfreião corseis bellicosos,

Já mancebos se partem contentes,

Augurando a victoria briosos.

Brilha a raiva nos olhos;—nas faces

O interno rancor pódes ler;

Eia, avante!—clamarão os bravos,

Eia, avante!—ou vencer ou morrer!

Eia, avante!—briosos corramos

Na peleja o imigo bater;

Crua morte na espada levamos!

Eia, avante!—ou vencer ou morrer!

Eis o aço da guerra lampeja,

Do corsel bellicoso o nitrido,

Eis o bronzeo canhão que rouqueja

E da morte represso o gemido.

V.

E a selva vomitou homens sem conto

A voz do omnipotente,

Como a neve hibernal que o sol derrete,

Engrossando a corrente.

E em redor d’essa villa se estreitarão,

Cingidos d’armadura;

E a villa se doeo no intimo seio

De tão acre amargura.

Mas os fortes bradarão:—Eia, avante!—

Promptos a batalhar;

Mas o braço e valor ante os imigos

Se vierão quebrar.

E um anno inteiro sem cessar lutarão,

Cheios de bizarria,

Como dois crocodilos que brigassem

D’um rio a primazia!

E renderão-se emfim, mas de famintos,

De sequiosos;

Valentes lidadores forão elles,

Se não briosos.

VI.

E o exercito contrario entra rugindo

Na villa, que as suas portas lhe franqueia:

Rasteiro corre o incendio e surdamente

O custoso edificio ataca e mina.

Eis que a chamma roaz amostra as fendas

Das portas que se abrasão; descortina

O torvo olhar do vencedor—apenas—

Lá dentro o incendio só, fóra só trevas!

Urros de frenesi, de dôr, de raiva

Escutão dos que, ás subitas colhidos,

Contra os muros em brasa se arremeção;

Dos que, perdido o tino, intentão loucos

Achar a salvação, e a morte encontrão.

Lá dentro confusão, silencio fóra!

São carrascos aqui, victimas dentro.

Geme o travejamento, estrala a pedra,

Cresce horror sobre horror, desaba o tecto,

E o fumo ennegrecido se ennovella

Co’o vertice sublime os céos roçando.

Como o vulcão que a lava arroja ás nuvens,

Como ignea columna que da terra

Hiante rebentasse,—tal se eleva,

Tal sobe aos ares, tal se empina e cresce

A labareda portentosa; e baixa,

E desce á terra, e o edificio enrola,

E o sorve inteiro, qual se forão vagas

Que a dura rocha do alicerce abalão,

Que a enlação, como a prêa,—e ao fundo pégo

Levão, deixando o mar branco d’espuma.

No horror da noite, sibilando os ventos,

Lingoas pyramidaes do atroz incendio,

Fumosas pelas ruas estalando,

Tingem da côr do inferno a côr da noite,

Tingem da côr do sangue a côr do inferno!

—O ar são gritos, fumo o céo, e a terra fogo.

VII.

E aquelles que inda sãos e immunes erão,

Os que a peste engeitou,

Que fome e sede e privações soffrerão...

A espada decepou.

E a donzella tremeo, da mãi nos braços

Não salva ainda,

Que incitava os prazeres do soldado

A face linda.

E o fido amante, que de a ver tão bella

Sentio prazer,

Sente martyrios por que a vê formosa

No seo morrer.

Coisa alguma escapou!—Já tudo é cinzas,

Tudo destruição:

A columna, o palacio, a casa, o templo,

O templo da oração!

Meninos, homens e mulheres,—todos

Já rojão sobre o pó;

Mas o Deos, o Deos bom já está vingado,

Por ella já sente dó.

E a villa d’outr’ora mais ruidosa,

Lá resurgio cidade;

Por que o Deos da justiça, o das armadas,

O Deos é de bondade.


QUADRAS DA MINHA VIDA.
RECORDAÇÃO E DESEJO.

AO MEO BOM AMIGO O DR. A. REGO.

Sol chi non lascia eredità d’affetti

Poca gioia ha dell’urna.

FOSCOLO.

I.

Houve tempo em que os meos olhos

Gostavão do sol brilhante,

E do negro véo da noite,

E da aurora scintillante.

Gostavão da branca nuvem

Em céo de azul espraiada,

Do terno gemer da fonte

Sobre pedras despenhada.

Gostavão das vivas côres

De bella flôr vicejante,

E da voz immensa e forte

Do verde bosque ondeante.

Inteira a natureza me sorria!

A luz brilhante, o susurrar da brisa,

O verde bosque, o rosicler d’aurora,

Estrellas, céos, e mar, e sol, e terra,

D’esperança e d’amor minha alma ardente,

De luz e de calor meu peito enchião.

Inteira a natureza parecia

Meos mais fundos, mais intimos desejos

Perscrutar e cumprir;—almo sorriso

Parecia enfeitar co’os seos encantos,

Com todo o seo amor compor, doiral-o,

Porque os meos olhos deslumbrados vissem-no,

Porque minha alma de o sentir folgasse.

Oh! quadra tão feliz!—Se ouvia a brisa

Nas folhas susurrando, o som das agoas,

Dos bosques o rugir;—se os desejava,

—O bosque, a brisa, a folha, o trepidante

Das agoas murmurar prestes ouvia.

Se o sol doirava os céos, se a lua casta,

Se as timidas estrellas scintillavão,

Se a flôr desabrochava involta em musgo,

—Era a flôr que eu amava,—erão estrellas

Meos amores sómente, o sol brilhante,

A lua merencoria—os meos amores!

Oh! quadra tão feliz!—doce harmonia,

Acordo extreme de vontade e força,

Que atava minha vida á natureza!

Ella era para mim bem como a esposa

Recem-casada, pudica sorrindo;

Alma de noiva—coração de virgem,

Que a minha vida inteira abrilhantava!

Quando um desejo me brotava n’alma.

Ella o desejo meo satisfazia;

E o quer que ella fizesse ou me dissesse,

Esse era o meo desejo, essa a voz minha,

Esse era o meo sentir do fundo d’alma,

Expresso pela voz que eu mais amava.

II.

Agora a flôr que m’importa,

Ou a brisa perfumada,

Ou o som d’amiga fonte

Sobre pedras despenhada?

Que me importa a voz confusa

Do bosque verde-frondoso.

Que m’importa a branca lua,

Que m’importa o sol formoso?

Que m’importa a nova aurora,

Quando se pinta no céo;

Que m’importa a feia noite,

Quando desdobra o seo véo?

Estas scenas, que amei, já me não causão

Nem dôr e nem prazer!—Indifferente,

Minha alma um só desejo não concebe,

Nem vontade já tem!... Oh! Deos! quem pôde

Do meo imaginar as puras azas

Cercear, desprender-lhe as niveas plumas,

Roja-las sobre o pó, calca-las tristes?

Perante a creação tão vasta e bella

Minha alma é como a flôr que pende murcha;

E qual profundo abysmo:—embalde estrellas

Brilhão no azul dos céos, embalde a noite

Estende sobre a terra o negro manto:

Não póde a luz chegar ao fundo abysmo,

Nem póde a noite ennegrecer-lhe a face;

Não póde a luz á flôr prestar mais brilho,

Nem viço e nem frescor prestar-lhe a noite!

III.

Houve tempo em que os meos olhos

Se extasiavão de ver

Agil donzella formosa

Por entre flôres correr.

Gostavão de um gesto brando,

Que revelasse pudor;

Gostavão de uns olhos negros,

Que rutilassem de amor.

E gostavão meus ouvidos

De uma voz—toda harmonia,—

Quer pesares exprimisse,

Quer exprimisse alegria.

Era um prazer, que eu tinha, ver a virgem

Indolente ou fugaz—alegre ou triste,

Da vida a estreita senda desflorando

Com pé ligeiro e animo tranquillo;

Improvida e brilhante parecendo

Seos dias desfolhar, uns após outros,

Como folhas de rosa;—e no futuro—

Ver luzir-lhe sómente a luz d’aurora.

Era deleite e dôr vê-la tão leda

Do mundo as afflicções, angustias, prantos

Affrontar co’um sorriso; era um descanso

Interno e fundo, que sentia a mente,

Um quadro em que os meos olhos repousavão,

Ver tanta formosura e tal pureza

Em rosto de mulher com alma d’anjo!

IV.

Houve tempo em que os meos olhos

Gostavão de lindo infante,

Com a candura e sorriso

Que adorna infantil semblante.

Gostavão do grave aspecto

De magestoso ancião,

Tendo nos labios conselhos,

Tendo amor no coração.

Um representa a innocencia,

Outro a verdade sem véo;

Ambos tão puros, tão graves,

Ambos tão perto do céo!

Infante e velho!—principio e fim da vida!—

Um entra neste mundo, outro sae delle,

Gozando ambos da aurora;—um sobre a terra,

E o outro lá nos céos.—O Deos, que é grande,

Do pobre velho compensando as dôres,

O chama para si; o Deos clemente

Sobre a innocencia de continuo vela.

Amei do velho o magestoso aspecto,

Amei o infante que não tem segredos,

Nem cobre o coração co’os folhos d’alma.

Amei as doces vozes da innocencia,

A rispida franqueza amei do velho,

E as rigidas verdades mal sabidas.

Só por labios senis pronunciadas.

V.

Houve tempo, em que possivel

Eu julguei no mundo achar

Dois amigos extremosos,

Dois irmãos do meu pensar;

Amigos que compr’hendessem

Meo prazer e minha dôr,

Dos meos labios o sorriso,

Da minha alma o dissabor;

Amigos, cuja existencia

Vivesse eu co’o meo viver:

Unidos sempre na vida,

Unidos—té no morrer.

Amizade!—união, virtude, encanto—

Consorcio do querer, de força e d’alma—

Dos grandes sentimentos cá da terra

Talvez o mais reciproco, o mais fundo!

Quem ha que diga: Eu sou feliz!—se acaso

Um amigo lhe falta?—um doce amigo,

Que sinta o seo prazer como elle o sente,

Que soffra a sua dôr como elle a soffre?

Quando a ventura lhes sorri na vida,

Um a par d’outro—ei-los lá vão felizes;

Quando um sente afflicção, nos braços do outro

A afflicção, que é só d’um, carpindo juntos,

Encontra doce alivio o desditoso

No thesouro que encerra um peito amigo.

Candido par de cysnes, vão roçando

A face azul do mar co’as niveas azas

Em deleite amoroso;—acalentados

Pelo sereno espreguiçar das ondas,

Aspirando perfumes mal sentidos,

Por vesperina arajem bafejados,

É jogo o seo viver;—porém se o vento

No frondoso arvoredo ruge ao longe,

Se o mar, batendo irado as ermas praias,

Crusadas vagas em novello enrola,

Com grito de terror o par candente

Sacode as niveas azas, bate-as,—fogem.

VI.

Houve tempo em que eu pedia

Uma mulher ao meo Deos,

Uma mulher que eu amasse,

Um dos bellos anjos seos.

Em que eu a Deos só pedia

Com fervorosa oração

Um amor sincero e fundo,

Um amor do coração.

Qu’eu sentisse um peito amante

Contra o meu peito bater,

Sómente um dia ... sómente!

E depois delle morrer.

Amei! e o meo amor foi vida insana!

Um ardente anhelar, cauterio vivo,

Posto no coração, a remorde-lo.

Não tinha uma harmonia a natureza

Comparada a sua voz; não tinha côres

Formosas como as della,—nem perfumes

Como esse puro odor qu’ella esparzia

D’angelica dureza.—Meos ouvidos

O feiticeiro som dos meigos labios

Ouvião com prazer; meos olhos vagos

De a ver não se cansavão; labios d’homens

Não poderão dizer como eu a amava!

E achei que o amor mentia, e que o meo anjo

Era apenas mulher! chorei! deixei-a!

E aquelles, que eu amei co’o amor d’amigo,

A sorte, boa ou má, levou-m’os longe,

Bem longe quando eu perto os carecia.

Conclui que a amizade era um phantasma,

Na velhice prudente—habito apenas,

No joven—doudejar; em mim lembrança;

Lembrança!—porém tal que a não trocára

Pelos gozos da terra,—meos prazeres

Forão só meos amigos,—meos amores

Hão de ser neste mundo elles sómente.

VII.

Houve tempo em que eu sentia

Grave e solemne afflicção,

Quando ouvia junto ao morto

Cantar-se a triste oração.

Quando ouvia o sino escuro

Em sons pesados dobrar,

E os cantos do sacerdote

Erguidos junto do altar.

Quando via sobre um corpo

A fria lousa cahir;

Silencio debaixo della,

Sonhos talvez—e dormir.

Feliz quem dorme sob a lousa amiga,

Tepida talvez com o pranto amargo

Dos olhos da afflicção;—se os mortos sentem,

Ou se almas tem amor aos seos despojos,

Certo dos pés do Eterno, entre a alleluia,

E o gozo lá dos céos, e os córos d’anjos,

Hão de lembrar-se com prazer dos vivos,

Que chorão sobre a campa, onde já brota

O denso musgo, e já desponta a relva.

Lagem fria dos mortos! quem me dera

Gozar do teo descanço, ir asilar-me

Sob o teo sancto horror, e nessas trevas

Do bulicio do mundo ir esconder-me!

Oh! lagem dos sepulchros! quem me désse

No teo silencio fundo asilo eterno!

Ahi não pulsa o coração, nem sente

Martyrios de viver quem já não vive.


HYMNOS.

Singe dem Herrn mein Lied, und du, begeisterte Seele,

Werde ganz Jubel dem Gott, den alle Wesen bekennen!

WIELAND.

MESQUINHO TRIBUTO DE PROFUNDA AMIZADE
AO DR. J. D. LISBOA SERRA.


O MAR.

Frappé de ta grandeur farouche

Je tremble ... est-ce bien toi, vieux lion que je touche,

Océan, terrible océan!

TURQUETY.

Oceano terrivel, mar immenso

De vagas procellosas que se enrolão

Floridas rebentando em branca espuma

N’um pólo e n’outro pólo,

Emfim ... emfim te vejo; emfim meos olhos

Na indomita cerviz tremulos cravo,

E esse rugido teo sanhudo e forte

Emfim medroso escuto!

D’onde houveste, ó pelago revolto,

Esse rugido teo? Em vão dos ventos

Corre o insano pegão lascando os troncos,

E do profundo abysmo

Chamando á superficie infindas vagas,

Que avaro encerras no teo seio undoso;

Ao insano rugir dos ventos bravos

Sobresáe teo rugido.

Em vão troveja horrisona tormenta;

Essa voz do trovão, que os céos abala,

Não cobre a tua voz.—Ah! d’onde a houveste,

Magestoso oceano?

Ó mar, o teo rugido é um echo incerto

Da creadora voz, de que surgiste:

Seja, disse; e tu foste, e contra as rochas

As vagas compelliste.

E á noite, quando o céo é puro e limpo,

Teo chão tinges de azul,—tuas ondas correm

Por sobre estrellas mil; turvão-se os olhos

Entre dois céos brilhantes.

Da voz de Jehovah um echo incerto

Julgo ser teo rugir; mas só, perenne,

Imagem do infinito, retratando

As feituras de Deos.

Por isto, a sós comtigo, a mente livre

Se eleva, aos céos remonta ardente, altiva,

E d’este lodo terreal se apura,

Bem como o bronze ao fogo.

Férvida a Musa, co’os teos sons casada,

Glorifica o Senhor de sobre os astros

Co’a fronte além dos céos, além das nuvens,

E co’os pés sobre ti.

O que ha mais forte do que tu? Se erriças

A coma perigosa, a náo possante,

Extremo de artificio, em breve tempo

Se afunda e se anniquila.

Es poderoso sem rival na terra;

Mas lá te vás quebrar n’um grão d’areia,

Tão forte contra os homens, tão sem força

Contra coisa tão fraca!

Mas n’esse instante que me está marcado,

Em que hei de esta prisão fugir p’ra sempre,

Irei tão alto, ó mar, que lá não chegue

Teo sonoro rugido.

Então mais forte do que tu, minha alma,

Desconhecendo o temor, o espaço, o tempo,

Quebrará n’um relance o circl’o estreito

Do finito e dos céos!

Então, entre myriadas de estrellas,

Cantando hymnos d’amor nas harpas d’anjos,

Mais forte soará que as tuas vagas,

Mordendo a fulva areia;

Inda mais doce que o singelo canto

De merencoria virgem, quando a noite

Occupa a terra,—e do que a mansa brisa,

Que entre flôres suspira.


IDEIA DE DEOS.

Gross ist der Herr! Die Himmel ohne Zahl

Sind seine Wohnungen!

Seine Wagen die donnernden Gewölke,

Und Blitze sein Gespann.

KLEIST.

I.

Á voz de Jehovah infindos mundos

Se formárão do nada;

Rasgou-se o horror das trevas, fez-se o dia,

E a noite foi creada.

Luzio no espaço a lua! sobre a terra

Rouqueja o mar raivoso,

E as espheras nos céos erguerão hymnos

Ao Deos prodigioso.

Hymno de amor a creação, que sôa

Eternal, incessante,

Da noite no remanso, no ruido

Do dia scintillante!

A morte, as afflicções, o espaço, o tempo,

O que é para o Senhor?

Eterno, immenso, que lh’importa a sanha

Do tempo roedor?

Como um raio de luz, percorre o espaço,

E tudo nota e vê—

O argueiro, os mundos, o universo, o justo;

E o homem que não crê.

E elle que póde anniquilar os mundos,

Tão forte como elle é,

E vê e passa, e não castiga o crime,

Nem o impio sem fé!

Porém quando corrupto um povo inteiro

O Nome seo maldiz,

Quando só vive de vingança e roubos,

Julgando-se feliz;

Quando o impio commanda, quando o justo

Soffre as penas do mal,

E as virgens sem pudor, e as mães sem honra,

E a justiça venal;

Ai da perversa, da nação maldicta,

Cheia de ingratidão,

Que ha de ella mesma sugeitar seo collo

Á justa punição.

Ou já terrivel peste expande as azas,

Bem lenta a esvoaçar;

Vai de uns a outros, dos festins conviva,

Hospede em todo o lar!

Ou já torvo rugir da guerra accesa

Espalha a confusão;

E a esposa, e a filha, de terror oppressa,

Não sente o coração.

E o pae, e o esposo, no morrer cruento,

Vomita o fel raivoso;

—Milhões de insectos vis que um pé gigante

Enterra em chão lodoso.

E do povo corrupto um povo nasce

Esperançoso e crente,

Como do podre e carunchoso tronco

Hastea forte e virente.

II.

Oh! como é grande o Senhor Deos, que os mundos

Equilibra nos ares;

Que vai do abysmo aos céos, que susta as iras

Do pelago fremente,

A cujo sopro a maquina estrellada

Vacilla nos seos eixos,

A cujo aceno os cherubins se movem

Humildes, respeitosos,

Cujo poder, que é sem igual, excede

A hyperbole arrojada!

Oh! como é grande o Senhor Deos dos mundos,

O Senhor dos prodigios.

III.

Elle mandou que o sol fosse principio,

E razão de existencia,

Que fosse a luz dos homens—olho eterno

Da sua providencia.

Mandou que a chuva refrescasse os membros,

Refizesse o vigor

Da terra hiante, do animal cançado

Em praino abrasador.

Mandou que a brisa susurrasse amiga,

Roubando aroma á flôr;

Que os rochedos tivessem longa vida,

E os homens grato amor!

Oh! como é grande e bom o Deos que manda

Um sonho ao desgraçado,

Que vive agro viver entre miserias,

De ferros rodeado;

O Deos que manda ao infeliz que espere

Na sua providencia;

Que o justo durma, descançado e forte

Na sua consciencia!

Que o assassino de continuo vele,

Que trema de morrer;

Em quanto lá nos céos, o que foi morto,

Desfructa outro viver!

Oh! como é grande o Senhor Deos, que rege

A maquina estrellada,

Que ao triste dá prazer; descanço e vida

Á mente atribulada!


O ROMPER D’ALVA.

Quand ta corde n’aurait qu’un son,

Harpa fidèle, chante encore

Le Dieu que ma jeunesse adore,

Car c’est un hymne que son nom.

LAMARTINE.

Do vento o rijo sopro as mansas ondas

Varreo do immenso pego,—e o mar rugindo

Ás nuvens se elevou com furia insana;

Ennovelladas vagas se arrojárão

Ao céo co’a branca espuma!

Raivando em vão se encontrão soluçando

Na base d’erma rocha descalvada;

Em vão de furias crescem, que se quebra

A força enorme do impotente orgulho

Na rocha altiva ou na arenosa praia.

Da tormenta o furor lhe accende os brios,

Da tormenta o furor lh’enfreia as iras,

Que em teimosos gemidos se descerrão;

Da quieta noite despertando os echos

Além, no valle humilde, onde não chega

Seo sanhudo gemer, que o dia abafa.

Mas a brisa susurrando

A face do céo varreo,

Tristes nuvens espalhando,

Que a noite em ondas verteo.

Além, atraz da montanha,

Branda luz se patenteia,

Que d’alma a dôr afugenta,

Se dentro sentida anceia.

Branda luz, que afaga a vista,

De que se ama o céo tingir,

Quando entre o azul transparente

Parece alegre sorrir;

Como es linda!—Como dobras

Da vida a força e do amor!

—Que tão bem luz dentro d’alma

Teo luzir encantador!

No teo ameno silencio

A tormenta se perdeo,

E do mar a forte vida

Nos abysmos se escondeo!

Porque assim de novo agora

Que o vento o não vem toldar,

Parece que vai queixoso

Mansamente a soluçar?

Porque as ramas do arvoredo,

Bem como as ondas do mar,

Sem correr sopro de vento,

Começão de murmurar?

Sobre o tapiz d’alta relva,

—Rocio da madrugada—

Destilla gotas de orvalho

A verde folha inclinada.

Renascida a natureza

Parece sentir amor;

Mais brilhante, mais viçosa

O calix levanta a flôr.

Por entre as ramas occultas,

Docemente a gorgear,

Acordão trinando as aves,

Alegres, no seo trinar.

O arvoredo n’essa lingoa

Que diz, porque assim susurra?

Que diz o cantar das aves?

Que diz o mar que murmura?

—Dizem um nome sublime,

O nome do que é Senhor,

Um nome que os anjos dizem,

O nome do Creador.

Tão bem eu, Senhor, direi

Teo nome—do coração,

E ajuntarei o meo hymno

Ao hymno da creação.

Quando a dôr meo peito acanha,

Quando me rala a afflicção,

Quando nem tenho na terra

Mesquinha consolação;

Tu, Senhor, do peso insano

Livras meo peito arquejante,

Seccas-me o pranto que os olhos

Vertendo estão abundante.

Tu pacificas minha alma,

Quando se rasga com pena,

Como a noite que se esconde

Na luz da manhã serena.

Tu es a luz do universo,

Tu es o ser creador,

Tu es o amor, es a vida,

Tu es meo Deos, meo Senhor.

Direi nas sombras da noite,

Direi ao romper da aurora:

—Tu es o Deos do universo,

O Deos que minha alma adora.

Tão bem eu, Senhor, direi

Teo nome—do coração,

E ajuntarei o meo hymno

Ao hymno da creação.


A TARDE.

Ave Maria! blessed be the hour!

The time, the clime, the spot where I so oft

Have felt that moment in its fullest power

Sink o’er the earth so beautiful and soft....

BYRON.

Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores,

Mãe da meditação, meo doce encanto!

Os rogos da minha alma emfim ouviste,

E grato refrigerio vens trazer-lhe

No teo remansear prenhe de enlevos!

Em quanto de te ver gostão meos olhos,

Em quanto sinto a minha voz nos labios,

Em quanto a morte me não rouba á vida,

Um hymno em teo louvor minha alma exhale,

Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores!

I.

É bella a noite, quando grave estende

Sobre a terra dormente o negro manto

De brilhantes estrellas recamado;

Mas nessa escuridão, nesse silencio

Que ella comsigo traz, ha um quê de horrivel

Que espanta e desespera e geme n’alma;

Um quê de triste que nos lembra a morte!

No romper d’alva ha tanto amor, tal vida,

Ha tantas côres, brilhantismo e pompa,

Que fascina, que attrahe, que a amar convida;

Não pode supportal-a homem que soffre,

Orfãos de coração não podem vel-a.

Só tu, feliz, só tu, a todos prendes!

A mente, o coração, sentidos, olhos,

A ledice e a dôr, o pranto e o riso,

Folgão de te avistar;—são teos,—es d’elles.

Homem que sente dôr folga comtigo,

Homem que tem prazer folga de ver-te!

Comtigo sympathisão, porque es bella,

Qu’es mãe de merencorios pensamentos,

Entre os céos e a terra extasis doce,

Entre dôr e prazer celeste arroubo.

II.

A brisa que murmura na folhagem,

As aves que pipitão docemente,

A estrella que desponta, que rutila,

Com duvidosa luz ferindo os mares,

O sol que vai nas agoas sepultar-se

Tingindo o azul dos céos de branco e d’oiro;

Perfumes, murmurar, vapores, brisa,

Estrellas, céos e mar, e sol e terra,

Tudo existe comtigo, e tu es tudo.

III.

Homem que vive agro viver de côrte,

Indifferente olhar derrama a custo

Sobre os fulgores teos;—homem do mundo

Mal pode o desbotado pensamento

Revolver sobre o pó; mas nunca, oh nunca!

Ha de elevar-se a Deos, e nunca ha de elle

Na abobada celeste ir pendurar-se,

Como de rosea flôr pendente abelha.

Homem da natureza, esse contemple

De purpura tingir a luz que morre

As nuvens lá no occaso vacillantes!

Ha de vida melhor sentir no peito,

Sentir doce prazer sorrir-lhe n’alma,

E fonte de ternura inexgotavel

Do fundo coração brotar-lhe em ondas.

Hora do pôr do sol!—hora fagueira,

Qu’encerras tanto amor, tristeza tanta!

Quem ha que de te ver não sinta enlevos,

Quem ha na terra que não sinta as fibras

Todas do coração pulsar-lhe amigas,

Quando d’esse teo manto as pardas franjas

Sóltas, roçando a habitação dos homens?

Ha hi prazer tamanho que embriaga,

Ha hi prazer tão puro, que parece

Haver anjos dos céos com seos acordes

A misera existencia acalentado!

IV.

Socia do forasteiro, tu, saudade,

N’esta hora os teos espinhos mais pungentes

Cravas no coração do que anda errante.

Só elle, o peregrino, onde acolher-se,

Não tem tugurio seo, nem pae, nem ’sposa,

Ninguem que o espere com sorrir nos labios

E paz no coração,—ninguem que extranhe,

Que anceie afflicto de o não ver comsigo!

Cravas então, saudade, os teos espinhos;

E elles, tão pungentes, tão agudos,

Varando o coração de um lado a outro,

Nem trazem dôr, nem desespero incitão;

Mas remanso de dôr, mas um suave

Recordar do passado,—um quê de triste

Que ri ao coração, chamando aos olhos,

Tão espontaneo, tio fagueiro pranto,

Que não fora prazer não derramal-o.

E quem—ah tão feliz!—quem peregrino

Sobre a terra não foi? Quem sempre ha visto

Sereno e brando deslisar-se o fumo

Sobre o tecto dos seos; e sobre os cumes

Que os seos olhos hão visto á luz primeira

Crescer branca neblina que se enrola,

Como incenso que aos céos a terra envia?

Tão feliz! quando a morte involta em pranto

Com gelado suor lh’enerva os membros,

Procura inda outra mão co’a mão sem vida,

E o extremo scintillar dos olhos baços,

De um ente amado procurando os olhos,

Sem prazer, mas sem dôr, alli se apaga.

O exilado! esse não; tão só na vida,

Como no passamento ermo e sosinho,

Sente dôres crueis, torvos pezares

Do leito afflicto esvoaçar-lhe em torno,

Roçar-lhe o frio, o pallido semblante,

E o instante derradeiro amargurar-lhe.

Porém, no meo passar da vida á morte,

Possa co’a extrema luz d’estes meos olhos

Trocar ultimo adeos com os teos fulgores!

Ah! possa o teo alento perfumado,

Do que na terra estimo, docemente

Minha alma separar, e derramal-a

Como um vago perfume aos pés do Eterno.


O TEMPLO.

....Jéhovah déploie autour de nos demeures

Le linceul de la nuit, et la chaîne des heures

Tombe anneau par anneau.

TURQUETY.

I.

Estou só n’este mudo sanctuario,

Eu só, com minha dôr, com minhas penas!

E o pranto nos meos olhos represado,

Que nunca vio correr humana vista,

Livremente o derramo aos pés de Christo,

Que tão bem suspirou, gemeo sosinho,

Que tão bem padeceo sem ter conforto,

Como eu padeço, e soffro, e gemo, e choro.

Remorso não me punge a consciencia,

Vergonha não me tinge a côr do rosto,

Nem crimes perpetrei;—porque assim choro?

E direi eu por que?—Antes meu berço,

Que vagidos de infante vividouro,

Os sons finaes de um moribundo ouvisse!

Que esperanças que eu tinha tão formosas,

Que mimosos enlevos de ternura,

Não continha minha alma toda amores!

Esperanças e amor, que é feito d’elles?

Um dia me roubava uma esperança,

E sosinho, uma e uma, me deixárão.

Morrerão todas, como folhas verdes

Que em principios do inverno o vento arranca.

E o amor!—podia eu sentil-o ao menos;

Quando eu via a desdita de bem perto

Co’ um sorriso infernal no rosto squalido,

Com fome e frio a tiritar demente,

Acenando-me infausta?—quando vinda

Minha hora já sentia, em que os meus labios,

Tremendo de vergonha, soluçassem

Ao f’liz com que eu na rua deparasse,

De mãos erguidas: Meo Senhor, piedade!

Eis porque soffro assim, porque assim gemo,

Porque meo rosto pallido se encova,

Porque sómente a dôr me ri nos labios,

Porque meo coração já todo é cinzas.

Menti, Senhor, menti!—porque te adoro.

No altar profano de belleza esquiva

Não queimo incenso vão;—tu só me occupas

O coração, que eu fiz hostia sagrada,

Apuro de elevados sentimentos,

Que o teo amor somente asilão, nutrem.

Quando ao sopé da cruz me chego afflicto,

Sinto que o meo soffrer se vae mingoando,

Sinto minha alma que de novo existe,

Sinto meo coração arder em chammas,

Arder meos labios ao dizer teo nome.

Assim a cada aurora, a cada noite,

Virei consolações beber sedento

Aos pés do meo Senhor;—virei meo peito

Encher de religião, de amor, de fogo,

Que além de infindos céos minha alma exalte.

II.

Quem me dera nas azas d’este vento,

Que agora tão saudoso aqui murmura,

Agitando as cortinas, que me encobrem

Do teo rosto o fulgor, que me não cegue,

Subir além dos sóes, além das nuvens

Ao teo throno, ó meo Deos; ou quem me désse

Ser este incenso que se arroja em ondas

A subir, a crescer, em rolo, em fumo,

Até perder-se na amplidão dos ares!

Não qu’ria aqui viver!—Quando eu padeço,

Surdez fingida a minha voz responde;

Não tenho voz de amor, que me console,

Corre o meo pranto sobre terra ingrata,

E dôr mortal meo coração fragoa.

Só tu, Senhor, só tu, no meo deserto

Escutas minha voz que te supplica;

Só tu nutres minha alma de esperança;

Só tu, ó meu Senhor, em mim derramas

Torrentes de harmonia, que me abrasão.

Qual orgão, que resôa mavioso,

Quando segura mão lhe opprime as teclas,

Assim minha alma, quando a ti se achega

Hymnos de ardente amor disfere grata:

E, quando mais serena, inda conserva

Effluvios d’esse canto, que me guia

No caminho da vida aspero e duro.

Assim por muito tempo reboando

Vão no recinto do sagrado templo

Sons, que o orgão soltou, que o ouvido escuta.


TE DEUM.

Nós, Senhor, nós te louvamos,

Nós, Senhor, te confessamos.

Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes sancto,

Immenso é o teo poder, tua força immensa,

Teos prodigios sem conta;—e os céos e a terra

Teo ser e nome e gloria preconisão.

E o archanjo forte, e o serafim sem mancha,

E o côro dos prophetas, e dos martyres

A turba eleita—a ti, Senhor, proclamão

Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes sancto.

Na innocencia do infante es tu quem fallas;

A belleza, o pudor—es tu que as gravas

Nas faces da mulher,—es tu que ao velho

Prudencia dás,—e o que verdade e força

Nos puros labios, do que é justo, imprimes.

Es tu quem dás rumor á quieta noite,

Es tu quem dás frescor á mansa brisa,

Quem dás fulgor ao raio, azas ao vento,

Quem na voz do trovão longe rouquejas.

Es tu que do oceano á furia insana

Pões limites e cobro,—es tu que a terra

No seo vôo equilibras,—quem dos astros

Governas a harmonia, como notas

Acordes, simultaneas, palpitando

Nas cordas d’Harpa do teo Rei Propheta,

Quando elle em teo louvor hymnos soltava,

Qu’ ião, cheios de amor, beijar teo solio.

Sancto! Sancto! Sancto!—teos prodigios

São grandes, como os astros,—são immensos

Como arêa delgada em quadra estiva.

E o archanjo forte, e o serafim sem mancha,

E o côro dos prophetas, e dos martyres

A turba eleita—a ti, Senhor, proclamão,

Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes grande.


ADEOS
AOS MEOS AMIGOS DO MARANHÃO.

Meos Amigos, Adeos! Já no horizonte

O fulgor da manhã se empurpurece:

É puro e branco o céo,—as ondas mansas,

—Favoravel a brisa;—irei de novo

Sorver o ar purissimo das ondas,

E na vasta amplidão dos céos e mares

De vago imaginar embriagar-me!

Meos Amigos, Adeos!—Verei fulgindo

A lua em campo azul, e o sol no occaso

Tingir de fogo a implacidez das agoas;

Verei horridas trevas lento e lento

Descerem, como um crepe funerario

Em negro esquife, onde repoisa a morte;

Verei a tempestade quando alarga

As negras azas de bulcões, e as vagas

Soberbas encastella, esporeando

O curto bojo de ligeiro barco,

Que geme, e ruge, e empina-se insoffrido

Galgando os escarceos,—bem larga esteira

De phosphoro e de luz traz si deixando:

Generoso corsel, que sente as cruzes

Agudas de teimosos acicates

Lacerarem-lhe rabidas o ventre.

Inda uma vez, Adeos! Curtos instantes

De ineffavel prazer—horas bem curtas

De ventura e de paz frui comvosco:

Oasis que encontrei no meo deserto,

Tepido valle entre fragosas serras

Virente derramado, foi a quadra

Da minha vida, que passei comvosco.

Aqui de quanto amei, do que hei soffrido,

De tudo quanto almejo, espero, ou temo

Deslembrado vivi!—Oh! quem me dera

Que entre vós outros me alvejasse a fronte,

E que eu morresse entre vós! Mas força occulta,

Irresistivel, me persegue e impelle.

Qual folha instavel em ventoso estio

Do vento ao sopro a esvoaçar sem custo;

Assim vou eu sem tino,—aqui pegadas

Mal firmes assentando—além pedaços

De mim mesmo deixando. Na floresta

O lasso viandante extraviado

Por todo o verde bosque estende os olhos,

E cançado esmorece,—cáe, medita,

Respira mais de espaço, cobra alento,

E nas solidões de novo eil-o se entranha.

Vestigios mal seguros sopra o vento,

Ou nivella-os a chuva, ou relva os cobre:

Talvez que folhas asperas de arbusto

Mordão vellos da tunica, e denotem

(Duvída o viajor, que os vê com pasmo)

Que errante caminheiro alli passasse.

E eu parti!—Não chorei, que do meo pranto

A larga fonte jaz de ha muito exhausta;

Ha muito que os meos olhos não gotejão

O repassado fel d’acre amargura;

E o pranto no meo peito represado

Em cinza o coração me ha convertido.

É assim que um vulcão se torna fonte

De lympha amarga e quente; e a fonte em ermo,

Onde não crescem perfumadas flôres,

Nem tenras aves seos gorgeios soltão,

Nem triste viajor encontra abrigo.

Rasgado o coração de pena acerba,

Transido de afflicções, cheio de magoa,

Miserando parti! tal quando reprobo,

Adão, cobrindo os olhos coas mãos ambas,

Em meio a sua dôr só descobria

Do Archanjo os candidissimos vestidos,

E os lampejos da espada fulminante,

Que o Eden tão mimoso lhe vedava.

Porém quando algum dia o colorido

Das vivas illusões, que inda conservo,

Sem força esmorecer,—e as tão viçosas

Esp’ranças, que eu educo, se afundarem

Em mar de desenganos;—a desgraça

Do naufragio da vida ha de arrojar-me

Á praia tão querida, que ora deixo.

Tal parte o desterrado: um dia as vagas

Hão de os seos restos regeitar na praia,

D’onde tão novo se partira, e onde

Procura a cinza fria achar jazigo.


SEGUNDOS CANTOS.


CONSOLAÇÃO NAS LAGRIMAS.

Las lágrimas puras que entónces se vierten,

Acaso divierten

En vez de doler.

ZORRILLA.

Como é bello á meia noite

O azul do céo transparente,

Quando a esphera d’alva lua

Vagueia mui docemente,

Quando a terra não ruidosa

Toda se cala dormente,

Quando o mar tranquillo e brando

Na areia chora fremente!

Como é bello este silencio

Da terra todo harmonia,

Que aos céos a mente arrebata

Cheia de meiga poesia!

Como é bella a luz que brilha

Do mar na viva ardentia!

Este pranto como é doce

Que entorna a melancolia!

Esta aragem como é branda

Que enruga a face do mar,

Que na terra passa e morre

Sem nas folhas susurrar!

Os sons d’aereo instrumento

Quizera agora escutar,

Quizera magoas pungentes

Neste silencio olvidar!

O azul do céo, nem da lua

A doce luz reflectida,

Nem o mar beijando a praia,

Nem a terra adormecida,

Nem meigos sons, nem perfumes,

Nem a brisa mal sentida,

Nem quanto agrada e deleita,

Nem quanto embelleza a vida;

Nada é melhor que este pranto

Em silencio gotejado,

Meigo e doce, e pouco e pouco

Do coração despegado;

Não soro de fel, mas sancto

Frescor em peito chagado;

Não espremido entre dores,

Mas quasi em prazer coado!


CANÇÃO.

Yo no soy mas que un poeta,

Sin otro bien que mi lira.

ZORRILLA.

Tenho uma harpa religiosa,

Toda inteira fabricada

De madeira preciosa

Sobre o Libano cortada.

Foi o Senhor quem m’a deo,

De sanctas palmas coberta,

Que as notas suas concerta

Aos sons do salterio hebreo!

Tenho alaúde polido

Em que antigos Trovadores,

Em tom de guerra atrevido,

Cantavão trovas de amores.

Mas chegando a Sancta Cruz,

De volta do meo desterro,

Cortei-lhe as cordas de ferro,

Cordas de prata lhe puz.

Tenho tão bem uma lyra

De festões engrinaldada,

Onde minha alma afinada

Melindres d’amor suspira.

Nas grinaldas, nos festões,

Nas rosas com que s’inflora,

Goteja o orvalho da aurora

Dictámo dos corações.

Eis o que tenho, ó Donzella,

Só harpa, alaúde e lyra;

Nem vejo sorte mais bella,

Nem coisa que lhe eu prefira.

Votei assim ao meo Deos

A minha harpa religiosa,

A ti a lyra mimosa,

O grave alaúde aos meos!


LYRA.

Coeur sans amour est un jardin sans fleur.

L. HALLEVY.

Se me queres a teos pés ajoelhado,

Ufano de me ver por ti rendido,

Ou já em mudas lagrimas banhado;

Volve, impiedosa,

Volve-me os olhos;

Basta uma vez!

Se me queres de rojo sobre a terra,

Beijando a fimbria dos vestidos teos,

Calando as queixas que meo peito encerra,

Dize-me, ingrata,

Dize-me: eu quero!

Basta uma vez!

Mas se antes folgas de me ouvir na lyra

Louvor singelo dos amores meos,

Por que minha alma ha tanto em vão suspira;

Dize-me, ó bella,

Dize-me: eu te amo!

Basta uma vez!


AGORA E SEMPRE.

Pone me pigris ubi nulla campis

Arbor aestiva recreatur aura,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Dulce ridentem Lalagen amabo,

Dulce loquentem.

HORACIO. OD.

Ponhão-me embora na crestada Libya,

Ou lá nas zonas em que o gelo mora,

Alli tua alma viverá commigo,

Alli teo nome!

Ponhão-me em terras que leões só crião,

Nas altas serras que o condor habita;

Alli ainda viverá comtigo

Minha alma ardente.

Faminto e triste na região deserta,

Co’os pés em sangue de esfarpada estilha,

Cortado o rosto de gelado vento,

Madida a coma:

Alli aos urros do leão sedento,

Aos crebros gritos do condor alpestre,

Ardendo em chamas deste amor sem termo

Direi: Eu te amo!

Duros ferrolhos de prisão medonha

Escute embora sepultar-me em vida;

Embora sinta roxear-me os pulsos

Ferreas algemas;

Embora malhos de tortura infame

Quebrem-me os ossos no medroso equuleo;

Agudos dentes de tenaz raivosa

Mordão-me as carnes:

Nas feias sombras da cruel masmorra,

Nos duros tratos da tortura bruta,

Quer só commigo, quer em meio ás gentes,

Direi: Eu te amo!

Mas nunca o gelo, nem a fragoa ardente,

Nem brutas feras, nem crueza humana

Farão que eu soffra mais agudas dôres,

Nem mais penadas!

Reclina-se outro em teo nevado seio,

Cinge-te o corpo em divinaes caricias,

Beija-te o collo, beija-te o sorriso,

Goza-te e vive!

E eu no entanto extorso com dores!

Praguejo o inferno que nos poz tão longe,

Louco bravejo, misero soluço...

Desejo e morro!


A VIRGEM.

—Tiene mas de vaporosa sombra,

De inefable vision que de mujer.

ZORRILLA.

Linda virgem simelha a linda rosa,

Que se abre ao romper d’alva;

Encapellão-se as petalas mimosas,

Lacradas de pudor com rubro sello:

Cego mortal só lhe respira o incenso;

Mas della a abelha extrahe seo mel mais puro.

Seo nobre coração é como um templo,

Onde só Deos habita;

Alli reina o misterio involto em sombras,

E maga placidez involta em cantos:

Só vê isto o profano; mas o antiste

De Deos a sombra vê, e a voz lhe escuta.

É como um lago de marmoreo leito

Sua alma ingenua e bella:

No fundo não se enxerga o verde limo,

E a lisa face nos amostra os astros.

E onde o humilde pastor só vê luzeiros,

Os anjos la dos céos contemplão mundos.

E se eu a vejo nos saráos ruidosos,

C’roada de belleza,

E a sombra da tristeza irresistivel

Tingir-lhe o rosto, e desbotar-lhe o riso;

Na mulher, que outros vêm, descubro o anjo,

Que as azas d’oiro, que perdeo, lamenta!

Então como que sinto arrebatar-me,

Sympathica attracção!

Quizera doces carmes de ternura

Nas mais delgadas cordas da minha Harpa

Cantar-lhe, e assim dizer-lhe: «Um canto ao menos

O acerbo exilio teo torne mais brando!»

Baldado empenho! Começado apenas,

Afrouxa-se-me o canto;

Debaixo dos meos dedos mal palpita

A corda melindrosa da minha Harpa;

E como em espaço, que até d’ar carece,

Tangida, o extremo som morre sem echo!


ROSA NO MAR!

Rosa, rosa de amor purpurea e bella,

Quem entre os goivos te esfolhou da campa!

GARRETT.

Por uma praia arenosa,

Vagarosa

Divagava uma Donzella;

Dá largas ao pensamento,

Brinca o vento

Nos soltos cabellos della.

Leve ruga no semblante

Vem n’um instante,

Que n’outro instante se alisa;

Mais veloz que a sua ideia

Não volteia,

Não gira, não foge a brisa.

No virginal devaneio

Arfa o seio,

Pranto ao riso se mistura;

Doce rir dos céos encanto,

Leve pranto,

Que amargo não é, nem dura.

Nesse logar solitario,

—Seo fadario,—

De ver o mar se recreia;

De o ver, á tarde, dormente,

Docemente

Suspirar na branca areia.

Agora, qual sempre usava,

Divagava

Em seo pensar embebida;

Tinha no seio uma rosa

Melindrosa,

De verde musgo vestida.

Ia a virgem descuidosa,

Quando a rosa

Do seio no chão lhe cahe:

Vem um’onda bonançosa,

Qu’impiedosa

A flôr comsigo retrahe.

A meiga flôr sobrenada;

De agastada,

A virge’ a não quer deixar!

Bóia a flôr; a virgem bella,

Vai trás ella,

Rente, rente—á beiramar.

Vem a onda bonançosa,

Vem a rosa;

Foge a onda, a flôr tão bem.

Se a onda foge, a donzella

Vai sobre ella!

Mas foge, se a onda vem.

Muitas vezes enganada,

De enfadada

Não quer deixar de insistir;

Das vagas menos se espanta,

Nem com tanta

Presteza lhes quer fugir.

N’isto o mar que se encapella

A virgem bella

Recolhe e leva comsigo;

Tão fallaz em calmaria,

Como a fria

Polidez de um falso amigo.

Nas agoas alguns instantes,

Fluctuantes

Nadárão brancos vestidos:

Logo o mar todo bonança,

A praia cança

Com monotonos latidos.

Um doce nome querido

Foi ouvido,

Ia a noite em mais de meia:

Toda a praia perlustrárão,

Nem achárão

Mais que a flôr na branca areia.


O AMOR.

Amare amabam.

S. AGOST.

Amor! enlevo d’alma, arroubo, encanto

Desta existencia misera, onde existes?

Fino sentir ou magico transporte,

(O quer que seja que nos leva a extremos,

Aos quaes não basta a natureza humana;)

Sympathica attracção d’almas sinceras

Que unidas pelo amor, no amor se apurão,

Por quem suspiro, serás nome apenas?

A inutil chamma reseccou meos labios,

Mirrou-me o coração da vida em meio,

E á terra fez baixar a mente errada

Que entre nuvens, amor, por ti bradava!

Não te pude encontrar!—em vão meos annos

No louco intento esperdicei; gelados,

Uns após outros á cahir precipites

Na urna do passado os vi; eu triste,

Amor, por ti clamava;—e o meo deserto

Aos meos accentos reboava embalde.

Em vão meo coração por ti se fina,

Em vão minha alma te compr’hende e busca,

Em vão meos labios sofregos cubição

Libar a taça que aos mortaes off’reces!

Dizem-na funda, inexgotavel, meiga;

Em quanto a vejo rasa, amarga e dura!

Dizem-na balsamo, eu veneno a sorvo:

Prazer, doçura,—eu dôr e fel encontro!

Dobrei-me ás duras leis que me impozeste,

Curvei ao jugo teo meo collo humilde,

Feri-me aos teos ardentes passadores,

Prendi-me aos teos grilhões, rojei por terra...

E o lucro?... forão lagrimas perdidas,

Foi roxa cicatriz qu’inda conservo,

Desbotada a illusão e a vida exhausta!

Celeste emanação, gratos effluvios

Das roseiras do céo; bater macio

Das azas auri-brancas d’algum anjo,

Que roça em noite amiga a nossa esphera,

Centelha e luz do sol que nunca morre;

Es tudo, e mais do qu’isto:—es luz e vida,

Perfume, e vôo d’anjo mal sentido,

Peregrinas essencias trescalando!...

Tão bem passas veloz,—breve te apagas,

Como d’uma ave a sombra fugitiva,

Desgarrada voando á flôr de um lago!


SEMPRE ELLA.

Per noctem quaesivi, quam diligit

anima mea, et non inveni illam.

CANT. CANT.

Eu amo a doce virgem pensativa,

Em cujo rosto a pallidez se pinta,

Como nos céos a matutina estrella!

A dôr lhe ha desbotado a côr das faces,

E o sorriso que lhe roça os labios

Murcha ledo sorrir nos labios d’outrem.

Tem um timbre de voz que n’alma echôa,

Tem expressões d’angelica doçura,

E a mente do que as ouve, se perfuma

De amor profundo e de piedade sancta,

E exala effluvios d’um odor suave

De aloes, de myrrha ou de mais grato incenso.

E nessas horas, quando a mente afflicta,

De dôr occulta remordida, anceia

Desabrochar-se em confidencia amiga,

«Neste mundo o que sou?—triste clamava;

«Pérsica involta em pó, entre ruinas,

«Erma e sosinha a resolver-me em pranto!

«Flôr desbotada em hastea já roída,

«De cujo tronco as outras amarellas

«Já rójão sobre o pó, já murchas pendem!

«É sentir e soffrer a minha vida!»

Merencoria dizia, erguendo os olhos

Aos céos d’um claro azul, que lhes sorrião.

Náda o mudo alcyon por sobre os mares,

E proximo a seo fim desata o canto;

A rosa do Sarão lá se despenha

Nas agoas do Jordão: e como a rosa,

Como o cysne, do mar entre os perfumes,

Aos sons d’uma Harpa interna ella morria!

E como o pastor que avista a linda rosa

Nas agoas da corrente, e como o nauta

Que vê, que escuta o cysne ir-se embalado

Sobre as agoas do mar, cantando a morte;

Eu tambem a segui—a rosa, o cysne,

Que lá se foi sumir clima estranho.

E depois que os meos olhos a perdérão,

Como se perde a estrella em céos infindos,

Errei por sobre as ondas do oceano,

Sentei-me a sombra das florestas virgens,

Procurando apagar a imagem della,

Que tão inteira me ficára n’alma!

Embalde aos céos erguendo os olhos turvos

Meo astro procurei entre os mais astros,

Qu’outr’ora amiga sina me fadára!

Com brilho embaciado e luz incerta

Nos ares se perdeo antes do occaso,

Deixando me sem norte em mar d’angustias.


MIMOSA E BELLA.

N’UM ALBUM.

De anno em anno se torna mais formosa,

E novo brilho, novas graças cria.

CALDAS.

I.

Tão bella es, tão mimosa,

Qual viçosa

Fresca rosa,

Que em serena madrugada,

Despontada,

Rorejada

Foi pelo orvalho do céo;

E a aurora que tudo esmalta,

Brilha reflexos de prata

No orvalho que alli prendeo.

II.

Quando um penar afflictivo,

Sem motivo,

D’improviso

Tua alma occupa e entristece,

Que padece,

Que esmorece

Com aquelle imaginar;

Augmenta a tua belleza

Languido véo de tristeza,

Pallor de quem sabe amar.

III.

Assim murcha a sensitiva,

Sempre viva,

Sempre esquiva;

Assim perde o colorido

Por um toque irreflectido,

Mal sentido:

Assim vai o nenuphar,

Como que soffre e tem magoas,

Esconder-se em fundas agoas,

Té que o sol torne a brilhar.

IV.

Mas tão bem a flôr brincada,

Perfumada,

Debruçada

Sobre a tranquilla corrente;

Logo sente

Vir a enchente

Longe, longe a rouquejar,

Que a pobrezinha desfolha,

Sem lhe deixar uma folha,

Sem deixal-a em seo logar.

V.

Não consintas pois que as magoas,

Como as agoas,

Que das fragas

Furiosas vem tombando,

Vão tomando,

Vão levando

A flôr do teu coração!

Ha na vida u’ amor somente,

Um só amor innocente,

Uma só firme paixão.

VI.

Sê antes flôr bemfadada,

Suspirada,

Bafejada

Pela brisa que a namora,

Pela frescura da aurora,

Que a colora:

Á luz do sol se recreia,

E de noite se retrata

Da fonte na lisa prata,

Quando o céo de luz se arreia.


AS DUAS AMIGAS.

. . . . . . . Vivamos juntas

N’um só logar!

N’um só logar, ou sejão mansos ares,

Se alli te exaltas;

Ou sejão campos, se é alli que a relva

De pranto esmaltas.

V. HUGO. TRAD.

Já vistes sobre a flôr de manso lago

Duas aves brincando solitarias,

Já pousadas na lisa superficie,

Já levantando o vôo?

Já vistes duas nuvens no horisonte,

Brancas, orladas com listões de fogo,

A deslumbrante alvura cambiando

Ao pôr de sol estivo?

Já vistes duas lindas mariposas,

Abrindo ao romper d’alva as longas azas,

Onde reflecte o sol, como um prisma,

Bellas, garridas côres?

Nem as pombas que vagão solitarias,

Nem as nuvens do occaso, nem as vagas

Borboletas gentis que adejão livres

Em valle ajardinado;

Tanto não prazem, como doces virgens,

Airosas, bellas, com sorrir singelo,

Da vida negra e má duros abrólhos

Impróvidas calcando.

Quanto ha no mundo d’illusões fagueiras,

De perfume e de amor, guardão no peito,

Quanto ha de luz no céo mostrão nos olhos,

Quanto ha de bello—n’alma.

Como um jardim seo coração se mostra,

Seos olhos como um lago transparente,

Sua alma como uma harpa harmoniosa,

Seu peito como um templo!

Mas um fraco arruido espanta as aves,

Uma brisa ligeira as nuvens rasga,

E uma gota de orvalho ensopa as azas

Das leves mariposas.

Desgarradas voando as aves fogem,

Dos castellos dos céos perdem-se as nuvens,

Nem mais adejão borboletas vagas

Sobre o esmalte das flôres.

Pois quem resiste ao perpassar do tempo?

Depois que derramou grato perfume

Sobre as azas dos ventos que a bafejão,

A flôr tambem definha.

Mas um nobre sentir que se enraiza

No peito da mulher, que menos ame,

É como essencia preciosa e grata,

Que se lacrou n’um vaso.

Repassa-o: depois embora o esgotem;

Leves emanações, gratos effluvios

Ha de eterno verter da mesma essencia,

Talvez porêm mais doces.


SONHO.

Ah! frown not, sweet lady, unbend your soft brow

Nor deem me too happy in this!

If I sin in my dream, I atone for it now,

Thus doom’d but to gaze upon bliss.

BYRON.

Sonhava esta noite, Donzella formosa,

Já quando as estrellas tombavão no mar,

Que eu via a meu lado uma esbelta figura

Divina e mimosa....

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

Divina e mimosa, co’um véo se cobria

D’estrellas fulgentes de brilho sem par;

O rosto era vosso, era vossa a estatura,

E o anjo dizia....

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

E o anjo dizia co’um geito celeste:

«Affectos que em outro não pude encontrar

«Por fim me rendérão,—paixão lisa e pura.»

Que tanto soffreste...

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

«Pois tanto soffreste, não devo impiedosa

«Fineza tão grande por fim mal pagar!»

Eis sinto um abraço estreitar-me a cintura,

E uns labios de rosa...

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

E uns labios de rosa cobrirem-me a fronte

Com tepidos beijos de férvido amar!

Prazer tão subido após tanta amargura.

Não sei como o conte!...

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

Não sei como o conte!—nos labios de rosa

Vivi encantado sem ver, nem pensar,

Em quanto apertava a ligeira cintura,

Cintura mimosa....

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

Cintura mimosa!—depois vos tecia

Grinalda que a fronte vos fosse adornar,

E um cinto de amores com bróche esmaltado

De meiga poesia!...

Quem tão bem fadado

Vivera a sonhar!

De meiga poesia, meo bem, minha amada,

Já pago de quanto me fazeis penar,

Então vos tangia descantes na lyra,

Na lyra afinada!

O sonho é mentira;

Não quero sonhar!


SOLIDÃO.

Solo e pensoso i più deserti campi

Vo misurando a passi tardi e lenti

E gli occhi porto per fuggire intenti

Ove vestigio human l’arena stampi.

PETRARCA. Sonetti.

Se queres saber o meio

Por que as vezes me arrebata

Nas azas do pensamento

A poesia tão grata;

Por que vejo nos meos sonhos

Tantos anginhos dos céos;

Vem commigo, ó doce amada,

Que eu te direi os caminhos,

Donde se enxérgão anginhos,

Donde se trata com Deos.

Fujamos longe das villas,

Das cidades populosas,

Do vegetar entre as vagas

Destas côrtes enganosas;

Fujamos longe, bem longe,

Deste viver cortesão!

Fujamos desta impureza,

Só vês cordura por fóra;

Mas nunca o vicio que mora

Nas dobras do coração!

Fujamos! que nos importa

Rodar do carro que passa,

Esta orgulhosa vã gloria,

Que se resolve em fumaça?

Estas vozes, estes gritos,

Este viver a mentir?

Fujamos, que em taes logares

Não ha prazer innocente,

Só alegria que mente,

Só labios que sabem rir!

Fujamos para o deserto;

Vivamos alli sosinhos,

Sosinhos, mas descuidados

Destes cuidados mesquinhos;

Tu o azul do espaço olhando

E eu só a rever-me em ti!

Quando depois nos tomarmos

Á terra serena e calma,

Aqui acharei tua alma,

E tu me acharás aqui.

Ou corramos o oceano

Que d’immenso a vista cança;

Dormirei no teu regaço

Quando o tempo for bonança,

Quando o batel for jogando

Em leve ondular sem fim.

Mas nos roncos da procella,

Nossos olhos encontrados,

Nossos braços enlaçados,

Hei de cantar-te, inda assim!

Ou se mais te praz, zombemos

Das setas que arroja a sorte;

Vivamos nas minhas selvas,

Nas minhas selvas do norte,

Que gemem nenias sentidas

No seio da escuridão.

Não tem doçura o deserto,

Não têm harmonia os mares,

Como o rugir dos palmares

No correr da viração!

Tu verás como a luz brinca

Nas folhas de côr sombria;

Como o sol, pintor mimoso,

Seos accidentes varia;

Como é doce o romper d’alva,

Como é fagueiro o luar!

Como alli sente-se a vida

Melhor, mais viva, mais pura,

N’aquella eterna verdura,

N’aquelle eterno gozar!

Vem commigo, oh! vem depressa,

Não se esgota a natureza;

Mas desbota-se a innocencia,

Divina e sancta pureza,

Que dá vida aos objectos,

Feituras da mão de Deos!

Vem commigo, ó doce amada,

Que são estes os caminhos,

Donde eu enxergo os anginhos,

Que tu vês nos sonhos meus.


A UM POETA EXILADO.

Il accuse et son siècle, et ses chants, et sa lyre,

Et la coupe enivrante où, trompant son délire,

La gloire verse tant de fiel,

Et ses voeux, poursuivant des promesses funestes,

Et son coeur, et la Muse, et tous ces dons célestes,

Hélas! qui ne sont pas le ciel!

V. HUGO.

Tão bem vaguei, Cantor, por clima estranho,

Vi novos valles, novas serranias,

Vi novos astros sobre mim luzindo;

E eu só! e eu triste!

Ao sereno Mondego, ao Doiro, ao Tejo

Pedi inspirações,—e o Doiro e o Tejo

Do misero proscripto repetirão

Sentidos carmes.

Repetio-mos o placido Mondego;

Talvez em mais de um peito se gravárão,

Em mais de uns meigos labios murmurados,

Talvez soárão.

Os filhos de Minerva, novos cysnes,

Que a fonte dos amores meigos cria,

E alguns de Lyzia sonorosos vates,

Sisudos mestres;

Ouvindo aquelle canto agreste e rudo

Do selvagem guerreiro,—e a voz do piaga

Rugindo, como o vento na floresta,

Prenhe d’augurios;

Benignos me olharão, e aos meos ensaios

Talvez sorrirão; porém mais prendeo-me,

Quem soffrendo como eu, chorou commigo;

Quem me deo lagrimas!

Eu pois, que nesta vida hei aprendido

Só cantar e soffrer, não vejo embalde

Ao conto a dôr unida,—e os repassados

Versos de pranto.

Do triste poleá choro a desdita,

Choro e digo entre mim: «Pobre Canario

Que fado máo cegou, por que soltasse

Mais doce canto;

Pobre Orpheo, nestes tempos mal nascido,

Atraz d’um bem sonhado pelo mundo

A vagar com lyra—um bem que os homens

Não podem dar-te!

Se quer esta lembrança a dôr te abrande:

A vida é breve, e o teo cantar simelha

Vagido fraco de menino enfermo,

Que Deos escuta.


PALINODIA.

O céo não te dotou de formosura,

De attractivo exterior, e a natureza

Teo peito inficionou co’a vil torpeza

D’ingrata condição fallaz e impura!

BOCAGE.

Se só por vós, Senhora, corpo e alma,

Apezar da aversão que tenho ao crime,

Inteiro me embucei nos seos andrajos,

Em tremedal de vicios;

Se só por vós descri do que era nobre,

Por que involto em torpeza immunda e feia,

As vestes da virtude immaculada

Rebolquei-as no lodo;

Se só por vós persegue-me o remorso,

Que os dias da existencia me consome,

E entre angustias crueis minha alma anceia,

—Ludibrio dos meos erros:

Consenti que a moral os seos direitos

Reivendique uma vez, e que a minha alma

Das lições que bebeo na pura infancia

Uma hora se recorde!

Agora, agro censor, hão de os meos labios,

Duras verdades trovejando em verso,

Fazer de vós, o que a razão não pôde,

—Mulher ou estatua!

Mentistes quando amor tinheis nos labios,

Mentistes a compor meigos sorrisos,

Mentistes no olhar, na voz, no gesto...

Fostes bem falsa!...

Falsa, como a mulher que em bruta orgia

Finge extremos de amor que ella não sente,

E o rosto off’rece á osculos vendidos,

Ao sigillo da infamia.

Quantas vezes, Senhora, não cahistes

Humilhada, á meos pés, desfeita em pranto,

Chorando—e que choraveis?—a jurar-me...

—Que juraveis então?

Se pois sentistes compaixão amiga

A cahir gota a gota dos meos labios

No que eu suppunha cicatriz recente,

E que era ulcera funda;

Se me vistes os olhos incendidos,

Sangrar-me o coração no peito afflicto

Ao fel das vossas dôres, que azedaveis

Co’o pranto refalsado.

Ouvi!—não ereis bella,—nem minha alma

Vos amou, que um modello de virtudes,

—Um sublime ideal—amou somente;

Vós o não fostes nunca.

Que uma alma como a vossa, já manchada,

Aos negros vicios mais que muito affeita,

Já feia, já corrupta, já sem brilho....

Amal-a eu, Senhora!

Deitar-me sob a cópa traiçoeira,

Que ao longe espalha a sombra, o engano, a morte;

Recostar-me no seio onde outros dormem,

Que por ninguem palpita!

Beijar faces sem vida, onde se enxerga

Visgo nojento d’osculos comprados;

Crêr no que dizem olhos mentirosos,

Em prantos de loureira!

Antes curvar o collo envilecido

Ao jugo vil da escravidão nefanda;

Beijar humilde a mão que nos offende,

Que nos cobre de opprobrio!

Antes, possesso d’imprudencia estupida,

Brincando remecher no açafate,

Onde por baixo de mimosas flores,

O aspide se esconde!

Mas eu, nos meos accessos de delirio,

Voz importuna de continuo ouvia,

Cá dentro em mim, a repr’hender-me sempre

De vos amar ... tão pouco!

Assim o cego idolatra se culpa,

Nos espasmos d’ascetica virtude,

De não amar assaz o vão phantasma,

De suas mãos feitura.

Porém se luz melhor de cima o aclara,

Cóspe affronta e desdem, e á chamma entrega

O cepo vil, que não merece altares,

Nem d’offrendas é digno!

Releva-se a imprudencia feminina,

Inda um erro, uma culpa se perdôa,

Se a desvaira a paixão, se amor a cega

No mar de escolhos cheio.

O Deos, que mais perdôa a quem mais ama,

Talvez da vida a negra mancha apaga

A quem as azas de algum anjo orvalha

De lagrimas contritas.

Mas não á aquella, em cujo peito móra

Torpeza só,—onde o amor se cobre

De vicios—a nutrir-se d’impurezas,

Como vermes de lodo.

Se porém te aproveita o meo conselho,

Á quem, mais do que a mim, tens offendido,

Que entre os risos do mundo, vê tua alma

E lê teos pensamentos;

Se não crês n’outra vida alem da morte,

Roga se quer a Deos, que te não rompa

Á luz do sol divino da Justiça

A mascara d’enganos!

Que a rainha da terra inamolgavel,

—A dura opinião—te não entregue,

Sosinha, e núa, e d’irrisão coberta,

Á popular vindicta!


OS SUSPIROS.

Mucha pena ¿verdad? mucha amargura

Guardaba allá en sus senos escondida

A despedir-te el alma dolorida,

Hijo de su cariño y su ternura.

ROMEA.

Muitas vezes tenho ouvido,

Como languidos gemidos,

Frouxos suspiros partidos

D’entre uns labios de coral:

A fina tez lhes deslustrão,

Bem como o alento que passa

Sobre o candor d’uma taça

De transparente crystal.

Ouvido os tenho mil vezes

Do coração arrancados,

Sobre labios desmaiados

Susurrando esvoaçar!

Como flôr submarinha

Da funda gleba arrancada,

De vaga em vaga arrastada,

Correndo de mar em mar!

Ouvido os tenho mil vezes,

Em quanto a lúa fulgura,

Quando a virgem d’alma pura

Fita seos olhos no céo:

Notas de mundo longinquo

Repassadas de harmonia,

Diamante que alumia

A tela de um fino véo!

Tu, virgem por que suspiras?

Quando suspiras que scismas?

Em que reflexões te abysmas?

—Do passado ou do porvir;

Mas não tens passado ainda,

Tudo é flores no presente,

Brilha o porvir docemente,

Como do infante o sorrir.

Tu, virgem, por que suspiras?

—Murmura trepida a fonte,

De relva se cobre o monte,

As aves sabem cantar;

O ditoso tem sorrisos,

O desgraçado tem pranto,

A virgem tem mais encanto

No seo vago suspirar!

Suspirar, ó doce virgem,

É da alma a voz primeira,

A expressão mais verdadeira

Da sina e do fado teo!

Vago, incerto, indefinido,

Tem um quê de inexplicavel,

Como um desejo insondavel,

Como um reflexo do céo.

Eu amo ouvir teos suspiros,

Ó doce virgem mimosa,

Como nota harmoniosa,

Como um cantico de amor;

Mais do que a flôr entre as vagas

Sem destino fluctuando,

Folgo de os ver expirando

Em labios de rubra côr.

Mais que a longinqua harmonia,

Que o alento fraco, incerto,

Que o diamante coberto,

Scintillando almo fulgor;

Fólgo de ouvir teos suspiros,

Ó doce virgem mimosa,

Como nota harmoniosa,

Como um cantico de amor!


QUEIXUMES.

I.

Onde estás, meo senhor, meos amores?

A que terras—tão longes!—fugiste?

Onde agora teos dias se escoão?

Por que foi que de mim te partiste?

II.

Não te lembras! quando eu te rogava

Não te fosses de mim tão azinha,

Prometteste-me breve ser minha

Tua vida, que o mar me roubava.

III.

Tão amigo do mar foste sempre,

Por que amigos talvez não achaste!

Nem carinhos, nem prantos te ameigão?

Nem por mim, que te amava, o deixaste?

IV.

Vejo além o logar onde estava

Tua esbelta fragata ancorada,

Mal soffrida jogando afagada

Do galerno que amigo a chamava.

V.

Da partida era o funebre instante,

Breve instante de afflictos terrores,

Quando o mar traiçoeiro, inconstante,

Me roubava meos puros amores!

VI.

Inda chóro essa noite medonha,

Longa noite de má despedida!

Teo amor me deixaste nos braços,

Nos teos braços levaste-me a vida!

VII.

Oh! cruel, que então foste commigo,

Que te hei feito que punes-me assim?

Teo navio que tantos levava,

Não podia levar mais a mim?

VIII.

Mas a mim!—que importava que eu fosse?

Não me ouvira a tormenta chorar,

E morrer me seria mais doce

Junto a ti,—que o meo triste penar!

IX.

Junto a ti me era a vida bem cara,

Oh! bem cara!—se ledo sorrias,

Se pensavas sosinho e profundo,

Se agras dôres comtigo curtias;

X.

Eu te amava, senhor!—Nem podia

Dentro em mim, convencer-me que fosse

Outra vida melhor, nem mais doce,

Nem que o amor se acabasse algum dia!

XI.

Mas o mar tem lindezas que encantão,

Tem lindezas, que o nauta namora,

Tão bem dizem que vozes descantão

No silencio pacato desta hora!

XII.

São de nymphas os mares pejados,

Tão bem dizem, que sabem magia,

Que suscitão cruel calmaria,

Só d’em torno dos seos namorados!

XIII.

Alta noite, bem perto, apparece,

Como leiva juncada de flôres,

Ilha fertil em faceis amores,

Onde o nauta da vida se esquece!

XIV.

Não te esqueças de mim!—Por Sevilha

Quando o peito de branco marfim

Perceberes na preta mantilha,

Sombreado por leve carmim;

XV.

Quando vires passar a Andalusa

Pelos montes, com ar magestoso,

Decantando nas modas de que usa

As loucuras do Cid amoroso;

XVI.

Quando vires a molle Odalisca.

De belleza e de extremos fadada,

Respirando perfumes da Arabia,

Em sericos tapises deitada;

XVII.

Quando a vires co’a fronte bem cheia

De riquezas, de graças ornada,

Pelo andar do elefante embalada,

Que alta escolta de eunuchos rodeia;

XVIII.

Quando vires a Grega vagando

Pelas Ilhas de Cós ou Megára,

Em sua lingoa, tão doce, cantando

Seos amores que o Turco roubara;

XIX.

Quando a vires no Carro de Homero,

Bella e grave e sisuda lavrando,

Pelos montes melifluos do Hymeto

A parelha de bois aguilhando;

XX.

Não te esqueção meos duros pesares,

Não te esqueças por ellas de mim,

Não te esqueças de mim pelos mares,

Não me esqueças na terra por fim!

XXI.

Se eu fosse homem, tão bem desejára

Percorrer estes campos de prata,

E este mundo, na tua fragata,

Co’uma esteira cingir d’onda amara.

XXII.

Qu’ria ver a andorinha coitada

Nos meos mastros fugida poisar,

E achar no convez abrigada,

Quando o vento começa a reinar!

XXIII.

Ver o mar de toninhas coberto,

Ver milhares de peixes brincar,

Ver a vida nesse amplo deserto

Mais valente, mais forte pular!


Oh! que o homem fosse eu, mulher tu fosses,

Ou fosse tempestade ou calmaria,

Ou fosse mar ou terra, Hespanha ou Grecia,

Só de ti, só de ti me lembraria!

O mar suas ondas inconstante volve,

Sem que o seo curso o mesmo rumo leve,

Assim dos homens a paixão se move,

Fallaz e vária, assim no peito ferve!

Meditados enganos sempre encobre

O mesmo que ao principio ardente amava;

Oxalá não diga eu que me enganava,

Que teo peito julguei constante e nobre!

Oh! que o homem fosse eu, mulher tu fosses,

Ou fosse tempestade ou calmaria,

Ou fosse mar ou terra, Hespanha ou Grecia,

Só de ti, só de ti me lembraria!


AO ANNIVERSARIO DE UM CASAMENTO.

A MRS. A. N. V. DA G.

A filha d’Albion bem vinda seja

Ao solo brasileiro!

Bem vinda seja ás margens florescentes

Do Rio hospitaleiro!

Qu’importa que te acene a Patria ao longe,

Que vejas incessante

As memorias, os templos, os palacios

Da Cidade gigante?

A patria é onde quer que a vida temos

Sem penar e sem dôr;

Onde rostos amigos nos rodeião,

Onde temos amor:

Onde vozes amigas nos consolão

Na nossa desventura,

Onde alguns olhos chorarão doridos

Na erma sepultura;

A patria é onde a vida temos presa:

Aqui tão bem ha sol!

Tão bem a brisa corre fresca e leve

Da manhã no arrebol!

Aqui tão bem a terra produz flores,

Tão bem os céos têm côr;

Tão bem murmura o rio, e corre a fonte,

E os astros têm fulgor!

Aqui tão bem se arrelva o prado, o monte,

De mimoso tapiz;

Nas azas do silencio desce a noite

Tão bem sobre o infeliz!

A filha d’Albion bem vinda seja

Ao solo brasileiro;

Bem vinda seja ás margens florescentes

Do Rio hospitaleiro!

Compridos annos e folgados viva

Neste ditoso clima,

E veja á par dos filhos seos queridos

Crescer do esposo a estima!

Possa eu tão bem do seo feliz consorcio

De novo em cada anno

Soltar um hymno de amizade extreme,

Um canto mais que humano!

24 de Março.


CANTO INAUGURAL.
Á MEMORIA DO CONEGO JANUARIO DA CUNHA BARBOSA.

Onde essa voz ardente e sonorosa,

Essa voz que escutámos tantas vezes,

Polida como a lamina d’um gladio,

Essa voz onde está?

No rostro popular severa e forte,

No pulpito serena, amiga e branda,

Pelas naves do templo reboava,

Como oração piedosa!

E a mão segura, e a fronte audaciosa,

Onde um vulcão de ideias borbulhava,

E o generoso ardor de uma alma nobre

—Onde párão tão bem?

Novo Colombo audaz por novos mares,

A sonda em punho, os olho nas estrellas,

Co’as bronzeas quilhas retalhando as vagas

Do inhospito elemento;

Porfioso e tenaz no duro empenho,

No manto do porvir bordava ufano,

Sob os tropheos da liberdade sacra,

Os destinos da Patria!

Nocturno viajor que andou vagando

A noite inteira, a revolver-se em trevas,

Onde te foste, quando o sol roxeia

Nuvens de um céo mais puro?

Seccou-se a voz nas fauces resequidas,

Parou sem força o coração no peito,

Quando somente um pé firmava a custo

Na terra promettida!

E a mão cançada fraquejou ... pendeo-lhe,

Inda a vejo pendente, sobre os paginas

Da patria historia, onde gravou seo nome

Tarjado em letras d’oiro.

Pendeo-lhe ... quando a mente escandecida

Talvez quadro maior lhe affigurava

Que a luta acerba do Titan brioso,

Ultima prole de Saturno.

Inveja Claudiano pincel valido,

Que nos retrata o cataclysmo horrendo,

Que elle—poeta—não achou nos combros

Da ignivoma Tessalia!

Inveja!... mas ás formas do Gigante

Sorri-se o grande Homero;—e o cego Bardo

Da verde Erin, entre os heróes famosos

Prazenteiro o recebe!


Dorme, ó lutador, que assaz lutaste!

Dorme agora no gelido sudario;

Foi duro o afan, asperrima a contenda,

Será fundo o descanço.

Dorme, ó lutador, teo somno eterno;

Mas sobre a lousa do sepulchro humilde,

Como na vida foi, surja o teo busto

Austero e glorioso.

Columna inteira em combros derrocados,

Rolo encerado, que já beija as praias

Do remoto porvir,—seguro e salvo

Dos naufragios d’um seculo;

Dorme!—não serei eu quem te desperte,

Meos versos ... não serão:—palmas sem graça,

Ou pobre ramo d’arvore funerea,

Pyramidal cypreste.

São flôres que desfolha sobre um tumulo

Singelo, entre um rosal, quasi fagueiro,

Piedosa mão de peregrino extranho,

Que alli passou acaso!


TABYRA.


DEDICATORIA

AOS PERNAMBUCANOS.

Salve, terra formosa, ó Pernambuco,

Veneza Americana, transportada

Boiante sobre as agoas!

Amigo genio te formou na Europa,

Genio melhor te despertou sorrindo

Á sombra dos coqueiros.

Salve, risonha terra! são teos montes

Arrelvados, innumeros teos valles,

Cujas veias são rios!

Doces teos prados, tuas varzeas ferteis,

Onde reluz o fructo sasonado

Entre o matiz das flores!

Outros, patria d’heroes, teos feitos cantem,

E a bella historia de colonia exaltem,

E os nomes forasteiros;

Não eu, que nada almejo senão ver-vos,

Tu e Olinda, ambas vós, co’os olhos longos,

Expraiados no mar!

Ambas vós, sobre tudo americanas,

Doces flores dos mares de Colombo,

Filhas do norte ardente!

Virgens irmãs, que vão de mãos travadas

Sorrirem d’innocencia á propria imagem,

Que luz em claro arroyo.

Andei, por vós somente, em vossas matas,

Colhendo agrestes flores na floresta,

Não respiradas nunca,

Singelas, como vós,—como vós, bellas,

Ennastrei-as em forma de grinalda

Fino, extremoso amante!

Não vivem muito as flores: são meos versos

Ephemeros como ellas; côr sem brilho,

Ou perfume apagado,

Ou trino fraco d’ave matutina,

Ou echo de um baixel que passa ao longe

Com descante saudoso.


TABYRA.
(POESIA AMERICANA.)

Les peaux rouges, plus nobles, mais plus infortunées
que les peaux noires, qui arriveront un jour á la
liberté par l’esclavage, n’ont d’autre recours que la
mort, parce que leur nature se refuse à la servitude.

* * *

I.

É Tabyra guerreiro valente,

Cumpre as partes de chefe e soldado;

É caudilho de tribu potente,

—Tobajaras—o povo senhor;

Ninguem mais observa o tratado,

Ninguem menos de p’rigos se aterra,

Ninguem corre aos acenos da guerra

Mais depressa que o bom lidador!

II.

Seo viver é batalha aturada,

Dos contrarios a traça aventando;

É dispor a cilada arriscada,

Onde o imigo se venha metter!

Levão noites com elle sonhando

Potiguares, que o virão de perto;

Potiguares, que assellão por certo

Que Tabyra só sabe vencer!

III.

Mil enganos lhe têm já tecido,

Mil ciladas lhe têm preparado;

Mas Tabyra, fatal, destemido,

Tem feitiço, ou encanto, ou condão!

Sempre o plano da guerra é frustrado,

Sempre bravo fronteiro apparece,

Que os enganos crueis lhes destece,

Face a face, arco e setas na mão.

IV.

Já dos Luzos o troço apoucado,

Paz firmando com elle traidora,

Dorme illeso na fé do tratado,

Que Tabyra é valente e leal.

Sem Tabyra dos Luzos que fôra?

Sem Tabyra que os guarda e defende,

Que das pazes talvez se arrepende

Já feridas outr’ora em seo mal!

V.

Chefe stulto d’um povo de bravos,

Mas que os piagas victorias te fadem,

Hão de os teos, miserandos escravos,

Taes triunfos um dia chorar!

Caraibas taes feitos applaudem,

Mas sorrindo vos forjão cadeias,

E pesadas algemas, e peias,

Que traidores vos hão de lançar!

VI.

Chefe stolido, insano, imprudente,

Sangue e vida dos teos malbaratas?!

Mingua as forças da tribu potente,

Vencedora da raça Tupi!

Hão de os teca, acoçados nas matas

Mal feridos, sangrentos, ignavos,

Não podendo viver como escravos,

Dar o resto do sangue por ti!

VII.

Vivem homens de pel’ côr da noite

Neste solo, que a vida embelleza;

Podem, servos, debaixo do açoite,

Nenias tristes da patria cantar!

Mas o indio que a vida só preza

Por amor dos combates, e festas

Dos triunfos sangrentos, e sestas

Resguardadas do sol no palmar;

VIII.

Ocioso, indolente, vadio,

Ou activo, incançavel, fragueiro;

Já nas matas, no bosque erradio,

Já disposto a lutar, a vencer;

Ama as selvas, e o vento palreiro,

Ama a gloria, ama a vida; mas antes

Que viver amargados instantes,

Quer e pode e bem sabe morrer!

IX.

Eis, avante! ó caudilho valente!

Potiguares lá vêm denodados;

Tão cerrado concurso de gente,

Ninguem vio nestas partes assim!

Poucos são, mas briosos soldados;

Não são homens de aspecto jocundo!

Restos são, mas são restos d’um mundo;

Poucos são, mas soldados por fim!

X.

Os seos velhos disserão comsigo,

Discutindo os motivos da guerra:

«É Tabyra—cruel, inimigo,

Já nem crê, renegado, em Tupan!»

Pés robustos lá batem na terra,

Pó ligeiro se expande nos ares:

Era noite! milhar de milhares

São armados, mal rompe a manhã.

XI.

Vêm soberbos,—o sol luz apenas!

Confiados, galhardos, lustrosos,

Vêm bizarros nas armas, nas pennas,

Atrevidos no accento e na voz!

Um d’entre elles, dos mais orgulhosos,

Sóbe á pressa nas aspas d’um monte:

Dalli brada, postado defronte

De Tabyra—com geito feroz:

XII.

«Ó Tabyra, Tabyra! aqui somos

A provar nossas forças comtigo;

Dizes tu que vencidos já fomos!

Dil’-o tu, não n’o diz mais ninguem.

Ora eu só a vós todos vos digo:

Sois cobardes, irmãos de Tabyra!

Propagastes solemne mentira,

Que vencer não sabemos tão bem.

XIII.

«Para o vosso terreiro vos chamo,

Contra mim vinde todos,—sou forte:

Occorrei ao meo nobre reclamo!

Aqui sou, nem me parto daqui!

Vinde todos em densa cohorte:

Travaremos combate sangrento,

Mas por fim do triunfo cruento

Direis vós, se fui eu quem menti.»

XIV.

Disse o arauto: eis a turba ufanosa

Lhe responde, arco e setas brandindo,

Pés batidos, voz alta e ruidosa:

—Bem fallado, ó guerreiro, mui bem!

Assim é; mas Tabyra rugindo,

Resentido de offensas tamanhas,

O rancor mal encobre das sanhas,

Que não lava no sangue de alguem.

XV.

Raso outeiro alli perto se off’rece:

Vinga-o prestes, hardido, açodado!...

Como leiva de pallida messe,

Já madura, tremendo no pé;

Todo o campo descobre occupado

Por guerreiros,—no extremo horisonte

Não destingue nas faldas do monte,

O que é gente, o que gente não é.

XVI.

Não se abala o preclaro guerreiro,

Do que vê seo valor não fraqueia;

Diz comsigo: «Um só golpe certeiro

Vai de todo esta raça apagar!

Juntos são, mas são meos!»—Já vozeia;

Logo os seos lhe respondem gritando,

Taes rugidos, taes roncos soltando

Que aos seus proprios deverão turbar!

XVII.

Diz a fama que então de assustadas

Muitas aves que o espaço crusavão,

De pavor subitaneo tomadas,

Descahião pasmadas no chão:

Já com silvos e atitos voavão

Muitas outras, que o triste gemido

No conflicto, abafado e sumido,

Talvez darão,—mas fraco, mas vão!

XVIII.

Eis que os arcos de longe se encurvão,

Eis que as setas aladas já voão,

Eis que os ares se cobrem, se turvão,

De frexados, de surdos que são.

Novos gritos mais altos reboão,

Entre as hostes se apaga o terreno,

Já tornado apoucado e pequeno,

Já coberto de mortos o chão!

XIX.

Peito a peito encontrados afoutos,

Braço a braço travados briosos,

Fervem todos inquietos, revoltos,

Qu’indicisa a victoria inda está.

Todos movem tacápes pesados;

Qual resvala, qual todo se enterra

No imigo que morde na terra,

Que sepulcro talvez lhe será.

XX.

«Mas Tabyra! Tabyra! que é delle?

«Onde agora se esconde o pujante?»

—Não n’o vedes?!—Tabyra é aquelle

—Que sangrento, impiedoso la vai!

—Vel-o-heis andar sempre adiante,

—Larga esteira de mortos deixando

—Traz de si, como o raio cortando

—Ramos, troncos do bosque, onde cai.—

XXI.

«Foge! foge! leal Tobajara;

«Quantos arcos que em ti fazem mira?!»

—Muitos são; porém medos encara

—Face a face, quem é como eu sou!—

Muitas setas cravejão Tabyra:

Bello quadro!—mas vel-o era horrivel!

Porco-espim que sangrado e terrivel

Duras cerdas raivando espetou!

XXII.

Tem um olho d’um tiro frexado!

Quebra as setas que os passos lh’impedem,

E do rosto, em seo sangue lavado,

Frexa e olho arrebata sem do!

E aos imigos que o campo não cedem,

Olho e frexa mostrando extorquidos

Diz, em voz que mais erão rugidos:

—Basta, vis, por vencer-vos um só!

XXIII.

E com furia tão grande arremettem,

Com despego tão nobre da vida;

Tantos golpes, tão fundos repetem,

Que senhores do campo já são!

Potiguares lá vão de fugida,

Inda á fera mais torva e bravia

Disputando guarida d’um dia

No mais fundo do vasto sertão!

XXIV.

Potiguares, que a aurora risonha

Vio nação numerosa e potente,

Não já povo na tarde medonha,

Mas só restos d’um povo infeliz!

Insepultos na terra inclemente

Muitos dormem; mas ha quem lh’inveja

Essa morte do bravo em peleja,

Quem a vida do escravo maldiz!

XXV.

«Este o conto que os Indios contavão,

«A deshoras, na triste senzalla;

«Outros homens alli descançavão,

«Negra pel’; mas escravos tão bem.

«Não choravão; somente na falla

«Era um quê da tristeza que mora

«Dentro d’alma do homem que chora

«O passado e o presente que tem!»


HYMNOS.


A LUA.

Figlia del ciel, sei bella!

Ma verrà notte ancor, che tu, tu stessa

Cadrai per sempre, e lascierai nel cielo

Il tuo azzurro sentier!

CESAROTTI.

Salve, ó Lua candida,

Que traz dos altos montes

Erguendo a fronte pallida,

Dos negros horisontes

As sombras melancolicas

Vens ora afugentar!

Salve, ó astro fulgido,

Que brilhas docemente,

Melhor que o lume tremulo

D’estrella inquieta, ardente,

Melhor que o brilho esplendido

Do sol ferindo o mar!

Salve, ó reflexo tenue

Da eterna luz preclara

Nas nossas noites horridas;

Qual sol que em lympha clara

Desponta os raios vividos,

Em tarja multicor;

Es como a virgem púdica,

Que amor no peito encerra;

Mas só, mas solitaria,

Vagando aqui na terra,

Treplíca o sello mystico

Do não sabido amor!

Eu te amo, ó Lua candida,

No gyro somnolento,

E o teo cortejo madido

De estrellas, e do vento

O sopro merencorio,

Que á noite dá frescor.

Por teos influxos magicos

Minha alma aos sons do canto

Revive; e os olhos humidos

Gotejão triste pranto,

Que orvalha a chaga tepido,

Que mingua a antiga dôr!

Em gelido sudario

De neve alvi-nitente,

Por terras vi longinquas,

Durante a noite algente,

A tua luz benfica

Luzir meiga do céo.

Nos mares solitarios

Tão bem a vi!—nas vagas

Brincava o lume argenteo,

Cantava o nauta as magas

Canções, no voluntario,

Cançado exilio seo!

Tão bem a vi na limpida

Corrente vagarosa;

Tão bem nas densas arvores

De selva magestosa,

Coando os raios lubricos

No lobrego palmar.

E eu só e melancolico

Sentado ao pé da veia,

Que a deslisar-se timida

Beijava a branca areia;

Ou já na sombra tetrica

Da mata secular;

Em devaneio placido

Velava, em quanto via

Ao longe—os altos pincaros

Da negra serrania,

—Disformes atalaias,

Que sempre alli serão!

No rórido silencio

Minha alma se exaltava;

E das visões phantasticas,

Que a lua desenhava,

Seguia os traços aureos,

Tremendo em negro chão!

Pensava ledo, improvido,

Até que de repente

Da minha vida misera

Se me antolhava á mente

A quadra breve e rapida

Do malfadado amor.

Então fugia attonito

O bosque, a selva, a fonte,

E as sombras, e o silencio;

Bem como o cervo insonte,

Que ás setas foge pavido

Do fero caçador!

Salve, ó astro fulgido,

Que brilhas docemente,

Melhor que o lume tremulo

D’estrella inquieta, ardente,

Melhor que o brilho esplendido

Do sol ferindo o mar.

Eu te amo, ó Lua pallida,

Vagando em noite bella,

Rompendo as nuvens turbidas

Da rispida procella;

Eu te amo até nas lagrimas

Que faces derramar.


A NOITE.

Noite, melhor que o dia, quem não te ama!

Quem não vive mais brando em teo regaço!

FILINTO.

Eu amo a noite solitaria e muda,

Quando no vasto céo fitando os olhos,

Alem do escuro, que lhe tinge a face,

Alcanço deslumbrado

Milhões de sóes a divagar no espaço,

Como em salas de esplendido banquete

Mil tochas aromaticas ardendo

Entre nuvens d’incenso!

Eu amo a noite taciturna e quêda!

Amo a doce mudez que ella derrama,

E a fresca aragem pelas densas folhas

Do bosque murmurando:

Então, máo grado o véo que involve a terra,

A vista do que vela enxerga mundos,

E apezar do silencio, o ouvido escuta

Notas de ethereas harpas.

Eu amo a noite taciturna e quêda!

Então parece que da vida as fontes

Mais faceis correm, mais sonoras soão,

Mais fundas se abrem;

Então parece que mais pura a brisa

Corre,—que então mais funda e leve a fonte

Mana,—e que os sons então mais doce e triste

Da musica se espargem.

O peito aspira sofrego ar de vida,

Que da terra não é; qual flôr nocturna,

Que bebe orvalho, elle se embebe e ensopa

Em extasis de amor:

Mais direitas então, mais puras devem,

Calada a natureza, a terra e os homens,

Subir as orações aos pés do Eterno

Para afagar-lhe o throno!

Assim é que no templo magestoso

Rebôa pela nave o som mais alto,

Quando o sacro instrumento quebra a augusta

Mudez do sanctuario:

Assim é que o incenso mais direito

Se eleva na capella que o resguarda,

E na chave da abobada topando,

Como um docel, se expraia.

Eu amo a noite solitaria e muda;

Como formosa dona em regios paços,

Trajando ao mesmo tempo luto e galas

Magestosa e sentida;

Se no dó attentais, de que se enluta,

Certo sentis pezar de a ver tão triste;

Se o rosto lhe fitais, sentis deleite

De a ver tão bella e grave!

Considerai porêm o nobre aspecto,

E o pórte, e o garbo senhoril e altivo,

E as fallas poucas, e o olhar sob’rano,

E a fronte levantada:

No silencio que a véste, adorna e honra,

Conhecendo por fim quanto ella é grande,

Com voz humilde a saudareis rainha,

Curvado e respeitoso.

Eu amo a noite solitaria e muda,

Quando, bem como em salas de banquete

Mil tochas aromaticas ardendo,

Girão fúlgidos astros!

Eu amo o leve odor que ella diffunde,

E o rorante frescor cahindo em per’las,

E a magica mudez que tanto falla,

E as sombras transparentes!

Oh! quando sobre a terra ella se estende,

Como em praia arenosa mansa vaga;

Ou quando, como a flôr d’entre o seo musgo,

A aurora desabrocha;

Mais forte e pura a voz humana sôa,

E mais se accórda ao hymno harmonioso,

Que a natureza sem cessar repete,

E Deos gostoso escuta.


A TEMPESTADE.

Fervescere faciet, quasi ollam,

profundum mare.

JOB 41, 42.

I.

De côr azul brilhante o espaço immenso

Cobre-se inteiro; o sol vivo luzindo

Do bosque a verde coma esmalta e doira,

E na corrente dardejando á prumo

Scintilla e fulge em laminas doiradas.

Tudo é luz, tudo vida, e tudo cores!

Nos céos um ponto só negreja escuro!

Eis que das partes, onde o sol se esconde,

Brilha um clarão fugaz pallido e breve:

Outro vem apoz elle, inda outro, muitos;

Succedem-se frequentes,—mais frequentes,

Assumem côr mais viva,—inda mais viva,

E em breve espaço conquistando os ares

Os horisontes co’o fulgir roxeião.

Qual mancha d’oleo em tela assetinada

Que os fios todos lhe repassa e embebe;

Ou qual abutre do palacio aereo

Tombando acinte,—no descer sem azas

Um ponto só,—até que em meia altura

Abrindo-as, paira magestoso e horrendo:

Assim o negro ponto avulta e cresce,

E a cupola dos céos de côr medonha

Tinge, e os céos alastra, e o espaço occupa.

A abobada de trevas fabricada

Descança em capiteis de fogo ardente!

De quando em quando o vento na floresta

Silva, ruge, e morre; e o vento ao longe

Rouqueja, e brama, e cava-se empolado,

E aos pincaros da rocha ennegrecida

De iroso e mal soffrido a espuma arroja!

Raivoso turbilhão comsigo arrastra

O argueiro, a folha em vortice espantoso;

No valle arranca a flôr, sacode os troncos,

Na serra abala a rocha, e move as pedras,

No mar os vagalhões incita e crusa.

II.

Os sons da tempestade ao longe escuto!

Concentra a natureza os seos esforços

Primeiro que entre em luta; não lampeja

Invio fogo nos céos; não sopra o vento:

É tudo escuridão, silencio e trevas!

Somente o mar de soluçar não cessa,

Nem de rugir as ramas buliçosas,

Nem de soar confuso borborinho,

Incompr’ensivel, como que sem causa,

Immenso como o echo de mil vozes

No céo de extensa gruta repulsando.

Silencio! perto vem a tempestade!

Gravidas nuvens de fataes coriscos,

Sem rumo, como náo em mar desfeito,

Em muda escuridão negros phantasmas,

Indistinctos, sem forma,—ondulão, jogão.

Logo poder occulto impelle as nuvens,

Attrahem-se os castellos tenebrosos,

Embatem-se nos ares,—brilha o raio,

E o ronco do trovão após rimbomba!

III.

Ruge e brame, sublime tempestade!

Desprende as azas do tufão que enfreias,

Despega os élos do veloz corisco

E as nuvens rasga em rubidas crateras.

Os fuzis da cadeia temerosa

Desfaz e quebra; e o espaço e as nuvens

Do teo açoite aos lategos bramindo,

Occupem de pavor os céos e a terra.

Ruge, e o teo poder mostra rugindo;

Que assim por teos influxos me commoves,

Que todo me electrisas e me arroubas!

Qual foi Mazeppa no veloz ginete

Por desertos, por syrtes arenosas

Jungido e preso e attonito levado;

Assim minha alma sobe e vai comtigo,

E vinga os teos palacios mais subidos,

Contempla os teos horrores, e dos astros

No prazer, que lhe dás, toda embebida,

Máo grado teo horror, folga comtigo!

Parece que alli tem a regia c’roa

Que o feliz condemnado achou na Ukraina.

Ruge, ruge embora, ó tempestade!

IV.

Emfim descendo a chuva copiosa

Nuvens, bulcões desfaz; os rios crescem,

De perolas a relva se matisa,

O céo de puro azul todo se arreia,

Sorri-se a natureza, e o sol rutila!

V.

Assim, meo Deos, assim será no dia

Do final julgamento, quando o anjo

Soprar a tromba que desfez os muros

De Jerichó soberba!

O mar sobrepujando os seos limites,

Com roncos temerosos, nunca ouvidos,

Virá para sorver, com furia brava,

Ilhas e continentes.

O sol, perdendo o brilho e a natureza,

Não luz, mas puro fogo, ha de accender-se,

Como o fogo sagrado, que se prende

Nas cortinas do templo.

Os orbes dos seos eixos desmontados,

No abysmo hão de cahir com grande estrondo,

E, redomas de vidro, hão de partir-se

Em pedaços sem conto.

Do abysmo as solidões hão de acordar-se!

Flammivomos vapores condensados,

Té nós, e alem de nós, hão de elevar-se

Em pavoroso incendio.

O ar ha de accender-se, a terra em fogo

Tornar-se, como o ferro ardendo em fragoa.

Coalhar-se o mar e em aspera seccura

Converterem-se as ondas.

E nesta confusão de fumo e chammas,

Neste cháos, que a mente mal alcança,

Quando nada existir de quanto existe,

Será vencida a morte.

Logo, á um só dizer do Omnipotente,

O pó segunda vez ha de animar-se,

E os mortos, mal soffrendo a luz da vida,

Attonitos, pasmados;

Hão de erguer-se na campa, inteiros, vivos,

E como Adão, a tatear os membros,

Estranhos a existencia já vivida,

Perguntarão: Quem somos?

Então, Senhor, então,—tu o disseste—

Virás cheio de gloria e magestade,

Em solio de luzeiros resplendente,

E em celeste cortejo!

Virás, sol da justiça, em fins do mundo

Acalmar a procella, e quando aos mortos

Disseres tu, quem es,—lembrar-nos-hemos,

Senhor, do que já fomos.

Feliz então quem só viveo comtigo,

Quem n’ancora da fé prendeu sua alma,

Quem só em ti fundou sua esperança,

Pequeno e humilde!

Feliz então quem tua lei guardando,

Seos passos graduou nos teos caminhos;

Quem dia e noite revolveo comsigo,

Como aplacar-te.


NOVOS CANTOS.


O HOMEM FORTE.

Impavidum ferient...

HORAT.

O modesto varão constante e justo

Pensa e medita nas licções dos sabios

E nos caminhos da justiça eterna

Gradúa firme os passos.

O brilho da sua alma não mareia

A luz do sol, nem do carvão se tisna;

Morre pelo dever, austero e crente,

Confessando a virtude.

Pode a calumnia denegrir seos feitos,

Negar-lhe a inveja o merito subido;

Pode em seo damno conspirar-se o mundo

E renegal-o a patria!

Tão modesto nos paços de Locullo,

Como encerrado no tonel do Grego,

Nem o transtorna a aragem da ventura,

Nem a desgraça o abate.

A tyrannos preceitos não se humilha,

Ante o ferro do algoz não curva a fronte,

Não faz callar da consciencia o grito,

Não nega os seus principios.

Antes, seguro e firme e confiado

No tempo, vingador das injustiças,

Co’os pés no cadafalso e a vista erguida

Se mostra imperturbavel.

Soffre martyr e expira! A patria emtorno

Do seo sepulchro o chora, onde a virtude,

Affeita ao luto e á dor, de novo carpe

Do justo a flebil morte!


DIES IRAE.

Jaz o mundo corrupto!—a terra ingrata

Fructos de maldicção produz somente;

E em quanto os homens ao mercado affluem,

Vazio o templo do Senhor se enluta,

Empoeira-se o altar, e pelas naves,

Gretadas, rotas pela mão do tempo,

De canticos e preces deslembradas,

A voz de Deos já não rebôa immensa!

Tudo porêm conserva o mesmo aspecto:

O sol gyrando, e na apparencia o mesmo,

Do anno as quadras compassado alterna;

E os astros, seos irmãos, gravitão sempre

D’abobada celeste. A terra é a mesma;

As aguas pelos valles se deslisão,

Ou d’alpestres montanhas se despenhão

Co’os mesmos sons, co’a mesma queda: as brisas

Inda conversão nos soturnos bosques;

A mulher, a mais bella creatura,

Nas suas proprias perfeições compraz-se,

Como quando, no Eden, as pulchras formas

Pasmou de ver representadas n’agua,

E de as ver se ufanou. Inda conserva

O mesmo orgulho e intelligencia o homem,

O rei da creação, o deos creado,

De quando vinhão, por pedir-lhe os nomes,

Cetaceos, aves e os reptis e aquellas

Creaturas-montanhas, que passárão

Entre Adão e Noé á flor da terra!

Tudo o mesmo se mostra; mas a alma,

Esse mundo interior, esse outro templo,

Onde gravára o proprio Deos seo nome,

Como os templos de pedra, jaz sem lume,

Jaz como o predio a desfazer-se em ruinas,

Onde um guarda solicito não móra,

E entregue as aves más, que em chilros pregão,

Que alli na ausencia do senhor imperão.

Da divina bondade cheio o vaso

Já transborda de cholera e justiça

E o largo rio do perdão saudavel,

Que mais não corra, impece: Sanctas aguas

Por cuja causa os seculos já virão,

Sem justa punição, offensas graves;

Que o Senhor consentisse persistirem

Os máos no mal, á espera d’emmendal-os;

Que triumphasse a malvadeza; e o crime,

Vexando os bons, senhoreasse a terra.

Mas Deos, que fôra outrora pae clemente,

Dando começo ao reino da justiça,

Em austero juiz se ha convertido.

Como um carro, que vae d’encontro ao abysmo,

Perfaz o sol precipite o seo gyro,

Indo a tocar a temerosa méta

Prevista dos prophetas. Um archanjo

Com mão robusta inda retem os élos

Da cadeia do tempo, em quanto a outra

Da vida o livro volumoso sélla

Com sete bronzeos sellos. Deos offeso

Tira os olhos do mundo, e o mundo ha sido!

Quem podera pintar as discordancias

Em que labora a natureza! Crescem

Da terra igneos vapores, suffocando

O que respira, o que tem vida: os montes

Em crateras se rásgão, que vomitão

Fumo e lava incessante; o mar s’empola

E em furia ardendo, arroja aos altos cimos

Crusados vagalhões, qual se tentára

Sôvertel-os: os ventos se contrastão!

Novos prodigios, novos monstros surgem!

O mar se torna em sangue, o sol em fogo,

O Universo em mansão d’afflictas dores,

O homem soffre, blasphema e desespera,

E vendo os mundos desabar precipites,

Um grito sólta d’horroroso transe,

Como de náo, que em alto mar s’afunda

E rola os restos n’amplidão das aguas.

Satisfez-se o Senhor. Que resta?—O cháos,

O horror, a confusão, o vulto enorme

Do tempo, que escurece o fundo abysmo,

Onde por todo o sempre jaz captivo;

E da morte o cadaver gigantesco

Quasi occupando a superficie inteira

D’um mar de chumbo, escuro e sem rumores.

Da gloria do Senhor um raio apenas,

Lá dos confins do espaço despedido,

Fere da morte o rosto macilento

De tudo quanto foi, e quanto existe!


ESPERA!

Quem ha no mundo que afflicções não passe,

Que dores não supporte?

Mais ou menos d’angustias cabe a todos,

A todos cabe a morte.

A vida é um o negro d’amarguras

E de longo soffrer;

Simelha a noite; mas fagueiros sonhos

Podem de noite haver.

Por que então maldiremos este mundo

E a vida que vivemos,

Se nos tornamos do Senhor mais dignos,

Quanto mais dôr soffremos?

Quantos cabellos temos, elle o sabe;

Elle póde contar

As folhas que ha no bosque, os grãos d’areia

Que sustentão o mar.

Como pois não será elle comnosco

No dia da afflicção?

Como não ha de computar as dores

Do nosso coração?

Como ha de ver-nos, sem piedade, o rosto

Coberto d’amargura;

Elle, senhor e pae, conforto e guia

Da humana creatura?

Se o vento sopra, se se move a terra,

Se iroso o mar fluctúa;

Se o sol rutila, se as estrellas brilhão,

Se gyra a branca lúa;

Deos o quiz, Deos que mede a intensidade

Da dôr e da alegria,

Que cada ser comporta—n’um momento

D’arroubo ou d’agonia!

Embora pois a nossa vida corra

Alheia da ventura!

Alem da terra ha céos, e Deos protege

A toda creatura!

Viajor perdido na floresta á noite,

Assim vago na vida;

Mas sinto a voz que me dirige os passos

E a luz que me convida.


A SAUDADE.

Saudade, ó bella flor, quando te faltem

Coração ou jardim, onde tu cresças;

Vem, vem ter commigo;

Deixa os que te não seguem,

Terás em peito amigo

Lagrimas, que te reguem,

Espaço, em que floresças.

Das pegadas da ausencia tu despontas,

Entre as memorias cresces do passado,

Quando um objecto amado

Quando um logar distante,

Noite e dia,

Nos enluta e apouquenta a fantasia.

Vem, ó Saudade, vem

A mim tambem

Consolar de gemidos suspirosos

E de partidos ais!

Oh! seja a punição dos insensiveis

Não te sentir jamais!

Propicia Deosa, e se não fosse a esperança,

Deosa melhor da vida; qu’insensato,

A quem mitigas turbidos pezares

Haverá tão ingrato

Que te não queime incenso em teos altares?

O presente o que é?—Breve momento

D’incommodo ou desgraça

Ou de prazer, que passa

Mais veloz que o ligeiro pensamento.

Véo escuro,

Que nem sempre a illusão nos adelgaça,

Nos encobre os caminhos do futuro.

O que nos resta pois?—Resta a saudade,

Que dos passados dias

De magoas e alegrias

Balsamo sancto extrahe consolador!

Resta a saudade, que alimenta a vida

Á luz do facho que adormenta a dôr!

Hera do coração, memoria delle,

Ó Saudade, ó rainha do passado,

Simelhas a romantica donzella

De roupas alvejantes

Nas ruinas de castello levantado:

Grinaldas fluctuantes,

Que das fendas brotarão,

Movem-se do nordeste

Ao sopro agudo e frio;

Em quanto vendo-o ao longe o senhorio,

De posses decahido,

D’invernos alquebrado,

Recorda triste os annos que passarão!

Em que plagas inhospitas e duras

Não me tens sido companheira e amiga?

Em que hora, em que instante

De folga ou de fadiga

Já deixei de sentir o penetrante

Espinho teo, a repassar-me todo

D’um prazer melancholico e suave?

Pois nasces nos desertos da tristeza,

Ó Saudade, ó rainha do passado!

Quando te falte gleba, onde tu cresças,

Vem, vem ter commigo;

Deixa os que te não seguem,

Terás em peito amigo

Lagrimas, que te reguem,

Espaço, em que floresças!

Entra em meo coração, occupa-o todo,

Fibra por fibra enlaça-te com elle,

Desce com elle á sepultura; e quando

Jazer eu na eternidade,

Minha flôr, minha saudade,

Tu procura a aura celeste,

Rompe a terra, transforma-te em cypreste,

Qu’enlute o meo jazigo;

E ao meneio das ramas funerarias,

Meo derradeiro amigo,

Descance morto quem viveo comtigo.


NÃO ME DEIXES!

Debruçada nas aguas d’um regato

A flôr dizia em vão

Á corrente, onde bella se mirava....

«Ai, não me deixes, não!

«Commigo fica ou leva-me comtigo

«Dos mares á amplidão,

«Limpido ou turvo, te amarei constante;

«Mas não me deixes, não!»

E a corrente passava; novas aguas

Após as outras vão;

E a flôr sempre a dizer curva na fonte:

«Ai, não me deixes, não!»

E das aguas que fogem incessantes

Á eterna successão

Dizia sempre a flôr, e sempre embalde:

«Ai, não me deixes, não!»

Por fim desfallecida e a côr murchada,

Quasi a lamber o chão,

Buscava inda a corrente por dizer-lhe

Que a não deixasse, não.

A corrente impiedosa a flôr enleia,

Leva-a do seo torrão;

A afundar-se dizia a pobrezinha:

«Não me deixaste, não!»


ZULMIRA.

Sonhara-te eu na veiga de Granada,

Tapetada de flores e verdura,

Onde o Darro e Xenil no lento gyro

Volvem a lympha pura.

Alli te vejo em leda comitiva

Dos gentis cavalleiros do oriente,

Quando, deposta a malha do combate,

Vestem da paz a seda reluzente.

Alli te vejo n’um balcão sentada,

Grande preço da maura architectura,

Pejando as azas das nocturnas brisas

D’um canto de ternura.

Alli te vejo, sim; mas mais me agrada

O que se m’afigura n’outro instante,

Ver-te em vistosa tenda d’ouro e sedas,

Levantada no dorso do elefante.

E em roda, ao largo, o sequito pomposo

D’eunuchos a teo gesto vacillantes

Em cujas frontes negras se destacão

Alvissimos turbantes.

E pergunto quem es?—Então me dizem

Ciosos de guardar o seo thesouro,

Nome tão doce aos labios, que parece

Escrever-se em setim com letras d’ouro.


A UMA POETIZA.

—Donde vens, viajor?—

—De longe venho.

—Que viste?

—Muitas terras.

—E qual dellas

Mais te soube agradar?

—São todas bellas;

Fundas recordações de todas tenho.

E admiraste o que?

—Ah! onde as flores

Cada vez a manhã tornão mais linda,

Onde gemeo Paraguassú de amores

E os echos fallão de Moema ainda;

Alli, Sapho christã, virgem formosa,

A vida aos sons da lyra dulcifica:

D’escutar a sereia harmoniosa

Ou de vel-a, a vontade presa fica!

BAHIA—1852.


ANGELINA.

É gentil e linda e bella,

E eu sei que m’arrouba o vel-a

Tão divina:

A lyra seos cantos cesse;

Mas minha alma não s’esquece

D’Angelina!

Outro louve os seos cabellos,

Cante a luz dos olhos bellos

Que fascina;

E o leve sorrir donoso

Que irradia o rosto airoso

D’Angelina!

Os dotes diga que apura,

Quando em languida postura

Se reclina;

Que s’ergue, se acaso passa,

Susurro que applaude a graça

D’Angelina!

Que de amor quando suspira

O bardo quebrara a lyra,

De mofina;

Que jamais poderão cantos

Pintar ao vivo os encantos

D’Angelina.

Que da sua alma a pureza

Equipara-se á belleza

Peregrina;

Que amor seo throno tem posto

N’alma, no talhe e no rosto

D’Angelina.

Eu que não sei descrevel-a,

Só sei que me arroubo ao vel-a

Tão divina;

A lyra seos cantos cesse,

Mas minha alma não s’esquece

D’Angelina!


ROLA.

Desque amor me deo que eu lêsse

Nos teos olhos minha sina,

Ando, como a peregrina

Rola, que o esposo perdeo!

Seja noite ou seja dia,

Eu te procuro constante:

Vem, oh! vem, ó meo amante,

Tua sou e tu és meo!

Vem, oh vem, que por ti clamo;

Vem contentar meos desejos,

Vem fartar-me com teos beijos,

Vem saciar-me de amor!

Amo-te, quero-te, adoro-te,

Abraso-me quando em ti penso,

E em fogo voraz, intenso,

Anceio louca de amor!

Vem, que te chamo e te aguardo,

Vem apertar-me em teos braços,

Extreitar-me em doces laços,

Vem pousar no peito meo!

Que, se amor me deo que eu lêsse

Nos teos olhos minha sina,

Ando, como a peregrina

Rola, que o esposo perdeo.


AINDA UMA VEZ—ADEOS!—

I.

Enfim te vejo!—enfim posso,

Curvado a teos pés, dizer-te,

Que não cessei de querer-te,

Pezar de quanto soffri.

Muito penei! Crúas ancias,

Dos teos olhos afastado,

Houverão-me acabrunhado,

A não lembrar-me de ti!

II.

D’um mundo a outro impellido,

Derramei os meos lamentos

Nas surdas azas dos ventos,

Do mar na crespa cerviz!

Baldão, ludibrio da sorte

Em terra estranha, entre gente,

Que alheios males não sente,

Nem se condóe do infeliz!

III.

Louco, afflicto, a saciar-me

D’aggravar minha ferida,

Tomou-me tedio da vida,

Passos da morte senti;

Mas quasi no passo extremo,

No ultimo arcar da esp’rança,

Tu me vieste á lembrança:

Quiz viver mais e vivi!

IV.

Vivi; pois Deos me guardava

Para este logar e hora!

Depois de tanto, senhora,

Ver-te e fallar-te outra vez;

Rever-me em teo rosto amigo,

Pensar em quanto hei perdido,

E este pranto dolorido

Deixar correr a teos pés.

V.

Mas que tens? Não me conheces?

De mim afastas teo rosto?

Pois tanto pôde o desgosto

Transformar o rosto meo?

Sei a afflicção quanto póde,

Sei quanto ella desfigura,

E eu não vivi na ventura....

Olha-me bem, que sou eu!

VI.

Nenhuma voz me diriges!...

Julgas-te acaso offendida?

Déste-me amor, e a vida

Que m’a darias—bem sei;

Mas lembrem-te aquelles feros

Corações, que se metterão

Entre nós, e se vencerão,

Mal sabes quanto lutei!

VII.

Oh! se lutei!... mas devera

Expôr-te em publica praça,

Como um alvo á populaça,

Um alvo aos dicterios seos!

Devera, podia acaso

Tal sacrificio acceitar-te

Para no cabo pagar-te,

Meos dias unindo aos teos?

VIII.

Devera, sim; mas pensava,

Que de mim t’esquecerias,

Que, sem mim, alegres dias

T’esperavão; e em favor

De minhas preces, contava

Que o bom Deos me acceitaria

O meo quinhão de alegria

Pelo teo quinhão de dôr!

IX.

Que me enganei, ora o vejo;

Nadão-te os olhos em pranto,

Arfa-te o peito, e no entanto

Nem me podes encarar;

Erro foi, mas não foi crime,

Não te esqueci, eu t’o juro:

Sacrifiquei meo futuro,

Vida e gloria por te amar!

X.

Tudo, tudo; e na miseria

D’um martyrio prolongado,

Lento, cruel, disfarçado,

Que eu nem a ti confiei;

«Ella é feliz (me dizia)

«Seo descanço é obra minha.»

Negou-m’o a sorte mesquinha...

Perdôa, que me enganei!

XI.

Tantos encantos me tinhão,

Tanta illusão me afagava

De noite, quando acordava,

De dia em sonhos talvez!

Tudo isso agora onde para?

Onde a illusão dos meos sonhos?

Tantos projectos risonhos,

Tudo esse engano desfez!

XII.

Enganei-me!...—Horrendo cháos

Nessas palavras se encerra,

Quando do engano, quem erra,

Não póde vóltar atraz!

Amarga irrisão! reflecte:

Quando eu gozar-te pudera,

Martyr quiz ser, cuidei qu’era...

E um louco fui, nada mais!

XIII.

Louco, julguei adornar-me

Com palmas d’alta virtude!

Que tinha eu bronco e rude

Co’o que se chama ideal?

O meo eras tu, não outro;

Estava em deixar minha vida

Correr por ti conduzida,

Pura, na ausencia do mal.

XIV.

Pensar eu que o teu destino

Ligado ao meo, outro fôra,

Pensar que te vejo agora,

Por culpa minha, infeliz;

Pensar que a tua ventura

Deos ab eterno a fizera,

No meo caminho a puzera...

E eu! eu fui que a não quiz!

XV.

Es d’outro agora, e p’ra sempre!

Eu a misero desterro

Volto, chorando o meo erro,

Quasi descrendo dos céos!

Dóe-te de mim, pois me encontras

Em tanta miseria posto,

Que a expressão deste desgosto

Será um crime ante Deos!

XVI.

Dóe-te de mim, que t’imploro

Perdão, a teos pés curvado;

Perdão!... de não ter ousado

Viver contente e feliz!

Perdão da minha miseria,

Da dôr que me rala o peito,

E se do mal que te hei feito,

Tambem do mal que me fiz!

XVII.

Adeos qu’eu parto, senhora;

Negou-me o fado inimigo

Passar a vida comtigo,

Ter sepultura entre os meos;

Negou-me nesta hora extrema,

Por extrema despedida,

Ouvir-te a voz commovida

Soluçar um breve Adeos!

XVIII.

Lerás porêm algum dia

Meos versos, d’alma arrancados,

D’amargo pranto banhados,

Com sangue escriptos;—e então

Confio que te commovas,

Que a minha dôr te apiade,

Que chores, não de saudade,

Nem de amor,—de compaixão.


O SOMNO.

Nas horas da noite, se junto a meo leito

Houveres acaso, meo bem, de chegar,

Verás de repente que aspecto risonho

Que toma o meo sonho,

Se o vens bafejar!

O anjo, que ao somno preside tranquillo,

Ao anjo da terra não ceda o logar;

Mas deixe-o amoroso chegar-se ao meo leito,

Unir-me a seo peito,

D’amor offegar.

As notas que exhalão as harpas celestes,

Os gozos, que os anjos só podem gozar,

Talvez tambem frúa, se ao meo peito unida

T’encontro, ó querida,

No meo acordar!


SE EU FOSSE QUERIDO!

Se eu fosse querido d’um rosto formoso,

Se um peito extremoso—podesse encontrar,

E uns labios macios, que expirão amores

E abrandão as dores—de alheio penar;

A tantos encantos minha alma rendida,

Votara-lhe a vida—que Deos me quiz dar:

Constante a seo lado, seos sonhos divinos

Aos sons dos meos hymnos—quizera embalar.

Depois, quando a morte viesse impiedosa

Da amante extremosa—meos dias privar,

De funda saudade minha alma rendida

Votara-lhe a vida—que Deos me quiz dar.


A FLÔR DO AMOR.

Já lento o passo, no cahir da tarde,

Lá nos desertos d’abrasada areia,

Que o vento agita, porêm não recreia,

Da caravana o conductor parou.

Armão-se ápressa tendas alvejantes,

Rumina placido o frugal camêlo;

Porêm a nuvem d’arabes errantes

Se achega á presa, que de longe olhou.

E já, tomada a refeição nocturna,

Junto a fogueira, que derrama vida,

Descanção todos da penosa lida

Á voz canora, que o cantor alçou!

Confuso o ouvido um borborinho alcança,

As armas toma o arabe prudente;

Mas logo pensa, regeitando a lança:

«Foi o grunhido que o chacal soltou.»

Ouvidos todo e curioso enlevo,

Toma de novo a retomar seo posto;

Pela fogueira alumiado o rosto,

Bebendo as vozes que o cantor soltou;

Simelha a terra, quando aberta em fendas

Da noite o orvalho sequiosa espera;

E o corsel arabe encostado ás tendas

Os sons lhe escuta, e de os ouvir folgou.

«Algures cresce (o trovador cantava)

Sempre fresca e virente e sempre bella,

Por influxo e poder de maga estrella,

Mimosa, pura e delicada flôr!

Jazendo em sitio escuso e solitario,

Esforços é mister p’ra conhecel-a,

Que diz a forte lei do seo fadario

Que a não descubra acaso o viajor.

«Alva do albor dos lirios odorosos,

Tem a modestia da violeta esquiva,

E o prompto retrahir da sensitiva,

Que parece vestir-se de pudor!

Assim, á luz da cambiante aurora,

Mudando um pouco a resplendente alvura,

De uns toques de carmim s’esmalta e córa

A graciosa e pudibunda flôr.

«Faz-se mais puro o ar, mais brando o clima,

Onde cresce; amenisão-se os logares,

Tornão se menos agros os pezares

E menos viva, e quasi nulla a dôr;

Fresca e branda alcatifa o chão matisa,

Com doce murmurio as aguas correm,

E o leve sopro do correr da brisa

Volupia embebe em magico frescor!

«Feliz aquelle que a encontrou na vida,

Que onde ella nasce timida e fagueira

Não s’ennovela a mó d’atra poeira,

Tangida pelo súmiu’ abrasador!

Alli sorri-se oasis venturoso,

Qu’entre deleites o viver matisa,

E ao que vai triste, afflicto e sem repouso

Chama a descanço do comprido error!

«Feliz e mais que se, perdido, achára

Conforto e auxilio no kathá, seo guia,

Que o leva a fonte perennal e fria

Onde se apaga o sitibundo ardor.

Tão feliz, qual talvez se o precedesse

Nos desertos a benção do propheta,

Que por fanal nocturno lhe accendesse

Maga estrella de limpido fulgor.

«Ai! porêm do que a vê, e a não conhece,

Do que a suspira em vão, e a em vão procura,

Ou que achando-a, desiste da ventura

Por não entrar no oasis seductor.

Essa flôr descoberta por acerto

Nunca mais a verás! colhe, insensato,

Colhe abrolhos da vida no deserto;

Pois despresaste a que produz o amor!»

Assim cantava o trovador; e todos

Ouvem-no com prazer de dôr travado,

Que mais do que um talvez terá deixado

Atraz de si a pudibunda flôr!

No emtanto a nuvem d’arabes errantes

Chega-se á presa, que avistou de longe;

E dos corseis, que alentão offegantes,

Precede a marcha turbido pavor!

E, nado o sol, aquelle que passava

Pelos desertos d’abrasada areia,

Que o rubro sangue de cruor rocheia,

A um lado o rosto, pallido, voltou!

Ninguem as mortes lastimaveis chora,

Ninguem recolhe os restos insepultos,

E o mesmo orvalho, que goteja a aurora,

Sem borrifal-os, no areial ficou!

Quem saberá do seo destino agora?

Ninguem! Somente em climas apartados

Miseranda mulher lastima os fados

De filho ou esposo, que jamais tornou!

Talvez porêm, traz de montões d’areia,

Nobre corsel sem cavalleiro assoma,

E alonga a vista, de pezares cheia,

Té onde a vida seo senhor deixou!


A SUA VOZ.

Por que ficasse a vida

Por o mundo em pedaços repartida.

CAMÕES CANÇ. X.

Ouvi-a! A sua voz me despertava

Tudo quanto de bom conservo n’alma.

Retratado o pudor no rosto,

E um suave dizer, um timbre doce

De voz, uma piedade extreme e sancta,

Que as mais profundas chagas animava,

D’ambrozia e de mel lhe ungia os labios.

Ouvi-a! A sua voz era mais branda,

Mais impressiva que o cantar das aves!

A aragem qu’entre flores se deslisa

E mal remeche a timida folhagem,

A veia de chrystal que triste sôa,

O saudoso arrulhar de mansas pombas,

As proprias notas d’um cantar longinquo

Ou de instrumento a conversar co’a noite,

Menos que a sua voz impressionavão!

Menos que a sua voz!—Os dois mais fortes,

Os dois mais puros sentimentos nossos

—A saudade e o amor,—as mais profundas

Das merencorias solidões da terra

—As florestas e o mar,—um scismar vago,

Um devaneio, uns extasis sem termo

D’alma perdida por um céo de amores,

Tanto como a sua voz não arroubavão!

Tanto como a sua voz!—somente o forão

Dulces notas de mysticos salterios

Té nós de um astro em outro repetidas.

Foi isto o que senti, quando a escutava,

Fluente, armoniosa, discorrendo

Em pratica singela, sobre assumptos

Diversos, sobre flores, menos bellas

Do que o seo rosto, e céos, como ella, puros.

Mas quem n’a ouvira conversar de amores

Trouxera n’alma como uma harpa eolia,

Dia e noite vibrando,

Como um cantar dos anjos

Do coração a estremecer-lhe as fibras!


SE SE MORRE DE AMOR!

Meere und Berge und Horizonte zwischen den Liebenden—aber die Seelen versetzen sich aus dem staubigen Kerker und treffen sich im Paradiese der Liebe.

SCHILLER. Die Räuber.

Se se morre de amor!—Não, não se morre,

Quando é fascinação que nos surprende

De ruidoso saráu entre os festejos;

Quando luzes, calor, orchestra e flores

Assomos de prazer nos raião n’alma,

Que embellezada e solta em tal ambiente

No que ouve, e no que vê prazer alcança!

Sympathicas feições, cintura breve,

Graciosa postura, porte airoso,

Uma fita, uma flor entre os cabellos,

Um quê mal definido, acaso podem

N’um engano d’amor arrebatar-nos.

Mas isso amor não é; isso é delirio,

Devaneio, illusão, que se esvaece

Ao som final da orchestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes no morrer despedem:

Se outro nome lhe dão, se amor o chamão,

D’amor igual ninguem succumbe á perda.

Amor é vida; é ter constantemente

Alma, sentidos, coração—abertos

Ao grande, ao bello; é ser capaz d’extremos,

D’altas virtudes, té capaz de crimes!

Compr’hender o infinito, a immensidade,

E a natureza e Deos; gostar dos campos,

D’aves, flores, murmurios solitarios;

Buscar tristeza, a soledade, o ermo,

E ter o coração em riso e festa;

E á branda festa, ao riso da nossa alma

Fontes de pranto intercalar sem custo;

Conhecer o prazer e a desventura

No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto

O ditoso, o miserrimo dos entes:

Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, e não saber, não ter coragem

Para dizer que amor que em nós sentimos;

Temer qu’olhos profanos nos devassem

O templo, onde a melhor porção da vida

Se concentra; onde avaros recatamos

Essa fonte de amor, esses thesouros

Inexgotaveis, d’illusões floridas;

Sentir, sem que se veja, a quem se adora,

Compr’hender, sem lhe ouvir, seos pensamentos,

Seguil-a, sem poder fitar seos olhos,

Amal-a, sem ousar dizer que amamos,

E, temendo roçar os seos vestidos,

Arder por afogal-a em mil abraços:

Isso é amor, e desse amor se morre!

Se tal paixão porêm emfim transborda,

Se tem na terra o galardão devido

Em reciproco affecto; e unidas, uma,

Dois seres, duas vidas se procurão,

Entendem-se, confundem-se e penetrão

Juntas—em puro céo d’extasis puros:

Se logo a mão do fado as torna extranhas,

Se os duplíca e separa, quando unidos

A mesma vida circulava em ambos;

Que será do que fica, e do que longe

Serve ás borrascas de ludibrio e escarneo?

Póde o raio n’um pincaro cahindo,

Tornal-o dois, e o mar correr entre ambos;

Póde rachar o tronco levantado

E dois cimos depois verem-se erguidos,

Signaes mostrando da alliança antiga;

Dois corações porêm, que juntos batem,

Que juntos vivem,—se os separão, morrem;

Ou se entre o proprio estrago inda vegetão,

Se apparencia de vida, em mal, conservão;

Ancias crúas resumem do proscripto,

Que busca achar no berço a sepultura!

Esse, que sobrevive a propria ruina,

Ao seo viver do coração,—ás gratas

Illusões, quando em leito solitario,

Entre as sombras da noite, em larga insomnia,

Devaneiando, a futurar venturas,

Mostra-se e brinca a apetecida imagem;

Esse, que á dôr tamanha não succumbe,

Inveja a quem na sepultura encontra

Dos males seos o desejado termo!


A MORTE É VÁRIA.

(TRADUCÇÃO.)

A morte é vária e multiforme, e múda

De trajes e de mascaras mais vezes

Qu’uma cançada actriz;

Nem sempre é, qual se pinta, o negro espectro

D’ironico sorriso e brancos dentes,

E d’horrido cariz.

Nem todos seus vasallos são poeira

No resalto de pedra adormecidos

Por sob as arcarias;

A pallida libré nem todos vestem,

Nem sobre todos jaz murada a porta

Nas cryptas sombrias!

Diversa a natureza é d’outros mortos:

Nestes que a sanie e podridão consomem,

Vê-se o nada palpavel;

Vê se o enojo, o horror, a sombra espessa

E o esfaimado esquife, abrindo as fauces,

Qual monstro insaciavel!

Cabe a outros porêm que sem dôr vemos

Passar, gyrar no turbilhão dos vivos,

De carne inda vestidos,

O nada inda encuberto; cabe a interna

Morte, que ninguem sabe, nem chóra,

Nem mesmo os mais queridos!

Pois, se vamos a ver nos cymiterios

As campas, ou illustres ou sem nome,

De marmore ou torrão;

Ou tenhamos alli amiga palpebra,

Ou não,—do teixo á sombra descançada,

Quer choremos, quer não!

«Jazem» dizemos. Os nomes desparecem

Sob a relva; o verme nesses olhos

Enréda a teia crúa!

Por entre as pranchas do caixão despontão

Hirtos cabellos, e em pó funereo envolta

Branqueja a ossada núa.

Os herdeiros não temem que mais vólte;

Esquecerão-n’o já: seos cães se lembrão,

Soltando uivos de dôr!

Acama-se a poeira em seos retractos:

Já não tem mais rivaes, não tem amigos,

Nem odios, nem amor!

Da morte o anjo, em lagrimas de pedra

Vemos sosinho e mudo a pranteal-o,

Estatua da afflicção:

A cova toma o corpo, o olvido o nome,

Tem por lençóes seis pés d’humida terra....

Mortos, bem mortos são!

E dos olhos talvez se vos deslise

O pranto sobre a relva, pelo orvalho

E chuva humedecida;

Que na triste mansão os regozije,

E por essa oblação enternecidos

Um resto achem de vida.

Mortos do coração ninguem os chóra,

Ninguem, se a um destes vê, lhe diz piedoso:

«Seja o Senhor comtigo.»

Curão do morto, lavão-lhe as feridas;

Mas a alma estala sem que alguem se dôa,

Nem mesmo o mais amigo!

Ha comtudo pungentes agonias

Nunca sabidas, dores horrorosas

Mais do que se não crê;

Almas ha que tem cruz e passamento,

Sem aureola d’oiro e a mulher pallida

E desgrenhada—ao pé.


SEXTILHAS DE FREI ANTÃO.

J’ai fait de ma chambre la cellule d’un cloître, j’ai béni et sanctifié ma vie et ma pensée; j’ai raccourci ma vue et j’ai éteint devant mas yeux les lumières de notre âge: j’ai fait mon coeur plus simple, et l’ai baigné dans le bénitier de la foi catholique; je me suis appris le parler enfantin du vieux temps: et j’ai écrit!...

STELLO.


LOA DA PRINCEZA SANCTA.

Bom tempo foy o d’outr’ora

Quando o reyno era christão,

Quando nas guerras de mouros

Era o rey nosso pendão,

Quando as donas consumião

Seos teres em devação.

Dava o rey huma batalha,

Deos lhe acudia do céo;

Quantas terras que ganhava,

Dava ao Senhor que lhas deo,

E só em fazer mosteyros

Gastava muito do seo.

Se havia muitos Iffantes,

Torneyo não se fazia;

He esse o estilo de Frandres,

Onde anda muita heregia:

Para os armar cavalleiros

A armada se apercebia.

Chamava el-rey seos vassallos

E em côrtes logo os reunia:

Vinha o povo attencioso,

Vinha muita cleregia,

Vinha a nobreza do reyno,

Gente de muita valia.

Quando o rey tinha-los juntos

Começava a discursar:

«Os Iffantes já são homens,

Vou-me ás terras d’alem-mar

Armal-os hy cavalleiros;

Deos Senhor m’ha de ajudar.»

Não concluia o pujante

Rey—de assi lhes propor,

Clamavão todos em grita

Com vozes de muito ardor:

«Seremos nessa folgança,

Honra de nosso Senhor!»

E logo todos em sembra,

Todos gente mui de bem,

Na armada se agazalhavão,

Sem se pezar de ninguem;

E os Padres de Sam Domingos

Hião com elles tambem.

Hião, si, os bentos Padres:

E que assi fosse, he rezão,

Que o sancto em guerras d’Igreja

Foy hum bom sancto christão:

Queimou a muitos hereges

No fogo da expiação!

Quando depois se tomava

Toda a frota pera cá,

Primeiro se perguntava,

«Que terras temos por lá?»

Quem em Deos tanto confia,

Sempre Deos por si terá.

El-rei tornava benino,

Como coisa natural:

«Temos Ceita, Arzilla ou Tangere,

«Conquistas de Portugal!»

E todos, a voz em grita,

Clamavão: real! real!

Bom tempo foy o d’outr’ora

Quando o reyno era christão;

Os moços davão-se á guerra,

As moças á devação:

Aquella terra de mouros

Vivia em muita afflicção.

Deo-nos Deos tantas victorias,

E tanto pera louvar,

Que os Padres de Sam Domingos

Ja não sabião rezar;

Todo-lo tempo era pouco

Pera louvores cantar!

Sendo tantas as batalhas,

Nem recontro se perdeo!

Aquelles Padres coitados

Não tinhão tempo de seo;

Levavão todo cantando

Louvores ao pay do céo.

Louvores ao pay do céo,

Que eu inda possa trovar,

Quando não vejo nos mares

Nossas quinas tremolar;

Mas somente o templo mudo,

Sem guarnimentos o altar!

Vejo os sinos apeados

Dos campanarios subtiz,

E a prata das sacristias,

Servida em misteres vis,

E ante os leões de Castella

Dobrada a Luza cerviz!

Cant’eu, em bem que sou Padre,

Diga que sou Portuguez:

Arço de ver nossas coizas

Hirem todas ao revez,

Arço de ver nossa gente

Andar comnosco ao envez.

Mercê de Deos! minha vida

He vida de muita dura!

Vivo esquecido dos vivos

Na terra da desventura;

Vivo escrevendo e penando

N’um canto de cella escura.

Do meo velho breviario

Só deixarei a leitura

Pera escrever estes carmes,

Remedio á nossa amargura;

O corpo tenho alquebrado,

Vive minha alma em tristura.


Que armada de tantas velas,

Que armada he essa qu’hy vem?

Vem subindo Tejo acima,

Que fermosura que tem!

Nas praias se apinha o povo,

E as cobre todas porêm.

Dão signays as fortalezas,

Respondem signays de lá:

Vem el-rey victorioso!

Quem de gaudio se terá?

O mar he todo bonança,

O céo mui sereno está!

Ôco bronze fumo e fogo

Já começa a despejar;

Acordão alegres echos

Os sinos a repicar;

Grita e folgança na terra,

Celeuma e grita no mar!

Vinde embora mui depressa

Senhores da capital!

Vinde ver Affonso quinto,

Rey, senhor de Portugal;

Vem das terras africanas

Dar-vos festança real.

Nossos reys forão outr’ora

Fragueiros de condição;

Dormião quasi vestidos,

Espada nua na mão;

Nem repoisavão de noite

Sem fazer sua oração.

Empresa não commettião

Sem primeiro commungar,

Sem fazer voto á algum sancto

De tenção particular;

Porêm victorias houverão,

Que são muito de espantar!

Os vindouros esquecidos

Da protecção divinal,

Conhecerão os poderes

Da benção celestial,

Se contarem os mosteyros

Das terras de Portugal!

Nossas capellas que temos,

Nossos mosteyros custosos,

São obras sanctas de Sanctos,

Obras de reys mui piedosos;

São brados de pedra viva,

Que prégão feitos briosos.

Alguns já agora escarnecem

Dos templos edificados;

Dizem que foram mal gastos

Os bens com elles gastados:

Eu creio (Deos me perdôe)

Que são incréos disfarçados!

E mais prasmão dos feitios

De pedra, que Memphis tem,

Sem ter olhos pera Mafra,

Pera Batalha ou Belem!

Oh! se a estes conheceras,

Meo Frey Gil de Santarem!

N’aquella villa deserta

Ainda se me afigura

Ver elevar-se nas sombras

Tua válida estatura,

E ouvir a voz que intimava

Ao rey a sentença dura!

E mais a tacha que tinha

Era ser fraco, e não mais!

Tu, meo Sancto, que fizeras,

Se ouviras a estes tais,

Que nos assacão motejos

Ás nossas obras reais!

Mas vós, quem quer qu’isto lerdes

Relevai-me esta tardança;

São achaques da velhice:

Vivemos de remembrança

E em longas fallas fazemos

De tudo commemorança.


Já el-rey Affonso quinto

Nas suas terras pojou:

Alegre o povo o recebe,

Alegre el-rey se mostrou;

Abrio-se em alas vistosas,

El-rey entre ellas passou.

Vem os muzicos troando

Nos atabales guerreiros,

Tangem outros istromentos

Desses climas forasteiros,

E traz elles vêm marchando,

Passo a passo, os prisioneiros.

São elles mouros gigantes

De bigodes retorcidos,

Caminhão a passos lentos,

Com sembrantes de atrevidos.

Causa medo vêl-os tantos,

Tam membrudos, tam crescidos!

São homens de fero aspeito,

Homens de má condição,

Que vivem na lei nojenta

Do seo nojento alkorão,

Que—vinho? nem querem vê-lo,

Só por que o bebe um christão!

Vêm as moiras depois delles,

Rostos cobertos com véos;

Bem que filhas d’Agarenos,

São tambem filhas de Deos;

Se forão christans ou freiras,

Serião anjos dos céos.

Luzião os olhos dellas

Como pedras muito finas;

Devião ser nas bruxas,

Inda qu’erão bem meninas,

Que estas moiras da mourama

Nascem já bruxas cadimas

Huma dellas que lá vinha

Olhou-me á travez do véo!...

Foy aquillo obra do demo,

Quasi, quasi me rendeo!

Pensei nella muitas vezes,

Valerão-me anjos do céo!

Via as largas pantalonas,

E o pesinho delicado...

Como póde pensar nisto

Hum pobre frade cançado,

Hum padre da Observancia,

Que sempre come pescado?!

Emfim, dizer quanto vimos

Não cabe neste papel;

Vinhão muitas alimarias,

Como achadas a granel;

Vinha o infante brioso,

Montado no seo corsel.

Vinhão pagens e varletes,

Vinhão muitos escudeiros,

Vinhão do sol abrazados

Nossos robustos guerreiros;

Vinha muita e boa gente,

Muitos e bons cavalleiros!


A Princesa Dona Joanna

Sahio dos Paços reais;

Era moça, e muito airosa,

E dona de partes tais,

Que todos lhe qu’rião muito,

Estranhos e naturais!

Foy requerida de muitos

E muito grandes senhores,

Por fama que della tinhão,

E por copia de pintores,

Que muitos vinhão de fóra

Ao cheiro de seos louvores.

E diz-se d’hum rey de França,

Ludovico, creio eu:

Hum pobre frade mesquinho

Só trata em coisas do céo;

Sabe elle que muito sabe,

Se a bem morrer aprendeo.

Pois diz-se do rey de França,

O onzeno do nome seo,

Que vendo hum retrato destes

Pera si logo entendeo,

Qu’era prodigio na terra

Quem tanto tinha do céo.

E logo sem mais tardança

Cahio, giolhos no chão,

No feltro traz arreliquias,

Assi uza hum rey cristão;

O seo feltro poz diante,

E fez hy sua oração!


Sahio a real Princeza,

Sahio dos Paços reais

Nos pulsos ricas pulseiras,

Na fronte finos ramais;

De longe seguem-lhe a trilha

Muitos bons homens segrais.

Traçava hum mantéo vistoso

Sobolas suas espaldas,

E as largas roupas na cinta

Prendia em muitas laçadas;

Seos olhos valião tanto

Como duas esmeraldas.

Tinha elevada estatura

E meneyo concertado,

Solto o cabello em madeixas,

Pelas costas debruçado:

Cadeixo de fios d’oiro,

Franjas de templo sagrado.

Vinha assi a regia Dona,

Vinha muito pera ver:

O povo em si não cabia,

Quando a via, de prazer;

Era ella sancta ás occultas

E anjo no parecer!

Debaixo das telas finas

E dos brocados luzidos,

Trazia á raiz das carnes

Duros cilicios cozidos

E humas crinas muito agras,

Tudo extremos mui subidos.

Passava noites inteiras

No oratorio a rezar,

Dormia despois na pedra

Sem ninguem o suspeitar:

Extremos tais em princeza

Quem n’os ha de acreditar?

No dia de lava-pés

Ordenava ao seo Vedor,

Trazer-lhe doze mulheres;

E depois, com muita dôr,

Chorando os pés lhes lavava,

Honra de nosso Senhor!

E depois de os ter lavado,

Não perdia a occasião,

Despedia a todas juntas

Com sua esmola na mão:

Dizia que era humildade,

E obra de devação.

E as mendigas prasmadas

Sahião de tal saber,

E perguntavão, quem era

Aquella sancta mulher?!

Máos peccados que ella tinha

Só pera assi proceder!

O mesmo Vedor foy quem

Isto despois revelou,

Quando aquella humanidade

Em o Senhor descançou;

Dona Joanna era já morta,

Elle porêm m’o contou.

Mas sendo tanto o resguardo

Que guardava em coisas tais,

Sabião algo os estranhos

Por muitos certos signais,

Que o ar he todo perfume,

Se a terra he toda rosais.

He coisa de maravilha

Que me faz scismar a mi,

Que as donas d’hoje pareção

Huns camafêos d’alfim,

Não donas de carne e osso;

As donas d’outr’ora—si.

Hoje leigos de nonnada

(He lhes o demo caudel)

Praguejão a meza escaça

E as arestas do burel;

Querem mimos e regalos,

E jejuns a leite e mel.


Lá caminha Dona Joanna,

Regente de Portugal;

Traz sobre si muitas joias

Do thesouro paternal;

Deos lhe pôz graça divina

Sobre a graça natural.

«Acostou-se a comitiva,

Muito senhora de si:

Perante el-rey se agiolha,

Disse-lhe el-rey: não assi!

E ao peito a cinge dizendo:

Não a meos pés, mas aqui!»

«Sois hum bom pay, Senhor rey,

Tomou-lhe a sancta Princeza:

Eu que sou vassalla vossa

E filha por natureza,

Peço mercê como aquella,

Como esta peço fineza.»

Ficarão logo suspensos

Todolos que erão aly,

Ficarão como enleiados,

Enleio tal nunca vi!

Eis que a Princeza medrosa

Começa a propor assi.

El-rey não lhe respondera;

Que lhe havia responder?

Boa filha Deos lhe dera.

Que lhe havia defender?

Sorrio-se, o bom rey quizera

Muito por ella fazer.

A Princeza disse entonces:

«De alguns capitães antigos

Tenho lido, Senhor rey,

Que, vencidos os imigos,

Tornavão, a Deos fazendo

Sacrificios mui subidos.

«Vião as coisas melhores

Que dos seos reynos havião,

E logo lh’as offertavão;

E mercês tambem fazião,

No dia do seo triunfo

A los que justas pedião.

«Deslembrar a usança antiga

Fôra de grande estranheza;

Agora sobre maneira,

Perfeita tamanha empreza,

De tanto lustre aos do reyno,

De tal honra a vossa Alteza.

«Digo pois a vossa Alteza,

E digo com muita fé,

Deve a offerta ser tamanha

Quammanha foy a mercê,

Não do nobre rey pujante,

Mas do sancto rey qual he.

«A offerta que vos fizerdes,

Será mercê paternal:

Se quereis que corresponda

Ao favor celestial,

Deve ser coisa mui alta,

Deve ser coisa real.

«Ao Deos que vence as batalhas

Dai-lhe a filha muito amada;

Dai-lhe a só filha que tendes

Em tantos mimos criada:

Será a offerta bem quista

E do Senhor acceitada.

«E eu a quem mais custou

De medos, esta jornada,

Que muitas noitas orando

Passei em pranto banhada,

Sou eu, Senhor, quem vos peço

Ser a hostia a Deos votada.»

Que sancta que era a Princeza,

Que extremos de devação!

Nos sembrantes dos presentes

Vio-se, e não era razão,

Que a nenhum delles prazia

Deferir tal petição.

Sobr’esteve um pouco e mudo,

El-rey, por que muito a amava:

Aquelle dizer da filha

Todo o prazer lhe aguava,

Aquelle pedir sem dó

Todo o ser lhe transtornava.

Encostou-se ao hombro della

O pobre velho cançado,

Chorou o triunfo breve

E o prazer mal rematado,

Não como rey valeroso,

Mas como pay anojado.

El-rey despois mais tranquillo

Rompeo o silencio alfi’;

E entre afflicto e satisfeito

Disse á filha: Seja assi!...

Velhos guerreiros vi eu

Chorarem tambem aly.

Cant’eu perdido entre o vulgo

Não sei que tempo gastei,

Nem sei de mim que fizerão,

Nem tam pouco se chorei;

Foi traça da providencia:

Nisto commigo assentei.

Foy Jephté corajoso,

O forte rey de Judá;

Volta coberto de loiros,

Quem primeiro encontrará?

Sente a filha, torce o rosto...

Nada ao triste valerá.

Qual d’estes dois sacrificios

Soube a Deos mais agradar?

Vai a Hebrea constrangida

Depor o collo no altar,

Vai a christã jubilosa!

São ambas pera pasmar.


Depois n’hum dia formoso,

Era no mez de Janeiro,

Houve huma scena vistosa

Dentro de hum pobre mosteyro;

Fundou-o Brites Leytoa,

Dona mui nobre d’Aveiro.

Huma princeza jurada,

Sobrinha d’altos Iffantes,

Filha de reys soberanos,

Senhora das mais pujantes,

Era a primeira figura,

Espantava os circunstantes.

Aly humilde e curvada,

Pezar de todos os seos,

Giolhos sobre o ladrilho

E as mãos erguidas aos céos,

Ouvi—exigua mortalha

Pedir polo amor de Deos.

Cantemos todos louvores,

Louvores ao Senhor Deos:

Os anjos digão seo nome,

Rostos cobertos com véos;

Leião-n’o os homens escripto

No liso campo dos céos.

Bom tempo foy o d’outrora

Quando o reyno era christão,

Quando nas guerras mouriscas

Era o rey nosso pendão,

Quando as donas consumião

Seos teres em devação.

«Isto escreveo Frei Antão

De vida mui alongada,

Nossa Senhora da Escada

O teve por Capellão.»


GULNARE E MUSTAPHÁ.

Deos Senhor foy quem nos céos

Pendurou milhões de estrellas,

Foy quem matisou a terra

De froles varias e bellas,

Quem ao mar por ser pujante

Areias deo por cancellas.

Mandou mais qu’arvoles fortes

Das sementes germinassem,

Que déssem froles mimosas,

Que perfumes trescalassem,

E mais fez que em tempo azado

As froles fructificassem.

Pois aquelle anjo das trevas,

Imigo da humanidade,

Nas arvoles poz carcoma,

Poz na frol muita ruindade,

Poz nos céos a nuvem negra,

Poz no mar a tempestade.

Nem só nas coisas terrenas

Damna, e faz mal o tredor,

A alma tambem por mil modos

Tenta com geito e sabor,

Que troca o prazer celeste

Em penas d’eterna dôr!

Mas não foy jamais que Deos

Em tal feito consentisse,

Senão porque suas posses

O homem bem claro visse;

Que sem elle fôra o mundo

Maldade só e sandice.

Mas que mal ha hy na terra

Que não venha pera bem?

Os d’aqui desta amargura

Dão coyta, e gloria porêm;

Dos outros que traz o demo

Deos o remedio lá tem.

Do mal que me foy commigo

Acontecido, al não sei,

Senão que por amor delle

Muito má vida levei,

Que me dá coyta mui grave

Do mal que me comportei.

Como já fiz penitencia,

Ora farei confissão;

Tal será, qual foy o escand’lo

De que fui occasião:

Não me tomem por modelo,

Mas tomem de mi licção.

Não he pera honra minha,

Mas pera honra dos céos,

Que eu direi publicamente

Os feios peccados meos;

Toda a vergonha foy minha,

Toda a honra cabe a Deos.

He uso assi na milicia

Celeste, e mais na d’aqui:

Dá batalha o cabo experto,

Desses muitos que ha per hy;

Toda a preza aos seos concede,

Só lôa quer pera si.


A Princeza Dona Joanna

Já vive dentro d’Aveiro;

Comsigo trouxe os escravos,

Que lhe trouxe o rey fragueiro;

O que ás terras africanas

Passou, e voltou primeiro.

Vierão aquelles feios

Netos d’Agar, inda mal!

Traçando vastas roupagens

Á maneira oriental;

Larga faxa na cintura,

Na faxa largo punhal.

Era pasmo vel-os juntos

Polas ruas passear,

Passo á passo—graves, mudos,

Com doairos d’espantar,

Profundas rugas na fronte

Rugas de máo meditar.

Levar traz si tanta gente

Nunca a ninguem vi assi;

Nem folias, nem cantares

Vi com tal cauda apoz si,

Bôdo, nem festa d’orago,

Bufão, e nem bolati’.

Mas quem vio acaso as turbas

Correrem traz algum bem?

Vão todas apoz engodos,

Apoz maldades tambem;

Mas seguir a Deos por gosto

Nem as vi, nem vio ninguem.

Com estes mouros descridos

Vierão tambem aquellas

Moiras, filhas da Mourama,

Donas, creio, muito bellas;

No trato e no galanteio

Outras que tais Magdanellas.

Vinha tambem a menina,

Aquella moira fatal,

Que nas ruas de Lisboa

Vi no cortejo real:

Cortejo del-rey Affonso

Vi-o eu, só por meo mal!

Quantas coisas que trazia,

Nulla rem lhe estava mal;

Dizião que tudo nella

Tinha graça natural,

Era coisa preciosa,

Como coisa oriental.

Aquella abelha sem dardo,

Aquella pomba sem fel

Passava noites inteiras

Tangendo n’hum arrabel,

Coando vivas saudades

Dos labios, em leite e mel.

E, alta noite, nas trevas

Ouvindo na solidão

Aquelle triste instrumento,

Al não disseras, senão

Que o mesmo demo voltado

Era n’aquella feição.

Zagales porêm da serra

Mil vezes, no fim do dia,

Polos montes não buscava

A sua ovelha erradia;

Mas no bordão apoiado,

De si mesmo se esquecia.

Cant’eu vendido e prasmado

De todos e mais de mi,

Mil vezes fugi da cella,

Té das matinas fugi,

Mil vezes, durante a noite,

Aquelle instrumento ouvi.

Mil vezes!... e não sei como

Isto foy, que o não sentia,

Quando mal me precatava,

Dava commigo que ouvia

Dilatar-se polos valles

Aquella doce harmonia.

Assi todo embevecido

Bons sonhos que então sonhei,

Boas venturas que tive,

Bons scismares que scismei!

Esqueci-me de ser frade!

Como isto foy, já não sei.

E se ás vezes me lembrava

Do juramento que dei,

Do encargo que me tomára,

E das vestes que eu tomei,

Chorava; e não sei bem como

Em pranto não me afundei.

Derramei n’aquellas brenhas,

Cheio d’extranha afoiteza,

Palavras dadas ao vento

Com muito feia crimeza,

Contra mi e contra todos,

Contra toda a natureza.

Polas serras, polos matos,

Polas voltas dos caminhos

Rojei nas sarças mordentes

E nos cardos montesinhos,

Rasgando os brancos vestidos

N’aquellas matas d’espinhos.

E não sei, oh! não sei como

Todo eu não fiquei aly,

Como eu que por tantas vezes

Rosto nas rochas feri,

Não perdi o ser de todo,

Nem siquer ensandeci.

Então ao Senhor clamava:

«Cegueira, Senhor, me dás!

Cinge-me os rins larga zona

De ferro, e bem me não traz;

Trago cilicios mordentes,

Usando burel mordaz.

«Abro e vejo o livro sancto,

E vejo que não sei ler!

Aquelles sanctos dictames

Já n’os não sei compr’hender;

Enojo occupa minha alma,

Hei pavor de me perder!»

Donde pois me vinha a mi

No proprio bem ver o mal?

Conheci no meo exemplo,

Que m’era do ser fatal:

Senhor, teo sancto remedio

He triaga cordial.

Bem como o ferro na fragoa,

No soffrer a alma se apura,

Assi que disse eu commigo

Que a triaga tambem cura,

Quanto mais amarga e punge,

Poder de sua amargura.


Aquella negra peçonha

Lavrando foy pouco e pouco;

Rohia coyta d’amores

Miôlo cavado e ôco,

Já era o mal dentro d’alma,

E eu delle rendido e louco.

Dizião meos bentos Padres:

«Que he feito de Frei Antão?

Negra dôr o tem por certo,

Negra dôr de coração:

O demo o fez, porque visse

Turbada tal perfeição.

«Parece já de esquecido

Que nem de si tem lembrança!

A taboa se achega apenas,

Não toma a sua pitança;

Té nos officios divinos

Perdeo a sua trigança.

«Sahe á noite muitas vezes,

Diz o bom do Guardião:

Sahir á noite, á deshoras,

Certo não he devação:

Que faz de noite nas ruas

Hum padre, ou frade ou christão?»

Com tudo alguns dos mais velhos

Dizião: «Que ha hy de mal?»

O quer que he que o pertuba,

Coisa não he natural:

Deve ser condão divino

Ou graça celestial!

«Pois hum sancto como aquelle!

Quem he que o ha de tentar?»

Eis senão quando começa

Voz, não sei donde, a zoar

Que Frei Antão ja não sabe

No seo rosairo rezar!

E o caso foy que hum noviço

Tirou-mo só de matreiro,

Tendo-o fechado comsigo

Por novena ou mez inteiro;

E eu d’outro me não provêra,

Sendo que tinha dinheiro!

Todolos meos defensores

Voltarão-se contra mi;

Dizião que era mal feito

Hum sancto mentir assi:

Seja-me Deos testemunha,

Nem sancto sou, nem menti.

Logo em Communidade

Propoz-me o Provincial:

«Dizei peccavi, meo Padre,

Que voz havedes tão mal,

Que não rezades as rosas

Da virgem celestial!»

Ouvido que foy por mi

Tão solemne mandamento,

Ámi, que primara sempre

Adentro do meo convento,

Não sei que pejo maldicto

Acorreo-me ao pensamento.

Não era feio o peccado,

Mas confessal-o; e assi

Fiquei de pavor tranzido,

Mal que tal preceito ouvi:

Homem não era de carne,

Montanha de pedra—si.

Torvado, calado e mudo

Nada não soube dizer;

Nem confessar meo peccado,

Nem ao menos responder:

Ficárão como suspensos

Os que erão aly a ver.

O grave Provincial

Rompe o silencio, e «Azinha

Trazei, disse elle, o hyssope,

Mais a benta caldeirinha;

Ver demo em corpo de frade

Coisa não he comezinha!»

Corre afanado o Sacrista

Pera a sua sacristia,

Traz prestes a caldeirinha

Banhada inteira na pia;

Rezava mil rezas suas,

Mil esconjuros dizia.

Do Sacrista amedrontado

Recebe o Provincial

O hyssope todo molhado,

Dizendo sacerdotal:

«Fugide, partes adversas,

Demonio, esprito do mal.

«E mais deixa a criatura

Por amor de quem Jezus

Soffreo marteyro affrontoso,

E morte vil n’huma cruz;

Em nome do Padre e Filho

E Esprito, que sempre luz!»

Ouvido aquelle exorcismo,

Cego de toda a razão,

Larguei-me do refeitorio,

Fugindo como hum ladrão:

Clamárão todos em grita:

«Chantou-se nelle o Legião!»

Enfiei os claustros todos,

Passei pola portaria,

Achei-me em logar, de noite,

Que eu mesmo não conhecia:

Os sons do arrabel mourisco

Somente daly se ouvia.

No entanto os Padres prudentes

Discursavão entre si,

Dizião dos esconjuros

Que mal cabião em mi,

Que era grande sacrilegio

Usarem commigo assi.

Ai! sacrilegio era o homem

Que ao inferno se vendia,

Era o christão que adorava

As filhas da idolatria,

Que dentro em si tinha o Demo,

E o Demo em si não sentia;

Era o Padre que trocára

O amor de seo Senhor

Por amor d’huma Donzella,

Filha d’aquelle impostor,

Mafoma, falso propheta,

Mafoma, judêo tredor!


A princeza Dona Joanna

Mandou ao nosso Convento:

Qu’eu prestes vá ter com ella

Manda por seo mandamento;

Não quer demora, nem falta,

Negocio diz de momento.

Qual seja o negocio urgente

Não m’o diz a mensageira;

Não sabe coiza de certo,

Não dirá coisa certeira:

O habito á pressa enfio,

Tomando-lhe a dianteira.

E logo, chamada á grade,

Veio a Princeza real:

«Meo Padre, disse-me entonces,

He fóra do natural

Qu’eu tenha escravos, e mouros,

Rainha de Portugal.

«Ide vós porêm chamal-os

Pera o rebanho christão;

Cazade-os vós muito embora,

Que bem dahy haverão:

Eu lhes darei corpo livre,

Deos Senhor a salvação.»

Siquer huma só palavra

Não tive n’aquelle ensejo,

Sustou-m’a já na garganta

Não sei que mesquinho pejo;

Por confessar meo peccado

Em vão trabalho e forcejo.

Vergonha foy o que eu tive,

Vergonha que todos têm;

Ultimo fructo colhido

N’aquelles jardins do Eden;

O Demo o tocou primeiro:

Todo o seo mal dahy vem!

Como está no fundo lago

O verde limo acamado,

Assi deitado e mimoso

Brilha lustre avelludado;

Tal é aquella vergonha,

Que vem apoz o peccado.

Mas remechei nas raizes

Do limo que he tão viçoso,

E vereis como se prendem

No fundo impuro e lodoso:

Aly com ellas se abraça

O feio verme asqueroso!

Aly mil serpes occultas

Vivem, cruzando laçadas,

Muitos sapos bufadores,

Muitas rãs esverdinhadas;

Humas coizas de má sina,

Outras coizas mal fadadas.


He força fallar a moira!

Disse commigo, e assi

Andava curtas passadas

Por não chegar; ai de mi!

Tem termo toda a jornada,

Cheguei! porque não morri?

Já d’aquelles outros mouros,

Tão feros, não se me dava;

Mas de suor de maleitas

O corpo se me banhava,

Quando d’aquella menina

Moirisca, me recordava.

Lançado em covil de feras

Foy o sancto Daniel,

Fui eu no covil lançado

D’aquella gente infiel;

Era elle experto em tais lutas,

Eu em tais lutas novel.

Entrei no quarto da moira

Leixando a mais gente vil,

Ardia doce perfume

Em transparente viril;

Sobre um bofete lavrado

Vi hum lavrado gomil.

Tinha o quarto huma só porta

Que hum reposteiro cobria,

E hum pano de seda verde

Sobre a estreita gelosia,

E mais hum denso tapete,

Que o som dos passos comia.

Trazia a moira mimosa

Vestes de branco setim

Entreteladas parece

De coiza de bocachim,

E humas largas pantalonas,

Respirando benjoim.

Trazia hum jubão mui justo

De seda azul anilado,

Com longas mangas perdidas,

De carmim todo ferrado,

Como se fôra hum alfange,

Na cintura recurvado.

Coifa branca auri-bordada

A negra coma apertava;

Que doces anneis brincados

A negra coma formava,

Quando por vezes no collo

De neve—se debruçava!

Sob as largas pantalonas

Hum pesinho delicado

Sahia nusinho e bello,

Mimoso e branco e nevado;

Em chapins dos mais pequenos

Parecia andar folgado.

Em cada hum dos seos dedinhos

Trazia a moira hum annel;

Meio deitada, á desleixo,

Tangia no arrabel;

Tangia-o com tanta graça,

Nem que fôra hum menestrel.

A lettra que ella cantava

Era de lingoa algemia;

Era qual trinar das aves

As notas em que gemia

Saudades de longes terras

Em peregrina harmonia!

Era menina e formosa,

Nunca lhe vi sua igual!

Coiza assim tam primorosa

E tanto celestial,

Ou era filha dos anjos,

Ou filha do pay do mal.

Deos Senhor, entre luzeiros,

E o demo em sua cegueira,

Fazem quasi as mesmas coizas

Mas por diversa maneira;

O demo como quem he,

Deos como luz verdadeira.

Pois este pôz a virtude

Entre afflicções dolorosas,

Qual frol de rosa entre espinhos;

Em ledices enganosas

Poz o demo o seo peccado,

Qual feia serpe entre rosas.


Quanto o sol mais se abaixava,

Tanto mais alto gemia

Aquella moira mimosa,

Que as suas magoas carpia:

He hora que espalha enlevos

A hora do fim do dia!

O passaro então das ramas,

Louvor a nosso Senhor!

Ultimo vôo desprega

E hum doce grito de amor;

Nas pennas esconde o bico,

Nem teme o visgo tredor.

As froles do sol viuvas

Definhão, só de tristura:

O mar soluçando geme,

Mais alto a fonte murmura,

Reina o silencio que falla,

Bafeja a doce frescura.

«Vistes vós meo bem amado,

(Dizia a filha d’Allah)

«Vistes vós meo bem amado,

«O meo senhor Mustaphá!

«Se o vistes, dizei-me onde!

«Por alma vossa, onde está?

«A noite o deixou fechado

«Portas a dentro do harem:

«Sorvia aquelles perfumes,

«Que lá d’Arabia nos vem;

«Trajava os reais vestidos,

«Que lhe cahião tão bem.

«Já era sobre-manhã

«Quando de mi se apartou;

«Seo negro corsel d’Arabia

«D’um pulo só cavalgou,

«E o sol que vinha raiando

«Lá na montanha o topou.

«Vio daly seos bons guerreiros,

«Em alas promptos estão;

«De fronte mal enxergava

«O troço do rey christão;

«Disse o crente musulmano:

«Allah m’os trouxe, meos são!

«Allah! lhes grita o guerreiro,

«Respondem-lhe os seos: Allah!

«Gritão Christãos: Sam Tiago!

«E o meo senhor Mustaphá

«Desceo então da montanha,

«Que nunca mais subirá.

«Desceo elle da montanha

«Qual rocha descommunal,

«D’agudo cimo tombando,

«Arrazando o pinheiral;

«Mas a rocha em fundo valle

«Faz-se pedaços, em mal!

“Desceo elle ao fundo valle,

“Como o tufão queimador;

“Polos christãos inimigos

“Cortou sem pena e sem dôr;

“Raio d’esforço na guerra

“Foy Mustaphá, meo Senhor!

“Mas o vento do deserto

“Depois de médas formar

“Das areias que agglomera,

“Onde he que vai acabar?

“Mafoma e Allah que mo digão,

“Que eu não sei senão chorar!

“Allah quebrou teo orgulho,

“Meo bom senhor Mustaphá!

“Allah quebrou teo orgulho,

“Mas quando se acabará

“Vida que Vives de escravo,

“Vida que levas tam má?

“Doces Huris do Propheta,

“Lá do palacio de Allah,

“Olhavão cá pera baixo

“Só pera ver Mustaphá!

“Guerreiro não foi como elle,

“Como elle ninguem será.

«De ser elle o meo amado,

«Ai que já fui bem feliz!

«De ser elle o meo amado

«Tinhão-me inveja as huris:

«Ora não ha quem m’inveje!

«Foy Allah que assim o quiz.

«Ora não ha quem m’inveje!

«Tenho no peito afflicção;

«Escrava sou d’hum escravo,

«Escravo d’hum vil christão!

«Mesquinha, que ainda o amo;

«Trago-o aqui no coração!»

Então pera junto della

Cheguei-me sem ser sentido;

Fallei-lhe em som cavernoso,

Medonho e baixo no ouvido:

¿Por que assi amas o escravo?

Disse eu, do meo mal vencido.

Foy certo o esprito malvado

Quem pera ally me arrastou,

Quem nos meos castos ouvidos

Palavras tais derramou,

Quem aos pés da moça moira

O velho padre acurvou.

Era elle quem nos meos hombros

Pezava co’o pezo seo,

Quando a moita espavorida

Do vasto leito se ergueo:

Vendo-me ally de giolhos,

Baixou de medrosa o véo.

O véo baixou de corrida,

Mas antes seos olhos vi;

Aquelles olhos fermosos

Lavar-me o rosto senti,

Tocar-me no fundo d’alma,

Tirar-me todo de mi.

Luz que vi d’aquelles olhos!

Ora bem se me afigura

A lua rasgando as trevas

Em meio de noite escura:

Vi Diana, a caçadora,

N’aquella hardida postura.


Mas a moira de repente

Hum grito franzino dá!

De mi se parte voando,

¿Senhor Deos, o que será?

Volto prestes a cabeça...

Vejo o mouro Mustaphá!

Em roda do seo pescoço

A moita os braços prendeo;

Arfa-lhe o peito açodado;

Pera traz roja o seo véo,

Off’rece o rosto mimoso

Aos beijos d’aquelle incréo!

Era assi qual amorosa

Hera que hum robre vingou;

Ligou-se estreita com elle,

Do tope se debruçou,

Folha metteo pelas folhas,

Vida com vida cazou.

«Gulnare, disse-lhe o mouro,

Gulnare, meo doce amor,

Melhor que a rosa da Persia,

Que arabio incenso melhor,

Frol dos jardins do propheta,

Que dás mate a minha dôr!»

Responde a moira mimosa:

«Dizes bem, meo Mustaphá;

O fogo chegou-se ao incenso,

O incenso effluvios dará;

O sol scintilla na rosa,

A rosa resurgirá.»

Abelha, tornou-lhe o mouro,

Que susurras de agastada;

Herva, que as folhas constringes,

De estranho corpo tocada;

Quem tocou na minha abelha,

Quem na herva delicada?

Ella entonces de malquista

Deo-lhe d’olhos pera mi;

Sancto Jezus! em que apertos

N’aquelle ensejo me vi,

Prendera-me força occulta,

Foy porêm que não fugi!

Trazia o moiro atrevido

Adaga no boldrié;

Deixar a moiros com armas,

Gente de baixa ralé,

Em que escravos de Princeza,

He certo extranha mercê!

A mão no punho da adaga,

A passo, vem sobre mi;

Trinca as pontas do bigode,

Quais cerdas de javali;

A barba toda se erriça,

Que feio rosto lhe vi!

Os olhos que me lançou,

Jamais não vi seos iguais;

Devião ser puro fogo,

Senão faiscas fatais

D’aquelle sol do deserto,

Que abraza e funde areais.

Negros olhos de panthera,

Luzindo em feia spelunca;

Olhos, que o gyro do sangue

Nas veias demora e trunca;

Olhos cheios de carniça

E della não fartos nunca.


A mi chegou-se, inquirindo,

“Que vieste aqui fazer?”

Fiquei deslogo tremendo,

Sem lhe poder responder:

“Senhor,... em nome do céo!...”

Disse eu; que havia dizer?

“Em nome das tres pessoas

“Da trindade, em huma só,

“Eu vos rógo, senhor mouro,

“Que siquer tenhades dó

“Da alma vossa arriscada,

“Já não do corpo, que he pó.”

N’aquelle ensejo apertado

De sancto ardil me vali;

Lembrou-mo o exemplo sagrado

Da forte hebréa Judith!

Ser isso influxo divino

Sabendo fiquei daly.

Tornou-me o mouro descrido:

“E a mi que m’importa mais

“Que viver entre valentes,

“Em gozes celestiais,

“Entre jardins prazenteiros,

“Entre fagueiros rosais?

“Tu me fallas dos teos Deoses!

“Ha outros sem ser Allah?

“Allah, que o vôo dirige

“Do bemfazejo Kathá!

“Christão, dos teos falsos Deoses

“Bem pouco a mi se me dá.

“Digo-te eu, que elles não podem,

“Mais que digas que são trinos,

“Suster no ar do propheta

“Os sanctos restos divinos,

“Que a Meca chamão por anno

“Milhares de peregrinos.”

Ouvindo aquellas blasfemias,

Senti arrojo dos céos;

Hia fallar, mas o mouro

Tornou-me: “Só Deos he Deos,

“E Mafoma o seo Propheta,

“Em que pêze isto aos increos!

“O que penso, sem resguardo

“Dirt’o-hei, christão, alfim;

“Não uza como vós outros,

“Mahometano Muezzin,

“Não vai á caza dos crentes,

“Não leva tenção ruim.

“Não rója, não, de giolhos

“Aos pés de christã donzella;

“Mas lá dentro da Mesquita

“Vive sempre e sempre vela,

“Ou do alto minarete

“Á prece os crentes appella.

“Portas á dentro do templo,

“Imagem da crença pura:

“De alto do minarete,

“A imagem d’Allah figura,

“Bradando incessante e sempre

“Aos homens, daquella altura.”

“He assi entre vós outros,”

Tornei-lhe, que entre nós não.

“Queremos em cada caza

“Hum templo de devação,

“Em cada peito hum sacrario,

“Hum padre em cada christão.”


Sobresteve mudo e quedo,

E como que reflectia

O moiro, que me parece

A graça já presentia;

A graça que o céo nos manda,

Como orvalho em noite fria.

Mas não era inda chegado

Aquelle ensejo feliz,

Que passado curto prazo,

Severo o moiro me diz:

“O que Deos faz he bem feito:

“Mouro nasci, não me fiz!

“Deixemos pois tal assumpto,

“Delle não quero tratar;

“Ou antes dizei, bom Padre,

“Qu’hides carreira tomar,

“Adoptando novo ensino,

“Novo modo de pregar.

“Andai por essas estradas

“E dizei á vossa gente:

“A vós que mal vos hão feito

“Os homens lá do oriente,

“Que vos livrárão dos godos,

“E do servir inclemente?

“As vossas artes que tendes

“Cujo as havedes?—de quem?

“Donde vêm ás vossas terras

“Campos de lavra que têm,

“E as torres acastelladas,

“E as mesquitas, donde vêm?

“Quem nos vossos negros montes

“As alcáçovas plantou,

“Como candido turbante,

“Que na fronte se enrolou

“De hum homem da côr da noite,

“Que a Nubia ardente engendrou?

“Ou s’isto melhor te praz:

“São obras de reys pujantes,

“Tendas ricas e pomposas

“No dorso dos elefantes;

“Cr’oas de pedra lavrada

“Na fronte d’altos gigantes.”

Estes mouros na verdade

Qu’esprito e graça que têm?

Quando vos dizem mentiras,

Sabem dize-las taõbem,

Que havemos de perdoar-lhes,

E em cima querer-lhes bem.

Mas andão tanto enfrascados

No seo maldicto alkorão,

Que era de ser o primeiro

A soffrer condemnação

N’aquelle sancto concilio,

Honra do nome christão.

Se d’algo me peza a mi,

Hé só polos não ver mais;

Fazião prompta justiça

Destes e d’outros que tais:

Ardião com seos authores

Em bons applausos gerais.

Se delles houvesse agora,

De que pró nos não seria?

Vive tal livro entre gabos,

Que ally no fogo arderia,

Com pasmo de seos authores,

Que os têm por coiza mui pia.

E d’outros que só por artes

Fruem da voga que têm,

Que não sei onde he seu preço,

Nem donde apreço lhe vem,

Senão por vias occultas,

Que as não descobre ninguem!

Mas deixemos estas coisas,

Que não são de boa avença!

O livro que eu reprovára

Por muito justa sentença

Trouxera-me coyta grave,

Com mais grave malquerença.

Deixemos pois estas coisas;

Bem qu’eu não saiba fallar,

Senão com longos rodeios:

(Vem-me o séstro de pregar)

Quando me julgo no cabo,

Mais longe estou de acabar.


“Mouro, n’aquella batalha,”

Disse eu, “ouvidos me dá,

“Quando o reyno teo perdeste,

“Não chamaste por Allah?

“Não te ouvio!—chama por Christo,

“E Christo, Deos, te ouvirá.

“Vás as terras da Moirama,

“Ou fiques em Portugal,

“Senhor serás do teo corpo,

“Vida terás natural:

“Vê, se Gulnare formosa

“O teo propheta não val!

“A moira que não foy feita

“Pera servir a senhor,

“Que de bella e de mimosa,

“Parece que o mesmo amor

“O corpo tem de quebrar-lhe,

“E de apagar-lhe o candor.

“A moira doce nascida,

“Doce creada; perol

“Que só sabe apavonar-se

“Da manhã polo arrebol,

“Não nos jardins destas partes,

“Mas onde mais queima o sol.

“A moira bella e mimosa!

“Avezinha pipitante,

“Qu’ama ar puro, espaço livre,

“E céo de cor deslumbrante,

“Que o vôo fugaz desprega,

“Quando o sol he mais brilhante!

“Ai! não guardes a avezinha

“Dentro de estreita prisão,

“Não mudes a frol mimosa,

“Que bem está no seo torrão:

“Vai ás terras da Moirama;

“Se queres hir, sê christão.”

Huma lagrima brilhante,

Como que a furto luzia

Nos olhos da moça moira,

Que o moço moiro cingia;

Em que nada lhe dicesse,

Muitas coisas lhe pedia.

Em que algo não lhe escutasse,

O mouro bem compr’endia

Que mudas fallas fallava

O pranto que ella vertia:

Saudades erão da Patria,

Que o mouro em sonhos só via.

Como havia resistir-lhe,

Se ella pedia chorando;

Se o mal por que ella passava,

Tambem ’stava elle passando;

Se o bem, que lh’ella pedia,

Lhe estava dentro fallando?

Mas quando os vi abraçados

E aquelle amor entendi,

Do effeito das minhas vozes

Eu mesmo me arrependi;

Cravei as unhas no peito,

Pezar de morte senti.

Té cheguei a ter desejos

De ouvir-lhes hum não revel,

E que então a moça moira,

E mais o mouro donzel

Parassem no fundo inferno,

Provassem, como eu, seo fel.

Mas n’hum coração sincero

Que poder que o pranto tem,

Quando no peito o sentimos,

Quando de huns olhos nos vem,

Que fôra morrer por elles

Prazer e mui grande bem!

Pedido tam gracioso

O mouro agreste rendeo;

De leixar o seo Mafoma

Logo desly prometteo,

Deixando a avença do demo,

E os ritos do culto seo!

Já me não sinto enleiado

Se o padre Adão manducou

Aquelle fructo do Eden;

Foy Eva quem lh’o offertou,

Eva, mulher e sozinha,

A qu’elle primeiro amou.

Mas quem tem visto mulheres,

E tem a sua mulher,

Ceder-lhe do seo proposto

Por mero condescender!

Se não he coisa do demo,

Não sinto o que possa ser.

Mas fez mais a linda moira!

Que sem me fazer pedido,

Entendi que por amores

Não devia andar perdido;

Quando por outro era amada,

Por outro della querido.

Hum pobre frade coitado

Bem sabe que nada tem

Nesta vida mal passada,

Onde quitou todo o bem;

Ninguem que vele por elle,

Sobre quem vele—ninguem!

Curar da may infermada

Bem pode o homem segral;

Ha sempre casta donzella,

Que se dôa do seo mal:

O frade só, despojado

Vive do fôro humanal.


Viverão aquelles mouros

Depois desta occasião,

Muitos annos bem logrados,

Em amor e devação;

Louvor ao sancto baptismo!

Louvor ao nome christão!

Mas quando foy que nos veio

Aquella peste primeira,

Seta que o alvo attingia

De bem talhada e certeira,

Chegou ao christão novato

Hora vital derradeira.

E a moira por este evento,

Cheia de muita afflicção,

Recolheo-se irmã noviça

No convento d’Azeitão,

Onde viveo muitos annos

Em aturada oração.

Madres d’aquelle convento

Dizem que a virão rezar,

Em extasis jubilosas,

Suspensa, erguida no ar;

Favor do esposo divino,

Milagres do muito amar!

Ouvindo aquelles extremos,

Commigo logo assentei

Que eu fôra hum pastor perdido,

Que nas sombras divaguei,

Té qu’huma ovelha esgarrada,

Mercê de Deos, encontrei!

E a moira que eu tanto amára,

Desly se me figurou

Candida lã d’ovelhinha,

Que a sarça agreste cardou;

Ficou na sarça prendida,

Ao vento se meneou.

E alguem que ally divagava,

Felpas da lã recolheo,

Bateo-as na fonte pura,

E em branca tela as teceo;

Depois no altar consagrado

Ao Senhor Deos off’receo.

A mão de Deos poderoso

Bem claro se vê então,

Quando o torpe ismaelita

Faz-se devoto christão:

Só elle hum bom diamante

Póde fazer do carvão.

Mudar o vicio em virtude,

E a fraqueza em valor,

E o calor em frescura,

E a frescura em calor,

E tudo assi por davante,

Só elle, que é Deos Senhor.

Louvor a Deos nas alturas!

E aos homens de bom talante

Na terra paz e ventura;

Paz e ventura constante,

Senão na vida que passa,

Na vida que sempre dura.


SOLÁO
DO SENHOR REY DOM JOÃO.

Ora pois direi hum feito

Do senhor rey Dom João,

Segundo que foy do nome,

Primeiro na devação,

Primeiro mais que o primeiro,

Mais que nenhum rey christão.

Nem sempre rezar no côro,

Nem sempre velar convem;

He mister algum descanço,

Alguma folga tambem,

Entre o labor já passado

E o novo, que perto vem.

Ao duro mal que passamos

Algum remedio he mister:

E se a nenhum conhecemos,

Que mais nos ha de valer

Que recordar o passado

E contos delle fazer?

He assi que no mar alto

O cançado mareante

Luta em vão contra a tormenta

E contra o vento inconstante;

Negras vagas se encapellão,

Negra morte tem diante.

Quando n’aquelle deserto

Languidos olhos estende,

Vê mar que ferve revolto

E chuva que do céo pende:

Como deixou seu alvergue,

O triste não comprehende!

Sembrão-lhe então formidaveis

Os p’rigos que elle affrontou;

Figura risonhos quadros

Dos gozos que já gozou,

Do que na terra o convida,

Dos que na terra deixou.

Do que outrora foy passado

E mais do que vai passando,

Medonho e máo parallelo

Vai o mesquinho traçando;

Dôr de espinhos penetrantes

O peito lhe está varando.

Dias lembrar já passados

E já passada ventura,

Quando o viver he tormento,

Tormento que sempre dura,

He certo desdita grande

E muito grande amargura.

Mas vede o que val a vida!

He aquella aventurada,

Se dizemos verdadeiros:

Houve hum dia, huma hora, hum nada,

Não do pezar combatida,

Mas do prazer bafejada.

Simelha quem pola calma

O dia inteiro vagou,

Depois no marco da estrada

Cançado e triste quedou;

Ally thesouro sem dono,

Ventura sua, encontrou.


Era na sancta semana,

Semana de devação!

Com jejuns e penitencias

Apresta-se o bom christão

Pera os mysterios mais altos

Da mais alta religião.

Quantas coizas que nos fallão

N’aquelle passo sagrado

D’aquelle homem divino,

D’aquelle Deos humanado,

Que por amor de seos filhos,

Ingratos, foy maltratado!

Não foy por odio ou vingança,

Mas por dinheiro trahido!

Por hum homem refalsado,

Por hum discip’lo querido;

Trahido por meio infame!...

Hum falso beijo vendido!

Foy mister por mór tormento,

Que morresse polos seos!

Entregue por hum eleito

Nas garras dos Fariseos,

Homem morreo polos homens,

Morreo judeo por judeos.

C’roou a fronte sagrada

C’roa d’espinhos tecida,

Correrão dados infames

Em taboa vil, denegrida;

Em hastea foy rematada

Tunica em sangue tingida.

Tormentos, baldões e mófa

Quem mais do qu’elle soffreo?

Quem mais comprido marteyro,

Quem mais affronta e labéo?

Tal foy que o homem divino

O rosto ao calix torceo.

Tal foy que o Deos humanado

Disse ao Deos, que era seu pay:

«Senhor Deos, s’inda he possivel,

Do vosso intento tornai;

Este calix de amargura

Dos labios meos affastai!»

Carpindo males alheios,

Quantos não vemos per hy,

Que nem siquer se recordão

De quanto soffreo por si,

Hum Deos na cruz affixado,

Mil dores soffrendo ally!

Ante esta victima augusta

Da mais feroz crueldade,

Cala quanto o homem soffre,

Quanto soffre a humanidade:

Tormento não foy como elle,

Não foy como ella impiedade.

E comtudo alguns increos

E refalsados atheos,

Guardão n’as extasis todas

E mais os transportes seos,

Pera Socrates que morre,

Que não pola dôr de hum Deos!

E não vê a cega gente,

Imiga de toda luz,

Que longe que vai do Grego

Ao Nazareno Jezus,

E da masmorra ao calvario,

E da cicuta a huma cruz!

E aos effeitos da morte

Não attenderão tambem:

Se emparelhamos idéas

Ás coizas que corpo tem;

Entre elles vai mór distancia,

Que vai da Grecia á Belem.

Morre o Grego, e não dá fruitos;

Morre Jezus por nos dar

A ley do céo pera a terra;

Ley que só pôde lavrar

O sangue do bom cordeiro

Dos falsos Deoses no altar.

Vivem algozes d’aquelle,

E huns homens apenas são;

Em quanto os algozes deste,

Em que povo de eleição,

Sumirão-se, como argueiro

Nas azas d’hum furacão.


Era na sancta semana,

Semana de devação:

Comsigo mesmo propunha

O senhor rey Dom João:

«Confessarei minhas culpas,

Que alem de rey, sou christão.

«Ao Senhor, pay de nós todos,

Meos erros confessarei;

Que me dê força indomavel

Pera guardar minha ley,

Pera punir os culpados;

Que alem de christão, sou rey.»

Azinha chamando hum pagem

Lhe diz, e lhe ordena assi:

«Hide aos Padres Dominicos

(Melhor lhes quero que a mi)

Dir-lhes-heis que sou lá prestes,

Que vou commungar ally.»

Veio logo o mensageiro

Com a mensagem real;

Recado qu’el-rey lhe dera,

Dá elle ao Provincial.

«He certo mercê mui grande,

Responde,—tenho-a por tal.»

Ao padre Thomaz da Costa

Chama n’huma Ave-Maria;

Sabia o bom do Prelado

O muito qu’el-rey lhe qu’ria:

De tam lisongeiro acerto

Comsigo mesmo sorria.

Demais que o bom do Prelado

Dizia com bem justeza:

«Prazer aos Reis cá da terra

Não he nenhuma vileza;

Praz a Deos que lhes prazamos,

Pois vem delle a realeza.»

Apresta-se com trigança

Tudo quanto era mister:

Sabia o Padre Thomaz

Encargos do seo dever;

«Vergar colossos, dizia,

Quem tem posses de o poder?

«Sob as mãos do jardineiro

Torto arbusto lá se ageita;

Mas onde existe essa força

Que hum rudo tronco sugeita,

Se a força he balda no tronco,

Se o tronco a força regeita?

«Em bem do pastor sagrado,

Que por mercê divinal

Vive no ermo escondido,

Como hum singelo zagal;

Cúra pastor de pastores,

Não de pessoa real.

«He facil o seo encargo,

Pejo, nem dôr lhe não traz;

Não he assi nos palacios,

Onde só vejo disfraz:

Vêm logo as razões de estado,

Inventos de Satanaz.

«Vêm logo as leys cá da terra

Contrapor-se ás leys dos céos:

Sêde christãos, reys senhores,

Ou então de todo incréos!

Leys dos homens não se cazão,

Não seguem ás leys de Deos.

«Não ligueis n’hum só consorcio

Terra feia e céo luzente:

Leys da terra a terra buscão,

Como a raiz da semente;

Leys do céo os céos procurão,

Como flor que o sol presente.»


Era aly na pedra raza

O senhor rey Dom João;

Ante o velho sacerdote

Fazia a sua oração,

As mãos em cruz sobre o peito,

Giolhos postos no chão.

Armas que sempre cingia,

Todalas tinha despido;

Não tinha sedas, nem joias,

Mas peito d’aço batido:

Era qual homem vivente

Em ferrea prizão mettido.

Curva-se hum rey poderoso

Perante hum homem de pé;

Perante hum Padre coitado,

Que nada tem, nada he:

Licção profunda e subida,

Preceitos da nossa fé!

Portas á dentro do templo,

Onde Deos eterno habita,

Onde aquelle amor sem zelos

Somente os peitos agita,

Nas differenças do mundo

Fiel christão não cogita.

Foy assi na antiga Roma

Polas festas saturnais,

Folgavão, senhor e servo,

Como se forão iguais;

Mas o que lá foy licença,

Aqui são leys divinais:

Aqui são todos curvados,

Todos—o servo, o senhor;

Aquelles que a vida fruem,

E aquelles que só tem dôr;

Pobres, que almejão a morte,

Ricos, que á morte hão pavor.

Nem he por vil comezaina,

Que ally reunidos estão;

Mas sim, por que a Deos importa

Que não haja distincção

Entre irmãos, no patrio abrigo,

Rezando a mesma oração.

Sóbe assi aquella prece

Da multidão apinhada,

Qual lisongeiro perfume

Das flores d’huma grinalda;

Tem huma odor, outra espinhos,

Outras tem côr, outras nada.


Era aly na pedra raza

O senhor rey Dom João;

Já disse as culpas que tinha,

Já fez a sua oração:

O Padre vai ministrar-lhe

A hostia da communhão.

Tem no rosto grave e serio

Expressão nobre e subida;

Maneiras cheias de brio

Em postura comedida,

Parece que vão mostrando

Quanto val o pão da vida.

Parece que mostra, quanto

Por vil e baixo se tem,

Merecendo honra tamanha,

Que a não merece ninguem;

Dahy lhe vem ser humilde,

Nobreza dahy lhe vem.

Perfez-se o rito sagrado,

Vai ser dado o sacramento;

Principia el-rey—confiteor,—

Quando n’aquelle momento

Surge ao pé delle um guerreiro

De marcial hardimento.

Tinha feroz catadura,

Só aço e ferro vestia,

Polas grades da vizeira

Raios de luz despedia:

Medonho e fero apparato

Nas sombras da sacristia.

Era o rey brioso e forte,

Homem de muito valor,

Mas olhos lançou á espada

A furto!... seja o que for,

Não creio que homens d’aquelles

Possão jamais ter pavor.

Em voz carregada e forte

Assi começa o guerreiro:

«Em nome do Senhor Deos,

Meo Padre, aqui vos requeiro;

O senhor rey não commungue,

Pois que não he justiceiro.»

A hostia das mãos do Padre

Cahio do calix no fundo;

El rey carrega os sobr’olhos...

Certo não era jocundo

Affrontar de rosto a rosto

As sanhas de João segundo.

Era então fresca a memoria

De hum caso máo, miserando:

De noite se ergueo a forca;

Mas quando o sol foy raiando,

Não vio ninguem mais a forca,

Nem mais ao duque Fernando!

Comtudo o bravo guerreiro

Sanhas do rey não quiz ver;

Não ha que lhe ponha embargos,

Nem que lhe possa empecer:

«Senhor, sou Padre Tavares!»

Fita-o el-rey sem querer.

Depois lhe diz (que tal nome

Quebrára a furia real):

«Em bem, meo bravo guerreiro!

Mas esse trem, de que val?

Somos em terras d’Hespanha,

Ou somos em Portugal?»

—«Senhor, não uzo brocados

Vedes-me assi, e he razão,

Que havedes os meos haveres

Sem me deixardes, senão

Armas comidas no peito,

Armas gastadas na mão.

—«Fui ter ao vosso palacio,

Ninguem me não conheceo;

Quantos ally são comvosco,

Eu vos direi, senhor meo:

Nunca os eu vi nos combates,

Nunca na guerra os vi eu!

—«Voltei d’ally, protestando

Jamais não voltar ally;

Conheceis as minhas armas,

Se não conheceis a mi;

Vesti-me á modo de guerra,

Vim ter comvosco,—eis-me aqui!

—«As minhas alcaydarias

De Portal’gre e Assumar,

Senhor rey, vós m’as tirastes,

O que se chama tirar;

Ficavão perto da raya,

Máo azo de guerrear.

—«Das minhas alcaydarias

Eu tinha as rendas reais;

As guerras já são passadas,

Porque ora m’as não tornais?

Mal cabe em reys a cubiça,

Senhor, se m’as cubiçais.

—«Nem porque o velho guerreiro

Já nada vos presta e val,

Vos deveis portar com elle,

Qual dono pouco leal,

Que o seo corsel de batalla

Despreza no almargeal.

—«Assi que, Senhor, vos digo

Que vos não peço mercê;

Aquillo que me he devido,

Só peço que se me dê!—»

Prouve ao rey aquelles ditos

E mais o geito que vê.

Depois a mão estendendo

Ao seo leal lidador:

«Nós vos faremos justiça,

Assi como justo for;

Tendes a nossa palavra,

Seja-vos ella penhor!»

Alegre o Padre Thomaz

O seo mister rematou;

Hostia tomada do calix

Aos labios do rey chegou,

El-rey d’hum copo doirado

Hum gole d’agoa tomou.

Mimoso tempo d’outrora

Qual nunca mais o verei,

Nem tam inteiros sugeitos,

Hum ao outro dando a ley:

No Paço o rey ao vassallo,

Na Igreja o vassallo ao rey!


SOLÁO
DE GONÇALO HERMIGUEZ.

Não ha mais d’aquelle tempo,

Em que era tudo lhaneza!

Acções e vida e costumes

Desta gente portugueza,

Por tal geito se trocárão,

Que he hoje tudo impureza.

Não trato d’este ou d’aquelle,

Pois ha em tudo exeições;

Mas trato da grande lépra

Que vejo hy nos corações:

Desprêso do amor da gloria

E apêgo ás ruins tenções.

Outrora, sabeis vós como

Garboso Donzel se havia

Por captar nobres extremos

Da moça que requeria,

Sempre grave, honesto e brando,

Sempre uzando cortezia?

Não trescalava pivetes,

Fitas, nem laços comprava,

Nem toda a manhã divina

Seos enfeites concertava,

Nem nos chapins se revia,

Nem nos cabellos primava.

Não corria seca e meca

Traz de mimosa donzella,

Que nas ruas lobrigava;

E por ver mais perto a bella

Não hia ao templo sagrado,

Somente por amor della.

Nem as noites janeirinhas

Mais compridas e mais frias,

Levava mono amante,

Por baixo das gelozias,

Desenfiando hum rosairo

De trovas e ninharias.

Jamais não foy esse o estilo

Do moço em armas novel,

Em que experto dedilhasse

Na lyra do menestrel,

No tempo em que, não domada,

Lutava a gente infiel.

Por mais que amores amasse,

Por mais que fosse gentil,

Ninguem n’o vira a deshoras,

Como homem de tenção vil,

Como hum ladrão que de medo

Vai passo e manso e subtil.

Não pedia manto ás sombras,

Nem ao silencio mercê,

Nem do sol se arreceiava,

Como homem que pouco vê,

Nem da lua appellidada

A casta, não sei porquê.

Mas antes no amphitheatro,

Coberto de espectadores,

Onde mais povo corria,

Mais bellas e justadores,

Na arena se apresentava

Com letra e tenções d’amores.

No meio d’aquella chusma

D’arautos e passavantes,

Mantenedores do campo

Reys d’armas e circunstantes,

Feixes d’armas resplendentes,

Ondas de plumas brilhantes:

Entrava o novel guerreiro

No cerco dos justadores!

De alguma dona sizuda

Na charpa trazia as cores,

Tinhão amores ás claras,

Por que erão nobres amores.

Silencio! que sôa a trompa,

A justa vai começar!

Entre si ferem mil lutas

Guerreiros a par e par:

Da lança feita pedaços

Voão estilhas ao ar.

Levão logo mão da espada;

Que feios golpes se dão!

Abolão-se capacetes,

Talhão-se arnezes; e a mão

Certeira ao travez da malha,

Vai direita ao coração.

La sôa de novo a trompa,

Proclama-se o vencedor,

Que aos pés da bella entre as bellas

O seo trophéo vem depor:

Ao mais valente a mais bella,

Ao mais gentil mais amor.

Era a ley,—e até parece

De acordo co’a natureza,

Que se compraz no consorcio

Da força co’a gentileza;

Mais alma com mais coragem,

Mais brio com mais nobreza.

A abelha construe seos favos

Em troncos alevantados;

E eis a hera graciosa,

Que em abraços apertados

Não cinge mesquinho junco,

Mas carvalhos alentados.

Boa era a ley!—mas eu creio

Que lhe descubro hum senão;

Quem nos diz que o mais valente

Deva de ter mais razão,

Porque seja a sua dona

Como hum vaso d’eleição?

Seria coiza de ver-se,

E coiza de mui folgar,

Ver um dragão de mulher,

Chamada a bella sem par,

Á pura força de espada,

Sem mais pôr, nem mais tirar!

He bella: e al não digais,

Sob pena d’hum fendente,

Que vem do céo, como hum raio,

Provar ao villão que mente,

Co’os dentes que tem na bocca,

Como hum perro maldizente!

Fosse o caso como fosse,

He certo que d’ahy vem

Ás nossas donas de agora,

Aquelle sestro que têm

De amarem a militança

Melhor do que a nenhum bem.

Qual não gosta de ser bella,

Ao menos de o parecer?

Em quanto muitas ... Deos meo,

Eu me sei compadecer,

Soffro o mal que os outros passão,

Mais talvez que o meo soffrer.

Muitas ha hy, que eu conheço,

Que aqui na terra não são,

Senão porque as vós mandastes,

Meo Deos, por occasião

De tedio e nojo ao peccado,

E morte da tentação.

Té os moços, que as namorão,

Dirão no confessional,

Jurando por Deos eterno

E pola vida eternal,

Que se fallão delle e della,

He puro aleive e não al.

Vede pois qual não seria

O pasmo dessa donzella,

Proclamada ao meio dia

Fermosa como huma estrella,

Sem que houvesse ahy no mundo

Coiza melhor, nem mais bella!

Logo no fraco bestunto

Julgára, sem mais razão,

Que n’este mundo mesquinho

He tudo engano e buzão,

E té que a propria belleza

He coiza de convenção!

Era assi que n’outras eras

Garboso donzel se havia

Por captar nobres extremos

Da moça que requeria,

A ponta de fina espada

E arrojos de valentia.


No tempo de Alphonso Henriques,

Que foy nosso rey primeiro,

Havia na sua côrte,

Côrte de rey mui fragueiro,

Hum tal Gonçalo Hermiguez,

Destemido cavalleiro.

Era moço e mui donoso,

De mui boa nomeada:

Fiava el-rey muito delle,

E a raynha Mafalda

Folgava de ouvir-lhe os cantos

Aos sons da lyra afinada.

Portas a dentro do Paço

Não tinha nenhum rival

Em compor trovas mimosas;

E no campo e no arrayal

Não n’o havia mais valente,

Mais forte, nem mais leal.

Quanta sanha que elle tinha,

Votára a gente infiel,

Porque o pay lhe havião morto,

Era elle ainda novel;

Vel-os porêm não podia,

Nem pintados no papel.

Era o mesmo ver a hum destes

E entrar logo em sanha tal,

Que era força ter mão d’elle,

Ou saltava-lhe ao gorjal

Pera torcer-lhe o gasnate,

Como se fôra hum pardal.

Mas se tinhão tento n’elle,

Era outro conto ruim!

Cabia logo em desmaios,

Que era hum desmaio sem fim!

Dó era ver tal sugeito

Prostrado e defuncto assi.

Andava sempre occupado

Em perpetua correria

Polas terras do mourisco,

E muito mal lhes fazia;

Dava porêm mór realce

Ao nome que já trazia.


Como fosse e os companheiros

Em hum saráo folgazão,

Lembrou-se que perto vinha

A noite de Sam João,

Azado ensejo de aos Mouros

Fazer-se affronta e lezão.

Cheia de bello hardimento,

Aquella nobre nobreza

Por amor de seos amores

Commette tam grande empreza,

Qual a de hir terras de Mouros

Com feros, ronco e braveza.

Qual apresta o seo ginete,

Qual a fita dependura

No collo nunca domado;

Qual a pesada armadura

Inverga, e ahy se recolhe,

Como em arce mui segura!

Qual a Deos por testemunha

Toma da sua tenção,

Qual aos pés da sua dona

Requer-lhe extremo condão,

Extremo volver dos olhos,

Extremo apertar da mão!

Qual desly toma algum nome

Por grito de accommetter,

Que nas lidas e pelejas

Saberá fazer valer!

Qual sente o nojo futuro,

Em mal, que lá vai morrer!

Mas nunca será que o rosto

Mostre o que n’alma lhe mora:

Quem vio a morte passar-lhe

De perto, já não descora

Por hum presagio funesto,

Sendo ella coiza d’huma hora.


Aquelles bons cavalleiros

Azinha promptos estão;

Lá se partem de Coimbra,

Montes alem já lá vão!

Ninguem vio mais escolhido,

Nem mais luzido esquadrão.

Entre elles por mais robusto

Gonçalo Hermiguez campeia;

Diz seo porte sublimado,

Que de nada se arreceia,

Mas antes que a todos repta,

De tanto que o collo alteia!

Caminho vão de Lisboa

Com todo apercebimento!

Não convem que se aprecatem

D’aquelle accommettimento

Mouros que vivem na regra

Do seo alkorão nojento!

Sabeis a regra qual seja?

He viver dentro do harem,

Dizendo mal do toicinho

E mais do vinho tambem,

Sem que lhe pêze este mundo,

Sem que lhe pêze ninguem!

He vegetar entre flores,

He viver vida folgada,

Aspirando incenso e odores

Em molleza effeminada,

Nem que fosse huma odalisca,

Ou mulher alambicada.


Pozerão todos a mira

Em Alcacere do Sal,

Covil de feras humanas,

Não de cordeiros curral;

Nó gordio do vil mourisco,

O ferro o corta, não al!

Os que por terra a demandão

Vão em procura d’Almada,

Alcáçova dura e forte,

Em rija pedra assentada,

Como pedra preciosa

Em ferrea c’roa engastada.

Outros lá vão Tejo arriba!

Ó Tejo, quanto me he grata

Essa placida corrente,

Quando a lua se retrata,

Chovendo chuva de raios,

No teo chão de lisa prata!

Que doce que he teo remanso,

Quando manso o vento gyra,

Que nas folhas rumoreja,

E como que ally suspira

Melindres d’amor suave,

Que nem tangidos na lyra!

Que arroubos que infiltras n’alma,

Quando vai ao som das agoas

Navegando o passageiro;

Já, se as tem, não sente as fragoas,

Que no peito a dôr derrama,

Como huma enchente de magoas!

Mas talvez dos cavos olhos

Polas faces a correr

Sinta o pranto represado

Polo seo muito soffrer:

Corra embora, qu’esse pranto

Dôr não he, senão prazer!

Que neste val’ de amarguras,

Onde viemos penar,

Por cada dia hum marteyro

Por cada instante hum pezar,

He bem feliz quem só passa

Dores que fazem chorar!

Não sei ledice o que seja,

Nem o que seja prazer;

Nunca os senti n’esta vida,

Nem n’os posso conhecer;

Que não sou dos bemfadados,

E nunca o não hei de ser!

Mas o pranto extravasado

Não he quem nos dá morrer,

Nem quem o viço dos annos

Faz seccar e emmurchecer;

He antes aquelle pranto

Que não sabemos verter.


Lá vão hindo Tejo acima,

Olhos longos polo mar,

Lá onde enchergão Lisboa

Com fogueiras de espantar;

Fogo accendido na terra

Sóbe em centelhas ao ar!

D’aquelles fogos accesos

Em roda os velhos estão,

E as donzellas feiticeiras

Com sorriso folgazão,

Cantando coytas de amores,

Quites de coytas então.

He a noite milagrosa

Do Bautista milagroso,

Té dos mouros da mourama

Havido por glorioso:

Folgão nobres e senhores,

Folga o villão descuidoso.

Horas de noite folgada

Não tardão, não têm vagar:

A noite assi do Bautista

Vai serena a escorregar,

Como areia da ampulheta,

Hum grão e outro a tombar!

Vai assi como o perfume

Respirado d’uma frol,

Que não vemos, mas sentimos;

Que sentimos no arrebol

Da manhã, que pola terra

Se espalha em antes do sol!

Vai assi como o rocio

De serena madrugada,

Rorejado gota a gota

De branca nuvem prenhada

Sobre o calice musgoso

De huma flor avelludada.

Vai assi, qual sóe prender-se,

Em quem de amores não cura,

Doce peçonha de amores:

Donzella de vida pura,

Quando ha temores de havel-o,

He qu’elle já não tem cura.


Do Alcacer as lindas filhas,

Já era nascida a aurora,

Pera ver uma corrida

Sahirão portas a fóra,

E mais pera colher flores,

Persuadidas da hora.

Logo sahidas no prado

Forão, qual sohem de ser

Mansas agoas d’hum regato

Em chão sem leito a correr,

Cada qual por seo caminho,

Cada qual a seo prazer!

Desly pulando e cantando

Vão nas matas de alecrim,

Colhem a rosa corada

E a branca flor do jasmim;

Brincão brinquedos contentes,

Folgão folguedos sem fim!

Oh! que festas! que alegrias!

Que arruido vai no prado!

Que bem cantado rimance,

Que soláo tãobem cantado!

Não têm as aves atito,

Nem gorgeio mais brincado!

Oh! que vozes melindrosas,

Que accentos encantadores

N’aquelle prazer d’huma hora!

As moças vão colher flores,

E os moços que vão com ellas

Vão lá por colher amores.

Eis nisto ... estranho arruido!

Rouca trompa abala o ar;

Logo assomão cavalleiros

Com figuras de espantar:

Allah nos valha, mofinas!

Dizem moiras a chorar.

Allah! repetem n’os Mouros,

Vendo o pendão portuguez;

E do alfange recurvado

Levão mão sem pavidez!

Feios golpes se preparão,

Outra folgança outra vez!

Retine o ferro no ferro,

Talhão-se cotas e arnezes;

O fino alfange mourisco

Abre o elmo aos portuguezes;

E a espada que bem degola,

Bem multiplica os revezes.

Lá chega o alarma á Cidade!

Lá vem mouros descançados

Em descançados ginetes:

Cavalleiros esforçados,

Que por Christo Deos pelejão,

Não têm de que ter cuidados.

Gonçalo Hermiguez, o cabo,

Avante! brada, e não al:

Brilha o valente nas lides,

Que ally não acha rival,

Aquelle cabo entre todos

Sanhudo e forte e fatal.

Maneja tam facilmente

O seo pesado montante,

Que Alcides com sua clava,

E nem o Titan gigante,

Serra a serra sobrepondo

Não tinha aquelle semblante.

Eilo vai per entre os mouros,

Abre entre elles larga estrada;

Quem fica em prisão de guerra,

Quem lá foge em debandada!

Ficão moiras prisioneiras,

Mulheres—gente coitada!

Gonçalo Hermiguez em tanto

Vio que longe lhe fugia

Linda moira desmaiada,

Que hum moço mouro cingia,

Dando d’esporas ao bruto,

Que mais que o vento corria!

Vai sobre elles sem tardança:

Com quanto de arremeção

Matal-o tambem podera,

Certo o fizera, senão

Temesse que a moira bella

Morresse de sua mão.

Mais logo que foy com elle,

D’hum golpe que despedio,

Cerce o cortou pelo meio:

Golpe assi nunca se vio!

E a moira tomando em braços,

Azinha daly fugio.

Passou terrivel com ella

Por meio da gente fera;

Quem n’o vira tam sanhudo,

Leão raivoso dissera,

Passando a travez dos homens

Com a preza que fizera.

Eis nasce novo combate,

Nova peleja maior!

Muitos homens contra hum homem,

Contra hum forte lutador;

Mas hum só que a todos vence

Em força, esforço, e valor!

Mal podia a mão sinistra

Vibrar a sangrenta espada,

Co’o pejo d’aquella moira

Disputada e desmaiada,

Cujo corpo em dois pendia,

Como huma frexa quebrada.

Mas inda assi despedia

Hum golpe e outro cruel:

E de encontro á este, á aquelle

Mandava o seo bom corsel,

Que a turba multa alastrava

Aos pés do nobre donzel.

Quando a ventura he incerta,

Acerta em aventurar

Quem a empreza disputada

Tem desejos de acabar:

Só elle demora em terra,

Que os seos já são sobre o mar!

Torce as redeas ao ginete,

Larga carreira arrepia,

Larga estrada co’o montante

Por entre os mouros se abria,

Despedia muitos golpes,

Muitos estragos fazia.

Chega a praia, os seos avista

Mas os mouros perto vêm!

Como isto vio, torce o rosto,

Medonho como ninguem;

Temem-se mouros de o verem;

Párão, como elle, tambem!

Vão assi feros monteiros

Traz d’hum urso mal sangrado,

Que de repente a carreira

Revira, e vólta agastado:

Parão monteiros ao vel-o

Raivoso e mal assombrada.

E a fera d’aquelle pasmo,

Sabendo, em seo bem, valer-se,

Vai a passos descançados

Em densa mata esconder-se,

Sem temor da montaria,

Sem dos monteiros temer-se.

Tal o forte Traga-mouros

Salta dentro do baixel;

Na praia ficão pasmados

Mouros, do feito novel,

Tamanho, que nem sonhado

Foy jamais por menestrel.

E os companheiros aos ventos

Desfraldão velas e panos,

Deixando as praias tingidas

Em sangue por muitos annos;

Quantos bastem, porque chorem

Seo dezar os musulmanos.

Aos alegres companheiros

Disse o guerreiro feliz:

«Das prezas, que nos fizemos,

Quero tam só a que eu fiz,

A moira que por seo nome

Fatima em Turco se diz!»

Então aquelle seo canto

Principiou a compor:

Cant’eu, por vergonha minha,

Em bem que o saiba de cór,

Digo que sal lhe não acho,

Nem sei de coiza pior.

Mas era o soláo por certo

Aos tempos accommodado,

Que de outro cantar não acho

Que fosse mais decantado,

Nem Figueiral Figueredo,

Nem o Ficade coitado.

E a moira já bautisada

Pertenceo ao lidador,

Duas vezes conquistada

Polo donzel, seo senhor,

Primeiro á força de espada,

Depois á força de amor.


Era assi n’aquelle tempo

Coiza sabida e seguida,

Remanso depois da gloria,

Descanço depois da lida,

E a fé que espera e milita

Nos actos todos da vida!

Vede vós quamanho he o lucro,

Que lucra a moira pagã,

Desposando o cavalleiro,

Tomada e feita christã;

He vida e sangue de hum homem,

Não de infieis barregã!

He como tropheo ganhado

Em guerras de religião

Por algum peito devoto,

Que por sua devação

Prometteo dependural-o

Dentro de templo christão.

O canto aqui finaliso!

Não devo d’hir por diante,

Narrando casos da vida

Per natureza inconstante,

Trabalhos que sempre durão,

Prazer que dura hum instante!

Foy o cabo dos amores

A moça moira acabar

E sobre hum covão aberto

Hum homem posto a chorar,

Hum homem de dó coberto,

A carpir-se, a prantear!


ULTIMOS CANTOS.


AO
MEU CARO E SAUDOSO AMIGO
O DR. ALEXANDRE THEOPHILO DE
CARVALHO LEAL
OFFERENDO-LHE ESTE VOLUME DE POESIAS,
quando pela primeira vez forão impressas.[4]


Eis os meus ultimos cantos, o meu ultimo volume de poesias soltas, os ultimos harpejos de uma lyra, cujas cordas forão estalando, muitas aos balanços asperos da desventura, e outras, talvez a maior parte, com as dores de um espirito infermo,—ficticias, mas nem por isso menos agudas,—produzidas pela imaginação, como se a realidade já não fosse por si bastante penosa, ou que o espirito, affeito a certa dose de soffrimento, se sobresaltasse de sentir menos pezada a costumada carga.

No meio de rudes trabalhos, de occupações estereis, de cuidados pungentes,—inquieto do presente, incerto do futuro, derramando um olhar cheio de lagrimas e saudades sobre o meu passado—percorri este primeiro estadio da minha vida litteraria. Desejar e soffrer—eis toda a minha vida neste periodo; e estes desejos immensos, indiziveis, e nunca satisfeitos,—caprichosos como a imaginação,—vagos como o oceano,—e terriveis como a tempestade; e estes soffrimentos de todos os dias, de todos os instantes, obscuros, implacaveis, renascentes,—ligados a minha existencia, reconcentrados em minha alma, devorados commigo, umas vezes me deixarão sem força e sem coragem, e se reproduzirão em pallidos reflexos do que eu sentia, ou me forçarão a procurar um alivio, uma distracção no estudo, e a esquecer-me da realidade com as ficções do ideal.

Se as minhas pobres composições não forão inteiramente inuteis ao meu paiz; se algumas vezes tive o maior prazer que me foi dado sentir—a mais lisongeira recompensa a que poderia aspirar,—de as saber estimadas pelos homens da arte, daquelles, que segundo o poeta, porque a entendem, a estimão, e repetidas por aquella classe do povo, que só de cór as poderia ter aprendido, isto é, dos outros que a comprehendem, porque a sentem, porque a adivinhão—paguei bem caro esta momentanea celebridade com decepções profundas, com desenganos amargos, e com a lenta agonia de um martyrio ignorado.

Melhor que ninguem o sabes: podes a teu grado sondar os arcanos da minha consciencia, e não te será difficil descobrir o segredo das minhas tristes inspirações. Os meus primeiros, os meus ultimos cantos são teus: o que sou, o que for, a ti o devo,—a ti, ao teu nobre coração, que durante os melhores annos da juventude bateu constantemente ao meu lado,—a aragem bemfazeja da tua amizade sollicita e desvelada,—a tua voz que me animava e consolava,—a tua intelligencia que me vivificava—ao prodigio de duas indoles tão assimiladas, de duas almas tão irmãs, tão gemeas, que uma dellas rematava o pensamento apenas enunciado da outra, e aos sentimentos unisonos de dous corações, que mutuamente se fallavão, se interpretavão, se respondião sem o auxilio de palavras. Duplicada a minha existencia, não era muito que eu me sentisse com forças para abalançar-me a esta empreza; e agora que em parte a tenho concluido, é um dever de gratidão, um dever para que sou attrahido por todas as potencias da minha alma, escrever aqui o teu nome, como talvez seja o derradeiro que escreverei em minhas obras, o ultimo que os meus labios pronunciem, se nos paroxismos da morte se poder destacar inteiramente do meu coração.

Ser-me-hia doloroso não cumprir os teus desejos,—não satisfazer as esperanças, que em mim tinhas depositado,—não realisar a expectação da tua desinteressada amizade. Entrei na luta, e procurei disputar ao tempo uma fraca parcella da sua duração, não por amor do orgulho, nem por amor da gloria; mas para que, depois da morte de ambos, uma só que fosse das minhas producções sobrenadasse no olvido, e por mais uma geração estendesse a memoria tua e minha. Assim passa a onda sobre um navio que soçobra, e atira á praias desconhecidas os destroços de um mastro embrulhado nas vestes dos navegantes.

Entrei na luta, e por mais algum tempo continuarei nella, variando apenas o sentido dos meus cantos. A fé e o enthusiasmo, o oleo e o pabulo da lampada que alumia as composições do artista, vão-se-me esfriando dentro do peito; eu o conheço e o sinto; se pois ainda persisto nesta carreira, é por teu respeito: continuarei—até que, satisfeito dos meus esforços, me digas: basta!—Então, já t’o hei dito, voltarei gostoso á obscuridade, donde não devera ter sabido, e—como um soldado desconhecido—contarei os meus triumphos pelas minhas feridas, voltando á habitação singela, onde me correrão, não felizes, mas os primeiros dias da minha infancia.

Minha alma não está commigo, não anda entre os nevoeiros dos Orgãos, involta em neblina, balouçada em castellos de nuvens, nem rouquejando na voz do trovão. Lá está ella!—lá está a espreguiçar-se nas vagas de S. Marcos, a rumorejar nas folhas dos mangues, a susurrar nos leques das palmeiras: lá está ella nos sitios que os meus olhos sempre virão, nas paisagens que eu amo, onde se avista a palmeira esbelta, o cajazeiro coberto de cipós, e o páu d’arco coberto de flores amarellas. Alli sim,—alli está—desfeita em lagrimas nas folhas das bananeiras—desfeita em orvalho sobre as nossas ores, desfeita em harmonia sobre os nossos bosques, sobre os nossos rios, sobre os nossos mares, sobre tudo que eu amo, e que em bem veja eu em breve! Ahi, outra vez remoçado e vivificado de todos os annos que esperdicei, poderei enchugar os meus vestidos, voltar aos gozos de uma vida ignorada, e do meu lar tranquillo ver outros mais corajosos e mais felizes que eu affrontar as borrascas desencadeadas no oceano, que eu houver para sempre deixado atraz de mim.

Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1850.

A. GONÇALVES DIAS.

POESIAS AMERICANAS.


I.
O GIGANTE DE PEDRA.

O guerriers! ne laissez pas ma dépouille au corbeau!

Ensevelissez-moi parmi des monts sublimes,

Afin que l’étranger cherche, en voyant leurs cimes,

Quelle montagne est mon tombeau!

V. HUGO. Le Géant.

I.

Gigante orgulhoso, de fero semblante,

N’um leito de pedra lá jaz a dormir!

Em duro granito repousa o gigante,

Que os raios sómente podérão fundir.

Dormido atalaia no serro empinado

Devera cuidoso, sanhudo velar;

O raio passando o deixou fulminado,

E á aurora, que surge, não ha de acordar!

Co’os braços no peito cruzados nervosos,

Mais alto que as nuvens, os céos a encarar,

Seu corpo se estende por montes fragosos,

Seus pés sobranceiros se elevão do mar!

De lavas ardentes seus membros fundidos

Avultão immensos: só Deos poderá

Rebelde lançal-o dos montes erguidos,

Curvados ao peso, que sobre lhe ’stá.

E o céo, e as estrellas e os astros fulgentes

São velas, são tochas, são vivos brandões,

E o branco sudario são nevoas algentes,

E o crepe, que o cobre, são negros bulcões.

Da noite, que surge, no manto fagueiro

Quiz Deos que se erguesse, de junto a seos pés,

A cruz sempre viva do sul no cruzeiro,

Deitada nos braços do eterno Moysés.

Perfumão-no odores que as flores exhalão,

Bafejão-no carmes de um hymno de amor

Dos homens, dos brutos, das nuvens que estalão,

Dos ventos que rugem, do mar em furor.

E lá na montanha, deitado dormido

Campeia o gigante,—nem póde acordar!

Cruzados os braços de ferro fundido,

A fronte nas nuvens, os pés sobre o mar!

II.

Banha o sol os horisontes,

Trepa os castellos dos céos,

Aclara serras e fontes,

Vigia os dominios seus:

Já descahe p’ra o occidente,

E em globo de fogo ardente

Vai-se no mar esconder;

E lá campeia o gigante,

Sem destorcer o semblante,

Immovel, mudo, a jazer!

Vem a noite após o dia,

Vem o silencio, o frescor,

E a brisa leve e macia,

Que lhe suspira ao redor;

E da noite entre os negrores,

Das estrellas os fulgores

Brilhão na face do mar:

Brilha a lua scintillante,

E sempre mudo o gigante,

Immovel, sem acordar!

Depois outro sol desponta,

E outra noite tambem,

Outra lua que aos céos monta,

Outro sol que após lhe vem:

Após um dia outro dia,

Noite após noite sombria,

Após a luz o bulcão,

E sempre o duro gigante,

Immovel, mudo, constante

Na calma e na cerração!

Corre o tempo fugidio,

Vem das aguas a estação,

Após ella o quente estio;

E na calma do verão

Crescem folhas, vingão flores,

Entre galas e verdores

Sazonão-se fructos mil;

Cobrem-se os prados de relva,

Murmura o vento na selva,

Azulão-se os céos de anil!

Tornão prados a despir-se,

Tornão flores a murchar,

Tornão de novo a vestir-se,

Tornão depois a seccar;

E como gota filtrada

De uma abobada escavada

Sempre, incessante a cahir,

Tombão as horas e os dias,

Como phantasmas sombrias,

Nos abysmos do porvir!

E no feretro de montes

Inconcusso, immovel, fito,

Escurece os horisontes

O gigante de granito:

Com soberba indifferença

Sente extincta a antiga crença

Dos Tamoyos, dos Pagés;

Nem vê que duras desgraças,

Que lutas de novas raças

Se lhe atropellão aos pés!

III.

E lá na montanha deitado dormido

Campeia o gigante!—nem póde acordar!

Cruzados os braços de ferro fundido,

A fronte nas nuvens, e os pés sobre o mar!....

IV.

Vio primeiro os incolas

Robustos, das florestas,

Batendo os arcos rigidos,

Traçando homereas festas,

Á luz dos fogos rutilos,

Aos sons do murmuré!

E em Guanabara esplendida

As danças dos guerreiros,

E o guáu cadente e vário

Dos moços prazenteiros,

E os cantos da victoria

Tangidos no boré.

E das ygaras concavas

A frota aparelhada,

Vistosa e formosissima

Cortando a undosa estrada,

Sabendo, mas que frageis,

Os ventos contrastar:

E a caça leda e rapida

Por serras, por devesas,

E os cantos da janubia

Junto ás lenhas accesas,

Quanto o tapuya misero

Seos feitos vai narrar!

E o germen da discordia

Crescendo em duras brigas,

Ceifando os brios rusticos

Das tribus sempre amigas,

—Tamoy a raça antigua,

Feroz Tupinambá.

La vai a gente improvida,

Nação vencida, imbelle,

Buscando as matas invias,

Donde outra tribu a expelle;

Jaz o pagé sem gloria,

Sem gloria a maracá.

Depois em náos flammivomas

Um troço hardido e forte,

Cobrindo os campos humidos

De fumo, e sangue, e morte,

Traz dos reparos horridos

D’altissimo pavez:

E do sangrento pelago

Em miseras ruinas

Surgir galhardas, limpidas

As portuguezas quinas,

Murchos os lises candidos

Do improvido gaulez!

V.

Mudarão-se os tempos e a face da terra,

Cidades alastrão o antigo paúl;

Mas inda o gigante, que dorme na serra,

Se abraça ao immenso cruzeiro do sul.

Nas duras montanhas os membros gelados

Talhados a golpes de ignoto buril,

Descança, ó gigante, que encerras os fados,

Que os terminos guardas do vasto Brasil.

Porêm se algum dia fortuna inconstante

Poder-nos a crença e a patria acabar,

Arroja-te ás ondas, ó duro gigante,

Inunda estes montes, desloca este mar!


II.
LEITO DE FOLHAS VERDES.

Porque tardas, Jatyr, que tanto a custo

Á voz do meu amor moves teus passos?

Da noite a viração, movendo as folhas,

Já nos cimos do bosque rumoreja.

Eu sob a copa da mangueira altiva

Nosso leito gentil cobri zeloza

Com mimoso tapiz de folhas brandas,

Onde o frouxo luar brinca entre flores.

Do tamarindo a flôr abriu-se, ha pouco,

Já solta o bogarî mais doce aroma!

Como prece de amor, como estas preces,

No silencio da noite o bosque exhala.

Brilha a lua no céo, brilhão estrellas,

Correm perfumes no correr da brisa,

A cujo influxo magico respira-se

Um quebranto de amor, melhor que a vida!

A flôr que desabrocha ao romper d’alva

Um só gyro do sol, não mais, vegeta:

Eu sou aquella flôr que espero ainda

Doce raio do sol que me dê vida.

Sejão valles ou montes, lago ou terra,

Onde quer que tu vas, ou dia ou noite,

Vai seguindo após ti meu pensamento;

Outro amor nunca tive: es meu, sou tua!

Meus olhos outros olhos nunca virão,

Não sentirão meus labios outros labios,

Nem outras mãos, Jatyr, que não as tuas

A arasoya na cinta me apertarão.

Do tamarindo a flôr jaz entre-aberta,

Já solta o bogarî mais doce aroma;

Tambem meu coração, como estas flores,

Melhor perfume ao pé da noite exhala!

Não me escutas, Jatyr! nem tardo acodes

Á voz do meu amor, que em vão te chama!

Tupan! lá rompe o sol! do leito inutil

A brisa da manhã sacuda as folhas!


III.
Y-JUCA-PYRAMA.

I.

No meio das tabas de amenos verdores,

Cercadas de troncos—cobertos de flores,

Alteião-se os tectos d’altiva nação;

São muitos seus filhos, nos animos fortes,

Temiveis na guerra, que em densas cohortes

Assombrão das matas a immensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de gloria,

Já prelios incitão, já cantão victoria,

Já meigos attendem á voz do cantor:

São todos Tymbiras, guerreiros, valentes!

Seu nome lá vôa na bocca das gentes,

Condão de prodigios, de gloria e terror!

As tribus visinhas, sem forças, sem brio,

As armas quebrando, lançando-as ao rio,

O incenso aspirárão dos seus maracás:

Medrosos das guerras que os fortes accendem,

Custosos tributos ignavos lá rendem,

Aos duros guerreiros sugeitos na paz.

No centro da taba se extende um terreiro,

Onde ora se aduna o concilio guerreiro

Da tribu senhora, das tribus servis:

Os velhos sentados praticão d’outr’ora,

E os moços inquietos, que a festa enamora,

Derramão-se em torno d’um indio infeliz.

Quem é?—ninguem sabe: seu nome é ignoto,

Sua tribu não diz:—de um povo remoto

Descende por certo—d’um povo gentil;

Assim lá na Grecia ao escravo insulano

Tornavão distincto do vil musulmano

As linhas correctas do nobre perfil.

Por casos de guerra cahiu prisioneiro

Nas mãos dos Tymbiras:—no extenso terreiro

Assola-se o tecto, que o teve em prisão;

Convidão-se as tribus dos seus arredores,

Cuidosos se incumbem do vaso das cores,

Dos varios aprestos da honrosa funcção.

Acerva-se a lenha da vasta fogueira,

Entesa-se a corda da embira ligeira,

Adorna-se a maça com pennas gentis:

Á custo, entre as vagas do povo da aldeia

Caminha o Tymbira, que a turba rodeia,

Garboso nas plumas de vario matiz.

Em tanto as mulheres com leda trigança,

Affeitas ao rito da barbara usança,

O indio já querem captivo acabar:

A coma lhe cortão, os membros lhe tingem,

Brilhante enduápe no corpo lhe cingem,

Sombreia-lhe a fronte gentil kanitar.

II.

Em fundos vasos d’alvacenta argilla

Ferve o cauim;

Enchem-se as copas, o prazer começa,

Reina o festim.

O prisioneiro, cuja morte anceião,

Sentado está,

O prisioneiro, que outro sol no occaso

Jámais verá!

A dura corda, que lhe enlaça o collo,

Mostra-lhe o fim

Da vida escura, que será mais breve

Do que o festim!

Com tudo os olhos d’ignobil pranto

Seccos estão;

Mudos os labios não descerrão queixas

Do coração.

Mas um martyrio, que encobrir não póde,

Em rugas faz

A mentirosa placidez do rosto

Na fronte audaz!

Que tens, guerreiro? Que temor te assalta

No passo horrendo?

Honra das tabas que nascer te virão,

Folga morrendo.

Folga morrendo; porque além dos Andes

Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos

Da fria morte.

Rasteira grama, exposta ao sol, á chuva,

Lá murcha e pende:

Sómente ao tronco, que devassa os ares,

O raio offende!

Que foi? Tupan mandou que elle cahisse,

Como viveu;

E o caçador que o avistou prostrado

Esmoreceu!

Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes

Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos

Da fria morte.

III.

Em larga roda de noveis guerreiros

Ledo caminha o festival Tymbira,

A quem do sacrificio cabe as honras.

Na fronte o kanitar sacode em ondas,

O enduápe na cinta se embalança,

Na dextra mão sopesa a iverapeme,

Orgulhoso e pujante.—Ao menor passo

Collar d’alvo marfim, insignia d’honra,

Que lhe orna o collo e o peito, ruge e freme,

Como que por feitiço não sabido

Encantadas alli as almas grandes

Dos vencidos Tapuyas, inda chorem

Serem gloria e brasão d’imigos feros.

«Eis-me aqui, diz ao indio prisioneiro;

«Pois que fraco, e sem tribu, e sem familia,

«As nossas matas devassaste ousado,

«Morrerás morte vil da mão de um forte.»

Vem a terreiro o misero contrario;

Do collo á cinta a musurana desce:

«Dize-nos quem es, teus feitos canta,

«Ou se mais te apraz, defende-te.» Começa

O indio, que ao redor derrama os olhos,

Com triste voz que os animos commove.

IV.

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribu tupi.

Da tribu pujante,

Que agora anda errante

Por fado inconstante,

Guerreiros, nasci:

Sou bravo, sou forte,

Sou filho do Norte;

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas,

De tribus imigas,

E as duras fadigas

Da guerra provei;

Nas ondas mendaces

Senti pelas faces

Os silvos fugaces

Dos ventos que amei.

Andei longes terras,

Lidei cruas guerras,

Vaguei pelas serras

Dos vis Aymorés;

Vi lutas de bravos,

Vi fortes—escravos!

De estranhos ignavos

Calcados aos pés.

E os campos talados,

E os arcos quebrados,

E os piagas coitados

Já sem maracás;

E os meigos cantores,

Servindo a senhores,

Que vinhão traidores,

Com mostras de paz.

Aos golpes do imigo

Meu ultimo amigo,

Sem lar, sem abrigo

Cahio junto a mi!

Com placido rosto,

Sereno e composto,

O acerbo desgosto

Commigo soffri.

Meu pae a meu lado

Já cego e quebrado,

De penas ralado,

Firmava-se em mi:

Nós ambos, mesquinhos,

Por invios caminhos,

Cobertos d’espinhos

Chegamos aqui!

O velho no em tanto

Soffrendo já tanto

De fome e quebranto,

Só qu’ria morrer!

Não mais me contenho,

Nas matas me embrenho,

Das frechas que tenho

Me quero valer.

Então, forasteiro,

Cahi prisioneiro

De um troço guerreiro

Com que me encontrei:

O cru dessocego

Do pae fraco e cego,

Em quanto não chego,

Qual seja,—dizei!

Eu era o seu guia

Na noite sombria,

A só alegria

Que Deos lhe deixou:

Em mim se apoiava,

Em mim se firmava,

Em mim descançava,

Que filho lhe sou.

Ao velho coitado

De penas ralado,

Já cego e quebrado,

Que resta?—Morrer.

Em quanto descreve

O gyro tão breve

Da vida que teve,

Deixai-me viver!

Não vil, não ignavo,

Mas forte, mas bravo,

Serei vosso escravo:

Aqui virei ter.

Guerreiros, não córo

Do pranto que choro;

Se a vida deploro,

Tambem sei morrer.

V.

Soltai-o!—diz o chefe. Pasma a turba;

Os guerreiros murmurão: mal ouvírão,

Nem poude nunca um chefe dar tal ordem!

Brada segunda vez com voz mais alta,

Afrouxão-se as prisões, a embira cede,

A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.

—Tymbira, diz o indio enternecido,

Solto apenas dos nós que o seguravão:

Es um guerreiro illustre, um grande chefe,

Tu que assim do meu mal te commoveste,

Nem soffres que, transposta a natureza,

Com olhos onde a luz já não scintilla,

Chore a morte do lho o pae cançado,

Que somente por seu na voz conhece.

—Es livre; parte.

—E voltarei.

—Debalde.

—Sim, voltarei, morto meu pai.

—Não voltes!

E bem feliz, se existe, em que não veja,

Que filho tem, qual chora: es livre; parte.

—Acaso tu suppões que me acobardo,

Que receio morrer!

—Es livre; parte!

—Ora não partirei; quero provar-te

Que um filho dos Tupis vive com honra,

E com honra maior, se acaso o vencem,

Da morte o passo glorioso affronta.

—Mentiste, que um Tupi não chora nunca,

E tu choraste!... parte; não queremos

Com carne vil enfraquecer os fortes.

Sobresteve o Tupi:—arfando em ondas

O rebater do coração se ouvia

Precipite.—Do rosto afogueado

Gelidas bagas de suor corrião:

Talvez que o assaltava um pensamento...

Já não ... que na enlutada fantasia,

Um pesar, um martyrio ao mesmo tempo,

Do velho pae a moribunda imagem

Quasi bradar-lhe ouvia:—Ingrato! ingrato!

Curvado o collo, taciturno e frio,

Espectro d’homem, penetrou no bosque!

VI.

—Filho meu, onde estás?

—Ao vosso lado;

Aqui vos trago provisões: tomai-as,

As vossas forças restaurai perdidas,

E a caminho, e já!

—Tardaste muito!

Não era nado o sol, quando partiste,

E frouxo o seu calor já sinto agora!

—Sim, demorei-me a divagar sem rumo,

Perdi-me nestas matas intrincadas,

Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;

Convem partir, e já!

—Que novos males

Nos resta de soffrer?—que novas dores,

Que outro fado pior Tupan nos guarda?

—As setas da afflicção já se esgotárão,

Nem para novo golpe espaço intacto

Em nossos corpos resta.

—Mas tu tremes!

—Talvez do afan da caça...

—Oh filho caro!

Um quê mysterioso aqui me falla,

Aqui no coração; piedosa fraude

Será por certo, que não mentes nunca!

Não conheces temor, e agora temes?

Vejo e sei: é Tupan que nos afflige,

E contra o seu querer não valem brios.

Partamos!...—

E com mão tremula, incerta

Procura o filho, tateando as trevas

Da sua noite lugubre e medonha.

Sentindo o acre odor das frescas tintas,

Uma idéa fatal correu-lhe á mente....

Do filho os membros gelidos apalpa,

E a dolorosa maciez das plumas

Conhece estremecendo:—foge, volta,

Encontra sob as mãos o duro craneo,

Despido então do natural ornato!....

Recúa afflicto e pavido, cobrindo

Ás mãos ambas os olhos fulminados,

Como que teme ainda o triste velho

De ver, não mais cruel, porêm mais clara,

D’aquelle exicio grande a imagem viva

Ante os olhos do corpo afigurada.

Não era que a verdade conhecesse

Inteira e tão cruel qual tinha sido;

Mas que funesto azar correra o filho,

Elle o via; elle o tinha alli presente;

E era de repetir-se a cada instante.

A dôr passada, a previsão futura

E o presente tão negro, alli os tinha;

Alli no coração se concentrava,

Era n’um ponto só, mas era a morte!

—Tu prisioneiro, tu?

—Vós dissestes.

—Dos indios?

—Sim.

—De que nação?

—Tymbiras.

—E a musurana funeral rompeste,

Dos falsos manitôs quebraste a maça....

—Nada fiz ... aqui estou.

—Nada!—

Emmudecem;

Curto instante depois prosegue o velho:

—Tu es valente, bem o sei; confessa,

Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo!

—Nada fiz; mas souberão da existencia

De um pobre velho, que em mim só vivia....

—E depois?...

—Eis me aqui.

—Fica esse taba?

—Na direcção do sol, quando transmonta.

—Longe?

—Não muito.

—Tens razão: partamos.

—E quereis ir?...

—Na direcção do occaso.

VII.

«Por amor de um triste velho,

Que ao termo fatal já chega,

Vós, guerreiros, concedestes

A vida a um prisioneiro.

Acção tão nobre vos honra,

Nem tão alta cortesia

Vi eu jámais praticada

Entre os Tupis,—e mas forão

Senhores em gentileza.

«Eu porêm nunca vencido,

Nem nos combates por armas,

Nem por nobreza nos actos;

Aqui venho, e o filho trago.

Vós o dizeis prisioneiro,

Seja assim como dizeis;

Mandai vir a lenha, o fogo,

A maça do sacrificio

E a musurana ligeira:

Em tudo o rito se cumpra!

E quando eu for só na terra,

Certo acharei entre os vossos,

Que tão gentis se revelão,

Alguem que meus passos guie;

Alguem, que vendo o meu peito

Coberto de cicatrizes,

Tomando a vez de meu filho,

De haver-me por pae se ufane!»

Mas o chefe dos Tymbiras,

Os sobrolhos encrespando,

Ao velho Tupi guerreiro

Responde com torvo accento:

—Nada farei do que dizes:

É teu filho imbelle e fraco!

Aviltaria o triumpho

Da mais guerreira das tribus

Derramar seu ignobil sangue:

Elle chorou de cobarde;

Nós outros, fortes Tymbiras,

Só de heróes fazemos pasto.—

Do velho Tupi guerreiro

A surda voz na garganta

Faz ouvir uns sons confusos,

Como os rugidos de um tigre,

Que pouco a pouco se assanha!

VIII.

«Tu choraste em presença da morte?

Na presença de estranhos choraste?

Não descende o cobarde do forte;

Pois choraste, meu filho não es!

Possas tu, descendente maldicto

De uma tribu de nobres guerreiros,

Implorando crueis forasteiros,

Seres presa de vis Aymorés.

«Possas tu, isolado na terra,

Sem arrimo e sem patria vagando,

Regeitado da morte na guerra,

Regeitado dos homens na paz,

Ser das gentes o espectro execrado;

Não encontres amor nas mulheres,

Teus amigos, se amigos tiveres,

Tenhão alma inconstante e falaz!

«Não encontres doçura no dia,

Nem as cores da aurora te ameiguem,

E entre as larvas da noite sombria

Nunca possas descanço gozar:

Não encontres um tronco, uma pedra,

Posta ao sol, posta as chuvas e aos ventos,

Padecendo os maiores tormentos,

Onde possas a fronte pousar.

«Que a teus passos a relva se torre;

Murchem prados, a flor desfalleça,

E o regato que limpido corre,

Mais te accenda o vesano furor;

Suas agoas depressa se tornem,

Ao contacto dos labios sedentos,

Lago impuro de vermes nojentos,

Donde fujas com asco e terror!

«Sempre o céo, como um tecto incendido,

Creste e punja teus membros maldictos

E o oceano de pó denegrido

Seja a terra ao ignavo tupi!

Miseravel, faminto, sedento,

Manitôs lhe não fallem nos sonhos,

E do horror os espectros medonhos

Traga sempre o cobarde após si.

«Um amigo não tenhas piedoso

Que o teu corpo na terra embalsame,

Pondo em vaso d’argilla cuidoso

Arco e frecha e tacápe a teus pés!

Sê maldicto, e sosinho na terra;

Pois que a tanta vileza chegaste,

Que em presença da morte choraste,

Tu, cobarde, meu filho não es.»

IX.

Isto dizendo, o miserando velho

A quem Tupan tamanha dôr, tal fado

Já nos confins da vida reservára,

Vae com tremulo pé, com as mãos já frias

Da sua noite escura as densas trevas

Palpando.—Alarma! alarma!—O velho pára!

O grito que escutou é voz do filho,

Voz de guerra que ouvio já tantas vezes

N’outra quadra melhor.—Alarma! alarma!

—Esse momento só vale apagar-lhe

Os tão compridos trances, as angustias,

Que o frio coração lhe atormentarão

De guerreiro e de pae:—vale, e de sobra.

Elle que em tanta dôr se contivera,

Tomado pelo subito contraste,

Desfaz-se agora em pranto copioso,

Que o exhaurido coração remoça.

A taba se alborota, os golpes descem,

Gritos, imprecações profundas soão,

Emmaranhada a multidão braveja,

Revolve-se, ennovela-se confusa,

E mais revolta em mor furor se accende.

E os sons dos golpes que incessantes fervem,

Vozes, gemidos, estertor de morte

Vão longe pelas ermas serranias

Da humana tempestade propagando

Quantas vagas de povo enfurecido

Contra um rochedo vivo se quebravão.

Era elle, o Tupi; nem fôra justo

Que a fama dos Tupis—o nome, a gloria,

Aturado labor de tantos annos,

Derradeiro brasão da raça extincta,

De um jacto e por um só se aniquilasse.

—Basta! clama o chefe dos Tymbiras,

—Basta, guerreiro illustre! assás lutaste,

—E para o sacrificio é mister forças.—

O guerreiro parou, cahio nos braços

Do velho pae, que o cinge contra o peito,

Com lagrimas de jubilo bradando:

«Este, sim, que é meu filho muito amado!

«E pois que o acho em fim, qual sempre o tive,

«Corrão livres as lagrimas que choro,

«Estas lagrimas, sim, que não deshonrão.»

X.

Um velho Tymbira, coberto de gloria,

Guardou a memoria

Do moço guerreiro, do velho Tupi!

E á noite, nas tabas, se alguem duvidava

Do que elle contava,

Dizia prudente:—«Meninos, eu vi!

«Eu vi o brioso no largo terreiro

Cantar prisioneiro

Seu canto de morte, que nunca esqueci:

Valente, como era, chorou sem ter pejo;

Parece que o vejo,

Que o tenho nest’hora diante de mi’.

«Eu disse comigo: Que infamia d’escravo!

Pois não, era um bravo;

Valente e brioso, como elle, não vi!

E á fé que vos digo: parece-me encanto

Que quem chorou tanto,

Tivesse a coragem que tinha o Tupi!»

Assim o Tymbira, coberto de gloria,

Guardava a memoria

Do moço guerreiro, do velho Tupi.

E á noite nas tabas, se alguem duvidava

Do que elle contava,

Tornava prudente: «Meninos, eu vi!»


IV.
MARABÁ.

Eu vivo sosinha; ninguem me procura!

Acaso feitura

Não sou de Tupá!

Se algum d’entre os homens de mim não se esconde,

—Tu es, me responde,

—Tu es Marabá!

—Meus olhos são garços, são côr das saphiras,

—Tem luz das estrellas, tem meigo brilhar;

—Imitão as nuvens de um céo anilado,

—As cores imitão das vagas do mar!

Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:

«Teus olhos são garços,»

Responde anojado; «mas es Marabá:

«Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,

«Uns olhos fulgentes,

«Bem pretos, retinctos, não côr d’anajá!»

—É alvo meu rosto da alvura dos lyrios,

—Da côr das areias batidas do mar;

—As aves mais brancas, as conchas mais puras

—Não tem mais alvura, não tem mais brilhar.—

Se ainda me escuta meus agros delirios:

«Es alva de lyrios»

Sorrindo responde; «mas es marabá:

«Quero antes um rosto de jambo corado,

«Um rosto crestado

«Do sol do deserto, não flor de cajá.»

—Meu collo de leve se encurva engraçado,

—Como hastea pendente do cactos em flor;

—Mimosa, indolente, resvalo no prado,

—Como um soluçado suspiro de amor!—

«Eu amo a estatura flexivel, ligeira,

«Qual duma palmeira,»

Então me respondem; «tu es Marabá:

«Quero antes o collo da ema orgulhosa,

«Que pisa vaidosa,

«Que as floreas campinas governa, onde está.»

—Meus loiros cabellos em ondas se annelão,

—O oiro mais puro não tem seu fulgor;

—As brisas nos bosques de os ver se enamorão,

—De os ver tão formosos como um beija-flor!—

Mas elles respondem: «Teus longos cabellos,

«São loiros, são bellos,

«Mas são annelados; tu es Marabá:

«Quero antes cabellos, bem lisos, corridos,

«Cabellos compridos,

«Não côr d’oiro fino, nem côr d’anajá.»


E as doces palavras que eu tinha cá dentro

A quem n’as direi?

O ramo d’acacia na fronte de um homem

Jámais cingirei:

Jámais um guerreiro da minha arasoya

Me desprenderá:

Eu vivo sosinha, chorando mesquinha,

Que sou Marabá!


V.
CANÇÃO DO TAMOYO.

(Natalicia.)

I.

Não chores, meu filho;

Não chores, que a vida

É luta renhida:

Viver é lutar.

A vida é combate,

Que os fracos abate,

Que os fortes, os bravos,

Só pode exaltar.

II.

Um dia vivemos!

O homem que é forte

Não teme da morte;

Só teme fugir;

No arco que enteza

Tem certa uma presa,

Quer seja tapuya,

Condor ou tapyr.

III.

O forte, o cobarde

Seus feitos inveja

De o ver na peleja

Garboso e feroz;

E os timidos velhos

Nos graves concelhos,

Curvadas as frontes,

Escutão-lhe a voz!

IV.

Domina, se vive;

Se morre, descança

Dos seus na lembrança,

Na voz do porvir.

Não cures da vida!

Sê bravo, sê forte!

Não fujas da morte,

Que a morte ha de vir!

V.

E pois que es meu filho,

Meus brios reveste;

Tamoyo nasceste,

Valente serás.

Sê duro guerreiro,

Robuste, fragueiro,

Brasão dos tamoyos

Na guerra e na paz.

VI.

Teu grito de guerra

Retumbe aos ouvidos

D’imigos transidos

Por vil commoção;

E tremão d’ouvil-o

Peor que o sibilo

Das seta ligeiras,

Peor que o trovão.

VII.

E a mãe nessas tabas,

Querendo calados

Os filhos creados

Na lei do terror;

Teu nome lhes diga,

Que a gente inimiga

Talvez não escute

Sem pranto, sem dôr!

VIII.

Porêm se a fortuna,

Trahindo teus passos,

Te arroja nos laços

Do imigo fallaz!

Na ultima hora

Teus feitos memora,

Tranquillo nos gestos,

Impavido, audaz.

IX.

E cae como o tronco

Do raio tocado,

Partido, rojado

Por larga extenção;

Assim morre o forte!

No passo da morte

Triunfa, conquista

Mais alto brasão.

X.

As armas ensaia,

Penetra na vida:

Pesada ou querida,

Viver é lutar.

Se o duro combate

Os fracos abate,

Aos fortes, aos bravos,

Só pode exaltar.


VI.
A MANGUEIRA.

Já viste cousa mais bella

Do que uma bella mangueira,

E a doce fruta amarella,

Sorrindo entre as folhas della,

E a leve copa altaneira?

Já viste cousa mais bella

Do que uma bella mangueira?

Nos seus alegres verdores

Se embalança o passarinho;

Todo é graça, todo amores,

Decantando seus ardores

Á beira do casto ninho:

Nos seos alegres verdores

Se embalança o passarinho!

O cançado viandante

Á sombra della acha abrigo;

Traz-lhe a aragem susurrante,

Que lhe passa no semblante,

Talvez o adeos d’um amigo;

E o cançado viandante

Á sombra della acha abrigo.

A sombra que ella derrama

Todas as dores acalma;

Seja dôr que o peito inflamma,

Ou voraz, nociva chamma

Que nos mora dentro d’alma,

A sombra que ella derrama

Todas as dores acalma.

O mancebo namorado

Para ella se encaminha;

Bate-lhe o peito açodado,

Quando chega o praso dado,

Quando ao tronco se avisinha,

E o mancebo namorado

Para o tronco se encaminha.

Sob a copa deleitosa

Mil suspiros se entrelação,

E d’uma hora aventurosa

Guarda a prova a casca annosa

Nas cifras que alli se abração:

Sob a copa venturosa

Mil suspiros se entrelação.

Grata estação dos amores,

Abrigo dos que o não tem,

Deixa-me ouvir teos cantores,

Admirar teos verdores;

Presta-me abrigo tambem,

Grata estação dos amores,

Abrigo dos que o não tem!


VII.
A MÃE D’AGUA.

«Minha mãe, olha aqui dentro,

Olha a bella creatura,

Que dentro d’agoa se vê!

São d’ouro os longos cabellos,

Gentil a doce figura,

Airosa, leve a estatura;

Olha, vê no fundo d’agua

Que bella moça não é!

«Minha mãe, no fundo d’agua

Vê essa mulher tão bella!

O sorrir dos labios della,

Inda mais doce que o teu,

É como a nuvem rosada,

Que no romper da alvorada,

Passa risonha no céo.

«Olha, mãe, olha depressa!

Inclina a leve cabeça

E nas mãosinhas resume

A fina trança mimosa,

E com pente de marfim!...

Olha agora que me avista

A bella moça formosa,

Como se fez toda rosa,

Toda candura e jasmim!

Dize, mãe, dize: tu julgas

Que ella se ri para mim!

«São seus labios entre-abertos

Semilhantes a romã;

Tem ares d’uma princesa,

E no emtanto é tão medrosa!...

Inda mais que minha irmã.

Olha, mãe, sabes quem é

A bella moça formosa,

Que dentro d’agua se vê?»

—Tem-te, meu filho; não olhes

Na funda, lisa corrente:

A imagem que te embelleza

É mais do que uma princesa,

É menos do que é a gente.

—Oh! quantas mães desgraçadas

Chorão seus filhos perdidos!

Meu filho, sabes porquê?

Foi porque derão ouvidos

Á leve sombra enganosa,

Que dentro d’agua se vê.

—O seu sorriso é mentira,

Não é mais que sombra vã;

Não vale aquillo que eu valho,

Nem o que val tua irmã:

É como a nuvem sem corpo,

De quando rompe a manhã.

—É a mãe d’agua traidora,

Que illude os faceis meninos,

Quando elles são pequeninos

E obedientes não são;

Olha, filho, não a escutes,

Filho do meu coração:

O seu sorriso é mentira,

É terrivel tentação.—


Junto ao rio chrystallino

Brincava o ledo menino,

Molhando o pé;

O fresco humor o convida,

Menos que a imagem querida,

Que n’agua vê.

Cauteloso de repente,

Ouve o concelho prudente,

Que a mãe lhe dá;

Não é anjo, não é fada;

Mas uma bruxa malvada,

E cousa má.

Ella é quem rouba os meninos

Para os tragar pequeninos,

Ou mais talvez!

E para vingar-se n’agua

Da causa tanta magoa,

Remeche os pés.

Turba a fonte n’um instante,

Já não vê o bello infante

A sombra vã,

E as brancas mãos delicadas

E as longas tranças douradas

Da sua irmã.

O menino arrependido

Diz comsigo entristecido:

—Que mal fiz eu!

Minha mãe, bem que indulgente,

Só por não me ver contente,

Me repr’hendeu.—

Era figura tão bella!

E que expressão tão singela,

Que riso o seu!

Oh! minha mãe certamente

Só por não me ver contente,

Me repr’hendeu!

Espreita, sim, mas duvída

Que a bella imagem querida

Torne a volver;

E na fonte crystallina

Para ver todo se inclina

Se a póde ver!

Acha-se ainda turbada,

E a bella moça agastada

Não quer voltar;

Sacode leve a cabeça,

Em quanto o pranto começa

A borbulhar.

E de triste e arrependido

Diz comsigo entristecido:

—Que mal fiz eu!...

—Leda ao ver-me parecia,

—Era boa, e me sorria....

—Que riso o seu!


As aguas no em tanto de novo se aplacão,

A lisa corrente se espelha outra vez;

E a imagem querida no fundo apparece

Com mil peixes varios brincando a seus pés.

Do collo uma charpa trazia pendente,

Cortando-lhe o seio de brancos jasmins,

Um iris nas cores, e as franjas bordadas

De prata luzente, de vivos rubins.

Uma harpa a seu lado frisava a corrente,

Gemendo queixosa da leve pressão,

Como harpas ethereas, que as brisas conversão,

Achando-as perdidas em mesta soidão.

Sentida, chorosa parece que estava,

E o bello menino, sentado, a chorar

«Perdôa, dizia-lhe, o mal que te hei feito;

Por minha vontade não hei de tornar!»

A harpa dourada de subito vibra,

A charpa se agita do seio ao travez;

Das franjas garbosas as pedras reflectem

Infindos luzeiros nos humidos pés.

Os peixes pasmados de subito parão

No fundo luzente de puro crystal;

Fantasticos seres assomão ás grutas

Do nitido ambar, do vivo coral!

Em tanto o menino se curva e se inclina

Por ver mais de perto a donosa visão;

A mãe, longe delle, dizia:—Meu filho,

Não oiças, não vejas, que é má tentação.—


«Vem meu amigo, dizia

A bella fada engraçada,

Pulsando a harpa dourada:

—Sou boa, não faço mal,

Vem ver meus bellos palacios,

Meus dominios dilatados,

Meus thesouros encantados

No meu reino de crystal.

«Vem, te chamo: vê a limpha

Como é bella e crystallina;

Vê esta areia tão fina,

Que mais que a neve seduz!

Vem, verás como aqui dentro

Brincão mil leves amores,

Como em listas multicores

Do sol se desfaz a luz.

«Se não achas borboletas

Nem as vagas mariposas,

Que brincão por entre as rosas

Do teu ameno jardim;

Tens mil peixinhos brilhantes,

Mais luzentes e mais bellos

Que o oiro dos meus cabellos,

Que a nitidez do setim.»


Em tanto o menino se curva e se inclina

Por ver de mais perto a donosa visão;

E a mãe longe delle, dizia: meu filho,

Não oiças, não vejas, que é má tentação.


«Vem, meu amigo, tornava

A bella fada engraçada,

Vem ver a minha morada,

O meu reino de crystal:

Não se sente a tempestade

Na minha espaçosa gruta,

Nem voz do trovão se escuta,

Nem roncos do vendaval.

«Aqui, ao findar do dia,

Tudo rapido se accende,

E o meu palacio resplende

De vivo, ethereo clarão.

Mil figuras apparecem,

Mil donzellas encantadas

Com angelicas toadas

De ameigar o coração.

«Quando passo, as brandas aguas

Por me ver passar se afastão,

E mil estrellas se engastão

Nas paredes do crystal.

Surgem luzes multicores,

Como desses perilampos,

Que tu vês andar nos campos,

Sem comtudo fazer mal.

«Quando passo, mil sereias,

Deixando as grutas limosas,

Formão ledas, pressurosas

O meu sequito real:

Vem! dar-te-hei meus palacios,

Meus dominios dilatados,

Meus thesouros encantados

E o meu reino de crystal.»


Em tanto o menino se curva e se inclina

Para a visão;

E a mãe lhe dizia: Não vejas, meu filho,

Que é tentação.

E o bello menino, dizendo comsigo:—

Que bem fiz eu!

Por ver o thesouro gentil, engraçado,

Que já é seu:

Atira-se ás aguas: n’um grito medonho

A mãe lastimavel—Meu filho!—bradou:

Respondem-lhe os echos; porêm voz humana

Aos gritos da triste não torna:—aqui estou!


POESIAS DIVERSAS.


NENIA
Á MORTE SENTIDISSIMA DO SERENISSIMO PRINCIPE IMPERIAL O SENHOR D. PEDRO.


Á SUA MAGESTADE O IMPERADOR.


I.

Morreste, como a folha verde e linda,

Que não vio murcho o esmeraldino encanto;

Bem como um ai que melindroso finda,

Em quanto as faces não roreja o pranto!

Bem como a flôr inda em botão cortada,

Em quanto aromas recendia pura;

Bem como a onda quando mal formada,

Nos brancos frisos do areal murmura!

Bem como a aurora timida que morre,

Em quanto os céos de rosicler matisa;

Bem como o sopro de ligeira brisa,

Que entre os olores da manhã discorre!

Mimosa espr’ança do Brasil, batendo

Ás ferreas portas da existencia, viste

O mundo afflicto e a humanidade triste

Seu negro fado e sua dôr soffrendo!

Cheio de compaixão atraz voltaste

Do horrifico espectaculo, tapando

Com as azas do anjo o rosto brando,

E no seio do Eterno te asylaste.

Morreste! como aurora sem poente,

Como flôr, que perfume inda exhalava,

Como o sopro da brisa recendente,

Como a onda, que apenas se formava!

Morreste! como a folha verde e bella

N’um tronco forte a despontar louçã,

Não arrancada á sanha da procella,

Mas leve solta aos beijos da manhã.

Morreste! como lampada brilhante,

Inda virgem, sem dar mystica luz;

Ou turib’lo d’incenso crepitante,

Esquecido nos braços de uma cruz.

Morreste! e os anjos da eternal morada

Levárão entre palmas e capellas

Tua alma, como uma harpa não tocada,

Áquelle, cujo throno é sobre estrellas.

Morreste! como aurora sem poente,

Como flôr que perfume inda exhalava,

Como o sopro da brisa recendente,

Como a onda que apenas se formava.

Nenhum bulcão toldou a aurora maga,

Em quanto no horisonte apavonou-se,

A brisa em vendaval não transtornou-se,

A folha em cinza, nem a onda em vaga.

II.

Não ouviste, ó bello anginho,

Na hora do passamento

Para abrandar teu tormento

Do berço teu ao redor,

Dos teus irmãos a phalange

Com opas de luz brilhante,

Nas harpas de diamante

Cantar hosanna ao Senhor?

Teu espirito innocente,

Tocado da luz divina,

Que a fraca mente illumina

Dos resplendores de Deos,

Não antevio outros gozos,

Não correu nos frouxos ares,

Não foi roçar nos palmares,

Nas rosas puras dos céos?

Viste-os, sim; porêm voltando

Outra vez á vida escassa,

Tua alma triste esvoaça

Sobre os teus restos mortaes;

E entre os rostos que divisas,

Que a tua vida pranteião,

Entre quantos te rodeião,

Tu não enchergas teus paes!

Corres então a trazer-lhes

Nas meigas azas brilhantes

Dos teus ultimos instantes

O teu alento final;

E em redor delles choraste

De não ter deixado a vida,

Por extrema despedida,

N’um amplexo paternal!

Vai, ó anjo, sobe, vôa,

Deixa a terra ingrata e rude;

Vai onde móra a virtude,

E premio a innocencia tem;

Mas nos divinos prazeres,

Mas no celeste cortejo,

Terás o materno beijo,

Não serás orphão tambem?

III.

Desprega tuas azas de cores suaves,

Adeja no espaço, procura o teu Deos:

O aroma das flores, o canto das aves,

O que ha de mais puro se entranha nos céos.

Oh! foge da terra: bem como a neblina

Que em rolos de neve, que espuma figura,

Mais frouxa, mais leve, na luz matutina,

Qual nuvem d’incenso, do céo se pendura.

Mas quando a balança dos nossos destinos,

Na grávida concha dos nossos peccados

Sumir-se no abysmo—dos raios divinos

Os golpes apára nos contos dourados.

Não caia do Eterno a justa inclemencia

No povo, que soube teu berço guardar;

Ampara-o nas azas da tua innocencia,

Que os prantos de um anjo nos podem salvar.

Desdobra tuas azas de cores suaves,

Adeja no espaço, procura o teu Deos:

O aroma das flores, e o canto das aves

E o que ha de mais puro se perde nos céos.

IV.

SENHOR, se na afflicção que te consome,

Na dôr immensa, que teu peito acanha,

Póde erguer-se do bardo a voz sentida

E aos teus soluços misturar seu pranto;

Se a dôr do pae não absorve inteiro

O peito augusto do Monarcha excelso,

Enxuga as tristes lagrimas que vertes!

Melhor, talvez, que o throno é ver chorando

Um povo inteiro em torno de um sepulchro,

Um vacuo berço de seu pranto enchendo!

Á sorte pois te curva, e á lei d’aquelle

(Involta em seus reconditos designios)

A quem aprouve nivelar, cortando

Co’o mesmo golpe as esperanças de ambos,

—A dôr de um pae e as afflicções de um povo!—

JANEIRO 10 de 1850.


OLHOS VERDES.

Elles verdes são:

E tem por usança,

Na côr esperança,

E nas obras não.

CAM., Rim.

São uns olhos verdes, verdes,

Uns olhos de verde-mar,

Quando o tempo vai bonança;

Uns olhos côr de esperança,

Uns olhos por que morri;

Que ai de mi!

Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!

Como duas esmeraldas,

Iguaes na forma e na côr,

Tem luz mais branda e mais forte,

Diz uma—vida, outra—morte;

Uma—loucura, outra—amor.

Mas ai de mi!

Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!

São verdes da côr do prado,

Exprimem qualquer paixão,

Tão facilmente se inflammão,

Tão meigamente derramão

Fogo e luz do coração;

Mas ai de mi!

Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!

São uns olhos verdes, verdes,

Que podem tambem brilhar;

Não são de um verde embaçado,

Mas verdes da côr do prado,

Mas verdes da côr do mar.

Mas ai de mi!

Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!

Como se lê n’um espelho

Pude lêr nos olhos seus!

Os olhos mostrão a alma,

Que as ondas postas em calma

Tambem reflectem os céos;

Mas ai de mi!

Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!

Dizei vós, ó meos amigos,

Se vos perguntão por mi,

Que eu vivo só da lembrança

De uns olhos côr de esperança,

De uns olhos verdes que vi!

Que ai de mi!

Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!

Dizei vós: Triste do bardo!

Deixou-se de amor finar!

Vio uns olhos verdes, verdes,

Uns olhos da côr do mar:

Erão verdes sem espr’ança,

Davão amor sem amar!

Dizei-o vós, meus amigos,

Que ai de mi!

Não pertenço mais a vida

Depois que os vi!


CUMPRIMENTO DE UM VOTO

Feito ás Sras. de Itapacorá, que abrilhantarão a festa do Illm. Sr. ANTONIO JOSÉ RODRIGUES TORRES.

PORTO DAS CAIXAS—25 de agosto 1850.

Se ao misero cantor vos praz mandar-lhe

Cantar voltas de amor, á graça tanta

Será mudo o cantor, nem ha de aos echos

A cythara incivil fallar de amores?

Mandaes, que sois, senhoras, minhas musas;

Quando a senhora manda, o escravo cumpre

E ás supplicas da musa o vate cede!

Afinada por vós a lyra humilde,

Já desafeita aos sons que o peito abrandão,

Á nova esphera se remonta agora.

O frescor juvenil dos vossos annos,

E as, que vos ornão, deleitosas graças,

Hão de ameigar-lhe as cordas, perfumal-as,

Dictar-lhe os faceis, inspirados carmes.


A estrella, que fulge no céo anilado,

Com placido brilho de noite s’inflamma;

Na fonte e no prado

Reflexos luzentes esparge e derrama.

Nos ramos cobertos de ameno rocio

As aves descantão á luz da alvorada,

E a meiga toada

Repetem aos echos do bosque sombrio.

Na gleba virente, do sol bafejada,

Recende perfumes a flôr matutina,

Que á luz da alvorada

Ao sopro da brisa de leve s’inclina.

A flôr que trescala perfumes suaves,

A estrella que brilha no céo anilado,

E o canto das aves,

Que sôa no bosque virente e copado;

Se cantão, perfumão, despedem fulgores,

É tal o seu fado:—vós sois qual são ellas,

Sois como as estrellas,

Na graça e no canto, sois aves, sois flôres.

Como ellas, pagai-vos de ver quão fugaces

Encurtão-se as horas de nosso viver,

De ver como as faces,

Que tendes em torno, resumbrão prazer.


Estes versos na mente susurravão

Do vate, cuja lyra merencoria

Foi por vós de festões engrinaldada;

Por vós, cujo sorriso mavioso

Melhor perfume exhala, do que as notas

Concertadas com arte; dai um riso

Dos vossos, um volver dos brandos olhos,

Aos alegres convivas; e um reflexo

Do vosso meigo olhar e brando riso

Venha morrer na lyra do poeta,

Como do astro-rei, quando no occaso

Doura no campo as folhas mais humildes.


LYRA QUEBRADA.

Ah! ya agostada

Siento mi juventud, mi faz marchita,

Y la profunda pena que me agita

Ruga mi frente de dolor nublada.

HEREDIA.

Pede cantos aos ledos passarinhos,

Pede clarão ao sol, perfume ás flores,

Ás brisas suspirar, murmurio aos ventos,

Doces querelas ao correr das fontes;

E o sol, a ave, a flôr, a brisa, os ventos

E as fontes que murmurão docemente,

Na festa da tua alma hão de seguir-te,

Como um som pelos echos repetido.

Mas não peças á lyra abandonada

Um alegre cantar,—já murchas pendem

As grinaldas gentis, de que a toucárão

Donzeis louçãos, enamoradas virgens.

Hoje mal partem roucos sons dos nervos,

Que amargo pranto destendeu sem custo;

Quem ha que se não dóe de ouvir cantados

Uns versos de prazer entre soluços?

Não peças pois um hymno ao triste bardo!

Verde ramo d’uma arvore gigante

O raio no passar queimou-lhe o viço,

Deixando-o por escarneo entre verdores.

Uma febre, um ardor nunca apagado,

Um querer sem motivo, um tedio á vida

Sem motivo tambem,—caprichos loucos,

Anhelo d’outro mundo e d’outras coisas;

Desejar coisas vãs, viver de sonhos,

Correr após um bem logo esquecido,

Sentir amor e só topar frieza,

Scismar venturas e encontrar só dores;

Fizerão-me o que vês: não canto, soffro!

Lyra quebrada, coração sem forças

De poetico manto os vou cobrindo,

Por disfarçar desta arte o mal que passo.

Mas se inda tens prazer á luz da aurora,

Se te ameiga fitar longos instantes,

Sentada á beira mar, na paz de um ermo,

Uma flôr, uma estrella, os céos e as nuvens;

Pede cantos aos ledos passarinhos,

Á brisa, ao vento, á fonte que murmura;

Mas não peças canções ao triste bardo,

A quem té para um ai já falta o alento.


A PASTORA.

Forão as trevas fugindo,

E luzindo

Nasce o sol sobre o horisonte;

Quando a pastora formosa

E mimosa

Já caminho vai do monte!

A relva tenra e molhada,

Orvalhada,

Que de noite despontou,

Se levanta melindrosa,

Mais viçosa

Depois que o sol a afagou!

Nos ramos cantão, trinando

E saltando,

As aves seu casto amor;

Aqui, alli, scintillante

E brilhante

Desabrocha a linda flôr.

E a pastorinha engraçada,

Bem fadada,

Na fresca manhã de abril,

Vai cantando maviosa,

E saudosa

Pensando no seu redil.

Para as serras do Gerez

Toca a rez,

Toca a rez, gentil pastora;

Lá te aguarda o bom pastor,

Teu amor,

Que te chama encantadora.

Vai, pastora, vai depressa,

Já começa

O sol no valle a brilhar;

Vai, que as tuas companheiras,

Galhofeiras,

Lá ’stão com elle a folgar!

Pela aldeia entre os pastores

Vão rumores

De que tens uma rival,

Nessa Alteia, a tua antiga,

Doce amiga,

Que te quer hoje tão mal!

Tu não sabes que os amores

São traidores,

Que o homem não sabe amar;

E que diz: Esta é mais bella;

Mas aquella

É que me sabe agradar!

Tenho d’Alteia receios,

Que tem meios

De prender um coração;

É viva, bella, engraçada,

Festejada

Nos cantares do serão.

Como a neve em seus lavores,

Nos amores

Que caprichosa não é!

Zomba delle quando o topa,

E o provoca

De mil maneiras, á fé!

Té dizem—será mentira—

Que lhe atira

Seus motetes muita vez;

Dizem mais, que ha prendas dadas

E trocadas:...

Não sei; mas será talvez!

Triste de ti, se assim fôra,

Ó pastora,

Triste de ti sem amor!

Foras alvo dos festejos,

Dos motejos,

E do canto mofador!

Cheia de pudico medo,

Ao folguedo

Do domingo festival,

Não irias, ó formosa,

Vergonhosa

Dos olhos d’uma rival!

Para as serras do Gerez

Toca a rez,

Toca a rez, gentil pastora;

Lá te aguarda o bom pastor,

Teu amor,

Que te chama encantadora!

GEREZ....


A INFANCIA.

A Mlle J. PICOT.

I.

Bello raio do sol da existencia,

Meninice fagueira e gentil,

Doce riso de pura innocencia

Sempre adorne teu rosto infantil.

Sempre tenhas, anginho innocente,

Quem se apresse a teus passos guiar,

E uma voz que o teu somno acalente,

E um sorriso no teu acordar.

Enlevada nos sonhos jucundos,

Voz etherea te venha fallar,

E visão d’outros céos, d’outros mundos,

Venha amiga tua alma encantar.


Leda infancia gentil! e quem não te ama?

Quem tão de pedra o coração não sente

Aos teus encantos meigos mais tranquillo?

Quem não sente memorias d’outras eras

Travarem-lhe da mente, ao recordar-se

Aquelle gozo puro e suavissimo

De vida, que jámais não tem logrado?

Recordações de um mundo adormecido

Lá lhe estão dentro d’alma esvoaçando,

Como harpejos de musica longinqua!

E a mente nos seus quadros embebida,

Por magica illusão enfeitiçada,

Como outr’ora, talvez sómente veja

Na terra—um chão de flôres estrellado,

E nos céos—outro chão de flôres vivas!

II.

Afagada e bem vinda e querida,

Travessuras scismando infantis,

Nos caminhos floridos da vida

Vai mimosa, imprudente e feliz!

É-lhe a vida continuo festejo,

Sonhos d’oiro só sabe sonhar,

Toda ella um afan, um desejo

D’outros jogos contente brincar.

Puro riso o semblante lhe adorna,

Logo pranto começa a verter,

E depois outro riso lhe torna,

E depois outro pranto a correr.


Tão perto jaz a fonte da amargura

Da fonte do prazer!—porêm tão doces

Essas lagrimas são!—tão abundantes,

Tão sem causa e sympathicas gotejão

N’uma tez de carmim, n’um rosto bello!

Quem a vê, que sorrindo as não enchuga?

Mas não todo consumas o thesouro

Unico e triste, que ao infeliz sobeja

Nas horas do soffrer; no tempo amargo,

No qual o rosto pallido se enruga,

E os olhos seccos, aridos chammejão,

Será talvez bem grato refrigerio

Uma lagrima só, em que arrancada

A força da afflicção dos seios d’alma.

Mas tu, feliz, sorri, em quanto a vida,

Como um rio entre flores, se deslisa

Macio, puro e recendendo aromas.

III.

Bello raio do sol da existencia,

Flôr da vida, mimosa e gentil,

Fonte pura de meiga innocencia,

Leve gozo da quadra infantil!

Quem fruir-te outra vez não deseja,

Quando vê sobre a veiga formosa

A menina travessa e ruidosa,

Borboleta, que alegre doudeja?

A menina é uma flôr de poesia,

Um composto de rosa e jasmim,

Um sorriso que Deos alumia,

Um amor de gentil serafim!


Folga e ri no começo da existencia,

Borboleta gentil! a flôr dos valles,

Da noite á viração abrindo o calix,

O puro orvalho da manhã te guarda;

Inda perfumes dá, que te embriagão,

Inda o sol quando aquece os vivos raios,

Nas azas multicores scintillando,

Com terno amor de pae, em torno esparge

Pó subtil de rubins e de safiras.

Folga e ri no começo da existencia,

Humano serafim, que esse perfume

São das azas do anjo, que s’impregnão

Dos aromas do céo, quando atear-se,

Roaz fogo de vida começando,

Quanto havemos de Deos consome e apaga.

IV.

Porêm tu, afagada e querida,

Com requebros donosos, gentis,

Vai contente caminho da vida,

Bello anginho, mimoso e feliz!

E do bardo a canção magoada,

Quando a possas um dia escutar,

Ha de ser como rota grinalda,

Que perfumes deixou de exhalar!

E esta mão talvez seja sem vida,

E este peito talvez sem calor,

E memoria apagada e sumida,

Talvez seja a do triste cantor!


URGE O TEMPO.

Move incessante as azas incansaveis

O tempo fugitivo;

Atraz não volta!

A. DE GUSMÃO.

Urge o tempo, os annos vão correndo,

Mudança eterna os seres afadiga!

O tronco, o arbusto, a folha, a flôr, o espinho,

Quem vive, o que vegeta, vai tomando

Aspectos novos, nova forma, em quanto

Gyra no espaço e se equilibra a terra.

Tudo se muda, tudo se transforma;

O espirito, porêm, como centelha,

Que vai lavrando solapada e occulta,

Até que emfim se torna incendio e chammas,

Quando rompe os andrajos morredouros,

Mais claro brilha, e aos céos comsigo arrasta

Quanto sentio, quanto soffreu na terra.

Tudo se muda aqui! sómente o affecto,

Que se gera e se nutre em almas grandes,

Não acaba, nem muda; vai crescendo,

Co’ o tempo avulta, mais augmenta em forças,

E a propria morte o purifica e alinda.

Simelha estatua erguida entre ruinas,

Firme na base, intacta, inda mais bella

Depois que o tempo a rodeou de estragos.


SOBRE O TUMULO DE UM MENINO.

25 de Outubro de 1848.

O involucro de um anjo aqui descança,

Alma do céo nascida entre amargores,

Como flôr entre espinhos!—tu, que passas,

Não perguntes quem foi.—Nuvem risonha,

Que um instante correu no mar da vida;

Romper da aurora que não teve occaso,

Realidade no céo, na terra um sonho!

Fresca rosa nas ondas da existencia,

Levada á plaga eterna do infinito,

Como off’renda de amor ao Deos que o rege;

Não perguntes quem foi, não chores: passa.


MENINA E MOÇA.

Ma bienvenue au jour me rit dans tous les yeux!

CHENIER.

É leda a flôr que desponta

Sobre o talo melindroso,

E o arrebento viçoso

Crescendo em floreo tapiz;

É doce o romper da aurora,

Doce a luz da madrugada,

Doce o luzir da alvorada,

Doce, mimoso e feliz!

É bella a virgem risonha

Com seus musicos accentos,

Com seus virgens pensamentos,

Com seus mimos infantis;

Como quanto enceta a vida,

Que á luz sorri da existencia,

Que tem na sua innocencia

Da mocidade o verniz.

Vinga a flôr a pouco e pouco,

Cada vez mais bem querida,

Tem mais encantos, mais vida,

Tem mais brilho, mais fulgor:

De cada gota de orvalho

Extrahe celeste perfume,

E do sol no raio assume

Cada vez mais viva côr.

Assim á virgem mimosa,

Pouco e pouco, noite e dia,

Mais viva flôr de poesia

Do rosto lhe tinge a côr;

E um anjo nos meigos sonhos,

Do seu peito na dormencia

Derrama o odor da innocencia,

Um doce raio de amor!

Porque tudo, quando nasce,

Seja a luz da madrugada,

Seja o romper da alvorada,

Seja a virgem, seja a flôr;

Tem mais amor, tem mais vida,

Como celeste feitura,

Que sahe melindrosa e pura

D’entre as mãos do creador.

28 de Julho.


COMO EU TE AMO.

Como se ama o silencio, a luz, o aroma,

O orvalho n’uma flôr, nos céos a estrella,

No largo mar a sombra de uma vela,

Que lá na extrema do horisonte assoma;

Como se ama o clarão da branca lua,

Da noite na mudez os sons da flauta,

As canções saudosissimas do nauta,

Quando em molle vai-vem a náo fluctua;

Como se ama das aves o gemido,

Da noite as sombras e do dia as cores,

Um céo com luzes, um jardim com flores,

Um canto quasi em lagrimas sumido;

Como se ama o crepusculo da aurora,

A mansa viração que o bosque ondeia,

O susurro da fonte que serpeia,

Uma imagem risonha e seductora;

Como se ama o calor e a luz querida,

A harmonia, o frescor, os sons, os céos,

Silencio, e cores, e perfume, e vida,

Os paes e a patria e a virtude e a Deos.


Assim eu te amo, assim; mais do que podem

Dizer-t’o os labios meus,—mais do que vale

Cantar a voz do trovador cançada:

O que é bello, o que é justo, sancto e grande

Amo em ti.—Por tudo quanto soffro,

Por quanto já soffri, por quanto ainda

Me resta de soffrer, por tudo eu te amo.

O que espero, cobiço, almejo, ou temo

De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas

Com quanto amor eu te amo, e de que fonte

Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!

Esta occulta paixão, que mal suspeitas,

Que não vês, não suppões, nem te eu revelo,

Só pode no silencio achar consolo,

Na dôr augmento, interprete nas lagrimas.


De mim não saberás como te adoro;

Não te direi jámais,

Se te amo, e como, e a quanto extremo chega

Esta paixão voraz!

Se andas, sou o echo dos teus passos;

Da tua voz, se fallas;

O murmurio saudoso que responde

Ao suspiro que exhalas.

No odor dos teus perfumes te procuro,

Tuas pegadas sigo;

Velo teus dias, te acompanho sempre,

E não me vês comtigo!

Occulto e ignorado me desvelo

Por ti, que me não vês;

Aliso o teu caminho, esparjo flôres,

Onde pisão teus pés.

Mesmo lendo estes versos, que m’inspiras,

—Não pensa em mim, dirás:

Imagina-o, si o podes, que os meus labios

Não t’o dirão jámais!


Sim, eu te amo; porêm nunca

Saberás do meu amor;

A minha canção singela

Traiçoeira não revela

O premio sancto que anhela

O soffrer do trovador!

Sim, eu te amo; porêm nunca

Dos labios meus saberás,

Que é fundo como a desgraça,

Que o pranto não adelgaça,

Leve, qual sombra que passa,

Ou como um sonho fugaz!

Aos meus labios, aos meus olhos

Do silencio imponho a lei;

Mas lá onde a dôr se esquece,

Onde a luz nunca fallece,

Onde o prazer sempre cresce,

Lá saberás se te amei!

E então dirás: «Objecto

Fui de sancto e puro amor:

A sua canção singela,

Tudo agora me revela;

Já sei o premio que anhela

O soffrer do trovador.

«Amou-me como se ama a luz querida,

Como se ama o silencio, os sons, os céos,

Qual se amão cores e perfume e vida,

Os paes e a patria, e a virtude e a Deos!»


AS DUAS CORÔAS.

Hermosa, en tu linda frente

El laurel sienta mejor,

Que con su regio esplendor

Corona de rei potente.

G. y S.

Ha duas c’rôas na terra,

Uma d’ouro scintillante

Com esmalte de diamante,

Na fronte do que é senhor;

Outra modesta e singela,

C’rôa de meiga poesia,

Que a fronte ao vate alumia

Com a luz d’um resplendor.

Ante a primeira se curvão

Os potentados da terra:

No bojo, que a morte encerra,

Sobre a liquida extensão,

Levão náos os seus dictames

Da peleja entre os horrores;

Vis escravos, crús senhores,

Preito e menagem lhe dão.

E quando o vate suspira

Sobre esta terra maldicta,

Ninguem a voz lhe acredita,

Mas riem dos cantos seus:

Os anjos, não; porque sabem

Que essa voz é verdadeira,

Que é dos homens a primeira,

Em quanto a outra é de Deos!

Se eu fora rei, não te dera

Quinhão na regia amargura;

Nem te qu’ria, virgem pura,

Sentada sob o docel,

Onde a dôr tão viva anceia,

Tão cruel, tão funda late,

Como no peito que bate

Sob as dobras do burel.

Não te quizera no throno,

Onde a mascara do rosto,

Cobrindo o interno desgosto,

Ser alegre tem por lei;

Manda Deos, sim, que o rei chore;

Mas que chore occultamente,

Porque, se o soubera a gente,

Ninguem quizera ser rei!

Mas o vate, quando soffre,

Modula em meigos accentos,

Seus doridos pensamentos,

A sua interna afflicção;

E das lagrimas choradas

Extrahe um balsamo sancto,

Que vale estancar o pranto

Nos olhos do seu irmão.

Se eu fôra rei, não quizera

Roubar-te á senda florida,

Onde corre doce a vida

No matutino arrebol;

Gozas o sopro das brisas

E o leve aroma das flores,

E as nuvens, que mudão cores

No nascer, no pôr do sol.

Gozão disto as que repousão

Em taboas de vis grabatos;

Não quem vive entre os ornatos

D’um throno d’ouro e marfim!

No solio triste, sentada,

Não viras um rosto amigo,

Nem mais viveras comtigo,

Fôras escrava—por fim!

Vive tu teu viver simples,

Mimosa e gentil donzella,

D’entre todas a mais bella,

Flôr de candura e de amor!

C’rôa melhor eu t’offreço,

D’ouro não, mas de poesia,

C’rôa que a fronte alumia

Com a luz d’um resplendor!


HARPEJOS.

Sweetest music!...

SHAKSPEARE.

Da noite no remanso

Minha alma se extasia,

E praz-me a sós commigo

Pensar na solidão;

Deixar arrebatar-me

De vaga phantasia,

Deixar correr o pranto

Do fundo coração.

Tudo é silencio harmonico

E doce amenidade,

E uma expansão suave

Do mais fino sentir;

Existo! e no passado

Só tenho uma saudade,

Desejos no presente,

Receios no porvir!

Como licor que mana

De cava, humida rocha,

Que o sol nunca evapora,

Nem limpa amiga mão;

A dôr que dentro sinto

Minha alma desabrocha;

Que livre o pranto corre

Da noite na solidão!

Attendo! ao longe escuto

D’uma harpa os sons queixosos,

Attendo! e logo sinto

Minha alma se alegrar!

Attendo! são suspiros

De seres vaporosos,

Que mil imagens vagas

Me fazem recordar!

Tu que eras minha vida,

Que foste os meus amores,

Imagem grata e bella

D’um tempo mais feliz,

Que tens, que assim chorosa

Suspiras entre as flores?

Teu sou,—do juramento

Me lembro, que te fiz.

Te vejo, te procuro,

Teus mudos passos sigo,

Em quanto, leve sombra,

Fugindo vais de mi’!

Unido ás notas da harpa

Percebo um som amigo,

Que me recorda o timbre

Da voz que já te ouvi!

Na brisa que soluça,

Na fonte que murmura,

Nas folhas que se movem

Da noite á viração,

Ainda escuto os echos

D’uma fugaz ventura,

Que assim me deixou triste

Em mesta solidão.

Prosegue, harpa ditosa,

Nas doces harmonias,

Que da minha alma sabes

A magoa adormecer;

Prosegue! e a doce imagem

Dos meus primeiros dias

Veja eu ante os meus olhos

De novo apparecer!

Ai, forão como a virgem

Que em sitio solitario

Acaso um dia vimos

Sósinha a divagar!

Memoria bemfazeja,

Que o gelido sudario,

Que a morte em nós estende

Só vale desbotar.


TRISTE DO TROVADOR.

E ella era esbelta e bem proporcionada; sua alma era como a sensitiva, e suas palavras erão doces e tinhão um perfume, que se não pode comparar.

(Duas noites de luar.)

E ella era como a rosa matutina

Formosa e bella,

Como a estrella que á noite ao mar se inclina,

Saudosa era ella.

Seus olhos negros, vivos e rasgados,

Eram delicias vel-os;

E co’ a alvura do rosto contrastava

A côr dos seus cabellos.

Quando alguem lhe fallava, então fallava

Com voz macia,

Que triste dentro d’alma nos filtrava

Doce alegria.

E o seu timbre de voz movia as fibras

Do coração,

Como sons que a mudez da noite quebrão

Na solidão.

Seu mais leve sentir patenteava

No rosto ameno;

Nuvemzinha da tarde, que se encherga

Em céo sereno.

Topou-a acaso pensativa, errante,

O trovador:

«Feliz, disse elle, quem gozára os mimos

Do seu amor!»

E ella deu-lhe do seio uma saudade

Murcha, e no em tanto bella;

E elle um culto votou, scismando extremos,

Á pallida donzella.

Como fosse, porêm, breve a sua vida

Como uma flôr,

Em breves dias era mudo e triste

O trovador.


Se alguma vez cantava,—então dizia

Ao seu anjo do céo, que lá morava,

Que de ter junto delle só pedia

A vida sua, que tão erma estava.


VELHICE E MOCIDADE.

Eu levo á sepultura, uns após outros,

A donzella gentil, o velho enfermo

E o mancebo que folga descansado

Á sombra da ventura.

...

«Minha filha, mais depressa,

Mais depressa um pouco andemos,

E da aurora que desponta

Saudavel frescor gozemos!

«Senta-me em baixo do chorão, que dobra

A verde rama sobre a campa núa

De um ser de peito bom, de rosto bello,

Que foi minha mulher, que foi mãi tua!

«O sol, nascendo apenas, vem primeiro

Seus raios nessa campa dardejar,

E á cançada velhice é bem fagueiro

Esses restos da vida desfructar.»


Um cego e triste velho que tremia

Á força dos invernos que passarão,

Á filha nova e bella, assim dizia,

Á filha que os amores cubiçarão.

E tinha o velho pae nos hombros della

A mão crestada e morta e já rugosa,

E ella ao pae, sollicita, extremosa,

Guiava como um anjo e alva e bella.


«Nem sempre o que ora vês teu pae tem sido,

Oh filha da minha alma, oh meu thesouro,

Tambem um tempo foi que entretecido

Tive o fio vital de seda e d’oiro!

«Tambem meus olhos se expraiarão longe,

Pela vasta extensão destas campinas;

Tambem segui a tortuosa veia

Desta linda corrente que se perde

Além, por entre penhas;

E a esmeraldina côr, de que se arreia

A relva destes prados, destas brenhas,

Meus olhos juvenis encheu de gozo,

Que agora os olhos teus tambem recreia!

«E que prazer tão grande! o sol nascia

N’um mar de luz brilhante!

Levantava-se mais, brilhava, ardia,

No prado verdejante,

Na fonte e na devesa;

E o mundo e a natureza

De puro amor enchia!

Destoucavão-se os montes de neblina,

Que meiga e adelgaçada

Pendia, como um véo de gaza fina

Da celeste morada,

Quando n’um mar formoso o sol nascia!

«O mundo era então luz—hoje é só trevas!

O céo de puro azul via tingido,

Via a terra de cores adornada,

E na immensa extensão d’agua salgada

Via a esteira de luz do sol luzido!

«Breve as horas passei de ser ditoso

Aqui, neste lugar, ledo escutando

Tão amavel tua mãi, tão carinhosa,

Qu’instantes curtos me teceu fallando!

«Hoje existo somente porque existes,

Desfructo outro viver que não vivia,

Quando escutão-te a voz os meus ouvidos,

Como sons de celeste melodia.

«Oh falla, falla sempre.—É doce ao velho

Som d’argentina voz, que as fibras todas

Do semivivo coração abalão,

Como d’uma harpa antiga

As deslembradas cordas,

Que á mão experta e amiga

Do trovador, n’um canto alegre estalão.

«É doce ao solitario a voz de um anjo

Na sua solidão;

E ao velho pai a voz da casta filha,

Que falla ao coração.

«É doce, qual perfume matutino,

Que a flôr exhala,

Que pelo peito da mulher amante

S’interna e cala;

«É doce, como a luz que se derrama

Pela face do mar,

Quando brando luar, da noite amigo,

Vem nelle se espelhar.

«Falla, bem sei que amarga é tua vida,

Que amargo é teu penar;

No silencio da noite tenho ouvido

Teu peito a soluçar!

«Oh falla, tu bem vês que se a tormenta

Tetrica voa,

Ao ninho de seus paes o passarinho

Rapido voa.»


—Oh meu pai, como eu quizera

Meus pezares te esconder;

Mas tua filha, coitada,

Em breve tem de morrer!

—Sinto que alento me falta,

Que longe foge de mim;

Sinto minha alma rasgar-se

Por te deixar só assim;

Meu bom pai, como está breve

Da tua filha o triste fim!

—Alta noite, ouvi em sonhos,

A chamar-me um serafim;

Tinha alegria no rosto,

Mas chorava sobre mim;

Meu bom pai, como está breve

Da tua filha o triste fim!

—E tu cá ficas sosinho,

E tu cá ficas sem mim!

Oh que n’alma só me peza

Por te deixar só assim;

Meu bom pai, que é já chegado

Da tua filha o triste fim!—

E o velho, baixo fallando,

Tristemente assim dizia:

«Já fui feliz, já fui novo,

Já fui cheio de alegria!

«Eu tive paes extremosos,

Irmãos que m’idolatrarão,

Eu tive castos amores,

Que antes de mim se acabarão!

«Eu tive tantos no mundo

Quantos se póde chorar;

Perdi todos, tudo; ai, triste,

Só eu não pude acabar!

«Ao sopro da desventura

Só eu me não abalei,

Que a todos—novos e velhos—

Á campa todos levei!

«Minha filha me restava!

Eu já fantasma impotente,

Sobre os torrões tropeçava

Da cova aberta recente!

«Anjo de amor e bondade,

Porque me deixaste assim!

Tu morta, e na sepultura

Que eu tinha aberto pr’a mim!

«Deos, Senhor, quanto foi longo

O vaso em que fel traguei,

Findo o julguei; restão fezes,

As fezes esgotarei.»


E sobre a rosea face, ora amarella,

A aurora sempre bella radiava,

E o pai, ancião, que a dôr rasgava,

Cingia ao corpo seu o corpo della.

Nem pranto nos seus olhos borbulhava,

E nem nos labios seus a dôr gemia,

E sua alma, qual vaso em calmaria,

Entre vida e morrer n’um ponto estava.

O beijo paternal, por fim, lhe estampa

Na filha, que prazeres só lhe dera;

E filha e pensamento—alguem dissera

Ter juntos sepultado a mesma campa!

Nos céos não tens, Senhor, bastantes anjos,

Por que os venhas assim buscar á terra?

Brilhe a virtude, quando reina o crime,

O crime impune e vil, que ás tontas erra.


AS FLORES.

Ao Snr. JOSÉ PRAXEDES PEREIRA PACHECO, incançavel Botanico-florista, a quem devemos a introducção no paiz das mais bellas e curiosas especies de flores, que jámais aqui se virão.

Simples tributs du coeur, vos dons sont chaque jour

Offerts par l’amitié, hasardés par l’amour.

Les Jardins.—DELILLE.

Tu que com tanto afan, com tanto custo,

Estudando, inquirindo, e meditando,

De estranhos climas transplantaste aos nossos

As flores varias no matiz, nas formas,

Modesto horticultor, dos teos desvelos

Este só galardão recebe ao menos!

Recebe-o: tambem eu gosto das flores,

Folgo tambem de as ver n’um campo estreito

De estranhas terras revelando os mimos

E as galas d’outros céos:—aqui perfumão

Nossos jardins de peregrina essencia!

Melhorão-se talvez, que as não contristão

Raios tibios do sol, nem turvos ares,

Nem do inverno o furor lhes cresta o brilho.

Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Em vós inspirações o bardo encontra,

Devaneios de amor a ingenua virgem,

A abelha o mel, a humanidade encantos,

Odores, nutrição, balsamo e cores.

Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Linda virgem no albor da vida incerta,

No meio das vivaces companheiras,

Em forma de capella as vai tecendo

Para cingir com ella a fronte e a coma,

Que os annos no passar não enrugarão,

Nem as cans da velhice embranquecerão.

Resplendor d’innocencia, onde casados

A açucena, e os jasmins aos brancos lirios

Um só perfume grato aos céos envia;

Meiga c’rôa d’angelica pureza,

Ornamento da vida—que se rompe

Ou quando os membros delicados vestem

O grosseiro burel da penitencia,

Ou do noivado as galas!—lá se acaba,

Por fim aos pés do thalamo ou n’um tumulo!

Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Quantas vezes, nas horas da ventura,

A fallaz sensação d’um peito ingrato

Não julgamos eterna, immensa, infinda!....

Alli nossos anhelos se concentrão,

Nossa vida alli jaz:—cifra-se inteira

N’um brando volver d’olhos, n’um accento,

Que a ternura repassa, inspira, exhala!

Um gemido, um suspiro, um ai, um gesto,

Valem thronos, e mais,—o mundo e a vida!

Mas esvae-se a paixão!... que fica? Apenas

Um saudoso lembrar d’éras passadas,

De scismadas venturas, não fruidas,

Ás vezes uma flor!...—Flor dos amores,

Quando extincta a paixão, porque inda existes?

Espinhos de uma rosa emmurchecida,

Porque sobreviveis ás folhas d’ella?

Mais firme, mais leal, mais vivedoura

Que a voluvel paixão, a flôr mimosa

Talvez irrita a dôr, talvez a acalma.

Emblemas do prazer, do soffrimento,

Mensageiras do amor ou da saudade,

Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Geme a fresca odalisca entre ferrolhos,

Importuna presença a voz lhe tolhe

Do não piedoso eunucho;—e estatua negra

Respeitosa e cruel lhe espreita os gestos:

Chora a guzla mourisca ao som dos ferros,

Lastima-se a cadeia ao som dos passos,

E a humana flôr definha entre as mais flores;

Mil ouvidos a voz lhe escutão sempre,

E cingidos de ferro, crús soldados

D’entorno ao mésto harem velão sanhudos!

Ruge, fero soldão! treplíca os bronzes

Da masmorra cruel:—a planta humilde,

E a escrava que recatas tão cioso,

Zombão dos feros teus! Muda e singela,

Ao través das prisões, dos teus soldados,

Passa a modesta flôr! Vai n’outro peito,

Mysterios não sabidos relatando,

Contar do infausto amor as provas duras,

Os martyrios da ausencia, as tristes lagrimas

Que chora—ao reiterar protestos novos!

Bem-fadadas do sol, do amor bemquistas,

O orvalho as cria, as lagrimas as murchão:

Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Quem tem o coração a amor propenso,

Quem sente a interna voz que dentro falla,

Delicado sentir d’um brando peito,

Alma virgem que os homens não mancharão;

Quem soffre ou tem prazer, ou ama, ou espera

E vive e sente a vida, esse vos ama:

Encantos da existencia em quanto vivos,

Do revés, do triumpho companheiras,

No berço, no docel, no mudo esquife,

Sempre amigas eis vos encontramos.

Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Modesto horticultor, dos teus desvelos

Este só galardão recebe ao menos;

Paga-te sequer de ver mais bella,

Mais vaidosa, melhor, do sol na terra,

A flôr modesta, producção sublime

De estranhos climas transplantada ao nosso.

Rio, 29 de janeiro de 1849.


O QUE MAIS DÓE NA VIDA.

I cannot but remember such things were,

And were most dear to me.

SHAKESPEARE.

O que mais dóe na vida não é ver-se

Mal pago um beneficio,

Nem ouvir dura voz dos que nos devem

Agradecidos votos,

Nem ter as mãos mordidas pelo ingrato,

Que as devera beijar!

Não! o que mais dóe não é do mundo

A sangrenta calumnia,

Nem ver como s’infama a acção mais nobre,

Os motivos mais justos,

Nem como se deslustra o melhor feito,

A mais alta façanha!

Não! o que mais dóe não é sentir-se

As mãos dum ente amado

Nos espasmos da morte resfriadas,

E os olhos que se turvão,

E os membros que entorpecem pouco e pouco,

E o rosto que descora!

Não! não é o ouvir d’aquelles labios,

Doces, tristes, compassivas,

Sobre o funereo leito soluçadas

As palavras amigas,

Que tanto custa ouvir, que lembrão tanto,

Que não s’esquecem nunca!

Não! não são as queixas amargadas

No triumphar da morte;

Que, se se apaga a luz da vida escassa,

Mais viva a luz rutila;

Luz da fé que não morre, luz que espanca

As trevas do sepulchro.

O que dóe, mas de dôr que não tem cura,

O que afflige, o que mata,

Mas de afflicção cruel, de morte amara,

É morrermos em vida

No peito da mulher que idolatramos,

No coração do amigo!

Amizade e amor!—laço de flores,

Que prende um breve instante

O ligeiro batel á curva margem

De terra hospitaleira;

Com tanto amor se ennastra, e tão depressa,

E tão facil se rompe!

Á mais ligeira ondulação dos mares,

Ao mais ligeiro sopro

Da viração—destranção-se as grinaldas;

O baixel se afasta,

Veleja, foge, até que em plaga estranha

Naufragado soçobre!

Talvez permitte Deos que tão depressa

Estes laços se rompão,

Por que nos peze o mundo, e os seus enganos

Mais sem custo deixemos:

Sem custo assim a brisa arrasta a planta,

Que jaz solta na terra!


FLÔR DE BELLEZA.

Não vejas!... se a vires...—Eu sei porque o digo:

Tu morres de amor.

MACEDO.

Se fosse rainha aquella

Em cuja fronte singela,

Como em tela delicada

Luz da belleza o condão,

Fôras rainha adorada;

Mas rainha seductora,

Que exige preitos n’uma hora

E n’outra hora adoração.

Fôras rainha! e ditosos

Teus vassallos extremosos,

Que a renderem-te seus preitos

Beijárão-te a nivea mão.

Pedes amor e respeitos!

Quem não ama a formosura,

Quem não respeita a candura

D’um sincero coração?

Mas antes que nos curvemos

Ante a belleza que vemos,

Tua angelica bondade

Conquista a nossa affeição:

Não es mulher, mas deidade,

Uma fada seductora,

Que nos pede amor agora,

Logo mais—adoração.

Quando pois, cheia de graças,

Entre a turba alegre passas,

Entre a turba sequiosa

De beijar-te a nivea mão;

Dizem uns: quanto é formosa!

Eu porêm, sei que es mais bella

Nos dotes da alma singela,

Nas prendas do coração.

Passa rapida a belleza,

Como flôr que a natureza

Cria em jardim melindroso,

Ou n’um agreste torrão:

Passa como um som queixoso,

Como felizes instantes,

Como as juras dos amantes,

Como extremos da paixão.

Mas d’alma a vida é mais fina,

Exhala essencia divina,

Que avigora e fortifica

O dorido coração;

Morto o corpo, ainda fica,

Como em rosal arrancado,

Leve aroma derramado,

Dos espaços na extensão.


O ANJO DA HARMONIA.

Respira tanta doçura

O teu canto, que por certo

Abranda a penha mais dura.

BOCAGE.

Revela tanto amor, tão branda sôa

A tua doce voz canora e pura,

Que o homem de a escutar sente no peito

Infiltrar-se-lhe um raio de ventura.

Solta-se a alma das prisões terrenas,

O mundo, a vida, o soffrimento esquece,

E embalada n’um ether deleitoso,

Como Alcyon nas aguas, adormece!

Da noite a placidez é menos grata

A quem sósinho e taciturno vela,

Quando, perdido n’outros mundos, nota

A meiga luz de fugitiva estrella.

Sensações menos doces, menos vagas,

Desperta o barco leve, que se avista

Ao pôr do sol, na extrema do horisonte,

Quando n’um mar de luz nos foge á vista.

Das aves o cantar é menos fresco,

É menos triste a fonte que serpeia,

Menos queixoso o mar, que enternecido,

Beija na praia a scintillante areia.

Vagas na terra, suspiroso archanjo,

Derramando torrentes de harmonia

Sobre as chagas mortaes,—balsamo sancto

Que as mais profundas magoas alivia.

Vagas na terra, merencoria e bella;

Mas quando deste mundo ao céo tornares,

Juntarás teus ternissimos accentos

Aos puros sons dos mysticos altares.

E os anjos na mansão das harmonias,

Encostados ás harpas diamantinas,

Folgarão de te ouvir celestes carmes

Deduzidos em notas peregrinas.

E dirão:—Nunca ás plagas do infinito

Subio mais terna voz, mais fresca e pura!

Se o corpo é de mulher, sua alma é vaso,

Onde o incenso de Deos se afina e apura.


A HISTORIA.

The flow and ebb of each recurring age.

BYRON.

Triste licção de experiencia deixão

Os evos no passar, e os mesmos actos

Renovados sem fim por muitos povos,

Sob nomes diversos se encadeião:

Aqui, além, agora ou no passado,

Amor, dedicação, virtude e gloria,

Baixeza, crime, infamia se repetem,

Quer gravados no socco de uma estatua,

Quer em vil pelourinho memorados.

Eis a historia!—rainha veneranda,

Trajando agora sedas e velludos,

Depois vestindo um sacco despresivel,

D’immunda cinza apolvilhada a fronte.

Se as virtudes do pobre não tem preço,

Tambem dos vicios seus a nodoa exigua

Não conspurca as nações; mas ai dos grandes,

Que trilhão senda errada, a cujo termo

Se levanta a barreira do sepulchro,

Onde se quebra a adulação sem força.

Se virtuoso, as gerações passando

As cinzas lhe beijarão; se malvado,

Cospem-lhe affrontas na vaidosa campa,

Jámais de amigas lagrimas molhada.

E qual do Egypto nos festins funereos,

Maldizem bons e máos sua memoria,

Lançando á face da real mumia

Dos crimes seus a lacrymosa historia.

Talvez, porêm, um infortunio grande,

Um exemplo sublime de virtude,

Cobre dourada pagina, que aos olhos

Pranto consolador sem custo arranca.

Eis a historia! um espelho do passado,

Folhas do livro eterno desdobradas

Aos olhos dos mortaes;—aqui sem mancha,

Além golfeja sangue e súa crimes.

Tal foi, tal é: retrato desbotado,

Onde se mira a geração que passa,

Sem côr, sem vida,—e ao mesmo tempo espelho,

Que ha de ser nova copia á gente nova,

Como os annos aos annos se succedão.

Ondas de mar sereno ou tormentoso,

As mesmas na apparencia, que se quebrão

Sobre as d’areia fluctuantes praias.


A CONCHA E A VIRGEM.

Linda concha que passava,

Boiando por sobre o mar,

Junto a uma rocha, onde estava

Triste donzella a pensar;

Perguntou-lhe:—Virgem bella,

Que faces no teu scismar?

—E tu, pergunta a donzella,

Que fazes no teu vagar?

Responde a concha:—Formada

Por estas aguas do mar,

Sou pelas aguas levada,

Nem sei onde vou parar!

Responde a virgem sentida,

Que estava triste a pensar:

—Eu tambem vago na vida,

Como tu vagas no mar!

—Vais d’uma a outra das vagas,

Eu d’um a outro scismar;

Tu indolente divagas,

Eu soffro triste a cantar.

—Vais onde te leva a sorte,

Eu, onde me leva Deos:

Buscas a vida,—eu a morte;

Buscas a terra,—eu os céos!


SEI AMAR.

Amor amore.

Proverbio.

Sei amar com paixão ardente e fida,

Como o nauta ama a terra, como o cego

A luz do sol, como o ditoso a vida.

Sim, sei amar; porêm do immenso pégo

D’uma existencia misera e cançada,

Quero uma hora, um instante de socego.

Dera a vida a uma alma apaixonada,

A um peito de mulher que me entendesse,

Onde eu pousasse a fronte acabrunhada.

Porêm, que fosse minha, e que eu soubesse

Que os labios que beijei são meus somente,

Nem pensa em outro, nem de mim se esquece.

Nem vai de prompto derramar demente

N’outros ouvidos a palavra, o accento,

Que em extasis de amor criei fervente.

Nem corre o seu volatil pensamento,

Quando fallo, a pensar n’outros amores,

N’outra voz, n’outros sons, n’outro momento.

Demais, acostumado a teus rigores,

Não me queixo, bem vês, mas despedaço

A prisão vil, embora occulta em flores.

Se entro furtivo, onde outro mais de espaço

Como senhor campeia—ao mais querido

Cede o ingresso, ao mais ditoso o passo.

Não me contenta um coração partido,

Um só amor que a dous pertence,—um peito,

Que bate por dous homens, fementido.

Se eu unico não sou,—vil, não aceito

Ser segundo em amor,—inteiro é nobre,

Vale um throno;—partido, é dom tão pobre,

Qu’eu pobre, como sou, de altivo engeito.


AMANHÃ.

Amanhã!—é o sol que desponta,

É a aurora de roseo fulgor,

É a pomba que passa e que estampa

Leve sombra de um lago na flôr.

Amanhã!—é a folha orvalhada,

É a rola a carpir-se de dôr,

É da brisa o suspiro,—é das aves

Ledo canto,—é da fonte o frescor.

Amanhã!—são acasos da sorte;

O queixume, o prazer, o amor,

O triumpho que a vida nos doura,

Ou a morte de baço pallor.

Amanhã!—é o vento que ruge,

A procella d’horrendo fragor,

É a vida no peito mirrada,

Mal soltando um alento de dôr.

Amanhã!—é a folha pendida,

É a fonte sem meigo frescor,

São as aves sem canto, são bosques

Já sem folhas, e o sol sem calor.

Amanhã!—são acasos da sorte!

É a vida no seu amargor,

Amanhã!—o triumpho, ou a morte;

Amanhã!—o prazer, ou a dôr!

Amanhã!—o que val’, se hoje existes!

Folga e ri de prazer e de amor;

Hoje o dia nos cabe e nos toca,

De amanhã Deos sómente é Senhor!


POR UM AI.

Se me queres ver rendido,

De joelhos, a teus pés,

Por um olhar que me deites,

Por um só ai que me dês;

Se queres ver o meu peito

Rugindo como um vulcão,

Estourar, arder em chammas,

Ferver de amor e paixão;

Se me queres ver sugeito,

Curvado e preso á tua lei,

Mais humilde que um escravo,

Mais orgulhoso que um rei;

Meus olhos sobre os teus olhos,

Meu coração a teus pés;

Por um olhar que me deites,

Por um só ai que me dês:

Oiça, feliz, dos teus labios

Esta só palavra—amor!—

Estrella cortando os ares,

Abelha sobre uma flôr.

Então verás dos meus olhos,

Que o pezar me não cegou,

Rebentarem de alegria

Prantos, que a dôr estancou;

Então verás o meu peito

Como outra vez se incendia;

Era a folha verde e fresca,

Onde o sol se reflectia!

Murcha e triste pende agora;

Cahiu, jaz solta, está só:

Exposta ao fogo, arde em chammas,

—Deixai-a, desfaz-se em pó!

Hei de sentir outra vida,

Outra vez meu coração

Escutarei palpitando

De amor, de fogo e paixão.

Lascado tronco sem graça,

Tal fui, tal me ves agora!

Mas venha o orvalho celeste,

Venha o bafejo da aurora;

Venha um raio de alegria

Dar-lhe ás raizes calor;

Revive de novo, e brota

Folhas, galhos e verdor.

Do cimo erguido e copado

Outra vez se dependurão

Mil flores,—alli mil aves

Nos seus gorgeios se apurão.

Não quero palavras falsas,

Não quero um olhar que minta,

Nenhum suspiro fingido,

Nem voz que o peito não sinta.

Basta-me um gesto, um aceno,

Uma só prova,—e verás

Minha alma, presa em teus labios,

Como de amor se desfaz!

Ver-me-has rendido e sugeito,

Captivo e preso á tua lei,

Mais humilde que um escravo,

Mais orgulhoso que um rei!


PROTESTO.
Imitação de uma poesia Javaneza.

Ainda quando os homens te odiassem,

E anath’ma contra ti bradasse o mundo,

Por ti sentira amor, te amára sempre,

Te amára eternamente.

Este affecto jámais ha de alterar-se;

Embora gemeos sóes ardão no espaço,

Ou gemeas noites, em cegueira eterna,

Me roubem o prazer de ver teus olhos.

Entranha-te na terra, hei de afundar-me;

Passa ao travez do fogo, irei comtigo;

Aos céos remonta, hei de seguir-te sempre,

Ver-me-has sempre a teu lado.

De ti não póde a força desprender-me,

Nem separar-me o fado. Em ti só vivo;

E quem dos dias teus souber o termo,

Que a vida me deixou tambem conheça.

Quando nas azas da esperança corro,

Onde me acenas, onde amor me aguarda,

Parece-me que vôo aos ledos campos,

Onde a esperança mora.

Não ha que possa comparar-se aos extasis,

Que tanto ao vivo meu amor revelão;

Um gesto, um som dos labios teus mimosos

Mil vezes na minha alma se repete.

Quer irritada contra mim te mostres,

Quer do teu seio irosa me repillas,

Teu rosto na minha alma se retrata,

E eu te amo sempre!

Quer durma, quer descance, ou vele ou soffra,

Em tudo quanto sinto, em quanto vejo,

Risonha tua imagem me apparece,

E eu julgo sempre que te fallo e escuto.

Seja eu longe da patria infindas legoas,

A distancia de um mundo entre nós corra,

Em quanto além divago, preso fica

Meu coração comtigo.

Se pois souberes que os meus dias findão,

Não creias que o destino inexoravel

M’os corta—antes me tem, antes me julga

Morto por ti de amores!


FADARIO.

Procura o íman sempre

Do pólo a firme estrella,

De viva luz o insecto

Se deixa embellezar;

E a nave contrastada

Das furias da procella,

Procura amigo porto,

No qual possa ancorar.

O íman sou constante,

A nave combatida,

O insecto encandeado

Com fulgido clarão;

E tu—a minha estrella,

A luz da minha vida,

O porto que me acena

Por entre a cerração.

Assim, por desgostar-me,

Severo no semblante,

No olhar, na voz—debalde

Me opprime o teu rigor;

Se fujo dos teus olhos,

Se mostro-me inconstante,

Na ausencia e no desterro

Me vai crescendo o amor!

Assim o insecto volta

Á luz que o já queimára,

E o íman na tormenta

Procura o norte seu;

Assim a nave rota,

Que o vento contrastára,

Entrando o porto, esquece

Que males já soffreu.

Debalde, pois, tua alma,

Que a minha dôr encherga,

Se mostra aspera e dura

Á voz do meu penar;

Aquelle verde ramo,

Que facilmente verga,

Resiste ao peso, emquanto

Não torna ao seu lugar.

Se, pois, te irrita e cança

De o ver revel comtigo,

Do tronco seu virente

Separa-o de uma vez:

Mais qu’elle venturoso

Me julgo, se consigo

Morrer vendo os teus olhos,

Cahir junto a teus pés.

Mas, inda assim, não creias,

Se finda o meu tormento,

Que nem lembrança minha

Terás de conservar:

A nave, que não toca

No porto a salvamento,

Talvez os rotos mastros

Atira á beira-mar.

Assim quando jazendo

Me achar na campa fria,

Talvez tenhas remorsos,

Da tua ingratidão;

Talvez que por mim sintas

Alguma sympathia;

Que em lagrimas desfeita

Me dês amor então.


O ASSASSINO.

Pero una sola lágrima, un gemido

Sobre sus restos á ofrecer no van,

Que es sudario d’infames el olvido...

Bien con su nombre en su sepulcro están!

ZORRILLA.

Eil-o! seu rosto pallido se encova;

Incerto, mais que os vôos dum morcego,

Seu andar, ora lento, ora apressado,

Profunda agitação revela aos olhos.

Crespos os cenhos, enrugada a fronte,

Simelha luz de tocha mortuaria

A luz que os olhos seus despedem torvos.

Ha momentos em que seo rosto fero

De tal arte s’enruga e se transtorna,

Que os seus proprios amigos o fugírão

E a propria mãe teméra unil-o ao seio!

Quando os labios descerra, só murmura

Frases, cujo sentido não se alcança,

Ou blasfemias a Deos, que o soffre em vida!

O que amou n’outro tempo, agora odeia;

Despreza o que estimou, evita, foge

Quanto afanoso procurava outr’ora:

Receia a luz do sol, da noite as trevas,

A voz do crime, da innocencia o grito!

A cholera de Deos cahio tremenda

Sobre o seu peito, e o coração lhe opprime,

De cuja interna chaga em jorros salta

O sangue e a podridão: horrendo e fero,

A victima das furias do remorso,

Terrivel e cobarde, e ao mesmo tempo

Rebelde contra a mão, que o vexa e pune,

Em quanto a Deos maldiz, blasfema, irrita,

D’uma voz, d’uma sombra se amedronta.

Não póde supportar seus pensamentos

A sós comsigo, e aborrecendo os homens,

De os ver e de os não ver soffre martyrios.

Na cidade, suspeita esposa, amigos,

A mãe e os filhos;—um terror, um pasmo,

Cuja causa recondita se ignora,

Na voz, no rosto e gesto o denuncião

Como escravo do crime ou da miseria.

No ermo a propria voz o sobresalta!

O som dos passos, do seu corpo a sombra,

Das fontes o correr por entre as pedras,

Da brisa o suspirar por entre as folhas,

Quanto vê, quanto escuta o intimida.

Minaz lhe brada a natureza inteira,

Soluça um nome, que lhe erriça a coma

E o frio do terror lh’immerge n’alma.

O mar nas ondas crespas, que se enrolão,

Batidas pelo açoite da procella,

Troveja o mesmo nome; as vagas dizem-no,

Quando passão, cuspindo-lhe o semblante;

E Deos, o proprio Deos no espaço o grava

Nos fuzis que os relampagos centelhão.

Tem pavor, quando sonha e quando vela.

Deixando o leito em seu suor banhado,

No silencio da noite—á horas mortas,

Levanta-se medonho á voz do crime!

Nas mãos convulsas um punhal aperta

E a lamina buida e os olhos torvos

Agoureiro clarão despedem juntos.

Soltando roucos sons com voz sumida,

Apalpa cauteloso as densas trevas,

E vai ... caminha ... attende ... de repente

Apunhala um phantasma!—solta um grito,

Larga o punhal convulso e arrepiado!

N’um ferrete de sangue lê seu fado,

Um ferrete, que a dôr desfaz nunca,

Nem lava o pranto, nem consome o tempo.

Miseravel, provando o fel da morte,

Ante o passo medonho se horrorisa;

Odeia o mundo que fugir não póde,

Regeita a religião que o não consola,

Odeia e teme a Deos,—teme a justiça

De quem na fronte vil do fratricida

Nodoa eterna gravou do crime infando.


A UNS ANNOS.

14—Janeiro.

No segredo da larva delicada

A borboleta mora,

Antes que veja a luz, que estenda as azas,

Que surja fóra!

A flôr, antes de abrir-se, se recata;

No botão se resume,

Antes que mostre o colorido esmalte,

Que espalhe o seu perfume.

E a flôr e a borboleta, após a aurora

Breve—da curta vida,

Encontrão nas manhãs da primavera

A luz do sol querida.

De graças cheia, a delicada virgem

Da vida no verdor,

Semelha a borboleta melindrosa,

Semelha a linda flôr.

Tudo se alegra e ri em torno della,

Tudo respira amor,

Que é a virgem formosa semelhante

Á borboleta e á flôr.

Mas para estas o sol breve se esconde,

Passão prestes os dias;

Em quanto a cada sol e nova quadra

Tu novas graças crias!


QUANDO NAS HORAS.

And dost thou ask, what secret woe

I bear, corroding joy and youth?

And wilt thou vainly seek to know

A pang e’en thou must fail to soothe?

BYRON.

I.

Quando nas horas que comtigo passo,

Do amor mais casto, do mais doce enlevo.

Sentindo um raio d’esperança amiga,

Que as densas trevas da minha alma aclara;

Teus meigos olhos sobre os meus se fitão.

Sorvo o perfume que tua alma exhala,

Gozo o sorriso que os teus labios vertem

E as doces notas que o prazer m’entranhão:

Tu me perguntas por que um riso amargo,

Funebre e triste me descora os labios;

Por que uma nuvem de pezares gravida

Tolda o meu rosto;

Por que um suspiro de abafada angustia,

Um ai do peito, que exhalar não ouso,

O meigo encanto dos teus sonhos quebra

N’um breve instante!

Raio de amor, que sobre mim resplendes,

Ou sol que bates n’um profundo abysmo,

E a verde-negra superficie tinges

De côr chumbada com reflexos d’oiro;

Se vês luzente a superficie amiga,

E á luz que espalhas aclarar-se o abysmo,

Sol bemfazejo, que te importão fezes,

Se lá no fundo adormecidas jazem?

Talvez se as viras, encobrindo os olhos,

De horror fugindo ao temeroso aspecto,

Os brandos lumes, d’onde amor distillas

Breve apagáras.

Não me perguntes por que soffro triste,

Por que da morte o negro espectro invoco,

Por que, cansado desta vida, almejo

A paz dos tumulos.

Nem ver procures a cratera hiante

Do peito meu, qu’inda fumega em cinzas,

Do peito meu, onde crueis travárão

Pleitos, não crimes, mas paixões que abrasão.

Dá que nas horas que comtigo passo

Do amor mais casto e do mais doce enlevo,

Durma o passado e do porvir m’esqueça,

E o meu presente de te amar se ameigue.

II.

Se algum suspiro de abafada angustia,

Se um ai do peito que exhalar não ouso,

O meigo encanto dos teus sonhos quebra;

Tu me perdôa.

Cansado e triste de viver soffrendo,

Da morte amiga o negro espectro invoco,

Affiz-me as dores, e só torva ideia

Me apraz agora.

Talvez na pedra d’um sepulchro frio

Melhor folgára de me ver deitado,

Sentir nos olhos estancado o pranto

E amodorrado o padecer no peito.

Talvez folgára minha sombra triste,

Vagando em tomo d’uma campa lisa,

De ver-te as formas, de contar teus passos,

E de escutar tua oração piedosa.

Talvez folgára, quando pranto amargo

Dos olhos teus me rorejasse a campa,

Dos meigos labios, onde amor temperas,

Meu nome ouvindo!

Oh! sim, folgára de sentir a brisa,

Correndo em tomo ao moimento meu,

E tu sósinha no sepulchro humilde,

Guardando os tristes deslembrados ossos!

Junto ao meu corpo guardarei teu leito,

Onde os teus restos junto aos meus descancem;

E o mesmo sol, e a mesma lua e brisa

Juntos nos vejão.

E quando o anjo espedaçar as campas

Ao som da trompa de fragor horrendo,

Que ha de o lethargo despertar dos mortos

Na vida eterna;

Primeiro em ti se fitarão meus olhos:

Hei de alegrar-me de te ver commigo,

E as nossas almas subirão reunidas

Á eterna face do juiz superno.

E deste amor, por que ambos nós passamos,

O galardão lhe pediremos ambos,

Viver unidos na mansão dos justos,

Ou nos tormentos da eternal gehenna!

III.

No em tanto a vida soportar já devo,

Soffrer o peso da existencia ingloria,

E revolvendo o coração chagado,

Nos seus estragos numerar meus dias.

Na terra existo, como um som queixoso,

Um echo surdo, que entre as fragas dorme,

Ou como a fonte, que entre as pedras corre,

Ou como a folha sob os pés calcada.

Uma alma em pena, que procura os restos

Não sepultados,—uma flôr que murcha,

D’uma harpa a corda, que por fim rebenta,

Ou luz que morre.

Prazer não acho de avistar lua

Pallida e bella na soidão do espaço;

Nem vivos astros, nem perfumes gratos

Me dão consolo.

Nada percebo nos confusos roncos

Do mar, que bate as solitarias praias;

Nem nos gemidos da frondosa selva,

Que o sopro amigo de uma aragem move.

Conviva infausto d’um festim, que odeio,

Ás proprias galas que vaidosa ostenta

A natureza—não se ri minha alma,

Nem de as notar meu coração se alegra.

E sinto o mesmo que sentira o frio,

Mudo cadaver dos festins do Egypto,

Se ver pudesse, contemplando o nada

Das vãs grandezas.

Mas já que os olhos sobre mim pousaste,

Teus meigos olhos, donde o amor lampeja;

Pois que os teus labios para mim se abrirão,

Teus meigos labios;

Já que o perfume da tua alma d’anjo

Embalsamou-me o coração de aromas;

Já que os prazeres da eternal morada

De longe, em sonhos, antevi comtigo:

Já posso a vida supportar, já devo

Sofrer o peso da existencia inutil;

Já do passado e do porvir me esqueço,

E o meu presente de te amar se ameiga.


RETRACTAÇÃO.

Son reo, non mi difendo;

Puniscimi, se vuoi!

METASTASIO.

Perdoa as duras frases que me ouviste:

Vê que inda sangra o coração ferido,

Vê que inda luta moribundo em ancias

Entre as garras da morte.

Sim, eu devera moderar meu pranto,

Soffrear minhas iras vingativas,

Deixar que as minhas lagrimas corressem

D’entro do peito em chaga.

Sim, eu devera confranger meus labios,

Mordel-os té que o sangue espadanasse,

Afogar na garganta a ultriz sentença,

Apagal-a em meu sangue.

Sim, eu devera comprimir meu peito,

Conter meu coração, que não pulsasse,

Apagado volcão, que inda fumega,

Que faz, que jorra cinzas?

Que m’importava a mim teu fingimento,

Se uma hora fui feliz quando te amava,

Se ideei breve sonho de venturas,

Dormido em teu regaço;

Luz mimosa de amor, que te apagaste,

Ou gota pura de crystal luzente

Filtrando os poros de uma rocha a custo,

Cahida em negro abysmo!

Devera pois meu pranto borrifar-te

Amigo e bemfazejo, como aljofar

De branco orvalho em perolas tornado

N’um calice de flôr;

Não converter-se em pedras de saraiva,

Em chuva de graniso fulminante,

Que em chão de morte as petalas viçosas

Desfolhasse entre-abertas.


Feliz o doce poeta,

Cuja lyra sonorosa,

Resoa como a queixosa,

Trepida fonte a correr;

Que só tem palavras meigas,

Brandos ais, brandos accentos,

Cuja dôr, cujos tormentos

Sabe-os no peito esconder!

Feliz o doce poeta,

Que não andou em procura

De terrena formosura,

Nem as graças lhe notou!

Que lhe não deu sua lyra,

Que lhe não deu seus cantares,

Que lhe não deu seus pezares,

Nem junto della quedou!

Antes na mente escaldada

Forma um composto divino

De algum ente peregrino,

De algum dos filhos dos céos;

E ante essa imagem creada,

Que vê sempre noite e dia,

Dobra as leis da phantasia,

Acurva os desejos seus.

É d’ella quando se carpe,

É d’ella quando suspira,

É d’ella quando na lyra

Entoa um canto feliz:

D’ella acordado ou dormido,

D’ella na vida ou na morte,

Tenha alegre ou triste sorte,

Seja Laura ou Beatriz!

Que talvez a doce imagem,

A scismada phantasia

Ha de o poeta algum dia

Junto de Deos encontrar;

E que havendo-a producido

Antes do mundo formado,

Dê-lhe um sonhar acordado

Por um viver a sonhar!


ANHELO.

No lago interior d’um peito virgem,

Que os ventos das paixões não agitárão,

Hei de em cifras de amor gravar meu nome,

Onde as nuvens do céo desenhão cores.

Nos meigos olhos, que embelleza o mundo,

De corrosivas lagrimas enxutos,

Meu pensamento gravarei n’um beijo,

Onde as luzes do céo reflectem brilhos.

Em sua alma, onde uma harpa melindrosa

Noite e dia seus canticos afina,

Hei de a vida entornar em doces carmes,

Onde imagens do céo sómente brilhão.

Que outra c’rôa melhor, que outra mais pura,

Que uma c’rôa d’amor em fronte virgem?!

Não peza sobre a fonte, não esmaga,

Não punge o coração,—é toda amores!

Que outra c’rôa melhor, que outra mais bella

Que a aureola, que Deos concede aos vates?

Com sorriso de amor, talvez com pranto,

Cede-a o vate á mulher, que mais o inspira!

Eu t’a cedo, eu t’a dou! C’rôo-te imagem

Resplendente, invejada entre as mulheres;

Um beijo só de amor tu me concedas,

Um suspiro sequer do peito exhales.


QUE ME PEDES.

Tu pedes-me um canto na lyra de amores,

Um canto singelo de meigo trovar?!

Um canto fagueiro já—triste—não póde

Na lyra do triste fazer-se escutar.

Outr’ora, coberto meu leito de flores,

Um canto singelo já soube trovar;

Mas hoje na lyra, que o pranto humedece,

As notas d’outr’ora não posso encontrar!

Outr’ora os ardores que eu tinha no peito

Em cantos singelos podia trovar;

Mas hoje, soffrendo, como hei de sorrir-me,

Mas hoje, trahido, como hei de cantar?

Não peças ao bardo, que afflicto suspira,

Uns cantos alegres de meigo trovar;

Á lyra quebrada só restão gemidos,

Ao bardo trahido só resta chorar.


O CIUME.

Oh! quanta graça e formosura adorna

Teu rosto eloquente e vivo!

Se a sombra de um sorrir te afrouxa os labios,

Prestes outro sorrir dos meus rebenta;

Se vejo os olhos teus, que chorar tentão,

Debalde o pranto meu represso engulo;

Se do teu rosto as rosas se esvaecem,

Eu sinto de temor bater meu peito;

E quando os olhos teus nos meus se fitão,

Nem pezares, nem dores me dominão;

Mas sinto que o meu peito se enternece,

Sinto o meu coração bater mais livre,

Sinto o sorriso, que me ri nos labios,

Sinto o prazer, que me transluz no rosto,

Sinto delicias n’alma!

Quanta belleza tens!—quer dessas graças,

Que o amor inveja—n’um saráu brilhante

No meio de bellezas, que supplantas,

Prazer e galas de as mostrar ressumbres;

Quer estejas sósinha e pensativa,

Quer viva e folgazã prazer incites:

Ou n’um corsel em páramos extensos,

Correndo affoita e louca, e o pé mimoso

Da carreira no afan por sob as vestes

Transparecer deixando;

Ou balançada n’um ligeiro barco,

Que de um lago tranquillo as aguas frisa,

Soltando a voz as brisas namoradas,

Que de te ouvir suspirão;

Ou n’uma bronca penha descalvada

O mar e os céos contemples pensativa,

E a redeas soltas do pensar divagues

Nos campos do infinito;

Es sempre bella: já teus olhos brilhem

Luz que fascina, ou morbidos reflexos,

Teus labios entre-abertos sempre exhalão

Calor, que incendio ateia.

Oh! que bella tu es, quando assentada

No teu balcão, ao refulgir da lua,

Manso te apoias em coxins de seda,

E o bello azul dos céos triste encarando

Pensas em Deos,—talvez no teu futuro,

Talvez nos teus pezares,—que na fonte

De limpha pura, crystallina e fresca

Aquatica serpente usa occultar-se.

Mas como es bella assim! co’a mão sem força

Tirando sons perdidos, sons que encantão,

Sons qu’infundem prazer, sons d’harpa tristes!

Mas como es bella assim!—quando o teu peito

Entre a gaza subtil de leve ondeia!

Como a onda do mar pausada e fraca

Se abaixa, e empola, e mais e mais se achega

Á doce praia, onde os seus ais se quebrão;

Assim teu peito bate, e nos teus labios

Do extremo palpitar morre um suspiro.

Como d’harpa afinada a corda sôa,

Mal desfere seus sons outro instrumento;

Assim tambem minha alma se entristece,

Assim tambem meu peito arqueja e pula!

Eis porque amor me liga aos teus destinos,

Porque sou teu escravo,—bem que saiba

Que se a tua alma a belleza

Tem de um anjo a formosura,

Não tens de um anjo a candura,

Nem tens delle a singeleza!

Eis porque ardo por ti, porque padeço

Do inferno crus tormentos!

Porque dos zelos o fel mancha minha alma

De negros pensamentos!

Mas que importa este amor que me consome?

Eu quero sentir dôr;

Quero labios que entornem nos meus labios

Alento escaldador!

Quero fogo sentir contra o meu peito,

Quero um corpo cingir que eu sinta arder,

Quero beijos só teus, caricias tuas,

Que dão morrer!

Que importa ao edificio que scintilla,

De roaz fogo tomado,

Ser por um raio abrasado

Ou por ignobil favilla?

É sempre ardor, sempre fogo,

Sempre d’incendio o clarão,

Sempre o amor que estúa e ferve

Como um gigante vulcão.


A NUVEM DOIRADA.

(N’UM ALBUM.)

A nuvem doirada se expraia no occaso,

Roçando co’as franjas o throno de Deos;

A aguia arrojada seus vôos levanta,

Traçando caminhos nos campos dos céos!

Exhala perfumes a flôr do deserto,

Embora dos ventos o sopro fatal

Embace-lhe as côres,—e o mar orgulhoso

Suspira queixoso—no extenso areal.

E os bardos mimosos nos cantos singelos

Imitão as nuvens no incerto vagar:

Vão sós como as aguias,—exhalão perfumes,

Suspirão queixumes—das vagas do mar.

Por isso quem ama, quem sente no peito

Cantar-lhe das lyras a lyra melhor;

Os carmes lhes ouve, que os bardos só cantão

Saudades, perfumes, enlevos e amor!


SONHO DE VIRGEM.

A. D. A. C. G. A.

I.

Que sonha a donzella,

Tão vaga, tão linda,

Bemquista e bemvinda

Na terra e no céo?

Que scisma? que pensa?

Que faz? que medita,

Que o seio lhe agita

Tão bravo escarcéo?

Que faz a donzella,

Se lagrimas quentes

Das faces ardentes

Lhe queimão a tez?

Que sonha a donzella,

Se um riso fagueiro,

Donoso e ligeiro

Nos labios lhe vês?

Que faz a donzella,

Que scisma, ou medita?

Talvez lá cogita

Fruir algum bem;

Então porque chora?

Se curte agras dores

D’ingratos amores,

O riso a que vem?

Semelha a donzella,

Que ri-se e que chora,

Á limpida aurora,

Que orvalha dos céos;

Não luz mais brilhante,

Não chora mais prantos,

Não tem mais encantos,

Que um riso dos seus.

II.

Quem me dera saber quaes são teus sonhos,

Aventar teus angelicos desejos,

Saber de quantas ledas fantasias,

De quantos melindrosos pensamentos

Um suspiro se nutre, um ai se gera.

Virgem, virgem de amor, que vais boiando

Á flôr da vida, como rosea folha,

Que aragem branda sacudio nas aguas;

Que genio bom a magica vergasta

Em troco de um sorriso te concede?

Que poderosa fada te embalsama

A vida e os sonhos?—que celeste archanjo

Embala, agita as creações que idéas,

Como em raio do sol dourados átomos

Com que invisivel ser brincar parece!

Virgem, virgem de amor, quaes são teus sonhos?

III.

Talvez quando o sol nasce, lá divisas

Na liquida extensão do mar salgado

Correr com mansas brisas

Um ligeiro batel aparelhado.

As velas de setim brancas de neve

Rutilão d’entre as flamulas e cores,

E o barco airoso e leve

Nos remos voga de gentis amores.

Não formão rijos sons celeuma dura,

Nem a companha entre bulcões desmaia;

Aragem fresca e pura

Doces carmes de amor conduz á praia.

Sonhas talvez nas orlas do occidente,

De um regato sentada á branda margem,

Ver surgir de repente

De uma cidade a caprichosa imagem!

Soberbas construcções fantasiando,

Vês agulhas subtis cortando os céos,

E a luz do sol doirando

Rutilos tectos, altos corucheos.

Sonhas talvez palacios encantados,

Espaçosos jardins, fontes de prata,

Vergeis de sombra grata,

Onde a alma folga, isenta de cuidados.

Sonhas talvez, mas innocente Armida,

Passar a facil quadra dos amores,

Tendo em laço de flores

Preso de quem mais amas peito e vida!

IV.

Quem me dera saber quaes são teus sonhos?

Aventar teus mais intimos desejos,

E ser o genio bom que t’os cumprisse!

V.

Nem só prazeres medita,

Nem só pensa em bellas flores;

Muitas ha que almejão dores,

Como outras buscão amor:

É que as punge atra amargura,

Que o peito anceia e fatiga;

É sêde que só mitiga

Talvez afflicção maior.

Quasi gozão, quando vertem

Um pranto cançado e lento;

Quando um comprido tormento

Lhes derrete o coração:

Não é martyrio de sangue,

Como nas eras passadas;

Mas ha lagrimas choradas,

Que tambem martyrio são.

Ha dores que melhor ralão

Que provas d’agua ou de fogo,

Que ver apinhado o povo

N’um banquete canibal;

Que sentir no amphitheatro

As vivas carnes rasgadas

Pelas presas navalhadas

De um fero lobo cerval.

VI.

Quem me dera saber quaes são teus sonhos,

Aventar teus mais fundos pensamentos,

E ser o genio bom que t’os cumprisse,

Quando fossem de amor teus meigos sonhos!

VII.

Mas donde mana essa fonte

De inexplicavel ternura,

Que os golpes da desventura

Não podem nunca estancar;

Essa vida toda extremos,

Esse ardor de todo o instante,

Esse amor sempre constante,

Que nunca se vê mingoar?

Quizera, virgem donosa,

Saber a origem divina

Dessa fonte peregrina

De tanta luz e calor;

Então pudera em meus cantos,

Tratar dos teus meigos sonhos,

Formar uns quadros risonhos

De quanto sentes de amor.

Roubando as cores do Iris,

Das estrellas os fulgores,

O aroma que tem as flores,

O vago que tem o mar;

Talvez pudera os mysterios,

As douradas phantasias,

As singelas alegrias

D’um peito virgem cantar.


MEU ANJO, ESCUTA.

Le mal dont j’ai souffert s’est enfui comme un rêve,

Je n’en puis comparer le lointain souvenir

Qu’à ces brouillards légers que l’aurore soulève

Et qu’avec la rosée on voit s’évanouir.

MUSSET.

Meu anjo, escuta: quando junto á noite

Perpassa a brisa pelo rosto teu,

Como suspiro que um menino exhala;

Na voz da brisa quem murmura e falla

Brando queixume, que tão triste cala

No peito teu?

Sou eu, sou eu, sou eu!

Quando tu sentes luctuosa imagem

D’afflicto pranto com sombrio véo,

Rasgado o peito por acerbas dores;

Quem murcha as flores

Do brando sonho?—Quem te pinta amores

D’um puro céo?

Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguem te acorda do celeste arroubo,

Na amenidade do silencio teu,

Quando tua alma n’outros mundos erra,

Se alguem descerra

Ao lado teu

Fraco suspiro que no peito encerra;

Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguem se afflige de te ver chorosa,

Se alguem se alegra co’um sorriso teu,

Se alguem suspira de te ver formosa

O mar e a terra a ennamorar e o céo;

Se alguem definha

Por amor teu,

Sou eu, sou eu, sou eu!


OS BEIJOS.

Amo uns suspiros quebrados

Sobre uns labios nacarados

A gemer, a soluçar;

Como a onda bonançosa,

Que n’uma praia arenosa

Vem tristemente expirar!

Amo ouvir uma voz pura,

Uns accentos de ternura,

Que trazem vida e calor;

Que se derramão a medo,

Como temendo o segredo

Revelar do occulto amor!

Amo a lagrima que chora

Tema virgem que descora,

Presa d’interna afflicção;

Amo um riso, um gesto vivo,

Um olhar honesto, esquivo,

Que alvoroça o coração.

Porêm mais que o olhar honesto,

Mais que o riso e brando gesto,

Mais do que o pranto a correr,

Mais que a voz, quando amor jura,

Que um suspiro de ternura,

Que vem aos labios morrer;

Amo o leve som de um beijo,

Quando rompe o véo do pejo,

Mal sentido a murmurar:

É viva flôr de esperança,

Que nos promette bonança,

Como a flôr do nenuphar.

Mente o olhar, mesmo em donzella,

Mente a voz que amor assella,

Mente o riso, mente a dôr;

Mente o cançado desejo;

Só não mente o som de um beijo,

Primicias de um longo amor!

Beijos que são? Duas vidas,

São duas almas unidas,

Que o mesmo fogo consume:

São laço estreito de amores;

Porque são os labios flores

De que os beijos são perfume!

Beijos que são?—Ai do peito,

Sello breve, laço estreito

D’um cançado bem querer;

Saibo dos gozos divinos,

Que nos labios femininos

Quiz Deos bondoso verter.

Já por feliz me tivera,

Triste de mim! se eu pudera

Dizer o que os beijos são:

Sei que inspirão luz e calma,

Sei que dão remanso á alma,

Que trazem fogo a paixão.

Sei que são flôr de esperança;

Que nos promettem bonança,

Como a flôr do nenuphar:

Quem fruio um ledo beijo,

Ter não póde outro desejo,

Nada já póde gozar.

Sei que delles não se esquece

Triste velho, que esmorece

Á mingoa de coração:

Viva estrella em noite escura,

Viva braza em cinza pura,

Em neve algente um vulcão.

Sei que fruil-os uma hora

De ventura seductora,

É subir em vida aos céos,

É fugir da vida escassa,

Roubar ao tempo que passa

Um dos momentos de Deos.

Sei que são flôr de esperança,

Que nos promettem bonança,

Como a flôr do nenuphar!

Quem os fruio, o que espera?

Já gozou, já não tem era,

Já não tem mais que esperar.


DESESPERANÇA.

Antes d’espirar el dia,

Vi morir á mi esperanza.

ZARATE.

Que m’importa do mundo a inclemencia

E esta vida cruel, amargada?

Des’que os olhos abri á existencia

Um vislumbre de amor não achei!

Nem uma hora tranquilla e fadada,

Nem um gozo me foi lenitivo;

Mas no mundo maldicto, em que vivo,

Quantas ancias, meu Deos, não provei!

Já bastante lutei com meu fado!

Quando outr’ora corri descuidoso

Traz de um bem, não real, mas sonhado,

Transbordava de sonhos gentis:

Eu julgava que a um peito brioso

Ou que a uma alma, que facil s’inflamma

Por virtudes, por gloria, ou por fama,

Era facil aqui ser feliz.

Via o mundo ao travez dos meos prantos

A sorrir-se p’ra mim caroavel,

Reflectindo celestes encantos,

Que era visto d’um prysma ao travez:

Hoje trevas em manto palpavel

Me circundão,—nem já por acerto

Vejo triste nos prantos, que verto,

Luz do céo reflectida outra vez!

Que me resta na terra?—Estas flores,

Afagadas do sopro da brisa,

Disputando do sol os fulgores,

Balançadas no debil hastil!

Estas fontes de prata, que frisa

Brando vento,—estas nuvens brilhantes,

Estas selvas sem fim, susurrantes,

Estes céos do gigante Brasil;

Nada já me renova a esperança,

Que jaz morta, qual flôr resequida;

Só me resta a querida lembrança

Que o martyrio se acaba nos céos:

Foge pois, ô minha alma, da vida;

Foge, foge da vida mesquinha,

Leva timida esp’rança, caminha,

Té parar na presença de Deos!

Qu’estes gozos de ethereos prazeres,

Que esta fonte de luz que illumina,

Que estes vagos phantasmas de seres,

Que scismando só posso enxergar;

Que os amores de essencia divina,

Que eu concebo e procuro e não vejo,

Que este fundo e cançado desejo,

Deos somente t’os póde fartar.

Vai assim a medrosa donzella,

Pura e casta na ingenua belleza,

Buscar luz á remota capella,

Branca cera na pallida mão:

Tudo é sombra, silencio e tristeza!

Mas ao toque do fogo sagrado,

Arde em chammas o cirio apagado,

Já rutila brilhante clarão.


SE QUERES QUE EU SONHE.

Sur mon front, où peut-être s’achève

Un songe noir qui trop longtemps dure,

Que ton regard comme un astre se lève,

Soudain mon rêve

Rayonnera.

V. HUGO.

Tu queres que eu sonhe!—que ao menos dormido

Conheça alegrias, desfructe prazeres;

Que nunca provei;

Que ao menos nas azas de um sonho mentido

Perdido—arroubado, tambem diga: amei!

Tu queres que eu sonhe!—não sabes que a vida

Me corre penosa,—que amarga por vezes

A propria illusão!

No pallido riso d’uma alma affligida,

Qu’invída—ser leda, que dores não vão!

Se o pranto, que os olhos cançados inflamma,

Nos olhos de estranhos sympathico brilha;

Mais agro penar

Do triste o sorriso nos peitos derrama,

Se a chamma—revela, que almeja occultar.

Sonhando, percebo na mente agitada

Um mar sem limites, areas fundidas

Aos raios do sol;

E um marco não vejo perdido na estrada

Cançada,—não vejo longinquo farol!

E queres qu’eu sonhe!—Nas aguas revoltas

O nauta, ludibrio d’horrenda procella,

Se póde dormir,

As vagas cruzadas, em sustos involtas,

As soltas—escuta raivosas bramir.

Talvez porêm sonha que as ondas mendaces

O levão domadas á terra querida,

Qu’entrou em seus lares!...

E triste desperta, que os ventos fugaces

Nas faces—a espuma lhe atirão dos mares.

Se queres que eu sonhe,—que alguma alegria

Dormido conheça,—que frua prazeres

D’um placido amor;

Vem tu como estrella da noite sombria,

Que enfia—seus raios das selvas no horror,

Brilhar nos meus sonhos.—Então socegado,

Scismando prazeres, que n’alma s’entranhâo;

D’um riso dos teos

Coberto o meo rosto,—fugira o meu fado

Quebrado—aos encantos de um anjo dos céos.

Vem junto ao meu leito, quando eu for dormido,

Que eu sinta os perfumes que exhalas passando;

Não soffro—direi:

E ao menos nas azas de um sonho mentido,

Perdido—arroubado, talvez diga:—amei!—


O BAILE.

Sonemos gozando

Fortuna tan vana,

Y el sol de mañana

Que ven al salir

Que al son de la orquesta

Danzando en la fiesta,

No es carga funesta

La vida feliz.

ZORRILLA.

As salas vão-se enchendo, as luzes brilhão

Nos prysmas de crystal repercutidas,

Em quanto as flores

Dos bufetes nas jarras coloridas

Acres odores

Soltão; ao mar de luzes misturando

D’innocente perfume outro mar brando.

Com requebros e amor gentis donzellas,

Em riso e festa,

Medindo os passos

Aos sons da orchestra,

Pendem dos braços

Do namorado, lepido galan!

Esta risonha, aquella pensativa,

Outra menos esquiva,

Attenta ás vozes, que o prazer lhe entranhão,

E á fraze cortezã,

Que lhe entorna a lisonja nos ouvidos;

Vão descuidosas,

Nos labios risos,

Nas faces rosas,

Dando fé a protestos fementidos.

Triunfo ás bellas! o prazer começa:

Correm nas taças vinhos espumosos,

Gratos licores;

Tangida pela mão dos Trovadores

Desfaz-se a lyra em sons melodiosos,

Em cantico de amores

Soltão mais viva luz as brancas velas,

Melhor perfume as flores.

Activa-se o prazer; triunfo ás bellas!

Aqui, alli, alem, mil rostos meigos,

Da walsa ao gyro rapido se mostrão,

De gemmas ennastrados os cabellos;

E o peito que anhelante

Palpita entumecido

Nas ondas do prazer ebrifestante,

D’um leve colorido

Banha o semblante,

Que mais e mais co’a noite se enrubece:

Triunfo ás bellas,—o prazer recresce!

Perdido emtanto neste mar de luzes,

Mar de amor, de perfumes, que me inunda,

Contemplo indifferente

Quanto em redor diviso;

E entre tanto ruido e tanta gente,

Nem um sorriso

Verdadeiro, innocente!

Nem um sincero raio de alegria,

Nem um peito contente

Neste mar de perfumes e harmonia!

Então digo entre mim:—Talvez aquella,

Que tem melhores cores,

Que mais leda se mostra,

Que mais feliz no gesto se revela,

Sente mais finas dores;

O intimo desgosto,

A febre que a devora

Lhe dá calor ao rosto,

E no silencio chora;

Presa de uma afflicção devoradora.

Uma tristeza funda, inexprimivel

O coração me anceia;

E triste e solitario n’um recanto,

Nunca mais solitario, nem mais triste

Do que entre a multidão que me rodeia,

Não encontro maior, mais doce encanto

Que deixar-me arrastar por uma ideia,

Que me avassalla a mente.

Que m’importa esta gente,

Estes rostos que vejo e não conheço,

E o riso a que mil outros dão apreço?

Esta fingida alegria,

Esta ventura que mente,

Que serão dellas ao romper do dia?

Destas virgens louçãs as mais mimosas

Mortas serão talvez antes que murchem

Do branco rosto as encarnadas rosas!

Grinaldas festivaes, que a morte espalha

No lugubre terreiro;

O pó as enxovalha,

Murchas aos pés do esquallido coveiro!


DESALENTO.

Without a hope in life!

CRABBE.

Nascer, lutar, soffrer!—eis toda a vida:

D’esperança e de amor um raio breve

Se mistura e confunde

Ás cruas dores d’um viver cançado,

Como raio fugaz que luz nas trevas

Para as tornar mais feias!

Da verde infancia os sonhos melindrosos,

Nobres aspirações da juventude,

Amor de gloria stulto,

Com que mais alto a mente se extasia;

São vãos phantasmas, que produz a febre,

São illusões que mentem!

São as folhas virentes arrancadas

D’um arbusto viçoso, antes que brotem

Da primavera as flores;

A pennugem que nasce antes das azas,

Um esteril botão, que não dá flores,

Ou flôr que não dá fructos!

Foge, mancebo, lá te espreita o mundo!

Como areas d’um paramo deserto,

Resequido, abrasado;

Provoca o teo soffrer, teo pranto espreita,

Sedento almeja as lagrimas, qu’entornas

Nos areaes da vida.

S’inda tens coração, hão de esmagar-te;

As setas da calumnia irão cravar-t’o

Na parte mais sensivel:

Se tens alma, se electrico palpitas

De patria e de virtude aos nomes sanctos,

Foge outra vez ao mundo.

Não queiras, n’um accesso doloroso,

Ás mãos ambas ferindo o peito credulo

Exclamar delirante:

«Minha patria onde está?—Onde estes homens,

«Que a par de meos irmãos amar devera,

«Da mesma patria filhos?

«E a virtude tambem, onde hei de achal-a?

«Se é mais que nome vão, onde é que existe?

«Onde é que se pratica?

«Se os modernos Catões a graça esmolão

«Do rei—ou, cortesãos da populaça,

«Rojão por terra ignobeis!

«Se a mão do poderoso, a mão dourada

«Do crime impune—esbofeteia as faces

«Do homem vil, que a beija!

«Oh! meos irmãos não são, não são os filhos

«Desta patria, que eu amo;—torce o rosto

«De os vêr a humanidade.»

Despe-se a vida então dos seos encantos,

E o homem na lembrança revivendo

O percorrido estadio,

Tem por marcos de estrada o monumento,

Com que os mais fortes laços se desatão,

—A pyramide e a campa!

Do sonho juvenil murchas as cores,

Sem illusões, sem fé—nublado, escuro

O presente e o porvir,

No crepe d’abortadas esperanças

S’involve—e os olhos tesos no sepulchro,

A tarda morte aguarda!

Mas eu, qual viajor, vago perdido

Pela face da terra!—amigo lume

Não me convida ao longe;

E ao sentar-me na mesa dos estranhos,

Digo:—longe serei antes do occaso;—

E a divagar prosigo.

Mal aceito conviva me despeço!...

As calumnias que soffro, a dôr que passo,

Não me ferem profundas;

Bem como a rola, que das matas desce,

E nas azas recebe o pó da estrada,

Que voando sacode.

Minha hora derradeira sôe em breve,

A só esperança que aos mortaes não falha!

Morrerei tranquillo;

Bem como a ave, ao por do sol, deitando

Debaixo d’aza a timida cabeça,

Da noite o somno aguarda.


A QUEDA DE SATANAZ.

(TRADUCÇÃO.)

Eis que tomba da abobada celeste

O archanjo audaz, o seraphim manchado,

Desenrolando o corpo volumoso,

Despenhado precipite,—qual mundo

Dos eixos arrancado,—como um vivo

Dos céos fragmento enorme, eil-o cahindo!

Cahia lá d’aquelles céos brilhantes,

Donde inda os seos iguaes lançavão raios;

Cahia!—e a cerviz no espaço ardendo

As espheras dos sóes de côr de sangue,

Passando, avermelhava.

Eil-o, o maldicto, o archanjo da blasfemia,

Rival do creador!—té o imo peito

Pelas frechas da anáthema varado,

Como n’um turbilhão, desce rodando;

Ondas d’um mar de fogo o vem cercando,

E elle occulta a cabeça,

Como que procurasse

Nas entranhas da noite

Esconder seu desdoiro.

Clamavão—longe—os mundos com voz forte:

«Que insensato! onde vae? Nesse arrojado,

Frenetico voar, que vento o impelle,

Que de astro em astro vae, d’um céo em outro?

Vede como é sombrio!

Oh! quão outro que está d’aquelle archanjo

De tão bello semblante,

Lucifer radiante,

Cujo sopro era como o romper d’alva,

Que as portas da manhã nos céos abria,

Trazendo comsigo a aurora,

Que o seo alento accendia!

Acaso o reconhecestes?

Era hontem brilhante, novo e bello;

E hoje é feio e nu e descalvado,

Nas azas da tormenta balouçado,

Nas azas dos bulcões;

E os seos olhos fulminados

Já sem pupillas fumegão,

Quaes crateras de vulcões!»

O archanjo os escutava, ameaçando-os

Co’o olhar fulminante;

Que cheio d’impio orgulho já sentia

Uma c’rôa de rei cingir-lhe a fronte.

Todos os astros que no espaço gyrão

Seos olhos d’irritados fascinavão;

E os astros todos de terror tremião,

Saudando a coruscante realeza.

E já os céos sem fim, estrellas, mundos

Traz delle se perderão;

E nas profundas solidões do espaço

O archanjo abandonado apenas via

A noite, e sempre a noite!

Tem medo, olha, procura....—Um astro! um astro!

Transviado nos céos!—O archanjo o avista!

Estende a mão convulsa arrepellando-o:

Segura, arrasta-o, e d’um só pulo hardido

Tral-o potente ao limiar do inferno,

Alentando açodado.

O errante cometa duas vezes

Ao tetro boqueirão levou comsigo,

E duas vezes, como um negro abutre,

Lutando corpo a corpo, de cançaço

Sentio-se esmorecer.

Duas vezes tambem o astro victima,

Supplicando medroso, as igneas azas

Bateu, sublime grito aos céos mandando.

O nome do Senhor por duas vezes

O rebelde venceo,—elle sosinho

Cahio no fundo abysmo.


CANÇÃO DE BUG-JARGAL.

(TRADUCÇÃO.)

Maria, porque me foges,

Porque me foges, donzella?

Minha voz! o que tem ella,

Que te faz estremecer;

Tão temivel sou acaso?

Sei amar, cantar, soffrer.

E quando ao travez dos troncos

Descubro d’altos coqueiros,

Junto as margens dos ribeiros,

A sombra tua a vagar;

Julgo vêr passar um anjo,

Que os meos olhos faz cegar.

E dos labios teos se escuto

Deslisar-se a voz, Maria,

Cheio de estranha harmonia

Pulsa o peito meo queixoso,

Que mistura aos teos accentos,

Tenue suspiro afanoso.

Tua voz! eu quero ouvir-t’a

Mais do que as aves cantando,

Que vem da terra voando,

Em que eu a vida provei;

Da terra onde eu era livre,

Da terra onde eu era rei!

Liberdade e realeza,

Hei de perder da lembrança;

Familia, dever, vingança...

Té a vingança m’esquece,

Fructo amargo e deleitoso,

Que tão tarde amadurece!

Es, Maria, qual palmeira,

Altiva, esbelta, engraçada,

No tronco seo balançada

Por leve brisa fagueira;

No teo amante a rever-te,

Como na fonte a palmeira.

Mas não sabes?—Do deserto

A tempestade valente

Corre as vezes de repente

Por acabar apressada

Com seo halito de fogo

A palmeira, a fonte amada!

E a fonte já mais não corre!

Sente a verdura sumir-se

A palmeira, e contrahir-se

A palma sua ao redor,

Que de cabellos dava ares,

De c’rôa tendo o esplendor.

D’Hespaniola, ó branca filha,

Teme por teo coração;

Teme a força do vulcão

Que vai breve rebentar!

Que, depois, amplo deserto

Só poderás contemplar!

Talvez que então te arrependas

De me haveres desdenhado,

Porque houveras encontrado

Salvação no meo amor;

Como o kathá leva á fonte

O sedento viajor.

Porque assim tu me desdenhas,

Não, Maria, não o sei;

Que d’entre as frontes humanas,

Entre as frontes soberanas,

Levanto a fronte; sou rei.

Sou preto, sim, tu es branca;

Mas qu’importa? Junto ao dia

A noite o poente cria

E cria a aurora tambem,

Que mais luzentes bellezas,

Mais doces do que ambos tem.


AGAR NO DESERTO.

Et abiit, seditque e regione procul quantum potest arcus jacere: dixit enim: non videbo morientem puerum: et sedens contra, levavit vocem suam et flevit.

Genesis, Cap. 21, 16.

Pallido o rosto e queimado

Pelo sol do Egypto ardente,

Sahia a escrava innocente

Co’ o filho innocente ao lado

Da tenda patriarchal.

A pobresinha chorava!

Alguns pães e um frasco d’agoa

E um peito cheio de magoa!...

Vê, contempla, ó triste escrava,

Teo sepulchro no areal.

Abrahão se compadece;

Mas debalde o sollicita

Piedade sancta,—de afflicta

Sem queixar-se, lhe obedece

A triste escrava do amor.

Quizera talvez detel-a...

Porêm que?—Sarai lh’implora,

Deos lhe ordena:—vae-te embora,

Vae-te escrava; e a tua estrella

Te depare outro senhor.

O sol brilhante nascia

Sobre as tendas alvejantes;

E n’outros pontos distantes

Combros d’areia feria,

Outr’ora leito d’um mar;

Esse caminho procura,

Que nas ondas do deserto

Talvez ache por acerto

Patria, abrigo, amor, ventura

A prole infausta d’Agar.

Vae, caminha; mas ao passo

Que no deserto s’entranha,

Arde o sol com furia estranha,

Racha a areia o pé descalço,

Cresta o vento os labios seos;

E ao lado o filho innocente

Soltava tristes gemidos,

Co’os olhos humedecidos

Fitando a mãe ternamente,

Que os olhos tinha nos céos!

Procura terras do Egypto;

Porêm debalde as procura:

Vae a triste, sem ventura,

Lento o passo, o rosto afflicto,

Pela inculta Bersabé.

Seo Ismael desfallece;

No deserto immenso, adusto,

Não encherga um só arbusto:

Jehovah delles s’esquece!

Cresce a dôr, e mingua a fé.

Pede sombra o triste infante:

Não ha sombra,—agoa supplíca;

Exhaurido o vaso fica,

Pede mais d’instante a instante....

Pobre escrava, oh! quanto dó!

Podesses rasgar as veias,

Tomar agoas innocentes

Tuas lagrimas ardentes;

Mas só vês d’um lado areias,

D’outro lado areias só.

Pois não ha quem o proteja,

Diz a escrava lá comsigo,

Vendo o fado seu imigo,

Meu filho morrer não veja,

Bem qu’eu tenha de morrer.

A um tiro d’arco distante

Se arrasta com lento passo,

Tomba o corpo infermo e lasso,

E amargo pranto abundante

Deixa dos olhos correr.

Deos porêm ouvira a prece

Da escrava, da mãe coitada,

E da celeste morada

Librado um archanjo desce

Nas azas da compaixão.

Expira em torno ar de vida,

Um aroma deleitoso,

E n’um sonho aventuroso

Agar seus males olvida,

Olvida a sua afflicção.

Dorme e sonha, ó triste escrava,

Deos senhor sobre ti vela!

Dorme e sonha:—a tua estrella

Nasce como um romper d’alva

Sobre os netos d’Ismael.

Esquece a sorte mesquinha,

Que te vexa,—esquece tudo;

Deos senhor é teu escudo;

Já não es serva, es rainha

D’outro reino d’Israel.


Como quando elevados nas alturas

Descobrimos incognitas paisagens,

Densas florestas, aridas planuras

E de rios caudaes virentes margens;

Assim da vida o sonho te arrebata,

Rasgando o veo do tempo e do infinito,

E uma scena vistosa te retrata,

Que vai da Arabia ao portentoso Egypto.

Vê como o filho teu, feroz guerreiro,

Nos prainos do deserto eleva as tendas,

E, posto a seus irmãos sempre fronteiro,

Provoca e trama asperrimas contendas!

São doze os filhos—doze reis potentes—

Com elles Ismael tudo avassalla;

Sua espada é a lei das outras gentes,

Seus decretos os campos da batalha.

A sorte seus designios favoneia,

Segue seus passos a benção divina,

Povôa-se Faran, surge d’areia

De Meca o templo, os paços de Medina.

Crescem, dominão: largo reino ingente

Mesquinha habitação presta a seus netos,

Convertida em nação a grei potente,

Que opprime a cerviz mobil dos desertos.

Mas entre os filhos seus de nomeada,

Sup’rior dos heróes á grande altura,

Na sinistra o alkorão, na dextra a espada,

A effigie torva de Mahomet fulgura.

Curva-se a Arabia emtanto, a Palestina

Á sua lei, da Persia o reino antigo;

Escutão Asia e Africa a doutrina

Do embusteiro que em Meca achou jazigo:

Mensageiro divino se declara

Aquelle que illudido o mundo adora;

Agar é mãe,—pela vergontea cara,

Entre orgulhosa e triste, a Deos implora.

Peccou; porêm da gloria que o circunda

A roxa luz, que o meteóro imita,

De vivo resplendor a fronte inunda,

Commove o peito a misera proscripta.

Curvado ao jugo seu todo o oriente,

Inda cubiça a Europa o Ismaelita;

E em frente á cruz, o pallido crescente

Apparece nas torres da mesquita.

Oh! quanto humano sangue derramado!

Que de prantos e lagrimas vertidas!

Entre irmãos o combate é porfiado,

A raiva intensa, as lutas mal feridas.

De avistar esse quadro tão medonho,

Embora no porvir todo escondido,

A escrava tenta orar; porêm no sonho

Resume a prece em languido gemido.

Geme de vêr em furia carniceira

A esposa de Mahomet desrespeitada,

E do seu genro a dynastia inteira

Por duro asar de guerra contrastada.

Succedem-se os Omiades valentes;

Do seu ultimo rei, oh dôr! se coalha

O sangue na mesquita: entre essas gentes

Vinga o punhal a sorte da batalha.

O vencedor então, não poucas vezes,

Chegando á bocca a taça corrompida,

Exp’rimenta os tristissimos revezes,

De quem sobre os tropheos exhala a vida!

Tudo é silencio e luto:—um só evita

O negro olvido,—ao templo da memoria

Vôa Al-Reschid,—unindo á gloria avita

O louro da sciencia e o da victoria.

Com seu vizir á noite, pelas ruas

Escuta dos estranhos mercadores

A gloria d’outros reis, menor que as suas,

E espreita do seu povo occultas dores!

Se ouviu a narração d’uma desgraça,

Se o pobre vê curvado a prepotencia,

Se o convidão a entrar, quando elle passa,

No abrigo do infortunio e da innocencia,

Entrou e viu! mas o fulgor crastino

Ri-se mais brando aos peitos soffredores;

Passa o rei, como orvalho matutino,

E, por onde passou, rescendem flores!

Mudado o sonho, a fugitiva escrava

Estranhos povos nota, estranhas terras,

Que o Darro ensopa e o Guadalete lava,

Nadando em sangue de cruentas guerras.


Quem foi que as altas portas

Abriu d’Hespanha aos mouros;

Que poz os verdes louros,

Dos reis godos conquista,

Ás plantas do infiel?

De tantos males causa

Tu foste, ó rei Rodrigo,

Tornando infesto, imigo,

O nobre conde, outr’ora

Vassallo teo fiel.

Debalde o affecto encobres

Do refalsado peito,

Se vais furtivo ao leito

Da virgem, que se mostra

Rebelde ao teo amor:

Qu’es godo e rei t’esqueces!

E o nobre resentido

Da offensa que ha soffrido,

No teu exemplo aprende

A ser tão bem traidor.

Em quanto pois devassas,

Com torpes pensamentos,

Os regios aposentos

Da nobre moça,—a c’rôa

Te cae da fronte ao chão;

E o pae, que a affronta punge,

Turbado, ardendo em ira,

Aos pés do mouro a atira.

O rei, que planta crimes,

Recolha vil traição.

Sus, ó rei, ás armas!

Empunha a larga espada,

E a fronte sombreada

Co’o negro elmo—deixa

Tingir-se em nobre pó:

D’encontro as alas densas

Do barbaro inimigo

Debalde, ó rei Rodrigo,

Te arrojas!—vence á força,

Foges vencido e só!

Vai só; mas occultando

No manto d’um soldado

O rosto demudado,

Emquanto passa o campo,

Escasso leito aos seos:

Ai! triste rei cahido!

Na solitaria ermida,

Que abriga a inutil vida,

No pó collada a fronte,

Lembra-te emfim de Deos.

Lembrem-te os muitos erros

E o crime grave, emquanto

As mães godas em pranto

O nome teu maldizem,

E ao céo clamando estão.

Emquanto pela Iberia

O arabe audaz e forte,

Espalha o susto, a morte,

Por onde quer que solta

Ao vento o seu pendão.

Passão avante, calcão

Dos Pyrenêos as serras,

Levando cruas guerras

Ao dilatado imperio

Do intrepido gaulez.

Debalde o grande Carlos

Oppõe-se-lhes,—que a historia

Nos traz inda á memoria

Dos tristes Roncesvalles

O misero revez.

Porêm do largo imperio

De Cordova e Granada

A c’rôa cahe pesada

Na fronte amollecida

Do moço Boabdil.

O fraco teme os echos

Ouvir da accesa guerra,

E perde a nobre terra

Ganhada em mil batalhas

Com pranto feminil.

Depois, inda outros quadros

Enxerga no futuro;

Mas é um ponto escuro,

São formas vagas, postas

Em duvidosa luz.

Já naves são, já hostes,

Tropel de varia gente,

Que parte do occidente,

Em cujos peitos brilha

De Christo a roxa cruz.

Agar emfim acorda!

Sustendo o filho caro,

Pelo deserto avaro

S’entranha novamente,

Mais solto o coração.

Parece que já sente

No rosto ao bello infante

A gloria radiante,

Que espera os descendentes

Da forte geração.

E como Deos lhe ha dito,

Seus filhos são guerreiros,

Que a seus irmãos fronteiros

Cruentos prelios movem:

Temidos são; porêm

As filhas desses bravos,

Da vida sequestradas,

Escravas são coitadas,

Que da materna origem

Recordão-se no Harem.


Vai, caminha, oh triste escrava,

Deos Senhor sobre ti vela;

Vai, caminha: a tua estrella

Nasce como um romper d’alva

Sobre os netos d’Ismael.

Esquece a sorte mesquinha

Que te vexa, esquece tudo,

Deos Senhor é teu escudo:

—Já não es serva, es rainha

D’outro reino d’Israel.


HYMNO.


O MEU SEPULCHRO.

Elève-toi, mon ame, au-dessus de toi-même,

Voici l’épreuve de ta foi!

Que l’impie, assistant à ton heure suprême,

Ne dise pas: Voyez, il tremble comme moi!

LAMARTINE—Harmonies.

Quando, os olhos cerrando á luz da vida,

O extremo adeus soltar ás esperanças,

Que na terra nos guião, nos confortão

E espação do porvir a senda estreita;

Quando, isento de miseros cuidados,

Disser adeus ás illusões douradas,

Mas com ellas tambem ás dores cruas

Da existencia—aos espinhos ponteagudos,

Com que a verdade o coração nos roça;

Quando tocada não sentir minha alma

Da luz, dos sons, das cores, das magias,

Que a natureza prodiga derrama

No regaço da terra—mais ditoso

Serei acaso então?—Quando o meu corpo

Á terra, mãe commum, pedindo abrigo

Dos sepulchros no valle em paz descance;

Hei de ser mais feliz porque m’o cobre

Pomposo mausoleu, em vez da pedra

Sem nome, em vez do tumulo de cespedes,

Que s’ergue junto á estrada, e ao viandante

Ao que alli passa, uma oração supplíca?

Oh! não!—ao encalmado é grata a sombra;

Grato descanço aos membros fatigados

Presta igualmente a relva das campinas

E os torrões pelo sol enrigicidos.

Como o trabalhador que a sésta aguarda,

O meu termo fatal sem medo espero!

Eu então pedirei silencio á morte,

E fresca sombra á sepultura humilde,

Que me receba,—e á cuja superficie

Morrão sem echo da existencia as vagas.

Humilde seja embora! Que m’importa

Que a mão d’habil artista me não talhe

Mentiroso epitaphio em preto marmor!

O moimento faustoso, que se erige,

Arranco da vaidade, sobre a campa

De um corpo transitorio, acaso empece

Aos que alli pascem, vermes esfaimados

De roerem-lhe as visceras?!—Solemnes

São da campa os mysterios; mas terrivel

É da morte a rasoura, que nivela

O rico ao pobre, e os berços differentes

Torna um féretro, um leito de Procusto,

Capaz de quanta dôr os homens soffrem:

Tão depressa o cadaver se corrompe

Nas amplas dobras do velludo involto,

Como embrulhado na mortalha exigua,

Que a religiosa caridade amiga,

O pudor dos sepulchros venerando,

Lança do pobre aos restos desprezados.

Os felizes do mundo, acobardados

Ante a imagem da morte, que os assalta,

Temem deixar a terra, onde tranquilla,

Quasi livre de dôr, entre delicias,

Como um rio caudal lhes corre a vida.

Horrorisão-se timidos,—supplicão

Á cruel, que os não leve, que os não roube

Á senda matisada, onde os seus passos

Deslisão-se macios—ás caricias

D’um seio, que lhes presta brando encosto.

O fio da esperança os liga forte

A um corpo que declina, como os lios

De enrediça tenaz prendida á copa

D’uma arvore comida: amedrontados,

Como das fauces negras d’um abysmo,

Do pavoroso tumulo recuão.

Mas eu, que vago solto, como a folha,

Como o fumo subtil; que não limito

Nos terminos da terra os meus desejos,

Folgo de vêr os renques dos sepulchros

No chão da morte largamente esparsos!

Quasi me alegra vel-os. Tal no exilio

Contempla á beira-mar o degradado

Devolverem-se as vagas,—e saudoso

Da patria sua tão distante—as conta;

Uma por uma as interroga, e pensa

Qual d’aquellas será que o leve e atire,

Naufrago embora e semimorto, ás praias,

Porque chorão seus olhos.—No desterro

Me contemplo tambem,—como elle, choro

A patria, o íman dos meus sonhos gratos.

Abra-se funda a cova ante os meus passos:

Um só delles da morte me separe!...

E esse passo andarei, como quem pisa,

Depois de viajar remotos climas,

O patrio solo, e as auras perfumadas

Do bosque, amigo seu na leda infancia,

Bebe de novo, e de as gozar se applaude.

Hora do passamento! es da existencia

O momento mais sancto, o mais solemne:

Assim o rubro sol, quando no occaso

Em turbilhões de purpura se afunda,

Nos morredouros, despontados raios

Saudoso, extremo adeos á terra envia.

Tal o esposo se aparta suspiroso

E nas azas da brisa manda um beijo

Á esposa, que de o ver partir se enluta,

Rola que vaga na amplidão das selvas.

Cheio de melancholica incerteza,

Dir-te-hei: bem vinda,—ó morte! quando os olhos

Voltar atraz na percorrida estrada;

E chorarei talvez, como quem deixa

O carcere medonho, onde engastada

Nas escamas da dôr gemeu sua alma

Largos annos de antigo soffrimento;

O carcer qu’inda as lagrimas lhe verte

Das humidas paredes, cujos echos

Inda parecem, na soidão da noite,

Repetir seus tristissimos accentos.

Oh! quão formosa a vida se revela

A quem já bate as portas do infinito,

Encostado aos umbraes da eternidade,

A vez extrema contemplando o mundo!

A folha já myrrada, a pedra solta,

A flôr agreste, a fonte que murmura

E as cantoras do céo, as ledas aves

De variado esmalte, e as suspirosas

Brisas da noite e as do romper da aurora,

A estrella, o sol, o mar, o céo, a terra,

A planta, os animaes, tudo então vive,

Tudo comnosco sympathisa,—tudo,

Como orchestra afinada por nossa alma,

Acorde aos nossos sentimentos vibra,

Revelando ao que morre os fins da vida.

Dalli melhor compr’hende-se a existencia,

Mais vasta perspectiva se desdobra

Ante os olhos, que a extrema vez lampejão:

E as scenas que a illusão junca de flores,

Que o desejo nos mostra, que nos pinta

Cubiçoso, irisante,—que a esperança

Fugaz de varios modos nos matisa;

Gloria, ambição, prazer, fallaz ventura,

Tudo se olvida e apaga—semelhante

Á fugitiva estrella ou clarão breve

D’um relampago estivo, que um momento

Se mostra e fulge, logo immerso em trevas.

Que importa que eu não tenha uma só c’rôa,

Um myrrado laurel, uma só folha,

Que ás novas gerações diga o meu nome

E sollicite as attenções futuras?

Sou como o passarinho, quando passa

Á flôr de um lago e a sombra vacillante

No liquido crystal debalde estampa.

Ou semelhante ao viajor que bate

Da vida a estrada pulvurenta, e nota

Como os seus rastos mal impressos cobre

O pó que de seus passos se levanta.

Ah! que dos louros me não dóe a ausencia

Mas de lagrimas, sim, que me orvalhassem

A sepultura humilde,—á cujas gotas

Meus ossos de prazer estremecidos

De as sentir se alegrassem...—mas em troco

Dessa pia oblação, que tantas vezes

Mente ao finado, que as espera eterno,

As lagrimas terei da noite fria,

O fresco humor da chuva, que me eduquem

A agreste flôr, que a natureza obriga

A despontar na solitaria campa.

Ninguem virá com titubantes passos

E os olhos lacrimosos, procurando

O meu jazigo; e em falta de epitaphio,

«Elle aqui jaz!» o coração lhe diga,

E alli se curve então, fundos suspiros

Dando aos echos do funebre recinto,

Involtos na oração que alegra os mortos.

Certo, ninguem virá; porêm tão pouco

Ouvirei maldições, onde escondido,

Já pasto aos vermes, jazerá meu corpo.

Se deixo sobre a terra alguma offensa,

Se alguma vida exacerbei, se acaso

Alguma simples flôr trilhei passando;

Essas, depois d’eu morto, convertidos

Os odios em piedade—«Em paz descança»

Dirão ante o meu tumulo, e voltando

A um lado o rosto,—deixarão dos olhos

Compassiva uma lagrima fugir-lhes!

Tu, Senhor, tu, meu Deos, tu me recebe

Na tua sancta gloria: alarga as azas

Do teu sancto perdão, que ao teu conspecto

Humilhado me sinto, como a grama,

Que o pé do viajor sem custo abate.

A ti volvo, ó Senhor,—bem como o filho,

Que ao sopro paixões soltando as velas

Da juventude ardente, foge ao tecto

E ao lar paterno, onde por fim se acolhe,

Consumido o thesouro da innocencia,

Com rubor dos andrajos da pobreza,

Que o vexa,—para ver do pae o rosto,

Para escutar-lhe a voz, embora tenha

Sobre a cabeça a maldição pendente.


SAUDADES.

A MINHA IRMÃ.

J. A. de M.

I.

Eras criança ainda; mas teu rosto

De ver-me ao lado teu se espanejava

Á luz fugaz de um infantil sorriso!

Eras criança ainda; mas teus olhos

De uma brandura angelica, indizivel,

De sympathicas lagrimas turbavão-se

Ao ver-me o aspecto merencorio e triste;

E amigo refrigerio me sopravão,

Um balsamo divino sobre as chagas

Do coração, que a dôr me espedaçava!

A luz de uma razão que desabrocha,

As leves graças, que a innocencia adornão,

Os infantis requebros, as meiguices

De uma alma ingenua e pura—em ti brilhavão.

Eu, gasto pela dôr antes de tempo,

Conhecendo por ti o que era a infancia,

Remoçava de ver teu rosto bello.

Pouco era vel-o!—em ti me transformava;

Bebendo a tua vida em longos tragos,

Todo o teu ser em mim se transfundia:

Meu era o teu viver, sem que o soubesses,

Tua innocencia, tuas graças minhas:

Não, não era ditoso em taes momentos,

Mas de que era infeliz me deslembrava!


Tinhas sobre mim poder immenso,

Indizivel condão, e o não sabias!

Assim da tarde a brisa corre a terra,

Embalsamando o ar e o céo de aromas:

Enreda-se entre flores suspirosa,

Geme entre as flores que o luar prateia,

E não sabe, e não vê, quantos queixumes

Apaga—quantas magoas alivia!

Assim, durante a noite, o passarinho

Em moita de jasmins derrama occulto

Merencorias canções nos mansos ares;

E não sabe, o feliz, de quantos olhos

Tristes, mas doces lagrimas, arranca!

II.

Perderão-te os meus olhos um momento!

E na volta o meu rosto transtornado,

As vestes luctuosas, que eu trajava,

O mudo, amargo pranto que eu vertia,

Annuncio triste foi de uma desdita,

Qual jámais sentirás: teus tenros annos

Pouparão-te essa dôr, que não tem nome.

De quando sobre as bordas de um sepulchro

Anceia um filho, e nas feições queridas

D’um pai, d’um conselheiro, d’um amigo

O sello eterno vae gravando a morte!

Escutei suas ultimas palavras,

Repassado de dôr!—junto ao seu leito,

De joelhos, em lagrimas banhado,

Recebi os seus ultimos suspiros.

E a luz funerea e triste que lançarão

Seus olhos turvos ao partir da vida

De pallido clarão cobrio meu rosto,

No meu amargo pranto reflectindo

O cançado porvir que me aguardava!


Tu nada viste, não; mas só de ver-me,

Flôr que sorrias ao nascer da aurora

No denso musgo dos teus verdes annos,

A procella imminente presentiste,

Curvaste o leve hastil, e sobre a terra

Da noite o puro aljofar derramaste.

III.

O encanto se quebrára!—duros fados

Inda outra vez de ti me separavão.

Assim dois ramos verdes juntos crescem

N’um mesmo tronco; mas se o raio os toca,

Lascado o mais robusto cahe sem graça

De rojo sobre o chão, em quanto o outro

Da primavera as galas pavoneia!

Já não ha quem de novo unil-os possa,

Quem os force a vingar e a florir juntos!


Parti, dizendo adeus á minha infancia,

Aos sitios que eu amei, aos rostos caros,

Que eu já no berço conheci,—áquelles

De quem máo grado, a ausencia, o tempo, a morte

E a incerteza cruel do meu destino,

Não me posso lembrar sem ter saudades,

Sem que aos meus olhos lagrimas despontem.

Parti! sulquei as vagas do oceano;

Nas horas melancolicas da tarde,

Volvendo atraz o coração e o rosto,

Onde o sol, onde a esp’rança me ficava,

Misturei meus tristissimos gemidos

Aos sibilos dos ventos nas enxarcias!


Revolvido e cavado o negro abysmo,

Rugia indomito a meus pés: sorvia

No fragor da procella os meus soluços.

Vago triste e sosinho sobre os mares,

—Dizia eu entre mim,—na companhia

De crestados, de rispidos marujos,

Mais duros que o seu concavo madeiro!

Ave educada nas floridas selvas,

Vim da praia beijar a fina areia.

Subitaneo tufão arrebatou-me,

Perdi a verde relva, o brando ninho,

Nem jamais casarei doces gorgeios

Ao saudoso rugir dos meus palmares;

Porêm a branca angelica mimosa,

Com seu candor enamorando as aguas,

Florece ás margens do meu patrio rio.

IV.

Largo espaço de terras estrangeiras

E de climas inhospitos e duros

Interpoz-se entre nós!—Ao ver nublado

Um céo d’inverno e as arvores sem folhas,

De neve as altas serras branqueadas,

E entre esta natureza fria e morta

A espaços derramadas pelos valles

Triste oliveira, ou funebre cypreste,

O coração se me apertou no peito.

Arrasados de lagrimas os olhos,

Segui no pensamento as andorinhas,

Nos invejados vôos!—procuravão,

Como eu tambem nos sonhos que mentião,

A terra que um sol calido vigora,

E em frouxa languidez estende os nervos.

Patria da luz, das flores!—nunca eu veja

O sol, que adoro tanto, ir afundar-se

Nestes da Europa revoltosos mares;

Nem tibia lua, involta em nuvens densas,

Luzindo mortuaria sobre os campos

De frios sues queimados.—Ai! dizia,

Ai d’aquelle que um fado aventureiro,

Qual destroço de misero naufragio,

A longinqua e remota plaga arroja!

Ai d’aquelle que em terras estrangeiras

Corta nas azas do desejo o espaço,

Em quanto a realidade o vexa entorno

E oppresso o coração de dôr estala!

Onde a pedra, onde o seio em que descance?

Que arbusto ha de prestar-lhe grata sombra

E olentes flores derramar co’a brisa

Na fronte encandecida? Peregrino,

Em toda a parte forasteiro o chamão!

Insensivel a dôr, na sua marcha,

Não, não attende ao termo da jornada;

Mas volta atraz o rosto,—e entre as sombras

Confusas do horisonte—encherga apenas

O debil fio da esperança teso,

E da ingrata distancia adelgaçado!


E todavia amei! pude um momento

Vêr perto a doce imagem debruçada

Nas aguas do Mondego,—ouvir-lhe um terno

Suspiro do imo peito, mais ameno,

Mais saudoso que as auras encantadas,

Que entre os seus salgueiraes morão loquaces!

Foi um momento só!—talvez agora

Nas mesmas aguas se repete imagem

Dos meus sonhos de então!—talvez a brisa,

Nas folhas dos salgueiros murmurando,

Meu nome junto ao seu repete aos echos,

Que eu, triste e longe della, escuto ainda!


Sim, amei; fosse embora um só momento!

Meu sangue, requeimado ao sol dos tropicos,

Em vivas labaredas conflagrou-se.

Feliz n’aquelle incendio ardeo minha alma,

Um anno, talvez mais! Qual foi primeiro

A soltar, a romper tão doces laços

Não podera dizel-o, em que o quizesse.

Tão louco estava então,—dores tão cruas,

Magoas tantas depois me acabrunharão,

Que desse meu passado extincta a idéa,

Deixou-me apenas um soffrer confuso,

Como quem de um máo sonho se recorda!

Assim, depois de arder um denso bosque

Dos ventos a mercê revôa a cinza

N’um paramo deserto! Nada resta;

Nem se quer a vereda solitaria,

A cuja extremidade o amor velava!

V.

Rotos na infancia os laços de familia,

Os fados me vedavão reatal-os,

Ter a meu lado uma consorte amada,

Rever-me na affeição dos filhos caros,

Viver nelles, curar do seu futuro

E neste empenho consumir meus dias;

Mas ao menos, pensava,—ser-me-ha dado

Amimar e suster nos meus joelhos

Da minha irmã querida a tenra prole,

Inclinal-a a piedade, e ao relatar-lhe

Os successos da minha vida errante,

Innocular-lhe o dom fatal das lagrimas!

Essa mesma esperança não me illude;

Ave educada nas floridas selvas,

Um tufão me expellio do patrio ninho.

As tardes dos meus dias borrascosos

Não terei de passar, sentado á porta

Do abrigo de meus paes,—nem longe delle,

Verei tranquillo aproximar-se o inverno,

E pôr do sol dos meus cançados annos!


NOTAS.

PRIMEIROS CANTOS. POESIAS AMERICANAS.

Tacápe ([pag. 4]), arma offensiva, especie de maça contundente, usada na guerra e nos sacrificios. A etymologia desta palavra indica que os Indios os endurecião ao fogo, como costumavão fazer aos seos arcos: Tatá-pe quer dizer «no fogo».


Boré ([pag. 5]), instrumento musico de guerra; dá apenas algumas notas, porêm mais asperas, e talvez mais fortes que as da Trompa.


Piaga ([pag. 6]), piagé, piaches, piayes; os autores portuguezes escreverão pagé, como em verdade ainda hoje se diz no Pará. Era ao mesmo tempo o sacerdote e o medico, o augure e cantor dos indigenas do Brazil. (Veja-se a nota correspondente nos Ultimos Cantos [pag. 419].)


Anhangá ([pag. 7]), genio do mal, o mesmo que Lery chama Aignan e Hans Staden Ingange.


Manitôs ([pag. 7]) uns como penates que os indios da America do norte veneravão. O seo desapparecimento augurava grandes calamidades ás tribus, de que elles houvessem desertado.


TABYRA.

«Tobajaras—o povo senhor.»

([Pag. 150].)

Ces Tobaïares qui réclamaient l’anteriorité dans la domination du pays, et qui se donnaient un titre équivalent à celui de seigneurs de la contrée. Ferdinand Denis.

«Tobajaras são os indios principaes do Brazil, e pretendem elles serem os primeiros povoadores e senhores da terra. O nome, que tomarão, o mostra; porque yara quer dizer senhores, tobá quer dizer rosto; e vem a dizer que são os senhores do rosto da terra, que elles tem pella fronteira do maritimo em comparação do sertão.»—Padre SIMAM DE VASCONCELLOS. Noticias do Brazil. L. 1. n. 156.

Escrevendo Tobajaras segui, por ser mais euphonico, a ortographia do Padre Vasconcellos. Convem todavia confessar que se não deveria dizer Tobajaras, como este Chronista, mas Tabajaras ou Tabaiaras, com Ferdinand Denis, o que mais se conforma com a etymologia, «Taba e Iara ou Yara.» Tabajaras é litteralmente como se dissessemos, os senhores ou dominadores das Aldeias.

Por isso mesmo que os Tobajaras occupavão o littoral, é de suppor que elles fossem antes os conquistadores, que os primeiros povoadores do paiz. Os conquistadores, como homens que erão, carentes das mais simples noções da agricultura, deverião de preferencia escolher as praias como mais mimosas da natureza e mais fartas, recalcando assim para o centro das matas os incolas primitivos do paiz. É isto o que sabemos da historia de todos os povos barbaros. Os Tobajaras portanto dominárão pela conquista e quadra-lhes optimamente o nome que tomárão de senhores das aldeias—de Tabajaras.

«Potiguares lá vem denodados.»

([Pag. 152].)

Dizem uns Potiguares ou Petiguares, outros Pitigoares. Delles escreve o Padre Vasconcellos:

«Em segundo logar (depois dos Tobajaras) os Potiguares forão sempre indios de valor, e se fizerão estimar pelas armas, que por longos annos moverão contra os Tobajaras: nas quaes tiverão encontros dignos de historia; porêm não me posso deter em contallos,... punhão em campo vinte até trinta mil arcos.»—Not. do Brazil. L. 1. n. 157.


SEXTILHAS DE FREI ANTÃO.

([Pag. 196].)

Os vocabulos que emprego nestas sextilhas se achão todos no Diccionario de Moraes, bem que as mais das vezes no sentido antiquado. É assim que uso de «porêm, porende» em vez de «por isso»; de «perol» em vez de «porêm»; de «ora, embora» em vez de «agora, em boa hora» etc.


GULNARE E MUSTAPHÁ.

Diz a Princeza D. Joanna ([pag. 221]):

«Qu’eu tenha escravos, e mouros,

Rainha de Portugal.»

A Chronica de Cister tão bem diz, fallando da Princeza D. Thereza, filha de Sancho I.:

«Viuendo a santa raynha, foy Deos servido levar para si a el-Rey seu pay, a quem succedeo no reyno dom Afonso o segundo do nome.»

«Raynha (diz Fr. Luiz de Sousa) lhe chamão as historias antigas, que era o titulo com que então se tratavam as filhas dos reys.»—H. de S. D.—L. 1. C. 11.


ULTIMOS CANTOS.

O GIGANTE DE PEDRA.

([Pag. 275].)

Alguns dos principaes montes da enseada do Rio de Janeiro parecem aos que vem do Norte ou do Sul representar uma figura humana de colossal grandeza: este capricho da natureza foi conhecido dos primeiros navegantes portugueses com a denominação de «frade de pedra», que agora se chama «o gigante de pedra.»—Áquelle objecto se fez esta poesia.


...... extincta a antiga crença

Dos Tamoyos, dos Pagés.

([Pag. 278].)

Tamoyos erão os primeiros habitantes do Rio.—Pagés erão os sacerdotes, os augures, os medicos dos indigenas de todo o litoral do Brazil—os mesmos a que nos «Primeiros Cantos» dei o nome de piagas. Eis o que n’aquella obra escrevi a este respeito ([pag. 417]).—«Piagé—Piache—Piaye ou Piaga, que mais se conforma á nossa pronuncia, era ao mesmo tempo o sacerdote e o medico, o augure e o cantor dos indigenas do Brazil e de outras partes da America.» E em outra nota accrescentei: «Erão anachoretas austeros, que habitavão cavernas hediondas, nas quaes, sob pena de morte, não penetravão profanos. Vivendo rigida e sobriamente, depois de um longo e terrivel noviciato, ainda mais rigido que a sua vida, erão elles um objecto de culto e de respeito para todos;—erão os dominadores dos chefes—a balisa formidavel, que felizmente se erguia entre o conhecido e o desconhecido—entre a tão exigua sciencia d’aquelles homens, e a tão desejada revelação dos espiritos.»—Hans Staden escreve Paygi; Payé lê-se em uma das obras do Padre Vasconcellos, nome que tambem lhes dá Laet na sua «Descripção das Indias occidentaes.» Lery e Damião de Goes escrevem Pagé, orthographia que agora adoptamos.


Sons do murmuré.

([Pag. 278].)

Murémuré escreve o padre Vasconcellos nas suas «Noticias Curiosas»: collige-se que é um instrumento feito de ossos de defuntos, como alguns outros, de que se servião.


Em Guanabara esplendida.

([Pag. 278].)

Guanabara—a enseada do Rio de Janeiro.—Escreve-se indifferentemente Genabara ou Ganabara. Lery diz na sua obra «Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil» en ceste riviere de Ganabara. Southey (History of Brasil) accrescenta em uma nota, que Nicolau Barré datava desta maneira as suas cartas: Ad flumen Genabara in Brasilia etc.


O guáu cadente e vário.

([Pag. 278].)

Guáu—dansa. «São mui dados a saltar e dansar de differentes modos, a que chamão guau em geral.»—VASCONCELLOS. Noticias Curiosas L. 1.—n. 143.


E das ygaras concavas.

([Pag. 278].)

Ygaras—erão canoas, feitas de ordinario de um só toro de madeira.


Os cantos da janubia.

([Pag. 279].)

Janubia.—Lery escreve diversamente: des cornets, qu’ils nomment inubia de la grosseur et longueur d’une demie pique, mais par le bout d’embas larges d’environ un demi pied comme un hautbois.—Obra cit. pag. 202.


LEITO DE FOLHAS VERDES.

A arasoya na cinta me apertarão.

([Pag. 281].)

Arasoya era o fraldão de pennas, moda entre elles. Laet chama assoyave a uns mantos inteiros: não sei de que mantos quer o author fallar. Hans Staden (collecção de Ternaux pag. 108) dá o mesmo nome a uma especie de cocar preso ao pescoço, e passando além da cabeça, com quanto a este ornato Lery dê o nome de Yenpenamby. Quanto a arasoya, eis o que se lê na obra já citada deste author (pag. 103): Pour la fin de leurs esquippages, recouvrans de leurs voisins de grandes plumes d’austruches, de couleurs grises, accommodans tous les tuyaux serrez d’un costé, et le reste qui s’esparpille en rond en façon d’un petit pavillon ou d’une rose, ils en font un grand pennache, qu’ils appellent araroye: le quel estant lié sur leurs reins avec une corde de cotton, l’estroit devers la chair, et le large en dehors, quand ils en sont enharnachez etc.


Y-JUCA-PYRAMA.

([Pag. 281].)

O titulo desta poesia, traduzido litteralmente da lingua tupi, vale tanto como se em portuguez dissessemos «o que ha de ser morto, e que é digno de ser morto.»


No meio das tabas.

([Pag. 281].)

Taba—aldeia de indios, composta de differentes habitações, a que chamavão ocas. Quando estas habitações se achavão isoladas, ou fossem levantadas para o abrigo de uma ou já para o de muitas familias, tomavão o nome de Tejupab ou Tejupabas.


São todos Tymbiras.

([Pag. 281].)

Tymbiras—tapuyas, que habitão o interior da provincia do Maranhão.


As armas quebrando.

([Pag. 282].)

Por este acto declaravão firmadas as pazes. Vieira faz menção desta solemnidade quando, em uma informação ao monarcha portuguez, se occupa da alliança feita entre os missionarios por parte dos portugueses e dos Nhe-engaybas de Marajó.


Assola-se o tecto.

([Pag. 282].)

A descripção das cerimonias, com que elles usavão matar os seus prisioneiros de guerra, é rigorosamente exacta, ainda que não adoptamos dos authores senão aquillo em que todos ou a maior parte concordão. Veja-se Hans Staden—cap. 28—dos usos e costumes dos Tupinambás.—Noticia do Brazil, cap. 171 e 172. Noticias Curiosas L. 1. n. 188 e Lery cap. XV.


Entesa-se a corda da embira...

([Pag. 282].)

Chamava-se mussurana a corda com que se atava o prisioneiro.—«Et une longue corde nommée massarana, avec laquelle ils les attachent (les captifs) quand ils doivent être assomés.» (H. Staden, pag. 300.) Musurana escreve Ferdinand Denis, accrescentando que era feita de algodão. É possivel que em algumas tribus fosse feita desta materia, mas convem notar que na maior parte dellas era uso fabricarem-se cordas de embira.


Adorna-se a maça com pennas gentis.

([Pag. 282].)

A maça do sacrificio não era o mesmo que a ordinaria, e tinha mais a differença dos ornatos que se lhe juntava, e do esmero com que era trabalhada. Lavravão e pintavão todo o punho—embagadura, como o chamavão—com desenhos e relevos a seu modo curiosos, e della deixavão pendente uma borla de pennas delicadas e de cores differentes, sendo a folha ornada de mosaicos.—«Pintão (diz H. Staden, pag. 301) a massa do sacrificio, a que chamão iverapeme, com a qual deve ser sacrificado o prisioneiro: passão-lhe por cima uma materia viscosa, e tomando depois a casca dos ovos de um passaro chamado Mackukawa de côr parda escura, reduzem-n’as a pó, e com elle salpicão toda a massa. Preparada a iverapeme, e adornada de pennas, suspendem-n’a em uma cabana inhabitada, e cantão em redor della toda a noite.»—Ferdinand Denis, accrescentando-lhe o artigo francez, escreve Liverapeme, que diz ser feita de páo-ferro e com mosaicos de diferentes cores. Vasconcellos dá-lhe o nome de Tangapema, que é o termo do diccionario braziliano.


Brilhante enduápe no corpo lhe cingem.

([Pag. 282].)

Enduápe—fraldão de pennas de que se servião os guerreiros: damos a denominação de arasoya a aquelles de que usavão as mulheres. «Ils font avec de plumes d’autruches une espèce d’ornement de forme ronde, qu’ils attachent au bas du dos, quand ils vont à quelque grande fête: ils le nomment enduap.» H. Staden. Pag. 270. Vasconcellos trata do enduápe sem lhe dar nome algum especial. «Pela cintura apertão uma larga zona: desta pende até os joelhos um largo fraldão a modo tragico, e de tão grande roda como é a de um ordinario chapeo de sol.» Noticias Curiosas L. 1. n. 129.


Sombreia-lhe a fronte gentil kanitar.

([Pag. 282].)

Kanitar—é o nome do pennacho ou cocar, de que usavão os guerreiros de raça tupi, quando em marcha para a guerra, ou se aprestavão para alguma solemnidade, d’importancia igual a esta. «Ils ont aussi l’habitude de s’attacher sur la tête un bouquet de plumes rouges qu’ils nomment Kanittare» (H. Staden).—Usão de umas corôas a que chamão acanggetar (Laet). Os primeiros portuguezes escreverão acangatar, que litteralmente quer dizer «enfeite ou ornato da cabeça».


MARABÁ.

([Pag. 296].)

Encontramos na «Chronica da Companhia» um trecho que explica a significação desta palavra, e a idéa desta breve composição.

«Tinha certa velha enterrado vivo um menino, filho de sua nora, no mesmo ponto em que o parira, por ser filho a que chamão «marabá» que quer dizer de mistura (aborrecivel entre esta gente).» VASCONCELLOS, Ch. da Comp., L. 3. n. 27.


Formosos como um beija-flor.

([Pag. 297].)

Os indigenas chamavão ao beija-flor «Coaracy-aba» «raios», ou mais litteralmente «cabellos do sol».


A MÃE D’AGUA.

([Pag. 302].)

A mãe d’agua é uma naiada moderna, um espirito que habita no fundo dos rios. Acredita-se em muitas partes do Brazil que é uma mulher formosa com longos cabellos de oiro, que lhe servem como de vestido, com olhos que exercem inexplicavel fascinação, e voz tão harmoniosa que ninguem, que a escute, resiste á tentação de se atirar as aguas para que mais de perto a ouça e contemple. O mesmo que as serêas, tem sobre ellas a vantagem de serem creaturas de formas perfeitas, e dellas se distinguem em fascinarem tanto com o brilho da formosura, como com a doçura da voz, e de attrahirem principalmente os meninos.


RETRACTAÇÃO.

([Pag. 366].)

Indisculpavel descuido seria, deixar de mencionar o nome do Sr. D. Carlos Guido, a quem devo ter composto a poesia que tem por titulo «Retractação». Foi este o ensejo. Poucos dias depois de publicados os «Segundos Cantos», recebi uma carta do Sr. Guido: era uma critica, mas critica benevola, cheia de enthusiasmo, escripta sem pretenção alguma e ao correr da pena. Agradou-me, porque me agrada sempre conversar com os meus amigos, e era um amigo que me escrevia, um poeta talentoso, que então pela primeira vez se me revelava como tal,—joven enthusiasta, e cujo coração é como uma pedra de toque da mais exquisita sensibilidade.

Tendo percorrido com a sua analyse algumas das composições do meu 2. volume, accrescentava elle:

«Dir-se-hia que a sua palinodia é um chuveiro de pedras crystallisadas, agradaveis de se vêr, porque são prysmas, que reflectem as mais pronunciadas, fortes e soberbas cores; porêm que devião converter-se em instrumentos terriveis de vingança, quando chegassem até a mesquinha mulher, a quem fossem dirigidos, como um anathema fulminante.

«Se eu não tivesse tanta confiança nos instinctos do coração, que o levão a exhalar o seu amor só onde acha fogo, fidelidade e caricias, pensaria talvez que aquella mulher existe, e então eu faria ao poeta amargas reflexões sobre a crueldade, de que usou para com ella.»

Aceitei a censura, e dirigindo-me ao Sr. Guido escrevi a Retractação, versos filhos d’aquelle momento, e inspirados pela leitura recente da sua carta. Se algum apreço delles faço na actualidade, é por ter feito vibrar a lyra doirada do poeta argentino. Consuelo foi o titulo que deu aos seus versos, e era effectivamente um canto de consolação e de esperança: perdi ha muito o authographo dos versos do Sr. Guido; mas o sentido, a suavidade, a sentida sympathia do seu canto, esses me ficarão no coração.—Consolações e esperanças!—Doces são, por certo, as lagrimas, que sobre nós derramão os olhos de um amigo, ainda que não acreditemos no raio de esperança, que elle s’esforça por entranhar em nossa alma. Efficazes forão as suas consolações; mas ainda mal que os seus votos não tenhão de ser realizados nunca!


NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Artigo publicado na Revista Universal Lisbonense. Tom. 7, pag. 5.—anno de 1847—1848.

[2] Ego sum qui sum.

[3] Et ecce equus pallidus, et qui sedebat super illum nomen illi Mors.

APOC., c. VI.

[4] Em 1851, na typographia do Sr. Paula Brito.

Impresso em Leipzig por F. A. Brockhaus.

NOTAS DE TRANSCRIÇÃO.

Os erros tipográficos evidentes foram corrigidos.

A pontuação, a hifenização e a ortografia foram tornadas consistentes quando uma preferência predominante foi encontrada no texto original; caso contrário, não foram alterados.

As aspas irregulares foram corrigidas quando a mudança era evidente e, caso contrário, foram deixadas de acordo com o original.

Nesta versão, o carácter “caret” (acento circumflexo) foi utilizado com ou sem chaves para representar letras sobrescritas.