INTRODUCÇÃO
Á
ARCHEOLOGIA
DA
PENINSULA IBERICA


Typ. Castro Irmão—Rua da Cruz de Pau, 31

INTRODUCÇÃO
Á
ARCHEOLOGIA
DA
PENINSULA IBERICA

PELO DOUTOR
Augusto Filippe Simões
LENTE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA


PARTE PRIMEIRA
ANTIGUIDADES PREHISTORICAS
COM OITENTA GRAVURAS


LISBOA
LIVRARIA FERREIRA
132 Rua Aurea 134
1878

PROLOGO

As sciencias historicas e sociaes transformam-se actualmente sob o poderoso influxo dos factos, principios e methodos das sciencias da natureza. A archeologia é a principal das vias por onde se opéra esta grande transformação. Relacionada por uma parte com a geologia, a paleontologia e a anthropologia, e por outra parte com a historia, tem aproximado, attrahido, ligado estas sciencias que a differença das idades e dos methodos respectivos por tantos annos conservára afastadas e independentes umas das outras.

A tradição e a auctoridade d’aquelles que o precederam guiam e esclarecem o historiador. Ao naturalista falta-lhe a tradição; tem apenas os vestigios dos factos para os explicar e relacionar; mas, por isso mesmo, afaz-se a observar, analysar, comparar e induzir com toda a força que dá o exercicio ás faculdades intellectuaes, e com a independencia a que o espirito humano se habitua, desprendido inteiramente de opiniões antecipadas e de systemas preconcebidos. O historiador principia pelo mais antigo dos factos que a tradição refere, e deduz depois chronologicamente todos os outros até chegar á actualidade. O geologo segue o caminho inverso; começa pelos factos contemporaneos e, induzindo do conhecido para o desconhecido, interpretando pelo presente o passado, remonta-se, de vestigio em vestigio, até á origem da terra. Ninguem lhe contou, ninguem deixou escripta a historia do planeta que habitamos. É elle quem a cria, quem a inventa, observando e interpretando os vestigios materiaes dos factos que lhe revelam na sua evolução incessante as phases principaes da vida do globo. Os documentos que a natureza offerece ao naturalista não exprimem senão a verdade rigorosa e exacta. Os documentos que o historiador aprecia, traçados por mãos humanas, muitas vezes a desfiguram e falseam. Mente o homem, a natureza não.

As condições do archeologo que estuda as epocas prehistoricas são identicas ás do naturalista, e como naturalista ha de proceder se quizer chegar ao conhecimento da verdade. Em primeiro logar falta-lhe inteiramente a tradição verbal ou escripta; tem de cingir-se á significação exacta e rigorosa dos vestigios que observa. Em segundo logar a qualidade d’estes vestigios, o modo como se encontram nas camadas superficiaes da crusta da terra, os restos fosseis que lhes andam associados, fazem da archeologia prehistorica uma como parte da paleontologia humana. Aqui pois desapparece de todo a differença entre o archeologo e o naturalista.

Na archeologia dos tempos historicos, com quanto se considerem já os factos á luz da historia, subsiste todavia, como elemento essencial da interpretação d’elles, a analyse dos monumentos, a apreciação dos productos da arte, correspondentes em cada seculo aos fosseis ou aos outros vestigios em que o geologo, á força de observar e comparar, chega a constituir e a lêr a historia da terra. O historiador não póde pois deixar de ser archeologo; tem de aproveitar-se das luzes que a archeologia lhe presta; e não raras vezes acontece indicarem-lhe os monumentos a verdade alterada pela tradição. Não ha muitos annos, por exemplo, que a historia nos representava os wisigodos como gente que não chegara a cultivar as artes. As descobertas de alguns capiteis em Toledo e do thesouro de Guarrazar corrigiram a falsidade historica, mostrando-nos até que ponto elles se elevaram na esculptura da pedra e dos metaes, e tambem na architectura, porque de certo não fabricariam esplendidas coroas votivas de ouro e de pedras preciosas, nem esculpiriam delicados capiteis para templos de pedra e barro ou de madeira, como diziam terem sido em Hespanha os dos successores dos romanos na dominação da Peninsula.

Quem considerar portanto a archeologia a esta luz, como poderoso elemento de critica para o historiador, e como a principal das vias por onde os methodos e noções das sciencias da natureza passam para as sciencias historicas e sociaes, necessariamente concluirá ser o seu estudo uma necessidade impreterivel para qualquer povo que não queira ficar estacionario ou retardado áquem d’aquelles que o facho da sciencia allumia na vanguarda da civilisação. Sobe de ponto a necessidade em Portugal, de quem o poeta diria ainda hoje, como ha tres seculos:

E não sei por que influxo do destino

Não tem um ledo orgulho e geral gosto,

Que os animos levanta de contino

A ter para trabalhos ledo o rosto.

A superioridade relativa da Hespanha em comprehender e apreciar os estudos archeologicos claramente se nos patentêa em publicações de tal interesse e magnitude, quaes são os Monumentos arquitetonicos e o Museo español de antigüedades; e em monographias como aquellas que das suas respectivas provincias escreveram os srs. Villa-amil, Gongora, Sivelo, etc. Todas estas obras e alguns jornaes scientificos e litterarios contêem grande copia de subsidios para o estudo da archeologia hespanhola. Mas até hoje ninguem a tratára ainda comparativa e syntheticamente. Para isto sería mister considerar tambem as antiguidades portuguezas, e Portugal não poderia offerecer a qualquer escriptor hespanhol senão alguma rara memoria ou um ou outro artigo nos jornaes litterarios. Entre nós até certo ponto facilita-se a empreza, porque, se, por uma parte, a Hespanha nos subministra em tantas publicações, noticias e estampas dos seus monumentos, por outra parte, temos os nossos tão proximo de nós, que as distancias serão o menor dos obstaculos para quem pretender estudal-os ou descrevel-os.

Terá chegado a occasião opportuna de aproveitar taes elementos e de contribuir para o commum progresso de Hespanha e de Portugal com um dos maiores serviços litterarios que actualmente se lhes poderiam prestar? Crêmos que sim, e por isso intentámos escrever a Introducção á Archeologia da Peninsula, cuja parte primeira, comprehendendo as antiguidades prehistoricas sahe por agora á luz do dia.

Este assumpto pouca ou nenhuma attenção tem merecido aos governos hespanhoes e portuguezes, e cá e lá o publico mal lhe comprehende ainda a maxima importancia. Todavia ha quarenta annos que Nilsson publicou a primeira edição do seu livro ácerca dos habitantes primitivos da Scandinavia. E desde essa epoca, na Suecia, Allemanha, Inglaterra, França, Belgica, Suissa, em todos os paizes cultos, o estudo das antiguidades prehistoricas tem constituido um verdadeiro movimento scientifico, de certo o mais notavel e o mais caracteristico do nosso tempo. Provam a existencia e a intensidade d’esse movimento a exploração das cavernas e de outras estações prehistoricas, a fundação de museus, a celebração de congressos, e finalmente a publicação de livros e jornaes, destinados para registrar as descobertas que todos os dias estão fazendo, ou para divulgar a nova sciencia entre aquelles a quem interessa conhecer as origens e o desenvolvimento de civilisação humana.

A archeologia prehistorica tem ainda outra grande importancia. Estudando os mais antigos dos vestigios do homem na face da terra, contribue a par com algumas das sciencias naturaes para a solução do grande problema da origem das especies. Convém advertir que os conhecimentos modernamente adquiridos n’este ponto interessante refazem a biologia nas suas doutrinas fundamentaes e abrem novo e largo caminho á philosophia. A paleontologia humana demonstra já a existencia do homem nos mais antigos dos tempos quaternarios. Acompanha-a n’essa demonstração a archeologia prehistorica, e vae mais longe ainda rebuscar nas camadas pliocenas e miocenas dos terrenos terciarios, onde aquella sciencia nada até hoje descobriu, as provas da habitação da terra pelo homem em epocas em que as condições geographicas, zoologicas e botanicas mal deixam acreditar na possibilidade de similhante facto.

O desejo de conhecer as origens dos povos e os primordios da nossa especie na face da terra é natural a todo o espirito illustrado, e distingue até as raças mais cultas d’aquellas que permanecem no estado selvagem ou n’um grau inferior de civilisação. Ora quem quizer satisfazer este desejo, soccorrendo-se unicamente aos dados scientificos, ha de pedil-os tanto á historia natural como á archeologia prehistorica. O que ellas já hoje nos dizem, apesar de insufficiente para a completa solução do problema, é todavia muito em comparação da total ignorancia em que a este respeito estavam os naturalistas ainda ha poucos annos.

O problema da origem das especies liga-se naturalmente com a doutrina da evolução que a archeologia prehistorica demonstra com evidencia na parte que respeita á industria humana. O fundamento d’esta doutrina vem a ser que a natureza não produz as cousas logo de principio completas ou acabadas, porém no estado rudimentar, do qual se elevam por graus successivos, por modificações infinitamente pequenas, até á sua fórma precisa e determinada; e que, chegadas a este ponto, começam a padecer alterações inversas, até se dissolverem pela total desaggregação das suas partes constituintes. Chamam-se lei de progressão ou integração aquella que regula as primeiras, e lei de regressão ou dissolução aquella que regula as segundas de taes alterações.

A cellula, o elemento fundamental, irreductivel dos seres vivos, nasce, cresce, atrophia-se e morre. O homem, cada animal, cada vegetal como a cellula; a humanidade como o homem ou a especie como o individuo; e, se chegar a demonstrar-se a hypothese de Laplace, a terra como os organismos, o systema planetario como a terra. A humanidade inteira e cada uma de suas partes, cada raça, cada povo, estão pois sujeitas a estas leis universaes. O progresso é portanto uma condição necessaria e fatal, e a civilisação ha de considerar-se não um effeito da arte, mas uma phase tão natural da vida da humanidade, como o crescimento dos orgãos nos animaes ou o desabrochar da flor nos vegetaes.

O descobrimento dos primeiros e disformes instrumentos que o homem fabricou e de que fez uso na terra serve para demonstrar a lei da integração ou o progresso na industria e na civilisação humana. A serie progressiva manifesta-se claramente no machado, por exemplo: ao de pedra lascada succedeu o de pedra polida; a este o de cobre; ao de cobre o de bronze; a este finalmente o de ferro. A integração patentêa-se da mesma sorte nos outros productos da industria, e continúa depois nos tempos historicos pelas varias manifestações do espirito humano, nas artes, nos costumes, na politica, etc. Os estacionamentos e até as regressões locaes, temporarias, não invalidam a regra geral, cuja verificação se ha de fazer comparando entre si, não os periodos pouco distantes, porém as eras principaes, sem attender aos longos seculos de elaboração que as separam.

Mais do que em geral se pensa, interessa ao individuo e á sociedade esse estudo comparativo. Quem de boa fé e despreoccupadamente o emprehender concluirá por certo que as faculdades humanas são por extremo perfectiveis; que nos tempos primitivos o homem, arriscado sempre a servir de pasto ás feras que o cercavam e com as quaes tinha de luctar, armado apenas de paus e pedras, para se defender da sua voracidade, ou para lhes disputar a posse das cavernas ou a colheita dos fructos da terra, que o homem, só pelos seus proprios esforços, pelo trabalho que desenvolve os orgãos, pelo exercicio que aperfeiçôa as faculdades, se elevaria d’aquellas miseraveis condições aos commodos e gozos do estado civilisado. Assim adquirirá uma fé viva na perfectibilidade, em que o progresso tende a diminuir a somma dos males e a augmentar a dos bens, e, guiado por esta convicção consoladora e salutar, trabalhará para se aperfeiçoar a si proprio e aos seus similhantes. Facil se lhe tornará tambem prevêr os resultados da applicação de taes principios á educação physica e moral. A criança está para o adulto, como o selvagem para o homem civilisado. A mesma lei, que transforma o primeiro no segundo, permitte desenvolver as faculdades infantís, e aproximal-as, em vez de, como tantas vezes acontece, as desviar do typo da perfeição. Finalmente, um povo, inspirado pela fé em que o seu futuro dependeria dos seus proprios costumes, dos meios que pozesse para se aperfeiçoar physica e moralmente, esse povo, convencido pelo estudo do passado de quanto póde a natureza humana, e illustrado pela sciencia, elevar-se-hia a uma civilisação superior a todas que têem existido, e chegaria a dominar, ou melhor que dominar, a civilisar os outros povos da terra.

Nas origens e primeiros desenvolvimentos das civilisações antigas a fé viva na intervenção miraculosa de potencias sobrenaturaes era o estimulo forte que incitava os povos aos grandes commettimentos, que cega e inconscientemente os conduzia aos grandes bens ou aos grandes males. Nas civilisações modernas uma fé similhante nas forças naturaes, no alto poder e na grande perfectibilidade das faculdades com que Deus dotou o homem, substituirá de certo aquelle incentivo, mas sem expôr aos mesmos perigos, porque, em vez de impedir lhe, facilitar-lhe-ha o conhecimento da verdade. Temos infelizmente por impossivel cumprir-se inteiramente aquella prophecia do poeta:

Un jour tout sera bien, voilá notre espérance,

Tout est bien aujourd’hui, voilá l’illusion.

Mas, assim como a curva se aproxima cada vez mais da asymptota, sem chegar a tocal-a, assim tambem o homem, sem poder chegar á perfeição absoluta, aproximar-se-ha, se quizer, cada vez mais a este sublime ideal.

INTRODUCÇÃO
Á ARCHEOLOGIA DA PENINSULA


CAPITULO I
ESTUDOS PREHISTORICOS

Os erros geocentrico e anthropocentrico e o progresso das sciencias.—Machados de pedra.—Opiniões dos antigos e do vulgo ácerca da sua origem.—Mercati entrevê a verdade.—Demonstrações de Jussieu e de Mahudel.—Opiniões de auctores hespanhoes e portuguezes.—Primeira definição das idades prehistoricas.—O homem fossil.—Schmerling.—Boucher de Perthes.—Os sabios francezes e inglezes.—Inversão das opiniões em França e Inglaterra.—Conferencia internacional.—Resultados definitivos.—Estudos prehistoricos em Hespanha e Portugal.

Obcecados pela ignorancia e desvanecidos pelo orgulho, os homens acreditaram por muito tempo dois erros capitaes, oppostos e contrarios ao progresso da sciencia e ao desenvolvimento da humanidade. Consistia um, que chamam geocentrico, em suppor a terra, plana e immovel, o centro do Universo; o outro, anthropocentrico[1], em julgar tambem o homem centro e fim unico e ultimo de toda a creação. E tanto esses erros se tinham arraigado, durante a longa infancia do genero humano, que, só porque proclamaram o movimento da terra, no seculo XVI Copernico passava por doido, e, no seculo XVII Galileu, por não ser posto a tormento ou lançado ás chammas, tinha de abjurar, perante a Inquisição de Roma, as crenças scientificas.

Todos sabem que, depois da epoca memoravel do renascimento, a demonstração do primeiro erro foi uma das causas que mais contribuiram para elevar a humanidade acima dos apertados horisontes em que a idade media a confrangera. O segundo, porém, continuou a dominar o animo dos naturalistas a ponto que, na primeira metade do seculo XIX, Cuvier e a maior parte não acabaram comsigo a acreditar em que existisse nas entranhas da terra algum vestigio fossil do homem entre os dos outros mammaes, contemporaneos dos ultimos phenomenos que alteraram a face do globo. Cediam assim ao geral influxo do erro anthropocentrico, segundo o qual, a especie humana, a ultima na ordem das creações successivas, sómente poderia apparecer depois que os varios agentes da natureza houvessem longamente preparado a configuração actual dos continentes, que tinham de servir-lhe de berço e de vivenda.

Do erro anthropocentrico derivava-se tambem naturalmente a crença na civilisação primordial e na consecutiva decadencia da humanidade; e portanto, cousa impossivel parecia o descobrirem-se objectos da industria humana que provassem exactamente o contrario, isto é, que o homem progredira e se aperfeiçoára gradualmente, passando do estado selvagem a civilisações cada vez menos imperfeitas.

Os machados de pedra, que em grande numero apparecem sepultados na terra em todas as partes do mundo, foram por muito tempo considerados, não como productos da industria humana, mas como effeitos miraculosos da cholera dos deuses ou resultas incomprehensiveis das forças naturaes. O vulgo chama-lhes ainda hoje pedras de raio, como em Grecia e Roma lhes chamavam ceraunias[2]. E, tambem como os povos modernos, os gregos e romanos lhes attribuiam virtudes mysteriosas e curativas. Na Grecia, particularmente, era opinião commum que Jupiter as arrojára do céo, e sobre certos montes convisinhos do mar Caspio e no da Chymera, no Epiro, mais do que em qualquer outra parte. Em razão do que, lhes rendiam culto e as collocavam em logares reservados. Não falta quem supponha que os sacerdotes de Cybele se serviam com facas ou machados de pedra para espontaneamente se mutilar em honra de Atys. Entre os hebreus era uso fazer a circumcisão com instrumentos de pedra[3], venerados talvez como sagrada recordação da remota antiguidade.

Parece que as betylas que os antigos traziam comsigo e consultavam como oraculos, fabricadas pelo céo, não seriam senão as ceraunias achadas na terra. Algumas vezes estas mesmas pedras substituiam a imagem de Jupiter; pois na fórma de machado adoravam os Carios aquelle que denominavam Labradæus. Sotaco e Plinio dizem que as ceraunias eram á maneira de machados (similes securibus). A maior parte dos auctores não fazem distincção entre as betylas e as ceraunias. Outros porém entendem que as primeiras seriam propriamente os machados e as segundas as pontas de frechas.

Um poeta da decadencia, Marbodeo, descreveu nos seguintes versos a origem, usos e virtudes das ceraunias ou pedras de raio:

Ventorum rabie cùm turbidus æstuat aër

Cùm tonat horrendum, cum fulminat igneus æther,

Nubibus illisis, cœlo cadit iste lapillus,

Cujus apud græcos exstat de fulmine nomen.

Illis quippe locis quos constat fulmine tactos

Iste lapis tantùm reperire posse putatur.

Unde cerauneos est græco nomine dictus,

Nam, quod nos fulmen, Græci dixere ceraunum,

Qui castè gerunt hunc à fulmine non ferientur

Sed neque navigio per flumina vel mare vectus,

Turbine mergetur, nec fulmine percutietur.

Ad causas etiam, vincendaque prœlia prodest.

Et dulces somnos et dulcia somnia præstat.

Huic dantur binæ species, totidem que colores

Cristallo similem Germania mittere fertur,

Cœruleo tantum infectum, rutiloque colore

Mittit et Hispanus similem fulgore Pyropi.

Os escriptores da idade media repetiram as fabulas antigamente acreditadas das ceraunias. Comtudo já Lucrecio dissera em bellissimos versos como os homens primeiro se tinham servido das pedras e paus por armas, e sómente mais tarde as haviam feito de bronze, e por fim de ferro:

Arma antiqua manus, ungues, dentesque fuerunt,

Et lapides, et item silvarum fragmina rami,

Et flammæ atque ignes, postquam sunt cognita primum.

Posterius ferri vis ærisque reperta;

Et prior æris erat quam ferri cognitus usus.

Mas esta asserção, bem como outras do grande poeta, sómente no seculo XIX poderia ser demonstrada e comprehendida.

Mercati, medico e antiquario illustre do seculo XVI, foi quem primeiro tentou demonstrar que as ceraunias seriam antes as armas lapideas que os primeiros homens usaram, do que productos mysteriosos do raio. Entretanto, era tão commum esta ultima opinião, que o auctor, apezar da força dos argumentos que produziu, não se declarou terminantemente a favor da outra, á qual apenas se mostrou inclinado. N’um dos seus livros, que é uma descripção das riquissimas collecções do museu Vaticano, para onde Sixto V o escolhera para director, n’esse livro publicado e annotado em 1715 por outro medico insigne, João Maria Lancisi, descreve Mercati e figura em estampas illustrativas os machados de pedra e as facas ou lascas ou as pontas de frechas, e affirma terem sido feitas de pederneira. Alguns outros escriptores do seculo XVI, como Aldrovando e Conrado Gesner, fallaram das armas de pedra e das excavações onde appareciam, todavia ninguem o fez tão expressa e positivamente como Mercati. Na Peninsula em 1534, Beuter, historiador de Valencia, deu noticia de muitas armas de pedra, apparecidas em Cariñena de Aragão, e de alguns craneos atravessados por ellas e na mesma excavação descobertos[4].

Nos seculos XVII e XVIII o exame das pedras denominadas ceraunias e a sua comparação com as armas de que ainda hoje se servem certos povos selvagens, mostrou a alguns desabusados observadores a origem e fins communs de umas e de outras. É sobre tudo notavel a memoria apresentada em 1723 por Jussieu á Academia das sciencias de Pariz, com a demonstração rigorosa de que as ceraunias ou pedras de raio não eram mais que as armas ou instrumentos fabricados e usados pelos primitivos habitantes da Europa, antes que a civilisação lhes ensinasse a extrahir e obrar os metaes. Dez annos depois, Mahudel sustenta a mesma opinião n’uma memoria que offerece á Academia de inscripções e bellas letras. Mas estes votos particulares não mudam o sentir do vulgo a respeito das ceraunias ou pedras de raio.

Em Hespanha o padre Torrubia dizia-as pedras figuradas pela natureza[5]. Em Portugal o padre João Baptista de Castro explicava assim a sua formação: «A pedra de corisco é distincta do raio; não obstante cahir juntamente com elle da nuvem; porque entre as exhalações sêccas, de que o raio se fórma, sobem tambem algumas particulas de materia terrestre e viscosa, as quaes pelo vigor do fogo se accendem e se tornam em massa empedernida, combatida ao depois pelo vigor do frio. Toma ella varias fórmas segundo a diversidade da nuvem em que se fórma, porque ou é de figura de pyramide, ou de ovo, ou de cunha, ou tambem redonda»[6].

O capitão Luiz Marinho de Azevedo no seu livro da fundação, antiguidades e grandezas de Lisboa, cita Plinio, Mario Nigro e Solino que disseram abundantes de ceraunias os campos de Lisboa ou da Lusitania, e trata de indagar se estas pedras seriam ou não d’aquellas que se formam da gomma de certa arvore da ilha de Cadiz, de que falla Estrabão. D. Antonio de Souza Macedo[7], tratando da invenção das armas diz: «Aonde não havia ferros, páos e pedras foram armas (e ainda entre nações de Africa e America o são) páos tostados ao fogo». Bluteau no Vocabulario, definindo a pedra de corisco, cita um auctor que diz que quem trouxer comsigo uma não poderá ser ferido de raios nem afogar-se. Conclue porém com a seguinte observação. «Eu tenho uma, mas nem com ella me quizera eu expôr a raios ou naufragios».

O padre Theodoro d’Almeida[8] chama contos de velhas ás explicações que davam da formação das pedras de raio, e mostra que não podem ser geradas nas nuvens. Foi mais adiante n’este ponto em Hespanha, pelo mesmo tempo, Marin y Mendoza, que mui claramente affirma a existencia das idades ante-historicas. Referindo-se aos homens primitivos diz: «Conocidos los estragos que causaba la voracidade del fuego, aprendieron que era poderoso no sólo para exterminar, sino tambien para penetrar y convertir las materias, por cuyo medio hallaron el cobre y hierro. Juzgase que se inventó de estos dos metales, primero el cobre, por ser más facil de labrar y hallar-se en mayor abundancia, y asi cultivaban con cobre la tierra, y se encuentran formadas armas de él para pelear, entre los más antiguos guerreros; pero con el tiempo, llegando á experimentar la fineza del hierro, lo preferieron para la labranza y fabrica de espadas... Es de creer que antes de inventar-se el hierro ó que lo supiesen aplicar para los instrumentos de guerra, se ensayasen poniendo en los extremos de los maderos y lanzas, huesos ó pedernales, y lo mismo harian con los cuchillos para cortar, del modo que lo usaban los americanos»[9].

D. fr. Manuel do Cenaculo, n’um livro inedito, descrevendo as espadas de cobre ou de bronze que appareceram na diocese de Beja, em excavações que mandou fazer, admitte egualmente a existencia da idade de bronze, anterior á invenção do ferro, e cita a obra mencionada de Marin y Mendoza[10]. Antecedentemente, em 1733, Martinho de Mendonça de Pina escrevera uma dissertação ácerca das Antas de Portugal, que anda impressa entre as Memorias da Academia Real de Historia[11]. Mas Eccard e Goguet, no meiado do seculo passado, foram aquelles que primeiro definiram com mais clareza as tres idades ante-historicas da pedra, do bronze e do ferro, o primeiro inquirindo as origens dos germanos, o segundo historiando os progressos sociaes dos povos antigos[12]. Havia porém um grande obstaculo a que esta idéa se vulgarisasse e fosse geralmente acreditada. As ceraunias appareciam em varias camadas da crusta da terra. Ora, se ellas tivessem servido de armas aos homens primitivos, porque não se descobririam tambem e conjuntamente nos mesmos terrenos ossos humanos no estado fossil? Á paleontologia competiria por tanto decidir a questão, mostrando se o homem teria ou não coexistido com a formação dos terrenos, onde aquellas pedras singulares tinham ficado sepultadas. Mas o atrazo e, portanto, a incompetencia da paleontologia eram taes que já n’este seculo Cuvier, elevando-a á categoria de sciencia, sustentava que nenhuma das descobertas, antecedentemente feitas, auctorisava a crêr na existencia do homem fossil. A reducção do homo diluvii testis de Scheuchzer ao genero das salamandras, reducção feita pelo celebre naturalista, depois de ter examinado o pretendido fossil humano, ainda mais o firmou nas idéas em que estava ácerca do recente apparecimento da nossa especie na superficie da terra[13]. É verdade que em 1774, Esper encontrára na caverna de Gaileurenth, na Baviera, ossadas humanas de mistura com esqueletos, evidentemente fosseis, de grandes alimarias antidiluvianas, e differentes de todas as especies actuaes. E alguns annos depois, em 1797, J. Frére achára em Hoxne, no condado de Suffolk, varios machados de pedra, juntos com ossadas de animaes igualmente desapparecidos. Mas esses factos, apezar de expressivos e concludentes, não bastaram para destruir a crença geral do vulgo e dos sabios ácerca da origem recente de genero humano.

Achados similhantes, feitos já n’este seculo por Crahay no læss de Caberg, junto de Maestricht, na Hollanda; por Ami Boué em Lahr, na margem direita do Rheno, defronte de Strasburg; pelo conde Breuner em alluviões da Austria; e finalmente por Tournal e Christol em cavernas da França meridional, todos antes de 1830, não influiram mais que os outros no animo preoccupado dos naturalistas.

Em 1823, Buchland, celebre geologo inglez, deu á luz uma obra intitulada Reliquiæ diluvianæ, com a descripção da caverna de Kinklake e com a exposição de todos os factos então conhecidos favoraveis á hypothese da coexistencia do homem e dos animaes antidiluvianos. Mas o desejo que o dominava de concordar as descobertas da sciencia com a chronologia da biblia o impediu de se render á evidencia d’esses factos.

Seis annos depois, em setembro de 1829, tiveram principio os estudos e investigações de Schmerling, que explorou mais de quarenta cavernas nas collinas de calcareo carbonifero da provincia de Liége. Nas muitas excavações que ordenou e dirigiu achou instrumentos de pedra e de osso juntamente com restos fosseis do mammouth, do rhinoceros tichorinus, da hyena e do urso das cavernas. N’algumas lhe appareceram tambem ossadas humanas, e nas de Engis o celebre craneo conhecido por este nome, e que o proprio Schmerling disse assimilhar-se mais aos craneos dos ethiopes que aos dos europeus. Este incansavel explorador demonstrou, pelas condições em que appareciam os ossos dos homens e dos animaes fosseis, serem todos contemporaneos, e terem ficado sepultados da mesma maneira entre os materiaes que as aguas introduziam nas cavernas, passando pelas fendas estreitas das suas paredes[14]. Lyell accusa os professores da universidade de Liége, collegas de Schmerling, de terem deixado passar um quarto de seculo, sem se importarem de attestar a verdade das descobertas que viam fazer; e accusa-se tambem a si proprio de ter passado em 1833 em Liége, sem visitar as cavernas exploradas, estando já então publicado o primeiro tomo da obra em que o illustre professor expunha o resultado das suas laboriosas investigações, e tendo visto com os seus proprios olhos a collecção dos objectos que este descobrira.

Em 1835, Joly, professor do lyceu de Montpellier, achou numa caverna da provincia de Lozére o craneo de um urso com signaes manifestos de ter sido ferido por uma frecha. Em pequena distancia achou tambem um fragmento de louça com vestigios dos dedos humanos que o tinham moldado. Proclamou o explorador a importancia da sua descoberta, que foi acolhida, como as outras que a precederam, com a mesma commum indifferença.

Por essa epoca entrou Boucher de Perthes n’aquella grande e memoravel lucta da qual, mais tarde, haveria de sair vencedor da incredulidade e indifferença dos sabios e das academias. Estudando com attenção as camadas diluvianas da Normandia e da Picardia, communicou, durante alguns annos, em diversas memorias á Sociedade de emulação de Abbeville os seus importantes descobrimentos. Datam de 1842 as primeiras communicações de Boucher de Perthes á Academia das sciencias de Pariz, e de 1846 a primeira impressão do livro com que pretendeu divulgar as suas idéas respectivas á antiguidade do genero humano[15].

As explorações em que Boucher de Perthes andou associado a innumeros operarios, a quem soube communicar o interesse e até o enthusiasmo que o animava, fizeram-se, pelo espaço de muitos annos, em varios terrenos diluviaes, entre outros nos de Saint-Acheul, Saint-Roch-les-Amiens, Hôpital, Moulin-Quignon e Menchecourt-les-Abbeville. Depois de ter colligido muitos productos da industria humana e muitos fosseis antidiluvianos que provavam a antiguidade do terreno, é que escreveu e em 1846 imprimiu o seu livro da Industria primitiva, que apresentou á Academia das sciencias de Pariz, em agosto de 1846. A Academia nomeou uma commissão que, apezar de todas as instancias de Boucher de Perthes, não chegou a ir a Abbeville, nem a fazer qualquer exame para confirmar ou destruir as suas asserções. Elle porém não descançou em quanto não resolveu alguns sabios auctorisados a irem observar os terrenos explorados e sanccionar os descobrimentos que n’elles se tinham feito. Estes visitantes, posto que, pela maior parte, predispostos contra a opinião defendida por Boucher de Perthes, sahiam de Abbeville convertidos. Tal era a evidencia dos factos que alli verificavam.

Em 1859 alguns geologos inglezes, os srs. Falconer, Prestwich, Evans, Godwin, Austen, Flower e Mylne, começaram a visitar uma e muitas vezes Abbeville, e a acreditar em Inglaterra as descobertas de Boucher de Perthes. O proprio Lyell fez tambem a peregrinação, e, de impugnador que era, tornou-se estrenuo defensor da opinião d’aquelles que julgam o apparecimento do homem, na terra, anterior á epoca geologica actual. No anno de 1860 a Sociedade de anthropologia de Pariz examinou alguns dos objectos descobertos em Abbeville; e o resultado de uma discussão em que tomaram parte os srs. Castelnau, Baillarger, Broca, Bertillon, Trelot, Verneuil, Lagneau, G. Saint-Hilaire e Pouchet, foi favoravel a Boucher de Perthes. Conseguiu este em 1863 fazer acceitar pelo Estado a offerta do seu museu, constituido principalmente com os objectos encontrados em Abbeville. A acceitação da offerta, antecedentemente rejeitada, era já uma prova de que a França começava em fim a fazer justiça aos trabalhos e á dedicação do infatigavel explorador.

N’esse mesmo anno descobriu-se pela primeira vez em Abbeville um osso humano fossil, o que anteriormente não tinha sido possivel. Na pedreira de Moulin-Quignon appareceu a celebre maxilla conhecida por esse nome. Examinou-a o sr. Quatrefages, e apresentou na Academia das sciencias um parecer em que a reputava authentica e, portanto, um fossil humano. Mas, coisa notavel! ao passo que os naturalistas francezes se convertiam e principiavam a pôr a realidade dos factos acima da auctoridade de Cuvier, os geologos inglezes, tomados de subita desconfiança, suscitada talvez pela força da opinião publica que em Inglaterra se proclamava adversa ás novas idéas, reconsideravam, pelo menos alguns, e, depois de terem proclamado a veracidade das descobertas de Boucher de Perthes, entraram em 1863 a impugnar não sómente os factos anteriores, mas tambem a authenticidade da maxilla recentemente descoberta. O proprio Falconer, outr’ora ardente pregoeiro das novidades de Abbeville, escreveu ao Times, em seu nome e no de muitos dos seus compatriotas que o tinham acompanhado áquella cidade, confessando que todos se tinham enganado, que todos tinham sido illudidos por uma fraude que então sómente reconheciam. Agora, pois, mudadas as scenas, eram Quatrefages e outros sabios francezes que sustentavam contra os inglezes serem realidades e não falsificações os celebres descobrimentos de Boucher de Perthes. De tal discordancia resultou uma conferencia entre os srs. Delafosse, Daubrée, Hébert, Gaudry, Buteux, abbade Bourgeois e A. Edwards por parte da França; e Falconer, Prestwich, Carpenter e Busk, todos membros da Sociedade real de Londres, por parte da Inglaterra. Foram eleitos presidente o sr. H. Milne-Edwards e secretario o sr. Delesse.

Em maio de 1863 os conferentes reuniram-se por tres vezes no Museu de historia natural. N’estas tres sessões, pelo exame das pederneiras e da maxilla, julgaram os inglezes achar novos indicios contra a authenticidade de taes objectos. E, como parecesse impossivel chegarem a algum accordo, resolveram apresentar-se de repente em Abbeville, para fazer uma inquirição scientifica nos logares explorados, e resolver assim cabalmente, e de uma vez para sempre, as duvidas occorridas em Inglaterra ácêrca dos descobrimentos de Boucher de Perthes.

Tomada esta resolução no dia 11 de tarde, logo no dia seguinte os sabios francezes e inglezes se apresentaram, sem que ninguem os esperasse, em Abbeville. O sr. Milne-Edwards redigiu e enviou á Academia das sciencias de Pariz um relatorio d’este processo interessante. Descreveu minuciosamente o exame feito pelos conferentes em Abbeville, e apontou as provas que a todos deixaram convencidos da authenticidade da maxilla e dos instrumentos de silex. Convém saber que, serrada a maxilla, n’uma das sessões do Museu, tinha apparecido no canal da arteria dentaria uma areia acinzentada que pareceu aos inglezes um signal de falsificação, porque não viam nas estampas, que representavam os terrenos de Moulin-Quignon, areia da mesma côr. Verificou-se porém n’aquelles terrenos a existencia de uma camada de areia cinzenta que não tinha sido indicada nos mappas, e assim o signal que era antes negativo, desde logo se tornou positivo. Por outra parte, as suspeitas respectivas aos machados de pedra inteiramente se desvaneceram, quando outros similhantes se descobriram em excavações, feitas á vista dos naturalistas inglezes e francezes.

Os resultados d’esta conferencia memoravel, desde as sessões no Museu até ao accordão final dos naturalistas, nem que de antemão fossem combinados, teriam mais decisiva influencia no animo d’aquelles que receiavam ainda admitir, como verdadeiros, os modernos descobrimentos. Na França e n’outros paizes da Europa, n’algumas partes da America, Asia e Africa, trabalhadores incançaveis se dedicam animados de zêlo ardente á exploração dos terrenos sedimentares, das cavernas, das turfeiras, dos dolmens, dos tumulos, das palafittas ou cidades lacustres e finalmente dos kiokkenmoddings ou rebotalhos das cozinhas dos homens primitivos. Publicam-se livros, memorias e jornaes destinados a divulgar os achados dos exploradores. Patentêam-se as Academias aos novos estudos. Fundam-se museus para se depositarem os objectos encontrados. Celebram-se congressos para os archeologos de todas as nações communicarem entre si as suas descobertas e resolverem as duvidas que, sómente pelo conselho de muitos, podem ser resolvidas.

A Peninsula não tem permanecido de todo estranha a este grande movimento scientifico. Desde 1860 que o sr. Carlos Ribeiro busca os vestigios da industria primitiva nos terrenos de Portugal e principalmente nos sedimentares do valle do Tejo. Os srs. Pereira da Costa e Delgado exploraram varias estações humanas prehistoricas do valle do Tejo, e publicaram em 1865 e 1867 os descobrimentos que fizeram de restos humanos fosseis e de instrumentos de osso ou de pederneira antidiluvianos. O sr. Pereira da Costa estudou tambem as antas ou dolmens de Portugal, dos quaes escreveu uma interessante memoria, impressa em 1868.

Em Hespanha D. Cassiano de Prado, engenheiro de minas, já fallecido, foi quem primeiramente se occupou dos estudos prehistoricos. Na sua Descripção physica e geologica da provincia de Madrid, impressa em 1864, se vê que desde 1851 se empenhava em colligir instrumentos de silex, sem todavia saber ao certo o que fossem. Em 1862, indo a Madrid os srs. Verneuil e Lartet (filho), exploraram na companhia de D. Cassiano a celebre estação de San Isidro, pouco distante d’aquella cidade. Desde então dedicou-se com ardor a estes estudos e emprehendeu varias explorações, nas quaes colligiu fosseis humanos e de animaes e muitos instrumentos da industria primitiva. Depois, muitos geologos e amadores têem contribuido em Hespanha para augmentar o peculio dos conhecimentos prehistoricos. Exploraram os srs. Vilanova em 1866 a cova de Monduber e a Cueva Negra na provincia de Valencia; Lartet em 1866 as cavernas de Castella a Velha; Vilamil y Castro em 1868 e 1869 alguns tumulos da Galiza; Gongora as cavernas e outras antiguidades prehistoricas da Andaluzia; Garay as minas abandonadas de Rio Tinto; Jagor a caverna de Balzola; Rada y Delgado as de Cangas de Onis e Colunga. Os srs. Vilanova y Piera e F. M. Tubino fazem explorações, assistem a congressos europeus, e publicam artigos importantes sobre o assumpto. Na Academia de historia lêem dissertações os srs. Benavides, Amador de los Rios, Saavedra e Fernandez Guerra. O sr. D. José Amador de los Rios conseguiu que no Museu archeologico nacional, fundado em 1869 em Madrid, se designasse uma secção para os objectos prehistoricos. Começados, pois, ao mesmo tempo os estudos prehistoricos em Hespanha e Portugal, os nossos visinhos, apezar das dissenções intestinas, têem-se adiantado a ponto de rivalisar hoje com os povos mais civilisados. Entre nós o movimento principiado pela commissão geologica não se propagou no paiz, e, alli mesmo, cremos ter sido destruido por audazes reformadores que não respeitaram nem as instituições mais importantes e mais sagradas da instrucção popular. Apenas o sr. Carlos Ribeiro communicou á Academia real das sciencias uma memoria com a descripção dos silex e quartzites lascados que se conservam nas collecções da secção geologica da direcção geral dos trabalhos geodesicos, em 1872, e publicou em 1873 o relatorio do congresso de Bruxellas, onde dignamente nos representára no anno anterior.

Exploradores não os ha; collectores são raros. Sabemos dos srs. Judice no Algarve, Gabriel Pereira em Evora, Martins Sarmento em Guimarães, e de ninguem mais. São desfavoraveis as condições de Portugal, n’este ponto, relativamente aos outros povos cultos. Do abatimento em que estamos só poderia erguer-nos a iniciativa dos governos alliada á dedicação de todos aquelles a quem não são indifferentes o progresso da sciencia e o passado e o futuro da humanidade[16].

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Geocentrico, de , Terra, e kentron, centro. Anthropocentrico, de anthrôpos, homem, e kentron, centro.

[2] Ceraunia, de keraunos, raio.

[3] Tulit ilico Sephora acutissimam petram, et circumcidit præputium filii sui... Exod. IV, 25. Eo tempore ait Dominus ad Josue. Fac tibi cultros lapideos et circumcide secundò filios Israel. Josué, V, 2.

[4] Historia y progresos de la arqueologia prehistorica, por Don Francisco Maria Tubino.—Museo español de antigüedades, tomo I, pag. 1 a 21.

[5] Ibidem.

[6] Na Recreação proveitosa que deu á luz com o pseudonymo de Custodio Jesam, Barata, anagramma de João Baptista de Castro.

[7] Eva e Ave, p. 1.ª, cap. XXI.

[8] Recreação Philosophica, tomo VI, pag. 466.

[9] Historia de la milicia española, tomo I, pag. 33.

[10] Vida de S. Sizenando e Historia de Beja, sua patria. Ms. da bibliotheca publica de Evora.

[11] Collecção dos documentos e Memorias da Academia Real de Historia Portugueza. Tomo XIV; conferencia de 30 de julho de 1733.

[12] Historia y progreso de la arqueologia prehistorica, por Don Francisco Maria Tubino. Museo español de antigüedades, tomo I, pag. 1 a 21.

[13] Discours sur les revolutions du globe.

[14] Recherches sur les ossements fossiles découverts dans les cavernes de la province de Liége. Liége 1833 e 1834.

[15] De l’Industrie primitive, ou des Arts à leur origine. Pariz 1846. A segunda edição sahiu logo no anno seguinte com este titulo: Antiquités celtiques et diluviennes. Mémoire sur l’Industrie primitive et les Arts à leur origine. Pariz 1847. Imprimiram-se posteriormente os tomos II e III.

[16] Depois de escripto este capitulo, correu a noticia das grandes explorações, emprehendidas pelo sr. Martins Sarmento nas ruinas da Citania, perto de Guimarães. São muito notaveis os vestigios encontrados, correspondentes a varias civilisações. No fim do volume em nota especial tractaremos do assumpto.

CAPITULO II
ANTIGUIDADE DO HOMEM

Constituição da crusta da terra.—Rochas sedimentares.—Serie geologica.—Rochas plutonicas.—Rochas metamorphicas.—Classificação dos terrenos estratificados.—Duração relativa d’estas formações.—Computo e provas da antiguidade do homem, deduzidas 1.º da vegetação florestal da Dinamarca; 2.º dos sedimentos fluviaes; 3.º do desgaste das terras pelas aguas affluentes aos rios.—Antiguidade do homem na Peninsula.—Clima glaciario.—Fauna correlativa.—Effeitos da fusão dos gelos.—Hypothese de Adhémar ácerca da epoca glaciaria.—Epocas glaciaria e preglaciaria.—Diluvios periodicos.—Comparação de ambos os hemispherios.—Proporção das aguas e das terras.—Factos comprobativos.—Outras causas astronomicas.—Causas geographicas.—Gulf Stream.—Sahara.

A observação da superficie da terra, os estudos, as viagens, as explorações patentearam a configuração dos continentes, a extensão e profundidade dos mares, a fórma, direcção e altura das cordilheiras, o curso dos rios, os limites das planicies e todas as mais particularidades da geographia physica. Mas, para conhecer a fabrica da crusta, a natureza das suas rochas constituintes, a disposição relativa das suas camadas, não basta já a vista exterior, importa necessariamente perscrutar a estructura intima, bem como se hão de dissecar as carnes do corpo, a fim de descobrir os segredos da organisação humana. Os logares mais adequados para se examinar a crusta da terra serão, portanto, aquelles onde a natureza ou a arte pozeram descobertas de alto abaixo e no sentido da espessura as varias camadas integrantes: logares taes como as ribas desnudadas pelas aguas; as escarpas das estradas, os poços profundos das minas; e finalmente as encostas nuas e aprumadas, quaes são as do monte da Pyramide nas terras do Novo Mexico dos Estados Unidos.

Das rochas que assim se patentêam, umas são estratificadas, sobrepostas á maneira das folhas de um livro; contam-se debaixo até cima; seguem-se por grande espaço sem jamais se confundirem. Outras são irregulares; não se estendem em camadas; não se prolongam em direcções definidas; não constituem series inalteraveis; nem têem nenhuma especie de estratificação. Outras em fim, por seus caracteres mixtos, parece participarem da natureza tanto das primeiras como das segundas.

Uma das circumstancias mais notaveis e importantes das rochas estratificadas é conterem fosseis ou restos de seres organisados, fóra das condições actuaes e normaes da sua existencia. E, como a organisação dos animaes e a dos vegetaes padeceram mudanças grandes e profundas nas varias epocas, servem muito bem estes caracteres dos fosseis para determinar quaes dos terrenos têem as mesmas idades e quaes idades differentes.

A serie das camadas sedimentares não se encontra completa n’uma só região. Mas os terrenos que faltam n’umas partes apparecem n’outras; e assim, por meio de observações em diversos logares da crusta da terra, se tem formado a collecção inteira. Seja qual for o numero dos terrenos que faltem em qualquer região, aquelles que subsistem conservam sempre as suas posições relativas. Se representarmos a serie pelas letras A, B, C, D, E, F, G,....., contando debaixo para cima, poderão faltar B ou D ou F, porém jamais A apparecerá por cima de B, ou E por cima de G. Em menos palavras, ha sómente interpolações, e não transposições na serie geologica.

As rochas estratificadas formam-se no fundo da agua com os materiaes por ella carreados, bem como hoje se formam outras similhantes rochas no fundo dos mares ou dos lagos, ou nos alveos dos rios. Chamam-se por isso sedimentares. Umas vezes são parallelas entre si e com o horisonte; outras vezes parallelas entre si e discordantes com o horisonte em angulos variaveis. Outras vezes finalmente, além de discordarem com o horisonte, discordam tambem entre si. Nas montanhas é onde apparecem maiores discordancias, chegando ás vezes as camadas a aproximar-se da vertical.

Estes grandes desvios das rochas sedimentares provam a existencia de causas que as levantaram, fenderam e tiraram da sua situação primitiva, parallela ao horisonte. Quaes foram essas causas dil-o-ha o exame das outras rochas que se encontram na crusta da terra.

Com effeito as rochas não estratificadas, que servem de base ás sedimentares ou se elevam por meio d’ellas, são crystallinas, como vitreas, e em tudo analogas áquellas que ainda hoje se formam nos vulcões. Geradas pois pela acção do fogo, consistem em massas que, do estado de fusão ignea, passaram ao estado solido por via do arrefecimento.

D’estas ultimas rochas de origem ignea ou plutonica, umas precederam as sedimentares, outras formaram-se depois, alevantando as camadas estratificadas, irrompendo por meio d’ellas, alterando-lhes a estructura e destruindo-lhes os vestigios dos seres organisados. Foi uma verdadeira metamorphose; e, por isso, se denominaram metamorphicas aquellas que a padeceram.

Mas o estudo mais interessante e mais fecundo de consequencias para a historia dos seres organisados é o das camadas sedimentares. A variedade das faunas e floras, correspondentes a cada grupo de terrenos, a serie regular e ascendente de organismos cada vez mais complexos provam com evidencia a diversidade das condições, em que elles se desenvolveram, e a successão de periodos, que, por caracteres peremptorios, se distinguem uns dos outros.

Geralmente os geologos fazem dos terrenos respectivos a esses varios periodos tres grandes grupos fundamentaes, convém a saber: terrenos inferiores ou primarios ou paleozoicos; terrenos medios ou secundarios ou mesozoicos; e finalmente terrenos superiores ou terciarios ou neozoicos[17]. Cada grupo tem portanto tres nomes diversos. O primeiro refere-se á posição em que está relativamente aos outros; o segundo ao tempo em que se formou; o terceiro á idade das especies que contém no estado fossil.

D’estes tres grupos separam-se naturalmente os mais antigos dos terrenos primarios, nos quaes ou faltam os fosseis ou são rarissimos e correspondem aos mais simples dos organismos. A esses terrenos chamam primordiaes. Por outra parte, em cima ou depois dos ultimos terrenos superiores ou neozoicos ou terciarios, depositaram-se ainda outros que denominaram quaternarios, em cuja epoca se continuou a formar e a desenvolver a fauna da actualidade, que teve os seus principios nos ultimos tempos da epoca anterior.

Acharemos assim a historia da terra dividida em cinco idades correspondentes aos principaes grupos dos terrenos, como se verá mais claramente da tabella seguinte:

SEDIMENTOS OU CAMADAS CONSTITUINTES DA CRUSTA DA TERRA

IdadesTerrenos
QuaternariaXIVAlluvio
XIIIDiluvio
TerciariaXIIPlioceno
XIMioceno
XEoceno
SecundariaIXCretaceo
VIIIJurassico
VIITriassico
PrimariaVIPermico
VCarbonifero
IVDevonico
PrimordialIIISilurico
IICambrico
ILaurentiaco[18]

Os caracteres das rochas estratificadas, e mais em particular os fosseis, não nos demonstram a idade absoluta de cada terreno ou de cada grupo de terrenos, porem sómente a idade relativa de uns comparados com os outros. A espessura das camadas dá idéa da duração das formações respectivas, sem comtudo indicar o numero de seculos.

A possança total dos sedimentos constituintes de crusta da terra tem-se computado pouco mais ou menos em 43 kilometros; competindo 23 kilometros aos terrenos da idade primordial; 14 aos da idade primaria; 5 aos da idade secundaria; 1 aos da idade terciaria e finalmente 150 ou 200 metros aos da idade quaternaria.

Representando por 100 unidades a duração total da vida no globo terraqueo, desde o apparecimento dos primeiros seres organicos até ao tempo presente, acharemos expressa em unidades e partes da unidade a duração particular de cada idade pela fórma seguinte[19]:

Idade primordial 53,6
” primaria 32,1
” secundaria 11,5
” terciaria 2,3
” quaternaria 0,5
Somma total 100,0

Assim é que a duração da primeira idade, d’aquella em que não havia ainda nenhuns organismos terrestres, porém sómente os que habitavam as aguas, equivale, por si só, a mais de metade da duração total. A duração da idade quaternaria ou d’aquella em que o homem tem vivido na terra apenas chega a ser 5 decimas de cada unidade da duração total das cinco idades. Mas, se, como alguns opinam, elle existisse já no periodo mioceno da idade terciaria, então o tempo da sua duração sería representado por 1 a 2 unidades das 100 que se fizeram corresponder ao espaço total das cinco idades. Adiante veremos que as provas mais certas da existencia do homem na terra não remontam além dos tempos quaternarios.

No fim da idade terciaria appareceram os mammaes agigantados: elephantes, rhinocerontes, ursos, hippopotamos de especies particulares que povoaram a Europa, e se extinguiram nos primeiros tempos da idade quaternaria. Os restos fosseis d’esses animaes, descobertos juntamente com productos da primitiva industria, provam que em epocas remotissimas em que o clima, a fauna, a flora, a configuração dos continentes, a distribuição relativa das terras e das aguas eram mui differentes das actuaes, já o homem existia na superficie do globo.

Nem se diga que sería possivel ficarem esses objectos sepultados em terrenos muito mais antigos do que elles, bem como hoje em qualquer jazigo de fosseis podem accidentalmente enterrar-se vestigios da industria moderna. As condições em que se fizeram aquellas descobertas demonstraram serem da mesma idade os objectos afeiçoados pela mão do homem e os restos fosseis das alimarias perdidas.

Certas cavernas, por exemplo, contêem depositos formados por materiaes, que, por occasião de grandes e remotas inundações, a agua arrastou de fóra para dentro. Entre esses materiaes que nas mesmas epocas se agglomeravam nos terrenos proximos, d’onde mais tarde eram transportados para o interior das cavernas, apparecem conjuntamente ossos humanos, rudes instrumentos de pedra e ossos dos animaes extinctos[20]. Em fim, se ainda alguma duvida restasse, inteiramente se desvaneceria em vista ou das fracturas e entalhos, tantas vezes observados nos ossos d’aquelles animaes, e praticados intencionalmente pela mão do homem; ou dos esboços de certas especies perdidas traçados em instrumentos da industria humana, como se têem encontrado em varias estações prehistoricas, ou finalmente das armas de pedra cravadas nos proprios craneos.

Muitos dos geologos modernos consideram a apparição da especie humana sobre a terra como caracter distinctivo da idade quaternaria, e acreditam que, abaixo das camadas inferiores dos terrenos d’essa idade, não se descobriu ainda vestigio nenhum authentico da existencia do homem. Alguns, porém, como os srs. Desnoyers, Abbade Bourgeois, Delaunay, Hamy e Carlos Ribeiro julgam possuir provas em contrario, achadas nos terrenos miocenos e pliocenos da idade terciaria[21]. Mas, ainda que os vestigios do homem não ultrapassem os limites das epocas quaternarias, nem por isso, ainda assim, deixaria de ser remotissima a sua antiguidade. Factos interessantes e calculos de grande curiosidade, colligidos por Lubbock, o demonstram com evidencia[22].

As faias dão hoje em dia a feição proeminente á vegetação florestal da Dinamarca. Prova-se porém que nem sempre assim foi, que nos logares baixos e pantanosos de certas florestas, na turfa que os enche, ficaram conservados primeiramente, na maior profundidade, os abetos que por agora não vegetam espontaneos n’aquelle paiz: depois mais acima os carvalhos e as betulas brancas hoje raras: em fim a camada superior consiste principalmente em individuos da betula verrucosa, representante do periodo actual que muito bem se podera dizer das faias. Ora o professor Steenstrup achou instrumentos de pedra por entre os troncos dos abetos, representantes da primeira e mais antiga das vegetações florestaes, que vestiram a Dinamarca nos tempos quaternarios. E, como, por outra parte, se encontram nos kjokkenmödings, ou rebotalhos das cozinhas dos homens prehistoricos, os esqueletos do gallo do matto ou tetraz grande das serras que se alimenta dos rebentões tenros dos pinheiros, concluiremos com certeza que os primeiros habitantes da Dinamarca foram contemporaneos das antigas e perdidas florestas abietinas, e pertenceram portanto a uma epoca muito differente da actual pelas condições physicas e botanicas d’aquelle paiz. Além d’isto, pretendem alguns que aos tres periodos florestaes caracterisados o primeiro pelos abetos, o segundo pelos carvalhos e betulas brancas, e o terceiro pelas faias, correspondessem as tres idades principaes da humanidade assignaladas pelo uso da pedra, do bronze e do ferro. Seja, porém, como for, é indubitavel que esta successão de vegetações florestaes differentes, não poderia effeituar-se senão em longuissimo espaço de tempo, e que portanto o homem não poderia presencial-as, sem ter apparecido em eras muito remotas na superficie da terra.

O sr. Morlot, na Suissa, intentou determinar mais circumstanciadamente a duração de cada uma idade. No logar onde a torrente da Tinière se lança no lago de Genova, junto de Villeneuve, tem-se formado um cone de cascalho e alluviões. Este cone foi aberto na extensão de 325 metros, e na profundidade de 10ᵐ,4 para se construir uma via ferrea. O exame dos objectos encontrados nas camadas, pelo corte descobertas, mostrou corresponderem á epoca romana as da profundidade de 1ᵐ,14; á epoca do bronze as da profundidade de 2ᵐ,97, e finalmente á epoca da pedra polida as da profundidade de 5ᵐ,69. Como as camadas se tinham depositado com grande regularidade, calculou o observador que, sendo de 1600 annos a idade das romanas, a das correspondentes á epoca do bronze sería de 3000 a 4000 annos, e a das respectivas á epoca da pedra polida de 5000 a 7000 annos.

O sr. Gilliéron fez um calculo similhante para determinar a idade das habitações lacustres da ponte de Thièle, e achou a antiguidade de 6000 a 7000 annos para a epoca da pedra polida.

No Egypto o sr. Horner, calculando a elevação media secular do terreno em volta dos monumentos, por effeito das inundações do Nilo; depois, abrindo poços a profundidades maiores, achou vestigios da industria humana que teriam, segundo esses calculos, 13000 e mais annos.

O sr. Forel mostrou as causas de erros, inherentes a estes calculos e a difficuldade de as evitar todas. Tentou porém, por meio de um processo differente, determinar a antiguidade do periodo geologico actual, que chegou a computar em 100000 annos. As observações fêl-as no lago Léman; e para os seus calculos recorreu á regra de falsa posição que permitte achar os limites maximo e minimo, acima e abaixo dos quaes fica excluida a possibilidade de errar. Eis aqui o processo de Forel, preferido por Quatrefages a todos os outros, com quanto lhe pareça haver até certo ponto exageração no resultado obtido: «A agua do Rhodano, sobre tudo por occasião das cheias, causadas pela fusão da neve, entra no lago turva, e sahe d’elle extremamente limpida. O lodo, assim depositado, vae enchendo o lago, e entulha já uma parte da grande cavidade que occuparam os gelos da epoca quaternaria. O sr. Forel determinou primeiramente o volume annual do deposito do lodo. Indagou depois, tomando por fundamento as sondagens effeituadas por de La Béche, o volume do lago actual. Chegou por este modo a avaliar o tempo necessario para que o lodo do Rhodano chegue a entulhar o lago. Depois, admittindo que a parte já entulhada do Léman primitivo teria uma profundidade media e egual á do Léman actual, comparou as superficies alluviaes já formadas com a superficie do proprio lago. Achou a proporção de 1 para 3. Estas planicies foram por tanto depositadas durante um espaço de tempo egual á terça parte d’aquelle que sería necessario para entulhar o lago actual. Ora, como ellas começaram a formar-se immediatamente depois do desapparecimento das geleiras, segue-se que o seu principio corresponderá ao da epoca geologica moderna»[23].

O dr. Dickeson, de Natchez, achou um sacro humano com alguns ossos do mastodonte de Ohio no valle do Mississipi. O dr. Usher reputou o primeiro e os segundos todos contemporaneos. O sr. Bennet-Dowler computou em 158400 annos o tempo necessario para a formação dos depositos alluviaes do Mississipi. Este mesmo calculo daria a idade de 57000 annos aos mais recentes dos craneos fosseis da America. Julgam porém os naturalistas da Europa que estes e outros similhantes factos, referidos do Novo-Mundo, carecem de confirmação para ter força probativa.

O Mississipi tem sido objecto de muitos estudos a fim de determinar a idade dos depositos formados pelas suas aguas, estudos duplicadamente interessantes, porque os seus resultados são tambem applicaveis a formações analogas da Europa. Riddle, Carpenter, Forskey, Humphreys e Abbot chegaram a avaliar com a possivel aproximação, por meio de innumeras experiencias e observações, as quantidades dos materiaes carreados pelas aguas em cada anno, a espessura e as outras dimensões do delta, e finalmente a parte d’aquelles mesmos materiaes não incorporados no delta, por serem expellidos para o Oceano. Entrando em calculo com essas observações, computou Lyell em 100000 annos a antiguidade do delta do Mississipi, e, por analogia, suppoz não seriam menos antigos os depositos alluviaes do valle do Somme, em França, onde apparecem instrumentos de silex e os restos fosseis do mammouth e da hyena.

Conduz tambem a este mesmo resultado um processo muito differente. Das observações feitas no Mississipi e de outras similhantes no Ganges, Rhodano, Danubio e outros rios concluiu Geikie poder representar pela media de ¹⁄₆₀₀₀ de pé a camada que perdem em cada anno as terras lavadas pelas aguas affluentes aos rios. Esse é o termo medio, porque nas planicies, por correrem lentas e escoadas as aguas, a perda é menor, ¹⁄₁₀₈₀₀ de pé; e nas vertentes lateraes dos valles, pela sua inclinação que accelera a corrente do liquido, a perda é maior, ¹⁄₁₂₀₀ de pé. Ora o sr. Lubbock applicando esses calculos á excavação do valle do Somme que tem a profundidade de 200 pés, concluiu que a sua idade e, portanto, a dos mais antigos dos depositos, onde se encontram instrumentos de silex, sería de 100000 a 240000 annos[24]. Faltam dados geologicos e archeologicos para calcular a antiguidade do homem na Peninsula. Todavia é singularmente notavel que os vestigios da industria primitiva, encontrados na estação de San Isidro, perto de Madrid, similhantes aos do valle do Somme, e, por isso, attribuiveis á mesma epoca prehistorica, estejam tambem n’uma altura similhante acima do leito actual do Manzanares. Sendo admissivel, como o é no valle do Somme, que as aguas do rio tenham excavado o terreno desde aquella estação até ao leito actual, o calculo daria aos vestigios ali encontrados uma idade comprehendida entre 80000 e 167000 annos. Mas, da possibilidade ou probabilidade de tal excavação, sómente poderão informar os geologos hespanhoes, conhecedores da disposição e dos caracteres das margens do Manzanares no sitio de San Isidro.

Na idade quaternaria houve uma ou mais epocas em que se tornou glacial o clima da Europa. As geleiras extenderam-se até á latitude temperada da Sicilia, deixando por varias regiões as rochas erraticas, provas evidentes da sua existencia. Com esses vestigios apparecem tambem os restos fosseis do rangifer, do boi almiscarado, do urso e de outros quadrupedes que na Europa não habitam já senão as regiões arcticas ou os nevados cumes dos Alpes e dos Pyreneus. O sr. A. Milne Edward mostrou que muitas especies de aves, proprias dos climas frios, e communs durante a epoca glacial, emigraram juntamente com aquelles mammaes para as regiões mais frias, quando a temperatura se elevou e as geleiras se fundiram no centro e no Meio-dia da Europa. Em fim nos mares Britannicos e até no Mediterraneo têem apparecido conchas de especies que se não encontram actualmente senão nos mares glaciaes. Assim, tantos e tão probativos são os vestigios do clima glacial nas regiões temperadas da Europa, que ninguem contesta hoje esse facto notavel.

Por outra parte, os depositos quaternarios immediatamente collocados por cima das camadas terciarias, soltos, sem consistencia, compostos quasi exclusivamente de lehm (mistura de areia e argila), de laess (mistura de areia e calcareo), de areias, cascalhos e calhaus, parece terem sido formados por violentas e prolongadas submersões de terras, que antecedentemente estariam sêccas e superiores ao nivel das aguas. Concordam os geologos em dar o nome expressivo de Diluvium a essas formações cuja origem naturalmente lhes trazia á lembrança a grande catastrophe commemorada até aos nossos dias nas tradições de alguns povos.

Se admittirmos pois que a temperatura da Europa baixou a ponto de se cobrirem de neve os montes e as planicies, formando-se geleiras, similhantes áquellas que ainda hoje subsistem na Suissa; se admittirmos mais que uma subsequente elevação de temperatura fundisse as massas enormes de gelo, inundando e submergindo as terras do continente europeu, explicaremos assim não sómente a fauna da epoca glacial, mas tambem a formação dos vastos e profundos depositos do diluvio.

Adhémar imaginou uma hypothese ingenhosissima para ligar e explicar todos os factos referidos da epoca glaciaria pela mesma causa geral[25]. O phenomeno astronomico da precessão dos equinoxios consiste na lenta deslocação do eixo da terra de oeste para leste. Depende da direcção d’esta linha a desegual duração das estações nos dois hemispherios, tendo presentemente a primavera e o estio das regiões boreaes, sommados, mais sete dias que o outono e o inverno. No hemispherio austral acontece o contrario. É a somma do outono e do inverno que excede em sete dias a da primavera com o estio. E, como durante aquellas estações a terra perde mais calor do que n’estas ultimas, segue-se evidentemente que a perda annual do calor será maior no hemispherio do sul que no hemispherio do norte, e portanto que a temperatura do primeiro será inferior á do segundo. O que, em verdade, se observa e se prova pela maior extensão dos gelos, que no sul impedem a navegação em latitudes correspondentes áquellas, em que se faz livre e desembaraçada no hemispherio do norte.

Mas como a posição do eixo vae mudando sempre lentamente, chegará um dia em que a differença entre as durações das estações nos dois hemispherios desapparecerá, tornando-se todas eguaes tanto ao norte como ao sul do equador. N’essa epoca a temperatura será muito menos differente nas latitudes dos dois hemispherios, sería até egual, se não fossem as causas locaes, como os ventos, as correntes, a altitude, a proximidade da agua, etc. Depois começará outra vez a apparecer a differença entre as durações das estações, não aquella que já foi designada, porém a inversa, isto é, a primavera e o verão tornar-se-hão maiores no hemispherio austral e menores no hemispherio boreal, exactamente o contrario de hoje. O cyclo completo d’estes movimentos abrange 21000 annos. Ha de pois decorrer esse espaço de tempo a fim de que a differença das estações torne a ser mathematicamente tal qual agora se observa.

Depois d’esta brevissima exposição do fundamento principal da hypothese, comprehender-se-ha facilmente que a temperatura maxima de um hemispherio deverá corresponder ao maior excesso da duração da primavera e do estio sobre a das outras duas estações; e a temperatura minima ao maior excesso da duração do outono e do inverno sobre a da primavera e do estio. Portanto o espaço de tempo decorrido entre o momento da temperatura maxima e o da temperatura minima será egual á metade de 21000 ou 10500 annos. A ultima vez que esta maxima correspondeu ao hemispherio boreal foi em 1248, o que está dizendo que até esse anno a temperatura foi sempre augmentando; começou então a diminuir e continúa e continuará até ao anno de 11748, em que chegará ao seu minimo grau. Mas a epoca anterior correspondente deve ter sido 21000 annos antes de 11748 ou 9252 annos antes de Jesus Christo. Tal sería pois, na opinião de Adhémar, a epoca glaciaria, a epoca do rangifer, bisonte, urso, em fim a epoca dos homens que se serviam das armas e instrumentos de pedra lascada e de osso.

Suppõe-se porém que antecedentemente houvera já uma outra epoca glaciaria, caracterisada pela apparição do rhinoceronte e dos ursos das cavernas. Na Suissa conhecem-se provas da existencia de dois periodos de frio separados por um intervallo, durante o qual o clima se conservou temperado. Ora, segundo a lei de precessão dos equinoxios, essa epoca sería 21000 annos antes ou 30252 annos antes de Christo. E a epoca denominada preglaciaria, quando um clima temperado favoreceu o desenvolvimento do hippopotamo e do elephante antigo e dos primeiros dos homens, conhecidos por vestigios incontestaveis, sería 10500 annos antes ou em 40752 antes de Christo.

A hypothese de Adhémar não explicaria unicamente a alternação dos climas durante a idade quaternaria. Sendo deseguaes as calotes de gelo dos dois hemispherios, pois a do sul aproxima-se do equador muito mais que a do norte, o centro de gravidade da terra deverá deslocar-se para a parte das massas maiores. N’esta deslocação successiva, o centro da terra passará de 10500 em 10500 annos pelo plano do equador, mudando-se de um para outro hemispherio, alterando portanto as condições de equilibrio, e fazendo com que as aguas de uma corram para a outra parte, e formem um diluvio. O hemispherio austral está hoje mais coberto de agua, porque o centro de gravidade se deslocou para esta parte, em razão de ser maior a calote dos gelos austraes que a dos boreaes. Quando os gelos começarem a ser mais da parte do norte, o centro da gravidade mudar-se-ha para este hemispherio, as aguas deixarão descobertos novos continentes austraes e alagarão os boreaes, cobrindo-os de novos depositos similhantes aos do diluvio.

A maior quantidade de gelos do hemispherio austral e o avizinharem-se estes mais do equador que no hemispherio boreal provam a inferioridade da temperatura do primeiro relativamente ao segundo. Nas viagens antarcticas os navegantes experimentam, mais cedo e em maior grau que nas viagens arcticas, as dificuldades da navegação, resultantes de frio e dos gelos. Eis o motivo porque elles se têem aproximado mais do polo do norte, e porque são hoje muito mais conhecidas as regiões hyperboreas que as do outro hemispherio em latitudes correspondentes.

Basta lançar a vista a um mappa-mundi ou a uma esphera para vêr a extensão das terras no hemispherio boreal proporcionalmente muito maior. Mas esta desproporção tornar-se-ha mais expressiva e concludente, em favor da hypothese que attribue á mudança do centro da terra para o hemispherio austral a deslocação da agua para esse mesmo hemispherio, se a avaliarmos com exactidão por meio da tabella seguinte, que representa numericamente a diminuição successiva e gradual das terras do norte para o sul, medindo em cada parallelo a razão em que está a parte occupada pela terra com aquella que as aguas cobrem. Representando cada parallelo pela unidade, teremos uma fracção para representar a extensão da terra e outra para exprimir a extensão da agua.

LatitudeAguaTerra
60° ao norte0,363 0,647
50° ” 0,407 0,593
40° ” 0,527 0,473
30° ” 0,536 0,464
20° ” 0,677 0,323
10° ” 0,710 0,290
0° ” 0,771 0,229
10° ao sul 0,786 0,214
20° ” 0,777 0,223
30° ” 0,791 0,209
40° ” 0,951 0,049
50° ” 0,972 0,028
60° ” 1,000 0,000

Este augmento tão regular, tão graduado da agua do norte para o sul, dispõe naturalmente o espirito em favor da hypothese de Adhémar, limitando-se a comparação ás regiões que em ambos os hemispherios não ultrapassam a latitude de 60°. Mas alguns graus mais além no hemispherio austral as descobertas da terra Victoria, da terra Enderby, do vulcão Erebus contrariam em parte a pretendida lei, e parece darem antes razão a Lyell, que, exactamente ao contrario de Adhémar, attribuiu o grande frio das altas latitudes meridionaes á vasta extensão e á grande altura do continente que suppoz existir nas regiões antarcticas. Convém saber que, sendo maior a irradiação do calor na terra do que na agua, a existencia de um alto e vasto continente no circulo polar do sul, teria por effeito natural a diminuição da temperatura nos mares proximos. E assim as differenças observadas explicar-se-hiam até certo ponto por essa causa. Mas em quanto se não demonstrar positivamente o que não passa apenas de mera supposição, não será por certo com uma hypothese que se queira destruir a possibilidade de outra.

Quanto á supposição de que a altura e extensão dos gelos teem alternadamente influido, e assim continuarão no futuro, ora n’uma ora n’outra metade do globo, ora cobrindo ora descobrindo as terras com as aguas dos mares, fazendo um diluvio de 21000 em 21000 annos, cousa é tão possivel como indemonstravel no estado actual de sciencia. Que o gelo accumulado para a parte de um dos polos desloque para ahi o centro de gravidade da terra, ninguem o contestará. Chegou até o sr. Croll a calcular que a diminuição de 470 pés na espessura dos gelos antarcticos elevaria no polo do norte a agua do mar á altura de 26 pés e 5 pollegadas, e á altura de 25 pés na latitude de Glasgow que é de 55° e 55′. Se porém a diminuição fosse maior, se fosse, por exemplo de 1 milha, a elevação tornar-se-hia de 280 pés. Assim poderá adoptar a hypothese quem vir nos phenomenos da idade quaternaria e sobre tudo nas dunas e fosseis marinhos em logares actualmente muito superiores ao nivel do mar, e nas grandes florestas submergidas, factos menos explicaveis por outras causas geologicas.

Se, como Adhémar assevera, a temperatura do nosso hemispherio diminue desde o anno de 1248, alguns effeitos se hão de por certo observar de tal diminuição. O auctor cita os seguintes: 1.º A grande cupola de gelo do hemispherio austral tem diminuido depois das viagens do capitão Cook.—2.º As geleiras da Groelandia e da Suissa tem avançado para o Meio-dia.—3.º Têem baixado tambem do norte para o sul os limites da cultura da vinha.

Lyell impugnou ainda este argumento, dizendo que a differença entre o frio do inverno de 1248 e o frio do inverno actual deveria ser insignificante e, por isso, incapaz de produzir os effeitos allegados. Pareceu-lhe que essa differença não passará de 0,3 de grau centigrado. Porém se durante seis seculos a temperatura tivesse baixado apenas 0,3 de grau, a differença entre as temperaturas medias do inverno de 1248 e do mais frio dos invernos anteriores, que, segundo a hypothese, teria sido 10500 annos antes, andaria apenas por uns 5 graus centigrados, o que de certo parecerá pouco. Entretanto a uma differença tripla ou de 15 graus entre aquelles dois invernos, separados por um espaço de 10500 annos, corresponderia ainda uma differença inferior a 1 grau entre as temperaturas do inverno de 1248 e dos invernos actuaes. Outro sabio inglez tambem de grande auctoridade, J. Herschel, foi egualmente de opinião que a mudança de posição da terra causada pela precessão dos equinoxios não basta para explicar as alterações do clima que Adhémar lhe attribue.

Alguns, convencidos da insufficiencia da hypothese, pretenderam completal-a, entrando em linha de conta com outra causa astronomica. Sabe-se que a orbita da terra ora se aproxima ora se afasta do circulo, por meio de variações muito longas, que sómente se fazem sensiveis de milhares em milhares de annos. Quando a orbita se aproximar do circulo o effeito da precessão dos equinoxios deverá diminuir; pelo contrario quando se afastar do circulo, alongando-se, então aquelle effeito redobrará de intensidade. Ora os srs. Croll e Stone calcularam a excentricidade da orbita de 50000 em 50000 annos, no espaço de 1000000 de annos decorridos anteriormente ao de 1800. O sr. J. Carrick Moore calculou os effeitos d’estas excentricidades maiores no clima de Londres e achou que, sendo actualmente a temperatura media do mais frio dos mezes do inverno 20° de Farenheit, ha 100000 annos sería de 5°; de 1°,9 ha 210000 annos; de 0°,6 ha 750000 annos; e finalmente de 3° ha 950000 annos. Lyell inclinou-se á opinião de Croll, e suppoz que este frio maximo de ha 750000 annos sería o da epoca glacial. Lubbock discorda n’este ponto, e julga que o frio de 1°,9 de ha 210000 annos será o que melhor corresponda áquella epoca. Em qualquer das hypotheses os periodos de Adhémar ficarão parecendo bem pequenos em comparação de tão dilatados tempos.

Não falta ainda quem tenha pretendido explicar os phenomenos da epoca glaciaria sómente por alterações geographicas. O Gulf Stream eleva hoje alguns graus a temperatura da grande parte da Europa. Se em qualquer tempo essa enorme corrente seguisse outra direcção, a sua falta manifestar-se-hia logo por uma baixa notavel da temperatura, egual talvez a 10 graus de Farenheit. Admitta-se mais que, por essa mesma falta, se estabelecesse uma corrente em sentido contrario, isto é, dirigida do norte ao sul, o que faria ainda baixar a temperatura 3 ou 4 graus de Farenheit. O resultado bastaria para explicar a epoca glaciaria. Ora, na opinião do sr. Hopkins, a suppressão do Gulf Stream sería a consequencia natural de uma depressão de 2000 pés que transformaria o valle do Mississipi n’um grande braço de mar por onde a corrente passaria do golfo do Mexico para o Oceano arctico, em vez de se dirigir para as costas occidentaes da Europa. N’esta hypothese a excavação do valle do Somme e o apparecimento do homem na Europa seriam anteriores ao delta do Mississipi, cuja formação foi calculada em 100000 annos. Mas o Gulf Stream poderia ser antes desviado pela depressão do isthmo de Panamá, idéa que até certo ponto se torna provavel, pela similhança das faunas marinhas que habitam de um e de outro lado do isthmo.

Finalmente, se, como por tantas razões parece incontestavel, o deserto do Sahara foi n’outras eras uma parte do Oceano Atlantico, a existencia d’essa grande massa de agua no Meio-dia da Europa, modificaria por extremo o clima d’este continente. Os vapores, destacados da superficie da agua, ou se congelariam nas montanhas por onde passassem, cobrindo-as de neve, ou impediriam os raios do sol de aquecer a face da terra, contribuindo assim, por um ou por outro modo ou por ambos juntamente, para abaixar a temperatura.

Taes são as principaes hypotheses imaginadas para explicar a epoca glaciaria. Com quanto se não possa demonstrar a evidencia de nenhuma d’ellas, é todavia certo que, ainda assim, provam até certo ponto a antiguidade da especie humana, pela impossibilidade de se realisarem esses grandes factos astronomicos ou geologicos, a que se referem, senão em epocas muito remotas e em periodos muito dilatados.

NOTAS DE RODAPÉ:

[17] Paleozoico, de palaios antigo e zoon, animal. Meozoico, de mesos, meio, e zoon, animal. Neozoico, de neos, novo e zoon, animal.

[18] Laurentiaco, do nome do rio ou do golfo de S. Lourenço, na America septemtrional.

Cambrico, de Cambria, nome latino do paiz de Galles, na Inglaterra.

Silurico de Siluros, habitantes antigos da parte meridional do paiz de Galles.

Devonico, do nome do condado de Devon na Inglaterra.

Carbonifero, de carbo, carvão, e fero conter.

Permico, de Perm na Russia.

Triassico, de trias tres. Por ser composto de tres camadas principaes.

Jurassico, de Jura, cordilheira notavel da França e da Suissa.

Cretaceo, de creta, cré.

Eoceno, de eos, aurora, e kainos novo.

Mioceno, de meion, menos, e kainos novo.

Plioceno, de pleion, mais, e kainos novo.

[19] A tabella dos terrenos e o computo das suas possanças e dos espaços de tempo que levaram a formar-se foram extrahidos da Histoire de la creation des êtres organisés, d’après les lois naturelles par Ernest Haeckel.—Pariz 1874.

[20] Veja-se adiante o capitulo das cavernas.

[21] Mais de espaço tractaremos esta questão no capitulo seguinte.

[22] Lubbock, L’homme préhistorique, Pariz 1876.

[23] De Quatrefages, L’espéce hummaine. Pariz 1877, pag. 101 e 102.

[24] Zaborowski dá o computo seguinte das idades prehistoricas. De l’ancienneté de l’homme, tom. II, pag. 229. A epoca do mioceno inferior ao plioceno superior corresponde á duração do homem terciario, cuja existencia, posto que provavel, não está ainda evidentemente demonstrada.

Epoca do ferro1500 a 2000 annos
” do bronze 3000 a 4000 ”
” da pedra polida 6000 a 12000 ”
Periodo post-glaciario 100000 ”
” glaciario224000 ”
Duração da epoca do mioceno inferior ao plioceno superior 680000 ”

[25] Adhémar—Revolutions de la mer.

CAPITULO III
ANTIQUIORA MONUMENTA

Classificação dos tempos prehistoricos.—Subdivisões da idade da pedra.—Silex e quartzites lascadas da Beira e da Extremadura, attribuidas ao homem terciario.—Julgamento d’estas provas no congresso de Bruxellas.—Provas indirectas do homem terciario, colligidas n’outros paizes.—Sua incerteza.—É maior ainda a das provas directas.—Primeiros vestigios do homem quaternario na Peninsula.—Estação de San Isidro.—Falta de vestigios da epoca mesolithica.—Bruteza do homem paleolithico.—Progresso na epoca neolithica.—Condições favoraveis d’esse periodo ao desenvolvimento da humanidade.—Primeiras exigencias do sentimento esthetico.—Origem das artes.

Os tempos prehistoricos dividiram-os primeiramente os archeologos em duas grandes idades: a idade da pedra e a idade dos metaes; e subdividiram a primeira, a idade da pedra, em duas epocas: 1.ª Epoca da pedra lascada; 2.ª Epoca da pedra polida. Ainda hoje todos estão accordes na divisão geral das idades, e alguns conservam a sub-divisão da primeira d’ellas nas duas epocas que o apparecimento da arte de polir a pedra separa uma da outra.

No congresso de Bruxellas de 1872 os srs. Dupont e Mortillet admittiram, por mais natural, a sub-divisão da idade da pedra em tres epocas principaes que o primeiro caracterisou pelas faunas respectivas, e o segundo pelos vestigios da industria humana. Já anteriormente em Hespanha o sr. D. João Vilanova propozera uma classificação similhante, dividindo a idade da pedra em quatro epocas, das quaes chamou á primeira archeolithica ou dos vestigios encontrados nos terrenos terciarios; á segunda paleolithica ou dos instrumentos de pedra lascada dos terrenos quaternarios; á terceira mesolithica ou das facas ou do rangifer; á quarta finalmente neolithica ou da pedra polida[26].

Pondo de parte a primeira, por incerta e duvidosa, as outras tres epocas do sr. Vilanova concordam exactamente com as dos srs. Dupont e Mortillet. Com as denominações propostas pelo sr. Dupont e com os caracteres indicados pelo sr. Mortillet, será a seguinte a

CLASSIFICAÇÃO DA IDADE DA PEDRA

EpocasCaracteres zoologicosCaracteres industriaes
PaleolithicaMammouth e outros animaes desapparecidosInstrumentos de pedra lascada
MesolithicaRangifer e outros animaes emigradosInstrumentos de pedra lascada e de osso
NeolithicaAnimaes domesticos ainda hoje companheiros do homemInstrumentos de pedra polida

Esta classificação, ainda que pareça conforme aos factos até hoje observados na França, Belgica e alguns outros paizes, não póde ter applicação em todas as regiões da Europa. A successão dos tres grupos zoologicos é um facto geral, pois que, em correspondencia a cada grupo, se observam geraes vestigios de mudanças profundas nos climas e nas outras circumstancias da geographia physica. Nem seriam possiveis as variações da fauna sem outras variações correlativas nos meios que os animaes habitassem. Mas os caracteres industriaes não estão da mesma sorte e unicamente sujeitos á influencia invariavel e fatal das leis physicas. A maior ou menor disposição das raças humanas para a perfectibilidade, as emigrações dos povos, os commettimentos guerreiros, as emprezas maritimas e outras circumstancias accidentaes poriam muitas vezes em discordancia os caracteres deduzidos da fauna com os dos instrumentos da industria. Assim como, em quanto alguns dos povos menos civilisados percorrem já a epoca do ferro, e outros estacionam ainda na idade da pedra, assim tambem não podia em toda a parte a cada grupo zoologico ou a cada especie de clima corresponder a mesma phase industrial. Suppondo que o synchronismo declarado na classificação existiria em partes da França e da Belgica, é claro que não poderia ser geral em toda a Europa.

Na Peninsula não têem apparecido instrumentos de pedra lascada e de osso em tal quantidade que obriguem a subdividir a idade da pedra em mais de duas epocas. Além de que, para caracterisar a epoca mesolithica tambem nos faltam os animaes proprios, porque nem o rangifer nem a hyena spelœa, nem algumas outras das especies contemporaneas habitaram para áquem dos Pyreneus. Parece haver, em Hespanha e Portugal, entre os silex lascados de San Isidro e os objectos de pedra polida, uma grande lacuna ou interpolação, que as explorações até hoje emprehendidas não poderam ainda preencher. Por isso, a classificação do sr. Vilanova foi notavelmente alterada pelo sr. F. M. Tubino que dividiu a idade da pedra sómente em duas epocas, a paleolithica e a neolithica, e subdividiu esta ultima em dois periodos o mesolithico e o do cobre[27]. Pela nossa parte, prescindiremos d’esta subdivisão, porque o periodo mesolithico, sendo caracterisado pela pedra lascada, não póde pertencer á epoca da pedra polida, e o do cobre, por motivo analogo, sómente na idade dos metaes se ha de comprehender. Conservaremos pois a divisão primitiva da idade da pedra nas duas epocas da pedra lascada e da pedra polida, como ainda hoje fazem Lubbock e outros archeologos, attribuindo á primeira o rangifer e os animaes emigrados.

Da epoca paleolithica ou da pedra lascada e da epoca neolithica ou da pedra polida têem apparecido na Peninsula não sómente vestigios da industria humana, mas tambem restos dos animaes caracteristicos. Porém da epoca anterior, correspondente aos terrenos terciarios, que o sr. Vilanova chama archeolithica não se tem encontrado nada até hoje em Hespanha. Em Portugal o sr. Carlos Ribeiro colligiu em camadas terciarias e quaternarias das provincias da Extremadura e da Beira, e particularmente das bacias do Tejo e Sado, silex e quartzites lascadas nas quaes lhe pareceu evidente a acção intencional do homem. E na Memoria que em 1871 apresentou á Academia das sciencias de Lisboa fez estampar cento e trinta de taes objectos[29].

Examinada esta collecção em 1872 no congresso de Bruxellas, pareceu em principio ao sr. abbade Bourgeois, apaixonado defensor do homem terciario, não ter vestigios da industria humana nenhum dos objectos colligidos. Mudou porém depois de opinião, confessando com o sr. Franks, director do Museu britannico, haver em alguns provas evidentes do trabalho do homem[30]. Por outra parte, o mesmo sr. Franks, examinando trinta e duas pedras, que o sr. abbade Bourgeois apresentára ao congresso, como vestigios da industria humana, encontradas em terras terciarias de Thenay, n’uma só de taes pedras viu signaes positivos da acção intencional do homem. Nomeou-se para examinar as de Portugal uma commissão, entre cujos vogaes não chegou a haver maioria que declarasse attribuiveis á industria humana a maior parte d’aquelles objectos[31].

Bastarão estes factos, occorridos no congresso de Bruxellas, para mostrar a incerteza das provas, actualmente conhecidas da existencia do homem terciario. Na commissão geologica de Portugal ha centenares de pedras, colligidas pelos srs. Carlos Ribeiro e Delgado. Talvez que uma escolha racional apurasse entre ellas algumas em que parecesse menos duvidoso o trabalho humano, nas quaes, comparadas ás congeneres da idade quaternaria, melhor se reconheceria a origem natural ou artificial. Foi isto mesmo que no Museu de Saint-Germain fez o sr. Mortillet, escolhendo algumas das pedras que o abbade Bourgeois para ali enviara, como instrumentos fabricados pelo homem terciario, e expondo-as juntamente com outras do valle do Somme ou de outras estações quaternarias, para os observadores poderem comparar e tirar da comparação as illações que lhes parecesse.

Algumas das pedras da commissão geologica taes como as que as figuras 1, 2 e 3 representam não têem similhança com as formas typicas de Saint-Acheul, Hoxne, San Isidro, etc. Outras que vimos na collecção talvez, sem grande esforço, se reduzam no typo dos denominados raspadores[32].

Das provas até hoje adduzidas em favor da existencia do homem terciario umas, indirectas, consistem nos vestigios da sua actividade; outras, directas, seriam as suas proprias ossadas no estado fossil.

A fauna de Saint-Prest, em pequena distancia de Chartrou, estudada desde 1848 por varios naturalistas, é quasi identica á de outras camadas terciarias de varias regiões da Europa. Encontram-se os seus representantes fosseis n’um valle, cortado em angulo consideravel por outro valle quaternario, por cuja idade mais recente se prova tambem a antiguidade relativa do primeiro. Além de outras especies perdidas, ali têem apparecido o elephas meridionalis, o rhinoceros leptorhinus e o megaceros Carnutorum.

Fig. 1

Fig. 2

Fig. 3

PEDRAS LASCADAS ATTRIBUIDAS AO HOMEM TERCIARIO DE PORTUGAL.

Em abril de 1873, Desnoyers foi examinar estes restos fosseis, e pareceu-lhe ver em muitos ossos estrias ou entalhos, que teriam sido feitos pela mão do homem, armada com instrumento cortante. Não contente d’este exame, buscou as collecções anteriormente constituidas com ossadas de Saint-Prest e em todas achou vestigios similhantes. Além dos ossos riscados ou entalhados, encontrou alguns de ruminantes, partidos pela mesma forma por que ainda hoje os partem alguns selvagens para lhes extrahir as medullas. D’onde entendeu poder com toda a probabilidade concluir que «o homem viveria em França... contemporaneamente ao elephas meridionalis e outras especies pliocenas, caracteristicas do Valle d’Arno na Toscana, e que teria de luctar com as grandes alimarias, anteriores ao elephas primigenius e aos outros mammaes, cujos restos apparecem misturados com os vestigios ou indicios do homem nos terrenos de transporte ou quaternarios dos grandes valles e das cavernas»[33].

A pretenção do descobridor discordava a tal ponto das idéas geralmente seguidas, ácerca da coincidencia da origem da especie humana dentro nos limites de idade quaternaria, que de toda a parte se levantaram logo contraditores a inventar explicações dos factos observados por causas differentes d’aquellas a que se attribuiam. Quaes disseram que os entalhos dos ossos de Saint-Prest teriam sido feitos pelos instrumentos dos operarios que os extrahiram da terra, ou dos preparadores que os alimparam; quaes recorreram á acção das geleiras; quaes ao attrito das raizes sobre os ossos; quaes ao dessecamento consecutivo á putrefacção dos ossos que os cobriria de fendas longitudinaes e transversaes; quaes á acção de transporte da agua que rolaria com os ossos pedras que os riscassem; quaes, finalmente, aos dentes de certos animaes carnivoros ou roedores pertencentes á fauna terciaria.

Movido da importancia da questão, Lyell chegou a instituir um verdadeiro inquerito para resolver até que ponto seriam admissiveis as causas invocadas pelos contradictores de Desnoyers. Pareceu-lhe que, entre todas, duas sómente poderiam ter tido o effeito que se lhes suppunha; e eram a acção da agua corrente e os dentes dos carnivoros ou roedores. Se os ossos não fossem extremamente duros, as pedras e calhaus com elles arrastados seriam capazes de os riscar. «Podemos suppor, dizia Lyell, relativamente a certo exemplar do Museu Britannico, que estando quasi todo o osso enterrado no lodo, as partes que todavia o não estivessem ficariam expostas á acção da corrente, que arrastaria areia e cascalho contra ellas, e com bastante força para formar riscas ou entalhos, no tempo em que talvez o osso estivesse mais molle do que hoje. Uma pequena mudança na posição do osso ou na direcção da corrente da agua poderia produzir uma segunda serie de estrias parallelas, entrecruzadas com as primeiras». Porém sómente em certos ossos se poderiam explicar as estrias por esta hypothese[34].

Por outra parte, o mesmo Lyell mandou lançar uma porção de ossos aos porcos-espinhos do Jardim Zoologico de Londres, que os deixaram riscados e entalhados á maneira dos de Saint-Prest. D’onde concluiu que estes ultimos poderiam ter andado nos dentes do grande roedor de Chartres do genero Trogontherium, ou de algum outro da fauna terciaria.

A fauna do valle d’Arno, na Italia, assimilha-se extremamente á de Saint-Prest: nos ossos das mesmas especies de mammaes apparecem da mesma sorte estrias ou entalhos. Examinou tambem Lyell estes vestigios, e não se julgou habilitado para expender qualquer opinião decisiva. Todavia, reconhecendo a insufficiencia das provas allegadas em favor do homem terciario, appellou para o futuro, cujos acontecimentos lhe pareceu haverem de dissipar todas as duvidas.

O sr. Lubbock, depois de examinar os ossos de Saint-Prest, expendeu a respeito d’elles a opinião seguinte: «Os vestigios das incisões concordam exactamente com os termos em que foram descriptos; alguns pelo menos parece terem origem humana. Entretanto no estado actual dos nossos conhecimentos não ousaria affirmar que não tivessem sido feitos por differente modo»[35].

O sr. abbade Delaunay encontrou em Pouancé costellas e um humero de haliterium, especie miocene, profundamente entalhados, segundo parecia, com um instrumento cortante que só pelo homem poderia ser manejado. E já no anno de 1876 o sr. Quatrefages deu conta á Academia das sciencias de Pariz do descobrimento, que o sr. Capellini ha pouco tempo fizera de ossadas de cetaceos com incisões e entalhos, feitos com instrumento cortante. Os ossos assignalados appareceram em argillas pliocenas do Monte Aperto, juncto de Sienne. O descobridor e outros naturalistas italianos estavam convencidos de que não haveria senão a mão do homem, capaz de entalhar os ossos por aquella fórma[36].

Outras provas tambem indirectas são os silex e quartzites lascadas taes como as colligidas em França pelo sr. abbade Bourgeois, e em Portugal pelo sr. Carlos Ribeiro. Todavia de uns não se demonstra que os terrenos onde appareceram fossem terciarios e não quaternarios; de outros não parece incontestavel o terem sido lascados pela mão do homem. Citam-se observações dos srs. Desor, Escher, Fraas, Livingston e Wetzstein que em varias regiões da Africa viram silex lascados naturalmente pela acção do calor do sol, testimunhando alguns este curioso phenomeno[37].

Infelizmente as provas directas da existencia do homem terciario são ainda mais contestaveis que as provas indirectas. O sr. Issel apresentou ao congresso anthropologico de Pariz, em 1867, ossos humanos com signaes de remota antiguidade, achados em camadas pliocenas na cidade de Savone na Toscana. Correu tambem ha alguns annos, apregoada pelo sr. Whitney, director do Geological Survey, a descoberta de um craneo humano na California em depositos pliocenos, por baixo de cinco ou seis camadas de cinzas vulcanicas, endurecidas. O sr. Quatrefages duvída d’este facto não sómente porque pediu informações e não lh’as deram, mas tambem porque não sahiu a publico nenhuma estampa ou noticia descriptiva do tal craneo. Para a maior parte dos naturalistas a doutrina corrente é que até hoje não se conhecem nenhuns restos humanos fosseis incontestavelmente attribuiveis á idade terciaria.

Das razões, ponderadas no capitulo anterior, se deprehende que, já na idade quaternaria, a humanidade passára milhares e milhares de annos sem outros instrumentos mais que os rudes machados de silex, com o mesmo silex fabricados. Mas, como a duração da idade terciaria fosse quasi cinco vezes maior que a da idade quaternaria[38], a existencia de vestigios da industria humana em camadas miocenas importaria um estacionamento muito mais longo, importaria o decurso de uma eternidade, durante a qual os homens não possuiriam outra arte fabril, senão a de lascar pedras, que mal se differençariam d’aquellas manifestamente resultantes de choques operados por forças physicas. Advirta-se que os depositos miocenos, a cuja epoca se attribuem os mais antigos dos silex e quartzites lascadas, os depositos pliocenos e os diluviaes que se lhes seguiram têem a enorme possança de muitos centenares de metros, e que, em quanto se effeituaram tão longas formações, o homem viveria reduzido á condição dos irracionaes, sem obedecer á lei do progresso, fóra da qual se conservaria até ao fim dos tempos geologicos. A fauna, a flora, as circumstancias hydrographicas e orographicas da superficie do globo na idade terciaria eram obstaculos taes que mal póde o espirito comprehender como, apesar d’elles, se conservaria e desenvolveria a especie humana. Existiam, é verdade, os quadrumanos; mas o macaco, pela sua organisação, avantajava-se ao homem; facilimo lhe sería saltar de ramo em ramo pelas intrincadas florestas miocenas ou pliocenas, para fugir das alimarias que o perseguissem ou para buscar os alimentos indispensaveis á vida. Para fazer compativeis as condições da terra terciaria com a organisação humana, não falta quem tenha supposto que o homem mioceno sería de uma especie differente! Mas contra factos não prevalecem razões, por mais ponderosas que pareçam, e, portanto, bom serviço prestam á sciencia aquelles que se empenham, como o sr. Carlos Ribeiro, em colligir documentos interessantes a esta questão, que talvez dentro em poucos annos vejamos cabalmente resolvida.

Em Hespanha, em terrenos quaternarios, acharam-se já instrumentos de pedra lascada, alguns dos quaes se guardam no Museu archeologico nacional. A estação mais importante, pela maior variedade dos vestigios encontrados, e pelos estudos que n’ella se têem feito, é a de San Isidro del Campo, em pequena distancia de Madrid. Este terreno situado na margem direita do Manzanares, quarenta metros acima das suas aguas, tem vinte metros de espessura e cobre camadas de marga miocenas. Com os vestigios da industria humana primitiva têem apparecido ossos de animaes: de um elephante, talvez o Elephas meridionalis; do Cervus elephas; do Equus fossilis, varietas pliscidens etc.[39] Um machado de silex encontrado em San Isidro provaria que a antiguidade d’essa estação não sería menos remota que a da estação de Saint-Acheul em França, se tivesse havido synchronismo na successão das phases da industria humana em todos os paizes.

Em toda a Peninsula não têem até hoje apparecido outros vestigios certos da industria humana durante a epoca da pedra lascada, excepto os de San Isidro. São já numerosas as estações d’esta epoca da França e de outros paizes e mais numerosos ainda os objectos colligidos nos museus e estampados nos livros. A falta de explorações geologicas e archeologicas será causa, em parte, de tamanha raridade dos vestigios da pedra lascada em Hespanha e Portugal. Entretanto, apesar d’essa falta, mais alguns deveriam ter apparecido, se esta parte da Europa fosse tão habitada, como a França, em tempos tão remotos.

Fig. 4

MACHADO DE PEDRA LASCADA DE SAN ISIDRO

Mas, o que é mais notavel, da epoca seguinte, da epoca do rangifer não se conhece um só vestigio indubitavel de industria humana. De sorte que, se por acaso não se tivesse descoberto a estação de San Isidro, poderia hoje racionalmente affirmar-se que o homem não teria habitado a Peninsula antes da epoca neolithica. Por outra parte nem do rangifer nem d’alguns outros dos animaes contemporaneos têem apparecido restos, havendo-se, pelo contrario, encontrado alguns dos mammiferos mais antigos que viviam em Hespanha e Portugal ao mesmo tempo em que o homem habitava as margens do Manzanares. Explicar-se-ha a falta do homem contemporaneo do rangifer pelas mesmas causas que deveram obstar a que este e outros animaes da mesma epoca passassem para áquem dos Pyreneus? Eis um curioso problema que sómente o conhecimento mais perfeito da geologia peninsular poderá resolver.

É força confessar que o homem da epoca paleolithica vivia quasi tão brutamente como as ferozes alimarias que o cercavam, e sem ao menos dispor dos poderosos elementos de ataque e defeza que as faziam invenciveis e temidas. Percutir uma pedra com outra e fazer saltar lascas da primeira até ficar mais ou menos acuminada ou ponteaguda, transformar os paus, os ossos, os chifres em instrumentos não menos imperfeitos, tirar chispas de fogo da rapida fricção de ramos resequidos, eis quasi tudo a que se reduzia a sua limitadissima industria.

Sem fallar na invenção do fogo, que, só por si, prometteria todo o futuro desenvolvimento da humanidade, avantajavam-se-lhe, por certo, na regularidade e importancia das obras, na delicadeza e perfeição dos processos o castor, a abelha, a formiga. Eram-lhe superiores pelos fortes musculos, pelas garras, prezas ou outras armas naturaes, o hippopotamo, o elephante, o urso, o rangifer ou a hyena. As alterações physicas da superficie do globo livraram a especie humana de alguns d’esses poderosos inimigos. Mas os sobreviventes bastariam talvez para extinguil-a, se o homem, inferior nos recursos da natureza physica, se não tornasse superior a todos, pelo successivo desenvolvimento das faculdades intellectuaes.

Progride rapido esse desenvolvimento na epoca neolithica ou da pedra polida. Cessa a anterior agitação que punha em temerosa desordem as partes solida e liquida da crusta da terra; temperam-se os rigores do clima, e as neves perpetuas recuam para os mais altos dos cerros das cordilheiras; algumas das alimarias que disputavam ao homem a posse das cavernas e dos fructos da terra, emigram para as regiões hyperboreas ou alpinas, em busca de temperaturas mais conformes a organisações affeitas á frialdade dos gelos, que não aos ardores dos raios solares. No meio de condições physicas, similhantes ás da actualidade, o homem sahe por fim da bruteza em que longamente vivera, eleva-se acima dos irracionaes que o cercam, alguns converte á domesticidade, e a aurora esplendida da civilisação illumina pela primeira vez os horisontes das sociedades nascentes.

Outr’ora as armas e os pouquissimos instrumentos da industria humana eram feitos de rochas, que pela sua estructura, mais facilmente lascavam, para tomar, por effeito da percussão, as fórmas acuminadas ou ponte-agudas. O silex, a quartzite, a obsidiana mereciam a preferencia para servirem de materias primas á industria incipiente. Agora essas pedras são muitas vezes substituidas pela diorite, serpentina, porphydo, jade e outras, suceptiveis de tomarem fórmas e côres mais varias e mais bellas, embora á força de trabalho e paciencia d’aquelles que as fabricavam. N’esta nova epoca não basta já como d’antes, que os instrumentos possam ferir ou cortar, importa egualmente que sejam bellos e commodos. As fórmas que dão ás rochas com os percutores, o polimento que lhes põem e as côres que lhes avivam com os alizadores ou com os raspadores satisfazem ás primeiras exigencias do sentimento esthetico, mal despontando ainda no coração humano.

Pelo espaço de milhares de annos a intelligencia do homem não teve á sua disposição mais que uns toscos pedaços de silex aguçados ou acuminados para furar ou cortar. Na epoca mesolithica, e particularmente na epoca neolithica ou da pedra polida, dilatam-se os horisontes industriaes. Fabricam-se martellos, serras, arpões, collares e outras armas ou ornamentos. Aproveitam-se as pontas do veado e de outros animaes para varios utensilios. N’alguns apparecem os primeiros ensaios artisticos em gravuras ou esculpturas toscas e disformes, porém representando já claramente o homem ou os animaes amigos e inimigos que o cercavam. Fabricam-se tambem moinhos de duas pedras para moêr os cereaes, e vasos de barro para guardar as sementes e as farinhas, ou para outros usos. Em fim, a disposição para a mais nobre das artes, para a architectura, revela-se no dolmen, no tumulo, no menhir, no cromleck, monumentos megalithicos da epoca da pedra polida, que foram para esse tempo o mesmo que as basilicas, os mausoleus ou os obeliscos para os tempos historicos.

Examinar d’essas varias memorias aquellas que restam na Peninsula, inquirir a significação que por ventura tenham, relativamente á prehistoria da humanidade, tal será o objecto dos capitulos seguintes.

NOTAS DE RODAPÉ:

[26] D. Juan Vilanova y Piera. Estudios sobre lo prehistorico español. Museo español de antigüedades, tomo 1, pag. 129.

As palavras archeolithica, paleolithica, mesolithica e neolithica foram compostas com as palavras gregas arche principio, palaios antigo, mesos meio, neos novo, e lithos pedra.

[27] Classificação das epocas prehistoricas, proposta pelo sr. Tubino, para o reino de Portugal e para as provincias hespanholas da Andaluzia e Extremadura. Veja Los monumentos megaliticos de Andalucia, Extremadura y Portugal. Museu español de antigüedades, tomo VII, 1876.

Edad PaleoliticaHasta ahora desconocida, si prescindimos de los silex tallados recogidos por el sr. Ribeiro en las cuevas del Tajo y del Sado, cuya atribuicion és hipotética[28].
Edad NeoliticaPrimero periodo: El mesolitico.
aCavernas del Monte Calpe
Caverna de Alhama de Granada
Cavernas de Cesareda
bMonumentos megaliticos
cQuioquenmodingo del Cabezo de Arruda
Segundo periodo: El del cobre.
aMinas de Cerro-Muriano
Minas del Odiel y de Riotinto
Minas del Alemtejo
Edad del bronce Sin acreditar. Los mas raros ejemplares procedentes de la zona que estudiamos, no tienen la fianza del yacimiento. Pudieron ser elaborados en otras regiones y llevados á aquella en epocas historicas.
Edad del hierroCarece tambien de estaciones especiales en su seccion prehistorica.

[28] Não menciona a estação paleolithica de San Isidro, por ficar fóra da região considerada. Os silex do sr. Carlos Ribeiro não foram achados nas cavernas, porém nas bacias do Tejo e Sado.

[29] Descripção de alguns silex e quartzites lascados, encontrados nas camadas dos terrenos terciario e quaternario das bacias do Tejo e Sado. Lisboa 1871.

[30] Relatorio ácerca da sexta reunião do congresso de anthropologia e de archeologia prehistoricas, verificado na cidade de Bruxellas em agosto de 1872, elaborado por Carlos Ribeiro. Lisboa 1873.

[31] Ibidem.

[32] Vejam-se um terciario de Thenay (Bourgeois) e outro quaternario do valle do Somme, estampados a par, a fim de se compararem, em Hamy.—Précis de Paleontologie Humaine. Pariz 1870, pag. 49.

[33] Note sur des indices matériels de la coexistence de l’homme avec l’Elephas meridionalis dans un terrain des environs de Chartres, plus ancien que les terrains de transport quaternaires des vallées de la Somme et de la Seine. Comptes Rendues de l’Academie des Sciences, 8 juin 1863.

[34] Hamy, Précis de paléontologie humaine. Pariz 1870, pag. 95 e 96.

[35] L’homme préhistorique. Pariz 1876, pag. 381.

[36] Comptes Rendus, 31 janvier 1876, pag. 348.

[37] Matériaux pour servir à l’histoire positive et philosophique de l’homme.

[38] Cap. II, pag. 14.

[39] D. Juan Vilanova.—Lo prehistorico en España. Anales de la sociedad española de Historia Natural, tomo I, pag. 194.

CAPITULO IV
PRIMICIAS DA ARTE

A estação de Argecilla e outras da Peninsula comparadas aos kiokkenmoddings.—Antiguidade d’estas estações prehistoricas.—Pontas de frecha e de lança, encontradas em Hespanha e Portugal.—Estações notaveis de Castella a Velha.—Facas de silex e seu fabrico.—Officinas em Portugal.—Machados.—Picaretas.—Instrumentos de osso.—Puncções.—Fragmentos lavrados.—Placas de shisto.—Outras insignias ou emblemas.—Contas de collares.—Ceramica.—Objectos achados na caverna de Albuñol.—Diadema de ouro.—Vestidos, gorros e bolsas de esparto.—Ornatos feitos de conchas e de dentes.—Bracelete de concha da cueva de la mujer.

Á epoca mesolithica ou do rangifer, da qual—já o dissemos—não ha vestigios certos na Peninsula, attribue o sr. Vilanova os nucleos de silex, facas, frechas e percutores, achados em Hespanha na estação de Argecilla. Descobriu-a o sr. D. Nicanor de la Peña «no sitio chamado Palomar, no terço superior da vertente bastante empinada das collinas terciarias lacustres, que na provincia de Guadalajara caracterisam toda a região conhecida pelo nome de Alcarria. Constitue este deposito um banco de um metro e meio de espessura, sessenta a setenta de comprido, e dez a doze de largo, composto de terra pardacenta, em certos logares muito escura, como se tivera padecido alguma incineração, coroando tudo os extractos calcareos com helix, paludinas e outros fosseis terrestres e lacustres, argillas e margas, que horisontalmente ou com pequena inclinação apparecem na encosta».

A proximidade de uma caverna assaz profunda persuadiu ao sr. Vilanova que o deposito de Argecilla sería analogo aos dos kiokkenmoddings da Dinamarca. Mas, como explorasse o interior da caverna e não achasse vestigios nenhuns de ter servido de habitação ao homem, ficou entendendo que o deposito exterior teria antes sido uma officina da primeira e segunda epoca da idade da pedra. Entretanto, depois de descrever os nucleos, lascas, facas, pontas de frecha e percutores de silex, que o induziram a considerar o deposito de Argecilla, como uma antiga officina, o sr. Vilanova cita varias pedras ali encontradas que parece terem servido de lar para o fogo, similhantes ás dos kiokkenmoddings da Dinamarca. Comtudo, os machados polidos, os alizadores, os fragmentos de louça e os ossos dos animaes domesticos que o sr. Vilanova achou em Argecilla, e que reputou, parece que sem fundamento, de epoca posterior áquella a que referiu os outros objectos, denunciam claramente a idade do deposito, posterior á dos kiokkenmoddings, apesar de todas as analogias mencionadas[40].

Deu-se este nome, que significa rebutalhos de cozinha, áquellas estações prehistoricas do litoral dinamarquez, constituidas de conchas de ostras e outros mariscos, de ossos partidos de mammaes, de restos de aves e de peixes e finalmente de silex pela maior parte lascados, porém alguns polidos.

É maior a similhança entre a estação de Argecilla e aquella que o sr. Pereira da Costa explorou em Portugal no Cabeço da Arruda.

GENEROS DE ANIMAES, ACHADOS NO CABEÇO DA ARRUDAGENEROS DE ANIMAES, ACHADOS EM ARGECILLA
BosBos
EquusEquus
SusSus
CervusCervus
FelixCanis

O sr. Pereira da Costa comparou tambem a estação do Cabeço da Arruda aos kiokkenmoddings, fundando-se para isso na existencia de madeira e ossos carbonisados, de seixos estalados pela acção do fogo, e finalmente na côr avermelhada do lodo, por effeito da cozedura. Isto pelo que respeita aos vestigios do fogo, mas por outra parte notou mais a accumulação de restos de conchas de animaes comestiveis, e tambem o descobrimento de um similhante deposito, feito de conchas quebradas, fragmentos de carvão, ossos quebrados de mammiferos, pedaços de pederneira e seixos, mas sem restos humanos, no porto da Amoreira, a um kilometro de distancia do Cabeço da Arruda; e de outro na Fonte do Padre Pedro, a tres kilometros de distancia, e formado de conchas partidas, ossos e dentes de mammaes e fragmentos de louça grosseira[41].

Se o leitor quizer apreciar mais uma analogia entre a estação da Argecilla e os kiokkenmoddings, compare a faca de silex, ali achada, com aquellas que se têem encontrado n’estas estações da Dinamarca. Compare a [fig. 5, 6 e 7] com aquellas que o sr. Lubbock dá de uma faca do kiokkenmodding de Fannerup no Jutland. Parecer-lhe-hão duas copias do mesmo objecto[42].

Fig. 5

Fig. 6

Fig. 7

FACA DE SILEX DA ESTAÇÃO DE ARGECILLA.

Estabelecidas assim as relações da estação de Argecilla e de outras, tanto de Hespanha como de Portugal, com os kiokkenmoddings da Dinamarca, torna-se-nos extremamente importante determinar a idade d’estes ultimos a fim de conhecer a idade d’aquellas. Na opinião do sr. Worsaæ os kiokkenmoddings pertenceriam á epoca da pedra lascada. Demonstral-o-hiam: 1.º a raridade dos instrumentos de pedra polida; 2.º a falta de animaes domesticos, pois o cão é o unico de que têem apparecido restos fosseis. O sr. Steenstrup sustenta, pelo contrario, a contemporaneidade dos kiokkenmoddings e dos tumulos, cuja construcção ninguem refere além da epoca da pedra polida. Se nos primeiros faltam restos do boi e do cavallo domesticos, nos segundos são muito raros, e não custa nada admittir que esses mesmos fossem posteriormente ali introduzidos.

As longas facas de silex, similhantes á de Argecilla, servem exactamente ao professor Steenstrup a fim de provar que os habitantes dos kiokkenmoddings não estavam tão atrazados, como dizem, na arte de fabricar instrumentos de pedra. É verdade que estes são mais grosseiros, mas os depositos em que se encontram serão os rebutalhos da cozinha de pescadores. Os tumulos pelo contrario seriam as sepulturas dos chefes. De sorte que uns e outros monumentos representam não epocas differentes, mas graus diversos de civilisação de duas classes do mesmo povo. O sr. Lubbock pondera as razões apresentadas por cada um dos opinantes, e conclue que os kiokkenmoddings plausivelmente se attribuirão ao primeiro periodo da epoca neolithica, quando não tinha ainda chegado ao seu completo desenvolvimento a arte de polir o silex[43].

Em fim em varias estações, attribuidas sem contestação á epoca da pedra polida, como a caverna de Pont-á-Lesse, na Belgica, têem apparecido com outros objectos caracteristicos da mesma epoca facas similhantes ás dos kiokkenmoddings e da estação de Argecilla[44]. Todavia convem advertir que os animaes domesticos das estações da Peninsula denotam não terem estas tamanha antiguidade como as da Dinamarca onde se não têem encontrado. Os depositos de conchas partidas encontram-se tambem na Escocia, na foz do rio Somme, em Cornwall e no Devonshire. Mas os fragmentos de louça, achados n’estas ultimas estações, provam tambem não serem tão antigas como os kiokkenmoddings, ou terem tido por habitantes gente mais civilisada.

Fig. 8

Fig. 9

MACHADINHA DE PEDRA DA ESTAÇÃO DE ARGECILLA.

Se taes considerações não bastassem para referir com certeza a estação de Argecilla á epoca da pedra polida, outros objectos ali encontrados completariam a demonstração. A machadinha de pedra furada na base ([fig. 8 e 9]) não se póde classificar senão entre os objectos d’aquella epoca. E brevemente veremos outras similhantes, achadas em Portugal em dolmens ou em outras estações da pedra polida. O orificio poderia servir para ligar a machadinha a uma haste com uma corda ou corrêa, ou para suspendel-a ao peito, como amuleto ou como insignia. N’este ultimo caso faria parte de algum collar.

Pertence tambem evidentemente á epoca neolithica a ponta de frecha, ([fig. 10]). É notavel a sua fórma elegante e apurado lavor. A base prolonga-se á maneira de pé, excavada de um e de outro lado a fim de se ligar á haste com corda ou corrêa que se fixasse n’estes entalhos. Outras similhantes se têem encontrado nas cidades lacustres da Suissa e n’algumas estações de Portugal com fragmentos de louça e outros objectos caracteristicos da epoca neolithica.

Fig. 10

Fig. 11

Fig. 12

Fig. 13

PONTAS DE FRECHA DE SILEX DE ARGECILLA E DA FONTE DA RUPTURA.

Taes são aquellas que em grande numero se conservam no museu da Escola Polytechnica, descobertas na Fonte da Ruptura e na Pena em Setubal, na Casa da Moura e na anta de Bellas ([fig. 11, 12 e 13]).

Wilde classifica as pontas de frecha em cinco grupos, segundo as suas fórmas caracteristicas: 1.º triangulares, muitas das quaes têem um entalho de cada lado da base para fixar a corda ou corrêa com que as ligavam á haste; 2.º bidentadas, cujos bordos se prolongam para além da base formando uma curva concava á maneira de ferradura; 3.º tridentadas, com tres saliencias na base figurando um M gothico (d’estas ultimas appareceu uma em Argecilla); 4.º com uma saliencia na base para se introduzir na haste; 5.º com a fórma de folha, as quaes, sendo muito alongadas, se chamam dardos. As fig. [11 e 13] são do 1.º grupo; a fig. [10] do 4.º; e finalmente do 5.º a [fig. 12].

As pontas de lança, maiores, e, geralmente mais bem acabadas, têem tambem a fórma triangular. Na Commissão geologica ha uma, apparecida n’um dolmen das circumvisinhanças de Niza, que é das maiores conhecidas. Infelizmente falta-lhe a ponta. Se estivesse completa teria de comprimento 0ᵐ,20. Outra menor foi encontrada na Sepultura de Martim Affonso, perto de Muge.

Fig. 14

Fig. 15

PONTAS DE LANÇA DE SILEX DE NIZA E MUGE.

Fig. 16

Fig. 17

FACA DE SILEX DA COVA DA ESTRIA.

Em Hespanha, na provincia de Castella a Velha, ha uns depositos muito notaveis que, mais bem estudados do que até hoje o têem sido, esclarecerão talvez com importantes factos a epoca das estações de Argecilla e do Cabeço da Arruda. Esses depositos, constituidos principalmente por ossos, e em tamanha quantidade que têem sido exportados para França a fim de se lhes darem applicações industriaes, encontram-se n’uma região de trinta a quarenta leguas quadradas nos confins das provincias de Leão, Valhadolid e Palencia. Com os ossos, affirma o sr. Vilanova, apparecem machados toscos e polidos, ceramica grossa e fina, vidro irisado por decomposição, objectos de ouro e outros metaes, esculpturas de osso, etc. Dos restos organicos menciona os paus, mandibulas e ossos largos dos cervos; cabeças d’estes mesmos animaes inteiras ou sem maxilla inferior; alguma aberta intencionalmente na base pelo homem a fim de lhe extrahir a massa encephalica, portanto em condições analogas ás d’aquellas que se tem descoberto nas palafittas ou cidades lacustres da Suissa. Alguns dos paus de veado são lavrados ou polidos ou desgastados, bem como os das mencionadas estações prehistoricas. Em fim o sr. Vilanova cita ainda além dos objectos indicados, dentes de javali com riscas, entalhos (contadores?) e varios ornatos; cabos de pau de veado, cilindros da mesma materia com desenhos e furados n’uma das extremidades talvez para servirem de ornato ou de amuleto; algum chifre do grande cervo, no qual se teria aproveitado a natural disposição de uma das pontas para o empregar como instrumento de lavoura, e mil outros objectos de osso

«Os ossos sem lavor apparecem pela maior parte quebrados, alguns intencionalmente, outros com signaes de longo transporte. Em geral, estes restos organicos encontram-se em jazigos de côr cinzenta, misturados os naturaes com os lavrados, e em profundidade que não passa de dois ou tres metros»[45].

Com uns objectos evidentemente prehistoricos acham-se tambem outros de metal, vidro ou barro da epoca romana. As estações de Castella a Velha são portanto importantissimas, e é muito para lamentar que até hoje não tenham sido estudadas pelos archeologos hespanhoes. Ha grande analogia entre os depositos de Castella a Velha e as terramaras da Italia. Teriam sido, como estas, habitações lacustres, comparaveis ás palafittas da Suissa?

As facas de silex, mais communs em Portugal, são lascas estreitas e compridas, algum tanto recurvadas no sentido do comprimento. Têem a face concava muito lisa, a convexa formada por tres superficies inclinadas entre si em angulos muito obtusos. N’esta face vêem-se pois quatro arestas longitudinaes, duas formadas pela união d’aquellas tres superficies entre si, e outras duas, que são os bordos, pela união de cada uma das superficies externas com a face concava. Os bordos são acuminados e cortantes. N’uma das extremidades vê-se o bolbo de percussão, ou a parte onde percutiram o nucleo ou matriz de silex para fazer saltar a lasca inteira. Adiante do bolbo de percussão notam-se algumas depressões que poderiam servir para fincar os dedos e segurar a faca. Estes instrumentos poderiam ser applicados para fins differentes, taes como destacar a carne dos ossos dos animaes, cortar as pelles, etc. Todavia algumas ha tão delicadas e tão frageis que parece teriam sido antes usadas como symbolos, opinião cuja probabilidade, relativamente a outros objectos, adiante mostraremos.

No museu da Escola Polytechnica de Lisboa guardam-se muitas facas d’este mesmo typo, apparecidas em differentes logares com outros objectos de pedra polida[46].

Lubbock explica mui clara e satisfatoriamente o modo de fabricar as facas e outros objectos de silex. Quem percutir com um martello arredondado a superficie plana de um silex produzirá uma fractura conoide, cujo tamanho dependerá em grande parte da forma do martello. A superficie da fractura formará um cone com o vertice correspondente ao ponto percutido. Supponhamos agora que não se percute a superficie plana, porém o angulo de um silex prismatico, a fractura será em principio semi-conoide, mas tornar-se-ha depois achatada, e poderá continuar-se com essa fórma na extensão de mais de 0ᵐ,20. Obter-se-ha assim uma lasca de silex, similhante á folha de uma faca, mas com uma secção triangular. D’esta sorte, arrancados os quatros angulos primitivos da massa prismatica de base quadrangular, poderão ainda destacar-se do mesmo modo os oito angulos restantes e assim por diante.

Fig. 18

Fig. 19

PERCUTOR ACHADO NO ALEMTEJO.

Para que do silex, por meio da fractura, se obtenham taes resultados, importa que elle seja fresco, isto é, recentemente extrahido da terra. Por isso os homens prehistoricos exploraram esta rocha em grande escala, furando poços e abrindo galerias, alguns e algumas de grandes dimensões. Os instrumentos de que se serviam eram uma especie de picaretas feitas de ponta de veado. Em Portugal algumas se têem encontrado de pedra.

No museu da Escola Polytechnica de Lisboa guardam-se muitas lascas de silex, colhidas em varios sitios onde esta rocha foi explorada e fabricada. Vieram da Matta de Otta, da Charneca de Sacavem, do Arieiro de Telheiras, do Alto de Foz da Ponte, etc. Ignoram-se porém as circumstancias especiaes d’esses logares, que muito conviria saber para determinar a epoca e as circumstancias especiaes das varias officinas.

Têem apparecido n’algumas estações prehistoricas os instrumentos empregados para polir ou para lascar o silex. São tambem de silex. Os polidores têem cavidades de varias formas, onde pelo attrito se alisava a superficie das armas de pedra. Os percutores eram afeiçoados de sorte que se podessem apertar na chave da mão. Tinham tambem cavidades de fórma concava para o artifice fincar n’ellas os dedos, e percutir assim com mais força ([fig. 18 e 19]).

Fig. 20

MACHADO DE FELDSPATH POLIDO, DA PROVINCIA DO ALEMTEJO.

Das armas de pedra aquellas que mais numerosas apparecem tanto em Portugal como em Hespanha e em toda a parte, são os machados. Não foram encontrados, é verdade, nas explorações do Cabeço da Arruda e das grutas de Cesareda; mas, em compensação, acham-se em todas as provincias, onde, desde tempos immemoriaes os camponezes lhes chamam pedras de raio, e os guardam com grande veneração pelas virtudes que lhes attribuem.

Acham-se com frequencia nos dolmens. Na Memoria que ácerca d’estes monumentos escreveu o sr. Pereira da Costa vem desenhados oito com varias fórmas e dimensões[47]. São os typos mais communs em Portugal. Variam tambem muito as pedras de que os machados são feitos. Predominam o silex, o schisto, a amphibole, a diorite e o calcareo. Em Cantanhede appareceram alguns de jade, rocha não existente em Portugal, nem no resto da Europa, segundo dizem. No Alemtejo encontram-se os machados de pedra em muito maior numero que nas outras provincias[48].

Fig. 21

Fig. 22.

Fig. 23

INSTRUMENTOS DE PEDRA DA CAVERNA DE ALBUÑOL E DE MAFRA.

No museu da Universidade de Coimbra conservam-se muitos machados de pedra provavelmente de selvagens modernos. Ignora-se d’onde procederam e a epoca em que foram depositados n’aquelle estabelecimento. Além d’estes, ha um notavel, pela perfeição com que foi fabricado: appareceu na Cegonheira, perto de Bordalo, nas circumvisinhanças e a oeste de Coimbra.