O INFERNO
AUGUSTO CALLET
O INFERNO
TRASLADADO PARA PORTUGUEZ E PRECEDIDO DE UMA ADVERTENCIA
POR
CAMILLO CASTELLO BRANCO
PORTO
TYPOGRAPHIA DA LIVRARIA NACIONAL
2, Rua do Laranjal, 22
1871
ADVERTENCIA DO TRADUCTOR
N'este memoravel anno de 1871, o sacerdocio militante da christandade lusitana subiu aos baluartes mais desamparados, aos pulpitos de grande parte do reino, e desembestou certeiras fréchadas ao rosto da impiedade.
No pulpito da egreja de S. Martinho de Cedofeita, d'esta cidade do Porto,—que não é a mais peccadora, porque é a menos ociosa,—discorreu apostolicamente um padre italiano, que eu não ouvi.
Não fui ouvil-o, porque já tenho muitissimos annos e bastante leitura para conhecer que direitos tem Deus e o proximo ao meu amor.
Não o fui ouvir pela mesma razão que evito alguns livros prohibidos, receoso de que elles estremeçam os alicerces da minha fé.
Não fui ouvil-o, emfim, porque ha um sermão que eu sei de cór, e repito quando tenho sêde de fé, ancias de misericordia, tibiezas de esperança: é o sermão da montanha, prégado aos pobres por nosso Senhor Jesus Christo.
Este sermão ainda meus filhos o não sabem; mas hão de aprendel-o quando as primeiras lagrimas lhes tiverem delido as manchas escuras do intendimento. É preciso ter chorado para comprehender a bem-aventurança dos que choram. Jesus Christo, se houvesse dito aquellas divinas palavras aos felizes, não seria intendido no apostolado, nem seguido na vida, nem chorado na morte, nem confessado no martyrio.
Levantei, pois, o pequenino e fragil oratorio das minhas preces humildes sobre a confiança do divino Pae; e, se em minha alma sinto o desejo de não ter nascido para dôres deseguaes ao alento de cada homem, reconheço que o oratorio do peccador está tanto á vista de Deus que o anjo da paciencia abre as suas luzentissimas azas sobre os meus abysmos escuros.
Ora eu sei de triste experiencia que os discursos do missionario em Portugal me desataviam o espirito das vestes graves com que costumo entrar nos templos.
Na minha mocidade estudei grammatica, fui examinado em logica, decorei a inutilissima cousa chamada rhetorica, cursei muito pela rama algumas aulas de theologia; finalmente, poli quanto pude a razão para que se espelhassem n'ella os preceitos e conceitos dos oradores sagrados.
Pois acontecia que todos aquelles predicados, desde a grammatica de Lobato até á theologia do bispo de Leão, cá no meu interior despiam a casaca e a dalmacia venerandas, para galhofarem d'uns certos padres que se imaginavam favorecidos da infusão scientifica, uma só vez milagrosamente concedida pelo Espirito Santo aos santissimos ignorantes do Cenaculo.
Arguiam-me de indiscreto os bons amigos que me ouviam deplorar a decadencia da oratoria sacra, justificando o proposito pelos resultados, a uncção do prégador pelo soluçar do auditorio, a fertilidade da palavra pela emenda das culpas.
O soluçar do auditorio era tão acceitavel e prestadio como as lagrimas no theatro, que denotam, quando muito, corações sensiveis; aquillo, porém, de emenda das culpas é que vinha desconceituar a argumentação dos meus amigos.
As culpas! o desconcerto da vida, a irreverencia a Deus, o desamor ao proximo, as intranhas descaroadas do rico, a rebellião cubiçosa do pobre, a mão que se esquiva em levantar da lagem o orphão—estas e outras más fibras do coração humano poderá retemperal-as a consciencia illustrada; mas a consciencia espavorida pelo medo dos castigos eternos, essa não.
E os missionarios, que ludibriavam a minha devoção ou curiosidade, demonstravam a precisão de sermos continentes, sobrios, humildes, caritativos, christãos emfim, para não sermos eternamente refervidos no lago de sulphur candente.
Eu nunca ouvi dizer na casa da oração que a providencial justiça tem o seu tribunal em meio dos vivos; que o vicio deshonra, infama, e tolhe o goso dos bens d'esta vida; que a repulsão do delinquente é um castigo; que a sociedade pune primeiro que a lei; e que, se a justiça dos codigos algumas vezes erra, a justiça complexa da opinião publica mantém a disciplina do supplicio, invisivel mas exulcerante na consciencia do culpado.
Nunca ouvi missionario que me parecesse mais illustrado que a maioria dos seus ouvintes, nem vi espectaculo onde reluzissem mais vivos e tristes reflexos da edade-media. Historias horrendas e ás vezes esqualidas de castigos infernaes; immersões em caldeiras rubidas das lavaredas; corpos espedaçados por dragões e logo recompostos para nova e eterna dilaceração; imborcações de peçonha na bôcca dos gulosos; amplexos de serpentes escamosas de brazas n'aquelles que lubricamente deleitaram os corpos n'este mundo: era isto, não era o penetrante pejo do vicio que chamava aos olhos do auditorio as lagrimas restauradoras.
Mas, ao fechar da missão, o peito oppresso do peccador atterrado desafogava-se na esperança de illudir o diabo com uma confissão geral e um profundo pesar na hora da morte, visto que o missionario promettia o céo aos que, nos ultimos instantes, se sentissem vivamente magoados de terem sido perversos.
O céo!
E que promette o padre aos justos, aos que desde a juventude até á decrepidez apenas prevaricaram venialmente? o céo.
E aos apostolos que vão á fogueira offerecendo ao divino martyr o tributo de suas agonias? o céo.
O céo para o facinora contricto no ultimo momento, e o céo para o santo de toda a vida! O céo para o martyr e o céo para o algoz que houve remorso de o haver matado! Ó fé, revérbero de Deus, estarias apagada, se não fosses divina!
Em compensação, porém, que profusa prodigalidade de infernos além-tumulo! Infernos legendarios, imitações do grego, do egypcio, do indostanico, todos os infernos, excepto o verdadeiro—o inferno d'esta vida, a corrente do remorso ao pelourinho da consciencia, e a desgraça implacavel ainda para os que não têm consciencia nem remorso.
Pois esta doce e misericordiosa alliança de Jesus com os attribulados, com os frageis por compleição e por mal dirigidos na mocidade, comporta em si a hypothese de Satanaz, que nos espia o ensejo favoravel e nos faz cambapé ás suas voragens? Comprehendem acaso que Deus se não amerceie de homens fraquissimos, vencidos por um gigante que não coube no céo? Não vêm que Lucifer se atreveu com o Creador, e, depois de vencido, teve por homenagem o reinado de um mundo, e o generalato de legiões immensas, todas a manobrarem na terra para vencerem... a quem? um descendente de Adão, do logrado do Eden, Adão, que tinha em si a plenitude da força, da sciencia; a força do corpo ainda aquecido da mão de Deus; a força da alma iriada dos reflexos do seu Creador! E o homem, debilitado pelo attrito de seis mil annos, que querem que elle seja? Porque lhe decretam a elle—ao fraco—o inferno, se Deus apenas condemnou o forte a viver do suor do seu rosto?
Estas e outras meditações, dignas de que Deus m'as perdôe, se a palavra não friza bem com a lisa intenção, me preoccupavam, quando li este livro de Callet, com certo medo de violar o meu salutar costume de não lêr livros prohibidos, tirante os uteis, os desenfastiados e principalmente os instructivos.
O auctor, comquanto excommungado, usou a christã bem-querença de prevenir-me de que a sua obra estava condemnada. Decidi logo que o livro não seria de todo mau. E, depois que o li, reflexionei que os cardeaes seriam mais discretos esquivando-se a dar voga a escriptos que andariam menos procurados sem a chancella da prohibição.
A mim me quer parecer que o Inferno de Callet sahiria com fóros de orthodoxo da assemblêa dos primitivos christãos, quero dizer, dos seguidores de Jesus Christo anteriores áquella pestilencial sciencia chamada Theologia: tal é a pureza, luz, amor e christianissimo espirito que ungem as paginas d'este consolativo livro.
Augmenta-lhe o valor o encontrar-se com os missionarios portuguezes, cada vez mais attidos á rhetorica ardente do inferno, como se elles e ouvintes não houvessem dado ainda um passo desde que é dia, desde que a razão fez pazes com a fé illustrada.
É tão verdade que este systema de moralisar nada aproveita, quanto é certo que nas aldeias, onde mais trovejam as ameaças do missionario, encontrareis o demonio da corrupção fazendo tregeitos ao padre ás portas das cabanas, onde o vicio avulta mais esqualido com a hediondez dos seus farrapos.
Não melhorareis a sociedade a prégar. E todavia, serodios apostolos, na vossa sinceridade, creio eu, por não ter grande confiança na vossa illustração, e me ser muito custoso suspeitar que sois hypocritas.
Ora lêde este livro que se vos offerece em portuguez correntio, e dizei, se, apagado o inferno, não será possivel accender pharol mais humano e mais divino pelo qual se norteie a posteridade da peccadora Eva, esta immensa familia d'hoje, estygmatisada seis mil annos antes!
Julho de 1871.
PREFACIO
DA SEGUNDA EDIÇÃO
Aos 20 de Junho de 1862 a sagrada congregação do Index condemnou em Roma este livro ácerca do inferno. Caridosamente advirto a leitoras e leitores que temos aqui fructo prohibido.
Perguntam-me o que vem a ser a congregação do Index? Eis-aqui o pouco que sei d'isso: o papa Paulo III publicou em 1539 um catalogo de livros cuja leitura prohibiu aos fieis sob pena de excommunhão. Este catalogo, chamado Index, foi approvado pelo concilio de Trento, enriquecido de numerosos artigos, e por elle, antes de dissolver-se, recommendado a Pio IV. O papa Sixto V, que não tinha vagar para lêr, creou, mais tarde, uma commissão permanente de cardeaes encarregada de examinar e condemnar livros. Esta commissão de cardeaes é o que se chama a sagrada congregação do Index.
Convém saber que Paulo III, velho amigo de Alexandre VI, e tanto, como elle, muito desacreditado por seus vicios, desmembrou dos dominios de S. Pedro as cidades e territorios de Parma e Placença que elle deu com plena soberania, e com titulo de ducado, a Pedro Luiz Farnezio, um dos seus filhos naturaes. Este tal fundou a inquisição, instituiu a ordem dos capuchinhos, exercitou a astrologia, fomentou e applaudiu a carnificina dos vandezes. Não discuto similhantes actos; recordo-os porque elles se ligam á mesma idêa que creou o Index.
Pio IV, a rogo dos Jesuitas, acrescentou algumas contas ao rozario, augmentando-lhe as virtudes; fez estrangular o cardeal Caraffa, sobrinho do seu predecessor Paulo IV; fez decapitar o duque de Palliano, irmão d'aquelle cardeal, e outros muitos personagens cujas cabeças ensanguentadas, por sua ordem, foram expostas sobre a porta do castello de S. Angelo; abafou o processo instaurado em Espanha contra o clero accusado de libertinagem; mas em compensação accendeu por toda a parte a guerra contra os herejes. Accuzam-no de haver beneficiado mais a sua familia que ao povo romano. Eu por mim não lhe contesto as virtudes, e menos ainda a orthodoxia. Na famosa bulla de 24 de Abril de 1564 declarou excommungados, ipso facto, quem quer que no futuro imprimisse, vendesse ou lesse algumas das obras inscriptas no Index pelo concilio ou por elle mesmo; e bem assim quem, não as tendo lido, as emprestasse ao visinho, ou, sem as ler ou communicar a alguem, as fechasse na sua bibliotheca ou n'algum esconderijo da sua casa. Urgia, pois, queimar os livros prohibidos quem quizesse evadir-se á excommunhão, e em seguida á condemnação eterna. Como não podesse queimar os auctores, Pio IV desforrava-se fazendo-lhes queimar as obras.
A vida de Sixto V é bastantemente conhecida, não tem que vêr com a de S. Pedro; mas sobejavam-lhe intelligencia e indole sufficientes ao exercicio do poder absoluto. Era manhoso e cruel este grande papa, cujo systema de governar compendiou em duas palavras: pão e páo.
Dispensam-se pois os povos de pensar, como coisa perigosa: é bastante que elles não morram de fome e que tremam sempre diante do algoz. Depois erijam-se obeliscos e edifiquem-se templos.
Este papa mandava decapitar os padecentes debaixo das suas janellas, antes de sentar-se á meza, dizendo que isto lhe abria o appetite. As cabeças dos suppliciados, que elle expunha e deixava apodrecer aos olhos dos caminhantes, ameaçavam de peste a cidade. Apezar dos juizes, fez enforcar um mancebo de 16 annos por haver resistido aos quadrilheiros que o prenderam. Ordenou que cortassem as mãos e que traspassassem a lingua d'um auctor epigrammatico. Excommungou a rainha Isabel, desquitando a nação do juramento de fidelidade; excommungou o rei de Navarra, o principe de Condé e o rei de França, exaltando até ao delirio o fanatismo dos partidarios da Liga; e depois do assassinio do desgraçado Henrique III, elogiou em pleno consistorio Jacques Clement, comparando-o a Judith e Eleazar, debeis mas fieis instrumentos do Deus dos combates. E como signal sensibilissimo de sua terna solicitude pela salvação das almas, restabeleceu ao mesmo tempo o santo officio e cumulou de indulgencias a confraria do Santo Cordão. Era proprio d'este grande e devoto papa continuar a guerra declarada por seus predecessores á razão humana e á liberdade da consciencia, instituindo de par com o santo officio a congregação do Index.
Não cuideis, porém, que os livros condemnados por esta congregação fossem lidos pelo papa ou sequer pelos cardeaes encarregados d'isso. Por via de regra os cardeaes nada lêem. Á laia de Sixto V, encarregavam outros d'esse officio. Á volta da congregação do Index formigavam monges e obscuros theologos de toda a parte, chamados consultores, a quem incumbia o encargo quasi sempre fastidioso de lêr obras novas. As formidaveis sentenças do Index, mediante as quaes uma familia inteira era excommungada e condemnada, promanavam do relatorio d'estes consultores: tal era a sorte de quem recusasse queimar um cartapacio jansenista, herança de avó piedosa, ou as Maximas dos Santos de Fénelon, ou os Pensamentos de Pascal, ou as Reflexões moraes de Quesnel, embora approvadas pelo cardeal de Noailes, arcebispo de Pariz, ou a Theologia de padre Lequeux—primeira edição—ou a Philosophia de Cousin. Pelo que me toca, julguei que o inferno é uma concepção immoral, profunda e forçosamente immoral pelas razões que adduzi. Tambem mostrei, a diversas luzes, o perigo de similhante crença para o genero humano. Por isso fui condemnado em Roma. Optimamente! Agora exijo que me respondam. Graves e leaes são as minhas objeções: o decreto do Index as deixou subsistir em todo o seu vigor.
Quando a soberania temporal do papa, que não é dogma, deixar de absorver os esforços todos dos defensores da fé, espero que elles tenham vagar de cuidar no inferno, que é um dogma, e dogma tanto em perigo e tão vacillante—fiquem-no sabendo—como o throno de Paulo III, de Pio IV, e Pio V.
INTRODUCÇÃO
DOGMAS HEBRAICOS
É crença anterior á prégação de Christo, quanto ao texto, mas diversa do espirito do Evangelho, a eternidade das penas. Prende esta crença com outros dogmas rabbinicos, tão obscuros quanto descaridosos, que a Egreja nascente adoptou e que ainda hoje formam o essencial da theologia christã. Podemos reduzir aquelles dogmas a cinco, consubstanciados todos no Inferno. Vem a ser: a Rebellião de Satan, o Castigo de Satan, o Paraiso terreal, a Maldição dos homens, o Povo de Deus.
Não intento esquadrinhar o sentido philosophico de taes dogmas: tal canceira, superflua para leitores instruidos, seria insipida e inutil para os ignorantes. Que Satanaz, inferno, peccado original, etc., sejam ou não horrendos symbolos do antigo pantheismo asiatico,—expressão viva d'um systema de methaphysica mais terrivel que especioso, onde liberdade e mal se confundem, e o nada divinisado tem consciencia de si, e Deus quasi deixa de ser—questões são essas proprias de academias. Taes dogmas para mim são o que á letra significam; sei d'elles o que nos ensinam; vejo-os como nos mandam vêl-os, como a multidão os vê, coisas reaes, pessoas verdadeiras, e não chimeras. Considero-os pois sob a fórma com que elles, ha muitos seculos, influem no genero humano: e não ha mais seguro modo de lhes apreciar o valor moral.
Entremos na exposição, clara quanta fôr possivel, d'estes dogmas mysteriosos.
I
Rebellião de Satanaz
A historia de Satanaz não se encontra na Biblia nem no Evangelho. Passou tradicionalmente da synagoga á Egreja. No Thalmud e nos Padres é que vem escripta.
Satanaz era um anjo—como quem diz um espirito incorporeo, um sôpro de Deus. Pureza, força e benção eram o principio e constituição de sua essencia. Estava elle no ceo resguardado de exemplos e conselhos maus. Creado para o bem alli vivia em condições em que não é possivel conjecturar-lhe intenções más, contemplando Deus rosto a rosto, actuando e reclinando-se em seu seio, testemunha intelligente d'aquella superlativa sabedoria, bondade e omnipotencia que transpõe espaço e tempo.
Infelizmente Satanaz era livre e peccou. É obra sua o mal que antes d'elle não existia. Concebeu-o elle, e—caso estranho!—produziu-o alli mesmo no ceo, em meio dos resplendores increados, e eternas bem-aventuranças, e depois quiz-lhe como a seu, e propagou-o por entre os anjos.
Este peccado, aliás inqualificavel, visto que lhe não conhecemos a especie, é, como vou demonstrar, o verdadeiro peccado original. É a primitiva e inexhaurivel fonte de dores do genero humano, posto que ainda não houvesse genero humano na desconhecida época em que elle perturbou o céo. Todos os transtornos do universo, mal physico e mal moral, é aquelle peccado que os explica.
Saibamos como Satanaz foi castigado.
II
O Inferno
Deus não quiz anniquilar Satanaz nem perdoar-lhe. Creou o inferno, e precipitou-o lá com os seus cumplices.
Fogo, frio, esvahimentos de fome, tedios da saciedade, golpes de ferro, trances de agonia, inveja, remorsos, tudo isso não basta a dar-nos muito em sombra idêa dos tormentos d'aquelle abysmo. Corôa-lhe o horror não ser ahi conhecida a morte. Se a morte lá podesse entrar, a esperança iria com ella, deixando entrever o nada como acabamento de tão enormes penas.
Se, porém, foi recusada a Satanaz esta miseravel consolação, goza-se de outra em desforra. Deus, que o reduziu á desesperação, deixou-lhe a faculdade de o molestar, atravessando-se-lhe nos intentos, contrariando-lhe as leis, multiplicando e perpetuando o mal por toda a parte, salvante o ceo.
É o inferno o senhorio de Satanaz; mas não cabe lá. É-lhe toda a creação campo franco para a sua malfeitora actividade. Verdade é que leva comsigo, onde quer que vá, a sua immortal tristeza, e, pelo tanto, toda a parte lhe é inferno. Não obstante, é incomprehensivel que elle de lá sahisse, se lhe não fosse algum hediondo regalo n'isso de fazer tudo quanto quer, excepto o bem—poder singular que Deus lhe concedeu, e elle exercita incansavelmente, seu prazer unico, necessidade propria da sua desgraça, e que hade durar tanto como elle.
Tal é o castigo de Satanaz. Crime e castigo são por egual espantosos e inintelligiveis.
Agora, vejamos o que d'ahi resulta.
III
Paraiso terreal
No segundo e terceiro capitulos do Genesis, refere Moysés a creação e queda do homem. Esta breve passagem foi diffusamente glossada por hebreus e padres da Egreja, e raro haverá quem a não haja ouvido explicar do pulpito, como eu brevissimamente a vou explicar, acrescentando-lhe reflexões minhas.
Adão e sua companheira tinham recebido no Eden uma lei moral simplissima e muito clara: era-lhes licito saborear todos os fructos d'aquella mansão de delicias, tirante o fructo d'uma só arvore: feito isto, a sua felicidade seria perfeita. Conta-se que elles estavam alli mais innocentes que os recemnascidos e ao mesmo tempo mais instruidos que os anciãos d'hoje em dia. Obedecia-lhes a natureza e elles comprehendiam-lhe a voz. Cuidados nenhuns, nenhumas lagrimas, primavera eterna, e a mocidade immorredoira em todo o seu ser. Deus folgava descer-se do ceo para n'elles contemplar a sua viva imagem; e então lhes mostrava seu rosto e lhes fallava.
Entretanto Satanaz foi esperal-os debaixo da arvore da Sciencia, cujo fructo lhes fez comer. Não se corromperam per si mesmos como Satanaz; mas eram livres e o tentador estava alli. Quem tinha seduzido os anjos como deixaria de seduzil-os a elles? Que considerações o reteriam? Não receia Deus por que Deus lhe não póde aggravar o supplicio, pois que esse supplicio é eterno, e o inexprimivel horror de tal castigo consiste na eternidade d'elle. Pelo que respeita á piedade, é sentimento que Satanaz não conhece, pois que Deus lh'a não mostrou a elle, o primeiro de todos os seres que a necessitára. Á semelhança das outras creaturas, tem sómente aquillo que recebe; e o que brilha em si não é o amor divino, é a divina colera que o conserva devorando-o.
Quaes foram as consequencias da queda?
IV
A maldição
Não aceitou Deus as desculpas de Adão e Eva. De tal modo o irritou a desobediencia, que, no auge da sua ira, amaldiçoou-os e com elles a terra que os continha: dupla maldição que abrange alma e corpo, espirito e materia, eternidade e tempo—o homem todo na intimidade de seu ser immortal e nas condições exteriores da sua existencia transitoria.
De feito, foi Adão condemnado á morte. O corpo reverteu ao pó e a alma cahiu no inferno. Esperando, porém, este ultimo castigo, foi-lhe forçado soffrer outro n'este mundo. Cahiu sob o poder de Satan. Os miraculosos conhecimentos, que elle tinha, perdeu-os para sempre.
Repulso do Eden, nada sabia do que tinha sabido n'aquelle lugar; e, como a terra tambem se havia transformado, caminhava elle inexperiente atravez dos estorvos d'uma vida nova. Precisões, lavor ingrato, enfermidades, padecimentos de toda a natureza, desconfianças, medos, saudades inuteis, desejos inquietos acompanhavam o vagabundo par. Satanaz seguia-os, julgando-os ainda bastante felizes sobre a terra maldita, onde, se elle não fosse, o soffrimento seria expiação, e a morte resgate.
Penetremos mais dentro n'este mysterio, e consideremos com os theologos quaes foram e ainda são hoje as deploraveis consequencias d'aquelles successos.
V
Consequencias da maldição
Os filhos de Adão que ainda não eram nascidos no momento da culpa, e os filhos de seus filhos até á derradeira geração foram condemnados com elle, como se tivessem peccado. Comprehende-se que elles não fossem melhores que seus pais: peiores é que elles se tornaram. O mais velho d'esses reprobos matou seu irmão, e a impiedade humana foi crescendo até ao diluvio para recomeçar, ao sahir da arca, durante o somno de Noé.
Uma tal punição não podia gerar outros effeitos.
Considerai que nascemos aviltados, pervertidos, embriagados do vinho que outros beberam, escravos d'um poder occulto e maligno, odiados de Deus, odiando a Deus, só bastantemente livres para praticar maldades e merecer por isso novos castigos; incapazes todavia de praticar o bem. Está Satanaz no manancial onde bebemos a vida; está nas fontes que a nutrem, no seio de nossa mãe e no seu leito; a si nos attráe, encorporando-se na luz, na agua, nos alimentos, no ar que respiramos, na voz que nos encanta o ouvido, na fragrancia que as auras nos trazem, no amigo que nos abre os braços. Comnosco se identifica e nos enche de seus cavilosos e insaciaveis appetites.
De fóra chama-nos com uma doce voz, e com um interno aguilhão nos esporêa para onde nos chama. Então nos cerca, invade-nos, possue-nos, e isto não é ainda senão parte do nosso castigo. O inverno que nos engorgita os membros, a fome que nos prostra, a trovoada que arrebata as sementeiras, a febre paludosa que nos mata os filhos, as forças que se vão quando a experiencia chega, estes flagellos todos da natureza contra nós desenfreados, estas necessidades inexoraveis, amargas privações, e exulcerantes desenganos são tambem parte do nosso castigo. Mas ainda não é tudo: a nossa insanavel ignorancia, orgulho, fraqueza, toda a corrupção do nosso ser é parte integrante do mesmo castigo, não do peccado original, cumpre notar, mas do castigo, pois que a transmissão do peccado original é já de si um castigo. E não pára aqui a maldição; pelo contrario, quando ella se nos mostra mais terrivel é n'este estado a que nos reduziu, manietados pelas cadeias que nos forjou, porque as culpas que resultam d'esta corrupção natura e involuntaria que é um castigo, d'esta possessão diabolica que é um castigo, e de tantas dores accumuladas que são castigo—taes culpas chamam sobre nós outros castigos. Qualquer lapso é reprehensivel; o menor deslize é espiado e marcado; o minimo murmurio é uma offensa.
Taes são, consoante a theologia dos hebreus, adoptada e assignada pelos padres, as relações do homem com Deus e de Deus com o homem.
Detestam-se. Desde a sahida do Eden que se digladiam em duello sem fim, posto que desigual. Um primeiro crime gerou a colera divina; mas do primeiro acto da colera divina surtiram outros crimes, os quaes geraram novas coleras, e continuamente, em face um do outro, a colera e o crime se fecundam e reproduzem sem descanso. Os homens n'esta lucta são incansaveis como Deus, e, posto que trespassados e sanguinolentos e esmagados, ameaçam e conspiram ainda.
De semelhante espectaculo não ha nome condigno! Está o odio por toda a parte, na terra, no inferno, no ceo, nas creaturas e no Creador.
Accrescentemos que o que melhor se comprehende neste systema é a rebellião do homem, porquanto a nossa sorte é mais miseravel que a sorte de Adão, e cem vezes mais miseravel que a de Satanaz. Mas faz-se mister esclarecer este ponto, antes de passar além.
VI
Comparação da nossa sorte com a de Adão e de Satanaz
Em verdade nenhuma similhança temos com os habitantes do paraiso terreal; não lhes herdamos o saber adquirido sem trabalho, nem a pureza, nem a liberdade, que se agitava a bel-prazer em um tão vasto circulo, tendo um só limite perfeitamente distincto; nem tão pouco lhes herdamos a tranquilla felicidade. Para nós é tudo trevas, servidão, limite, trabalho e dôr. Apezar do peccado, outra vantagem nos levavam. Puniu-os Deus d'uma maneira que nos espanta; mas puniu-os pelo mal que propriamente fizeram. Comnosco não é assim. Primeiramente, aquelles actos, que Deus tão severamente castigou n'elles, continuam-se em nós, que não temos conhecimento d'elles senão por este proseguimento vingativo; depois, sem attender á nossa infermidade nativa, nos faz elle expiar nossas proprias faltas com tamanho rigor como se as nós tivessemos commettido na liberdade, na sciencia, e nos jubilos do Eden.
Se podeis, comparae agora a sorte do homem n'este mundo maldito á de Satanaz no ceo; e os peccados d'aquella creatura debil, ignorante, decahida, envolta em carne e sangue, cercada de precipicios e trevas, criminosa porque nasceu, e em perigo porque vive;—comparae isto, se podeis, ao inexplicavel peccado do anjo. Similhança não ha ahi nenhuma. Entre nós e aquelle espirito bemaventurado vae a differença de noite a dia, e entre a sua culpa e a nossa a distancia da terra ao ceo. Sem embargo disso, as penas são iguaes. Espera-nos o mesmo inferno. A unica desegualdade que se nota n'este logar de soffrimento é que o homem ahi será a eterna victima, e Satanaz o eterno algoz.
É evidentissimo que é a mesma a pena applicada a seres que prevaricaram em tão oppostas condições de actividade. Esta pena infinita só tem relação com o poder infinito do juiz offendido; não tem alguma com as faculdades diversamente limitadas dos culpados, e augmenta de gravidade á medida que desce sobre peccadores d'uma natureza mais fragil, de Satanaz sobre Adão, de Adão sobre a sua posteridade.
Quando procuramos n'isto a justiça, dizem-nos que ella ahi está, mas escondida. Oh! sim, meu Deus! Bem escondida, e a razão tambem, e a piedade tambem!
VII
O povo de Deus
Entretanto parece que a piedade se manifesta na formação do povo de Deus, e em verdade ahi se denota, mas como excepção, privilegio e favor.
Havia no Egypto uma raça de escravos; toma-os Deus pela mão, e atravez de mil obstaculos os leva ao paiz de Chanaan; dá-lhes leis, ministros e prophetas; illustra-os, defende-os, castiga-os, restaura-os, disputando a Satanaz, com successivos milagres, essa nesga de terra onde quer ser adorado. Não obstante, estas revelaçõens e sobrenatural assistencia não impedem que os judeus idolatrem, que se prostituam, que usurem e se precipitem numerosissimos em todas as voragens do mal. Por aqui se avalie a desgraça dos povos que occupavam o resto da terra e a quem faltavam taes soccorros. Pezava n'elles sem contrapezo o peccado original. Os que a maior grau de perfeição tinham levado artes e sciencias estavam tão remotos da verdade como o selvagem mais embrutecido. Não porque uns ou outros fossem atheus—pelo contrario, em seus soffrimentos, levantavam olhos ao ceo; mas como procuravam a divindade nas estrellas, nas altas montanhas, no concavo dos bosques, e nas mil imagens compostas de materia impura, debalde rogavam, e inutilmente sacrificavam. Salvante a de Moysés, todas as religiões eram engodo de Satanaz e conductoras d'almas ao inferno, similhantes ás lumieiras que as hordas assalteadoras accendem á beira das restingas, durante as noites tempestuosos, afim de que os navegantes se percam. E Deus abandonava os gentios á sua ignorancia; detestava-os em tanto extremo que prohibia o seu povo de os tratar, sobretudo de misturar ao d'elles o seu sangue, excepto nas batalhas. Occasionado o ensejo, era obra piedosa exterminal-os; mas attrahil-os ao seu coração, era, em todos os lances, um acto abominavel, por maneira que o leproso de Jerusalem recearia manchar-se, se recebesse na sua enxerga infecta a mais pura donzella de Sidon.
Tal é substancialmente o ultimo dogma que nos convém estudar. É certo que elle nos revela a bondade de Deus; mas á similhança de pallida restea de luz em espessa treva. O que nos ella esclarece é um ponto imperceptivel do espaço. Está meio velada no ponto onde brilha, e tanto ahi, como no restante do mundo, razão e justiça de Deus jazem de todo em todo escurecidas. Sobre a terra foi Jacob o unico justo? Se houve mais, porque não fez Deus alliança com elles e seus descendentes? Por que adoptou sómente os judeus, por que liberalisou a estes luzes que negou aos outros? Se lhe aprazia dar á humanidade cabida e obcecada pelo peccado meios de salvação, porque abençoou o sangue e a carne de um só homem, amaldiçoando o sangue e a carne dos mais homens? Se isto é verdade, força nos é exclamar com os theologos:—Razão impenetravel! Impenetravel justiça!—Sendo que tudo isto essencialmente diverge das idêas que podemos formar da pura razão e da verdadeira justiça.
A lei do genero humano, em toda esta historia, é a lei ditada pela colera, e, ainda quando a bondade ahi reluz, dá ares de um capricho.
Os primeiros christãos, judeus de origem, não adoptaram menos estas idêas por mais avessas que fundamentalmente sejam, não só á revelação interior, ás luzes da consciencia, mas tambem a tudo que mais luminoso do ensino de seu divino mestre nos transmittiram. A Egreja, dilatando-se fóra de Jerusalem, conservou o sinete da sua educação rabbinica[1], permanecendo meio judaica. Não mudou um til aos dogmas sombrios e crueis da synagoga, mas transformou o dogma do povo de Deus; ampliou-o espiritualisando-o, sem tirar ainda assim á clemencia divina, como logo veremos, aquella mystica e excepcional indole que tinha entre os judeus. Admittiu os gentios ao beneficio das graças de que Moysés os excluira, e tornou judeus, mediante o baptismo, os que de sangue o não eram. Ao mesmo tempo, repulsou do seu gremio os que só por sangue eram judeus, e o não eram por baptismo, formando, com tal exclusão, outro povo de Deus, e ficando o antigo a representar a figura carnal do novo. Em summa, a Egreja moldurou quanto em si coube, o espirito christão nas fôrmas antigas, que ella sempre venerava e considerava expressamente feitas para o receber. Consoante a parabola, envasilhou o vinho novo no tonel velho, onde ferve até estalar as aduelas; cuidado, porém, que a velha vasilha póde fender-se; o vinho contheudo é o sangue de Christo; e o genero humano, em prol de quem tal sangue ha manado, não deixará que uma gotta se perca.
Ha pouco disse eu que a egreja, adoptando as crenças da Judéa, não havia modificado a indole estranha e excepcional que taes crenças argúem á bondade de Deus. Por egual razão deixou ella condensarem-se as mesmas trevas sobre a sua justiça. É facil demonstral-o.
[1] No concilio feito pelos apostolos em Jerusalem, questionou-se sobre se se devia circumcidar os judeus. Muitos pensaram que esta operação fosse indispensavel á salvação, por isso que Moysés a ordenára; Paulo e Bernabé não foram d'esta opinião; a duvida, porém, era tamanha que sahiram deputados para Jerusalem, afim de combinarem com os apostolos e os padres. O concilio discutiu longo tempo. Pedro fallou de harmonia com Paulo; mas as duvidas subsistiram. Thiago fallou por sua vez, não invocando a palavra de Christo, mas repetindo algumas palavras dos antigos prophetas; o que fechou a pendencia. Decidiram que a circumcisão era desnecessaria á salvação. Todavia, logo adiante, Paulo, que contribuira para este accordo, circumcidou Timotheo, «em razão de estarem judeus n'aquelle logar, e saberem que seu pae era gentio.» Vid. Actos dos Ap., cap. XV e XVI.
VIII
A egreja e o novo povo de Deus
Hoje em dia faz-se mister nascer em paiz catholico para ainda se crêr na possibilidade de não ir infallivelmente ao inferno. Contra o espirito do mal inda lá se encontra aquella miraculosa assistencia que outr'ora protegia apenas o districto não grande do Oriente. Alargou-se o territorio da clemencia, mas ainda assim não mede a quarta parte do globo. Além d'isso entre os novos, do mesmo modo como entre os antigos judeus, perdem-se muitos, porque Satanaz está sempre comnosco, na carne de Adão, e a maldição sobranceia-nos sempre.
Se o baptismo destróe esta maldição, não o faz completamente, salvo quando o baptisado morre ao sahir do baptisterio; senão, nem nos dispensa das penas eternas, nem nos arranca das prezas da necessidade das affeições, das tentações, dos enganos innumeros que são os effeitos temporaes da maldição.
Cresce, pobre creança, e se podes, cerra os ouvidos ás alegres cantilenas da tua ama; foge ás caricias de tua mãe e a todas as seducções que já te rodeiam. Não toques no bello fructo que a tua fome anceia. Na tua edade, sem que o saibas, já Satanaz te falla; na bebida e na comida estão venenos d'elle; com o mal te familiarisas, e perdida está a innocencia baptismal. Feito o primeiro peccado, desluziu-se a graça; a maldição meia delida revive inteira; a Egreja vem ainda com outros mysteriosos meios em nosso auxilio; porém, como n'este mundo não ha destruir attracção e inclinação e a liberdade do mal, muitos dos seus filhos se perdem, apesar d'ella, e para, melhor o dizer, em seus braços.
Attendendo aos perigos a que estão sujeitos ainda os filhos da luz n'esses paizes favorecidos, considere-se em que estado de desesperação vivem os filhos das trevas, isto é a maxima parte do genero humano. Em mil milhões de homens, pouco mais ou menos, que actualmente soffrem na terra, o mais que póde haver é duzentos milhões de catholicos. O remanescente vive sem confissão, e o maior numero sem baptismo, na ignorancia ou no odio da Egreja, e d'aqui vão como vieram sob o poder de Satanaz. Tem elles culpa? Nasceram no abysmo e longe de soccorros. Familia, tribu, cidade, patria, protectores naturaes, primeiros guias, ultimos amigos, lições, exemplos, leis e costumes, tudo os engana. Quem é que póde escolher o seu berço? Pois a nossa salvação póde depender de circumstancias e successos que não dependem de nós? A nossa rasão corrompida absolve-os; o velho Adão encontra sempre alguma desculpa ao peccado; mas a fé essa não. A fé decreta a reprovação final dos gentios, dos infieis, dos hereticos e até a reprovação final e eterna d'um grandissimo numero de catholicos; crê n'isto como no peccado original, como na hereditariedade do crime e do castigo, bem como na graça da salvação—coisas correlativas e de todo o ponto inseparaveis. Adora em silencio todas estas apparentes iniquidades, convicta de que ellas são sómente apparentes, e que um dia virá em que os proprios gentios hão de confessar que Deus fez bem amaldiçoando-os: tão profundamente justo, equitativo e rasoavel é na essencia aquillo que exteriormente tão pouco é.
Não ha pois duvidar que milhões de milhões de creaturas humanas estão no inferno. As almas despenham-se ahi de todos os lados, densas e rapidas como a chuva, chuva que dura ha mais de seis mil annos, e não acabará nunca. Todos nós temos no inferno uma immensa familia: todos os nossos antepassados pagãos, durante quatro mil annos, e Deus sabe quantos avós christãos!
Os parentes e amigos de quem nos apartamos a chorar, o que fazem é ir adiante de nós; os netos d'elles e os nossos, pela maior parte, lá vão ter comnosco, e para tão horrivel fim é que nós nos reproduzimos.
IX
Como se prova a verdade dos dogmas hebraicos, e com especialidade a eternidade das penas
Todos estes dogmas estão ligados; porém, quando surge uma duvida, não basta um para demonstrar o outro. Próvem-nos que Satanaz foi expulso do céo, e o homem do Eden; e, quando o tiverem provado, nem por isso lhes cabe o direito de concluir que Deus nunca perdoará a Satanaz nem aos homens. Um castigo que tira aos pacientes a esperança, e ao divino juiz a piedade, é mais incomprehensivel ainda que a fragilidade dos anjos: por consequencia, um tal castigo carece de ser justificado por pessoas eguaes, senão melhores. Estes antigos mysterios não derivam um do outro naturalmente; e, seja qual for o castigo que Deus reserve em sua justiça ás prevaricações das creaturas livres, é certo que nós o soffreriamos, ainda que Satanaz e Adão não tivessem peccado. A principal questão é saber se este castigo será eterno, e a tal respeito a corrupção original, a reversibilidade das culpas, o poder do tentador augmentam nossas duvidas em vez de diminuil-as.
O que ahi ha para nós não são provas, são objecções. O inferno poderá ainda sem isso não satisfazer nossa razão; mas não a offenderá tanto. É urgente, pois, provar que elle existe.
Prova-se pela revelação, isto é, pelas escripturas santas e pela auctoridade da Egreja, interprete infallivel d'ellas. Porém revelação biblica e infalibilidade de Egreja são já de si outros dogmas a favor dos quaes se escrevem todos os dias grossos volumes; e seria desviar-me grandemente do meu assumpto suscitando aqui similhante discussão. O pouco que a tal respeito hei de dizer vem no appendice que está no fim d'esta obra, sendo tanto para o leitor como para mim grande a pressa que temos de sahir d'este labyrintho de mysterios. Investigo provas d'outra ordem, mais especiaes, mais directas, mais apontadas ao bom senso, ao coração, á intelligencia, e que se prestam facilmente a ser entendidas e livremente discutidas. Se taes provas não existissem, não emprehenderia eu similhante trabalho; mas sustenta-se que existem, e em todas as apologias são invocadas como auxiliares das provas sobrenaturaes, e do ensinamento da Egreja, argumentos puramente philosophicos, dos quaes parece que a fé mesmamente está carecida. Dir-se-hia de vontade a respeito do inferno, o que Voltaire disse de Deus: que se elle não existisse, mister seria invental-o. Pois que podemos em verdade provar a existencia de Deus pela necessidade moral d'esta crença, pelo mesmo theor se intenta provar a existencia do inferno perpetuo: intenta-se fazer d'isto uma necessidade moral tão clara e evidente, quanto é evidente e clara a necessidade moral da crença em Deus, e é usual fundamentar tal raciocinio sobre o testemunho de todos os povos, que tanto importa a tradição chamada universal.
A mim me basta a primeira prova; d'ella pende a meu vêr a questão capital. Se o inferno, ou sómente a idêa do inferno é moralmente util, existe o inferno, é necessario, e é divino. Porém, como quer que a evidencia d'esta utilidade não seja dogma, assiste-nos o direito de examinar com plena liberdade. Tal é a tarefa que me impuz. A tradição universal de que tratarei depois, é apenas a primeira face do problema.
O INFERNO
PARTE PRIMEIRA
O INFERNO CONSIDERADO ÁQUÉM DA CAMPA, OU O HOMEM E A SOCIEDADE EM PRESENÇA DO INFERNO
CAPITULO PRIMEIRO
TRADIÇÕES
I
A tradição universal é a prova do inferno?
Quando nos querem fazer comprehender a necessidade da revelação christã, esforçam-se em requintar phrases aviltantes, para bem caracterisar o estado do mundo sob os reinados de Augusto e Tiberio.
Não peço que se suavisem as pinturas. Todavia, se se tracta de nos incutir algum antigo dogma hebraico tenebrosissimo, repellentissimo, tal como o peccado original, a malicia dos diabos, o eternal inferno, então é vêr como esse genero humano tão vilescido se transfigura subitamente em oraculo. Claro é que a moral se lhe varrêra de todo; mas a theologia ficou. Eil-os a cavar no lodaçal das superstições orientaes, as mais putridas de quantas ahi houve, e querem entrever n'ellas uns certos vestigios de lá se haver conhecido Adão e Noé. Se se trata simplesmente do inferno, isso então acha-se em toda a parte. Um paria vagabundo, um pagão abjecto, um negro, um hottentote tremente em face d'um fetiche, eis as testemunhas, os consultados, os doutores. É mais que certo que taes miseraveis haviam perdido as noções todas do bem; dormiam com as servas e até com as irmãs; vendiam na feira as filhas e ás vezes as mães; profanavam os hospedes; eram ladrões, eram antropophagos; adoravam pedras, serpentes, sapos, e, peor que tudo, homens, facinoras ensanguentados; mas criam no inferno. Clarão de consciencia não lampejava n'elles só um; não estremavam raia entre virtude e vicio; e, posto que taes distincções lhes houvessem sido reveladas, tinham-nas esquecido. Vêde, porém, o prodigio: quanto ahi havia incomprehensivel para nós e ainda mais para elles; tudo que transcende a alçada da experiencia; tudo quanto a simples razão não póde revelar—tudo, em fim, que, pelo conseguinte, mais facilmente se desluz da memoria, oh! tudo isso lhes ficou na lembrança!
Que argumento a pró do inferno!
Quem ousa impugnar verdade tão de fundamento provada? Cafres, Papus, Saabs, Bushmans creram no inferno! Patagões, Muskogis, Algonquinos, Chipperrais, Sioux creram no inferno! Hunos, Alanos, Ostrogodos, Gepidas, Vandalos creram no inferno! Tambem creram n'isso Cananeos, Philisteos, Ninivitas e Babylonios! Sodoma e Gomorra tambem! Sardanapalo, Balthazar, Herodiada, Cleopatra, Nero, Attila, Gengiskhão, Tamerlão creram tambem no inferno! Querem prova mais concludente?
Eu não sei se semelhante demonstração do inferno é bem feita para edificar uma assemblêa de fieis; receio muito que os incredulos se riam. Quer-me parecer que, se tentassem insinuar-nos reverencia a tal dogma, deveriam contentar-se com dizer-nos que aquellas raças degeneradas, aquellas nações estupidas, aquellas hordas faccinoras, aquelles sacerdotes embaidores, aquelles reis devassos, em fim, todos esses selvagens e monstros, nem criam na eternidade das penas, nem d'isso tinham vislumbres. Tal argumento, se fundado fosse, figurar-se-hia melhor que nenhum. Presumir-se-hia que esses homens, se tivessem á mão e perante os olhos barreira tal, não se infamariam tanto. Mas, da laia que elles são, darem-no'l-os como crentes no inferno, é mandar-nos descrer. Horrorisa-nos a immortalidade d'elles. Vão lá trazer taes arbitros para uma questão de altissimo interesse moral! Dizeis que elles creram no inferno? Oh Deus meu! é por isso mesmo talvez que elles tão mal comprehendiam a justiça, e tal vida viveram!
II
Explicação natural das tradições pagãs ácerca do inferno
Que monta recorrer a revelações miraculosas? É facilima coisa explicar naturalmente as tradições pagãs ácerca do inferno.
Este social estado que conhecemos, no qual o direito de cada um é definido por lei, e protegido por força publica, não é o primitivo estado do genero humano. No principio, a unica sociedade foi a familia, e, por extensão, a tribu. Cada homem se protegia a si, e sahia em desaffronta propria; parentes e servos bandeavam-se na pendencia, e a menor tentativa contra o direito privado espadanava ondas de sangue. N'esses remotos tempos, vingança e justiça eram uma só cousa.
Ora, é verdade que a vingança procede do sentimento de justiça, mas ultrapassa a justiça sempre, porque é egoista, cega, orgulhosa, colerica, não mede, não se compadece, dá mal por mal, e usurariamente o dá. A mais antiga das leis judaicas, a lei cruel de talião, foi lei misericordiosa; abalisou as retaliações; cabeça por cabeça, olho por olho, dente por dente, e mais nada. A vingança queria mais: arrancava os dois olhos, e não se saciava. Na Thracia, em Grecia e Roma, nas Gallias, na Germania, em toda a terra houve tempo em que os inimigos captivos eram sacrificados aos deoses, e estrangulados pelos sacerdotes do altar. Os que o ferro poupava eram ainda mais dignos de compaixão: condemnavam-os á escravidão com a sua posteridade—ao trabalhar sem proveito, e á miseria infinita. Entre as familias, tribus e raças ardiam odios hereditarios; pagava o innocente pelo culpado, porque era commum dever o assassinal-o.
E tudo isto se figurava justo, e hoje ainda entre as nações christãs, aqui e alli, subsistem vestigios d'estes antigos costumes.
Se insistem em que os pagãos conheciam o peccado original, a maldição do genero humano e as penas eternas, força é confessar que elles, segundo procediam, procuravam incitar a justiça divina. Que melhor modelo lhes sahiria a ponto?
Para lhes condemnar o procedimento é mister conceder que elles de Deus e da sua justiça apenas tinham falsa idêa. Phantasiavam Deus á sua similhança, vingativo, descaroado. D'ahi, a idêa das raças malditas, dos crimes e castigos hereditarios. D'ahi os pavorosos sonhos do inferno sem fim, dos máos abrazados e espedaçados vivos, dos algozes enfurecidos sobre as suas prêas immortaes, o chorar incessante, o suspirar sem echo, e os engenhosos supplicios todos do Naraka, indostamio inferno que ainda flammeja, e do Amenthi, egypcio, e do Tartaro grego, antigos infernos já agora apagados e que ha tantos seculos não mettem medo a ninguem.
III
Como o sacerdocio perpetuou estas tradições
A par e passo que a humanidade se illustra, vemos adoçarem-se por toda a parte as leis e os costumes; as religiões, porém, essas não: antes querem morrer que mudar; conservam como deposito precioso e inviolavel doutrinas antiquadas sem parentesco com as idêas e as necessidades das sociedades novas. Continuam a prégar aos povos policiados deoses ferozes. Faz-se mister um dia arrancar ao cutello sagrado as victimas humanas. Na Gallia foi forçoso derruir as áras e immolar os sacerdotes para acabar com os sacrificios abominaveis. Dá Moysés aos judeus a lei de talião, mas reserva a Jehovah a vingança, como os poetas gregos a reservavam a Jupiter. Querem homens bons e um Deus cruel, homens justos, e um Deus iniquo; e, sendo isto repugnante, fazem da justiça divina um mysterio, com a declaração de que o não podemos perceber. Préga Jesus exclusivamente a caridade, e morre em um madeiro perdoando a seus algozes. Tratam de conciliar a sua doutrina com os rabbinos, e logo nos figuram um Deus de duas faces: a doce face do Christo que contempla a terra, e no inverso d'esta face augusta e ungida de lagrimas, a face irritada de Jehovah, o Deus exterminador, o Deus inexoravel que persegue os filhos pelos crimes dos paes.
IV
Exemplo de um povo que permanece fiel a todas as suas antigas tradições
É a tradição a memoria do genero humano. Cumpre não menosprezal-a á conta das verdades que ella propaga; todavia não devemos escutal-a de joelhos, á feição de oraculo, por causa dos erros que a deturpam atravez de todas as edades e nações.
Que nos faz a nós que os antigos crêssem nas penas eternas? Não será isso que as tornará eternas, se ellas o não são. Mais antiga que todas as opiniões dos homens é a bondade de Deus; e as verdades moraes bem como as physicas dispensam o nosso consentimento para subsistirem.
Pois não girava a terra quando a julgavam immovel? Não era odiosa a escravidão quando a julgavam justa? Ha na profundeza do ceo estrellas que nossos paes não viram e nós vemos; e ha outras cuja luz não alcançamos e nossos netos verão brilhar.
Cumpre ver o ceo com os nossos olhos, e não com a vista dos que já são mortos. Não seria blasphemia crêr n'um Deus vingador, quando em seu proprio coração o homem não tinha discriminado entre justiça e vingança, e por isso a Deus se concediam sentimentos e acções que n'este mundo eram honrosos. Attribuir-lhe, porém, acções que passariam por injustas, se commettidas fossem, seria arrogar-se o homem direitos de fazer-se melhor que Deus; e fôra verdadeira impiedade imaginar um Deus tal que envergonharia quem o imitasse. O passado lá vai. Os antigos deram suas contas; nós temos de dar as nossas. Quando um caminheiro cáe na estrada, quem se levanta côxo é elle e não seu pai. Qualquer crime que perpetreis servos-ha imputado a vós. Desquitar os homens, em nome das tradições, da responsabilidade da sua fé, seria remil-os da responsabilidade das suas obras. Ha quatro mil annos que os hindostanicos são escravos dos mesmos prejuizos, acorrentados nas mesmas castas, vinculados ás mesmas praticas, rojando e palpando no mesmo circulo d'erro e miserias, á similhança dos seus condemnados, no dedalo tenebroso e sem sahida do seu inferno. N'aquellas regiões morre o homem na condição em que nasceu: representa servilmente seu já morto pai, pensando e operando como elle. É, quanto menos póde ser, pessoa distincta e nova; é-lhe quasi inutil a razão; a memoria lhe basta; nem a consciencia vive em 'si; está fóra nas tradições oraes ou escriptas que reverenceia cegamente, porque antes de vir ao mundo já eram veneradas. Se ha verdade é o que essas tradições dizem; bem, é o que ellas ordenam; mal, é o que ellas prohibem.
Investigar para que? Que mais quer elle? Bello reclinatorio para a preguiça! Excellente desculpa para vicios! Valente obstaculo para virtudes!
Uma das glorias de Christo, um dos espinhos da sua corôa santa, foi contrapôr o direito da consciencia individual á tyrannia das opiniões, tradições e escripturas judaicas. Ensinou-nos elle a sobrepôr o juiz intimo sobranceiro a todos os juizes da terra, e responsabilisou perante Deus o homem por seus actos, ao mesmo passo que os responsabilisou por seus pensamentos e sua fé.
V
Effeito d'estas tradições na edade media
As tradições judaicas e pagãs consubstanciavam-se profundamente na edade media, acerbando-lhes as suas leis penaes com supplicios e torturas. As prisões não tinham ar nem luz; o adorno das masmorras era palha podre, pão e agua. Havia prisões subterraneas, tumulos onde o homem entrava vivo e não sahia mais. Até os mosteiros as tinham. O furto era punido com a morte; a morte punia a transgressão da lei sobre a caça. Em cada encruzilhada uma forca. Para os hereges fogueiras. E frequentemente uma familia inteira era castigada pelo crime do chefe, bens confiscados, casa arrazada, o nome proscripto. Nada digo sobre a servidão, degradação hereditaria, especie de mancha original e quasi universal em cada paiz, horrenda reliquia da escravidão antiga, e das superstições do Oriente.
Havia crença na efficacia d'aquelles horrendos castigos. E seriam por isso menos raros os crimes? O terror governava o mundo. E seria o mundo melhor governado? Ia n'isso a antiguidade das tradições. Dava-vos pena que ellas se abolissem? Quem ha ahi saudoso das torturas, masmorras, confiscações, fogueiras, escravidão? E quem ousaria pedir, por interesse da justiça e da moralidade, o restabelecimento das instituições da edade media?
VI
Como a sociedade christã se desvia progressivamente d'aquellas antigas tradições
Não ha muito que nós ainda tinhamos o nosso inferno: eram as galés onde as condições peioravam. Destruiram-nas, e crearam as colonias penitenciarias. Antes de nós, se deram bem com isso os inglezes. D'aquelle antigo inferno terreal, paraizo em comparação do outro, resta-nos como terrivel vestigio a perpetuidade do castigo para certos culpados. Quiz o homem copiar o antigo Deus das vinganças, e infligir aos seus similhantes penas infinitas, tendo elle apenas um dia de seu. Taes penas se acham nos nossos codigos. A sabedoria humana é tão limitada como o seu poder. Mas, apezar de limitadissima, é admiravel! Com que arte a sociedade concilia os mais oppostos deveres—a protecção aos justos, e até a protecção aos culpados que ella extrema dos justos! Não os esquece nas suas prisões, não renunciou ao direito de perdão; não desentranhou de si o sentimento da piedade. Sobre essa paragem de miserias está sempre fixo um olhar de dó, e attento um ouvido que escuta os gritos do arrependimento. E acaso se enfraquece por amor d'isso a lei penal? E se o perdão salva um d'esses prezos que a justiça ferira com perpetua pena, cuidaes que esse acto robusteça o mal, e dê nas prizões ou fóra d'ellas um exemplo funesto?
Ainda mais: a sociedade amnistia algumas vezes propriamente o crime, derroga a sentença do juiz e restitue o criminoso em todos os direitos do innocente. Os crimes que ella amnistia quaes são? Os mais ultrajadores de sua authoridade, das suas leis, do seu repouso e existencia: amnistia os crimes de lesa-magestade, e contenta-se com perdoar os outros.
Este é o espirito das legislações novas em toda a christandade, nas quaes a misericordia se abraça com a justiça.
Inferno que nunca muda é só o theologico. É sempre o inferno da edade media, inferno de judeus e pagãos, os mesmos supplicios, os mesmos gritos, a mesma impiedade crescente, os mesmos horrores. Não querem que Deus tenha o direito de perdoar no outro mundo. Cá em baixo póde fazel-o, se lhe apraz, como qualquer rei da terra. Mas lá no seu reino não ha perdão nem amnistia! Colera infinita! Vingança perpetua! Inexoravel furor! Tal é, consoante o pintam, o Rei dos ceos.
Ditosos os povos cujos principes se não modelam por elle!
Quem quizer encontrar hoje imitadores do Deus terrivel dos antigos, ha de ir procural-os no novo mundo e entre as tribus negras da Africa, e nas hordas barbarescas da Asia. A sociedade christã, com maravilhoso instincto, sequestrou-se d'essas idêas de outra edade; e, com os olhos postos na cruz, prosegue e anhela realisar em suas instituições e leis um ideal menos imperfeito da soberana justiça.
CAPITULO SEGUNDO
A FÉ NOVA
I
Pater noster
Chamamos a Deus nosso pae e nos consideramos seus filhos. Um pae condemnaria seus filhos a supplicios eternos? Que a questão seja de ingratos e desobedientes, de rebeldes e de máos, embora: Deus é Deus, e nós somos homens.
O mais sabio ancião n'este mundo é perante o Pae celestial o que diante d'esse velho mortal, curvado ao pezo dos annos, é uma criancinha no berço. Perante o Pae do ceo somos todos crianças balbuciantes que apenas caminhamos com andadeiras. E a comparação é ainda muitissimo ambiciosa! Ha mais proporção entre o menino que balbucia e os maximos doutores theologos, do que entre os maximos doutores em theologia e o eterno Pai. Cobertos de seus circumspectos barretes, aquelles doutores tartamudêam, gaguejam, balbuciam freneticamente, não se entendem a si proprios, descambam a cada passo, e movem á compaixão, se os compararmos a Deus. Dado que elles ainda durassem e crescessem em saber, ao mesmo passo que envelhecessem, nem por isso deixariam de estar como em perpetua infancia confrontados com Aquelle que tudo sabe, porque é infinito em sabedoria, em poder e bondade. Mas, d'outra fórma, a criancinha hontem nascida podeis já affoitamente comparal-a áquelles graves doutores; é um doutor que se aleita e entra em dentição: alguns dias mais, e vêl-a-heis defender these e supplantar os professores.
Comprehendeis, pois, que, se o velho doutor em theologia fosse pae, mettesse o filho em um carcere cheio de serpentes e ahi o deixasse para sempre? Qualquer que houvesse sido a culpa do menino, julgareis justo e discreto similhante castigo? Não vos pareceria o mestre mais louco do que o discipulo, e o pae peior que o filho? O vosso primeiro empenho não seria pôr o algoz no logar da victima? Não se levantaria toda a sociedade contra esse sabio sem coração? Nossas leis, nossos tribunaes consentil-o-hiam? Ah! castigos, sim, mas castigos que corrijam, e o perdão a final: eis o que é justiça de pae. Não entendemos outra. Ao chefe de familia não se consente poder arbitrario sobre os seus: a esposa tem direitos; tem-os o filho, o servo, protegidos pela sociedade, que para esse fim especialmente se constituiu. Se isto repugna ás antigas tradições, nem por isso é menos racional, equitativo e moral.
Ainda assim, por mais que fizesse este doutor atroz, seria menos cruel que o Deus prégado por elle. Se a morte não viesse rapidamente arrancar-lhe a victima, o officio de algoz cançal-o-hia. É difficil de supportar, ainda mesmo a um mau pai, o aspecto das torturas que elle exercita na pobre creatura que gerou. No coração humano tudo é mudavel, tanto o amor, como, por feliz compensação, o odio. Um principe morovingiano, chamado Charmne, revoltou-se contra Clotario; Clotario fez queimar vivos seu filho, a nora e os netos; mas diz a historia que elle se arrependêra. Se tal supplicio durasse uma semana sómente, de certo elle os teria salvado. Que bom pai! Que excellente rei!
Que amavel é este Clotario de par com o Deus que nos pintam! Este Deus quer que pensemos no inferno, mas não que se morra ahi; á imitação do algoz das prizões feudaes, deixa viver os pacientes torturando-os e disvela-se em lhes protrahir a agonia! Manda-os soffrer, ouve-os gemer durante a eternidade, e procede sua vingança, sem fechar olhos, sem tapar ouvidos, e por isso mesmo é que n'elle reconhecemos não um homem variavel, mas o que elle é, um Deus.
Ó Deus dos antigos, Bel, Teutates, Plutão, Eolin, seja qual fôr teu nome, Deus das batalhas, Deus do gladio, Deus dos fortes, guerreiro feroz, senhor irascivel, juiz sem entranhas, Deus dos eternos rancores, tu não és o meu Deus! O Deus que adoro, o unico e verdadeiro Deus, é o melhor dos Paes; apezar das minhas culpas, não me trata como inimigo nem como escravo; conhece melhor a minha fraqueza do que eu a sua força; e, até quando me castiga, não esquece que foi elle quem me creou e que eu sou seu filho.
II
O purgatorio
É o purgatorio o logar incognito em que os mortos esperam, soffrendo, o perdão das culpas commettidas na terra. Ha ahi o chorar e o padecer; mas não se amaldiçôa Deus: bemdiz-se. Os soffrimentos ahi supportados são salutares porque se comprehende a justiça d'elles; e corrigem porque a esperança não é anniquillada.
Se tal logar existe, de que serve o inferno?
Deixar dizer que a eternidade é que apavora e refrêa o peccador. O peccador não sabe o que seja a eternidade; porque é impossivel absolutamente formar-se uma clara idêa do que seja isso. Se recuamos perante nós um pouco que seja as balisas do tempo, a nossa imaginação e razão se perdem; e cahimos nas prezas das mesmas angustias que sentiriamos, se vissemos a verdadeira eternidade.
Para que o homem se aterre lhe basta imaginar o soffrimento de que é capaz a sua natural sensibilidade, e qual o podem comprehender as faculdades do seu entendimento. Para que iremos mais longe? Não é bastante ameaçar os maus com castigos proporcionados ás suas faltas, durante um espaço de tempo desconhecido ou incalculavel n'este mundo? O que fôr mais do que isto é inintelligivel. Para lá d'estes limites, a ameaça nada importa; a alma está refarta de justiça, oppressa de terror, extenuada de padecer, dobra-se, cáe, aniquilla-se, adora, supplica perdão, não póde comprehender senão a piedade, está surda e insensivel a tudo o mais. O remate da justiça para nós é o perdão; e, se n'essas extremas alturas onde a imaginação póde chegar, e onde o peccado roja gemente, se em vez de perdão, nos mostraes o odio ainda flamejante, lá vai tudo: o terror tocou o apogeu; turva-se a razão, idêa de justiça e de bondade tudo se desfaz; a alma, que cahira crente, levanta-se atheista.
Se o tal inferno existe, no outro mundo coisa comprehensivel ha uma só; é o blasfemar dos condemnados.
Mas se tal inferno existe, de que serve o purgatorio? Pois os protestantes não o aboliram discretamente? Para os que podem crêr em tal inferno, que é cem mil annos de purgatorio? Este acaba e o inferno não; seculos e milhões de seculos de penitencia não se contam, esquecem-se. Em vista d'este sinistro inferno em que a misericordia é desconhecida, inutil o soffrimento, e a justiça um enigma, o purgatorio é um paraizo. Quem nos dera a certeza de lá ir! que os castigos ahi soffridos, por mais demorados e rigorosos que sejam, não ha temel-os: desejam-se. Por maneira que o mais terrivel castigo que imaginar se póde, o mais equitativo e rasoavel, deixa de impressionar as almas pervertidas pelo espectaculo d'uma punição sem siso nem justiça apparentes.
As pobres almas aterradas, aturdidas, estupefactas são impellidas involuntariamente a offender a Deus de dois modos; primeiro temendo-lhe a vingança, segundo não lhe temendo a justiça. A idêa dos castigos inefficazes e dôres infructiferas, por muito monstruosa, odiosa e falsa que seja, se humanamente a consideramos, torna inutil a idêa dos castigos poderosos e dôres salutares, por muito bella, clara, natural e divina que ella seja.
III
Necessidade do purgatorio
Quem quer que sejaes, senhor ou servo, rico ou pobre, esposo ou pai, viuva ou noiva, não negueis as expiações da vida futura. Não conheceis maus em prosperidade, cercados de respeitos, inaccessiveis á lei, e que se deitam e levantam sem remorsos? Não conheceis innocentes opprimidos, anciãos abandonados, orphãos desbalisados, pessoas honradas cuja vida é toda padecer e que nenhuma lei feita ou por fazer defenderia de homens ingratos e perversos? Se sois feliz hoje, sêl-o-heis amanhã? Convencei-vos de que negar a vida futura, seria o mesmo que negar a immortalidade da alma, e logo sua liberdade e responsabilidade; e, por consequencia, o mesmo seria negar virtude, direito, Providencia, e constituir este baixo mundo um verdadeiro inferno, um sonho, um pesadêlo, onde tudo seria horror e abominação, excepto o nada, tudo injusto, excepto o crime victorioso, tudo absurdo, excepto a inveja, o egoismo, a violencia, e a astucia que se roja. Ah! crêde na vida futura, com suas expiações e recompensas. E, se ha quem exclua do ceo a piedade, não vades vós, por uma irracional desforra, excluir tambem do ceo a justiça.
IV
Mysterios
Não nos accusem os theologos de negarmos acintemente os mysterios.
Os theologos referem o que vae no inferno como se tivessem por lá viajado. Pelo que elles dizem é paiz dos mais conhecidos: sabe-se o caminho, quaes são os seus productos, e qual o modo de viver dos seus moradores, bem como a origem, nomes e a gerarchia dos principes que lá reinam. Em outro capitulo estudaremos as edificantes descripções que fazem d'elle já physica, já moralmente.
Ácerca do purgatorio tem havido mais prudencia quasi nada se sabe do que la se passa: é portanto mais mysterioso que o inferno. Todavia, sem impedimento de ser mysterioso, que differença! Quanto mais profundamos a eternidade penal, menos se acredita; ao invez, quanto mais pensamos no purgatorio, mais nos sentimos compellidos a crêl-o. É o inferno mysterioso como o diabo, como a noite, como a contradicção, a confusão e o chaos. É o purgatorio mysterioso como Deus, como a alma, como a consciencia, como a vida, como a luz que nos alumia, como a materia impenetravel, como toda a natureza, como a verdade, como tudo o que existe e de que nós apenas conhecemos em sombra a existencia e apenas percebemos atravez de um veo, mas o bastante para não poder duvidar. É elle tão certo como tudo o mais do mundo; assenta no intimo de nossa alma sobre as mesmas bases da moral, do direito, do dever, do respeito a outrem, piedade, liberdade, amor, e sentimento do infinito. É por tanto o purgatorio, quanto á razão, o verdadeiro mysterio da justiça divina, assim como a Incarnação e a Paixão, quanto á fé, são o mysterio do Amor divino;—mysterio de justiça que, de mais a mais, se concilia maravilhosamente com aquelles mysterios d'amor, dos quaes o inferno perpetuo seria a negação.
Muitissimo nos espanta que os protestantes o não vissem. Quando tinham que escolher entre dous dogmas inconciliaveis, um velho e outro novo, sacrificaram, tanto em nome do Evangelho como da razão, um dos dois que mais se harmonisava com as leis da razão e a moral do Evangelho.
V
O paraiso
Os protestantes não conhecem termo medio entre paraiso e inferno; os catholicos, porém, acreditam-no, e segundo elles é o purgatorio ceo nubloso e triste, inferno onde se ora e espera, e que deve acabar. Infelizmente os catholicos não enviam todos os mortos ao purgatorio, crendo que se póde transpor aquelle meio entre ceo e inferno, sem ainda lá pôr o pé. Á similhança dos protestantes, ensinam que muitas almas, apenas despidas do seu involucro mortal, são despenhadas para sempre no eterno abysmo, ao passo que outras almas, logo que despedem da terra, alam-se direitas ao paraiso. Ensinam tambem, uns e outros, que o mais abominavel patife, convertido á ultima hora, póde morrer contente: eil-o vai absolvido como o bom ladrão; não tem mais que fechar os olhos e acordar entre os anjinhos.
É isto possivel? É isto verdadeiro? Que é pois o paraiso, e que idêa fazemos d'elle?
Pois que! verei eu do seio da bemaventurança, e na inalteravel tranquillidade dos justos, verei sem remorso e sem afflicção, encadearem-se a meus pés, já na terra, já no inferno, as tristes consequencias das minhas iniquidades? Nas minhas noites de libertinagem, matei; durante o somno de homens que valiam mais do que eu, assassinei um aváro para o roubar, um amigo da minha infancia para entrar no seu leito, uma mulher que eu havia seduzido e que morreu beijando-me as mãos, pensando em mim, a louca, mais do que em Deus! D'entre elles os peores que eu feri eram innocentes comparados comigo, e eil-os mortos intempestivamente, sem terem tempo de se arrependerem; eil-os engolphados na gehenna, com o coração roido pelo verme que não morre, gementes, chorosos, amaldiçoando-me; e eu, seu assassino; eu, peccador envelhecido na impiedade e agraciado por um milagre, louvarei Deus eternamente, por me haver feito instrumento da condemnação d'aquellas pobres almas!
Com as minhas delapidações, reduzi á miseria e a todas as tentações da miseria, e a todos os desvios da desesperação aquella familia que lá vejo em baixo: o irmão vende a irmã, a irmã vende a sobrinha, o pae vende os seus juramentos, os seus amigos, o seu paiz; a mãe arranca-se os cabellos; todos choram, todos soffrem, todos me accusam, e os seus gemidos chegam até mim; e eu hei de vêr imperturbavel, sem remorsos, sem dôr, aquelles fructos de meus crimes, aquellas ulceras, aquelles prantos, aquelles opprobrios, aquellas perfidias, aquelles escandalos em que eu tenho parte; e, pois que Deus se apiedou de mim, eu não terei piedade dos outros, e o que na terra me affligia, quando eu agonisava, não me ha de affligir depois da minha morte. Este deploravel espectaculo, bem visivel a meus olhos, não impedirá que eu me saboreie na felicidade dos escolhidos; convencer-me-hei que vae n'isso o influxo dos designios do Altissimo, e que o homem, faça o que fizer, não tem que vêr com o resultado das suas obras; e em vez de bater no peito a cada sobresalto dos meus proprios crimes, a cada repercussão das minhas proprias blasphemias, a cada reflorecer das venenosas sementes—vestigio unico que eu deixei da minha passagem na terra—vestirei a alva tunica, e beberei na taça dos anjos, das virgens, dos heroes, e dos martyres, como se eu fosse um d'elles.
Na verdade é uma egregia doutrina esta da justificação do peccador, pelo reconhecimento e pezar de suas culpas; levada porém áquelle grau, similhante doutrina é tão incomprehensivel como a do inferno. De uma demasia nasceu outra: n'uma parte encareceram a justiça; na outra exaggeraram a piedade. Comtudo, entre o castigo infinito por um só peccado, e o immediato perdão apezar de mil peccados, havia o que quer que fosse que parece desconhecer-se: a justiça sem colera, a misericordia sem pusillanimidade.
Salvam-nos como nos condemnam, com pouco custo ordinariamente, pois que se com facilidade nos abrem as portas do inferno, com a mesma nos abrem as do paraiso.
Considerem entretanto o purgatorio, não como meio entre o paraiso e o inferno, mas entre a terra e o ceo, ponto que certas almas atravessam rapidamente e quasi sem soffrer, e onde outros são condemnados a padecimentos mais ou menos extensos e variadissimos, consoante a natureza de suas culpas, e disposição no ultimo momento. Este purgatorio com as suas penas indefinidas, proporcionaes, rigorosas, purificantes, e, cedo ou tarde, coroadas pelo perdão, não seria um freio moral mais rijo que o medo das penas eternas, temperado pela esperança da misericordia na ultima hora, e pela reforma de vida na ultima edade? Convenho que não haveria medo de ser condemnado sem remissão; assim é; mas tambem ninguem presumiria de fugir ao castigo com um momento de contricção, depois d'uma longa cadeia de crimes. D'esta arte, Deus mostraria melhor o que é, justo, mas não cruel; bom, em vez de tolerante. Que mal lhe viria d'ahi? Commiséravos o lastimavel ancião coberto do sangue das extorsões e o tyranno abjecto que sopesou e corrompeu milhares de homens; tendes d'elles piedade, quando morrem chorando? tendes razão; mas apiedae-vos tambem de suas victimas ainda palpitantes, d'essas creanças que elles definharam e ceifaram em flor, e que vós condemnaes. Piedade e justiça para todos. Não desespereis os que vagarosamente caminham sobre os abrolhos da penitencia, mas não lhes encurteis a escada para os subir ao ceo. Sabei que na outra vida se chora amargamente o mal feito ao proximo que n'este mundo nos sobrevive, as desordens que se motivaram, as existencias que se transtornaram, as quedas moraes que se occasionaram, e que o arrependimento na hora extrema, posto que grandemente salutar, é apenas o principio, e não o fim, das expiações d'uma vida culpada.
É de crer que na Biblia e nos padres da Igreja isto se não encontre escripto; mas está escripto nas consciencias. Limpem os oculos e leiam.
CAPITULO TERCEIRO
OS FRUCTOS DO INFERNO
I
O bem
(BEM NEGATIVO, MONGES, ANACHORETAS, ETC.)
Se a morte vos sobresaltêa antes da penitencia, diz-se que sois condemnado por erro de espirito, por fraqueza dos sentidos, por um lance d'olhos, por um desejo culposo, e condemnado, sem esperança, tanto como se houvesseis sido um ladrão calejado, um parricida, um atheu. Lá vos está esperando o Senhor da vida; e ahi ides enredado em vosso peccado como ave cahida no laço. E tudo se acabou; tudo, sem que os vossos longos serviços ao genero humano contrabalancem o peccado final!
Se, no entanto, comparaes tudo que se ha mister fazer para ganhar o ceo ao pouco que basta para cahir no inferno, sereis forçado a reconhecer que as probabilidades são dissimilhantes, e que o mais certo, faça-se o que se fizer, é a condemnação.
D'onde procede nas imaginações vivas a dominante preoccupação de evitar o inferno; e d'ahi, pelo conseguinte, e desde os primeiros seculos, uma especie de singulares virtudes, mais espantosas que bellas, mais extravagantes que insinuativas: virtudes falsas, sem utilidade do proximo, bem que os theologos no'l-as inculquem por ideal da perfeição christã. Tal é o retiro ao deserto, a renunciação propria, o morrer antecipado, o fugir combates da vida, o desquite de deveres da familia e da cidade, a ociosidade contemplativa e penitente, a maceração, o jejum, o perpetuo silencio, a insulação, o odio ao mundo, a oração entre quatro paredes. É, tambem, a santificação do celibato, como se a fecundidade dos sexos houvesse sido amaldiçoada, como se fosse culpa continuar a filiação de Adão, e virtude esterilisar em si os embriões da vida humana.
E certo é que, admittido o inferno, e a queda original, e o ensinamento que lhe anda annexo, que outra conclusão se colhe? Multiplicar os homens, para que? para multiplicar os peccados? Se é tão duvidosa a salvação! Se a condemnação é tão facil! Para que nos enlaçaremos á orla d'um abysmo onde o esposo póde despenhar-se com a esposa e o pae com os filhos? Bastantissimos mentecaptos se casam, e povoam terra e inferno de desgraçados. Não seria melhor deixar acabar o mundo? Bemaventurados os celibatarios! Os sabios são os reclusos, os anachoretas, os eremitas. São como os viajantes que, em navio a pique, desamparam os companheiros, e salvam-se a nado. Cuidam só do seu salvamento; cada qual por si; soccorrer o irmão tem o risco de naufragio. Fazei como elles, navegantes; deixae no navio em sossôbro mercadorias, thesouros, e vossas mulheres, e mães, e vossos filhos, e fazei-vos ao largo: recresce a borrasca; rasga-se a vela; quem poder salve-se.
Bemditos sejam pois esses foragidos do mundo, mortos ao mundo e seus modelos, Simeão sobre a columna, João no muladar, esses desvariados todos macillentos, sujos, comidos de insectos. Grande vantagem levam: não tem que vêr com a terra, e já estão meios mettidos no ceo: o diabo já mal os póde aprezar.
Não é, todavia, a perfeição dos ascetas aquella que o Filho do homem nos exemplificou. Trinta e tres annos habitou Elle a terra, e quarenta dias sómente ermou no deserto, não para nos lá attrahir; mas, a meu vêr, para nos distancear, pois que foi no deserto, e ahi tam sómente, que o espirito das trevas o tentou. Anteriormente havia Elle vivido trinta annos com a sua familia; e viveu o restante entre peccadores. É para notar que nas suas modestas occupações, sob o colmado do carpinteiro, e mais tarde nos campos, nas cidades, nas tavernas, em meio do povo que ensinou, curou e nutriu, não ousou o diabo tental-o!
Mal imita Christo quem foge o mundo que Elle procurava. O sepultar-se um homem nos antros, a jejuar e a rezar por longo tempo, o sequestro da sociedade, o silencio, corpos macerados mal enroupados em pelles, exorcismos furiosos, luctas no vacuo, intrepidez baldada, e tantissimos outros piedosos desatinos não recordam exemplos do Salvador, mas sim as aberrações dos sectarios do oriente. Não póde ser isto a perfeição que Jesus veio ensinar aos homens; que tal chamada perfeição muitissimos seculos antes d'Elle já era conhecida dos pagãos idolatras, que tinham seus corybantes e vestaes, e bem assim dos judeus, mormente dos Essenios que a tinham aprendido dos magos da Chaldêa. Tal perfeição praticavam-a na India fanaticos sem numero, cuja raça ainda subsiste. Importamo'l-a dos mesmos paizes que nos mandaram a doutrina dos anjos rebeldes e a da reprovação dos homens—doutrinas cujo natural fructo é tal casta perfeição. Se o ideal da perfeição humana fosse isto, inutil seria o christianismo; pois que já os brahmanes a tinham ensinado dous mil annos antes do presepio, e os bouddhistas a tinham realisado mil annos antes dos monges da Thebaida.
É certissimo que os bouddhistas não visam exactamente ao mesmo scôpo que os monges catholicos: aquelles buscam em suas austeridades a morte absoluta, a destruição de sua personalidade, o serem absorvidos no ser universal, ao mesmo tempo que os monges, se renunciam ao seu eu neste mundo, é para o retomarem n'outra vida. É, comtudo, egualmente certo que, sem embargo da diversidade dos fins, vigora em ambas as seitas um principio commum, sendo que por identicas vias e praticas procuram a eterna bemaventurança uns, e outros o perpetuo dormir, a eterna insensibilidade. Só de per si o desejo do ceo não bastaria a inspirar a uns o mesmo proceder que inspira aos outros o desejo da anniquilação: pelo que, não é o desejo, senão o medo que povôa os desertos. Os bouddhistas, por egual com os christãos transviados, temem os soffrimentos infindos, os males sempre a renascer, se n'este mundo não attingirem a vida perfeita; e tanto para elles como para os nossos monges, vida perfeita é o absterem-se da vida, é a virgindade, o jejum, a penitencia, a soledade, o extasis, o antecipar a morte, um complexo de estereis virtudes, não filhas do amor, senão do mêdo.
Tal é, na sua mais elevada expressão, o bem que a crença do inferno produz n'esta vida. Causa espanto que os protestantes hajam conservado este dogma! É, porém, mais para espantar que elles, ao mesmo tempo que o conservam, destruam os mosteiros e inpugnem o celibato. Não ha ahi imaginar maior inconsequencia! A primitiva Igreja, que elles pretendem resurgir, cria sem duvida nas penas eternas, é isto mais que muito verdadeiro; mas pelo menos, operava em conformidade com sua fé. N'aquelle tempo, os esposos, ainda em vigorosa mocidade, guardavam continencia, sob pena de peccarem, durante o advento e quaresma, e nas festas e dias de jejum, pouco mais ou menos tres quartas partes do anno. D'elles alguns, para maior perfeição, não usavam nunca os direitos conjugaes, e envelheciam sob o tecto nupcial, em voluntario celibato, denegando-se as frias caricias que o irmão faz a sua irmã. Os ricos empobreciam-se, despojando-se espontaneamente de seus haveres, e os pobres lidavam para viver, mas descuidosos de amontoar, nem como previdencias para a velhice e infermidade, nem para legarem a filhos. Conta-se que desadoravam empregos publicos, e evitavam, como escolhos da alma, as emprezas lucrativas nomeadamente as commerciaes. Nunca espectaculos, nem jogos, nem dansas, nem folias. Sobriedade extrema, vestidos nem apontados nem de preço, jejuns em barda, orar dia e noite, lucta incessante e pertinaz contra a natureza. O seu distinctivo de christãos era aquelle. Uma leve falta, acareava-lhes a excommunhão; e, antes de absoltos, eram experimentados em seu arrependimento, por espaço de mezes e annos, quando o não eram até morrerem. Em quanto durava a penitencia, eram apontados, não só nos templos, durante os mysterios, senão tambem no exterior e nas relações da vida civil; e, por cima de ninguem os querer á sua meza, até as esmolas lhes regeitavam.
Diz com rasão Fleury que a vida dos nossos monges regulares corre parêlhas com a do commum dos fieis da Igreja nascente, cuja continuação é[2]. E accrescenta[3] que já entre aquelles fieis havia ascetas d'ambos os sexos vivendo reclusos. Eram os mais perfeitos, e exemplares. Taes ascetas, verdadeiros ascendentes dos monges contemplativos, trappistas, cartuchos, carmelitas, claristas, etc., esforçavam-se por imitar a vida de João Baptista no deserto e a de Elias no Carmelo.
Curavam elles pois, como já dissemos, uma perfeição diversa da de Jesus: anhelavam a perfeição negativa, qual os judeus e os orientaes a preconisavam; judaisavam sem darem d'isso tento, e os christãos seus imitadores continuavam inadvertidamente a tradição, não já de Jesus, mas de João Baptista e Elias, tradição congruentissima com o inferno. Já no tempo das perseguições era povoada a Thebaida; não tinha então a Igreja um tecto debaixo do ceo; e só depois que principiou a erguer templos é que edificou mosteiros, sua primeira obra depois que sahiu das catacumbas. É pois evidentissimo, em que peze aos protestantes, que o catholicismo não se apartou do espirito dos tempos apostolicos, nem das praticas de então, e que a vida monachal detestada por elles, é ainda hoje em dia o que outr'ora foi, a mais bella flor, e o mais mimoso fructo dos dogmas hebraicos, que elles tão piedosamente tem conservado.
[[2]] Costumes dos israelitas e christãos, tom. II, cap. 53.
[[3]] Costumes dos israelitas e christãos, cap. 26.—Citei esta excellente obra por que ella é manuseada por todos, e facilima de consultar. De mais a mais, depara-nos a indicação das fontes onde o auctor bebeu, dispensando-nos assim de as indicarmos n'este livro.
II
A carmelita ou o ideal da perfeição theologica.
Comvosco admiro as religiosas que, sob diversos nomes e com diversos habitos, assistem ao genero humano, tanto com suas orações, com o seu trabalho quotidiano, com toda a celeridade de seus pés, com toda a agilidade de suas mãos, como com todas as forças de seu ser. Credes que não é possivel seguir mais do que ellas os divinos vestigios do Salvador. Ah! quanto vos enganaes! Quanto são baixas e eivadas de heresia as vossas idêas! A perfeição não consiste na vida activa e benefica das irmãs da caridade; onde ella está, segundo o ensinamento dos theologos, é na vida contemplativa.
Se procuraes, senhora, o modêlo para vós e vossos filhos, encontral-o-eis na carmelita, com preferencia á irmã da caridade. Aquella morreu para o mundo, jaz no seu cubiculo como em um tumulo. Vá quem quizer agasalhar orphãos, ensinar ignorantes, restaurar peccadores, curar doentes, ensinar officios a servos, dar voz a mudos. Affronte quem quizer o contagio de nossos vicios! Quem quizer que cure a nossa lepra! Esses cuidados vulgares não os quer a carmelita para si. Aos pés do altar, com os braços levantados ao Senhor, é o seu posto. Não se bulirá d'alli, ainda que todo o paiz arda ensanguentado. Não lhe digaes: vosso irmão está a morrer; vossos sobrinhos vos estão chamando. Não lhe digaes: arde a peste na cidade; á vossa porta está a maca. Ha muito que ella concebeu tedio do mundo; não lhes leveis novas d'elle, que perturbarieis o seu socego. Quanto menos ella se inquieta d'essas transitorias miserias, mais os theologos a admiram. N'isso mesmo,—crêl-o-eis?—é que está, segundo elles, a sua superioridade sobre a irmã da caridade, cujo coração virginal arfa como coração de mãe ao grito da criancinha[4].
A carmelita não pensa, nem tem que pensar senão em sua propria salvação, e tal pensar é um manancial das commoções que unicamente lhe são permittidas. Bem que ella viva dez, vinte, cincoenta annos sob o veo, fará todos os dias, á mesma hora e da mesma maneira, a mesma coisa sem poder por seu arbitrio alterar-lhe o minimo. São-lhe pautados os movimentos, e contados os passos. Em todo o curso de sua vida não ha a menor surpreza, o minimo abalo, o imprevisto, a menor liberdade, ou elevação espontanea das faculdades moraes. Estão definidas e immutaveis as suas relações com todas as coisas animadas ou inanimadas que a cercam: não se afeiçoa, não escolhe, não se decide. É-lhe prohibido ganhar affecto a coisas e a pessoas. A abelha é mais livre do que ella em sua colmeia, e menos inflexivel que as regras monasticas é o instincto que a dirige. Uma communidade de freiras parece-se a um povo de automatos e não a um enxame de seres viventes. E essa é que é a condição pela qual a harmonia subsiste. N'estas sociedades contra natureza, é prudente que a natureza seja algemada; pois, se lhe dessem folga, ella se revoltaria; e por tanto é forçoso esmagar a liberdade como cautela para que a licença não vingue. É pois a carmelita em todos os seus actos mera machina. Tem alma para obedecer e trabalhar na sua interior perfeição, destruindo em si, cada vez mais, vontades, desejos, e individualidade até ás raizes. Onde está a lucta está a vida. N'esse immutavel centro, solitario e silencioso, onde se caminha sem mudar de piso, passa a adolescencia sem curiosidade, e a velhice sem experiencia nem memoria. Ahi nada se renova; o dia que chega nada promette; o dia que finda nada deixa; é a vida um livro, cujas paginas em vão se folhêam: sobre essas paginas brancas ha uma só phrase, do começo ao fim, sempre a mesma: «pensa em ti, pensa na eternidade.»
Ahi vem agora com que espancar o tedio do mosteiro. Á mingoa de grandes e formidaveis combates do lar domestico e da sociedade, isto é, da vida real qual Deus a fez, a ociosa carmelita pugna heroicamente contra sua razão, contra seus sentidos, imaginação, e faculdades inactivas. Crê resistir ao diabo, resistindo á necessidade de operar, de amar, de saber, e ser util: estafa em puerilidades a sua virtude. Se durante o officio, uma mosca lhe pousa no nariz, é um caso, é uma provação. Se está distrahida, assalteam-na remorsos; se impaciente, vai confessar-se d'isso. Uma pulga é outro inimigo terrivel, outra occasião de grande queda ou de grande victoria! Um alfinete mal pregado, um vêo descomposto, uma lembrança, um gemido, um pensamento clandestino, o rastilho d'um rato atraz do armario, um Ave esquecido, ó cathastrophe! ó remorso! ruina de Sião! prantos de Job! brados de Rachel! transportes de Jeremias! Qualquer bagatella a alvoroça como materia de peccado mortal; qualquer futilidade lhe avulta com proporções monstruosas; pesa grãos de areia, e mede os atomos.
Pois se ella conseguiu esquecer sua familia, seu paiz e o mundo, não a cuideis completamente impassivel como se vos figura: o que ella fez foi concentrar em si e para si o amor e piedade que nega aos outros. Idolatra-se, não ao modo dos sybaritas, mas por um theor que, posto não seja sensual, não é menos egoista: absorve-se em contemplação de sua alma; no proprio coração preenche o vacuo de familia e de amigos, e de quantas creaturas de lá expulsou. Contempla-se sósinha, entre o inferno e o céo, a tremer perante um tal espectaculo, e sempre fluctuando entre estes abysmos, ora nas alturas, ora nas profundezas, passa de um delirio a outro, e das palpitações do terror ao extase dos seraphins.
Eu por mim não sei se Deus sorri a taes futilidades, a tal vida que não é viver, e a tal morte que não é morrer; mas os theologos affirmam que é n'isto que a perfeição consiste.
E forçoso é concordar que elles tem razão, se ha inferno. Se ha inferno, a irmã da caridade é imprudente, e nós, os admiradores d'ella, somos sandeus. O sequestro mais rigoroso é a consequencia legitima, natural, necessaria e fatal d'este dogma selvagem. O alicerce, a porta e o tecto do mosteiro é aquelle dogma, que desata as sociedades naturaes e viventes avinculadas pelo amor; é elle o occulto liame d'aquellas sociedades de automatos que não permaneceriam um dia, nem hora, nem momento, se tal dogma fosse proscripto. Sem inferno, a vida claustral não se percebe; com inferno, não ha imaginal-a mais a ponto, e é obrigatorio confessar que, de feito, a perfeição está n'ella, visto que a razão está com ella.
Não obstante, filhos do seculo, não renuncieis afogadilho de seculo, que vol-o prohibem os theologos.
Ficai entre peccadores, no foco das tentações, dos escandalos, dos erros, e das ciladas que vos tramam. Razoavel coisa seria fugir para o porto seguro que vos offerecem; mas não vades; continuae a navegar entre restingas, á mercê dos tufões, aos clarões dos relampagos. O convento não vos quadra; porque não foi feito para muitos.
Entendo, direis, que o convento se abriu para os entes mais debeis, para os incapazes não só de ajudar a outrem, mas tambem da mesma mente se salvarem, sem se arriscarem ás tempestades. Faz-se mister ás almas frageis e justamente timidas o estreito cenobio do claustro, a protecção das gradarias, a escravidão, as regras, o véo sobre os olhos, a mordaça nos labios; sem o que se perderiam. Em quanto os valentes combatem, vão ellas esconder-se longe do inimigo.
No seu caminho se arrastam gemebundos alguns fugitivos, fallidos de animo, cahidos por terra, feridos de suas proprias armas, e quem sabe se alguns heroes alanciados no coração! Entendo, direis, que o claustro é o refugio dos pusillanimes, o porto dos naufragados, o hospital dos infermos, e aqui se mostra a apparente razão porque nem toda a gente lá póde entrar.
Está enganado o duro leitor, que nada percebe dos mysterios theologicos. Saiba pois que o claustro é o asylo dos fortes; e que só lá são recebidos os athletas a primor, mais puros e intrepidos, a flôr da juventude christã. Não soffre a menor duvida que é mil vezes mais de perigo a sociedade onde os soccorros são muito menos do que os retiros abençoados. Que nos faz isso! De logar abrigado e onde a graça superabunda é que os poucos são repulsos, com quanto, ao primeiro intuito, nos pareça creado para elles; ao mesmo tempo que do baluarte das luctas angustiosas se retiram os fortes, com quanto pareça tambem este o seu logar proprio.
Os coxos, os cegos e os inermes são postos na liça sanguinosa; os mais aguerridos soldados enclaustram-se. Espantem-se e riam-se, que a coisa é assim; e, senão, perguntem-no á Sorbonna.
E assim é preciso que seja, pois que a perfeita vida é a claustral, que, no entender dos theologos, vem a ser a mais avêssa ás inclinações de nossa natureza viciosa, e, por conseguinte, a de mais difficil observancia; mas, porque é impraticavel na sociedade, não se lhe dispensa de ser exemplo á sociedade; e, sem presumpções de lá chegar, devemos propender para ella continuamente, visto que estamos tanto mais á beira do inferno quanto longe d'aquella vida perfeita.
Que se hade fazer, pois? Eis o problema. Cada qual tem no mosteiro um trilho feito, e o futuro certo, portanto está quite de cuidados que fóra d'ahi seguem a pobreza, o trabalho, e até a riqueza, além das responsabilidades que a toda a hora pendem dos actos de uma vontade livre, n'um viver sempre fluctuante.
No mosteiro é tudo exemplos edificantes; e, posto que seja defezo ahi grangear um amigo, em compensação não se adquirem inimigos.
Nem impeços, nem disputas, nem conflictos, males que a liberdade produz, sendo que a servidão lhes esmaga os embriões. No exterior é tudo recolhimento, paz, ordem, silencio, e esforço; perturbações, se as ha lá, vem do intimo e do recondito do nosso ser. O unico inimigo que ahi ha que recear é o diabo, tal invisivel e impalpavel adversario que todos trazem comsigo, fracos e fortes, mundanos e frades; porém tal inimigo perde no claustro boa parte das suas prerogativas; porque alli não está elle como em sua casa, e no seu reino: são-lhe menos os ministros, os vassallos, e os recursos. O recluso, afóra a pessoal energia de que é dotado e lhe assignala a vocação, topa ahi de todos os lados conselhos e amparos; e como quer que tenha em frente aquelle unico inimigo, soccorre-se de mil auxilios, que faltam ao homem do seculo, e, máo grado a sua fraqueza original, vence-os. Que fazemos pois n'este misero mundo em que a infermidade nos algema? Ha aqui o rir, o chorar, o renhir, o disputar, o abraçar-mo-nos, o odiarmo-nos, perseguirmo-nos, e o aniquillar-se o homem contra homem: é uma reluctancia sem fim, e sem regra, um retinir de espadas, um estrondear de martellos, de carros, de machinas, de cantares, de gemidos, um cháos, uma desordem, da qual a clausura não poderia dar-nos sombra de idêa. Aqui, são mil os objectos em que a alma anda repartida; as diminutas forças que temos dispersam-se. Acolá o inimigo identificado comnosco, traz escolta de auxiliares, e a lucta interna de que ninguem se izempta, complica-se com as luctas externas e inevitaveis. Cada homem tem de bater-se com uma legião. Quantos cuidados! Quantos deveres! Quantas incertezas e anciedades! Quantas encruzilhadas sem nome, sem pharol, sem sahida! Que poeiras, e que sombras!
Considerae aquella mãe de familia a quem encareceis as virtudes da carmelita.
É pobre, todos os seus parentes são pobres, os filhinhos rotos, famintos, quasi sempre doentes, o marido alquebrado do trabalho, ou que, desanimando, se envileceu e a espanca, um patrão, um proprietario, credores, mestres, amos, amigos, e que amigos! conselheiros, mas conselheiros de Job! Se tal mãe é rica, tem uma casa que reger, creados a dirigir, os quaes nem fizeram voto de pobreza, nem de obediencia; filhos a educar, sagrados interesses que defender, relações que receber, um marido a contentar, quer seja honrado ou não, quer seja piedoso ou impio. Com vontade ou sem ella está continuamente a braços com as paixões alheias, com caprichos, interesses, vontades e affectos contrarios; de continuo em face de circumstancias imprevistas, casos litigiosos e incertos, onde lhe é forçoso resolver-se quando qualquer resolução é perigosa, não o sendo menos os perigos, se se absteem. É preciso que ella, se quer salvar-se, seja a um tempo economica e caritativa; communicativa, mas discreta; umas vezes branda, e outras inflexivel; expedita, mas reflexiva; previdente, mas conformada a todos os sobresaltos da fortuna; que viva ao mesmo tempo em si, e nos outros, para si, e para todos: missão indefinivel, cheia de contrastes, de atravancos, de cruzes, mais ardua e mais difficil que a missão da freira.
Digam embora que esta mãe de familia tem na sua miseria satisfações, tranquillidade e jubilos que não goza a carmelita: depende isso de saber se os jubilos de que fallam são comparaveis ás dôres que a freira ignora. De mais, esqueceis que esses prazeres são um engodo e que se prendem n'elle sem o conhecer, e se prendem tambem quando o conhecem. A saciedade, o desgosto, e o cansaço são as naturaes barreiras da voluptuosidade. Chegará até ahi a mulher christã? Não o permitta Deus. Até onde irá? É ponto mathematico que separa o peccado do prazer licito; e, quando o limite se procura, onde fica elle já? Raras vezes estamos a sós com a serpente como Eva no Eden, e a freira na cella. Á mesa e em toda a parte ha quem vos distraia, seduza e arraste; bebemos sem sêde; está a bocca repleta, mas os olhos famintos; o gozo que satisfaz a precisão aguilhôa o desejo. Quem houver de parar a tempo na ladeira onde o aventurarmo-nos é permittido, ha de ter mil vezes mais vigilancia, cuidado e poder sobre si, do que lhe seria preciso para lá não pôr o pé. Conceder alguma coisa á natureza é contiçar o fogo que quizeramos extinguir; é alimentar o leão que desejaramos estrangular. Das delicias menos carnaes, toucador, conversação, emprego de teres e do tempo, é ainda mais desconhecido o limite, maior a liberdade, e mais temivel a responsabilidade.
Não me fallem de umas satisfações mentirosas que o terror empeçonha quando se pensa n'ellas, e que o inferno corôa, quando se não pensa no inferno. Por certo que é duro, mas o mais prudente é regeital-as. A abstenção é uma lei simples, clara, e breve: é bastante que haja coragem para a praticar sobretudo nos votos conventuaes. A freira, com o andar do tempo, afaz-se á lucta; curva-se ao jugo; os sentidos privados de excitações amortecem, até que, por fim, a coragem se torna tão inutil quanto lhe foi em todo o tempo inutil o espirito de proceder. Mas, se a lucta intima se prolongasse, a freira para evitar os desvios e as fugitivas rebeldias do corpo e da vontade, careceria de ter até ao seu derradeiro suspiro o inferno diante dos olhos, o cilicio na cintura, e o terror na alma. Assim é, mas que importa? Comparado aos soffrimentos de uma mãe, o que é o cilicio de uma virgem? Quem ousará comparar essas duas existencias? Comparar receios pessoaes com receios generosos? Combates sem testemunhas a combates exemplares? Trabalhos infructiferos a fecundos suores? E fallando sisudamente, e na melhor fé, se uma d'essas duas pessoas devesse copiar a outra, não é de certo a mãe que deveria servir de modelo? A irmã da caridade não é já de si mãe? E a esposa de José que trouxe em seu seio, e nutriu com seu leite o Filho do Homem, e ao pé da cruz lhe recebeu o ultimo alento, não foi ella, em sua amargura, a mãe adoptiva de João, o amigo d'Aquelle por quem chorava?
Que jactancia é essa então d'um desprendimento de affectos e vontades? Para que querem insinuar em nossos lares taes inquietações, terrores e escrupulos, unicas occupações do claustro? E para que é, em nome do ceo, sobrecarregar de jejuns e abstinencias a jornaleira, a camponeza, a mãe, que já vacillam sob o fardo do padecer e trabalhar?
Vê-se que theologia e bom siso são coisas infelizmente contradictorias. Vê-se que seria preciso abolir o inferno para que depois viesse a renuncia das macerações, terrores e falso ideal que um claro entendimento reprova.
Mas porque não se apaga o inferno? Extincto elle, brilharia o purgatorio com luz mais viva e salutar. O inferno é que faz odiosa a liberdade, rebaixando-a e vilecendo-a; o purgatorio volve-a estimavel, realçando-lhe bellezas, dignidade e grandeza, sem lhe dissimular os perigos e as penas. Quem crê no castigo eterno, enterra o talento para que o Senhor lhe não toque. Quem melhor conhece o Senhor e sua justiça faz render cinco talentos em casa do banqueiro, arriscando-se a perdel-os. O purgatorio actualmente de que vos serve? Dizem que a pobre carmelita se abalança a lá arder milhares de annos, por causa de algum secreto estremecimento do seu corpo que ella tanto disciplinou; por causa do captivo espirito que tão enfreado trazia, ou, emfim, á conta do coração generoso, cujas pulsações tantas vezes abafára.
O purgatorio deve aterrar principalmente a freira e os que vivem como ella; ora os mundanos não tem razão de se affligirem, antes devem consolar-se, pensando n'aquelle logar de supplicio. A nós, filhos do seculo, não nos é racionalmente permittido aspirar áquella dolorosa felicidade, que é castigo dos sanctos e o seu primeiro galardão ao mesmo tempo. Em vez, porém, de o desejar, e desejar em vão, como nós o temeriamos, se elle fosse a unica estancia em que se cumprisse a justiça de Deus! Que mudança se faria em tudo d'este mundo! A perfeição e a salvação não estaria na ociosidade em joelhos, no terror em oração, no fugir ao proximo, no entregarmo-nos a algumas privações e dôres corporaes, arbitrariamente substituidas ás dôres e sacrificios de uma vida proveitosa. Então se entenderia que ha dous modos de abusar de nossas faculdades, uma que está no desprezo d'ellas, com receio de as usar inconvenientemente; outra que consiste em nos servirmos d'ellas indiscretamente e ao avesso das intenções da Providencia que nol-as deu.
A doutrina do Evangelho não é doutrina de abstenção; é doutrina de acção: causa porque o purgatorio lhe quadra melhor que o Evangelho. Carecemos menos de frades que de christãos. Se o inferno refreia o mal, tambem impede o bem. A ameaça seria salutar; mas ella faz mais que ameaçar, empedra como a cabeça de Meduza quem a encara a fito. Tende a supprir com uma especie de passibilidade estupida a livre e intelligente actividade da alma. Não derime o egoismo, exalta-o a mais não poder, e tal exaltação devidamente localisada no deserto, n'uma gruta, no claustro, é medonha de vêr-se no seio das familias.
[4] Elles comparam as irmãs da caridade áquella mulher de Bethania chamada Martha, a qual, vendo entrar Jesus em sua casa, se deu pressa em lhe servir a ceia; e comparam a carmelita á Magdalena que, em vez de ajudar Martha nas suas diligencias, lavava e perfumava os pés do divino hospede, enxugando-os com os seus cabellos. Diz porém o Evangelho que Jesus estava á meza quando Magdalena lhe abraçou e ungiu de lagrimas os pés. Não ha palavra na relação dos apostolos, d'onde possamos colher que é melhor orar pelos famintos do que alimental-os. O contrario é que lá se diz; e quando Jesus nos faz assistir de antemão ao julgamento do dia final, exclama: tive fome, e vós me alimentastes; tive frio, e me vestistes. A scena de Bethania, e o louvor dado a Magdalena, não desluz o claro ensino do Evangelho. Este episodio prova sómente que não basta alimentar os pobres, mas que tambem é mister instruil-os como filhos de Deus, os melhores amigos de Jesus, e sua visivel imagem na terra: o que rigorosamente fazem as irmãs da caridade, e não fazem as contemplativas.
III
Discurso de uma mulher de sociedade que havia tocado a perfectibilidade theologica
De que serve amar-se a gente n'este mundo? Acaso nascemos uns para os outros?
Somos apenas companheiros de viagem que uma eventualidade ajuntou por momentos, mas que breve se hão de apartar, e talvez para sempre. Prestemo-nos de passagem alguns serviços, mas por amor de Deus, sem nos ligarmos reciprocamente. Por que ha de a gente amar-se? Vós que me ouvis, sabeis quem sou? E eu que vos fallo sei quem vós sois? Tendes um ar angelical, ó meu irmão, mas o interior de vossa alma não o vejo; o semblante do homem é enganador; a sua lingua é atraiçoada, as suas proprias virtudes são perfidas.
N'este mundo é tudo armadilha e mentira. Que demencia o amar, quando, com certeza, ninguem póde fiar-se d'outrem! Que injustiça querer um que o amem, quando nem a si mesmo se conhece alguem, e a cada hora se altera o genio, e ninguem póde fiar mais da duração de seus sentimentos que da duração de sua vida! Viajamos mascarados, só conhecidos de Deus, mas tão occultos a nós mesmos quanto aos outros. A que propendemos? Mal o sabemos, tão fluctuante é a nossa razão. Se melhor nos conhecessemos, a maior parte de nós se mutuaria rancores; em vez, porém, de se odiarem, os homens se entre-buscam no seio das trevas, attrahidos pelo mysterio que os innubla, e que devêra, se elles fossem discretos, afugental-os uns dos outros.
Ah! não nos amemos, não nos amemos! Ai d'aquelle que dá seus amores á creatura! Ai dos que se amam sobre a terra! É sombra que abraça a sombra, é o nada que se une ao nada. Amavel é só o bem: o restante é detestavel. Meu pai, honro-te e sirvo-te, por que vai n'isso um dever meu, e porque podes ser, sem que eu o saiba, um santo; amar-te, porém, não posso, porque, se n'este instante morresses, ninguem me certificaria de que Deus te perdoára. Eu devo amar em ti, sómente o bem occulto que ahi póde estar, e o amo em ti como nas outras creaturas, sem predilecção por alguma; porque esse bem occulto não provém d'ellas; e, se em ti existe—o que eu não sei, mas muito desejo—não procede de ti. Não te julgo, meu pai. Se eu escutasse o sangue, creio que te amaria até culpado, unicamente porque és meu pai, e eu me lembro de ter dormido em teus braços. Mas estes momentos da natureza corrompida já eu venci. Nada me és. Tracto da minha salvação servindo-te e honorificando-te; mas amar-te seria perder-me, por que amar o homem em si mesmo é amar o peccado. Na outra vida não ha maridos, nem esposas, nem paes, nem filhos, nem familia. Pais e filhos, mães e filhas, irmãos e irmãs serão separados no dia do juizo, desatados todos os vinculos. Não amemos ninguem, ninguem! Já póde ser que o inferno se esteja escancarando para aquelle que amarmos, e quem sabe se nós não cahiremos lá tambem empurrados pelo nosso amor? Nada de sentimentos cegos; nada de sentimentos corruptores. A ternura do homem é um disfarce de odio; e mais valera que elle nos odiasse francamente. Não amemos ninguem! ninguem! Póde ser que por ao pé de nós andem condemnados, cujos nomes ignoramos. Não amemos alguem, que nos não vá sahir algum reprobo.
Sou tua serva, ó meu esposo; servir-te-hei, obedecer-te-hei; e para te agradar o dever me forçará a cumprir o que me pedires do coração, que não é teu.
São doentes os nossos filhos? Por que te assustas? São hospedes que te foram confiados, e que tu deves esperar vêr irem-se ao primeiro aceno de quem t'os mandou. Eu que os trouxe no seio e os criei, vel-os-hei ir, sem lagrimas. Quem sabe onde irão quando nos deixarem? Cumpria que lhes vissemos o fundo d'alma para os amarmos. Praza a Deus que elles morram na sua divina graça! É o meu mais ardente voto; e, se mais além eu fosse, a minha ternura seria fraqueza. Se elles vão ao céo, hei de eu chorar-lhe tamanha dita! E se são condemnados.... Não amemos ninguem, ninguem, nem os nossos filhos sequer! Familia temos só uma: é Deus com os seus anjos, e confessores e santos. Tudo mais não merece uma lagrima nem um sorriso. Roguemos, por tanto, uns pelos outros, filhos do peccado, mas nada de nos amarmos.
IV
Discurso de um mundano, após bastos estudos ácerca da perfeição theologica
Em continuo pavor do inferno viveram os santos: orações, jejuns, cilicios, meditar nas escripturas, vigilias ao pé da cruz, bençãos de pobres soccorridos por elles, perpetua immolação, indigencia de cella, ninhos de palha, alimento a pão e agua, nem com tudo isto socegavam. Viviam como anjos, e temiam. Tremiam guerreiros, padres, doutores, pontifices—Mauricio á frente da sua legião; Gregorio, o Grande, sob a tiara; Agostinho, no pulpito; Jeronymo, em suas estudiosas viagens; Antonio e Pacomio no reconcavo das penedias. Noites alvoroçadas de pavor passava Thereza no claustro. Nem a innocencia da vida, nem a adoravel castidade das almas, nem a tunica immaculada, nem as mãos impollutas, nem o acerbo arrependimento dos penitentes, com o rosto sulcado de lagrimas, nada, nada lhes aquietava o medo da colera divina. Redobravam cada dia austeridades e sacrificios, persuadidos de que não mereciam a misericordia que tão precisa lhes era.
Ah! se a alma só assim se salva, perdidos estamos todos, ó meus amigos!
Bem ouço o theologo que nos diz: Não é assim; a salvação ganha-se com menores trabalhos. Deus não exige que todos os seus filhos sejam egualmente perfeitos. Mas ao theologo respondo: Estás perdido como nós, tu e tambem os teus mestres, e os teus discipulos, estaes perdidos todos. Os exemplos que nos cumpre seguir são os dos santos, não são os vossos. Mostrae-nos na Legenda um só santo que subisse ao céo pelo caminho commodo que descobristes. Debalde hei buscado, com fim de o imitar, um homem meio santo e meio peccador, servindo Deus e o mundo, temendo, como eu, a miseria, a dôr, as humilhações, condescendente comsigo proprio, almejando viver no coração de outra creatura, chorando sobre as illusões esmaecidas como Pedro sobre o seu peccado. Não encontrei tal homem. O mais que vi foi milagres de stoicismo, maridos que deixavam as mulheres, mulheres que deixavam os maridos, filhos que fugiam ao abrigo dos paes, ricos que todos seus haveres dispendiam, bispos que fallavam verdade aos reis da terra, á custa da vida até; ninguem que se contentasse de cumprir no rigor da palavra os preceitos de Deus e da Egreja; por toda a parte almas ardentes de zelo super-natural, tendo apenas de humanas os incançaveis escrupulos, os inquietos terrores; justos sem socego, penitentes sem repouso, virgens lagrimosas e anachoretas angustiados.
Vós, porém, que vos quereis salvar e salvar-nos com menos custo; vós, que viveis regalados em quanto o Christo mendiga á vossa porta; vós que tendes riquezas ao sol e riquezas á sombra, quando na vossa parochia tantas familias laboriosas carecem do mais urgente; vós, que cubiçaes a estola, a murça ou mitra; e achaes nas Escripturas louvores para outrem, além de Deus, oh! quanto differentes sois d'aquelles heroes christãos cujas imagens campêam nos nossos altares! Sois o que somos: haveis mais pavor das praticas dos santos que do proprio inferno; espanta-vos e desespera-vos a perfeição d'elles; a pesar vosso, amaes o que elles aborreciam, e aborreceis o que elles amavam; as vossas virtudes são mesmamente humanas, taes quaes as nossas, que não vem do alto, que se enroscam nos nossos vicios e nos acorrentam ao demonio.
Ai! que perdidos estamos, ó meus amigos! Que lucramos em fechar os olhos? Estamos todos condemnados! Que monta o desprezo proprio pregoado pelos labios, se no intimo do coração tendes a propria estima sempre desvelada? Que aproveitam as momentaneas conversões, seguidas de quedas mais desastrosas? Que vos fazem certas privações associadas a tanto regalos? Em verdade vos digo que estamos perdidos!
Ora pois, se assim é, se o abysmo está aberto e o cahir é irremediavel, cerremos os olhos e não cogitemos mais em tal. Entre o céo inacessivel e o inferno d'onde não ha mais sahir, resta-nos um momento só: gozemol-o, ó meus amigos. Que é isto de estar a gente a empeçonhar, com terrores vãos, prazeres, tão raros quão fugitivos? Não pensemos no que será; pensar n'isso e desesperar é a mesma coisa: desesperar de entrar no céo, e desesperar de sahir do inferno. Saboreemos o presente. Vivamos terrenamente: aqui ha creaturas ridentes que nos alegram, fragrancias que nos deliciam, e licores que atrophiam a memoria.
Quem é ahi o sandeu que falla em inferno? Não ha inferno, minha mãe! Conclue em paz os teus dias extremos. Não contristes com visões pavorosas essas creancinhas que te escutam, e que talvez falleçam antes de nós. Ride, ó meus filhinhos: a vida vos será breve e repleta de miserias, quando crescerdes.
Eu desejo, senhora, que a minha casa seja mansão de jubilos e não de tedios: quero ser amado pelo que sou e não por caridade; quero ser obedecido amorosamente e não com submissão de escrava; aliás, buscarei quem me ame, e me corresponda. Engrinalda-te de rosas, minha bella! Não ha inferno, e o paraizo tem-l'o ahi á mão. Enche-me o copo, e dorme placidamente nos meus joelhos. Amar! amemo'-nos, até á morte; que da morte para além começa o odio!
Ah! que bizarra invenção não foi esta do inferno! Um abysmo para onde naturalmente nos inclinamos, attrahidos, impellidos por quanto ha, cahidos em fim, e depois, o abysmo... fechado para sempre! Oh! primorosa perspectiva para que façamos da terra uma estancia de delicias peccaminosas!
V
O rebanho
Se não fosse preciso crêr na eternidade do inferno, e no pequeno numero dos escolhidos, e na inevitavel condemnação da maior parte dos homens, eu odiaria como vós os prazeres da vida; o sermão de Jesus na montanha se me figuraria mais bello e intelligivel; eu entenderia a felicidade das lagrimas, as delicias da pobreza e a doçura de todos os sacrificios.
Quando, porém, se me diz que não é bastante haver chorado e soffrido muito n'este mundo para ganhar o perdão divino; quando se me diz que nada vale affrontar a ira dos tyrannos, defendendo, a verdade que os fere, ou o direito que elles avexam; quando me dizem que nada monta morrer no patibulo pela liberdade da patria ou no campo da batalha pela sua independencia; quando me dizem não importa nada envelhecer na miseria por haver preferido a honra ás honras, o estudo á opulencia, o trabalho aos prazeres; quando me dizem que tudo isto é fumo, que estas dores, esta coragem, privações, heroica vida, heroica morte, não podem resgatar minha alma d'um peccado mortal, e aos olhos de Deus não valem o cilicio d'um frade, ou a confissão de um salteador agonisante; ah! confesso que, ao dizerem-me estas cousas em todos os pulpitos christãos, não entendo o sermão da montanha, e pelo contrario começo a comprehender os prazeres d'esta vida.
Vêdes aquelles pescadores que em fragil barquinha vão arrostar as ondas do oceano, e vogar, por dias, semanas e mezes, longe da praia, á mercê das tempestades para ganharem, á custa de mil perigos, o pão de seus filhos?
Vêdes aquelles telhadores na aresta do vigamento? aquelles mineiros sepultados nas entranhas da terra, longe dos raios beneficos do sol? Vêdes o lavrador curvado sobre o sulco? o pallido tecelão diante das machinas devoradoras? tanto operario sem nome avergado ao pezo de um trabalho ingrato e sem descanço? Pois a maior parte d'aquelles é condemnada, por modo que os seus soffrimentos n'esta vida são preludios dos que lá os esperam na outra. Aquella mãe que não póde vestir seus filhos, e que relança olhares invejosos ao palacio visinho, onde os cavallos medram mais fartos que os filhinhos d'ella;—aquelles mendigos que vagamundêam nos campos; os orphãos que se recolhem aos hospitaes; os soldados que marcham para as fronteiras; os proscriptos esquecidos no solo estrangeiro, condemnados, quasi todos condemnados, meu Deus! Um repleto conego, risonho e bochechudo, sem familia nem cuidados, repastando-se quatro vezes por dia, mas sem escandalisar ninguem, baixando a vista em presença das mulheres, pontual nos officios, está mais visinho do céo que todos aquelles desgraçados; e mais perto ainda do céo está um sancto anachoreta. Chorar, soffrer, trabalhar não é nada. Se choram, não choram as suas culpas, é a miseria dos filhos; se trabalham não é por penitencia, mas sim para grangear commodidades. Lagrimas de Babylonia, diz S. Agostinho. Avidos suores, vãs angustias! Muitos seculos ha que d'est'arte se lhes explica o sermão da montanha, e elles nem o comprehendem nem jámais o entenderão. É bem de ver que não vivem á maneira dos santos legendarios, nem dos conegos prebendados. Os que sabem lêr pouco lêem, á falta de tempo. Muitos não vão á egreja, e os que lá vão sahem como entraram. São profundamente ignorantes. A dura necessidade dobrou-lhes a cabeça sobre o torrão que regam com o seu suor; e a natureza, que lhes brada das entranhas da terra, diz-lhes cousas que elles percebem mais a preceito que os sermões. O estridor e o vapor das materias da sua obragem cega-os e ensurdece-os. Não sentem fome nem sêde da palavra divina, qual lh'a ensinavam algum dia. Digam-lhes que um eremita vae melhor do que elles, por que abandonou officio, casa e parentes, e todo se vagou á salvação da alma, e que ha vinte ou trinta annos resa, jejua e se disciplina, dizei-lhes isto que elles vos desfecharão uma gargalhada; mas, se ao mesmo tempo passar um soldado de bigodes brancos, ou algum recruta aleijado em Africa ou Italia, ou algum repatriado do desterro, em vesperas de para lá voltar, se a occasião o exigir, elles o saudarão respeitosamente. Que appareça um velho sem occupação, uma viuva com filhos maltrapidos, e elles se fintarão para soccorrêl-os. Contae-lhes casos de bemfazer e lanços de gratidão, vêl-os-heis commovidos. As virtudes d'esses infelizes são, para assim dizer, selvaticas, probidade orgulhosa, amizades humanas, mas apuradas até á abnegação, instinctos lucidos do que é grande e formoso, mas formoso e grande pela craveira das coisas d'este mundo. De par com isto ha falhas, e até crimes. Impacientam-se, praguejam, largam a redea aos desejos, porque, no seu modo de pensar, se não ganham, tambem não perdem. Vivem á beira das charruas, das córtes, das forjas, e nas abegoarias. Este viver influe-lhes na linguagem e nos costumes. Não têm alma que se ale longo tempo e ao alto sem que as azas lhe falleçam: é que pezam n'ella os cuidados terrestres. Ventilam problemas que não podem resolver. Desconsolados do seu destino, perguntam porque ha ricos e pobres, e porque, no outro mundo, serão condemnados, depois de tanto haverem trabalhado e gemido n'este?
O inferno não os apavora muito mais que a morte. Affizeram-se desde a infancia á vaga idêa de que hão de ser condemnados, seguindo a trilha commum da vida; todavia, apezar do proposito feito, nem por isso um terrivel pezo deixa de lhes aggravar o fardo das dôres quotidianas. O sino que dobra, o sahimento que passa, o doente que vae para o hospital, o pedreiro que cae da parede, o obreiro apertado entre o encaixe de uma roda e triturado nos dentes d'ella, os terraplenadores sotterrados nas saibreiras aluidas, os marinheiros comidos pelas vagas, o typho que devasta um bairro inteiro de operarios, mulheres sem maridos, paes sem filhos, filhos sem mães, tudo isto por vezes lhes relembra o Deus rancoroso que lhes prégam, e as surprezas da morte, e os perigos de sua precaria existencia, e com as miserias que findam outras que principiam, para nunca mais acabarem. Este povo assim é como um rebanho que se leva ao matadouro, aguilhoado pelos pastores, lacerado pelos cães, atormentado pelas moscas, cançado, sanguento, sequioso, abatido, estupido.
Compadecei-vos, pois, d'esses que nunca vos darão bons ermitões. Não ha, por ventura, um ideal mais aceitavel e ao mesmo tempo mais puro que lhe mostreis? Não ha senão esse a que aspira o ente sem familia, sem ligações e cuidados d'este mundo? Se, ao menos, podesseis annunciar-lhes a justiça de Deus sem os assombrar! Não são já de si que farte mysteriosas e raladoras as dôres d'esta vida? Não será de mais rematal-as com o terribilissimo mysterio do inferno? Pois se tendes a certeza que serão condemnados no trem de vida que levam, deixae-os respirar, e beber, e rir e dançar, em quanto o animo e tempo lhes não faltam; que a desesperação poderá leval-os a peores excessos.
Ó pobre genero humano! Será preciso que o Christo desça segunda vez do céo para te instruir, e que outra vez seja vindo e crucificado para salvar-te?
CAPITULO QUARTO
OUTROS FRUCTOS DO INFERNO
O mal que produz o inferno.—Incredulidade, desalento, desesperação
Esquadrinhando o bem que procede do inferno, já divisamos o mal que produz. Bem negativo e limitadissimo; mal positivo mas profundo, extensissimo, apenas por em quanto entre-vimos. Faz-se mister examinal-o mais pelo miudo. Não perderemos o tempo.
É facto incontestavel que a maior parte dos homens se occupa menos de céo e inferno que das precisões, interesses, prazeres e dôres da terra. A Egreja o confessa admirada e lacrimosa. Por que se admira? Que remedio senão ser assim? Pois acaso póde toda a gente retirar-se ao deserto? Pois todo o encanto da vida se apagou? Os direitos da natureza foram abolidos?
Na sociedade cuja moral se funda sobre o medo das penas eternas, todo movimento paralysaria, se instinctivamente, e por necessidade de viver, não viesse o esquecimento d'esse tremendo futuro. A esperança do ceo não bastaria a contrabalançar os effeitos de tal susto, mormente quando nos affiançam que a porta do ceo é estreita, e que o inferno tem milhares de portas sempre abertas. Á medida que esta crença se incutir nas turbas, assim ellas hão de lidar por esquecel-a, abafando-a no seio, sem querer sequer meditar n'isso. Quanto mais pura, exigente, austera e angelica fôr a vossa moral, tanto mais impraticavel vol-a hão de considerar; e, se a fundamentaes no inferno, fechar-se-hão os ouvidos ao vosso apostolado, e ninguem quererá sequer aproximar-se d'aquella perfeição immaculada, que sómente florece em estufas claustraes, que se desbota ao leve bafejo do homem, e só está ao alcance de ociosos.
Se no inferno tão sómente fossem castigados certos crimes monstruosos e excepcionaes, mas claramente definidos, taes como o assassinio, o incesto, o estupro, poder-se-hia ainda examinar a justiça de tão exorbitante penalidade: ao menos cada qual sabia quando lhe era applicada a pena. Porém, se vão ás chammas eternas o aváro, o glotão, o preguiçoso, o prodigo, o orgulhoso, o invejoso, o impaciente, o maledico, o voluptuoso, o incontinente, o ambicioso, o calumniador, o usurario, o mentiroso, o hypocrita, o lisongeiro, o ingrato, o philosophante, o rebelde, etc., etc., etc., congela-se o sangue nas veias; ninguem ousa vender, comprar, emprestar, traficar, fallar, pensar, beber, comer, respirar; por quanto, quem sabe onde começa a avareza? o orgulho? e a lisonja, reverendissimos senhores, onde começa a lisonja? e a usura? e os limites da temperança quem os abalisou? Occasiões, tentações e perigos em tudo!
A questão não é saber se ahi ha crimes hediondos e puniveis: ninguem nega que os haja;—o que se tracta é de saber se é racional e discreto, e se os bons costumes lucram, que nos ameacem com eternos castigos, por peccados que mal podem definir-se. Quem ha ahi isempto de seu tanto ou quê de orgulho? Quem se presume bastante sobrio, bastante comedido nos prazeres licitos, menos egoista em suas legitimas affeições, menos desinteressado em seus lavores e mercantilismo, bastante paciente nos revezes e resignado nas desgraças? Quem se crê assaz justo, caritativo e perfeito? Ao parecer dos theologos, uma tal presumpção seria peccado capital, até nos conventos, até para os anachoretas envelhecidos em abstinencias e orações. Ninguem sabe ao certo o momento, o ponto em que um acto licito descahe no illicito; que dóse de alimento quadra á sua saude, e onde no rico principia o superfluo, que é o necessario do pobre. Para que vem seis pratos á meza? Se um basta, para que são dois? A regra onde está?
Cautela! esse copo que chegaes aos beiços risonhos, em vez de vos apagar a sêde, vae abrazar-vos em sêde eterna. Cautela! Theologo nenhum poderá dizer-vos exactamente o que vos cumpre dar, o que vos cumpre não dar; e o caso é que, se vos enganaes com tal incerteza, folga o diabo. Um padre da Egreja, um papa, um santo, Gregorio o Grande, não disse que Deus nos arguiria de peccados que antes de morrer não conhecemos?
Estas e outras mais terriveis cousas podeis lêr no Quotidiano do Christão, livro approvado e recommendado por todos os bispos, e que anda em mãos de creancinhas. Portanto, verdadeiras ha só duas cousas: a condemnação, se nos enganamos, e a abstenção para nos não enganarmos.
Mas a abstenção não é viver. Viver é a actividade inteira, incessante, e arriscada a peccar. É lei do genero humano viver e perpetuar-se. Não nega, mas esquece os dogmas oppressores que lhe pesam na alma, e a cada passo lhe apontam aberto um alçapão do inferno. Vivem os homens n'uma especie de indifferença religiosa que os avilta, movidos unicamente por suas paixões, e apenas enfreados pela justiça temporal. Fóra com isso do futuro! fóra com remorsos! Fechemos olhos a todos os clarões, e os ouvidos a todos os rumores do outro mundo, e concentremos n'este a nossa inteira vida, todos os desejos e pensamentos.
É effeito imprevisto, porém real, d'esta medonha crença induzir ao materialismo, não theorico, mas pratico, a maior parte dos que não leva ao ascetismo: attasca na lama os que não transvia nas nuvens; faz que se rojem durante o dia breve da existencia, grandes e pequenos. Os philosophos accusados d'este miseravel estado das almas, estão innocentissimos: não ha em tudo isso faisca de philosophia; raciocinio é coisa que ahi não vislumbra. O instincto é que desde tempos esquecidos, e não de ha pouco, nos propendeu áquelle cego materialismo: é a necessidade de arrostarmos com uma crença mortifera; é a vida que resalta d'entre as mãos desvairadas que intentam comprimil-a, e d'este desbordar de toda a fórma surdem os excessos.
Já não lhes abasta esquecerem o inferno. Quem o esquece são os fracos; os fortes vão mais além: escarnecem-no. Anda já por ahi o diabo cantado, e do mesmo feitio o inferno, e o céo com os seus moradores. E de taes canções vendem-se tantos exemplares como dos Canticos de S. Sulpicio: antiquissima impiedade, de que ha vestigios, não só na Grecia pagã, mas tambem nas fabulas da edade média, e até nas paredes das vetustas cathedraes onde os artistas zombeteiros esculpiram, ha mais de seiscentos annos, o Inferno de Béranger. A ironia mascarava-se então com tregeitos beatificos; o impudor, porém, não se disfarçava nem se constrangia.
Os lamuriantes da edade média talvez digam que, apezar das galhofas audazmente esculpidas nos portaes e córos das egrejas, esses antigos imaginarios criam no inferno, e que, no leito da morte, não foliavam, tremiam; que os fabulistas tambem tremiam, e que os castellãos e castellãs, plebe e burguezia, quantos se haviam regalado com as taes caricaturas, tremiam tambem. Sim, meu Deus, é verdade. Mas circumvagae a vista, e dizei-nos se, a tal respeito, a sociedade mudou. A mesma educação religiosa não produz continuamente identicos phenomenos? Acreditam no inferno os epicuristas, os trampolineiros, os usurarios, os prodigos e os ladrões, os famintos e os repletos, os invejosos e os ingratos, os indifferentes e os chasqueadores? No intimo da alma guardam elles as superstições das amas: que farte o denotam na vida, e principalmente na morte. Em quanto são moços, ageis, febris de saude e esperança, repulsam uma crença que lhes tornaria maldita a mocidade, a saude, a força, a razão de todas as dadivas do céo. Quando caducam, infermam e agonisam, espantam-se de haver ardido em desejos que já não tem, e haver motejado praticas que se lhes agora figuram facilimas. É chegada então a hora e situação conveniente para intender a moral do inferno, que é a privação em tudo e por tudo,—a morte na vida.
Singular crença que não infrêa o maior numero de homens, quando o freio lhes é mais preciso; e quando o retêl-os é já inutil, e mais necessaria lhes seria a esperança, então, á entrada da sepultura, lhes sahe espantadora! Levado por ella vae o anachoreta ao suicidio, e o mundano ao embrutecimento. Esteril em verdadeiros dons, fertil em verdadeiros males, a crença no inferno bestialisa, desalenta, desespera, endurece. Melhor é esquecel-o á maneira das turbas, que pensar demasiado n'ella, que tanto monta sentir vertigens, sentir estontecida a cabeça á roda d'esse abysmo que vos attrahe e sorve. Mais algum prazer ou menos, defendido ou não, que faz? Lá no inferno não estaremos melhor nem peormente; a eternidade não terá hora menos ou hora mais. Constrangermo-nos para quê? Não ha termo medio entre o bem e o mal absolutos. Tudo que é humano é mau: é forçoso ser anjo ou demonio: seja-se diabo, que é mais comezinho. Vêde-me uns frades, padres, devotos, freiras, que a desanimação avassalou: não ha peores peccadores; rolam cada vez mais ao fundo, e vão-se consolando com as delicias que topam na sua queda. Um peccado de menos, que é na conta que hão de dar? Chegados a tal extremidade, qualquer boa acção lhes será vã. Como não podessem abster-se de tudo, os desgraçados já agora não se abstem de nada. Esta desesperada crença precipita-os abaixo do homem. D'ahi tem surdido mais libertinos que ermitões, mais blasphemos que santos, mais loucos que ajuizados; e, em verdade, é mister que o christianismo entranhe vivacissimos embriões, esplendorosissimas luzes, e poderosissimas verdades para resistir, como ha resistido, á influencia de taes doutrinas.
Tirae-nos, por favor, esse inferno tão fatal aos que o recordam como aos que o esquecem. É verdade que teremos menos monges com o purgatorio; mas teremos mais christãos. No purgatorio será util pensar, comprehender-lhe a justiça, e sentir-se o homem melhor, ainda a pesar seu; se é facil sacudir o jugo de uma revelação sobrenatural e inintelligivel, por mais beneficente que ser possa, não é facil desprendermo-nos de idêas excellentes e razoaveis, por mais importunas que nos sejam.