Notas de transcrição:
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1920.
No original havia uma errata. Nesta adição corrigimos os erros ali assinalados, e marcámos as alterações colocando o texto originalmente impresso em comentário como: correcção. Outros erros detectados durante a transcrição, foram devidamente corrigidos e, quando poderiam alterar a intenção do autor, foram assinalados como: correcção.
ANTÓNIO PATRÍCIO
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SERÃO INQUIETO
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CONTOS
LIVRARIAS AILLAUD E BERTRAND—PARIS-LISBOA
SERÃO INQUIETO
DO AUCTOR
OCEANO (versos).
O FIM (história dramática em dois quadros).
SERÃO INQUIETO (contos), 2.ª edição.
PEDRO O CRU (drama em 4 actos), 2.ª edição.
DINIS E ISABEL (Conto de primavera).
Em preparação:
POEMAS.
O REI DE SEMPRE (Tragedia Nossa).
SHEHÉREZADE (contos).
CINCO DIÁLOGOS DE SONHO.
Composto e impresso na Tip. da Empresa Diário de Notícias
Rua do Diário de Notícias, 78
ANTÓNIO PATRÍCIO
...
SERÃO
INQUIETO
CONTOS
2.ª EDIÇÃO
....
LIVRARIAS AILLAUD E BERTRAND
PARIS—LISBOA
LIVRARIA CHARDRON
PORTO
LIVRARIA FRANCISCO ALVES
RIO DE JANEIRO
1920
A
ANTÓNIO CÂNDIDO
Ecris avec du sang et tu apprendras que le sang est esprit.
Ainsi parlait Zarathoustra.
F. NIETZSCHE.
{9}
[DIÁLOGO COM UMA ÁGUIA]
[Diálogo com uma águia]
Fui jantar hontem ao palácio. Estava lindo! Felizmente ninguêm. Tudo deserto. Quando eu desci do restaurante, a accender um Laferme com preguiça, caía a tarde de outono em vitrais ricos p'ralêm das ramarias a despir-se. Passeei algum tempo na avenida, e sem saber porquê, indo ao acaso, fui estacar nesse recanto triste onde mora engaiolada uma águia velha. Há que tempos conheço êste mostrengo, num abandono de asilo, de ar pedinte, com asas que diríeis paralíticas, de um tom coçado e neutro de miséria!... Uma águia isto, êste espantalho! A decadência reles de estas asas que tanta{12} vez olhei com indiferença, nem eu sei bem porquê, impressionou-me. Um animal de fábula, de mito, um ser que bebeu sol de olhos abertos, curvava as garras frouxas num poleiro, e depois de carnagens e aventuras, encolhido, misérrimo, com fome, acabava a aspirar a um meio-bife, como um vadio à porta de um café. Coitada! Teve uma forma assim aquela águia que saboreou Prometeu numa montanha!
A gaiola está sórdida, está imunda. Antes estivesse empalhada num museu, ou no quarto de trabalho de um zoólogo, sócio da Academia, homem de estudo, que ao voltar da rua ou da glória, lhe pendurasse do bico o chapéu alto. Coitada! Coitada! E notei com um calafrio, que pronunciara alto êste «coitada», com uma voz que a mim mesmo surpreendeu pela inflexão perturbante de quinto acto. Olhei a águia. Vi-a encolher-se tôda, contrair-se, enclavinhar as garras no poleiro, como a uma dor aguda que a varasse. Encarou-me por fim, olhou-me todo, fazendo-me corar dos pés ao côco,{13} e com uma voz que não era a voz da fábula, sem nada de lendário, sem estranho, com uma voz normal de velha beata, arrastada e roufenha, quasi gaga, cacarejou num tom de dor e mofa:
—Ao que eu cheguei! Ao que eu cheguei! Já tem pena de mim isso aí fora... Antes estar morta e podre, antes estar podre...
Estarreci. Não era o impossível realizado dessa carcassa de águia a falar alto, a falar como eu, que me empedrava: nem sequer o estranhei naquele instante; mas o dolorosíssimo desprêzo com que ela me chamou isso aí fora, com que ella ouviu que um isso a lamentava. Deitei fora o cigarro bruscamente, compus um momo frio de desdêm escondendo a irritação que me excitava, e premindo a bengala contra o queixo, retorqui-lhe benévolo e grosseiro:
—Não percebo o seu desprêso, não me atinge. Eu não disse «coitada» p'rá ofender. É sempre triste ver uma águia presa, mas numa gaiola, assim, é lamentável. P'ra mais,{14} conforme vejo no letreiro, foi um comendador que a ofereceu... E a gaiola...
—Que tem? Falta de estilo?
—Está cheia de excrementos. Está indecente.
—Já não diria isso se os visse cair de alto, no deserto, sôbre o granito cariado duma esfinge... Scenários, digo-lho eu, literatura...
Eu então requintei de pedantismo, e perguntei-lhe a rir de que alta estirpe, de que águias reais, de que família, ela veio a cair neste poleiro onde agora a ouvia perorar num claro entardecer de intimidade, com idilios de guardas e criadas, raros bebés jogando às escondidas e um homem a varrer as fôlhas sêcas. Coçava-se a hesitar, com o bico baixo. Sacudio as longas asas poeirentas e com uma voz de sono, começou:
—De alta estirpe, sim, de uma família de águias antiquíssima. Uma das minhas ancestrais, como agora se diz, fêz viagens épicas na Judeia, e num crepúculo de assombros, abrindo com as garras uma cordilheira{15} de nuvens, vio pregado na cruz o Hebreu Doce, e logo desceu ao morro numa gula tão doida, que ensanguentou no ar de sêda as asas bravas... Rasgou o peito magro do Homem-Deus, e ficou doida para sempre, doida, doida, na alucinação dêsse manjar patético, de martírio divino e desespêro. Porque ela ouviu a confidência do Heroi meigo... Mas não posso contar-lha, nem mais pio! É um segrêdo de família, é o meu segrêdo.
Amuei, retorqui num tom mimalho:
—Mas então, se não podia contar, p'ra que me falou nisso? Eu sou de uma curiosidade feminina. Já não saio daqui sem que mo diga.
—Mau! O senhor é uma criança. Que tolice! Dezenas e dezenas de avós meus, gerações e gerações de águias marinhas, levaram o segrêdo herdado e não traído, que nem ao sol, que é o deus das águias, revelaram. E quere agora o senhor com um papelzinho que lhe custou uns cobres (se o pagou) violar o murmúrio que tem séculos,{16} e é a última vibração daquele espírito que vestiu de nebulosas tôda a Vida... Sabe que mais? Estou já arrependida de falar.
—Não se zangue. Juro-lhe, juro-lhe que não digo nada a ninguêm. Se soubesse o que eu sei!... Segredos de família, dramas... dramas...
Esperei um instante ansiosamente. A águia inteiriçou-se, sem me olhar, bicando longes de memória, de saudade:
—Não sei que tenho hoje. Velhice, morte próxima talvez, pressentimentos... Quando essa avó longínqua cravou as garras no peito d'êsse Réu, e lhe bicou o coração e bebeu sangue, sentiu que enlouquecia, que era outra... Como se ferisse uma irmã, teve remorsos; fixou os olhos bêbedos de sol nos olhos d'Êle, refrescou-lhe com as asas a cabeça, empastada em suor, de um verde lívido...
A cruz que estremecia, ficou hirta. E foi então, foi então que Êle lho disse...
—Mas o quê? O quê? Diga depressa.
—O segrêdo, senhor, o meu segrêdo.{17}
—Mas qual é afinal? Quere torturar-me...
—Renegou-se a Si-mesmo. Retractou-se! Disse o remorso de não ter vivido, a tristeza infinita, o desespero e o mal sem remédio de ser virgem, de morrer no corpo morto de uma árvore, único corpo que sentiu, o de um cadáver... As estrêlas que nasciam no céu dúbio eram pr'ó Moço Hebreu pólen doirado, e a sua alma moribunda abria tôda como os hortos ideais da Galilea... O peito arqueou-lhe mais, contracturado... Queria largar a cruz p'ra poder dar-se, à terra dêsse cerro, a alguma forma, a um corpo de mulher, a alguêm, a alguêm...
A voz da multidão pela ravina era um marulho de ressaca mui confuso, e Êle sentiu entre pragas e risadas, entre os lamentos e os insultos que silvavam, sentia vozes de mulher... ouviu, ouviu-as... Só elas Êle ouviu, ouvia sempre... Queria falar ainda, quis falar-lhes e pedir-lhes perdão do que lhes disse, com parábolas mentirosas{18} de doçura e com olhos de lago sem desejo... Esvaía-se em sangue, ia azulando. Foi então que a minha avó num voo lento, lhe emmoldurou nas asas côncavas a Face... e que ela ouviu, senhor, e que ela ouviu...
Calou-se um instante imóvel no poleiro. Reparei. Era o guarda que passava.
—Já não sei onde ia. Estou com febre. Ah! No que ouviu a minha avó naquele instante... Quando eu penso nisso, quando penso... Imagine, se pode, ora imagine... Êle que era um Adivinho, Êle o Vidente, num dêsses instantes de génio que abrem séculos, previu, previu bem claramente, como se mentiria à Vida em nome d'Êle, a morte da Beleza e da Alegria, a Tristeza e a Doença em nome d'Êle, séculos e séculos de vida envenenados por o sangue de amor que Êle vertera, e iria embebedar os homens muito tempo, para sempre talvez, talvez p'ra sempre. Sentiu então que a querer salvá-los, os perdera... Certo, êsse instante de dor sempre ignorado{19} foi o maior de dor que alguêm viveu. E como Êle a diria, como...
—Em que língua falou? Foi em hebraico?
—Foi na língua das asas que Êle o disse. Não lha posso ensinar, já me não lembro. Quando me engaiolaram, esqueci-a. Mas que impressão lhe faz o meu segrêdo? Se os homens o soubessem, seria Êle na verdade o Redentor...
—Sim, sim. É bem justo o que me grasna. Shelley tê-lo-ia amado como irmão, e Nietzsche, o próprio Nietzsche...
—Bem sei. Êsse afirmou com pompa lá p'rò Norte, que Êle decerto se teria retractado se tão cedo o não crucificassem. Foi minha mãe que o disse a Zaratustra. Zaratustra ouviu mal, não disse tudo. A verdade é assim, como eu lha conto. Parece que os homens riram do filósofo, acharam tudo isso uma tolice...
—Acharam...
—E afinal êsse Hebreu crucificado, no instante supremo de tortura, quando p'ralêm{20} das nuvens o esqueciam, chamava só por Pan, o grande Pan! Se os homens soubessem isto e o entendessem, teria o grande Pan ressuscitado. Seriam brancas estas pobres asas.
—Brancas? Porquê?
—Durante séculos tivemos asas brancas, todas nós, águias da minha estirpe. Foi só depois que Pan morreu, que elas ficaram pretas, como luto. Quem se lembra de Pan por êstes tempos?...
—Os que sabem amar, os que ainda amam.
—Os que sabem amar!... Êsse Hebreu mesmo só conheceu o Amor no alto da cruz. Viveu como um fantasma transparente, com sonho nas artérias e nos olhos... Só escoado em sangue, no madeiro, viu nos olhos da minha avó sanguissedenta, dois espelhos do Amor, irmão do sangue...
—Conhecem lá o amor aves de presa!
A águia crispou as garras no poleiro e casquinou um riso muito sêco, que soava{21} sem timbre, como tosse. Depois mudou de aspecto. Começou a tremer, tôda friorenta, as asas como andrajos mais pendidas, e nos olhos de febre, muito fitos, uma grande saudade que varava.
—O amor das águias... o amor das águias...
—Que tem? Está comovida. Conte-me o seu amor. Sou todos ouvidos.
—O meu amor... o meu amor... Já me não lembro. Já não posso dizer-lho. Vai tão longe!... Sou uma velha tonta, sem memória, um farrapo de penas para escárnio. Nem olho o sol em face há muito tempo. O meu amor... o meu amor... Já me não lembro. Coisas sem forma... nuvens... nostalgias...
Fêz uma pausa. Parecia mais adunca, mais mirrada.
—No convés de um navio abandonado, amei no mar do Norte, aos vagalhões, noites e noites, bêbeda de espuma... Havia a bordo um marinheiro morto. Lembro-me bem. Que noites! Que mar alto!...{22}
Tive um ninho e filhos pequeninos, num jardim vago, ao sol da meia-noite... Que silêncio! Sentia-o a passar por entre as garras...
Ensandeci de gôzo no deserto... Ouvi a Esfinge falar, ouvi a Esfinge, quando o sol lhe fendeu todo o granito, pôs ranhuras de dor nos olhos átonos, e escancarou a bôca em rictos duros... O que eu ouvi à pobre?
Soluçava!... Eis o inigma afinal, o grande enigma, à hora das miragens, do delírio, quando o sol enraivece, é só desejo, e o deserto urra no silêncio, e as areias escaldam e o ar zune... Amei... amei... amei na terra tôda... Desfraldei o desejo, cravei garras. Olhei o mar saciada e compreendi-o.
—Tem saudades do mar, aí na gaiola?
—Como um marinheiro preso... doidamente... O que eu viajei, o que eu viajei por sôbre a espuma!... Sei as lendas do mar como ninguêm. Contou-mas numa rocha um corvo antigo. Como sabe, os{23} corvos vivem séculos... Sabia-as todas êsse velho amigo... naufrágios e terrores... dramas da névoa... O mar! O mar! O que eu amei no mar! Mas o senhor não compreende, o senhor não sabe. Que sabem do Amor os homens todos?... Foi êsse Hebreu, sem querer, que os desgraçou. Fizeram ao Desejo o que fazem às águias quando podem... Está como eu o Desejo: engaiolaram-no! Fizeram do Amor isto... um dever! Um dever... um dever... um dever triste! Empalaram-no em leis, codificaram-no. Até fizeram isso... o casamento! E vivem em gaiolas, os seus lares! Raça de escravos! Se êsse Hebreu os visse...
—A senhora é uma águia, não percebe... Eu não posso explicar-lhe a Sociedade...
A águia olhou-me com um desprêso frio.
—O quê? Não sei? Sei mais do que Balzac. Eu li-o todo em casa de um burguês. Vivi lá dez anos de amarguras. Estive presa primeiro no quintal. Depois cortaram-me{24} as asas e soltaram-me. Soltaram-me mutilada pelas salas... Canalha! O que eu odeio os homens... As crianças, veja o senhor os anjos!... arrancavam-me as penas, espetavam-me o corpo com agulhas, e um dia um criado, na cozinha, tentou picar-me os olhos às risadas, a rir, a rir... como só riem homens. Sofri dez anos entre essa canalha. Era uma gente séria, muito séria. Vi a Família, a Tradição, vi tudo. Não queira argumentar, não diga nada. Sou uma águia, mas conheço os homens.
—De acôrdo. Eu não duvido. Não quero discutir, não argumento. Mas falamos do Amor, e apenas digo que há ainda quem ame sôbre a terra... gente da minha espécie... homens... homens... O amor, há-de a senhora concordar, não é um monopólio de asas nómades... Um bípede implume tambêm ama. É raro, eu sei, amor genuíno, é raro. Mas existe ainda, afirmo-lho eu, existe ainda...
—Que novidade! Pois não lhe disse já{25} que li Balzac? E viajei, e vivi mais do que pensa.
Parou um instante, o olhar scismático, sem foco:
—... Uma vez, num céu da Andaluzia, vi num jardim mourisco dois amantes. Senti o cio encrespar-me as asas largas e desci p'rós ver de perto na luz de ouro... Era na paz de uma cidade morta. Pousei num dos ciprestes do jardim. Tinha uma taça de alabastro esverdinhada, e uma água glauca que cheirava a febre. Era junto da taça que se amavam, sob a garra do sol, loucos de raiva. Fiquei quêda a aspirá-los muitas horas. Que corpos fortes! Eu achava-os lindos. Dormi na torre da igreja, numa gárgula, e de manhã voltei p'rós ver ainda. E assim dias e dias... Uma vez demorei-me, vim mais tarde, e encontrei-os imóveis e enlaçados. Tanto tempo os vi assim e tão imóveis, que pensei: estão talvez mais que adormecidos... Desci. Bati-lhes com as azas nos cabelos. Cravei as garras devagar nos seios dela... Estavam{26} mortos! Julguei então enlouquecer de gula. Devorei, devorei, até à noite... Lembro-me que sorvi os olhos dela. Estavam secos de amor. Eram cinzentos...
—Que horror! O que a senhora fêz!...
A águia ergueu as asas num espanto e tornou a fechá-las lentamente. Depois, com grande enfado, foi dizendo:
—Que absurdos macacos são os homens! São os animais mais torpes que eu conheço. Como tudo que vive, como todos, só pensam em gozar, gozar a vida... e com esta obsessão a estorcegá-los, prendem-se os braços, castram os desejos, adoentam-se, torcem-se... progridem. Querem morder, morder bem fundo... e beijam-se; sentem calor e andam ao sol vestidos; amordaçam o instinto, os imbecis!... Encerram o desejo nas alcovas, onde não entre sol, sombra de lua... Tem estatutos, cláusulas, parágrafo. Não fecundam a amar, são fabricados: são produtos de indústria os homens de hoje! Chamam a isto Civilisação. Não vivem por viver: tem{27} deveres a cumprir, obrigações... E tudo isto em códigos, sistemas, em religiões, teorias, em morais!... P'r'ós que tentem ser homens a valer, há prisões, há leis, ha tôda a Ordem! Existem já na terra há muitos séculos, e ainda não começaram a viver... ou, se viveram, foi na Pre-História ou na Pre-Lenda! Que macacos absurdos! Que macacos!
—Mas pare um instantinho, oiça, oiça...
—Não me mace, senhor, não me interrompa... O que mais os consome e os faz grotescos, e os enche de vaidade, é a Consciência, o Espelho, o Guia, o grande Guia, que os levou a isso que são hoje...
Atalhei, como quem aponta um cumplice:
—A culpa foi dêsse Hebreu de quem falámos. Talvez se o seu segrêdo se soubesse...
—Não foi só d'Êle, foi de muitos outros... Antes d'Êle e depois..., de muitos outros.
Tremeu-lhe o corpo todo. Arrepanhavam-se-lhe{28} as penas. Estava outra. Via-a transfigurar-se com espanto.
—O senhor é bem um homem. Não se pode nutrir sem illusão. Quando há pouco lhe disse o meu segrêdo, dei-lhe a entender que se êle se soubesse, havia na verdade um Redentor, os homens viveriam sôbre a terra. Tive pena de si que é um desgraçado. Sempre lho digo agora: era inútil! Conheço bem os homens por meu mal. O segrêdo do Hebreu que lhe contei, não é um caso único: é de sempre. Á hora de morrer—a uma águia, aos lençois ou ao travesseiro, todos os homens tem como êsse Hebreu, um segrêdo supremo a revelar. É apenas isto: a confissão de que morrem sem viver.
Continuou depois com o bico alto:
—Os homens são uma espécie condenada. São bastardos de planta e de fantasma.[[1]]Quem disse isto? Não sei... estou sem memória. Raça de escravos vis,{29} raça de escravos! E p'ra fugir à Vida o que inventaram! Como trabalham, suam e tressuam!... Dissecam tudo, árvores e pedras, fecham-se em quartos a estudar micróbios... E cada dia são mais desgraçados, mais fracos, mais inquietos e mais tristes!... Cada dia se embrulham mais em roupas, põem mais vidros nos olhos, tem mais mêdo... E cada dia fogem mais à vida! Que imbecis! Que imbecis! Que espécie torpe!
Sentia-me exaltado, nervosíssimo. A voz saíu-me estrangulada, rouca, em sobressaltos, brusca, sem fluência:
—A senhora diz coisas que me espantam, que por vezes são justas e terríveis, mas há outras tambêm que não entende, que não pode entender, sim, que não pode. É natural. A senhora é de outra espécie. Tem vivido com os homens mas é águia... e águia ficará até morrer.
Parei. Sentia-me vazio, em suores álgidos, quási incapaz de articular palavras. Ela então, com a plumagem toda crespa, transfigurada{30} agora, agora outra, já com metal na voz, interrogou-me:
—O quê? O quê? O que é que eu não entendo?
Sem recursos, nulo, desvairado, atirei-lhe êste lugar comum, como se estivesse a falar com um jornalista:
—Por exemplo: o Sentimento, a Beleza moral que há no Universo!
Vi-a saltar do poleiro, esvoaçar, bater asas de fúria nos arames, e recaír depois na mesma pose, a arquejar, asmática de raiva. Ficou assim sem fala ainda algum tempo. Apeteceu-me fugir. Tive vergonha. A voz dela por fim veio em arestas, ferindo o meu orgulho já ulcerado:
—A Beleza moral!... O Sentimento! Que fizeram com isso?... Que fizeram? A Harmonia social, êsse concerto que é de rasgar os olhos e os ouvidos. A fome, a revolta, o desespêro... A raiva de saber, de analisar, de fechar em teorias toda a Vida... A Dúvida, a loucura metafísica, e o culto da dor, êsse onanismo!... A impotência em{31} tudo, a impotência... E por paródia à luta de viver, uma luta sem garras, enluvada, um ódio triste e covarde, corrosivo; a intriga e a cilada pela fôrça; a caridade que é o egoísmo doente, e o culto dos ídolos, os cultos, a escravidão aos deuses e às ideias... A Harmonia social... essa gaiola onde vivem a uivar os homens todos!
Dava gritos estrídulos, sarcásticos: as penas erriçavam-se de fúria.
—Oh! O ódio dos homens, que grotesco! E há classes opressoras e oprimidas, com fórmulas, com cláusulas, com leis!
Não é o ódio celular, contracturante; não é o ódio animal todo de instinto; não é o ódio de todos quantos vivem! O ódio dos homens foi canalizado, por seitas, por classes, por partidos, em dogmas, preconceitos, covardias. Nos outros animais o ódio é orgânico! Todo o combate é sempre pela Vida. O dos homens é anémico, missérrimo, e defende o dever, o preconceito, as taras de domínio e servidão, e até mesmo na revolta é miserável, pautando a Vida, sistematizando.{32} É o ódio da paródia de viver, do fantasma de Vida que êles vivem!...
Parou. Eu estava como tonto, desvairado. Tinha decerto endoidecido essa águia velha, delirava, dizia só loucuras; mas eu não achei nada para opor-lhe, p'rà aniquilar nêsse silêncio de fadiga. De súbito lembrei-me: a Arte, a Arte, tôda a minha quimera de mãos postas!
Sentindo-me desta vez irredutível, gritei-lhe p'rà gaiola:
—E a Arte? A Arte? Consolação suprema de viver...
Teve farpões de escárneo ao responder-me:
—A Arte!... A Arte é a expressão da Vida. São os homens que o dizem, não é assim? Ora se êles não vivem, se não vivem, se parodiam a Vida a cada instante, se fogem mais e mais da grande Vida, a Arte é uma paródia de paródia, um espectro de espectro... miserável! Querem com tintas imitar o céu, e transcrevê-lo em lonas, em madeiras!... O céu bebe-se aos haustos,{33} com os olhos; olha-se por olhar, sem intenção; recebe-se nas pupilas extasiadas, que se alargam mais com sêde dêle... É o que faz um sapo a olhar os astros! É o que os homens não compreendem nunca! Toda a terra é feliz se o sol a doura; tudo germina, as pedras e as sementes... Só os homens que se cobrem p'ra evitá-lo; que nas cidades gastam horas a vestir-se; que tem por céu só um paninho côncavo a que chamam guarda-chuva ou guarda-sol; que o filtram nas igrejas por vitrais, que usam lunetas, que o receiam sempre; que tem medo da morte às suas garras, deslumbramento e orgulho de águias soltas; só os homens, absurdíssimos macacos, querem copiá-lo em lonas, em madeiras, com tintas, com carvões, com paus de côr!...
Que macacos absurdos, que macacos!
Bem quis interrompê-la, não podia. Vibrava de loucura negadora, hierática, estranha, convulsiva.
—E nem poupam o mar nem as searas, as penedias trágicas, as rosas! Metem o{34} mar nuns centímetros de lona, e com medo que as marés vão sufocá-los (a águia ria, ria como louca) mandam emoldurá-lo, encaixilhá-lo!...
Prendem-no assim nas salas, nas alcovas. Oh! A Arte dos homens! Coisa imensa! A paródia da Vida... paralítica! Mas vá alguêm dizer-lho! Vão dizer-lho! Ainda os antigos cegavam as estátuas... Êstes abrem-lhes olhos, bem abertos, a reflectir... o quê? A vida dêles, a paródia de vida que êles vivem e que andam a imitar ainda por cima!...
A noite começava a entrar nas coisas. Um grito de pavão varou o parque, assustou os jardins que adormeciam, e um instante no ar, teve saudades... Uma angústia sem nome andava esparsa, caía das árvores grisalhas, que pareciam à escuta, com terror. Em frente o chorão vergava mais, quási rasava a terra com doçura, em curvas de um encanto nazareno. Uma sereia aguda de vapor, já a sair a barra certamente, mugiu como um agouro de naufrágio. A treva ia afogar tôda a gaiola. Não via bem{35} a águia, mal a via. Só os olhos e as asas muito vagas... Era um fantasma de águia àquela hora, mas crescia em mim desmesurada, como um ser de fábula e tragédia, oráculo sarcástico e sinistro, lendo o horóscopo num poleiro reles, como se rasgasse a esperança com as garras. Afinal era eu a sua presa, e ouvia-a passivo a torturar-me.
—A Arte dos homens! Que mentira triste! Em vez de serem belos como estátuas, derrancam mais os corpos para erguê-las! Até modelam sonhos e quimeras!...
Nunca olharam as nuvens, nunca as viram, esses mármores ao vento, fluctuando... E o vento! O vento! Sabem lá ouvi-lo! Tanto não sabem que quando êle prega, durante o inverno em que êle é todo génio, metem-se em casas grandes, bem fechadas, p'ra ouvir sons, sons, imensos sons... Chamam a isso Música. Conheço-a. Desde que vivo com os homens, perseguiu-me. Nem aqui na gaiola eu lhe escapei. Toca aos domingos horas, no coreto. Enche-me mais de raiva e de miséria. A música das{36} águias como é outra!... Quem a ouviu como eu quando era águia, antes de ser esta carcassa reles! Nas montanhas, no mar, na névoa móvel!... Sobretudo no mar, no grande mar... O que eu viajei nos temporais a ouvi-la! Ás vezes partíamos no vento em turbilhões, asas e asas, nómades, pairantes... Regougos de ondas, nuvens a rasgar-se, e os nossos gritos, bêbedas de espuma!... E mil vozes de formas nunca ouvidas, a voz de tudo, tudo, a voz de Pan! E o silêncio, o silêncio... Certos instantes únicos, supremos, em que êle se ouve, o temporal hesita, e um pânico arrepanha as asas todas... Como é agudo, agudo, êsse silêncio!... Nas meias-noites de estio... o que eu gostava de despertar no éter melodias, ferindo-lhe o teclado luminoso, numa alma de voo, sereníssima... Punha medo com o rumor das minhas asas às nuvens que dormiam extasiadas, e auscultava a noite pelo céu, até ouvir a manhã vibrando tôda, quando o ar é uma orquestra miriadaria e os homens dormem nas alcovas mornas...{37}
Estendeu por minutos seculares o seu monólogo patético de velha, essa arenga evocativa de fantasma, lapidando o meu ser com ironias, em que memórias épicas passavam, como o granizo aos pobres em dezembro. Todo o meu senso crítico se foi na rajada feroz dos seus desprezos: era uma fúria aguda de vingança, de esfrangalhar essa carcassa oráculo, varar-lhe os olhos com a ponteira da bengala, acabá-la de vez, estrangulá-la. Retorqui-lhe então com a voz dura, pondo raivas de morte nas palavras:
—Sim, sim... Diga ainda mais... o que quiser. Cante à sua vontade, minha amiga! Insulte os homens, ria, desgraçada. Nem me dou ao trabalho de a esmagar. Só lhe pergunto isto, apenas isto: quem a tem aí bem presa na gaiola? A si e a êsse mocho seu vizinho? Ao leopardo, ao lobo, a essas feras? Quem lhe dá por esmola bifes podres, e faz de si o riso das crianças, e a há-de empalhar depois de morta?... Você é uma águia tonta, dementada, que a{38} escravidão ensandeceu de vez. Melhor, melhor! Assim faz-nos rir mais. Grasne p'raí; rebente a divertir-nos!...
Parei pr'a tomar fôlego, cansado; mas o relevo imóvel dessa ave, a sua forma heráldica de bronze, alheavam-na tanto desta cólera, do desespero besta em que eu tremia, que me pareceu inútil continuar e me senti um títere grotesco. Era o mais infernal dos casuístas, essa águia impossível de ferir, feita de sombra, emoldurada em sombra, presa nessa gaiola e mais distante que se esgarçasse as asas nas estrelas. Emquanto assim pensava, ei-la que fala:
—Bem certo, sim, bem certo o que me diz! O Homem alastra pela terra como um cancro, pervertendo a vida, corroendo. Reduziu-me a mim, asas e garras, a um animal grotesco de capoeira, meio tonto de dor e de miséria. E as feras!... Exibem-nas nas feiras e nos circos, em gaiolas de ferro, à luz eléctrica, ante o pasmo alvar das multidões, rindo da força mutilada e doente. Cortam as jubas aos leões, abrem-lhes risca,{39} dão-lhes chicote e bifes, civilizam-nos! E quando os tem nas jaulas, sonolentos, sem força e sem instinto, entorpecidos, com as pupilas de oiro marasmadas, com as garras inúteis já sem preza, acham-se heróicos porque os chicoteiam, mesmo quando êles tremem de sezões, mesmo quando êles morrem de saudade!... Não há amor de asas num rochedo à névoa, que o terror dos homens não errice!... Antes disto, porém, já os adoraram. No Egipto, em tardes de colheita, o voo das íbis riscava no ar do Nilo curvas em que êles viam profecias... E outros como Isis, como Anúbis, sucumbiram no tédio de ser deuses, e depois das pompas rituais, de oferendas, de orações, de sacrifícios, são os servos misérrimos do homem, domesticados já, civilizados!
Mutilam as árvores, deformam-nas; exilam certas plantas nas estufas, com saudades do húmus e do sol, e trazem na lapela rosas mártires, que abriam de desejo como noivas, à espera do pólen bem-amado! Não entendem o sangue nem a seiva: vão pervertendo{40} tudo, corroendo! Até que um dia, não mais florestas, catedrais a Pan! A terra será calva como um sábio, e cordilheiras, montes e ravinas serão assassinadas, cavacadas, p'ra que os homens mobilem os palácios, p'ra que tenham poleiros nas gaiolas... Os areais, as deserteiras ruivas onde o mar espadana e se extasia, terão motores, instalações fabris p'ra utilizar a raiva das marés, em quê, deus-sol?... a enriquecer indústrias... Todo o azul será viuvo de asas, e os filhos das águias e das feras nascerão em gaiolas e em jaulas! Ah! Mas tambêm nada haverá mais triste do que os filhos dos homens, as crianças... A inocência, essa graça animal, de flôr e de ave, que êles chamam divina... os imbecis! não mais existirá nos filhos dêles, reflectindo nos olhos já doentes, a farça de viver, como nos velhos... Será assim um dia, será assim. Onde irão depois refugiar-se? Nos braços do amor, do amor dêles, em que um olhar de mulher lembra um naufrágio, e faz que, cada trança, por mais loira, venha a{41} ser sempre a fôrca de um destino! A terra será a catedral do sofrimento, fim da farça sinistra que êles vivem, a inventar anestésicos e dores!
Certo, o farrapo de penas que hoje sou, é bem obra dos homens. Certo, certo... Mas aqui mesmo, num poleiro reles, garras em cotos, quási paralítica, consola-me pensar que nenhum dêles será nunca o que eu fui, asas e garras, vivendo pr'ó Desejo pelo instinto, e em nomaderias de vertigem, amando tudo, tudo, a terra tôda, na luxúria suprema e inconsciente, de viver, de viver só por viver!
Fêz uma pausa. Tive a visão daquela vida fulgurante, evocada em gritos de delírio, por essa pitonisa de asas longas que cortava com o bico o meu destino.
Foi então que eu ouvi estas palavras, que eram mais que um soluço, que um crocito, uma espécie de guincho em que houve lágrimas.
—Iriam cair nas mãos dos homens os meus filhos!...{42}
Lambeu-me um calefrio de vertigem.
Era demais, meu Deus, era de mais! Não era já o meu orgulho em chaga, enovelado como um trapo nessas garras: o que eu agora queria, o que era urgente, era mostrar a essa águia, a essa mãe, que o seu dolorosíssimo terror era uma apreensão de louca, uma injustiça: o que eu agora queria de alma tôda, era mostrar-lhe o coração dos homens p'ra que ela o visse bem e tão patente, como se lhe pendesse a sangrar do bico curvo. Pr'à convencer daria tudo, tudo. Procurava um meio, sem achar. Sentia a inanidade das palavras. Com uma idea súbita falei-lhe:
—Vou abrir-lhe a gaiola. Vai ser livre.
Era decerto o pasmo que a gelava, porque não saiu da treva uma palavra. Eu continuei numa emoção crescente em que vibrava a ânsia de a soltar:
—Vai ser livre, livre como outrora. Acorde as suas asas esquecidas. Diga adeus a essa gaiola imunda. Olhe mesmo daí: que encanto de hora! A noite arqueia ao pêso{43} das estrelas... Uma palavra sua e abro-lhe a porta. Não duvide. Sou forte. É num instante...
O seu recorte altivo de águia em bronze amezendou: fôsse fadiga ou tédio. E num becejo vago, interrogou-me:
—Vai abrir-me a gaiola... mas p'ra quê?...
—P'ra quê?! P'ra que antes de morrer domine o espaço... p'ra sentir a vertigem do infinito...
—Eu?!... repetiu numa fleugma desdenhosa. Eu?!... Saír dêste poleiro, da gaiola? Não sou doida varrida por emquanto. Saír da minha casa, do conforto pr'á incerteza da noite, p'rò mistério?... Sou uma águia mas vivi entre homens. Já estou civilizada, meu senhor... E se o vento me arranca as asas velhas? E se chover, e se chover? Já pensou nisso? Nem com as garras enluvadas eu me atrevo... Nem que me cubra as asas de impermeáveis...
Nem com um water-proof, nem assim...
A águia ria, ria doidamente. Crispei as{44} mãos nos arames, exasperado, e com uma voz enrouquecida fui dizendo, num tom de confissão, quási febril:
—Imagina talvez que a não entendo, que sou um homem como os outros, imagina...
É natural... é natural. Não me conhece... Mas eu quero dizer-lhe: oiça! oiça!
Há em mim um não sei quê de águia marinha. A sua sorte comove-me, acredite. Quero tambêm dizer-lhe o meu segredo, quero desabafar, contar-lhe tudo...
Bateu as asas com um ruído sêco, e num timbre fatídico de corvo, com uma voz de sibila, crocitante, atirou-me estas palavras derradeiras:
—É cedo, é cedo ainda. Imite os outros. Diga isso ao morrer ao travesseiro.
Esse sarcasmo último transiu-me; e como quem se agarra ainda á esperança, pus-me a gritar p'rà gaiola, tontamente:
—É o convívio dos homens que nos perde. O seu destino é irmão do meu, escute... Queria ser forte e belo, queria...
Falei, falei, falei... Não sei que disse.{45}
Sandices e quimeras e desejos, larvas de ideas, raivas, desesperos. Parei por fim.
Já nem lhe via os olhos. Decerto cerrara as pálpebras com tédio. Só o vulto de sombra sôbre a sombra se alongara mais, estava maior. Ouvi então uma sineta banalíssima, a pôr-me fora sêcamente: era já tarde. Olhei ainda a gaiola, despedi-me, atirei-lhe p'ra lá um «adeus» surdo. Ao passar na jaula do leopardo, senti um cheiro mau a carne podre. Vi-lhe o vulto enigmático de esfinge, a cabeça nas patas dianteiras, os olhos de oiro fulvo, fuzilando. Se aquele me falasse, o que diria!... Atravessei o parque silencioso, como numa balada, com terror. Vi nas acácias os pavões adormecidos, olhei o céu filtrado por folhagens onde um langor de outono se esfolhava, e à saída já, p'ra me calmar, molhei as mãos febris numa das taças e passei-as nas fontes consolado.
Achei-me emfim na rua, longe dela.
Um rapaz namorava mesmo em frente, a patrulha descia compassada, disse-me adeus{46} um côco conhecido: dobrava a esquina um eléctrico apinhado. Tinha ainda no ouvido a voz da águia, quando saiu de uma janela aberta uma ária roufenha de fonógrafo.
Comuniquei feliz com a vida reles. Depois disto, é evidente, não posso mais falar-lhe. Ainda bem! Levava-me ao suicídio essa águia velha.{47}
{48}
[O PRECOCE]
A JOÃO DE BARROS
{49}
[O precoce]
Desde que o Emílio estava doente, todos os dias, ao anoitecer, se reuniam no seu quarto e assim ficavam algumas horas, numa intimidade meiga, como se dessa cabeça de precoce, ungida de sossêgo, dos seus olhos de adivinho, de um veludo grande e calmo, se exalasse paz, uma paz clara, em que tudo se perdoasse e se esquecesse.
Tinham já lugares marcados. A mãe à cabeceira, logo ao pé a tia Olívia, p'ra contar histórias; os outros em redor, e aos pés da cama, em frente ao doentinho, o busto nobre do tio Eduardo, já grisalho, a sua máscara fina um pouco vaga, como a{50} de todos os que vivem no silêncio como outrora se vivia num convento. O pequenino era assim uma figurinha de mito familiar, e nas suas palavras lentas, de intuição e de carícia, todos se ouviam como o mar nas conchas. Tinha uma voz de sombra amiga. Adoravam-no. Mas agora, martirisado de dores, a consumir-se dia a dia, as mãozitas transparentes, entravam no terror de o ver pior. E se um móvel estalava, um farrapo de luar batia os vidros, ou ao cair da noite, a sombra vinha,—tremiam no silêncio, tinham medo, como se disfarçadamente a Morte entrasse, viesse de mansinho p'ra gelá-lo.
Às vezes, nas pausas de algum conto ou da conversa, se alguêm se voltava, logo os outros inquietos o seguiam; e era vulgar olharem a porta de soslaio, como se esperassem alguêm, uma visita...
Todos falavam em surdina, velando a voz um pouco opressa, e assim as coisas mais banais tinham um não sei quê de estranho; as palavras caíam como fôlhas sêcas e nos{51} olhos de todos havia uma expressão de adeus. Nem todos, nem todos! A mãe radiava fé. Bastava ver-lhe as mãos correndo a dobra do lençol, de veias altas, entumecidas de ternura, e poisarem numa geada de beijos nas mãos do seu filhinho, para sentir a emoção louca, religiosa, tendo ressurreições em cada gesto, sarando num olhar, numa oração. É que essa creança era a sua própria alma, presa naquele leito como um passarito enfêrmo, abrindo p'ra ela olhos enormes, como p'rá decorar bem, antes de partir; e dizendo de quando em quando: «mamã, minha mamã», num rumor de asa cansada.
Era muito moreno, tinha a testa alta, um pouco bombeada, bôca de lábios finos, mento curto, bosselado em covinhas, que a magreza já quási que delira. Mesmo quando tinha saúde, ria pouco; não sabia brincar e qualquer coisa, o mais simples aspecto, o distraía como numa visão inconsciente.
Tinha um ar de quem se lembra. Uma vez foi ao colégio. Voltou com febre, doente,{52} a tremer todo, e quando o pai o interrogou, só pôde dizer «que não era nada, que não tinha nada». Mas à noite, quando a mãe ia a deitá-lo, rompeu a beijar-lhe as mãos, num chôro brusco, e mal pôde pedir entre soluços, de mãos postas, p'ra não voltar... p'ra não voltar mais ao colégio.
—Sossega, meu filhinho. Quem te fêz mal? Que te fizeram? Não voltas mais, não voltas mais. Que te fizeram?...
—Vi bater num menino.
E outra vez o chôro o sufocou, em bagas grossas, torcendo o seu corpinho de arbusto à ventania. Nessa noite teve febre, delirou, e os pais resolveram que tão cedo não voltava. Pediu então à mãe que o ensinasse. Ao caír das tardes, com a costura no regaço, ela dava-lhe lição, e em pouco tempo, por entre confidências que eram beijos, êle aprendeu maravilhado a ler. O seu amor cresceu ainda, como regado de gratidão. Dizia «mamã» como quem reza.
Adorava-a. Nas tardes de sol, os irmãos brincavam no quintal; chamavam-no, e como{53} êle era o mais pequeno, faziam-lhe mimos, numa grande ternura protectora. Êle não ia, desculpava-se. Preferia ficar junto dela, na varanda de pedra, a vê-la bordar.
—Não queres brincar, Milinho? Vai, vai brincar com os manos.
Êle erguia os seus olhos de veludo:
—Deixe-me estar ao pé de si, mamã. Não há nada tão bom p'ra mim.
Raro saíam. Ás vezes, com a mãe, ia às tardes à Foz p'ra ver o mar. Voltavam ao anoitecer. Falavam pouco.
—Gostas do mar, Milinho?
—Muito, mamã, muito. É a coisa mais linda que há.
Foi ao voltar de um passeio assim, numa tarde de novembro, que o pequenino teve tosse e cuspiu sangue.
—Que te dói? Dói-te o peito?
—Pouco, mamã. Não se aflija. Não há-de ser nada.
O médico veio, aconselhou cautela, receitou. Teve depois com o pai uma conferência larga. E foi então que o terror abriu{54} sôbre ela as asas concavas, geladas. Não podia dormir. Levantava-se a cada instante, p'ra ver se estava bem coberto, se tomara o remédio, p'ra senti-lo. A tosse dêle feria-lhe tambêm o peito; transia-a tôda, como um dobre. Vestia-se à tôa, sem cuidado. Tudo o mais lhe era indiferente. Marido, os outros filhos, família, governo da casa, visitas, os outros... que lhe importavam agora, se o seu filhinho estava mal?
E extenuada, adormecia às tardes à cabeceira do doentinho, que a olhava a sorrir, muito feliz, como se fôsse um ser de conto preso num lindo encantamento. Pouco a pouco, apesar de ninguem o achar melhor, foi-se esvaindo o terror dela, e uma grande loucura, a loucura divina da esperança, galvanizou-a de coragem, deu-lhe fé. Amava-o com tôda a carne e tôda a alma.
O casamento tinha sido, p'rá sua índole delicada de romântica, uma decepção dolorosíssima a que pouco a pouco se adaptara. Não teve crises, não sofreu violentamente. Foi um esperecer lento da ilusão;{55} todo o seu sentimento que morria como uma planta à sêde; e ela curvara a cabeça, aceitava a vida que lhe davam, com uma resignação de fraca que se esquece. Teve dois filhos. Criou-os. E uma paz de maternidade um pouco animal, foi-a calmando; o seu passado de sonho estava longe, nas águas mortas da memória; e ia vivendo assim, anestesiada, sem os sobressaltos de nervos de outros tempos, uma vida normal e clara, no seu lar, entre os seus. Era uma renúncia sem tortura, inconsciente.
Passaram alguns anos, uniformes, que só a doença de um filho ou do marido vinham alvoroçar de longe a longe, e que por fim se sumiam na memória, na mesma cinza neutra, pardamente. Vivia como se fôsse a própria sombra. Já não esperava ter mais filhos. Quando soube que ia ser mãe ainda uma vez, teve a emoção maior da sua vida. Certo, ela foi sempre boa mãe: amava os seus dois filhos muito e muito. Mas agora era diferente, era outra coisa. O que viria era mais, bem mais que os outros: era o{56} filho dela e do seu sonho... Ressuscitou em si mesma: renasceu. O seu sangue resava nas artérias promessas que antes não lhe ouvira, e começou a parecer-lhe que êsse filho era a compensação que Deus lhe dava, quási um milagre, a flôr inesperada em que o seu sonho redivivo iria abrir.
A sua vida banal, desencantada, murchando dia a dia, sem interesse, num automatismo frio e resignado, fôra uma provação, tinha passado: e os seus nervos de histérica, despertos, com todo o amor que a vida sufocara, calcado em resignação, morrendo à sêde, renasciam a vibrar de esperança, davam-lhe uma beatitude transcendente.
O seu filho (estava certa que era um filho) seria um pequenino abençoado, com um destino que só ela e Deus sabiam, e no primeiro olhar que êle lhe desse, pressentiria um evangelho novo como um beijo a correr-lhe tôda a alma... Tudo mudou na vida dela, tudo. Mal falava aos filhos, ao marido, que interpretava a estranheza dos seus modos como a mudança de carácter,{57} os caprichos que muitas mulheres tem naquele estado. Se a olhavam insistentemente ou lhe faziam perguntas, alusões, isolava-se, desaparecia de repente, como alguêm que vive p'ra um segrêdo e receia que os outros lho desvendem. Parecia mais alta, elanguescida, com grandes olhos sempre a olhar p'ra dentro, como teem certas aves e os mármores.
Em solteira, nunca fêz confidências às amigas. Tecia a sua teia no mistério. Todos lhe achavam qualquer coisa de dormente: não compreendiam bem o seu carácter. Mas como era modesta e era boa, esquecida de si mesma e sem vaidade, deixavam-na viver no seu silêncio como um nelumbo de pureza à flôr de um lago. Mesmo no seu isolamento da província, onde vivera com os pais até casar, lia pouco e sempre os mesmos livros: vidas de santas, lendas de conventos. Exaltava-se com êles, tinha fé em qualquer coisa que Deus lhe reservava. Durante os serões lentos, costurando, scismava que nascera para freira. Toda a sua energia,{58} a sua força, abrasava o seu sonho, era interior: e quando batiam à porta da sua alma, ela saía distraída, resignada, a obedecer aos seus passivamente. Esperava contudo um não sei quê. O Destino dissera-lhe um segrêdo. E sem contar a ninguêm o que pensava, vivia como uma eleita: estava à espera... Os seus vinte anos em flôr eram p'ra êle.
Foi debruçada a esta ogiva de mistério, que a vieram chamar para a casarem. Depois a decepção, o sofrimento: mais tarde a renúncia, a anestesia na sonolência banal dos seus cuidados.
Apesar de não casarem por amor, outra qualquer, no seu lugar, era feliz. Êle era forte, delicado e bom. A sua vida de engenheiro absorvia-o. Quando viu que aquela rapariga, que conhecera na província vaga e meiga, continuava nos seus braços abstraída, com um olhar desencantado e quási triste, compreendeu que fizera mal em ir buscá-la como quem colhe um lindo fruto: erguendo o braço. Tentou então insinuar-se{59} pouco a pouco, interessá-la nas suas coisas, diverti-la. Por fim resignou-se, desistiu. Como não era um sentimental, um romanesco, e a sua profissão o apaixonava, contentou-se em ter nela uma amizade, um ser de lialdade e de doçura, desdenhando teatros e convívios pela paz transparente do seu lar, e vivendo p'ra êle, para os filhos, e para aquela vida inviolada que desfocava os seus olhos noutros céus... Como porêm tudo mudara agora!
Dia a dia, a exaltação dela ia crescendo. Uma noite mesmo teve febre, e o médico lembrou que p'rà calmar, era melhor uma mudança de ares, uma temporada na aldeia ou à beira-mar. Partiu então p'rò Minho, para a quinta, e como nem o marido nem os filhos podiam nesse tempo acompanhá-la, levou consigo apenas as criadas, dizendo que preferia ficar só na grande paz do campo, a sossegar.
Era na Páscoa. Nessa ressurreição da primavera, ao abrir a janela do seu quarto, aspirou no perfume dos lilases a esperança{60} que subia com as seivas, vibrando já nas asas migradoras e no pólen que doirava o ar.
Enternecia-a tudo: as relvas novas, ver os rebanhos beberar às tardes quando os montes violáceos se concentram, os pássaros felizes no pomar, e à hora das regas, ao crepúsculo, a alegria das águas borbulhantes, quando as estrelas vem, tudo descansa, pelos atalhos vão chiando carros, e nos paúis, pobres poetas liricos, os sapos piam comovidamente. Nunca sentira tanto a natureza.
E foi nesta atmosfera de pomar que ela esperou misticamente a hora suprema, querendo sofrer, feliz, extasiada, como uma nuvem alta da manhã que o sol rompesse p'ra descer aos homens...
Davam Trindades. A tia Olívia contara um lindo conto. Ao sair dos palácios de feeria por onde a voz dela o ia levando, o Emílio ficava a olhar as jóias, os anéis, a{61} pedras preciosas esparsas na sua mesa de doente e luzindo em sortilégio, na penumbra. Eram olhos de fadas, encantados...
Não tiveram remédio senão dar-lhos: por quanto tempo, meu Deus, por quanto tempo?... P'rò distrair, há dias, o tio Eduardo tirou os anéis e deu-lhos, e como o viram ficar muito contente, os outros deram-lhe tambêm os que traziam. Mas quando iam nessa noite a despedir-se, êle ficou tão triste ao entregá-los, que o tio Eduardo propôs que lhos deixassem e todos imediatamente consentiram.
—Fica com êles, Milinho, guarda-os, guarda-os.
—Mas não são meus, não quero... Assim, não quero...
—São todos teus, são todos teus, meu filho.
Então em roda todos confirmaram a mentira damor que o alegrava.
Daí por diante, sempre àquela hora, vivia num delírio de gandezas. Mas nesta tarde, ou porque o conto mais o impressionasse,{62} ou porque estava mais fraco e com mais febre, a excitação do Emílio era maior. Os seus olhos de mago, muito abertos, dois veludos de febre ainda mais negros, maguavam-se fitando as pedrarias, êsse baile de côres e de reflexos que pareciam mais vivos na penumbra, e como se a febre dêle os contagiasse, tinham fulgurações de um brilho agudo. Abria, abria os olhos fascinado.
—Que lindo, mamã, veja que lindo!
Toda a sua carita consumida desaparecia no clarão dos olhos, mais pretos que asas de andorinhas, ao tremerem no ar em despedida. Outro sino mais longe deu Trindades, numa voz de prata e de fadiga, como se lhe custasse a vibrar até ao quarto. Todos estavam opressos, sem falar. E êle, erguendo os braços de repente, deixou-os ir cahindo sôbre as jóias, cobriu-as com as palmas das mãosinhas, puxando-as contra o peito avaramente:
—São todas minhas, não é? São todas minhas...{63}
—Todas, Milinho, disse a mãe transida. Vergou-se então sôbre elas com esfôrço, como se fôsse p'ràs beijar, branco de cera, e repetiu ainda extasiado:
—É lindo, lindo... lindo. Não dou nenhuma a ninguêm. São todas minhas.
Espalhou-as um pouco sôbre a mesa, pôs de parte os anéis, ficou a olhá-los, e sorrindo à idea que tivera, disse baixinho:
—Vou pô-los nos meus dedos. Começou a enfiá-los com cuidado nos dedinhos ossudos, só falanges, mas deixava-os cair a cada instante, largos de mais, em fugas de reflexos. Já ia na terceira tentativa, num desespero mudo, a arfar cansado, quando o tio Eduardo e a mãe o ajudaram. Levantaram-lhe as mãos quentes de febre, e enfiaram-lhe os anéis nos dedos ósseos, que êle ergueu quanto pôde, deslumbrado.
—Mamã! Estavam a dar Trindades. Vou rezar uma avé-maria, vou rezar.
Na penumbra da alcova, de mãos postas, escorrendo em reflexos irisados, a sua{64} vòsinha disse a avé-maria num timbre muito fino de carícia, como um adeus que punha os olhos rasos, num veludo expirante de palavras, dêsses que tem no outono, a horas mortas, certas fôlhas de arbusto a despedir-se. Nem o tio Eduardo se conteve. Brilhavam-lhe já lágrimas nos olhos. Ninguêm tinha coragem para falar.
A lua, que agora vinha muito cedo, batia na varanda, brancacenta. Êle tirou os anéis devagarinho, como um ser de conto, a sorrir sempre, e deitou-se p'ra baixo fatigado.
—Dê-me as suas mãos, mamã, quero senti-las.
E ficou a beijar-lhas muito calmo. No enleio de uma emoção religiosa, todos queriam quebrar êsse silêncio, feito de sonho e de apreensões de morte, que avançava talvez na luz do luar. Foi o tio Eduardo que falou:
—Esteve hoje um dia lindo, quási quente. Temos à porta a primavera. Dentro em pouco, Milinho, estás mais forte; já podes dar à tarde o teu passeio.{65}
—Logo que possa, mamã, vou ver o mar. Consigo, sim?
—Se Deus quiser, meu filho, havemos de ir. E ainda antes, has-de ir para o quintal brincar com os manos. Sabes que a tua árvore, a magnólia, já está cheia de flores muito brancas?
—Ó mamã, mamã, deixe-ma ver,—pediu êle erguendo a cabeça de repente.
—Mas vais apanhar frio, meu filhinho. Amanhã, amanhã, agora não.
Tanto insistiu, que o levaram ao colo até à janela, embrulhado em cobertores, muito contente, e ficou assim alguns instantes, a carinha colada contra os vidros, no deslumbramento da magnólia, da sua árvore, erguendo o tronco negro e lívido de lua, e nos ramos implorantes e afilados, as flores mais brancas que há na terra.
Deitaram-no. Deviam ser nove horas, pouco mais. E como sempre, levantaram-se todos p'ra partir. Cada um então foi dar-lhe um beijo, e ao apertarem-lhe as mãos—adeus Milinho!—êle olhou-os desta vez mais{66} devagar, com um olhar que nunca mais lhe viram, em longes de meiguice, de outro mundo, numa névoa de lágrimas contentes. E sorria ao dizer:
—Adeus, adeus. Tio Eduardo, tia Olívia, adeus, adeus...
Essa creança assim, a despedir-se, com uma voz perlada de carícia, encheu-os de aflição e de terror; e foi mordendo os soluços, sufocados, que saíram da alcova, que partiram, ouvindo dentro dêles o crocito—nunca mais! para sempre! never more!—dêsse corvo fatídico, de lutos, que Poé revelou em versos trágicos. Qualquer coisa de lindo ia morrer. Qualquer coisa de lindo ia morrer...
No emtanto na alcova, o pequenino, alongava os bracitos para a mãe e dizia feliz, como em segrêdo:
—Que bom, mamã! Que bom estar só consigo! Sente-se aqui depressa, mais pertinho...{67}
—Aqui me tens, Milinho, aqui me tens. E beijava-o na testa longamente.
—Como eu gosto de si, minha mamã! Quem me dera viver sempre ao pé de si!
—Deus há-de-te sarar. Verás, verás...
—Bem sei que lhe faz pena, não se aflija: qualquer dia, mamã, eu vou partir...
—Nem digas isso, meu amor, nem digas isso.
—Vou-me embora, vou, p'ra muito longe... Não faço falta a ninguêm. Ficam-lhe os manos. Só lhe deixo a si muitas saudades...
—Se tu gostas de mim, não digas isso.
Êle tornou mais lento, resignado:
—Por sua causa, mamã, queria viver ainda que fôsse assim... sempre doente, sem saír do quarto, ao pé de si, mamã, ao pé de si...
—Agora precisas de dormir, de descansar. Fecha os olhos, Milinho, dorme, dorme...
—Então dê-me as suas mãos. Quero dormir com as minhas mãos nas suas.{68}
Dentro em pouco, serenamente, adormeceu. Ela tirou as mãos devagarinho, aconchegou-lhe a roupa contra os ombros, e afastando-lhe dos olhos o cabelo, deu-lhe um beijo na testa, muito leve.
Já o luar escorria pelos vidros em lágrimas de opala e de mercúrio. A noite vinha ver o seu filhinho e enchê-la de esperança e de coragem. Como o pai disse recolher mais tarde (uma entrevista no club p'ra negócios) mandou deitar as criadas, ficou só: esperá-lo-ia ali, junto ao seu filho. Como dormia bem, tão sossegado! Deus era bom, havia de salva-lo. E numa exaltação, quási feliz, encostou-se à vidraça a olhar a noite.
A magnólia ao luar estava divina. Se o pequenino a visse, o pobresinho! Como êle gostava das árvores, do mar! Não se lembrava de ter visto um luar assim. Fazia-lhe tão bem: calmava-a tôda. Via ao longe, no rio, as mastreações, e distinguia as vêrgas, o velame, a luz dos estais à pôpa, nictitando. Vila-Nova, a casaria, os arvoredos, subiam do outro lado empoalhados, e a névoa que{69} se erguera pouco a pouco, era já na colina ao luaceiro uma via-láctea nova, avoejante, salpicada de luzes, muitas luzes, como se Deus atirasse com amor, às mãos-cheias de estrêlas sôbre a terra. Toda a mole granítica da Sé, galvanisada a lua, se animara: corria luar nas veias dessas pedras, morenas do sol de tantos séculos, e tôda a catedral se eterizava como se as gárgulas aladas das cimalhas acordassem p'ra tentar um voo último. A casaria mesmo, estava absorta. Que lindo, meu Deus, como era lindo! Elfos de lua, gnomos, rondas fluidas, andavam no ar com o pólen dos jardins, e as rosas de toucar por sôbre o muro, fechando todo o quintal em trepadeiras, tinham nuances de síncope, esmaiadas. A paisagem era um sonho deslumbrado, numa assunção p'ra Deus, erguendo os caules, e os troncos, as torres das igrejas, e os olhos das janelas: de mãos postas. Deus fundira-se em lua, andava esparso, como um filtro de sonho, transcendente, propiciando, amando, perdoando.{70}
Bem certo: o seu filhinho sararia. E nessa maré-cheia de luar, no encantamento sortílego da noite, a esperança subia a aluciná-la despertando o sonho místico de outrora. Aquella figurinha não mentia: os seus olhos de mago eram proféticos. As suas mãos tocando adivinhavam, como naquela noite, há já três meses, em que uniu, sob a bênção dos seus olhos, as mãos do tio Eduardo e da tia Olívia, no silêncio que em roda se fizera. Assim os dois souberam que se amavam, e ficaram a olhar o pequenino como numa liturgia nupcial... E não tinha sete anos ainda então! Mesmo a sua conversa perturbava, com inflexões de médium, reticentes, em que palavras de sempre, as mais comuns, se engastavam em timbres de mistério. Nascera para amar, o seu filhinho. E tudo, a sua voz de concha meiga, a sua palidez estiolada, os seus olhos de oráculo—criança, diziam bem um ser predestinado, um guiador augusto de destinos, em cuja atmosfera de carícia muita dor havia de acalmar-se, como{71} um perfume de rosa, a certas horas, nos beija com uma bôca de perdão.
Toda a vida do seu filho ia passando. Descaíam-lhe as pálpebras, ao peso das quimeras debruçadas. E de repente, estremeceu gelada. Sentiu o luar nas mãos, subiu-lhe aos seios... Se a beleza da noite, transparente, êste aquário em que a lua abria as veias e a vida da terra ia boiando num abandono de ninfeia aberta, fôsse afinal uma cilada d'Ela, um disfarce da Morte p'ra roubar-lho!?... Meu Deus, meu Deus! Era possível que ela viesse assim, essa maldita, na feeria argêntea dessa noite, com a fouce escondida em musselinas, silenciário carrasco sem memória, correndo em passos de êxtase e de opala, e matando com um hálito de gelo, num aflorar de plumas hesitantes junto do qual um beijo era grosseiro?... Um instante o terror alucinou-a. Não deixaria a lua entrar na alcova! Ia fechar as portadas, e no escuro, colando o corpo contra o seu filhinho, estaria mais segura, a defendê-lo. Num sobressalto, foi até junto{72} dêle, ficou queda. Que imensa paz nessa carinha meiga! Pôs-lhe a polpa dos dedos sôbre a testa. Estava muito suado como sempre. Mas a sua respiração era tão calma, e na concha das pálpebras descidas havia uma doçura tão profunda, que se sentia bem que o seu anjinho estava a sonhar com as fadas de algum conto, onde, como êle às vezes lhe contava, a boa fada tinha a cara dela, e olhava e beijava como ela. Tudo corria bem. P'ra que assustar-se? Os seus nervos, afinal, só os seus nervos! E ao voltar-se de novo para a noite, teve remorsos de ter medo dela, de ter desconfiado loucamente que êsse luar de perdão espargelado fôsse um scenário infame de traição, contra aquela flôr—a pobresinha! que era seu filho e Deus ia salvar.
Voltou p'ra junto da vidraça, ainda trémula, a sossegar nesse esplendor silente. O luar avançava sempre e sempre. Já lhe doirava agora os olhos razos, o cabelo, a testa, o corpo todo. E com uma idea súbita rezou. Não podia dizer a quem rezava, se{73} rezava a Deus ou ao luar... Mas Deus era o luar, era o luar... E agora estava certa, estava certa de que êle vinha p'ra curar o seu filhinho, e envolvê-lo todo p'ra sará-lo como um beijo de Deus a essa criança.
Pôs-se em bicos de pés o mais que pôde, e com um gesto feliz, misterioso, corria os cortinados de mansinho, p'ra que êle chegasse mais depressa junto ao leito, a sorrir e a chorar, tôda contente. Êle vinha, êle entrava sempre e sempre. Estendia-lhe as mãos como a chamál-o, as suas mãos de mãe, de veias altas, que um dilúvio de amor intumescera. Já despertava os móveis, seus amigos, a que ela queria como a confidentes. E doida de feliz, quási riu alto ao ver-se no espelho enluarado. Dizia-lhe baixinho: «entra, entra...» Já a cadeira de braços estava empoada e a trama florida do tapete ressuscitava em gamas sonolentas. Se até vitalizava as coisas mortas! Era Deus, era Deus êste luar... E que sossêgo agora, que sossêgo!... Até a bica do tanque se calara. Havia uma atmosfera de{74} milagre, o seu sonho de mística era certo. Os seus pressentimentos não mentiram. Era um destino sagrado, o pequenino. Por isso Deus descera no luar: era êle, era êle, estava ali... Isto era bem verdade, era a verdade. Mas então o seu filho estava salvo! E desatou a rir perdidamente, num timbre de histeria muito sêco.
De repente lembrou-se: o luar era Deus: não devia pisál-o, era um pecado... Fugiu então p'rà zona ainda escura, olhou o pequenino adormecido. Pareceu-lhe que sorria extasiado. Sentiu uma alegria semi-louca, um excesso de esperança a sufocál-a. Por fim ajoelhou-se junto ao leito, chamando-o com as mãos, lavada em lágrimas; mas rindo sempre, sempre, a segredar-lhe: «Entra, entra, entra...» Êle vinha, êle vinha, muito fluido, de cada vez mais branco, mais divino. Debruçou-se então, beijou-lhe a orla. Ergueu-se a radiar, transfigurada, com os olhos histéricos mais vítreos e um riso em aro, descobrindo os dentes, numa beatitude arripiada. Foi esperar o luar do outro lado,{75} as mãos nas grades da cama, à cabeceira. Êle dormia sempre, o pequenino, uma mão escondida no pescoço, a outra sôbre a dobra do lençol. Curvou-se para ver onde o luar vinha. Mal conteve um grito de ventura. Tocava os pés da cama: ia subir!... «Sóbe, sóbe, sóbe» ia dizendo. O seu pobre coração endoidecera: despedaçava-lhe o peito, de feliz. Premiu as fontes com as mãos: «lá vem, lá vem. Bemdito seja Deus, sempre bemdito».
Havia um clarão no couvre-pieds agora. Uma larga lágrima, redonda, foi lá rolar como uma grande pérola. Nesse instante ouviu como um gemido. O pequenido mexia-se, acordava. Levou as mãos ao peito, despertou. Mal se viu o veludo dos seus olhos... Quis erguer a cabeça, descaíu-a. A mãe vergou-se sôbre êle: «meu filhinho», pôs-lhe as mãos em caricia sôbre as fontes que um suor muito frio perolava, e ia beijál-o, quando ouviu três vezes, como um fio de voz, já muito longe: «mamã, mamã, mamã...» E fechou p'ra sempre os seus{76} olhos febris de grande génio triste depois dessa palavra suprema que era tôda a sua fé.
O luar chegara emfim à cabeceira!
Só quando êle esfriou sob os seus beijos, só quando viu os braços que lhe erguera, para que Deus o visse de mãos postas, implorando-lhe vida, o pequenino!—recaírem inertes sôbre a roupa, compreendeu o crime, o crime imenso.
—Vinha no luar a Morte... no luar...
Voltou-se então num desespero último, p'ró expulsar, p'ró pisar sob os seus pés: depois reanimaria o seu filhinho: dar-lhe-ia a beber todo o seu sangue. Mas ficou paralítica de assombro. O luar alagara todo o quarto: água lustral de lua, alma de lua, no chão, no ar, em tôda a parte... O seu sangue gelava-se nas veias. Não podia lutar, era impossível. Êle invadira a alcova, asfixiara-a. Estava tudo perdido, tudo, tudo... Abriu os braços, hirta, inteiriçada, e caiu ao desamparo, sem sentidos.{77}
[O HOMEM DAS FONTES]
A JUSTINO DE MONTALVÃO
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[O Homem das Fontes]
Chama-se Harry Young o homem das fontes. Vi-o a primeira vez em Granada no Paseo de los Tristes, ao pé de uma fonte árabe já morta. É um rapaz alto, de um loiro muito claro, maneiras simples que revelam raça, olhos de névoa calmos e abstractos, e uma voz estranha, monocórdia, ou p'ra dizer melhor, uma voz de água. Nasceu em Londres. É rico. Sem família e sem lar, vive em perpétua viagem. Encontrei-o em Roma, em Constantinopla, em Florença, e, detalhe que me feriu intensamente, desenhando, escrevendo ou só olhando, sempre junto a uma fonte, concentrado,{80} como se fôsse a caricatura fabulosa que o encantamento de uma ninfa ali prendesse.
Harry Young chegou a obsidiar-me. Nunca porêm, pensei em ir falar-lhe, recorrendo ao impudor tradicional que se tolera sempre aos que viajam.
Uma manhã, em Florença, tive quási a impressão de que era um louco. Cedo ainda, seriam cinco horas da manhã, fui p'rà Piazza dela Signoria encher-me de sadismo estesiante a olhar na Loggia o Perseu de Benevenuto. Tem, como sabem por centenas de gravuras, uma fonte desenhada por Vasári à sombra ameada do Palazzo Vecchio. Caía uma luz melodiosa. Harry desenhava, um caderno de apontamentos na mão fina. Um esbôço da fonte, era evidente.
Àquela hora só havia pombas no silêncio irreal da praça. Discretamente, pus-me a olhar tambêm a fonte. Ao centro, o Neptuno de mármore é boçal; há uma ronda de ninfas alongadas num bronze de patine quási azul; os cavalos marinhos saltam na água e os tritões que cercam tôda a taça{81} tem a alegria de quem vive na água, uma beatitude cínica e animal, espirrando das máscaras de bronze por fossetas de riso, bocas ébrias, em verve muscular, em gestos vivos. Os dorsos luziam de água esparrinhada, e de estátua p'ra estátua voavam pombas fazendo em roda aquele adágio de asas que à pôpa dos navios, no mar alto, riscam os voos curvos das gaivotas. Não podia saborear aquela paz, com um desejo único a morder-me: ver o que Harry Young desenhava.
Êle fixava a fonte alguns instantes, e antes de transcrever o que colhera, quedava ainda imóvel, recolhido, numa aura de emoção mais do que estética, que me parecia absurda, incompatível com um esbôço num álbum de viagem. Ao lado, em frente à estátua de Cosme de Médicis, criados sonolentos iam dispondo as mesas nas terrasses. Já havia dois cafés abertos onde gente apressada ia beber. Harry, que continuou alheado ainda algum tempo, foi por fim sentar-se a uma terrasse, e bebendo um copo de leite{82.} lentamenle, tinha o álbum aberto sôbre a mesa dando os últimos retoques ao desenho.
Quem era esta criatura que só o encanto das fontes interessava, e que em Florença, como em Granada, como em Córdova, nunca vi num museu ou numa igreja, como se só o granito ou o mármore das fontes tivessem para os seus olhos estesia? Que sensibilidade aberrante, que destino fadara p'rò convívio enigmático, p'rò segrêdo embalador das fontes, êste rapaz, que não tinha ainda trinta anos, era decerto rico, bem nascido, e nem via mulheres nem paisagens, absorto neste claro misticismo?
Sentei-me numa mesa perto dêle e pude ver à vontade o seu desenho. Nem um traço da fonte nessa página onde bem claro, escrito a grandes letras, sob um desenho singular de mulher nua, eu li: Fonte Adamanti, em Florença. O quê?! A fonte concebida por Vasári era p'ra Harry Young aquele corpo?... E buscando a relação possível com essa fonte mítica e ingénua,{83} onde em torno a um Neptuno gigantesco farandolam ninfas e tritões, ou fôsse sugestão da simpatia que desde que vira Harry eu senti, ou porque de facto ela fôsse um claro simbolo, pareceu-me que essa forma musical, êsse corpo de oceanide surprêsa esperando o tritão que a possuiria, era a síntese poética flagrante da fonte que Vasári imaginou. Corria o risco de me tornar suspeito na ânsia de ver melhor, de analisar. Harry ergueu-se. Vi-o seguir pela galeria degli Uffizii e desaparecer ao fundo, lentamente, p'ra êsse scenario onde se evoca Dante, feito de lindas pontes habitadas, da escultura nobre das colinas e das águas do Arno romanescas.
Depois voltei p'ra Roma, onde encontrara Harry meses antes.
Muitas vezes me lembrava dêle, eu que tambêm adoro as fontes, com uma simpatia persistente, cúmplice. Por êsse tempo ia eu às noites degustar o rascante trágico da solidão na Piazza del Popolo, estirado no largo rebordo de alabastro da fonte, fronteira{84} ao Pincio, impregnando-me dessa alma sem memória, dessa crónica augusta de silêncio, que é em Roma a atmosfera de magia das praças sem ninguêm, com vozes de água. Ficava assim horas numa tristeza quási sensual, com uma espécie de delírio de grandezas que me permitia dialogar com Roma, calmar a minha incerteza de falhado na beleza sobrenatural da grande morta, e fundir com o dela o meu destino como o de um herói num poema antigo.
P'ra sentir esta luxúria psiquica é preciso ter vivido muito ou ter a velhice precoce dos artistas, que em plena força e plena mocidade, agarrando pelos cabelos a alegria, entristecem ao beijar-lhe os olhos. Era aquela em Roma a minha hora mais silenciosa.
Ao centro da praça os quatro leões golfavam água, guardando o obelisco egípcio numa vigília de esfinges, sempiterna. Em Roma, à noite, vivem-se horas de convento. É a cidade suprema p'ra viver com um sonho ou com uma idea, velada por formas{85} milenárias que recebem exames de consciência. Notei um vulto esguio, à quarta ou quinta noite, sentado aos pés do obelisco, num degrau. Estava na sombra e, nem eu sei porquê, pensei em Harry. Dentro em pouco, na embriaguez dessa auto-sugestão, nem já admitia dúvidas: era Harry, era o homem das fontes que ali estava. E como uma raiz fende um granito, brotou da minha solidão de quatro meses, viajando sem sofrer um só convívio, um desejo furioso de falar-lhe.
O lirismo imemorial dêsse silêncio levava-me p'ra aquela criatura, que uma espécie de loucura poética instalara de vez no meu espírito, como p'ra um ser afim, um quási irmão.
Pareceu-me que êle mesmo se movera, olhara na minha direcção, como esperando. E nessa hipertensão de nervos que dá aos imaginativos o silêncio, o convívio calado e fascinante com as criaturas brancas dos museus, o meu desejo de falar com Harry atingiu a plenitude, exasperou-se. Levantei-me.{86} Sem me atrever a caminhar p'ra êle, fui-me timidamente aproximando: dei a volta ao obelisco devagar e parei com ar distraído junto de Harry, como se olhasse um dos leões golfando água. Fiquei assim nervosamente alguns segundos.
Quando por fim o olhei, vi nessa máscara glabra de tritão um desejo de me falar igual ao meu. Não posso repetir o que lhe disse, as primeiras palavras que trocámos. Aludimos aos nossos múltiplos encontros, em Espanha, na Itália, na Turquia, por uma coincidência bem estranha, sempre junto de fontes...
Ninguém passava. Ouvia-se o vento a arrastar no Pincio fôlhas sêcas. Lembrei-lhe a manhã em Florença, na Piazza dela Signoria, o desenho da fonte de Vasári que eu vira na terrasse por trás dêle. Harry calava-se surpreendido. Perguntei-lhe se viajava como artista, p'ra pintar.
—Não sou pintor. Gosto muito das fontes, perdidamente. São o grande interesse da minha vida...{87}
Disse-me então o seu amor às fontes, baixando um pouco a voz, quàsi em segrêdo.
Era órfão. Nunca quis conviver com os seus parentes, onde, por razões que depois soube, só encontrou um acolhimento frio, como se fôsse um estranho, sem ternura.
Tinha uns nervos doentios que o isolavam. Dos seus tempos de colégio não guardava saudades mas só ódios, à grosseria vulgar dos camaradas, à promiscuidade forçada e torturante p'ra uma sensibilidade como a sua. Logo que chegou à maioridade, rico e só, foi visitar nos arredores de Londres o castelo em que seus pais viveram. Correu o parque, as salas, as estufas. Viu ainda o seu berço, os seus brinquedos, onde um pó sem saudade ia caindo, como sôbre coisas velhas num museu.
Passou no quarto de sua mãe algumas horas... Sentiu uma tristeza imensa em que tudo lhe parecia hostil: os móveis, o ar, um cheiro a morte, até os olhos fitos dos retratos... O seu primeiro desejo de homem livre fôra essa visita com que tanta{88} vez sonhara, e saía de lá desamparado, com uma espécie de desespêro inerte que tôda a casa lhe contagiara: a velhice das coisas sem beleza onde viveu alguêm que nos foi querido e que perdem com a côr tôda a memória. Esses muros sem alma angustiavam-no. Já atravessava o parque p'ra sair quando ouviu a chamá-lo uma voz de agua. Era ali perto e pareceu-lhe bem distante, vinda da sua infância já tão longe. Emfim alguêm amigo, acolhedor! Foi p'ra ela como iria p'ra sua mãe ressuscitada, e ficou a ouvi-la até à noite. Abrira-a o jardineiro emquanto êle percorria as salas. Harry contou-me:
—Tive a visão de um lar naquele instante. Aquela pobre fonte sem beleza consolou-me como uma mãe, beijou-me os olhos.
Acarinhou-me como a irmã... que nunca tive, como a noiva que decerto não terei...
A sua água encheu-me de saudades. E ao pensar nas salas que deixara, tudo me comoveu, ali, a ouvi-la: os olhos dos retratos já me olhavam... os tapetes, os móveis, as paredes, tinham linguagem agora: compreendiam-me.{89} As janelas á névoa, eram olhos tão rasos como os meus. E como poisavam pássaros na pedra, eu mesmo fui buscar pão p'ra lhes dar, espalhei muitas migalhas pela fonte... Senti a vida tôda no meu peito. Vem dessa hora o meu amor às fontes.
Harry erguera-se. Seguíamos pelo Corso lentamente. Pedi-lhe então que me mostrasse os seus desenhos, os símbolos de fontes que creara.
—Só se quiser vir comigo ao meu hotel.
Já tenho as malas feitas p'ra partir. Vou p'ra Veneza. Veneza é um hospital de águas... Faz-me triste.
O quarto de Harry no hotel de Londres, Piazza d'Espagnia, tinha entre duas janelas um piano. Estavam abertas à noite, que em Roma parece mais arqueada, como p'ra receber melhor as confidências. A torre della Trinitá del Monte deu onze horas. Naquela paz não éramos só dois, porque subia da praça, propiciando, a voz da fonte{90} de Bernini, la Borcáccia, a escoar-se sem jactos, brandamente. Harry acendeu as serpentinas sôbre a mesa. Vi então dois álbuns grandes de viagem, e alguns pequenos mais esguios.
Começámos a folhear num dos primeiros a imaginosa notação das fontes árabes: de Córdova, de Granada la vieja, a terra andaluza de mors-amor. A fonte morta do Paseo de los Tristes, onde pela primeira vez eu vira Harry, era um cadáver de almeia; e havia ainda outra de Granada, que eu toquei no jardim de Lindaraja, onde a princesa agarena vive ainda com uma côrte calada de ciprestes...
O desenho de Harry dava-me dela uma visão patética. Evocava-a nova, musical, nesse jardim interior da Alhambra—jaula feérica da luxúria árabe, onde os corpos morenos das almeias elanguesciam nos mármores dos pátios, e nas salas de jóias lapidadas dormiam com os perfumes dos jardins as grandes séstas tórridas, de cópula...
Desenhára o mirador de Lindaraja, com{91} as suas gelosias marchetadas que ela entreabria um pouco, debruçando-se, como p'ra ouvir melhor a voz da fonte. E a fonte falava de desejo, porque ela tinha nos olhos, nos cabelos, na bôca a entumescer, nas linhas sôfregas, a expressão de uma corola ao cair do pólen... Dos desenhos que vi das fontes turcas, um entre todos me maravilhou: a do sultão Ahmed, em Stambul, no coração da praça do Serralho. É um lindo harém de grades redoiradas, arabescado de oiro e lápis-lazuli, de que a água é sultana única.
Harry representara Schehèrezade, a noveleira das Mil noites e uma noite. Essa era bem um símbolo de fonte, que durante mil noites e uma noite, a contar histórias sôbre histórias, adormeceu o califa que a matava se a sua voz lhe não fechasse os olhos... Foi um destino de fonte Schehèrezade.
Havia fontes de parques e de claustros: a primeira era uma Belle au bois dormant que um pavão heráldico velava; e entre as imagens místicas que vi, apenas lembro uma{92} carmelitana, lendo sob uma ogiva, côr de cera, decerto Santa Theresa, Las moradas... A última, porém, a mais estranha, de não sei que vila romana ao abandono, era uma grande esfinge tumular com asas mortuárias de falena. Recordo ainda páginas isoladas: a fonte dos cavalos marinhos da vila Borghése era um Pégaso de crinas alagadas, uma cabeça de cavalo grego, dêsses que nos versos de Homero viviam irmãmente com os heróis. E não sei que fonte mitológica—uma estátua de Juno, sereníssima, a cabeça nimbada de andorinhas.
O outro álbum era de esboços—desenhos e maquettes,—tôda uma arquitectura fragmentária p'ra um palácio quimérico da água, num poético parque, inverosímil como o de Poë no Domínio de Arnheim.
A maior parte dos desenhos eram vagos, dizendo a embriogenia dêsse templo que Harry erguia à Água Padroeira, com beatitudes de arquitecto místico, em linhas-versículos de sonho.{93}
Perguntei-lhe se tencionava construi-lo. Harry sorriu.
—Construi-lo e habitá-lo... Com Miss Fountain... se a encontrar um dia.
O desenho mais minucioso era a fachada, feita de duas arquiteturas sobrepostas: uma estável, de mármores rosados; outra móvel, música, espumante, de milhares de tranças de água de essas fontes, cavadas em motivos decorais no sonoro frontão religioso que viveria um dia tão beijado como as asas do mar no temporal.
É impossível descrever-lhe as linhas, como é impossível descrever a Alhambra. A fachada de mármore era subsidiária da segunda, a real, a litúrgica, a aquática; era o seu esqueleto quási oculto, e por milhares de ranhuras invisíveis, de declives matematicamente calculados, por bôcas inflectindo em curvas gráceis, por biliões de crivos capilares donde cairiam chorões de prata fluida, destinada a dar vazão a essa segunda, arquitectura sinfónica, hino vivo, que o meu tritão exilado ia criar.{94}
O mármore apparecia, sob a trama arquitectural da água golfante, como através de rendas de Burano um colo ou uma nuca de mulher, e intumescia às vezes como um seio no bôjo de uma ânfora sveltíssima ou na escultura de uma planta de água.
Oh! que feliz a carne dêsse mármore, escrava de uma fluida arquitectura, cantada e beijada todo o sempre! Jactos cruzavam-se como na argentaria solar de uma panóplia, caíam numa taça canelada, donde escorriam molemente, em lágrimas, p'ra renascer vivendo noutros sulcos, donde espirravam como flores se esfolham, em graças platerescas, em sorrisos.
Contra o sol, as janelas, os balcões, tinham estores de longos fios de água, tamisando a luz pr'ò interior em irisações fantásticas de nave. Mas, como Harry me fêz logo notar, o seu projecto, perfeitamente realizável, era um ensaio de arquitetura musical. A euritmia dessas linhas de água, tantas volutas líquidas que eu via no amoroso desenho daquele álbum, não tinham só{95} um fim arquitetónico, antes eram a consequência imediata, o instrumento de beleza necessário, pr'á ópera da Água revelada por um arquitecto-músico de génio. Mostrou-me então a partitura do palácio. Sentou-se ao piano e tocou-me alguns motivos.
Como tôda a gente no hotel dormia, executava em surdina, emocionado. Primeiro o leit-motiv da entrada, cantado no peristilo por três fontes, com três taças de prata cada uma. Era a ogiva elegantíssima da entrada (duas curvas angulares de água jorrante em conchas de alabastro quási ocultas) que acompanhava as três vozes argentinas. Harry chamava-lhe: o motivo de saudação.
Depois tocou-me a sinfonia da fachada. E foi então que ouvi a alma transcendente dêsse tristão-poeta desterrado! E Harry dizia, crispando as mãos numa impotência de nervoso, que era impossível mimar sôbre um piano a fluidez dionisíaca das frases. Os graves e os agudos conseguiam-se por diferenças de calibres, indo de uma tenuidade{96} capilar até aos cilindros de maior diâmetro, às bocas, divertículos, ampolas, com recôncavos e inflexões previstas, num duplo intuito ornamental e acústico.
A gama das resonâncias era imensa, indo dos acordes dos mármores e alabastros até aos timbres dos metais mais ricos, dos bronzes, pratas foscas, claros oiros, com espessuras várias nuançando, imbutidos nos mármores da fachada, enriquecida assim com côres de jóia e os tons sobrenaturais de um órgão de água. Oh! essa sinfonia! Reouvi-la e, meu Deus! prazer supremo, ouvi-la e vê-la, se um dia o templo da Água fôsse vida!
Três melodias fugadas corriam a fachada sem cessar. A que vibrava ao centro tinha timbres mais finos e mais altos, os jactos erguiam-se mais, implorativos, antes de recaírem em vertigem, nos dois focos de resonância decoral. Era uma prece indefinida e dava ao templo como uma aspiração de agulhas góticas, a expressão decantada, musical, que teem as mãos erguidas das{97} Ogivas. Harry chamava-lhe: a ânsia de ser nuvem.
Os outros dois, visualmente, fundiam-se em sinuosidades expressivas, em caprichos de linhas reticentes, e fiando a mesma clara rêde, eram, musicalmente, bem diversos. Harry chamava-lhes: a alegria de morrer sorrindo: a saudade dos rios, das nascentes. E os três deliam-se numa polifonia liquescente em que a ânsia de ser nuvem tinha o patético de umas mãos erguidas; a alegria de morrer sorrindo lembrava a vida e morte das espumas; e a saudade dos rios, das nascentes, nas conchas e recôncavos de mármore revestidos dos bronzes mais espessos, dizia em acordes quasi cavos o desespero da água outrora livre, domada e orquestrada sabiamente: a nostalgia do coração das rochas vivas, dos açudes, dos campos cultivados que ela regava a chalrar nos sulcos largos.