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Rita Farinha (Fev. 2008)
SÁ D'ALBERGARIA
OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
ROMANCE
PORTO LIVRARIA CHARDRON
DE
Lello & Irmão, Editores
1904
Typ. a vapor da Empreza Litteraria e Typographica
178, rua de D. Pedro, 184
OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
I
Os irmãos da mão negra
II
Amôr e esperança
—Padre, a mulher que eu amo não é livre; tem pae, que se julga com direito a intervir no seu destino e a impedir que sua filha busque a alliança de um homem de origem... desconhecida.
—Foi essa menina quem t'o disse?
—Disse-m'o a minha propria razão.
—Queres um conselho, Paulo?—perguntou inopinadamente o padre Filippe.
—Os conselhos de vossa reverendissima são para mim leis sabias e justas, que eu não posso deixar de acatar com o respeito e gratidão que lhe devo.
—Pois bem; refreia os impetos da tua paixão por essa menina e busca antes de tudo fazer-te digno do seu amor.
—Já o sou.
—Pelos dotes do coração, concordo, mas não pela posição social alcançada. O primeiro que o pae d'essa menina ha-de perguntar-te, quando souber que lhe pretendes a mão da filha, é com que recursos contas para proporcionares a tua mulher a felicidade e o bem estar a que ella tem direito. Quererá saber que posição é a tua, que profissão exerces ou de que meios de fortuna dispões para poderes dignamente apresental-a na sociedade ao respeito e á consideração das pessoas de bem. E comprehendes, meu Paulo, que a taes perguntas não se responde com uma certidão de baptismo que nos dá avós illustres de quem não herdámos um palmo de terra onde cahir mortos, nem com a reedição apaixonada dos mil juramentos de amor constante que enviamos á filha em perfumadas cartinhas que lá estão, em maço, amarradas com fita de seda...
O mancebo não pôde deixar de sorrir a estas palavras do padre Filippe, que denunciavam um profundo conhecedor da arte do galanteio.
—Os paes não se contentam com tão pouco, exigem mais alguma coisa—continuou o sacerdote—Ora esse mais alguma coisa é que está na tua mão offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho honesto uma posição que te nobilite aos olhos do mundo; engrandece-te a ti proprio, torna-te homem; e quando a tua consciencia te disser que não és inferior á mulher que amas, vae pedil-a e não receies que o pae te não encontre bastante nobilitado para entrares na sua familia.
—Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro!—exclamou o mancebo, dando largas ao desespero que lhe ia na alma.
—O pae d'essa menina sabe que ella te ama?
—Não sabe.
—É, pois, natural que, julgando o coração da filha desligado de qualquer affeição, pense em lhe proporcionar um enlace que lhe parece vantajoso. Todos os paes pensam no futuro de suas filhas e esse não o seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe o coração e a impor-lhe á força um casamento que ella rejeita, vae uma distancia enorme. Se essa menina te ama sinceramente, como dizes, recusará o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo que para todos os paes deve ser sagrado—a ausencia absoluta de sympathia pelo noivo proposto. Se, pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por ti não é tão vivo e intenso que lhe permitta a recusa, casar-se-ha, e com o facto só tu tens a lucrar, pois que assim te livras do escolho de vires a possuir por companheira uma creatura incapaz de corresponder ás nobres aspirações da tua alma. Não creio, pois, que isso seja contrariedade de maior, que te dê motivos para os sobresaltos e inquietações que revelas. Vae visitar madre Paula, meu rapaz... Conta-lhe os segredos da tua alma, nada lhe occultes, e verás como nas suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego e quietação que precisas... Isto não é desviar de mim o encargo de te guiar e dirigir no accidentado caminho a que o coração te propelle—accrescentou o padre—Mas é que as mulheres, em questões do coração, teem mais auctoridade, são mais profundamente conhecedoras da mysteriosa sciencia do sentimento alheio, e teem sobretudo um poder de persuasão que a nós outros os homens nos fallece. Procura madre Paula, conta-lhe tudo, escuta as suas palavras e verás que has-de sentir-te bem, meu filho.
—Procural-a-hei—disse Paulo—mas creio bem que não poderá aconselhar-me melhor do que vossa reverendissima acaba de o fazer; nem as palavras da santa e virtuosa senhora poderão trazer mais funda ao meu espirito a convicção que vossa reverendissima me deu de que preciso engrandecer-me, fazer-me homem para conquistar a posse da mulher que amo!
—Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito das minhas palavras, Paulo. Crê que ninguem mais do que eu deseja a tua felicidade e o teu bem estar. Se fosses meu filho, não te aconselharia de modo differente nem desejaria com mais ardor ver-te ascender a uma posição culminante. D'isso pódes estar certo.
—Trabalharei e empregarei todos os esforços para realisar os desejos de vossa reverendissima—que são tambem os meus.
—E conseguil-o-has, porque és intelligente, és energico, e revelas nobreza de caracter. Com taes predicados, só não alcança uma posição distincta na sociedade quem não quer.
Agora, reanimado pela esperança que as palavras do padre Filippe lhe incutiram, o mancebo despediu-se do seu protector, mais que nunca resolvido a encetar a lucta pela vida e pelo triumpho completo das nobres aspirações do seu amoroso coração de rapaz.
III
Pae e filha
IV
Dois patifes
V
Madre Paula
VI
Á hora da morte
VII
Tres miseraveis
Murmura, rio, murmura!
VIII
Entre irmãos
IX
Amores faceis
O bohemio comprehendeu-o e despediu-se, affirmando que estava irresistivelmente apaixonado por Beatriz e appellando para a amizade dos dois, afim do que envidassem os seus esforços em defesa da sua causa.
Logo que o Belchior se viu a sós com o Custodio, abriu a gavêta da escrivaninha e, tirando de dentro uma certidão do escrivão de fazenda de Borba; apresentou-lh'a, dizendo:
—Veja você, amigo Custodio, a pechincha a que a sua filha torce o nariz!
O Custodio pegou na certidão das contribuições pagas por Eugenio de Mello á Fazenda Nacional.
—Com os diabos!—disse elle—para pagar tudo isto, perto de dois contos de reis, é preciso que tenha uma fortuna enorme!
—Este diabo nem sabe o que tem de seu! E ainda você está com pannos quentes com a rapariga! Onde vae ella encontrar um partido como este?
—Pois, amigo Belchior—affirmou o Custodio com resolução—ainda que saiba de a levar pelos cabellos á egreja, esta fortuna é que eu não deixo perder.
—Mas é preciso que isto não demore muito tempo a decidir.
—Isto por esta semana rebenta! Deixe-me cá manobrar á vontade e você verá como a coisa se arranja...
Tendo affirmado isto, o Custodio deixou o procurador e partiu a arranjar a conta do seu debito para apresentar á filha.
X
Para os grandes males...
XI
João Lazaro
XII
Velhos conhecimentos
—É justo—respondeu Julio—Ha um objectivo na tua existencia, que te faz amar a vida e te dá força e coragem para a não perderes: são os filhos, é a esposa, é a familia, é toda essa inquebrantavel cadeia de affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar dos desalentos, das dôres physicas e moraes, conduzindo-o, confiado e alegre, através a velhice como o viajeiro através os areaes do deserto, com os olhos fitos no oasis que, de longe, lhe promette repouso e frescura. Mas eu, abandonado e só, sem familia, sem o estimulo dos grandes affectos que tornam o homem superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar senão a morte redemptora dos grandes desgraçados?
—Casa-te, meu amigo, casa-te!—aconselhou o commendador Seabra n'um tom de convicta auctoridade.—Olha que não ha como o casamento para fazer um homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz, tambem tive as minhas estroinices, as minhas excentricidades... Não andei lá por fóra, porém, cá dentro mesmo, no meu paiz, e até sem sahir de Guimarães, fiz o que pude... Mas quando cheguei a certa altura e senti que começava a aborrecer-me da vida, disse commigo: «Nada! isto não está bem... Preciso ter alguem a quem me dedique de alma e coração... alguem a quem eu estime e que me estime tambem, porque um barco só não faz carreira...» Tive a fortuna de encontrar o que desejava, uma esposa que é um anjo, um genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito! Casei e temo-nos dado muito bem... Não é assim, Gracianinha?—rematou, pondo os olhos na esposa, a D. Graciana, uma senhora adiposa, de enorme carão vermelhusco, toda cheia de requebros e denguices, mais do que é permittido a uma mulher que passa dos quarenta.
—É assim, meu amigo!—suspirou a D. Graciana, revirando para o marido os olhos ternos e abanando-se com o leque, na pudibunda attitude de uma paixão confessada.
—Não temos tido filhos—tornou o commendador, muito roliço, muito gordo, envolvendo a mulher n'um olhar carinhoso—mas não é por falta de amôr... É que ella não é de qualidade de os ter... Mas vê tu que eu era um espeto... lembras-te que eu era um espeto? Pois estou isto que vês! Gordo e forte, que nem pareço o mesmo!... E tudo isto foi depois que casei... Não ha nada como o casamento para dar saude a um homem!
E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos na cava do collete, e tamborilando com os dedos restantes no peito, n'uma exhibição grotêsca das fartas enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam o rotundo abdomen.
Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio feita pelo commendador que, segundo resavam as más linguas, soffria uma cruz em casa com os destemperos da D. Graciana, ciumenta e desconfiada.
—Ora agora o que é preciso—propôz o juiz de direito, um velhote de oculos, bigodes brancos, com uma voz aflautada e cheia de impetuosidades nervosas—é não deixar passar despercebido este feliz acontecimento do regresso de um querido e distincto filho do Minho aos encantos da sua provincia e aos braços dos velhos amigos, que todos gemiam saudades pela sua prolongada ausencia!
E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada de sentimento:
—Isto é mais do que um regresso, isto é uma resurreição! Propunho, pois, uma Paschoa inter amicus, uma festa alleluitica, em que se celebre condignamente o resurrexit d'este illustre cavalheiro, que eu não tinha a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem já estimava e de quem era sinceramente amigo, pelo conhecimento de seus primores e gentilezas, que a tradição oral tinha trazido até mim!
Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa approvação e logo alli se decidiu promover uma festa ruidosa em honra de intrepido viajante, que dezoito annos gastara em percorrer as sete partidas do mundo, como o infante D. Pedro.
O juiz foi o encarregado de elaborar o programma e nomear a commissão que havia de proceder aos festejos.
Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo pela perspectiva de mais um dia de grossa pandega.
—Livra-me d'esta gente, meu amigo!—segredou Julio a Gustavo.—Tu, que conheces o estado do meu espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria me mortifica!
—Nem eu, nem poder algum da terra poderá livrar-te d'estas honras, que só aos eleitos da amizade se concedem, meu caro; salvo se tiveres a má lembrança de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de ser clandestinamente, porque, se constar que andas a tirar passaporte, agarram-te e não te deixam partir sem gramares a festa!
—Meu Deus! Em que má hora eu vim a tua casa!—murmurou Julio.—Venho a fugir do bulicio, do ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e eis-me o alvo de alegrias, quando mais devêra ser um objecto de tristezas!
—Tem paciencia, meu amigo! A tua larga ausencia do paiz fez-te esquecer, pelo que vejo, os habitos festivos da nossa provincia, que ainda não [mudaram]. O portuguez, especialmente o minhoto, não perde occasião, e tudo lhe serve de pretexto, para se evadir ás melancholias do temperamento. Um casamento, um baptisado, um dia d'annos, um amigo que chega, um amigo que parte, tudo isso constitue motivo de festa. Fóra d'ahi, é sisudo, sorumbatico, macambuzio, incapaz de, por coisa alguma d'este mundo, se arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se, que a alegria d'elles não é d'aquellas que magoam o coração dos que soffrem...
No dia seguinte, Julio levantou-se cêdo e, n'um curto passeio, dirigiu-se sósinho para os lados da velha casa de Norberto de Noronha.
O brazileiro Pinho, que conservava os habitos madrugadores, adquiridos no Brazil, todo vestido de linho crú e na cabeça um bonnet de gorgorão preto, debruçava-se no caramanchão erguido em um dos angulos do jardim.
Respirava a longos haustos o ar fresco da manhã, tendo cravado no horisonte um vago olhar de tristeza.
Pensava talvez nas fundas saudades que já curtira longe da patria, e n'aquellas que ainda o haviam de consummir, agora que, depois de velho e quando esperava morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da sua aldeia, era outra vez obrigado a expatriar-se.
Julio, ao vêl-o, parou na estrada e cortejou:
—Bons dias!
O Pinho levou a mão ao bonnet e correspondeu, saudando:
—Muito bons dias!
—É o proprietario d'esta casa?
—Um seu criado!
—Li que ella se vende. Posso vêl-a?.
—Pois não! Eu lhe vou mandar abrir a porta...
E chamando pelo criado:
—Ó Manéca, vae na porta abrir ao cavalheiro, hein!—ordenou.
O Manéca, um labrego de jaqueta, chapéo braguez e suissa talhada em fórma de foicinha, foi abrir, com grandes zumbaias, levando no labio escanhoado o sorriso humilde e servil de quem nasceu para sêr mandado e obedecer.
Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro Pinho este dialogo:
—V. s.a vende esta propriedade, não é assim?
—Me résólvi á vender ella, porque estou preparando minhas coisas p'ra tornar no Brazil...
—Esta casa—disse Julio—era de um antigo fidalgo que aqui morou e aqui morreu, o sr. Norberto de Noronha...
—Não conheci elle, mas tenho ouvido fállár... Bôa péssôa, pelas informações que dão-me d'elle, hein!
—Não foi, portanto, ao velho fidalgo que v.a s.a comprou a casa?
—Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em Portugal, a primeira coisa que lembrou-me foi comprar casa bôa, que tivesse commodos ella... Mas eu a queria já feita, hein! Me aborrecia estar esperando que fizesse-se ella, já viu? Depois meu compadre Damião me escreveu um dia para o Porto, dizendo que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga p'ra vender este palacete... Vim vêr ella, me agradou por ficar nos meus sitios e a comprei... É uma rica peça, que tenho muita pena de deixar ella!... Mas como vou no Brazil outra vez e não sei o tempo que demorarei-me por lá...
—Norberto de Noronha—tornou Julio—tinha uma filha... Foi a essa senhora que comprou esta casa?
—O négocio foi tratado com um procurador d'essa minina, qui estava ella, dizem, nas irmãs da caridade e tinha passado procuração a esse tal João Ignacio para vender elle todos os bens, já viu? Mas eu lhe fiquei só com a casa e com estes campos de ao pé da porta... As outras propriedades si venderam a differentes... Vossa excélléncia conheceu a familia de Norberto, já vejo...
—Conheci. A casa soffreu modificações?
—Não altérei-lhe a planta, a ella, não... Lhe mandei botar papel e pinturas novas, hein! mas lhe deixei ficar as divisões todas... O mesmo jardim ainda é do risco que estava elle no tempo do fidalgo...
O Pinho, muito amável, convidou Julio a vêr a casa para certificar-se de que era uma vivenda muito bôa ella e que se conservava quasi no mesmo estado em que o fidalgo a deixára.
Julio, ao entrar na sala onde fallára pela primeira e ultima vez a Norberto de Noronha, já paralytico, cerrou um momento os olhos, commovido, e a sua memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo, que alli jazêra por tanto tempo ainda, na esperança de tornar a vêr a filha, criminosamente ingrata ou assombrosamente desgraçada, por quem morria.
Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades difficeis de explicar, não merecêra as attenções do brazileiro para o mandar reparar. Conservava-se no mesmo estado e na mesma disposição em que Julio o vira a primeira vez quando alli entrou. Apenas alguns dos velhos moveis de Norberto, inclusivè a cadeira de rodas em que tão longamente agonisara, achavam-se alli accumulados, em monte, a um canto.
—Isto áqui me tem sérvido para arrumações—explicou o brazileiro.—Aqui encontrei esta cangalhada quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra pôr ella fóra, nunca résolvi-me, hein! e ahi ficou, já viu?
—Quanto pretende v. s.a pela casa?—perguntou Julio.
—Com mobilia ou sem ella?
—Tal como está, excepto os objectos de seu uso pessoal...
—Me custou a mim dez contos... Com mais de dois que gastei em mobilia e concertos, anda isso por doze, hein! Más se v. ex.a me quizer comprar ella por dez, eu lhe deixo ficar tudo, já viu?
—Não, senhor!—acudiu Julio.—Se por doze contos lhe ficou, doze contos lhe darei por ella.
O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador. Julgára que elle iria regatear o preço, achar caro, desfazer no valor da propriedade e reservava-se para, em ultimo caso, fazer uma reducção de um ou dois contos de reis. E via com surpresa que este generoso desconhecido queria embolsal-o integralmente de tudo quanto havia dispendido, elevando a somma, de dez, a doze contos, que era o que calculava ter gasto.
—Quer assim?—interrogou Julio.
—Mas...—objectou honradamente o brazileiro consciencioso—eu tenho vivido na casa, os moveis me custaram dinheiro que já não valem elle ágora...
—Pequenas coisas! Não compro isto para negocio, e por isso não penso em o adquirir por menos do seu justo valor.
—Mas então a casa é de v. ex.a!—decidiu o brazileiro com uma profunda cortezia.
—V. s.a não me conhece—disse Julio—mas eu dou como fiador á validade d'este contrato o meu amigo dr. Gustavo de Magalhães, aqui seu vizinho. Quando quizer, faremos a escriptura!
—O sr. doutor Gustavo! Pois não! Conheço elle muito bem. V. ex.a é hospede d'elle, já vejo...
—Sou. V. s.a dirá agora quando quer legalisar o contrato e quanto devo dar-lhe de signal.
—Signal!—protestou o brazileiro—não é priciso elle... Os homens se conhecem pelas palavras, já viu?
—Como queira.
—Me dê v. ex.a oito dias para tratar de minha mudança, e iremos no tabellião fazer a escriptura, hein!
—Não lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um mez. Não tenho pressa de vir para esta casa, mas tenho-a de lhe chamar minha.
—Lhe póde chamar desde já. Minha palavra vale uma escriptura! Mas não ha pricisão de mais demora, não... Homens de bem se entendem sempre elles... Quando v. ex.a quizer, vamos no tabellião...
Julio offereceu-lhe a mão e despediu-se, voltando a casa de Gustavo.
—Já comprei a casa de Noberto de Noronha—disse elle ao amigo, logo que chegou.
—O que!—exclamou Gustavo.—Pois logo de manhã, tão cedo, foste tratar um negocio d'essa ordem?
—Se eu tinha resolvido compral-a, não vejo motivo para protelar a compra. Agora conto comtigo, como advogado, para que o contrato tenha uma realisação legal.
—Por quanto a compraste?
—Por doze contos, tal como está.
—Podias tel-a adquirido por oito ou nove!
Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e Julio era o proprietario da casa que pertencera a Noberto de Noronha.
O brazileiro Pinho, tendo recebido o preço da venda, apressava agora a sua partida, no intuito sómente de não occupar por muito tempo a casa alheia.
Os convidados de Gustavo, em assembleia magna, tendo sabido que Julio comprára a casa de Noberto e se constituira, por este facto, um dos proprietarios da localidade, resolveram addiar a celebração dos festejos para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia na sua nova propriedade.
Esta deliberação fôra tomada em segredo e mantinha-se discretamente guardada entre todos, sem chegar ao conhecimento do melancholico amigo de Gustavo de Magalhães.
—Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre, sociavel, sem os absurdos preconceitos de um homem que, tendo percorrido o mundo e visto tudo, chega a capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de o emocionar e lhe causar alegria—dizia o magistrado de voz aflautada, presumindo de habil conhecedor das diversas fraquezas e aberrações do espirito humano.
—Fatalmente—commentava o medico—alli ha desiquilibrio de faculdades... Aquella melancolia profunda, aquelle afastamento systematico de todo o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave enfermidade mental, propria d'um homem que passou a vida em viagens, sob a impressão dos variados aspectos da natureza e sob a influencia de diversos e oppostos costumes...
—Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do coração... amôres mal succedidos...—aventou um dos menos theoricos e mais praticos.
—Não, alli o que ha é tedio, cansaço, o spleen dos inglezes—opinou o juiz.—O homem correu tudo, viu tudo, gozou tudo—menos a amizade dos amigos e o amôr inconsutil da mulher que toda se dedica ao homem amado. Nas viagens—accrescentou com grande auctoridade e emphase de sabedor—perde-se a sensibilidade pela frequente e repetida excitação dos sentidos. O espirito habitua-se á contemplação dos espectaculos grandiosos e desdenha, como insignificantes e mesquinhos, os suaves e dulcissimos prazeres da convivencia remansosa e placida de almas irmãs, prazeres que são a vida do coração... Amôres mal succedidos, como diz aqui o nosso amigo Gilberto, não creio... Mais me inclino a crêr que seja o desdem pelos demasiados amôres bem succedidos, pelos amôres faceis que não faltam nunca aos viajantes ricos e que são, por via de regra, os unicos que elles conhecem... E quem me diz a mim que o que este homem sente é justamente a falta de um amôr sério, verdadeiro, como é o de uma esposa por seu marido?...
—Pelo menos, quando não seja isso—disse o commendador—o casar devia fazer-lhe bem... Se a mulher fosse d'estas que ás vezes apparecem na vida de um homem como um flagello, que com tudo embirram e com coisa alguma se satisfazem quando estão a sós com os maridos, elle buscaria a convivencia da sociedade como um refugio contra as impertinencias da esposa!
Todos se riram a esta indiscreta confirmação dos rumôres que corriam acerca da vida torturada que o commendador passava, de portas a dentro, com a D. Graciana.
—Que eu por mim—emendou logo com solicita dissimulação—com bem o diga, não sei praticamente o que isso é... Mas tenho ouvido varios maridos queixarem-se do inferno que passam em casa com as mulheres, e faço ideia do petisco que ha-de ser...
—Nós [tambem] fazemos ideia...—atalhou o juiz sarcasticamente, na sua voz de assobio.
—Meus amigos—interrompeu Gustavo, que ouvira esta conversação sem tomar parte n'ella—não se cancem em conjecturas sobre os motivos que pódem ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo que hoje é. A vida d'este homem é um mysterio que não seria facil decifrar nem mesmo aos que na mocidade o conheceram intimamente, quanto mais áquelles que só agora o encontram, depois de velho. De resto, pouco deve preoccupar-nos a sua tristeza, se não está na nossa mão o dissipar-lh'a. Querer á força fazer de um homem triste um homem alegre, parece-me coisa tão insensata e absurda como querer mudar as tardes melancholicas do outono nas [risonhas] manhãs da primavera. Cada qual é como é; e nem me parece que a nós nos seja licito avaliar da tristeza ou da alegria intima de um homem, pelo simples aspecto da sua physionomia ou pela estranha soturnidade dos seus habitos. O que para nós é tedio póde ser para elle distracção; o que para nós é dôr póde muito bem ser para elle um grande prazer. Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole, ou por caracter, se comprazem, desde a infancia, na solidão mais absoluta, achando insupportavel a convivencia em que outras pessoas encontram uma verdadeira felicidade, um incomparavel prazer?
—Isso é verdade!—accudiu o commendador—eu já tive uma epocha na minha vida em que todo o meu prazer era agarrar môscas para as dar a comêr a um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava n'isso horas e horas, sem dar palavra, e se alguem me interrompia n'aquella tarefa em que sentia um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E em todo o caso, aposto que nenhum dos senhores acharia distracção n'uma coisa tão simples...
—Não tanto!—replicou o juiz—Quem não tem que fazer caça môscas, diz o vulgo. Ora se o meu amigo não tinha mais que fazer, acho acertado que se distrahisse por esse modo... e não estranho que ainda agora se entregue ao divertimento...
—Agora não!—tornou o commendador.
—Por falta de pisco?—perguntou o medico.
—Por falta de pisco e por falta de paciencia... Mudei completamente... Agora não me entretem nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com passaros em casa.
A conversação proseguiu animada de ditos picarescos a proposito d'esta ingenua confissão do commendador que, sem o querer, veio desviar as attenções do grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo.
A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim a D. Aurelia de Magalhães e travava-se entre os dois este dialogo:
—Então, já sei que vou tel-o por vizinho, não é verdade, sr. Julio de Montarroyo? Disse-me o Gustavo que v. ex.a já comprou a casa de Norberto de Noronha.
—A casa de Helena, minha senhora... É verdade, comprei-a.
—Na intenção de a habitar?
—Sim, minha senhora. Faço tenção de passar n'ella os ultimos dias da minha vida.
—É muito triste este sitio a que n'este momento empresta uma apparencia de alegria a permanencia dos nossos hospedes... Mas, quando meu irmão retirar para Lisboa e todos regressarem a suas casas, tudo isto recahe n'um silencio e n'uma tristeza que só póde agradar ás almas tristes...
—É justamente esse silencio e essa tristeza que a minha alma anceia...
—A solidão e a tristeza são um lenitivo para a alma quando nos prendem recordações saudosas aos sitios em que habitamos e em que outr'ora fomos felizes. Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me criei, aqui passei dias felizes na companhia dos que me eram caros, e aqui os vi desapparecer para sempre e para nunca mais. Mas v. ex.a, snr. Julio de Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me lembre, e em dias bem luctuosos e bem tristes para o pobre Norberto de Noronha...
—E para o meu coração, minha senhora! Quando se é verdadeiramente desgraçado, quando nunca se teve uma hora de felicidade, sente-se um prazer amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios em que mais soffremos, em que o nosso coração sentiu mais profundos e mais lancinantes os golpes da desventura. Foi justamente n'esse predio que hoje comprei que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella casa, dezoito annos volvidos, pareceu-me vêr ainda, ao canto da mesma sala, sentado na mesma poltrona de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com os olhos fitos em mim, ouvindo com a alma anciada a espelhar-se-lhe na pupilla dilatada e immovel, as palavras de animadora esperança que então proferi, e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio d'aquelle infernal martyrio! E esta evocação terrivel, bem longe de augmentar o meu soffrimento, suavisa-o. Comparando o que soffro e o que tenho soffrido com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo para me julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu, que ella passou os unicos dias venturosos da sua infancia cheia de sonhos vãos e de anhelos de felicidade, até que a negra mão da desventura a veio empolgar...
—Pobre Helena!—murmurou D. Aurelia—se v. ex.a a conhecesse n'esse tempo, se pudesse avaliar os finos quilates d'aquelle espirito, a suave candura d'aquelle nobre coração! Eu, que fui sua amiga, sua companheira de infancia, eu que tão de perto privei com ella e conheci todos os primôres d'aquella alma nobilissina, ainda hoje me espanto, e não sei como explicar aquelle rapido e insolito reviramento, senão pela loucura. Para mim, Helena de Noronha soffreu grande abalo nas faculdades mentaes, antes de abandonar o pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre com uma religiosa pontualidade!
—V. ex.a nunca mais teve noticias d'ella?
—Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que a minha pobre amiga perdeu a rasão antes do fatal passo que havia de custar-lhe não só a propria ventura, mas tambem a vida do pae e do primo.
—Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado em casa de um taberneiro da Serra do Carvalho...
—É certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o alli sob pretexto de que encontraria Helena, lá conseguiu matal-o e roubal-o. A principio, suppôz-se que a morte fôra obra de malfeitores que o tivessem assaltado em viagem, porque o cadaver appareceu na estrada. Mas uma denuncia anonyma, enviada ás auctoridades e confirmada mais tarde por um sapateiro de Braga, por alcunha o Tomba, que foi testemunha no processo, pôz a justiça na pista do criminoso, e o Perneta foi julgado e condemnado a galés por toda a vida.
—O Tomba!—disse Julio—Conheci muito bem esse sapateiro e procurei-o agora no meu regresso a Braga, esperançado em obter d'elle esclarecimentos que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas ha muitos annos que desappareceu, e ignora-se o rumo que levou, podendo ser até que já tenha morrido...
—Não sei, não conheci o Tomba. Ouvi fallar muito n'esse homem por aquella occasião e sei que veio depôr como testemunha no tribunal de Lanhoso, mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle.
—Se o Tomba esclareceu a justiça e depôz como testemunha, então o assassinato do pobre Alvaro obedeceu a um plano de vingança a que não foi estranho o raptor de Helena...
—O padre Anselmo?
—Justamente. Como conhece v. ex.a esse nome?
—Pois não sabe v. ex.a que elle andou por aqui missionando e que foi com as suas perniciosas praticas ao canto do confissionario que conseguiu desvairar a minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a casa paterna?
—E v. ex.a era sabedora das intenções de Helena?
—Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu trataria de impedil-a d'um semelhante passo. Guardou-se de mim como de toda a gente. O que eu lhe notava era uma tristeza profunda, um recolhimento mystico de que cheguei por vezes a reprehendel-a. Mas, como ella insistia, não me preoccupei muito com isso, por suppôr que, retirando os missionarios, breve retomaria a sua habitual despreoccupação de espirito. Enganei-me! O mal tinha lavrado fundo, e o que eu suppunha não passar de um momentaneo devaneio mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena! nem chego sequer a accusal-a de ingratidão pelo seu procedimento para comigo, porque, apesar de quanto se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irmão Gustavo, julgo-a irresponsavel.
—É esse o juizo que v. ex.a forma de Helena de Noronha?
—É. E formo-o assim, porque a conheci desde a infancia, e posso assegurar a v. ex.a que não havia mais nobre alma, coração mais terno e cheio de affectos. Extremamente sensivel e impressionavel, de uma boa fé e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a perdeu.
—O pae, segundo creio, projectava casal-a com o primo, com o Alvaro...
—Sim, essas eram as supremas aspirações de Norberto.
—E Helena amava o primo?
—Não o amava. Mas tambem não tinha preferencia por outro homem. Muitas vezes fallámos n'isso e lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse indifferente, casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me até que, de uma das ultimas vezes em que nós fallámos a tal respeito, ella me affirmou: «Meu primo é para mim um homem como os outros. Caso com elle como casaria com outro que meu pae indicasse. O mesmo não succederia, se eu tivesse, como muitas meninas da minha edade, algum rapaz a quem quizesse mais...»
—Não foi, portanto, a repugnancia invencivel pelo primo que a levou a abraçar a vida religiosa....
—Decerto não foi. Mesmo porque Norberto de Noronha amava muito a filha para a constranger a casar com um homem que ella abertamente recusasse. Em Helena, o que houve foi a imaginação excitada pelas perigosas e seductoras pinturas que o padre Anselmo lhe fez da vida religiosa, fanatisando-a e enlouquecendo-a com infernal habilidade.
Os dois calaram-se por instantes.
—Sabe v. ex.a—disse Julio de Montarroyo por fim—que me tem sido immensamente grata ao espirito esta conversação a respeito de Helena?
—É natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que v. ex.a ignorava...
—Por isso, e porque não ha para mim felicidade igual áquella que experimento em poder fallar de Helena com pessoa que a tivesse conhecido. Com effeito, v. ex.a acaba de me contar pormenores que me eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda isso não é tudo: é que sinto verdadeiramente um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de Noronha e de coisas que de longe ou de perto se relacionem com ella. Foi esse, e não outro, o motivo porque vim comprar a casa onde ella nasceu, onde se creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que alli tudo me hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles logares me dará como que uma recordação d'aquella creatura, que o destino pôz no meu caminho para logo a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e desapparece um meteoro no espaço, em noite calmosa de estio!
—V. ex.a, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena de Noronha com uma paixão que tornaria feliz a minha pobre amiga, se ella tivesse podido apreciar como eu toda a vehemencia do seu affecto!
—Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a amava...
—Sabia e não lhe correspondeu a esse amôr que preencheria as mais ardentes aspirações de um coração sedento de affectos?
—Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto a sua nobre alma lh'o permittia, a esta paixão que me inspirou. E se não abandonou o convento para vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem que ella amava, é porque foi victima de alguma infame cilada que para sempre a perdeu.
Então Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que tivera repetidas entrevistas com Helena no convento do Sardão; que ahi combinára com ella a fuga, quando uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar todo o plano concertado entre os dois; e que, sendo compellida a seguir para Paris, lhe escrevera uma carta convidando-o a ir esperar noticias d'ella na grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado muitos mezes, aguardando as promettidas noticias, nunca mais lhe fôra possivel ouvir sequer fallar d'ella.
—Conclue portanto que Helena...
—Foi infamemente illudida mais uma vez pelos seus crueis algozes!...
—Se Helena tinha alguma vez pensado sériamente em abandonar a vida religiosa, creio bem que não seria facil impedil-a de realisar o seu pensamento. Helena de Noronha era por demais altiva e dotada de energia de caracter sufficiente para não se deixar prender e illaquear por outra vontade que não fosse a sua.
—Eu creio que Helena de Noronha já não vive... Procurei-a por toda a parte, percorri o mundo em sua procura, e em parte alguma pude jamais achar quem de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella. Isto me leva a crêr que a supprimiram antes que ella pudesse effectuar a sua evasão.
—Seria possivel?
—Nos antros jesuiticos tudo é possivel, minha senhora.
—Mas não sabe v. ex.a que o padre Anselmo foi quem resolveu Helena a professar?
—Sei muito bem.
—Pois esse padre não poderia dar noticias de Helena, se lh'as exigissem?
—O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me com verdade do destino de Helena, se me fosse facil encontral-o. Mas é homem de quem tambem ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia talvez dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha muitos annos em Lisboa... Era uma tal D. Carlota que, tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos os esforços que empregámos para libertar Helena do convento, á ultima hora nos trahiu, reatando as suas relações com o padre Anselmo... Regressando a Braga, alimentava ainda esperanças de a encontrar; mas a morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio que envolve tanto a existencia de Helena como a do jesuita que a arrebatou para sempre á familia e á sociedade.
—Pobre Helena!—suspirou D. Aurelia—que negro destino foi o seu!
—Infelicitou-se e infelicitou quantas pessoas se lhe aproximaram. Ha creaturas assim dotadas d'este fatal condão de trazerem o soffrimento e a desgraça comsigo.
—E no emtanto as suas intenções eram sempre nobres e puras. Ninguem conviveu mais de perto com ella e tambem por isso ninguem melhor do que eu póde avaliar o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle coração!
—V. ex.a que vae ter-me por vizinho, hade ter paciencia, sr.a D. Aurelia, e permittir-me que alguma vez peça ás suas recordações o dôce lenitivo de me fallar de Helena...
—A minha vida é tambem uma interminavel cadeia de amargas tristezas n'este solitario canto do mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e soffri todas as alegrias e todas as dôres da existencia... Posso dizer que hoje vivo, como v. ex.a, só de tristes recordações...—replicou D. Aurelia com um fundo suspiro.
A conversação foi interrompida n'este ponto pela chegada do juiz e do commendador que desciam ao jardim discutindo entre si o programma das festas em honra de Julio.
Ao vêrem-n'o a distancia, em conversa animada com a D. Aurelia, os dois entreolharam-se e, com um sorriso significativo, disse o magistrado:
—Quer vêr que andamos, sem o pensar, preparando uma festa de nupcias?
—Póde ser...—replicou o commendador—A D. Aurelia está ainda muito fresca e, se o Julio tiver juizo, o que deve fazer é casar com ella para se distrahir.
Assim dizendo, fôram aproximando-se sem darem a perceber nos gestos ou nas palavras a impressão. que aquelle encontro lhes causára.
Mais tarde veremos se o juiz tinha razão.
XIII
Denuncia
—Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de indagar por si o que póde ficar sabendo desde já.
—Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que sabe!
—Vê que confio na sua promessa e que não lhe peço como penhor a mais leve liberdade, nem sequer o adiantamento de um beijo...
—É de mais!—bradou Leonor, colerica e impaciente.—Se veio aqui, para se divertir á minha custa, fez muito mal, porque póde sahir-lhe cara a brincadeira!
—Ora vamos, minha querida... socegue!—volveu o Lazaro com um sorriso cynico.—Bem vê que eu sou incapaz de abusar da sua credulidade, submettendo o seu coração a um rude soffrimento por mero gracejo. Mas estes casos, porisso mesmo que são graves e sérios, querem-se meditados e reflectidos. Temos obrigação de os encarar com serenidade e sangue frio, para procedermos com acerto e prudencia.
—Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia me nota, é apenas a de ouvir as revelações que me interessam e que certamente me vae fazer.
—Ora muito bem!—principiou o João Lazaro.—Disse-lhe na minha carta que Eugenio pediu em casamento uma menina formosa e rica. E disse a verdade.
—Como se chama essa menina?
—Beatriz.
—Onde mora?
—Na rua do Breyner e é filha do capitalista Custodio de Jesus.
—Diz então que o casamento está projectado para breve?
—Digo.
—N'esse caso, essa menina ama-o?
—Tanto não sei, mas é de suppôr que sim, visto que está disposta a recebel-o por marido. O que, porém, não offerece duvida é que Eugenio a ama, pois que pediu a sua mão.
—Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar?
—Eugenio nada me disse. Não atraiçôo, portanto, o amigo, descobrindo o seu segredo...
—Como o soube então?
—Se é publico e notorio! Se nos cafés não se falla de outra coisa!
—Não será isso uma invenção de rapazes levianos, que gostam de se divertir á custa alheia?
—Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Além d'isso, a pessoa que mais particularmente me elucidou d'este caso não conhecia Eugenio e veio pedir-me informações a seu respeito.
—O que lhe disse?
—O que não podia deixar de dizer de um homem de quem sou amigo: que Eugenio é muito bom rapaz, um cavalheiro a toda a prova.
—Mas é forçoso impedir esse casamento!
—Talvez não seja impossivel.
—Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio de Jesus?
—De vista apenas. Não tenho com elle relações pessoaes; mas conheço amigos intimos seus. O que deseja d'elle?
—Informal-o de que Eugenio mantém relações comigo e fazer comprehender que não deve dar a filha a um homem que tem uma amante...
—Está doida! E o commendador Garcia?
—Que me importa a mim o commendador Garcia, comtanto que Eugenio não case!—bradou Leonor, erguendo-se arrebatadamente do sofá em que se achava sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma agitação indescriptivel.
—Venha cá, socegue!—disse João Lazaro, tomando-lhe a mão.—Prometteu-me obedecer a todas as minhas indicações, e é forçoso que cumpra o que prometteu.
—Pois sim... Diga então o que devo fazer...
—Em primeiro logar, certificar-se de que é verdade o Eugenio trahil-a.
—Como?
—Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a confiança...
—Merece...
—Pois a sua criada procurará travar relações com alguma das criadas de Custodio de Jesus, e por esse modo saberá o que ha de verdade ácerca do que se diz. Os criados sabem tudo e são os melhores informadores d'este mundo.
—E obtida a certeza?
—Obtida a certeza, nada diz a Eugenio até ao momento que eu lhe marcar. Faz isto?
—Faço.
—Que Eugenio não suspeite que lhe está no rasto da perfidia.
—Não suspeitará.
—E eu voltarei a informál-a.
—Quando?
—Quando tiver obtido todos os informes que precisamos.
—E até lá nada devo dizer nem fazer?
—Nada, senão isto: pôr a sua criada em relações com as criadas do Custodio de Jesus.
—Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel? Como quer que eu, com o inferno no coração, guarde silencio e me sujeite ás dilações de uma informação tão morosa? Eu preciso de resolver e actuar immediatamente! Não está no meu genio occultar por muito tempo o que me vae n'alma...
—As circumstancias impõem-lhe dissimulação e prudencia.
—As circumstancias! Qual é a mulher que no meu caso attende ás circumstancias?
—Todas. No seu caso, todas—replicou João Lazaro com reflexiva gravidade.
E amaciando a voz, n'um tom de convicção profunda:
—Ora venha cá!—disse elle—Deixe-me pensar pela senhora e defender os seus interesses, o seu futuro, a sua posição, uma vez que essa cabecinha transtornada não se mostra em estado de pensar coisa alguma com acerto. E, creia, foi principalmente por isso que não quiz logo dizer-lhe tudo na minha carta... Calculei que faria escandalo se não tivesse ao seu lado alguem que a dirigisse, e procedi de fórma a obrigal-a a ouvir-me e a attender-me...
—Pois sim... já o ouvi e já o attendi... Mas o que não posso, o que os meus nervos não consentem é, obtida a prova da perfidia de Eugenio, remetter-me a uma passividade absoluta, deixando que o infame realise os seus torpes intentos!
—Não seja creança e vamos a vêr se consigo convencel-a de que um escandalo ruidoso nada impede e a mais ninguem prejudica senão á senhora...
—Só a mim, diz?
—Sim, só á senhora. Ora ouça, Leonor: Imagina que se se apresentar em casa de Custodio de Jesus e disser: «eu sou amante ostensiva do commendador Garcia, e o Eugenio de Mello é o meu amante clandestino», essa declaração pesará no espirito do abastado capitalista o bastante para impedir o casamento?
Leonor baixou os olhos e não [respondeu]. João Lazaro continuou:
—O mais que com isso poderá fazer, é provocar explicações da parte de Eugenio que, bem longe de negar, confessará essas relações, que nada affectam a reputação de um rapaz livre e em pleno goso da sua mocidade; pois, infelizmente, toda a gente considera perdoaveis uns amôres que sempre se calculam do duração ephemera e que, por isso mesmo, ninguem toma a sério.
A loura ergue-se como impellida por occulta mola. Os olhos faiscaram-lhe de colera, n'uma indignação suprema.
—Ninguem toma a sério o amor de uma mulher como eu!—exclamou ella—E porque? Acaso o meu coração vale menos do que o d'outra mulher? Acaso sou eu uma creatura differente de todas as outras, e porisso condemnada a não sentir no meu coração os dôces affectos que são a vida e a felicidade ainda dos seres mais despresiveis e obscuros? Não terei eu o direito de amar e de exigir que o homem que despertou na minha alma o terno sentimento a que jurou corresponder cumpra lealmente os seus juramentos?
João Lazaro ouviu impassivel esta rajada de indignação, sem perder um só instante o sorriso meio amavel, meio ironico, que desde o principio lhe brincava nos labios.
—Tem razão—disse elle por fim—Mas que quer, minha querida? A sociedade é quasi sempre cruel e iniquia nas suas decisões; e ahi está precisamente um caso em que ninguem, da boa fé, poderá attribuir-lhe rectidão e justiça. No emtanto, como a sociedade é que dicta a lei pela qual cada um se rege, segue-se que Eugenio, na sua perfidia, tem a seu favor a lei, que todos acatam, ao passo que a senhora tem apenas a razão, que ninguem attende.
—Ha de pelo menos attendel-a elle!
João Lazaro teve uma gargalhada de zombaria.
—Não o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse ouvidos á razão, se ao menos tivesse uma sombra de respeito por esse coração que elle esmaga, por esse amor que calca aos pés, não teria pensado em casar-se. Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve ter a confirmação do que lhe assevero, o Eugenio pensa, em se fazer homem sério por meio de uma alliança vantajosa e respeitavel, e está disposto a romper os laços de uma affeição que nunca reputou duradoura nem digna d'elle.
—Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro canalha que é!—bradou Leonor completamente dementada.
—Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu me julgo no dever de impedir, porque a amo, porque a estremeço, Leonor, e porque nunca poderia absolver-me de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo cujo ridiculo cahiria inteiro sobre a senhora? Obrigar a que a discutissem nos cafés e a ultrajassem nas conversações particulares, como a uma mulher despresada, uma mulher publicamente repellida? A sociedade é assim, minha querida amiga! Não perdôa aos vencidos. E depois, o ruido d'este escandalo chegaria aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector. Por muito que elle lhe queira, por muito que transija com os despoticos impetos do seu temperamento e do seu coração de mulher galante, bem vê, Leonor, que seria crear-lhe uma situação que nenhum homem, nem mesmo o commendador Garcia, poderia acceitar... O rompimento, portanto, com este seria inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgraça e mais um motivo de prazer para todos aquelles a quem o seu desdem tem magoado. Repare bem n'isto, Leonor, olhe que é um amigo sincero e verdadeiro que lhe está fallando.
—Mas o que devo então fazer, santo Deus!—clamou a formosa Laura, estorcendo as mãos em desespero.
—Ter prudencia e esperar.
—Ter prudencia! Esperar... o que e como?
—Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingança é o prazer dos deuses? Pois tenha prudencia e vingue-se, Leonor...
—Vingar-me? Sim! quero e hei-de vingar-me... Porém, como? Como é que eu hei-de levar a cabo essa vingança tremenda que o meu coração anhela?
—Primeiro, convença-se serenamente do delicto. Depois, julgue com provas á vista, e fulmine a condemnação que o seu coração lhe ditar. Para a auxiliar na execução da sentença, cá estou eu. Façamos uma alliança, um pacto intimo, para nos auxiliarmos um ao outro. Eu ajudal-a-hei a vingar-se do homem que a trahiu; a senhora ajudar-me-ha a...
—A que?
—A realisar grandes emprezas que premedito...
Leonor fitou-o com uma viva curiosidade.
—E que emprezas são essas?
—Mais tarde lh'o direi... Por emquanto, basta só que saiba que podemos auxiliar-nos reciprocamente com grande vantagem e interesse para ambos. Posso contar com a senhora?
A loura hesitou. Por fim respondeu:
—Póde. Mas ha-de de ajudar-me a impedir o casamento de Eugenio, ou, pelo menos, a vingar-me d'elle.
—Isso mesmo é o que eu lhe estou propondo.
—Está bem!—disse a loura estendendo-lhe a mão—póde contar comigo.
João Lazaro embuçou-se no capote, carregou o chapéo sobre os olhos e dispoz-se a sahir.
—Ámanhã voltarei á mesma hora—disse elle á sahida.—E o signal convencionado para eu saber que me recebe, póde ser o mesmo de hoje.
—Espere!—reflectiu a loura—Se ás vezes, por qualquer motivo, não me fôr possivel recebel-o...
—Claro está que não dá o signal.
—Mas se me fôr preciso prevenil-o de que póde vir mais tarde...
—Toque então a marcha da Cadiz.
—Está bem.
—Ainda mais—tornou o Lazaro—se quizer prevenir-me de que não venha no dia seguinte, substitua. a marcha da Cadiz pela Cavallaria Rusticana. Ouvindo-a, já fico sabendo que só poderei vir dois dias depois.
—Não se dará esse caso, mas sempre é bom prevenir...
—Comprehendeu-me perfeitamente. Até amanhã.
—Até amanhã.
O aventureiro tomou a mão de Leonor, depositou n'ella galantemente um beijo, e sahiu.
XIV
Miseravel!
XV
Conluio infame
XVI
O rapto
XVII
Quem semeia ventos...
XVIII
Revelação
—Vamos, vamos!—replicou o padre Filippe commovido, procurando furtar-se ás demonstrações de reconhecimento do pobre rapaz—Trata de procurar uma casa em condições de abrigar por alguns dias tua mãe adoptiva e a tua noiva. Os meus recursos são minguados—concluiu—Sou um pobre sacerdote que fez eterno voto de pobreza... de pouco posso dispôr... Mas até onde as minhas magras economias o permittam, tudo está á tua disposição, porque tudo é teu, meu Paulo.
—Oh, meu pae!
—Essa menina deve ser tratada com a decencia e conforto a que certamente esta habituada...
—Eu tenho amigos, meu pae!—affirmou Jorge.
—Os teus primeiros amigos somo nós, eu e madre Paula. Não tens, pois, o direito de recorrer ao auxilio monetario dos segundos emquanto existirem os primeiros. A minha casa irás buscar todo o dinheiro de que careceres. Vê bem a casa que escolhes para receberes n'ella a tua familia.
—Tenho um amigo, quasi um irmão, que não só me acompanha e auxilia na aventura do rapto, como põe á minha disposição a sua casa, onde não tem mais familia e onde nada falta.
—Muito bem. Se entendes que ahi pódem acolher-se sem perigo, deves acceitar.
—Já acceitei, meu pae!
O leitor já conhece como o rapto se effectuou e como madre Paula recebeu com os extremos e carinhos de mãe a gentil Beatriz, salva das garras do aventureiro Eugenio de Mello e da sua alma negra, o procurador Belchior, por maneira tão original como inesperada.
Agora, emquanto a pobre menina, livre de perigo, encontra na doce convivencia da abbadessa os affectos maternaes que a morte lhe roubára e os tres sujos heroes d'esta repellentissima, porém veridica, historia se empenham n'uma lucta de desconfianças e malquerenças, que são o seu verdadeiro castigo, voltemos a S. Martinho do Campo, onde novos e interessantes episodios se estão dando.
XIX
Um velho amigo
XX
Alma negra
XXI
Tal vida, tal fim
XXII
Mysterio
XXIII
Allucinação
XXIV
Estranho encontro
XXV
Pobre Helena!
«Minha querida Paula:
Tua
Helena.»
XXVI
Um amigo dos diabos
XXVII
Duas amigas
XXVIII
Coração morto
XXX
Confidencias
XXX
Mãe
XXXI
O homem dos oculos verdes
Conclusão
FIM
INDICE
| PAG. | |
| I—Os irmãos da mão negra | [5] |
| II—Amor e esperança | [23] |
| III—Pae e filha | [43] |
| IV—Dois patifes | [69] |
| V—Madre Paula | [78] |
| VI—Á hora da morte | [87] |
| VII—Tres miseraveis | [103] |
| VIII—Entre irmãos | [124] |
| IX—Amores faceis | [135] |
| X—Para os grandes males | [153] |
| XI—João Lazaro | [168] |
| XII—Velhos conhecimentos | [181] |
| XIII—Denuncia | [211] |
| XIV—Miseravel! | [239] |
| XV—Conluio infame | [255] |
| XVI—O rapto | [262] |
| XVII—Quem semeia ventos | [280] |
| XVIII—Revelação | [289] |
| XIX—Um velho amigo | [304] |
| XX—Alma negra | [317] |
| XXI—Tal vida, tal fim | [333] |
| XXII—Mysterio | [346] |
| XXIII—Allucinação | [357] |
| XXIV—Extranho encontro | [369] |
| XXV—Pobre Helena | [389] |
| XXVI—Um amigo dos diabos | [399] |
| XXVII—Duas amigas | [411] |
| XXVIII—Coração morto | [427] |
| XXIX—Confidencias | [436] |
| XXX—Mãe | [442] |
| XXXI—O homem dos oculos verdes | [452] |
| Conclusão | [461] |
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
| Original | Correcção | ||
| [#pág. 8] | ter fôr | ... | te fôr |
| [#pág. 17] | a aquella | ... | aquella |
| [#pág. 18] | danda-nos | ... | dando-nos |
| [#pág. 23] | algum temdo | ... | algum tempo |
| [#pág. 24] | pancado | ... | pancada |
| [#pág. 25] | com | ... | como |
| [#pág. 35] | Na primeiro | ... | No primeiro |
| [#pág. 43] | pupilllo | ... | pupillo |
| [#pág. 70] | mefica | ... | me fica |
| [#pág. 98] | ella | ... | elle |
| [#pág. 99] | pabre | ... | padre |
| [#pág. 109] | palava | ... | palavra |
| [#pág. 111] | famila | ... | familia |
| [#pág. 112] | devo ou | ... | devo eu |
| [#pág. 127] | circumstancios | ... | circumstancias |
| [#pág. 140] | continou | ... | continuou |
| [#pág. 162] | aprsentou | ... | apresentou |
| [#pág. 164] | auctoridado | ... | auctoridade |
| [#pág. 169] | importaacia | ... | importancia |
| [#pág. 190] | as as minhas | ... | as minhas |
| [#pág. 194] | muduram | ... | mudaram |
| [#pág. 201] | tembem | ... | tambem |
| [#pág. 202] | risonha | ... | risonhas |
| [#pág. 223] | dinheiro | ... | o dinheiro |
| [#pág. 226] | trasnporte | ... | transporte |
| [#pág. 235] | respendeu | ... | respondeu |
| [#pág. 258] | dm | ... | em |
| [#pág. 260] | mutio | ... | muito |
| [#pág. 263] | prepada | ... | preparada |
| [#pág 263] | seguiramos | ... | seguiram os |
| [#pág. 267] | pergunou | ... | perguntou |
| [#pág. 271] | as sentidos | ... | os sentidos |
| [#pág. 288] | ciosa | ... | coisa |
| [#pág. 310] | o gente | ... | a gente |
| [#pág. 311] | semelhanle | ... | semelhante |
| [#pág. 311] | qne | ... | que |
| [#pág. 315] | esssas | ... | essas |
| [#pág. 317] | a molestias | ... | as molestias |
| [#pág. 333] | pelo colera | ... | pela colera |
| [#pág. 344] | Lenor | ... | Leonor |
| [#pág. 350] | desconhcida | ... | desconhecida |
| [#pág. 357] | horrrivel | ... | horrivel |
| [#pág. 357] | algnma | ... | alguma |
| [#pág. 365] | pssou | ... | passou |
| [#pág. 366] | ssforços | ... | esforços |
| [#pág. 430] | Juliod e | ... | Julio de |
| [#pág. 442] | fiho | ... | filho |
| [#pág. 450] | setas | ... | estas |
| [#pág. 450] | o reprimendas | ... | e reprimendas |
Ao longo do texto original encontramos "..", num espaço onde caberiam reticências ("..."): assumi tratar-se de um erro tipográfico, substituindo os dois pontos horizontais por três.
Noberto e Norberto são variações constantes da mesma palavra, a manter de acordo com o original. O mesmo acontece para as palavras Laura e Leonor, que se identificam como sendo a mesma personagem.
Os números dos capítulos foram alterados a partir do capítulo XIII (no original capítulo XIV da [página 211]), uma vez que houve um erro confirmado com a ordem correcta do índice.
Foram acrescentadas aspas de fecho quando estas não existiam e onde faziam falta, por terem sido iniciadas e não terminadas.
Foram acrescentados travessões quando se mostraram necessários e vice-versa.