COMEDIA DO CAMPO
LISBOA
Typographia de Adolpho, Modesto & C.ª
Rua Nova do Loureiro, 25 a 43
1887
4.º vol. da COMEDIA DO CAMPO
NOVOS CONTOS
DE
BENTO MORENO
La plupart des drames sont dans les idées que nous formons des choses. Les événements qui nous paraissent dramatiques ne sont que les sujets que notre âme convertit en tragédie ou en comédie, au gré de notre caractère.
H. DE BALZAC—Modeste Mignon.
EDITORES
TAVARES CARDOSO & IRMÃO
5, Largo do Camões, 6
1887
OBRAS DO MESMO AUCTOR
PUBLICADAS PELOS EDITORES DAVID CORAZZI E TAVARES CARDOSO & IRMÃO
| COLLECÇÃO DA COMEDIA DO CAMPO: | |
| Contos—1 vol. | 500 |
| Amor divino—1 vol. | 500 |
| Antonio Fogueira—1 vol. | 500 |
| Novos contos—1 vol | 600 |
| COLLECÇÃO DA COMEDIA BURGUEZA: | |
| Noivos (quasi esgotada)—1 vol. de 500 pag. | 1$000 |
| O Sallustio Nogueira—1 vol. de 500 pag. | 1$000 |
| O Grande Homem (Comedia)—1 vol. | 700 |
A MINHA MORTE
Estava na convalescença d’um typho. Não teria doze annos, mas na minha imaginação representa-se ainda nitidamente esse longo periodo de febre e de terriveis visões. Apesar de debil e quasi enfesado resisti heroicamente ao soffrimento e á molestia. Sempre de costas na cama, passava o tempo a contar e recontar as tabuas do tecto e a fileira de cachos dependurados ao longo da parede branca. Sentia-me embebido em estupidez; as perguntas que me faziam, ácerca do meu estado, do sabor dos remedios e do apetite, ficavam sem resposta. Olhava para todos sem comprehender o que diziam, ou, pelo menos, sem ter os meios de exprimir tudo quanto de violento e de extraordinario se passava em todo o meu corpo. Era como um empastamento geral da minha carne, uma liquifação do meu cerebro, a ausencia de mim mesmo para sentir. Até as dores que soffria, tendo um resto de consciencia para saber que se passavam em mim, attribuia-as mais facilmente a outro corpo. O meu interior era o de uma enorme fornalha; o proprio halito parecia-me de labaredas brancas, formadas de ar incandescente. As minhas sensações reduziam-se a uma sede permanente, que se não podia mitigar. Por mais que me humedecessem a lingua, nem por um instante m’a podiam tornar molle e flexivel: era uma lingua de papagaio, que seria facil quebrar como se fôra um caco. Ainda me recordo de quanto me custava a supportal-a na bocca e de ter, por vezes, desejos de a arrancar.
Mas depois fui melhorando. A volta das sensações ordinarias fazia-se uma a uma, como pombos escorraçados d’um pombal. Era um renascimento gradual, e noto que appareceram primeiro as sensações mais elementares, aquellas em que o homem tem menos imperio. Todos os dias a febre decrescia, reconquistava um pouco do viver antigo, como se eu tivesse feito uma viagem ao chimerico paiz das sombras, e de lá voltasse por um comprido corredor de muitas legoas, approximando-me instante a instante da benefica luz do sol, que se visse brilhar ao fundo, cá n’este mundo vulgar que todos habitamos. Entrei por fim em convalescença. O facultativo consentiu que me levantasse todos os dias um nadita. Já podia ir fazendo tentativas de chupar a minha aza de frango. O enjôo da comida ainda era grande, por isso o meu desgosto era enorme. Reconhecendo-me melhorado não estava nas condicções das outras pessoas...
No emtanto a minha alegria e satisfação voltaram com o franco apetite. Tudo era pouco para mim, não havia coisa que me satisfizesse e era preciso que me ralhassem para não ser tão guloso, que me podia fazer mal. Até não queria que os outros comessem ao pé de mim; porque isso me dava inveja, e até raiva, ficando a reparar com olhos avaros e insaciaveis. O medico argumentava que o meu estomago devia estar fraco, que não supportaria sem damno grandes quantidades; mas eu sentia-me como uma grande planta, que lançasse por toda a parte as suas ambiciosas raizes, para se sustentar á custa da seiva que pertencia ás outras e roubar-lh’a com o poder absorvente de uma enorme bomba. A comida de predilecção n’essa minha convalescença eram as boas sardinhas de Vigo, cabeçudas e grandes, que os gallegos iam vender á minha terra. Á distancia de 26 annos, ainda hoje sinto no paladar o sabor d’essa incomparavel comida.
A chuva d’esse aspero mez de dezembro era frigidissima, o vento assobiava pelas frinchas das portas. Como já podia andar por toda a casa ia de vez em quando ao mirante, olhar para os montes que estão ao norte, e contemplava-os todos cobertos de neve, como se fossem pyramides collossaes, formadas d’assucar.
Mas a chuva e o vento que soprava d’aquelle lado obrigavam-me a descer; pois que a janella não era guarnecida de vidraça. N’uma d’essas occasiões até, a saraiva me veio bater na cara e eu, com medo de recahir, fui-me logo sentar ao lume, que estava vivo, imponente, abrangendo grandiosamente em labaredas, os potes de ferro que estavam ao redor.
A nossa cozinha era comprida, terrea e de telha vã. A lareira, grande, coberta pelo enorme e phantastico chapeu da chaminé, muito farta de lenha—podia aquecer uma duzia de pessoas á vontade. Na vespera do sarrabulho ou na noite da consoada, essa cozinha tomava o aspecto glorioso d’um templo em festa. Havia maior numero de potes; as labaredas melhor sustentadas enroscavam-se umas nas outras sempre na mesma altura, como parafusos sem fim. Era manifesta e patente a alegria, a satisfação, o contentamento que este bom fogo produzia em todos, principalmente quando as castanhas estoiravam debaixo das brazas e sabendo-se que estava perto a enfusa de vinho.
Mas quando desci apressadamente do mirante, batido no rosto pela saraiva e com o tetrico medo de recahir, a cosinha estava solitaria e lugubre. Era dia ordinario, o lume bem acceso, o pote da ceia gorgolhava com a fervura, os gatos e os cães, fraternalmente misturados, enroscavam-se do lado do forno. Fui-me sentar ao meu canto, contando estar ali até á reza. Lá fóra das portas era quasi escuro, a chuva e o vento passavam ruidosamente sobre o telhado, produzindo ressonancia dentro da chaminé. Todo este barulho exterior e material tornava mais sensivel a minha solidão. Sabia que minha avó, estava á janella na dupla occupação de rezar as suas contas e de vigiar se os visinhos traziam sardinhas da praça, que era para tambem as mandar comprar. Porém o rom-rom dos gatos, o arfar do lume, o ralho da fervura e o sussurro do vento formavam um ambiente caracteristico de solidão ao qual se veio juntar a nota sentimental e lugubre do toque das trindades. A torre da egreja era sobranceira á cosinha e as nove badaladas cahiram-me espaçadamente no cerebro imprimindo uma sensação gemebunda e prolongada. Apezar da viva chamma do lume ser propria para desfazer tristezas, sentia sobre mim o lendario pezo da noite, com todo o seu imprevisto de sombras. E a enorme chaminé, negra de ferrugem, abria sobre mim um espaço indefinido, d’uma amplitude amedrontadora. Diante dos meus olhos, em correnteza, estavam pendurados os salpicões e eu contava-os machinalmente até á minha chouricinha e á de meu irmão, que estavam juntas, á esquerda. Fui pouco a pouco cahindo n’um longo esquecimento, fui perdendo a consciencia, a ponto de quasi se extinguir o meu ser.
Provavelmente o calor benefico do lume concorria para o entorpecimento. Já quando o sino acabou de tocar as «ave marias» eu voejava n’uma atmosphera de sensações vagas, como suspenso no meio do espaço. A cadencia das badaladas deu-me o impulso ondulatorio que me atirou por desconhecidas regiões, fóra de toda a contingencia. Um pingo d’agua cahia a compasso da torneira da cosinha e o som tristonho parecido com o gemer d’ave, feria-me levemente o ouvido como se fôra o desfallecer d’uma d’essas musicas ideaes, que só existem na região do azul. O estrepito do vento tambem se distanciára de mim, ouvia-o dilatado e longinquo, com a doçura e encanto do som d’um pinheiral. Estava envolvido, tapetado d’uma substancia isoladora que me fazia perceber attenuadas todas as sensações. O meu pensar vago e indeciso, traduzia esta especie de anniquilamento das minhas forças physicas e a perda das minhas idéas pessoaes. Reconhecia-me consubstanciado n’este mundo novo e abstracto, balouçando-me n’uma amplitude infinita como a da morte. Cá na minha, eu já não pertencia ao numero dos vivos apesar da memoria me reproduzir claramente toda a realidade material que eu gosára e soffrera, durante os annos da convivencia terrestre. Confesso que tive saudades do que fôra. Gostava da vida, mesmo simples e humilde como sempre a passára. Viver por viver e para viver, é que me enthusiasmava e não as altas posições da fortuna e da gloria. Todo o homem tem dentro em si tantos meios de ser feliz, que não saber aproveital-os é signal de desequilibrio e doença. Por isso, a idéa de ser um morto não me alegrava e, bem pelo contrario, principiei a apavorar-me á maneira que percebia que isto era sério. Deixar assim de repente, sem uma despedida, a vida terrena, na qual eu ia sonhadoramente gosando a minha obscuridade, lá me parecia duro. E sem enterro, sem chôro de parentes, sem nenhuma pompa funebre... como é que eu tinha morrido? Depois, independente da questão do céu e do inferno, aquillo lá pelo outro mundo não é satisfatorio. Antes de entrar nas regiões da perpetua ventura ou do infinito castigo eu não via senão caras tremendas, que nada tinham de commum com as expressões minhas conhecidas. Os que riam era com esgares terrificantes, boccas arrepanhadas e olhos de fogo que me faziam medo; os que choravam abriam taes guelas, e figuravam-se-me tão pavorosas as suas cabelleiras formadas de florestas, que me senti gelado, não podendo sequer encaral-os.
Não me faziam mal, não se approximavam de mim; mas eram desagradáveis companheiros na sua impavidez sinistra. Tambem, lá por esses espaços, que levianamente se chamam sideraes, eu não encontrava senão precipicios, abysmos sem fim, montanhas cujos pincaros a minha vista não podia alcançar. Por cima da cabeça tudo eram nuvens encastelladas e carrancudas, que deviam conter fogo e tempestades para myriades de seculos. Um raio de sol palpitante rompeu n’um momento esta espessura; mas isso, maiores saudades me fez, por me lembrar com entranhado amor tudo quanto tinha perdido de carinhoso e bom. Nunca senti como n’esse instante o preço da vida. A epopeia grandiosa da eternidade, attrahia-me muito pouco, não seduzia, com as suas magnificencias, a imaginação simples da creança. Por isso a minha anciedade, a minha tortura cresceu progressivamente. Nunca mais voltaria a gosar a tranquilla convivencia do rio, dos montes, das campinas e dos penhascos?!... O canto dos passaros, as paizagens floridas, o melancholico luar do outono, a exhuberancia da primavera, os gosos familiares, as festas, as vindimas, as amizades... tudo teria acabado para mim?!
Que tristesa, que amargura, que saudades me torturavam! As lagrimas cahiam-me em fio, sentia-me soluçar, a minha admiração pelos sublimes coros celestiaes, diminuia d’um modo consideravel. E tamanha era esta saudade e esta dôr que nem o aspecto patente do fogo da querida lareira, dos potes a ferver, dos salpicões pendurados diante dos meus olhos, me dava a precisa tranquilidade e resignação. Não me lembro mesmo se cheguei a considerar estas visões enganosas, como perfidos meios de transacção, para eu me habituar á outra vida. O meu desespero só fazia augmentar, sentia pungentissimamente quanto perdi. A minha chouricinha, que estava ali em frente de mim, já eu não a poderia saborear, em quanto que meu irmão, que era um vivo, havia de comer as duas e talvez muito regalado.
Principiava a reconhecer-me fatigado, exhausto de forças e ambicionava um momento de repouso. Visto estar morto, a tormentosa viagem atravez dos espaços infinitos havia de acabar. Decerto era este o pavoroso caminho da eternidade, que teria no fim o ceu ou o inferno. Bem sei que logo para começo podia ser o purgatorio, como logar de purificação; mas declaro francamente que esta transigencia nos soffrimentos não me foi muito consoladora. Talvez pelo receio de ter a vida cheia de peccados, julguei mais provavel não vir a ser um dos eternos habitantes do paraizo!... Estaria mais satisfeito, se o meu destino estivesse no ceu—atmosphera ideal, mais pura que o diamante, de cor mais serena que a perola, logar onde não ha noite, nem sombra, onde os cantos são perpetuos, como é perpetua e renovada de instante a instante a floração d’aquella primavera sem fim. No entretanto, se me fora licito ter uma opinião, haveria declarado preferir a todas as sublimidades ideaes, o continuar na terra contingente, com todos os seus males, desgostos e contratempos. Porem já que me achava no outro mundo desejava antes o paraizo do que o inferno, ou mesmo o purgatorio. Infelizmente este horrendo caminho que seguia, com a velocidade d’um cyclone, não me dava esperanças de me levar á patria eternamente luminosa e bella. O ultimo precipicio em que estava era d’um horrendo incomparavel. Por todos os lados a treva sem limites, e para o fundo um inconcebivel funil por onde ia resvalando!
Como no terrivel naufragio do conto de Poe, no qual todos os destroços eram engulidos pelo redemoinho infernal do Maelstrom, assim o meu corpo, o meu cerebro, o meu pensamento soffriam as torturas d’um movimento concentrico. Sentia que de instante a instante me apertavam mais e mais as paredes d’esta nova prisão. Descendo sempre estava cruelmente atormentado e os meus olhos cheios de pavor não percebiam a menor restea de luz. A minha existencia conhecia-a sómente pela dor d’uma perna onde cravára com desespero as proprias unhas. A superficie interna do funil era lisa a ponto de lhe não perceber o contacto.
Os circulos que eu descrevia eram cada vez menores, a ponto de para o fim redemoinhar em volta de mim mesmo, como se houvera um eixo material, servindo de ponto fixo. Evidentemente estava a chegar ao meu pavoroso e tetrico fim! Uma sensação de frio penetrava-me até á medula dos ossos, apesar de que, por uma inexplicavel contradicção, conservava no meu corpo viva reminiscencia do meu calor natural e procurava concentrar-me, aconchegar-me, metter-me por assim dizer, para dentro de mim mesmo.
Veio uma onda de calor que me lambeu a cara... Talvez o desmoronamento da pilha d’achas que formavam a fogueira. Esta sensação, de certo agradavel em outras circumstancias, poz-me em grande terror; pois que mais me confirmou na ideia da proximidade do inferno. Lá ia eu cahir n’esse fogo perpetuo, que tão horrendo antevira nas descripções dos missionarios! E apesar do pavor, irritava-me esta evidente injustiça d’um poder sobrenatural. Que peccados teriam commettido os meus doze annos, para merecerem tão severa punição? Já não tinha lagrimas, sentia-me anniquillado e sem força para me oppor. O meu incomparavel infortunio, não se limitava a perder o gozo da vida terrena, que tanto amava. E transigia covardemente: Se, ao menos, fosse trocar o mundo, a familia, os brinquedos, a caça aos pardaes, a pesca aos barbos, a minha chouricinha... pelo reino do ceu, vá lá. Não teria ganho, mas vá lá. Porem abandonar todas estas coisas sympathicas e ter para todo o sempre de gritar entre chammas, com o diabo a espicaçar-me e monstros horrendos a deitarem-me perpetuamente pelas guelas chumbo derretido, breu e azeite a ferver!... era o que eu não podia levar á paciencia. A grande afflicção em que me vi deu-me ainda um momento de revolta, que resultou d’uma onda de sangue novo que se me espalhou no cerebro. Por mais que esquadrinhasse na consciencia, por mais que posesse aberto e claro o meu passado insignificante, não me sentia merecedor de tão formidavel pena! Resolvi interpor recurso. Deus é infinitamente misericordioso e de certo me ouvirá—pensei. Alem de que eu tinha sobejos motivos para assim proceder, attendendo ao modo excessivamente escuro como correra o meu processo. Não me lembrava de ter apparecido na sua divina presença; não vira aquellas venerandas e compridas barbas, brancas como espuma do mar; não me recordava dos coros dos anjos e das virgens, nem das incomparaveis bellezas da celestial habitação... Quem sabe se eu ia para o inferno por engano! Quem me dizia não ser eu victima de manobras d’algum verdadeiro condemnado que tivesse tido artes de se trocar por mim?! A minha perturbada intelligencia comprehendia esta possibilidade. Por tanto—resolvi—levantemos um clamor bem alto, uma supplica formidavel, que alargando-se por este funil em que me acho, suba aos ouvidos justiceiros do bom Deus, grande e omnipotente. A convicção da minha innocencia, dava-me força para tamanha ousadia. E tomei enorme folego, enchi o peito d’ar, concentrei em mim todas as energias da terra. Da minha garganta sahiu um estridente brado que se dilatou pelos espaços! Ao mesmo tempo fugi pela cozinha fóra e fui-me agarrar a minha avó, que resava as suas contas encostada á janella. Contei-lhe toda a minha afflicção e os tormentos mentaes em que me vira. Ella reconheceu logo, bem como depois o confirmou um sacerdote nosso amigo, que este facto devia ser tomado como um aviso do ceu. Apesar da minha pouca edade, este toque divino, mostrava claramente que eu andava em peccado mortal. Uma confissão geral de todo o meu negro passado era urgente. Os esconjuros deviam completar esta obra de limpeza espiritual. Procedeu-se por esta forma e os exorcismos foram resados por um padre gallego, que era homem eminente em escorraçar demonios.
Janeiro de 86.
NOSSO SENHOR JESUS CHRISTO
(A Valentina de Lucena)
Entardecia. Como o brilho do sol desaparecera, uma illuminação egual ameigava a paisagem. Os ultimos soutos de castanheiros transmontanos, pareciam nodoas de relva nas encostas dos montes. A escuridade cahia lentamente sobre os povoados, como um tenue orvalho. A physionomia das terras, em especial dos arvoredos, principiava a ser minhota. Havia mais d’uma hora que a carruagem rodava por uma estrada em declive. Disse-me o cocheiro, que algumas casas e uma egreja agglomeradas n’um valle, na margem direita do Tamega, formavam a povoação de Ribeira de Pena. Montanhas severas e apocalypticas emmolduravam este bocadinho de campo, no qual eu principiava a reconhecer a paisagem querida dos meus primeiros annos.
Vinha só e sentia-me triste sem motivo. O continuado e monotono barulho da carruagem, o assobio dolente e vago do cocheiro, a amortecedora luz do crepusculo infiltrando-se por entre as penedias das encostas, os renques d’arvores do valle tinham-me lançado n’um estado de inconsciente melancolia. Já cançado da jornada, ainda me faltavam muitas horas para chegar ao Arco, logar onde ficaria essa noite. N’um estado intermedio ao somno e á vigilia, as ideias perpassavam-me no cerebro, umas vezes, como nuvens transparentes e macias recordando momentos d’agradavel convivencia; outras vezes, encastelladas e escuras, como são as ideias proprias d’aquelles que vão perdendo o contente palpitar da mocidade!... Oh! minha encantadora e modesta infancia, eu que sou um dos homens que mais tem rido, dize-me tu se já algum dia fui alegre, despreocupadamente alegre!...
Á ponta da noite, no momento em que á luz indecisa, os objectos tem adquirido um esfumado que os avoluma, a carruagem parou á porta d’uma taberna para se desaguarem os cavallos. Os meus nervos foram chamados á realidade com energia. N’um banco de pedra, d’esses toscos e muito usuaes que se encontram juncto das habitações dos camponeses minhotos, estava sentado um velhinho magro, tendo ao lado um saquito enfiado n’um páu e uma pequena almotolia d’azeite presa á cintura por uma correia. O seu rosto sumido era gracioso e terno como o d’uma creança; o sorriso natural, que lhe resaltava da expressão, parecia sahir d’um berço.
Havia o quer que fosse de inconsciente e ethereo, de amoravel e bondoso, no rosto d’esse pobresinho. Ali ninguem o conhecia; mas elle olhava para todos com uma attenção familiar e intima. Um porco atrevido roçava-se-lhe pelas calças, roncava-lhe junto á cara e elle afastava-o com humildade e carinho, dizendo-lhe até palavras de conselho. De certo os seus nervos delicados se encommodavam com aquelle grunhir insolente; mas nem por isso se mostrava menos attencioso, para com o bruto. Fallava a todos tão suave e brandamente que a sua voz semelhava um murmurio e uma consolação á cabeceira d’um enfermo. O seu olhar, d’uma tranquillidade de justo, prolongava-se pelo espaço infinito, quando olhava para o ceu. Os cabellos brancos, enquadrando-lhe o rosto pacifico, eram limpos, finos e fluctuantes como floccos de neve, tinham a transparencia do nimbo dos sanctos. Tocou-me aquella bondade, aquelle ar compadecido e altivo. Pareceu-me um pedinte e olhei-o com attenção antes de o interrogar. Elle sorria-se para mim, com a expressão d’uma pessoa que conversa junto d’uma lareira aldeã, quando a fogueira crepita e o vento uiva victoriosamente sobre o telhado. Sentia-me attrahido para elle e então perguntei-lhe mesmo de dentro da carruagem:
—Vocemecê vem de longe?
Parecera-me que sim. Os pés tinha-os doridos, talvez d’uma longa caminhada. Estava alli a descançar. A dona da taberna disse que o não conhecia e que não era das redondezas. O velhito, como eu lhe fallei, levantou-se sorrindo e approximou-se. E n’um tom de mysterio, para que mais ninguem o ouvisse, segredou-me:
—Se venho de longe? De muito longe. Nem eu mesmo o sei.
Tomei estas palavras como de soffrimento resignado e tive piedade.
Não sabia d’onde vinha, estava alquebrado pelo cansaço e não encarecia as suas dores para me pedir esmola! Conheci-lhe pela expressão dolorida do semblante, quando pôz os pés no chão para me vir fallar, que andára muitas leguas a pé. Talvez para ir ver uma filha enferma! talvez para exprimir outro grande affecto que lhe restasse no coração! Tantas terras percorrera, que até a sua memoria enfraquecida pela edade não retivera os nomes! Ter-se-hia perdido no caminho?...
Insisti com modos de incredulo:
—Essa é boa! Então não sabe d’onde vem?
Olhou-me com ar sereno e firme como de quem tinha dicto uma coisa perfeitamente exacta.
—Não senhor. Ninguem sabe!...—segredou-me com extrema reserva.
E acrescentou sorrindo intelligentemente:
—A mim ninguem me conhece; mas eu conheço todo o mundo. Bem sei quem o senhor é... É o senhor conde. Ah! cuidava que não sabia?...
No rosto do pobresito appareceu uma aurora de triumpho. Para lh’a sustentar perguntei muito baixo:
—Mas como advinhou? Quem foi que lh’o disse?
A enormidade do seu poder reconheci-a no desdem superior com que me olhou. Continha lá dentro infinitos thesouros de sabedoria e perspicacia, á qual não resistiam os insondaveis mysterios do amplo ceu. Quem era eu, um misero conde, diante d’aquella omnipotencia que considerava o globo terraqueo como uma insignificante bolinha de pão?! Na minha tristesa e confusão devia-se reconhecer que o comprehendi; pois que o velhinho, para me consolar acrescentou:
—Eu sei tudo, advinho tudo. Se não digo d’onde venho é porque ando por todo o mundo. Agora ahi vou eu para Hespanha ver se componho aquillo e se acabo com todas essas questões que por lá vejo. Levo aqui—designou o saquito—os papeis e livros necessarios para dar luz e felicidade a todos—sublinhou.
Entristeceu-me ver tamanho valor e convicção reunidos n’um corpo assim fragil. Pedi-lhe com interesse e bons modos que me deixasse examinar os seus thesouros. Accedeu da melhor vontade abrindo primeiro o sacco d’estopa, dentro do qual estava um de panno preto, contendo ainda outro de chita de ramagens. O cocheiro e a dona da taberna aproximaram-se ironicamente para disfrutarem o pobre; mas elle, com um verdadeiro olhar altivo e nobre, afastou-os significando, que taes segredos não eram para espiritos grosseiros e motejadores. A meu pedido os indiscretos retiraram-se e por fim o pobresito mostrou-me envolvidos em farrapos e bem ligados com fitas de cores e cordeis, tres velhos alfarrabios em lingua hespanhola e algumas folhas manuscriptas, d’uma lettra amarella e inintelligivel. Pelo meio havia folhas seccas de castanheiro, algumas flores mirradas e pequeninos ramos d’alecrim. Examinei com escrupulosa attenção estas preciosidades, dando-lhes grande valor! Elle seguiu todos os meus gestos e movimentos faciaes com olho sagaz e aspecto orgulhoso. Quando lhe entreguei as suas preciosas reliquias, encarecendo-lhas elle concluiu:
—Já o senhor conde vê que não é ninguem ao pé de mim.
—Oh! de certo!...
E depois que já tinha guardado os seus livros e papeis inestimaveis perguntei-lhe:
—Mas como vem de muito longe deve trazer fome. Quer que lhe dê alguma coisa?
Sem altivez respondeu:
—É da lei acceitar sempre a esmola. Fome não tenho. Ando por aqui ha um rôr de seculos e nunca senti fome.
E com um sorriso delicioso, como quem faz uma revelação:
—Isso é para vocês que são d’este mundo. Para mim não, que não sou de cá.
—Ah! vocemecê não é de cá?
—Eu sim!...
E sorriu-se da minha estupidez, da minha falta de comprehensão, abrangendo n’um infinito olhar toda a amplitude da terra ao ceu! Habitava essas regiões ideaes e interminaveis do azul, suspenso na serena ondulação do ar, e bafejado da poeira brilhante da luz. A expressão humilde e conformada do seu rosto, a grandesa e compaixão que lhe resaltava da voz fraca e singela, o seu triumphante sorriso de tranquillidade... convenceram-me de que este velhinho resumia em si uma entidade poderosa. Quem julgará elle representar n’este mundo?—perguntei a mim mesmo. Talvez algum sancto milagroso, algum lobis-homem das lendas, algum bruxo afamado entre o povo!... A convicção da sua immaterialidade e do seu immenso poder reconhecia-se que a tinha, pelo tom desdenhoso e superior com que se referia a tudo que o cercava. D’elle só veriam sahir protecção e bondade:—os beneficios que um acto rudimentar do seu querer podia espalhar sobre a terra eram incalculaveis. Um simples designio da sua vontade tornaria os homens eternamente felizes ou desgraçados. Não comia, não se cançava, não havia ponto na terra d’onde tivesse partido ou que devesse occupar...—o mundo, o ceu, os espaços inconcebiveis eram a séde da sua ubiquidade. Nem a dôr, nem o falivel o tocava. A misera fraquesa humana não a sentia, a contingencia do globo merecia-lhe um pensamento compadecido. Sereno e grande vivia no seu reino especial!...
Qual seria pois, o personagem imaginario que este velho magro, de rosto sumido, alegre, bondoso, expressão de soberba e de compadecido, julgava representar? Perguntei-lh’o com a premeditada cautela que elle empregava nas suas palavras:
—Então quem é vocemecê?
—Pois ainda não advinhou?! Olha bem para mim creatura!... Nosso Senhor Jesus Christo!
E fixando-me com tremenda piedade concluiu:
—Ando aqui para os salvar a todos.
Dei-lhe uma esmola. O pobresito retirou-se serenamente, depois de me recommendar:
—Agora caluda, por causa d’esta gente. São hereges, não acreditam.
Janeiro de 85.
O CEGO DE GUARDIAM
Logo que expirou o cunhado, José Domingues cahiu n’um scismar atormentado. Só elle comprehendia a grande desgraça que n’esse dia entrára na casa de sua irmã, pobre mãe de cinco filhos, que tinha para os sustentar, unicamente uma roca. Lembrou-se de os trazer todos para onde a si; mas como poderiam viver tantas pessoas com duas pipas de vinho e um carro de pão? A pensar n’isto se consumia o pobre José Domingues, e aquelles olhos cegos desde tenra infancia, estavam grossos como punhos de tanto que tinham chorado. Até perdera o gosto á rebeca, prenda que seu tio frade lhe deixára, juntamente com as territas de que vivia. A comida entrava-lhe na bocca só á força, depois de muito o apoquentarem. Como toda a gente o estimava em Guardiam, iam alli pela eira pessoas conversar com elle, dando-lhe consolações e conselhos, coisas de pouca valia, pois não produsiam alimento para os sobrinhos. O seu amigo Miguel Tinta, trouxe o violão uma noite, para lhe acompanhar a rebeca; porem o cego é que não estava para tocar.
—Que queres, não posso. Tenho aqui um peso de seiscentas arrobas—rematou arrepanhando o coração.
Mas como algumas raparigas, com o fim caridoso de o tirarem d’aquelle malucar, lhe pediram insistentemente, José Domingues tocou umas musicas tristes, muito populares e queridas d’aquella gente. Foi n’esta occasião, que o Miguel, sentindo o cerebro illuminado por uma ideia, disse com enthusiasmo:
—Ouve lá. E se nós fossemos por ahi abaixo ambos! Não se ganharia alguma coisa?
Todas as pessoas presentes acreditaram que sim e applaudiram com estrepito a lembrança. Só o rabequista não tinha grande fé, pois disse:
—O que, a tocar? Uh!...
—Hade haver muito quem vos queira ouvir. Tentar fortuna é sempre bom prophetisou emphaticamente Zé Maximo, o barbeiro.
Resolveram-no logo alli. Os dois mais interessados planearam a coisa detalhadamente, mencionando as terras que percorreriam e as musicas que haviam de escolher. Uma manhã de primavera, partiram com o sol rubro no horisonte. Andaram por fóra alguns mezes e quando voltaram vinham satisfeitos, porque traziam um bom par de moedas na algibeira. Foi uma alegria para aquella gente, mormente para José Domingues, que ao entregar o dinheiro á irmã pulava de contente, com os sobrinhos todos em volta a agarrarem-se-lhe ás pernas. No forte das suas expansões, o cego, planeava uma vida d’abundancia: queria que se comprasse um porco para matar n’esse anno e mais um bácoro, para o seguinte.
—N’esta casa!—com seiscentos diabos!—hade tornar a haver salgadeira e fumeiro, como antigamente—affirmou.
Foi este o começo da vida de tocador de rebeca, que tão popular fez o cego de Guardiam, em toda a provincia do Minho.
O seu nome chegou mesmo á cidade do Porto. Quem fallasse no ceguinho designava logo José Domingues. A expressão persuasiva e bondosa do seu rosto tornava-o attrahente e querido. Ou tocando a chorosa rebeca, ou a cantar modas alegres, ou a gracejar com as raparigas, era sempre comedido e delicado; por forma a ser cubiçada a sua presença. De todos os cegos pedintes e trovadores, só elle gosava de verdadeira sympathia. Chamavam-no a muitas casas para o ouvir e, alem da paga, offereciam-lhe vinho e marmelada. Tambem elle não se parecia com nenhum d’esses tocadores de sanfona, lamorientos e porcos. Sempre limpinho:—vestido de briche; camisa lavada; botas de cano, toscas e fortes; a mão apoiada no hombro do companheiro; o extincto olhar voltado para o sol; assim percorria a provincia. Tinha o seu orgulho d’artista e de pequeno proprietario—nunca exaltou ou fingiu miserias e necessidades para provocar compaixão. Acceitava o que lhe dessem, fosse muito fosse pouco, agradecendo tudo com um sorriso. O que ambiccionava principalmente era que o escutassem com religião e amor. Se havia pelas janellas senhoras formosas, em quem presumisse melhor comprehensão da musica, o Miguel advertia-o; pois que n’essas circumstancias, o arco de José Domingues, tinha movimentos expressivos, alma enthusiasta, e coração de poeta.
Que ideia faria elle da formosura!...
Fora tão cedo, logo no começo da infancia, que perdera a vista!... As suas recordações não podiam deixar de ser pedaços de mundo dispersos, mal definidos, impressões fugitivas, como as da luz no pôr do sol. Comtudo na viva e larga imaginação, era certo que lhe esvoaçavam encantadoras imagens. A meiguice do sorriso, a bravura da expressão em certos momentos, fazem-no presumir. Quando acreditava que a sua alma, a sua rebeca, estava fazendo palpitar algum coração de mulher, o rosto bexigoso e feio, animava-se-lhe triumphantemente, como uma aurora. Parecia que tinha um resplendor, que respirava n’um circulo de luz propria.
É porque elle instinctivamente calculava que áquella expanção de sensibilidade que lhe vibrava nos proprios nervos, corresponderiam outros efluvios em nervos mais delicados. E a potente voz da arte embravecia-lhe a natureza cheia de candura, transformando o humilde cego, n’um ente dominador e altivo. A proximidade da mulher, a sua inflexão meiga e dolente, amansava d’um modo absoluto, qualquer aspereza d’este homem, que nunca lhe pudera calcular a pureza das linhas. Talvez isto fosse por conhecer a dolorosa historia de seu tio frade, que morto aos septenta annos, conservára até á ultima, o amor d’uma imagem extincta, evocando-a aos sons da mesma rebeca, que José Domingues tocava!
Esse tio egresso fôra o seu educador e o seu amigo. Homem de viver em si, conhecendo a musica e as lettras, ensinara-o a tocar, e transmittira-lhe a alma que possuia. A doce affabilidade de convivencia com esse bom velho, introduzira-lhe no coração sentimentos preciosos de humildade. Despresar os bens terrenos, para se confortar nos gozos interiores, fôra o que esse obscuro evangelista sempre lhe aconselhára, como meio de se oppor á desgraça e soffrer com valor as agruras do mundo. Por isso, elle acceitou em toda a conformidade, esta vida de tocador ambulante, por mais que ella fosse contraria, ao seu quietismo aldeão. Ainda assim tinha a impellil-o n’este vagabundear de terra em terra, o seu caracter impressionavel d’artista. O fanatismo com que todos o ouviam em Guardiam, em Refuinho e n’outros logares, por vezes lhe levantára as ambições e sonhára com publico mais numeroso e selecto. Porem nunca pensára em sahir da sua aldeia, e do adro da egreja, onde nos domingos, depois da missa conventual, até o abbade parava a ouvil-o. A donzella abandonada, o Marinheiro e o Cão fiel eram algumas das poucas cantigas que n’esse tempo conhecia. Exprimia-as com tal sentimento e candura, que era frequente perceber-se o chôro d’algum coração de rapariga enamorada e sensivel, que encontrava nas palavras da canção qualquer lembrança pungente. Então o José Domingues, que era galhofeiro dizia:
—Quem diabo está ahi a fungar, a rir-se da minha rabeca? Anda cá menina que elles não te entendem!...
E beijava-a repetidas vezes, balouçando-a contra o seio, acariciando-a como terna mãe acaricia um filho. Isto dava sempre bom effeito, alegrava os ouvintes, tornava-os communicativos e contentes. Para que todos bailassem, o cego, tocava-lhes a Canninha verde, a Maria Cachucha, o Afasta janota, arreda, e os rapazes acercavam-se das raparigas, formando logo a roda.
Se o Carvalhosa presenciava, nunca deixou de dizer com sorriso de consentimento e um dedo no ar:
—Moços! juizo, ouviram? Muito juizinho.
Agora que andava de terra em terra, a força de sympathia e attracção do José Domingues dilatou-se por muita gente. A sua pequena estatura, a magresa do corpo, a expressão terna, o olhar fixo e indefinido sempre voltado para a luz, a delicadesa natural e a suavidade das suas fallas, a inspiração muitas vezes caudalosa e atormentada da sua rabeca... tudo se fixou na imaginação collectiva, com traços vigorosos e duradoiros. Elle é que levava pelo mundo a sua fama. Todas as terras o estimavam e queriam a ponto de se fallar com antecedencia da vinda do cego de Guardiam, que tinha epocas determinadas e fixas, para os diversos pontos da provincia. Se tardava uma semana, isso era logo motivo de reparo. Preoccupavam-se com a ideia de que estivesse doente e nem queriam suppor que tivesse morrido. O seu apparecimento era considerado como o das aves cantoras na primavera, que preannunciam os bons dias e as flores. Por isso era recebido com verdadeira satisfação este portador de novas canções e, principalmente as raparigas do povo, saudavam-no com alegria expontanea e sincera. Parava a conversar com pessoas de diversas cathegorias, e sempre lhes narrava coisas novas em que os interessava pela simplicidade da sua palavra.
Estas jornadas, pelos ensombrados caminhos da provincia, começava-as no principio d’abril, quando os pampanos rebentam e parecem olhos de satyros a rir de todo o mundo. O inverno passava-o em casa, junto do lar crepitante, no meio dos sobrinhos, que lhe enchiam a alma de gosos paternaes. Havia magustos com estoiros de castanhas e o bom rascante, colhido nas videiras que lhe legara o tio frade. Havia a matança do porco e a consoada, que eram festas salutares e bulhentas. A neve embranquecia os montes sobranceiros, a rispida nortada esfuziava, ás lufadas, pelo valle. Era preciso cada qual acercar-se da fogueira para assim ludibriar a furia dos elementos, que zombeteavam cá fora. José Domingues com a sua modestia bem provida do necessario, dizia aos sobrinhos, quando tinham medo do trovão:
—Deixa lá, é a musica do pae do ceu.
—Gosto mais da rabeca do tio Zé. A musica do pae do ceu, não presta—observou um de oito annos.
—É zabumba—considerou philosophicamente outro de menos edade.
A primavera fazia-o sahir de Guardiam acompanhado do Miguel. Tinham um jumento para levar o vestuario e o presigo dos primeiros dias. Durante as chuvas, como os pintasilgos, tinha a voz amortecida. Só a fragancia do ar tepido e balsamico o fazia cantor. Sentia, como os que tem bons olhos, que a natureza se subtilisava para a festa grande da creação. No fermentar estrondoso das sementes que rebentam, estava a sua paisagem florida. As canções d’esta epoca, o Regadinho, o Pintalhão eram vivas, travessas e maliciosas. As do outono eram melancolicas, arrastadas e dolentes, sentindo-se no arco da sua rabeca certa preguiça, e o sentimento das vozes ternas, que vem de longe pelas corgas dos montes. Havia n’esses cantos, notas flutuantes que pareciam folhas amarellentas vagueando no ar, impellidas pelo rigido nordeste. Se na volta d’um caminho percebia alguma cantiga sahida de pinheiral rumuroso, parava escutando e, ás vezes, rebentavam-lhe lagrimas. Aproximava-se o tempo de recolher a casa, ás consolações da familia. Lá voltava a Guardiam com a imaginação cheia de lembranças alegres. No logar era festivamente celebrada a sua volta e, rindo e chorando, José Domingues abraçava com effusão e verdadeiro prazer todos que se lhe approximavam. Dançava, pulava, atirava o chapeu ao ar, como uma creança!
É que se sentia entre corações d’amigos.
N’um d’esses periodos d’inverno, que passára junto dos seus, ouviu ler na gazeta que o padre Carvalhosa emprestava ao mestre-eschola de Guardiam, que estava em Lisboa e talvez viesse ao Porto e a Braga um rabequista celebre a quem chamavam pomposamente o «primeiro violinista do mundo».
—Olhem que não tocará melhor que o nosso José Domingues—affirmou enthusiasta e patrioticamente o professor.
—Ora, senhor José Fortunato, nem diga isso. Eu, um pobre estupido, posso lá!...—respondeu com modo agradecido.
—Deixa-te de tolices, homem. Olha que eu com os sessenta e cinco que já conto, nunca ouvi como Frei Gonsalo. E já fui uma vez a Lisboa, com o fidalgo de Refuinho, quando elle era vivo.
—Lá isso, maior que meu tio, não acredito que haja. Devo-lhe a alma que tenho—confessou commovido.
José Fortunato ainda acrescentou:
—Olha que lá as meninas (as de Refuinho) estiveram no Porto com o tio general. Presencearam por lá grandes coisas e disseram-me que antes queriam ouvir o José Domingues.
—Isso são umas santinhas. Eu sou um pobre cego, não sei nada, senhor José Fortunato.
—Não sabes nada? Sabes tudo, tens d’isto—rematou o mestre-eschola, batendo uma punhada sobre o coração.
O mais velho dos sobrinhos do cego, comprehendendo tudo pelo instincto, atirou a carapuça ao telhado, gritando:
—Viva o tio Zé Domingues e a sua rabeca!
—Viva! viva!—acompanharam os outros.
Mas o rabequista, ficou a scismar no que seria, essa maravilha tão apregoada pela gazeta. Que poder, que attracção teria no seu arco, esse homem que era superior a todos os que havia no mundo! Na sua mente ingenua, apresentou-se logo uma figura aureolada de sol, dominando a multidão dos admiradores que o applaudiam. Um publico de fidalgos e mulheres ricas é bem differente do seu, que era rude e casual. Haveria fragor de enthusiasmo, comprehensão vasta n’esse theatro em que as luzes faziam sobresahir a opulencia. A apotheose alargava-se até aos confins da terra e o artista victoriado levantava-se até ás nuvens... A alma calorosa do cego de Guardiam, sentia-se enebriada com esse imaginado triumpho, a commoção manifestava-se nas lagrimas que lhe apontavam. E batendo uma palmada no joelho disse com resolução:
—Pois ainda não hei de morrer sem ouvir uma coisa d’estas!
N’esse momento chegou o Miguel Tinta a quem perguntou:
—Queres tu ir comigo a Braga ouvir o tal home?! Talvez se lhe possa tirar alguma coisa.
Sempre fora este o seu processo d’aprender e progredir. Musica que ouvisse logo lhe ficava. Tinha no Porto e em Braga, quem lhe arranjasse versos apropriados. Ás vezes mesmo, lhe ministravam musica e lettra, o que valia oiro sobre azul. Entrava em todas as egrejas onde ouvisse tocar o orgão e era assiduo perto das bandas militares, quando soubesse que tocavam em publico. Se qualquer musica lhe calhava, elle e o Miguel tractavam logo de lhe applicar versos dos que sabiam e assim chegaram a popularisar canções, como aconteceu áquella que principiava:
Veja lá menina
Se levanta a saia
.................
a qual toda a provincia decorou. Algumas vezes aconteceu aristocratisarem-se as suas modas até chegarem ás salas de provincia, e então José Domingues ouvindo-as celebradas em piano dizia com orgulho:
—Vê lá Miguel. Aquella trouxemol-a nós.
A noticia que ouvira ler na gazeta do padre Carvalhosa, sobresaltou-lhe o coração, cheio de enthusiasmo pela musica. Era rigoroso dezembro; o frio enregelava as carnes; as neves cobriam os montes; o ceu, estucado de nuvens côr de lama, tinha uma immobilidade sombria. Os caminhos estavam intransitaveis, muita gente lhe aconselhou a não fazer a jornada; mas elle, logo que soube que o afamado rabequista chegára a Braga, resolveu o Miguel e partiram. Era como uma peregrinação religiosa. De tempos a tempos, José Domingues soltava seus ais admirativos e dizia para o companheiro:
—Mas como será este home, que é o primeiro rabequista do mundo?
Miguel observou scepticamente:
—Quem sabe lá! Isto de gazetas, consentem o que lhe põem.
—Não, não. Deve ser coisa de respeito!—considerou absorvido na sua ideia.
Logo á entrada da cidade, perto da egreja de S. Vicente, procuraram um estudante de Guardiam, com o fim de lhe pedirem esclarecimentos. Souberam que tudo quanto se dizia era verdade, que o senhor arcebispo, tendo escrupulos de ir ao theatro, convidára o famoso artista para tocar n’essa noite no Paço. O estrangeiro accedera, para conquistar as sympathias do prelado e do publico.
—Ó senhor Joãosinho—supplicou José Domingues—eu queria ouvil-o. Não me poderá arranjar um buraco no palacio do senhor arcebispo? Eu arrumo-me em qualquer parte. Um buraco que seja, menino.
Não foi difficil obter esta infima posição. O estudante era amigo d’um famulo de sua excellencia, o qual pôde esconder o cego n’um vão de escada, proximo do logar onde se realisaria o concerto. José Domingues levou comsigo a rabeca, pois desejava apertal-a sobre o peito para melhor comprehender a musica. Tiveram de o introduzir de dia, n’um momento conveniente para não ser presentido. Durante umas seis horas, esperou que chegasse o instante. Encolhido, quieto, respirando brandamente para não dar rumor de si, alli se conservou. Perto da noite, accometteu-o uma sede furiosa, que supportou heroicamente, sem o menor arrependimento.
O famulo que alli o introduzira, veio n’uma furtadela perguntar-lhe se estava bem e o cego respondeu agradecido:
—Ricamente, meu senhor. Só tenho uma sêde!...
Satisfeita esta necessidade ficou n’um paraizo. Momentos depois entrava tudo quanto havia de selecto na sociedade bracarense. A alta clerezia appresentou as suas familias respeitaveis. O general, o governador civil, o commandante do 8, o juiz de direito, administrador do concelho, delegado, professores do lyceu, trouxeram suas esposas e filhas. Ondulava um murmurio de vozes e de sedas, e José Domingues ouvia pronunciar nomes consagrados, que toda a vida respeitára humildemente. Isto augmentou no seu espirito o valor d’aquella festa, tornando-a imponente. Era um deslumbramento e um ceu aberto o que principiava a despontar na sua imaginação. Agarrado a sua rabeca, apertando-a contra o seio, estremecendo-a como se fora um ente animado, estava commovido. Ia-se verificar a apotheose d’um seu irmão, e elle identificava-se com a gloria do artista que não conhecia. Entrou o prelado. O cego deu conta d’esse facto pelo recuar de cadeiras e pelos comprimentos. Pouco depois chega o rabequista e a curiosidade da parte dos assistentes produziu um sussurro maior, que immediatamente se acalmou, seguindo-se um silencio de mar que se esbate sobre a areia.
Logo que os primeiros sons da rabeca encheram a sala, a alma de José Domingues sentiu-se arrebatada para um horisonte largo. Dos seus olhos sem vista, irradiaram fulgurações d’uma belleza sideral. Erguendo-se no amplo espaço com a pujança d’um crente, a sua imaginação livre, vagueou na larguesa sem fim, n’um redemoinho d’harmonias, que o impelliam como ligeiro farrapo de nuvem. Toda a miseria terrena desaparecera para elle. Não estava n’um buraco, como cão despresivel, socio e companheiro de ratos: aos seus olhos apparecia um amplo salão, ornamentado de riquezas e de mulheres formosas. Esquecera-lhe o rouco uivar do vento sobre a telha vãa da sua pobre casa, os caminhos enlameados e cheios de poças, os encontros por vezes desagradaveis da sua vida de tocador.
Quando a rabeca tinha momentos alegres, extravagantes, buliçosos, José Domingues ia indo n’aquella toada e vinham-lhe á mente coisas loucas e pueris: dançava em volta d’uma fogueira, abraçava as raparigas que lhe fugiam aos gritos, ouvia repiques de sinos, e ao longe, a multidão festival passava para a romaria. Se era a dolencia das musicas hespanholas, entranhadas de sentimento arabe, expraiando-se brandamente, como as mansas aguas do Mediterraneo, os seus nervos sentiam uma paz infinita, quasi um torpor. A visão paradisiaca d’uma primavera só formada de cantos de passaros e de perfumes d’hervas e de flores, como elle a contemplava n’esses momentos, era mais intensamente bella do que a paisagem das amendoeiras e dos campos cheios de trevo e de malmequeres brancos.
Mas o seu pendor, a tendencia da sua alma, era para todos os trechos lacrimosos, d’uma plangencia terna que se abrissem largamente em espaços constellados. Não valiam tanto os rouxinoes e os melros no meio silencioso das mattas, e o rio murmuroso ladeado de choupos. Corriam-lhe em fio as lagrimas e apesar dos applausos dos ouvintes, José Domingues sentia que elles não comprehendiam bem aquella musica. Se elle podesse, entraria de joelhos na sala, para beijar os pés do grande artista mostrando-lhe a sua admiração, n’um chôro copioso e enthusiasta! Rastejar pela terra como humilde verme, era o modo que a sua rudeza achava bastante expressivo, para glorificar aquelle seu irmão. Porque não procediam assim esses homens que o ouviam? Vinham-lhe suffucações de colera contra os que se não levantavam em extasis d’um enthusiasmo viril e ardente como o seu. É que não tinham alma para sentir. Elle humilde, obscuro, rude, apertado entre as paredes d’aquelle buraco, era-lhes superior, comprehendia o que elles não podiam comprehender, tinha em si um thesouro, que nem todos os thesouros da terra podiam egualar. Vibravam-lhe no cerebro os echos d’aquella musica, a sua commoção era grande, os soluços que não podia evitar apanhava-os nas mãos para não serem percebidos, com medo de perturbar aquella musica celestial!
Todos estes sentimentos augmentaram de intensidade, e no coração repercutiram-lhe os fremitos magestosos d’uma epopeia, quando os primeiros accordes da «Ave Maria» de Gounod se fizeram ouvir. Na sua imperfeita comprehensão, não se destrinçavam claramente as bellezas accumuladas no famoso trecho. Vinha-lhe tudo em globo, tumultuariamente, como se a lendaria figura da morte o arrebatasse n’um instante, levando-o por ermos desconhecidos, onde a sensibilidade fosse outra. N’aquella ondulação luminosa d’harmonias, sentia-se crescer, vencia espaços incommensuraveis, passava gloriosamente sobre altos montes, ia em rapido vôo sobre o mar tormentoso, para no fim parar em regiões serenas formadas de luz e melodia. Arrepanhava as carnes procurando a realidade na manifestação da dôr; mordia os punhos a ponto de fazer sangue; queria gritar e não podia; agarrava-se energicamente á sua querida rabeca, n’uma effusão de ternura e o seu coração não se apasiguava nunca! O canto angelico e suave crescia em profundeza, augmentava em area—era como uma palpitação infinita. O cerebro de José Domingues enchia-se de carinho, o enthusiasmo suffocava-o, anniquilava-lhe as forças. E lá era levado de novo, subindo até ficar sobranceiro ás nuvens, conhecendo instantes de paz e de tortura, chorando, sorrindo, estorcendo-se no chão como uma cobra ferida.
Os bravos e as palmas d’esta vez foram mais estrondosos. Prolongaram-se porque era o agradecimento final. Porem, todo esse ruido não pôde dominar um doloroso grito, forte como se sahisse do peito d’Othelo n’um arranque de ciume, meigo como se fora o ultimo queixume da rola Ophelia.
Ficaram rapidamente silenciosos e perplexos os espectadores. Um soluçar ancioso continuou e para o logar d’onde elle vinha se dirigiram as pessoas interessadas em tamanha dôr. N’aquelle buraco escuro, de bruços sobre a rabeca que esmigalhára, estava o cego de Guardiam, que não poderam mais chamar á vida!
Janeiro de 86.
A VELHICE D’UM REI
Sentado na larga poltrona de seda azul, o monarcha conversava em voz pausada e lenta. Uma graciosa imagem da Virgem, talhada em marfim, por desconhecido artista da Renascença, dava-lhe ensejo de explicar a velhos amigos, como conjecturava, que teriam trabalhado aquelles talentos singulares, creadores de tantas maravilhas. Tenuissima nuvem de paz, de conforto, de luxo estudado, pairava sobre este ambiente, tornando-o em região intermedia á riqueza mundana e á severidade do gabinete d’um sabio obscuro. No rosto sereno do rei, havia o orgulho do nascimento e a tristeza propria dos annos. A sua longa barba branca, objecto de veneração em todo o paiz, era até commentada entre a gente rude dos campos. Quasi a tinham como symbolo de orgulho nacional, pois com jactancia affirmavam não haver outro rei com barba tão longa, tão linda e tão branca.
A vaidade das coisas realengas—orgulho natural nos paços doirados, sentimento peculiar dos que soltam os primeiros vagidos sentados n’um throno—diziam que a não tinha. A abnegação e o desprendimento de todas essas pompas eram-lhe attribuidos com meiga sympathia entre as classes populares, que são as que melhor comprehendem as inclinações democraticas. Elle abdicára em seu herdeiro o poder de que disposera durante muitos annos e havia praticado esse bello acto sem ostentação e logo que o principe chegára á maioridade. Adquiriu a liberdade de homem, entregando-se ás suas collecções artisticas, aos prazeres da caça e á conversação intelligente. Perdia-se dias inteiros na espessura das mattas reaes, sempre poeta, contemplando a luz e vivendo intimamente na absoluta natureza silenciosa. Para ser um bom rei, querido e estimado, até muitos o diziam generoso e esmoler.
Porém, nem todas as pessoas tinham esta opinião benevolente. Alguns revelavam que fazia sentir as suas dadivas, fallando d’ellas. Censurava os gastos de muitos que os não podiam fazer, tinha a opinião de que a sua bolsa não era inexhaurivel. Egoista e reparador—chamavam-lhe. Desfazia com palavras, alguma generosidade que praticava. Apontavam como impropria, a ponta d’avareza que esboracava o manto real. Um soberano amesquinha-se fallando de coisas tão vulgares. Era o que faltava que procedesse d’outra fórma. Não fazia o povo muito mais pelo rei, do que o rei pelo povo? Qual era o azeite e o vinho que produsiam as extensas coutadas que a nação lhe dispensava para os seus divertimentos?!...
Depois a velhice tornara-o rabujento. Os camaristas para lhe entreterem as insomnias, tinham de colher ou inventar episodios escandalosos. Era fatigante a sua exigencia nos detalhes e torturava-os com repetições. A surdez obrigava-os a servirem-se da corneta acustica para lhe fallarem. Havia perguntas e respostas disparatadas, situações grotescas que depois se desfaziam em motejos nas ante-camaras. A consciencia d’estes factos entristecera-o e só a muito custo lhe tiravam um sorriso, um ar de approvação. A sensibilidade embotára-se-lhe com a velhice e só historias picantes, difficeis de inventar, conseguiam distrahil-o.
A rainha,(tratavam-na assim por deferencia, só dentro do palacio) esposa morganatica do rei, senhora ainda forte, saudavel, com vida para gastar, abandonára-o n’este periodo de doença, sob pretexto de que elle estava mais satisfeito entre os seus amigos. A falta d’um contacto feminino, que lhe enternecesse a organisação, fizera variar aquella sensibilidade que fôra delicada e exigente. Só episodios burlescos, onde apparecessem mulheres adulteras, maridos comicamente trahidos, creadas servindo intrigas amorosas, homens escapando-se de gatas por telhados... é que lhe enchiam o vasio das longas insomnias. Alguns dos seus camaristas eram rapazes de sangue ardente, creados n’uma vida ociosa e delicada. Passavam um aborrecimento n’aquelle palacio de grossas muralhas. O que lhes valia era a conversação das companheiras da rainha, senhoras formosas, muitas gentis, todas de uma educação esmerada. Desanuviavam-se reciprocamente d’aquella vida pautada e monotona, fazendo má lingua, fallando da sociedade com a liberdade de parentes e camaradas. Um ou outro de apetites mais grosseiros, preferia abraçar nos corredores sombrios as simples creadas, mulheres de carnes saudaveis, sangue plebeu e revolto, que enchem a existencia d’alegrias. As provas de tão insignificantes delictos estavam nos beijos a cantar na escuridade, nos vultos a fugir cautelosos, nas palavras de carinho apanhadas avulsamente n’um perpassar rapido.
Um dia, o medico de serviço approximou-se do rei para lhe tomar o pulso. A um contrahir facial de suspeita do facultativo acrescentou o monarcha:
—Não passei muito bem a noite, não.
Tivera soffucações, maus sonhos, um dormir inquieto. O doutor applicou-lhe demoradamente o ouvido á região cardiaca, concentrou-se n’um raciocinio e quietou o doente com o sorriso profissional. Nervoso, talvez a maldita dyspepsia—esclareceu.
Porém logo se dirigiu aos aposentos da rainha a informal-a da gravidade e adiantado da molestia. Poucos minutos levou, para o mais humilde serventuario do palacio saber que o soberano padecia d’uma lesão. Era coisa já antiga e sómente os ultimos gelos a tinham aggravado. Congestões abdominaes e no figado haviam obrigado aquelle velho coração a empregar, nos ultimos tempos, um grande esforço para impellir o sangue até aos confins do corpo. Um coração delicado de rei, batendo sempre moderamente debaixo de lendarios arminhos, logo que sentiu resistencia ao seu poder, entristeceu; principiou a condescender, a sobrecarregar-se; dilatou-se; adelgaçou... e a terrivel aneurisma estava proxima a romper-se.
—É como se o monarcha, sentisse contra o seu poder providencial a revolta dos seus vassalos—comparou o medico, com delicadeza de phrase.
Tal acontecimento impressionou diversamente. Não havia unanimidade de sentir, nem de crença. Todos viam que o rei continuava a conversar na sua voz pausada e fidalga. O doutor era homem sabio e respeitado, mas podia enganar-se.
—A sciencia humana—disse um velho de sorriso sceptico—é fallivel. «A mais aguda, segundo o poeta, é ignorancia cega ante a divina». O aspecto de sua magestade não é para sobresaltos.
—E a edade?—argumentou outro.
—Sim, a edade é condição desfavoravel—rematou o primeiro.
Alguem notára, que nos ultimos tempos, o rei, outr’ora tão expansivo, se callava frequentemente, levando a mão ao peito quando desejava respirar mais fundo. Porém acreditavam ser o cansaço de estar sentado, o aborrecimento de viver no quarto e a tristeza da maldita surdez, que parecia não ter cura. Que se levantasse algumas vezes, que fosse até á larga varanda admirar a primavera que principiava a romper nos campos e veriam, como logo adquiriria vigor, como os olhos se lhe alegrariam.
Os do pessoal menor do palacio, que tanto como outros viviam da munificencia regia, preoccupavam-se, para o caso da morte, com o theor do testamento. Alguns esperavam d’alli uma especie de liquidação vantajosa da propria fortuna; outros, mais reservados e scepticos, temiam não ser contemplados e perderem aquelle bom agasalho e santa ociosidade.
—Não nos fiemos em sapatos de defunto. Poderemos obter d’esta fórma o equivalente do que gosamos?—resumiam.
—Ah! não póde deixar de ser! Até seria uma vergonha se o não fizesse!...
Esse rico papel escripto pelo proprio punho do rei, diziam estar dentro d’um cofre de malachite, guardado n’um armario de ferro. Ninguem o tinha lido, a não ser talvez o primogenito e a rainha; mas para todos era um motivo de palavras humildes e risos captivantes, em face do doente. Este homem, fabulosamente rico, podia deixar a independencia social aos que eram pobres e accrescentamento de fortuna aos opulentos. E tinha de o fazer, se queria engrandecida e celebrada a sua memoria. Isto de reis são orgulhosos, mesmo quando o não parecem; teem a vaidade de que os lamentem depois da morte, para se conservar a velha ideia biblica de que o monarcha é o pae, é o senhor, é o ungido de Deus!
—N’esse caso que o pague—concluiam.
Poucos dias depois do ultimo alvoroço ácerca da saude do rei, houve um acontecimento que impressionou. O doente não tivera, durante a noite, uma hora de somno tranquillo. Sonhara uma vida agitada de batalhas, sentira o sangue tumultuar-lhe nas arterias.
—Vejam lá, n’estes tempos modernos, eu a imaginar torneios e golpes de lança!—criticou elle mesmo.
O doutor foi de opinião, que lhe devia ter feito mal a visita d’um antiquario estrangeiro. A surdez obrigava o monarcha a grandes esforços na conversa. Durante perto d’uma hora os dois tinham discreteado ácerca de tempos passados, da belleza e encanto da vida d’outr’ora, artistica e batalhadora, despreoccupada e cheia d’aventuras—bons tempos em que houve homens que foram simultaneamente guerreiros, poetas e artistas, como Cellini.
—Evite-me vossa magestade essas commoções. Ponha-me esses sabios na rua—recommendou o medico.
A mulher do rei foi claramente informada da extrema gravidade da molestia de seu marido. Senhora de ascendentes fidalgos, muito temente a Deus, conseguira enfileirar na familia do rei, por um abuso da força poderosa da sua belleza e da sua carne, sobre a organisação já caduca do soberano. Tambem se fallava de influencias clericaes, que miravam a obter para certo instituto, parte da fortuna particular do monarcha. Todos entendiam que ella se prestára a aquecer os membros frios d’um velho, por simples vaidade de ser chamada rainha.
Amava a riqueza, a consideração publica, o fausto da corte e a supremacia entre as mulheres. A importancia da doença do marido, cuja morte para ella significava a perda de todas estas garantias e vantagens, assustou-a. O seu rosto de vivo que era, tornou-se tão composto e triste, que abrandou, no começo, a malevolencia de muitos que na corte lhe eram hostis. Ella que tanto amava os theatros, os bailes, as corridas, os passeios de carruagem ao ar livre, em face das bellas paisagens illuminadas pelo sol, deixou de sahir logo que o mal tomou o caracter assignaladamente grave, e installou-se ao lado da poltrona onde o marido dormitava, ouvia os seus amigos, e arfava os cansaços da molestia.
Ella, ás vezes sob pretextos futeis pedia que a deixassem só com o rei. Condescendiam os camaristas, formando conjecturas, que nem sempre eram benevolas. Diziam que depois d’essas intimidades lhe notavam no rosto uma agitação febril, mal dissimulada. Accrescentavam que no semblante do rei, apesar da compostura calculada, apesar da respeitavel barba branca que lhe diminuia a expressão, apesar de reclinado na poltrona com as palpebras docemente cahidas... descobriam restos de fadiga e o aspecto d’um homem contrariado. Parece que se percebera n’um dia barulho d’altercação, parece que se ouvira depois um soluçar de mulher. A creadagem affirmava ter sentido beijos de esposos, palavras de colera, expressões de reconhecimento. Tudo isto não podia deixar de ser obra de testamento—entendiam. Os velhos amigos do soberano, sempre lhe tinham tractado respeitosamente a mulher, indicando, ainda assim, na friesa e polidez dos cumprimentos, que a não estimavam. Na ausencia chamavam-lhe intrusa, ambiciosa, desnaturada, pois abreviava os dias do doente com mortificações, e até a sua notoria religiosidade, tomavam como impostura.
A molestia progredia a olhos vistos, e já a ninguem era licito desconhecer o proximo termo d’aquella vida d’opulencia. O proprio doente disso estava convencido e quando lhe diziam palavras d’esperança sorria com amargura. As ancias, as suffocações, agora mais frequentes e incommodas eram um desmentido claro. A oppressão no peito dava-lhe um sentimento de homem replecto. Os beiços engrossavam todos os dias, as olheiras eram fundas como a sombra da noite, as palpebras pesadas e adormecia facilmente como um bebedo. Este homem nascido em berço d’oiro, esta imaginação educada e aberta sempre n’uma atmosphera de delicadezas, repugnando-lhe as miserias asquerosas d’uma doença prolongada, começou a ter pelo corpo de que fôra tão vaidoso, um desprezo invencivel. As suas pernas estavam grossas como rudes troncos de carvalho, o ventre volumoso chocalhava como um barril mal cheio, e, segundo lhe segredava a memoria, devia conter um liquido viscoso, semelhante a baba d’animaes. Preferia ter uma doença de cruciantes dôres. Devia haver molestias para reis, molestias limpas, que fossem o logico terminar da vida das grandezas. A cabeça recostada no espaldar alto da cadeira, o roupão de seda a arfar-lhe sobre o peito, fechava voluntariamente os olhos para fugir á vil realidade e entrar n’um mundo ideal de lembranças dignas. E parecia conseguil-o, pois havia momentos em que o seu rosto era d’uma paz e duma tranquillidade de stoico.
Viveria em imaginação no seu passado?
Fôra criança e logo na edade em que o cerebro começa a perceber viu-se rodeado da consideração, que pode gerar o orgulho—velhos fidalgos iam-lhe submissamente confiar as suas barbas, para que o principe as tomasse como brinquedo. Tinha sido entregue depois a professores, que sobre elle exerciam uma auctoridade parecida antes com a obediencia. Quando cavalleiro, gentil e vaidoso, o fanatismo de todas as mulheres, gosára amores defezos, que tanto o divertiam pela posição do homem enganado. Subiu ao throno, e viu curvadas diante de si, as illustrações do sangue e da sciencia, homens de renome que só d’elle, do seu tradicional poder, deviam receber a consagração. Aborrecido do mando, com o egoismo proprio da velhice, abdicou, creara novos prazeres recolhidos, encontrára ainda uma formosura que o amára, sentira-se remoçado e contente durante certo periodo...
Porém n’outros momentos vinham-lhe subitas crispações faciaes significativas de desgosto. É que sentia o desabar de todo esse mundo, como desabam as montanhas n’um rancoroso terremoto. Tinha, ás vezes, a sensação de que um largo alçapão se abria na terra e o engulia para uma escuridade absoluta e eterna! Era homem como os outros. Diante da miseria da carne estava nivelado com a plebe mais infima. A corôa, o sceptro, a auctoridade real, os gosos da intelligencia, nada faziam para que tivesse um fim grandioso.
Felizes só os reis antigos, mortos heroicamente nas batalhas medievaes, atravessando inimigos com lanças relusentes e acabando entre maldições e hymnos de gloria! A sua imaginação dolorida apresentava-lh’o ainda mais repellente do que estava, o rosto espapaçado—palpebras entumescidas e cyanoticas, beiços grossos e olhar sem brilho. Vira-se uma vez ao espelho e ficara horrorisado de si mesmo. Despresava-se com nojo.
Sobre todas as ironias da carne, vinha ainda a preversidade dos vivos cubiçando-lhe os haveres. A mulher queria um testamento que lhe fosse absolutamente favoravel. Era o legitimo preço da sua belleza e da sua fresca mocidade, que elle estragára com beijos senís. Ao calor emprestado pelo sangue da donzella, devia o rei o prolongamento d’uma vida arruinada. Os filhos questionavam os seus direitos, com razões de casta, ligando-as a interesses d’Estado. Fallavam das tradições de familia; da abundante riqueza que era preciso ostentar, para se imporem pelo fausto, como já se impunham pelo nascimento. Porém elle tinha amigos fieis, companheiros dos enthusiasmos juvenis; creados cujos aturados serviços mereciam uma recompensa, uma lembrança no supremo instante da despedida. A exigente consorte queria tudo para si. Cá regularia todos esses deveres como entendesse. Só assim poderia sustentar o respeito e consideração publica, continuando na sua mão as dependencias que até alli tinham sido do rei. Exhorava-o com beijos, com palavras acrimoniosas, com ameaças sobre a sua memoria.
Como meio de sahir de taes amarguras, o monarcha lembrou-se do suicidio. A razão aconselhava-lhe a findar o mais depressa uma existencia assim despresivel. Seria um acto cobarde?!... Entre o soffrimento e o gozo passa-se toda a vida humana. Quem não póde luctar desapparece d’arena—pensou resolutamente. Ia furtar-se a muito desgosto, a sentir o difinitivo escorrer do seu corpo, que já era massa inerte, alastrando-se pelo chão. Ia poupar-se a afflicções, não queria supportar o peso d’aquellas pernas inchadas, não queria ouvir por mais tempo o chocalhar dos liquidos no ventre, o que lhe dava a ideia de que elle era um despresivel odre, caminhando no dorso d’um macho.
Que bella noite, serena e calma! Uma lampada de Sèvres, espalhava no amplo quarto uma bruxuleante claridade. A rainha recolhera-se aos seus aposentos. Alguns camaristas, medico e serventuarios, vigiavam os restos d’aquella vida. Quando a apparencia d’um somno tranquillo se espalhou no rosto do doente, todos se retiraram para as salas proximas. O rei sentiu-se bem, só. Calculou que todos estariam despreoccupados da sua pessoa. Convencido d’isto, teve um sorriso de triumpho! Logo tentou erguer-se, fincando as mãos nos braços da cadeira. Mal se pôde mover! Estava entorpecido, o corpo pesado, a sensibilidade ausente. Terrivel e severo desgosto foi o seu, quando se viu nas condições de semelhança com um sapo hydropico! Reagiu corajosamente contra a inercia dos musculos e, n’este esforço de dignidade suprema, conseguiu levantar-se. Mas logo se sentou, para não cahir. A colera do seu espirito tomou proporções formidaveis, como o vento que arrasa florestas. Concentrou no combalido coração o antigo vigor da juventude, toda a coragem da mocidade. Queria supplantar este phantasma da impotencia, que se levantava deante dos seus olhos. Passando da cadeira a apoiar-se no rebordo d’uma meza, depois na hombreira da janella, apanhou a bengala de castão d’oiro e pedras preciosas, que lhe mandára de presente um papa, e conseguiu firmar-se em pé. Deu alguns passos cambaleantes; mas parecendo-lhe ouvir um rumor, parou de subito. Não era ninguem. A sombra do seu corpo projectada pela tenue luz estendia-se no pavimento, tremula de susto.
Oh! fraqueza, oh! implacavel miseria humana! Este senhor poderoso, esse phantasma movendo-se tropego e cauto no silencio da noite, é o proprio Luiz XI aterrado diante das visões do seu cerebro! Foi-se abeirando, timido e com passo incerto, d’uma pequena estante entre duas janellas. Lançou mão d’um objecto que metteu no bolso do robe-de-chambre, furtivamente, como homem que andasse a roubar. N’esse momento a estante oscilou, o barulho attrahiu um creado.
—Não preciso... não chamei...
Tremia de medo, como creança encontrada n’uma travessura. Veio o medico e o camarista. Approximaram-se, ampararam-no até á cadeira, e reprehenderam-no amoravelmente.
Desculpou-se com palavras de humildade e sujeição.
Tentára esta experiencia para vêr se podia andar, sem o auxilio de ninguem. Querendo inferir, por si mesmo, da força e vigor de que dispunha, era necessario mexer-se no quarto só, sem que o vigiassem. Ainda estava vigoroso e forte—affirmou. Sentia-se com vida para muito tempo.
Fortificaram-no n’esta ideia; porém retorquiam que fôra temeridade o que acabava de fazer. Podia ter cahido, dar com a fronte na esquina de uma cadeira e isto ser-lhe fatal, no estado de fraqueza em que ainda estava. Assim se interromperia uma boa convalescença, assim adquiriria novos padecimentos que podiam ser mais graves, muito mais graves do que os actuaes.
Concordava em tudo, sorrindo. Porém, a tentativa, visto não ter dado mal nenhum, estava contente por têl-a feito. Atravessára o quarto sem auxilio, e era isso que até alli suppunha impossivel. Talvez no dia seguinte fosse ao gabinete contiguo, depois á varanda e finalmente ao jardim.
—Poderei experimentar doutor?
—Com precauções, meu senhor, com precauções.
Discorreu ainda, com serenidade, alguns minutos. Estava evidentemente melhor, mais desafogado. Aquella experiencia tornára-o communicativo e alegre. Conseguira ter vontade de dormir. Parecia-lhe que ia gozar um somno regalado e sereno. Os olhos estavam com tendencia para se fecharem. Que o deixassem só é que desejava.
—Mas vossa magestade...
—Não me levanto mais—atalhou. Palavra de rei.
Sahiram. Tudo ficou em paz e tranquillidade. O rei conservou-se largo periodo immovel, os olhos fitos n’uma armadura que estava de sentinella a uma porta. Concentrou toda a força dos sentidos, para reconhecer que o não vigiavam. A manhã surgia do infinito dos tempos. Os passaros começaram a chilrear nas acacias do parque. Ouviu-se o cantar lento e monotono do velho jardineiro, que por entre as flores regougava melopeias do seu paiz. Levantava-se, subindo e alargando-se como um nevoeiro que emerge d’um rio, o sussurro que fórma o dia—mistura de muitos sons. A creação universal ia engrandecer-se com um novo impulso do sol, n’este formoso dia de primavera.
O rei tinha uma expressão firme de tenebrosa coragem. Tacteava com perspicacia, para encontrar no braço esquerdo o signal d’uma sangria, que em moço lhe haviam feito, pela queda d’um cavallo. Na mão brilhava-lhe uma pequena lamina de Toledo, obra de esmerado artista, com multiplicadas linhas d’oiro encrustadas em ferro. Abandonava riqueza e fausto, sentia-se podridão e lama! Com a indomita coragem dos altivos e dos desventurados abriu a cicatriz quasi apagada. E emquanto esse sangue de rei escorria, gottejando no chão, o moribundo encostou a cabeça no espaldar alto da poltrona e com um sorriso de amargura, disse suspirando:
—Acabou-se.
Penderam-lhe os braços, a cabeça rolou para um lado, todo o seu corpo foi entregue ao supremo desleixo da morte!
O segredo d’este acontecimento conservou-se nos intimos do palacio. O medico, ao contemplar o cadaver inerme, com a ideia nos soffrimentos que ainda estavam reservados ao monarcha se continuasse a padecer, concluiu:
—Foi melhor assim!
Lisboa, janeiro 85.
A MULHER DE LUCAS
Diga-nos, então, como foi essa historia do seu casamento; como é que a sua mulher fugiu de casa.
—Ora... não fallemos de coisas tristes. Eu já lh’o contei e o senhor bem o sabe. Compram-me uma cautella?
—Mas desejo—insisti—que este meu amigo oiça tudo da sua propria bocca...
Sorriu, olhou interrogativo para nós ambos e perguntou:
—Porque? Este senhor conhece-a?—E mudando para um tom energico e quasi enfurecido:—Sabe onde ella mora?
Fizemos-lhe signal negativo, e Lucas retomando a sua expressão habitual de paciencia e doçura disse:
—São coisas de que me não quero lembrar. Lá vae, acabou, leve o diabo paixões e mais quem com ellas engorda. Aquella mulher andou muito mal comigo... Eu fazia-lhe tudo quanto ella queria, dava-lhe muita libardade... Foi talvez por isso que recebi o pago que tive...
—Alguem que a desencaminhou... alguma companheira...—insinuou o meu amigo.
—Ná... ná... sempre teve aquella queda. Era muito chibante e espirituosa, não era senhora para mim. Foi uma asneira... Passou—resumiu tristemente.
—Tambem não é tanto como diz. O Lucas estimava-a, e não se póde dizer um velho—consolei-o.
—Ainda assim tenho mais vinte annos do que ella. Mas não fallo n’esse particular. Não era senhora para mim, que sou um bruto. Uma raparigona alta, bonita, bem feita, creada n’um collegio aqui de Lisboa, sabendo francez e grammatica, toda perluxa e bem fallante... não era casamento para o Lucas. A minha primeira, que Deus tem, é que estava na conta.
—Você tambem foi cahir em se casar duas vezes!—disse o meu amigo. Lá n’uma, tenho ouvido dizer, quem quer cae.
—Nem sei como isso aconteceu, meu senhor—confessou melancolico. Uma bebedeira que me passou na cabeça. Ha dias que melhor fora a gente apparecer morto na cama. Luisa, a minha outra, era uma dona de casa. Quando morreu fez-me falta para o negociosito, que eu tinha lá na terra. O contracto dos gados trazia-me sempre por fora; chegava a ir á Galiza comprar bois. Uma pessoa para me ficar no estabelecimento, era-me bem necessaria. Depois o achar-me só, em casa, principiou a dar-me para o figuedo, e sem uma companheira vivia triste como uma lesma. Até me lembrei de me afogar. Teria sido melhor—rematou olhando para o chão, a cofiar a barba reles.
—Pelo que vejo gostava muito da sua primeira mulher...
—Assim... Era muito doente, mas boa creatura. Quando morreu fiz-lhe um enterro de truz. Nunca lhe pude arrancar um filho, por mais dinheiro que com ella gastei em medicinas e promessas. Aquillo era molestia das entranhas. Morreu esmaleitada como a cera e magra como um guiço. Passei uma ralação, sempre a por-lhe cataplasmas e a dar-lhe chás de noite, por causa dos ataques. Dava gritos que acordavam a visinhança. Arrotos que pareciam tiros de espingarda. O ultimo mez, não preguei olho e já não podia... Veio então a Joanna, a irmã d’ella, que me ajudou a levar aquillo até ao fim. Essa é que era boa mulher para mim: geitosa, perfeitaça, trabalhadeira e rija como o ferro. Mas tinha tido uma falta, com um rapaz que depois embarcou para o Brazil, e eu n’essas coisas sempre fui muito dos diabos.
—Pois, attendendo ao futuro, tinha sido melhor ter-se casado com essa sua cunhada—disse o meu amigo, presumindo já, que ao bom do Lucas, lhe haviam succedido coisas da breca.
—Oh! que se a gente advinhasse, quantas vezes melhor!...—exclamou como quem se sentia applaudido n’um pensamento secreto. E a coisa vinha a fazer-se, mais tarde ou mais cedo; porque eu bebia os ares pela moça. Mas logo a má sorte, me levou lá para a casa fronteira, o major com a sobrinha...
—Talvez filha—insinuei.
—Não—respondeu vivamente offendido—era de gente casada. Até creio que de familia muito nobre, cá de Lisboa. Pelo menos ella assim o dizia e acreditem os senhores que tinha geitos d’isso. Morreu-lhe o pae, a mãe e não lhe deixaram uma de X. Foi então que o major de quem eram parentes e quando ainda era capitão metteu, á sua custa, a pequena n’um collegio. Isso lá de educação e sabença, não acredito que haja outra que se lhe ponha adeante. O major depois adoptou-a como filha e trazia-a sempre comsigo.
—Nada ahi anda historia, ella era filha do major—insistiu o meu amigo.
—Não era—certificou com rosto circumspecto—não era, sério. Eu vi-lhe a certidão d’edade, quando se tirou a licença. Era de gente casada e até fidalga, diziam-no todos. Mas faltava-lhe dinheiro; porque o major para a educar, teve de pedir ajuda aos outros parentes. Mas deu-lhe um saber de truz. Eu nunca vi senhora mais distincta!—repetiu com ostentação.
—E depois o tal major, sabendo que o Lucas tinha o seu pataco, impingiu-lha.
Conservou-se alguns momentos silencioso e ar dubidativo. Em seguida esclareceu:
—São sortes. Elles vieram morar em frente da minha casa. As filhas d’um visconde que havia na terra, iam pra lá aprender o francez, o piano e a grammatica. Porque aquillo é uma senhora que sabe tudo—repetiu com vaidade. E bem fallante? nunca vi outra! Aquelles janotas iam conversal-a da rua para a janella e ella sota e az a todos. Que regalo de mulher! O delegado que lá estava ao tempo, disse deante de mim que em philosophias, não encontrára senhora como aquella. Vi muitos homens embasbacados a ouvil-a. E que homens! O desembargador João Xavier que era conhecido em toda a parte. Caramba! que mulher tão esperta!—pronunciou batendo uma palmada na coixa. Pena é que tenha a cabeça leve como uma folha secca.
—E vae, todo cheio de enthusiasmo, namorou-se da lisboeta...—presumi.
—Não senhor—esclareceu—nem tal me passava pela lembrança, se não fosse ella. Eu bem via que não era homem para aquillo. Ella é que principiou comigo de volta, a rir-se para mim, a espreitar pela frincha da janella, a fazer-me tagatés... Não sabia o que tudo isto queria dizer, palavra d’honra! Olhava para mim e via que não podia ser. Principiei a andar assim a modo de esquisito, a não saber o que tinha. Um dia diz-me ella, sem tirte nem guarte, que eu era um viuvo ainda muito geitoso. Fazem lá ideia! Logo que ouvi tal, d’aquella bocca linda como a maçan camoesa, e com a graça e esprito que ella tinha em todas as coisas, senti cá por dentro taes esfregações, que não fazem uma ideia! Caramba! até perdi o comer! Andava assim a modo de tonto, pesava as coisas tão mal na loja, que era uma risota. E então securas? Todo eu era um forno. De noite principalmente passava o tempo a beber agua e em vez de dormir vinha-me prantar á janella, com os olhos pregados na casa onde morava aquelle demonio tentador, que foi a minha desgraça.
—Era uma paixão—conclui.
—E uma paixão furiosa—acrescentou o meu amigo.
—Sei lá que diabo era! Foi uma grande bebedeira. Parece que me tinham dado alguma bruxaria a comer. D’ahi por diante nunca mais dei conta de mim. Não era Lucas Baptista que fallava, era outro homem. Tinha-a sempre diante dos olhos, quer de dia, quer de noite. As santas da egreja, inclusiva Nossa Senhora—Deus me perdoe!—pareciam-me feias em comparação d’ella. Um dia tirei-me dos meus cuidados e pilhando-a a geito na janella disse-lhe: «Uma casa sem uma dona é triste como um campo de milho sem sacho!»
—E ella entendeu-o?
—Sei lá! Deu uma gargalhada e sahiu da janella. Fiquei assim a modo de parvo. Se se tivesse rido de mim, se andasse a fazer chacota, é porque me ia deitar na levada da azenha e nunca mais appareceria. Mas voltou logo depois e com um sério muito sério, pôz o dedo no nariz a dizer-me que lhe não fallasse assim da rua, que lhe podia arranjar alguma fama. Eu então tive um baque no coração e disse de só para só: «Ella quer!» Logo que encontrei modo perguntei-lhe em segredo: «Deseja a menina ser a dona d’esta casa?» Mas quando estas palavras me sahiram da bocca, vi abrirem-se-me debaixo dos pés as chammas do inferno.
—Porque! Ella disse que não?—perguntou o meu amigo.
—Qual! Pois isso é que foi. O demonio da serpente tentadora, com uns olhos d’uma maganice que os senhores não fazem ideia, responde assim, para só eu ouvir: «Isso é com meu tio!» E sae da janella, indo tocar no piano uma modinha de que eu gostava tanto que até me fazia arrepios. Caramba! Aquillo fez-me cá por dentro tal arrepanho, deu-me tanta alma e coração, que desejava ter de meu o mundo inteiro, só para lh’o dar e fazel-a princeza. Podia lá ser! Um velho, um estupido, que só sabia pesar arroz e bacalhau e contractar em gados, casado com aquella senhora, tão bem fallante e tão linda!... Eu só queria que os senhores conversassem com ella! Desembaraçada e litterata como aquillo não ha. Vá lá o mais poeta dar-lhe mote, sem vir com a cara a um lado! Os paes d’ella eram gente grauda cá de Lisboa e o tal tio, honra lhe seja, deu-lhe educação de espavento. Ainda hoje lhe quero bem só por isso! A tal viscondessa de quem a D. Rozita do major, (era assim que lhe chamavam lá na terra) ensinava as filhas, era uma creada ao pé d’ella. Uma senhora de mão cheia, lá isso valha a verdade.
—O amigo Lucas sabe a historia da nossa mãe Eva e a da maçan que Adão comeu?—perguntei.