COLLECÇÃO DE AUTORES PORTUGUEZES.
Tomo I.
CANTOS.
COLLECÇÃO DE POESIAS
DE
A. GONÇALVES DIAS.
TERCEIRA EDICÇÃO.
COM O RETRATO DO AUTOR.
LEIPZIG:
F. A. BROCKHAUS.
1860.
AO SEO AMIGO
o
DR. G. S. DE CAPANEMA
OFFERECE ESTA EDICÇÃO
DOS SEOS CANTOS
O AUTOR.
SIRVA DE PROLOGO.
A collecção de poesias, que agora reimprimo, vae illustrada com algumas linhas de A. Herculano, a que devo a maior satisfação que tenho até hoje experimentado na minha vida litteraria.
Merecer a critica de A. Herculano, já eu consideraria como bastante honroso para mim; uma simples menção do meo primeiro volume, rubricada com o seo nome, desejava-o de certo; mas esperal-o, seria da minha parte demasiada vaidade.
Ora, em vez da critica inflexivel, que eu devera, mas não ousava receiar; em vez da simples noticia do apparecimento de um volume, que não seria de todo ruim, pois que teria merecido occupar a sua attenção; o illustre escriptor poz por alguns momentos de parte a severidade que tem direito de usar para com todos, quando é tão severo para comsigo mesmo,—e, benevolamente indulgente, dirigio me algumas linhas, que me fizerão comprehender quão alto eu reputava a sua gloria, na plenitude de contentamento, de que as suas palavras me deixarão possuido.
O escriptor conhecia-o eu ha muito, mas de nome e pelas suas obras: essas obras que todos nós temos lido, e esse nome que eu sempre ouvira pronunciar com admiração e respeito.
Se pois, n’aquella occasião, me fosse dado escolher auctor para esse artigo, não podia recahir em outro a minha escolha. Hoje, com mais razão. Tive ensejo de o conhecer pessoalmente, e a fortuna de encontrar nelle um d’aquelles poucos, d’alta intelligencia, que não perdem em serem admirados de perto, e cuja amizade se pode ambicionar como um thesouro: fortuna, digo, por que o é de certo, quando se admira o escripto, que se possa ao mesmo tempo estimar o escriptor; e ainda maior fortuna, quando queremos manifestar o nosso reconhecimento, que nos não remorda a consciencia, previnindo-nos, de que ainda quando digamos mais do que a verdade, ficaremos sempre aquem do que devemos.
Ahi vae o artigo tal qual o transcreveo e remetteo-me de Lisboa o meo bom amigo Gomes de Amorim.
Dresde 30 de Março de 1857.
FUTURO LITTERARIO DE PORTUGAL E DO BRAZIL.[1]
POR OCCASIÃO DA LEITURA DOS
PRIMEIROS CANTOS: POESIAS DO Sr A. GONÇALVES DIAS.
Bem como a infancia do homem a infancia das nações é vivida e esperançosa; bem como a velhice humana a velhice dellas é tediosa e melancholica. Separado da mãe patria, menos pela serie de acontecimentos inopinados, a que uma observação superficial lhe atribue a emancipação, do que pela ordem natural do progresso das sociedades, o Brazil, imperio vasto, rico, destinado pela sua situação, pelo favor da natureza, que lhe fadou a opulencia, a representar um grande papel na historia do novo mundo, é a nação infante que sorri: Portugal é o velho aborrido e triste, que se volve dolorosamente no seu leito de decrepidez; que se lamenta de que os raios do sol se tornassem frouxos, de que se encurtassem os horisontes da esperança, de que um crepe funebre vele a face da terra. Perguntae, porêm, ao povo infante, que cresce e se fortifica alem dos mares, que se atira ridente pelo caminho da vida, se é verdade isso que diz o ancião na tristeza do seu vegetar inerte, e que, encostado na borda do tumulto, deplora, pobre tonto, o mundo que vae morrer!
Em Portugal, os espiritos que o antigo poeta designou pelo epitheto de bem nascidos; aquelles que ainda tentam esquivar-se no sanctuario da sciencia ou da poesia ao pego da podridão dissolvente que os cerca, no meio dos seus generosos esforços chegam a illudir a Europa com essas aspirações do futuro, que tambem nelles não são mais do que uma illusão. As suas tentativas quasi fazem acreditar que para esta nação moribunda ainda resta uma esperança de regeneração; que nas veias varicosas deste corpo semi cadaver de novo se vae injectar sangue puro; que temos ainda algum destino a cumprir antes de nos amortalhar-mos no estandarte de D. João I. ou na bandeira de Vasco da Gama, e de irmos emfim repousar no cemiterio da historia. O desengano chega, porêm, em breve. O talento que forcejava por fugir do lethargo febril que nos consome, retrocede ao entrar no templo, e volve ao lodaçal onde agonisamos. É que a turba que ahi se debate, ou o apupa, ou lhe arroja adiante tropeços, ou o corrompe com dadivas e promessas; e fallando-lhe ás paixões más, ás ambições insensatas, lhe clama: vem refocilar-te no lodo. E, desanimado ou tentado, o talento despenha-se, e attufando-se no charco, acceita as lisonjas ou o oiro immundo, que lhe atiram, embriaga-se com os outros perdidos, e renega da missão sacrosanta, que se lhe destinára no ceu.
Que é feito de tantos engenhos que despontaram nesta nossa terra desde que a imprensa libertada chamou os que sentiam chamejar em si um espirito não vulgar ao convivio das intelligencias? Que é feito dessas tres ou quatro épochas em que, nos ultimos quinze annos, a mocidade parecia querer deixar inteiramente aos pequeninos homens grandes do paiz o agitarem-se, o morderem-se, o devorarem-se acerca dos graves interesses, das profundas questões das bolhas de sabão politicas? Que é feito dessa phalange ardente, ambiciosa de uma gloria pura, que principiava a exercitar-se nas lides do entendimento? De tudo isso; de toda essa mocidade brilhante e esperançosa que resta? Algum crente solitario, que deplora em silencio a queda de tantos archanjos. Os outros sacerdotes, apostatando da religião das lettras, attiraram-se á arena das facções, e manchados pela baba dos odios civis, cobertos da lama das praças, arroxeados e sangrentos pelas punhadas do pugilato politico, desbaratando em esforços estereis a seiva interior, la vão disputando no meio de homens, gastos como a effigie de velha moeda, sobre qual ha de ser a forma do ataúde, e como se talhará a mortalha, em que o cadaver de Portugal deve descer á sepultura. Que outra coisa, de feito, ha ahi sobre que se dispute ainda?
Por isso, quando vejo começar a surgir entre nós um novo poeta; quando oiço a primeira harmonia que sussurra nas cordas de lyra noviça, quizera poder chegar-me escondidamente ao descuidado e inexperiente cantor, e dizer-lhe ao ouvido: Cala-te, alma virgem e bella; cala-te, que estás n’um prostibulo! Olha que elles não te ouçam! Se o teu hymno reboar por essas torpes alcovas, sabe que pouco tardará a hora de te prostituires.
O poeta portuguez d’hoje é a avezinha que enlevada nos seus gorgeios se balança depois do pôr do sol no ramo do ulmeiro pendente sobre o rio. As outras voaram para os seus ninhos, e ella deixou vir a noite, e ficou alli, triste, só, desconsolada, soltando a espaços um doloroso pio.
Poeta, n’esta terra é noite! Por que não te acolheste ao teu ninho? Agora o que te resta é morrer. Vae abrigar-te entre os orbes; vae derramar em canções a tua alma no seio immenso de Deos. Ahi é que sempre é dia.
Nós somos hoje o hilota embriagado, que se punha defronte da meza nas philitias de Sparta, para servir de licção de sobriedade aos mancebos. O Brazil é a moderna Sparta, de que Portugal é a moderna Helos.
Estas amarguradas cogitações surgiram-me na alma, com a leitura de um livro impresso o anno passado no Rio de Janeiro, e intitulado: Primeiros Cantos: Poesias por A. Gonçalves Dias. N’aquelle paiz de esperanças, cheio de viço e de vida, ha um ruido de lavor intimo, que sôa tristemente cá, n’esta terra onde tudo acaba. A mocidade, despregando o estandarte da civilisação, prepara-se para os seus graves destinos pela cultura das lettras; arroteia os campos da intelligencia; aspira as harmonias dessa natureza possante que a cerca; concentra n’um foco todos os raios vivificantes do formoso ceu, que a allumina; prova forças emfim para algum dia renovar pelas ideias a sociedade, quando passar a geração dos homens praticos e positivos, raça que lá deve predominar ainda; por que a sociedade brazileira, vergontea separada ha tão pouco da carcomida arvore portugueza, ainda necessariamente conserva uma parte do velho cepo. Possa o renovo dessa vergontea, transplantada da Europa para entre os tropicos, prosperar e viver uma bem longa vida, e não decahir tão cedo como nós decahimos!
É geralmente sabido que o jovem imperador do Brazil dedica todos os momentos que pode salvar das occupações materiaes de chefe do Estado ao culto das lettras. Mancebo, prende-se á mocidade, aos homens do futuro, por laços que de certo as revoluções não hão de quebrar; porque o progresso social não virá accomettel-o inopinadamente nas suas crenças e habitos. Quando a ideia se encarnar na realidade, o seu espirito como as outras intelligencias que o rodeiam, ter-se-ha alimentado della, e saudará como os seus mais alumiados subditos o pensamento progressivo. Não notaes n’estas tendencias do moço principe um symbolo do presente, e uma prophecia consoladora acerca do porvir do Brazil?
A imprensa na antiga America portugueza, balbuciante ha dois dias, já ultrapassa a imprensa da terra que foi metropole. Ás publicações periodicas, primeira expressão de uma cultura intellectual que se desinvolve, começam a associar-se as composições de mais alento—os livros. Ajuncte-se a este facto outro, o ser o Brazil o mercado principal do pouco que entre nós se imprime, e será facil conjecturar que no dominio das lettras, como em importancia e prosperidade, as nossas emancipadas colonias nos vão levando rapidamente de vencida.
Por si sós esses factos provariam antes a nossa decadencia, que o progresso litterario do Brazil. É um mancebo vigoroso que derriba um velho cachetico, demente e paralitico. O que completa, porêm, a prova é o exame não comparativo, mas absoluto, de algumas das modernas publicações brazileiras.
Os Primeiros Cantos são um bello livro; são inspirações de um grande poeta. A terra de Sancta Cruz que já conta outros no seu seio, pode abençoar mais um illustre filho.
O auctor, não o conhecemos; mas deve ser muito jovem. Tem os defeitos do escriptor ainda pouco amestrado pela experiencia: imperfeições de lingua, de metrificação, de estylo. Que importa? O tempo apagará essas maculas, e ficarão as nobres inspirações estampadas nas paginas deste formoso livro.
Quizeramos que as Poesias Americanas que são como o portico do edificio occupassem nelle maior espaço. Nos poetas transatlanticos ha por via de regra demasiadas reminiscencias da Europa. Esse Novo Mundo que deu tanta poesia a Saint-Pierre e a Chateaubriand é assaz rico para inspirar e nutrir os poetas que crescerem á sombra das suas selvas primitivas.
Como argumento disso, como exemplo da verdadeira poesia nacional do Brazil citarei aqui dous trechos das Poesias Americanas: o Canto do Guerreiro e um fragmento Morro do Alecrim.
(Aqui vem transcripta por inteiro a poesia intitulada «O canto do Guerreiro» ([pag. 4]) e as ultimas strophes do «Morro do Alecrim».)
Abstendo-me de outras citações, que occupariam demasiado espaço, não posso resistir a tentação de transcrever das Poesias Diversas uma das mais mimosas composições lyricas, que tenho lido na minha vida.
(Aqui vem transcripta a poesia intitulada «Seos olhos». Veja-se [pag. 19].)
Se estas poucas linhas, escriptas de abundancia de coração, passarem os mares, receba o auctor dos Primeiros Cantos o testemunho sincero de sympathia, que a leitura do seu livro arrancou a um homem, que o não conhece, que provavelmente não o conhecerá nunca, e que não costuma nem dirigir aos outros elegios encommendados, nem pedil-os para si.
Lisboa (Ajuda) 30 de Novembro de 1847.
A. HERCULANO.
PRIMEIROS CANTOS.
PROLOGO DA PRIMEIRA EDICÇÃO.
Dei o nome de “Primeiros Cantos” ás poesias que agora publíco, porque espero que não serão as ultimas.
Muitas dellas não tem uniformidade nas strophes, porque menospreço regras de mera convenção; adoptei todos os rhythmos da metrificação portugueza, e usei delles como me parecérão quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir.
Não tem unidade de pensamento entre si, porque forão compostas em epochas diversas—debaixo de céo diverso—e sob a influencia de impressões momentaneas. Forão compostas nas margens viçosas do Mondego e nos pincaros ennegrecidos do Gerez—no Doiro e no Tejo—sobre as vagas do Atlantico, e nas florestas virgens da America. Escrevi-as para mim, e não para os outros; contentar-me-hei, se agradarem; e se não ... é sempre certo que tive o prazer de as ter composto.
Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa arena politica para lêr em minha alma, reduzindo á lingoagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as idéas que em mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano—o aspecto emfim da natureza. Casar assim o pensamento com o sentimento—o coração com o entendimento—a idéa com a paixão—colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia—a Poesia grande e sancta—a Poesia como eu a comprehendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir.
O esforço—ainda vão—para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor; talvez seja este o só merecimento deste volume. O Publico o julgará; tanto melhor se elle o despreza, porque o Auctor interessa em acabar com essa vida desgraçada, que se diz de Poeta.
Rio de Janeiro—Julho de 1846.
INDICE.
| Pag. | ||
| Sirva de Prologo | [vii] | |
| Futuro litterario de Portugal e do Brazil, artigo do Sr. A. Herculano | [ix] | |
| Prologo da primeira edicção dos Primeiros Cantos | [xv] | |
| PRIMEIROS CANTOS. | ||
| POESIAS AMERICANAS. | ||
| Canção do Exilio | [3] | |
| O Canto do Guerreiro | [4] | |
| O Canto do Piaga | [7] | |
| O Canto do Indio | [9] | |
| Cachias | [11] | |
| Deprecação | [12] | |
| POESIAS DIVERSAS. | ||
| A Leviana | [14] | |
| A minha Musa | [15] | |
| Desejo | [19] | |
| Seos olhos | [19] | |
| Innocencia | [21] | |
| Pedido | [22] | |
| O Desengano | [23] | |
| Minha vida e meos amores | [24] | |
| Recordação | [27] | |
| Tristeza | [28] | |
| O Trovador | [30] | |
| Amor! delirio—engano | [34] | |
| Delirio | [37] | |
| Epicedio | [39] | |
| Soffrimento | [41] | |
| VISÕES. | ||
| I. Prodigio | [43] | |
| II. A Cruz | [44] | |
| III. Passamento | [46] | |
| IV. —— | [50] | |
| V. A Morte | [53] | |
| O Vate | [55] | |
| A morte prematura da Illma Sra D..... | [57] | |
| A Mendiga | [59] | |
| A Escrava | [63] | |
| Ao Dr. J. D. Lisboa Serra | [66] | |
| O Desterro de um pobre velho | [68] | |
| O Orgulhoso | [71] | |
| O Cometa | [72] | |
| O Oiro | [73] | |
| A um Menino | [74] | |
| O Pirata | [77] | |
| A Villa Maldicta | [81] | |
| Quadras da minha vida. Recordação e desejo | [87] | |
| HYMNOS. | ||
| O Mar | [95] | |
| Ideia de Deos | [97] | |
| O romper d’alva | [100] | |
| A tarde | [103] | |
| O Templo | [107] | |
| Te Deum | [109] | |
| Adeos aos meos Amigos do Maranhão | [110] | |
| SEGUNDOS CANTOS. | ||
| Consolação nas lagrimas | [115] | |
| Canção | [116] | |
| Lyra | [117] | |
| Agora e sempre | [118] | |
| A Virgem | [119] | |
| Rosa no mar! | [121] | |
| O Amor | [123] | |
| Sempre ella | [124] | |
| Mimosa e bella | [126] | |
| As duas amigas | [128] | |
| Sonho | [130] | |
| Solidão | [131] | |
| A um Poeta exilado | [134] | |
| Palinodia | [135] | |
| Os suspiros | [139] | |
| Queixumes | [141] | |
| Ao Anniversario de um casamento | [145] | |
| Canto inaugural.—A memoria do Conego J. de C. Barbosa | [146] | |
| Tabyra. Aos Pernambucanos | [149] | |
| Tabyra (Poesia Americana) | [150] | |
| A Lua | [157] | |
| A Noite | [160] | |
| A Tempestade | [162] | |
| NOVOS CANTOS. | ||
| O homem forte | [169] | |
| Dies irae | [170] | |
| Espera! | [172] | |
| A Saudade | [174] | |
| Não me deixes! | [176] | |
| Zulmira | [177] | |
| A uma Poetiza | [178] | |
| Angelina | [178] | |
| Rola | [180] | |
| Ainda uma vez—adeos! | [181] | |
| O Somno | [186] | |
| Se eu fosse querido! | [186] | |
| A flôr do amor | [187] | |
| A sua voz | [190] | |
| Se se morre de amor! | [191] | |
| A morte é vária | [193] | |
| SEXTILHAS DE FREI ANTÃO. | ||
| Loa da Princeza Sancta | [196] | |
| Gulnare e Mustaphá | [211] | |
| Soláo do Senhor Rey Dom João | [240] | |
| Soláo de Gonçalo Hermiguez | [251] | |
| ULTIMOS CANTOS. | ||
| Dedicatoria ao meo amigo A. T. de Carvalho Leal | [271] | |
| POESIAS AMERICANAS. | ||
| I. O Gigante de pedra | [275] | |
| II. Leito de folhas verdes | [280] | |
| III. Y-juca-pyrama | [281] | |
| IV. Marabá | [296] | |
| V. Canção do Tamoyo | [298] | |
| VI. A Mangueira | [301] | |
| VII. A Mãe d’agua | [302] | |
| POESIAS DIVERSAS. | ||
| Nenia á morte sentidissima do Serenissimo Principe Imperial, o Senhor D. Pedro | [310] | |
| Olhos verdes | [314] | |
| Cumprimento de um voto | [316] | |
| Lyra quebrada | [318] | |
| A Pastora | [319] | |
| A Infancia | [322] | |
| Urge o tempo | [325] | |
| Sobre o tumulo de um menino | [326] | |
| Menina e moça | [326] | |
| Como eu te amo | [327] | |
| As duas corôas | [330] | |
| Harpejos | [333] | |
| Triste do Trovador | [335] | |
| Velhice e mocidade | [336] | |
| As flores | [341] | |
| O que mais dóe na vida | [344] | |
| Flôr de belleza | [346] | |
| O Anjo da harmonia | [348] | |
| A Historia | [349] | |
| A concha e a virgem | [350] | |
| Sei amar | [351] | |
| Amanhã | [352] | |
| Por um ai | [353] | |
| Protesto—(Imitação de uma poesia javaneza) | [355] | |
| Fadario | [357] | |
| O assassino | [359] | |
| A uns annos | [361] | |
| Quando nas horas | [362] | |
| Retractação | [366] | |
| Anhelo | [369] | |
| Que me pedes | [370] | |
| O Ciume | [370] | |
| A Nuvem doirada | [373] | |
| Sonho de virgem | [374] | |
| Meo anjo, escuta | [378] | |
| Os beijos | [379] | |
| Desesperança | [381] | |
| Se queres que eu sonhe | [383] | |
| O Baile | [385] | |
| Desalento | [387] | |
| A queda de Satanaz | [390] | |
| Canção da Bug-Jargal | [392] | |
| Agar no deserto | [394] | |
| HYMNO. | ||
| O meo Sepulchro | [404] | |
| Saudades á minha Irmã | [410] | |
| Notas | [417] |
PRIMEIROS CANTOS.
POESIAS AMERICANAS.
Les infortunes d’un obscur habitant des bois auraient-elles moins de droits à nos pleurs que celles des autres hommes?
CHATEAUBRIAND.
CANÇÃO DO EXILIO.
Kennst du das Land, wo die Citronen blühn,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn?
Kennst Du es wohl?—Dahin, dahin!
Möcht’ ich ... ziehn.
GOETHE.
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorgeião,
Não gorgeião como lá.
Nosso céo tem mais estrellas,
Nossas varzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em scismar, sósinho, á noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que taes não encontro eu cá;
Em scismar—sósinho, á noite—
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permitta Deos que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfructe os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
COIMBRA—Julho 1843.
O CANTO DO GUERREIRO.
I.
Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não gerão escravos,
Que estimem a vida
Sem guerra e lidar.
—Ouvi-me, Guerreiros,
—Ouvi meo cantar.
II.
Valente na guerra
Quem ha, como eu sou?
Quem vibra o tacápe
Com mais valentia?
Quem golpes daria
Fataes, como eu dou?
—Guerreiros, ouvi-me;
—Quem ha, como eu sou?
III.
Quem guia nos ares
A frexa implumada,
Ferindo uma preza,
Com tanta certeza,
Na altura arrojada
Onde eu a mandar?
—Guerreiros, ouvi-me,
—Ouvi meo cantar.
IV.
Quem tantos imigos
Em guerras preou?
Quem canta seos feitos
Com mais energia?
Quem golpes daria
Fataes, como eu dou?
—Guerreiros, ouvi-me:
—Quem ha, como eu sou?
V.
Na caça ou na lide,
Quem ha que me affronte?!
A onça raivosa
Meos passos conhece,
O imigo estremece,
E a ave medrosa
Se esconde no céo.
—Quem ha mais valente,
—Mais dextro do que eu?
VI.
Se as matas estrujo
Co’os sons do Boré,
Mil arcos se encurvão,
Mil setas lá vôão,
Mil gritos rebôão,
Mil homens de pé
Eis surgem, respondem
Aos sons do Boré!
—Quem é mais valente,
—Mais forte quem é?
VII.
Lá vão pelas matas;
Não fazem ruido:
O vento gemendo
E as matas tremendo
E o triste carpido
D’uma ave a cantar,
São elles—guerreiros,
Que faço avançar.
VIII.
E o Piaga se ruge
No seo Maracá,
A morte lá paira
Nos ares frexados,
Os campos juncados
De mortos são já:
Mil homens viverão,
Mil homens são lá.
IX.
E então se de novo
Eu tóco o Boré;
Qual fonte que salta
De rocha empinada,
Que vai marulhosa,
Fremente e queixosa,
Que a raiva apagada
De todo não é,
Tal elles se escôão
Aos sons do Boré.
—Guerreiros, dizei-me,
—Tão forte quem é?
O CANTO DO PIAGA.
I.
Ó Guerreiros da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da tribu Tupi,
Fallão Deoses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meos cantos ouvi.
Esta noite—era a lua já morta—
Anhangá me vedava sonhar;
Eis na horrivel caverna, que habito,
Rouca voz começou-me a chamar.
Abro os olhos, inquieto, medroso,
Manitôs! que prodigios que vi!
Arde o páo de resina fumosa,
Não fui eu, não fui eu, que o accendi!
Eis rebenta a meos pés um phantasma,
Um phantasma d’immensa extensão;
Liso craneo repousa a meo lado,
Feia cóbra se enrosca no chão.
O meo sangue gelou-se nas veias,
Todo inteiro—ossos, carnes—tremi,
Frio horror me côou pelos membros,
Frio vento no rosto senti.
Era feio, medonho, tremendo,
Ó Guerreiros, o espectro que eu vi.
Fallão Deoses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meos cantos ouvi!
II.
Porque dormes, ó Piaga divino?
Começou-me a Visão a fallar,
Porque dormes? O sacro instrumento
De per si já começa a vibrar.
Tu não viste nos céos um negrume
Toda a face do sol offuscar;
Não ouviste a coruja, de dia,
Seus estridulos torva soltar?
Tu não viste dos bosques a coma
Sem aragem—vergar-se e gemer,
Nem a lua de fogo entre nuvens,
Qual em vestes de sangue, nascer?
E tu dormes, ó Piaga divino!
E Anhangá te prohibe sonhar!
E tu dormes, ó Piaga, e não sabes,
E não pódes augurios cantar?!
Ouve o annuncio do horrendo phantasma,
Ouve os sons do fiel Maracá;
Manitôs já fugirão da Taba!
Ó desgraça! ó ruina! ó Tupá!
III.
Pelas ondas do mar sem limites
Basta selva, sem folhas, hi vem;
Hartos troncos, robustos, gigantes;
Vossas matas taes monstros contêm.
Trás embira dos cimos pendente
—Brenha espessa de vario cipó—
Dessas brenhas contêm vossas matas,
Taes e quaes, mas com folhas; é só!
Negro monstro os sustenta por baixo,
Brancas azas abrindo ao tufão,
Como um bando de candidas garças,
Que nos ares pairando—lá vão.
Oh! quem foi das entranhas das aguas,
O marinho arcabouço arrancar?
Nossas terras demanda, fareja...
Esse monstro...—o que vem cá buscar?
Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!
Vem trazer-vos crueza, impiedade—
Dons crueis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracás.
Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribu Tupi vai gemer;
Hão de os velhos servirem de escravos,
Mesmo o Piaga inda escravo ha de ser!
Fugireis procurando um asilo,
Triste asilo por invio sertão;
Anhangá de prazer ha de rir-se,
Vendo os vossos quão poucos serão.
Vossos Deoses, ó Piaga, conjura,
Susta as iras do fero Anhangá.
Manitôs já fugirão da Taba,
Ó desgraça! ó ruina! ó Tupá!
O CANTO DO INDIO.
Quando o sol vae dentro d’agoa
Seos ardores sepultar,
Quando os passaros nos bosques
Principião a trinar;
Eu a vi, que se banhava....
Era bella, ó Deoses, bella,
Como a fonte cristallina,
Como luz de meiga estrella.
Ó Virgem, Virgem dos Christãos formosa,
Porque eu te visse assim, como te via,
Calcára agros espinhos sem queixar-me,
Que antes me dera por feliz de ver-te.
O tacápe fatal em terra estranha
Sobre mim sem temor veria erguido;
Dessem-me a mim sómente vêr teo rosto
Nas agoas, como a lua, retratado.
Eis que os seos loiros cabellos
Pelas agoas se espalhavão,
Pelas agoas, que de vel-os
Tão loiros se enamoravão.
Ella erguia o collo eburneo,
Porque melhor os colhesse;
Niveo collo, quem te visse,
Que de amores não morresse!
Passára a vida inteira a contemplar-te,
Ó Virgem, loira Virgem tão formosa,
Sem que dos meos irmãos ouvisse o canto,
Sem que o som do Boré que incita á guerra