SAUDADES
HISTÓRIA
DE
MENINA E MOÇA
COMPOSTO E IMPRESSO NA IMPRENSA
DE MANUEL LUCAS TORRES,
RUA DO DIARIO DE NOTICIAS, 87 A 93
| Trovas de Crisfal, de Bernardim Ribeiro, 1 vol. broch. | $30 |
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| A PUBLICAR: | |
| Éclogas de Jano, de Bernardim Ribeiro. | |
Colecção Horas de Leitura
BERNARDIM RIBEIRO
SAUDADES
HISTÓRIA
DE
MENINA E MOÇA
2.ª edição, revista
POR
DELFIM GUIMARÃES
1916
GUIMARÃES & C.ª—Editores
68, Rua do Mundo, 70
LISBOA
SAUDADES
(Historia de Menina e moça)
de
Bernardim Ribeiro
2.ª edição, revista
por
Delfim Guimarães
ADVERTENCIA
(DA 1.ª EDIÇÃO)
Contribuir para a vulgarização do adoravel volumezinho que torna imorredoiro o nome de Bernardim Ribeiro, quer-me parecer uma boa acção.
Por isso, me encarreguei gostosamente de dirigir esta edição das «Saudades», tarefa que não é de molde a conquistar louros, mas que não reputo banal nem despida de algum mérito.
Tratando-se de uma edição popular, entenderam os editores, e a meu ver judiciosamente, que se não devia fazer uma simples reimpressão de qualquer das edições conhecidas do livro de Bernardim, o que poderia ser muito apreciado de eruditos e estudiosos, mas que condenaria, fatalmente, o volume a uma existencia inglória.
Consultando as edições das «Saudades», e seguindo, criteriosamente, os textos; procurando interpretar o mais fielmente possivel a ideia de Bernardim Ribeiro, e estudando com atenção as variantes que as diversas edições salientam; modificando uma ou outra palavra caída em desuso; aclarando uma ou outra passagem de compreensão embaraçosa, e por vezes quase enigmatica;—tornava-se mister preparar o original que servisse para a factura d'esta edição, e que, sem alterar sensivelmente a lingoagem inconfundivel da obra, e sem desvirtuar o pensamento do seu autor, colocasse as «Saudades» ao alcance do grande publico, tornando conhecida, lida e estimada uma obra de peregrino brilho, um dos mais belos florões da nossa literatura.
A esse trabalho meti ombros, e dispensei-lhe a melhor vontade e carinhoso amor, procurando suprir o que me mingoasse em competencia á força de cuidado.
Como me saí da empreza, não sei, nem a mim cumpre averiguá-lo.
Diz-me a consciencia que procedi com o zelo e a probidade com que se haveria o artista que fosse chamado a retocar um quadro de mestre; porque, embora esse artista fosse, como eu, dos mais modestos, todos os seus cuidados havia de empregar para se haver na justa grandemente, como diria o nosso Bernardim.
A edição ahi fica.
Julguem-na os que teem competencia para fazê-lo.
Lisboa, 4 de agosto de 1905.
SAUDADES
(História de Menina e moça)
DE
BERNARDIM RIBEIRO
Capitulo I
Em que a donzela começa a sua historia
Menina e moça, me levaram de casa de meu pae para longes terras. Qual fosse então a causa d'aquela minha levada,—era eu pequena,—não na soube. Agora, não lhe ponho outra, senão que já então, parece, havia de ser o que depois foi.
Vivi ali tanto tempo, quanto foi necessario para não poder viver em outra parte.
Muito contente fui eu n'aquela terra; mas, coitada de mim, em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou, e para longo tempo se buscava! Grande desventura foi a que me fez ser triste, ou a que, porventura, me fez ser leda!
Mas depois que vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha.
Escolhi para meu contentamento (se em tristezas e saudades ha algum) vir viver para este monte, onde o lugar, e mingoa da conversação da gente, fosse como para meu cuidado cumpria: porque grande erro fôra, depois de tantos desgostos, quantos eu com estes meus olhos vi, aventurar-me ainda a esperar do mundo o descanso que êle nunca deu a ninguem!—Estando eu aqui só, tam longe de toda a outra gente, e de mim ainda mais longe; d'onde não vejo senão serras, de um lado, que se não mudam nunca, e do outro agoas do mar, que nunca estão quedas, cuidava eu já que esquecia á desventura, porque éla, e depois eu, com todo o poder que ambas pudemos, não deixámos em mim nada em que pudesse nova mágoa ter lugar,—antes havia muito tempo que tudo era povoado de tristezas, e com razão. Mas parece que, em desventuras, ha mudanças para outras desventuras; porque, no bem, não as havia para outro bem; e foi assim que, por caso estranho, fui levada a um lugar onde me foram ante os meus olhos apresentadas, em cousas alheias, todas as minhas angustias; e o meu sentido d'ouvir não ficou sem sua parte da dôr.
Ali vi então, na piedade que tive d'outrem, quam grande a devêra ter de mim, se não fôra tam demasiadamente mais amiga de minha dôr do que parece que foi de mim quem me é a causa d'éla; mas tamanha é a razão porque sou triste que nunca me veio mal nenhum que eu não andasse em busca d'êle.
D'aqui me vem a mim a parecer que esta mudança, em que me eu vi, já então começava a buscar, quando esta terra, onde me éla aconteceu, me aprouve mais que outra nenhuma, para vir aqui acabar os poucos dias de vida que eu cuidei que me sobejavam. Mas n'isto, como em outras cousas muitas, me enganei eu. Agora, ha já dous anos que estou aqui, e não sei ainda tam sómente determinar para quando me aguarda a derradeira hora! Não póde já vir longe!
Isto me pôs em duvida de começar a escrever as cousas que vi e ouvi.
Mas, depois, cuidando comigo, disse eu que recear de não acabar de escrever o que vi, não era causa para o deixar de fazer; pois não havia de escrever para ninguem, senão para mim só. Quanto mais que, em cousas não acabadas, não havia de ser esta a primeira: pois quando vi eu prazer acabado, ou mal que tivesse fim?! Antes me pareceu que este tempo que hei de estar aqui n'este ermo (como a meu mal aprouve) não o podia empregar em cousa que mais de minha vontade fosse:—pois Deus quis que assim minha vontade seja.
Se em algum tempo se achar este livrinho na mão de pessoas alegres, não o leiam, que, porventura, parecendo-lhe que seus casos serão mudaveis, como os aqui contados, o seu prazer lhe será menos prazer. Isto, onde eu estivesse, me doeria, porque assaz bastava eu nascer para minhas mágoas, quanto mais ainda para as d'outrem. Os tristes o poderão lêr: mas ahi não os houve mais, homens, depois que nas mulheres houve piedade; mulheres, sim, porque sempre nos homens houve desamor: mas para élas não o faço eu, pois que o seu mal é tamanho que se não póde confortar com outro nenhum. Para as mais entristecer, sem-razão seria querer eu que o lessem élas; antes lhes peço muito que fujam d'êle e de todas as cousas de tristeza, que, ainda com isto, poucos serão os dias que hão de poder ser ledas,—porque assim está ordenado pela desventura com que élas nascem.
Para uma só pessoa podia êle ser; mas d'esta não soube eu mais parte, depois que as suas desditas, e as minhas, o levaram para longes terras estranhas, onde bem sei eu que, vivo ou morto, o possue a terra sem prazer nenhum. Meu amigo verdadeiro, quem me vos levou tam longe? Vós comigo, e eu convosco, sós, sabiamos suportar nossos grandes desgostos, e tam pequenos para os de depois! A vós, contava eu tudo. Como vós vos fostes, tudo se tornou tristeza; nem parece senão que estava espreitando já que vos fosseis. E para que tudo mais me magoasse, nem tam sómente me foi deixado, em vossa partida, o conforto de saber para que parte da terra ieis, porque descansariam os meus olhos em levarem para lá a vista!
Tudo me foi tirado no meu mal; remedio nem conforto, nenhum houve ahi. Para morrer mais depressa, me pudera isto aproveitar; mas, para isso, não me aproveitou. Ainda convosco usou a vossa desventura algum modo de piedade (dos que não costuma ter com nenhuma pessoa) em vos alongar da vista d'esta terra; pois que, se para não sentirdes mágoas não havia remedio, para as não ouvirdes vo-lo deu. Coitada de mim, que estou falando, e não vejo eu agora que leva o vento as minhas palavras, e que me não póde ouvir a quem eu falo! Bem sei eu que não era para isto a que me agora quero pôr; que o escrever alguma cousa pede muito repouso; e a mim as minhas mágoas ora me levam para um cabo, ora para outro; trazem-me assim, que me é forçoso tomar as palavras que me élas dão, porque não sou tam constrangida a servir o engenho, como a minha dôr. D'estas culpas me acharão muitas n'este livrinho: mas da minha ventura foram élas. Ainda que, quem me manda a mim olhar por culpas, nem por desculpas?
O livro ha de ser do que vae escrito n'êle. Das tristezas não se pode contar nada ordenadamente, porque desordenadamente acontecem élas. Tambem, por outra parte, não se me dá nada que o não leia ninguem; que eu não no faço senão para um só, ou para nenhum; pois d'êle, como disse, não sei novas, tanto ha.
Mas, se ainda me está guardado, para me ser em algum tempo outorgado, que este pequeno penhor de meus longos suspiros vá ante os seus olhos, muitas outras cousas desejo, mas esta me seria assaz.
Capitulo II
Em que a donzela vae prosseguindo a sua historia
N'este monte, mais alto de todos, (que eu vim buscar pela soledade, diferente dos outros, que n'êle achei) passava eu a minha vida como podia, ora em me ir pelos fundos vales que o cingem derredor, ora em me pôr, do mais alto d'êle, a olhar a terra como ia acabar no mar, e depois o mar como se estendia logo após éla, para acabar onde ninguem o visse.
Mas, quando vinha a noite, entregue a meus pensamentos, e via as aves buscarem seus pousos, umas chamarem as outras, parecendo que queria sossegar a terra mesma; então eu, triste, com os cuidados dobrados com que amanhecia, me recolhia para a minha pobre casa, onde Deus me é boa testemunha de como as noites dormia!
Assim passava eu o tempo, quando, uma das passadas noites, pouco ha, levantando-me, eu vi a manhan como se erguia formosa, e se estendia graciosamente por entre os vales, e deixar indo os altos.
O sol, já levantado até aos peitos, vinha tomando posse dos outeiros, como quem se queria assenhorear da terra.
As doces aves, batendo as asas, andavam buscando umas ás outras; os pastores, tangendo as suas flautas, e rodeados dos seus gados, começavam a assomar pelas cumiadas.
Para todos, parecia que vinha aquele dia assim ledo. Só os meus cuidados, vendo, parece, como vinha poderoso seu contrario, se recolhiam a mim, pondo ante meus olhos para quanto prazer e contentamento pudera aquele dia vir, se não fôra tudo tam mudado; d'onde o que fazia alegre a todas as cousas, a mim só teve causa de fazer triste!
E como os meus cuidados, para o que tinha a ventura ordenado, me começassem de entrar pela lembrança de algum tempo, que foi, e que nunca fôra, assenhorearam-se assim de mim que não me podia já sofrer a par de minha casa, e desejava ir-me para lugares sós, onde desabafasse em suspirar.
E ainda bem não foi alto dia, quando eu (parece que acinte) determinei ir-me para o pé d'este monte, que d'arvoredos grandes, e verdes ervas, e deleitosas sombras, é cheio; por onde corre um pequeno ribeiro de agoa de todo o ano, que, nas noites caladas, o rugido d'êle faz no mais alto d'este monte um saudoso tom, que muitas vezes me tolhe o sôno; onde, outras muitas, vou eu lavar minhas lagrimas, e onde, muitas, infinitas, as torno a beber.
Começava então de querer cair a calma: e no caminho, com a pressa, por fugir d'éla, ou pela desventura que me levava a mim, três ou quatro vezes caí ali; mas eu (que, depois de triste, cuidei que não tinha mais que temer) não olhei nada para aquilo, em que me parece que Deus me queria avisar da mudança que depois havia de vir. Chegando á borda do rio, olhei para onde haveria melhores sombras. Pareceram-m'o as que estavam além do rio. Disse então que n'aquilo se enxergava que era desejado tudo o que com mais trabalho se podia haver; porque não se podia ir alem sem se passar a agoa, que corria ali mansa e mais alta que na outra parte.
Mas eu (que sempre folguei de buscar meu dano) passei alem, e fui-me assentar sob a espessa sombra de um verde freixo, que, para baixo um pouco, estava.
Algumas das ramas estendiam-se por cima d'agoa, que ali fazia algum tanto de corrente, e, impedida por um penedo, que no meio d'éla estava, se partia para um e outro lado, murmurando.
Eu, que os olhos levava ali postos, comecei a cuidar que tambem nas cousas que não tinham entendimento havia fazerem-se dano umas ás outras.
Estava d'ali aprendendo a tomar algum conforto no meu mal: porque assim aquele penedo estava contrariando aquela agoa que queria ir seu caminho, como as minhas desventuras no outro tempo costumavam fazer a tudo o que eu mais queria,—que já agora não quero nada. E crescia-me d'aquilo um pesar!
Ao cabo do penedo, tornava a agoa a juntar-se, e ir seu caminho sem estrondo algum, antes parecia que corria ali mais depressa que pela outra parte: e dizia eu que seria aquilo para se apartar mais rapidamente d'aquele penedo, inimigo do seu curso natural, que, como por força, ali estava.
Não tardou muito que, estando eu assim cuidando, sobre verde um ramo que por cima da agoa se estendia, se veio pousar um rouxinol. Começou a cantar tam docemente que de todo me levou após si o meu sentido d'ouvir. E êle cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que, como cansado, queria acabar, senão quando tornava, como que começava.
Então (triste da avezinha) estando-se assim queixando, não sei como, se caiu morta sobre aquela agoa! Caindo por entre as ramas, muitas folhas cairam tambem com éla. Pareceu aquilo sinal de pesar, n'aquele arvoredo, de caso tam desastrado.
Levava-a após si a agoa, e as folhas após éla. Quisera-a eu ir apanhar, mas pela corrente que ali fazia, e pelo mato que d'ali para baixo, cerca do rio, logo estava, prestemente se alongou da vista.
O coração me doeu tanto, então, em vêr tam depressa morto quem d'antes, tam pouco havia, vira estar cantando, que não pude ter as lagrimas.
Certamente que por causa do mundo, depois que perdi outra cousa, me não pareceu a mim que assim chorasse de vontade; mas em parte este meu cuidado não foi em vão; porque, ainda que a desventura d'aquela avezinha fosse causa de minhas lagrimas, lá, ao sair d'elas, foram juntas outras muitas lembranças tristes.
Grande pedaço de tempo estive assim embargada dos meus olhos, entre os cuidados que muito havia que me tinham já então, e ainda terão, até que venha o tempo em que alguma pessoa estranha, com dó de mim, com as suas mãos cerre estes meus olhos, que nunca foram fartos de me mostrarem mágoas de si.
E estando assim, olhando para onde corria a agoa, ouvi bulir o arvoredo. Cuidando que fosse outra cousa, tomou-me medo; mas, olhando para ali, vi que vinha uma mulher; e, pondo n'ela bem os olhos, vi que era de corpo alto, disposição boa, e o rosto de dona, senhora do tempo antigo. Vestida toda de preto, no seu manso andar, e meneios seguros do corpo, do rosto e do olhar, parecia d'acatamento. Vinha só, e tam pensativa que não apartava os ramos de si, senão quando lhe impediam o caminho, ou lhe feriam o rosto.
Os seus pés trazia por entre as frescas ervas, e parte do vestido estendido por élas. E, entre uns vagarosos passos que éla dava, de quando em quando colhia um cansado folego, como que lhe queria falecer a alma.
Sendo cerca de mim e me viu, ajuntando as mãos, á maneira de medo de mulher, um pouco, como que vira cousa desacostumada, ficou; e eu tambem assim estava,—não de medo, que a sua boa sombra logo m'o não consentiu, mas da novidade d'aquilo que ainda ali não vira, havendo muito que, por meu mal, tinha frequentado aquele lugar, e toda aquela ribeira.
Mas não esteve éla muito tempo assim, porque, parece, conhecendo tambem que estava com uma boa sombra, começou a dizer, vindo ao meu encontro:
—«Maravilha é ver donzela em ermo, depois que a minha grande desventura levou a todo o mundo o meu...»
E d'ahi a grande pedaço, misturado já com lágrimas, disse:
—«... filho!»
Depois, tirando um lenço, começou a limpar o rosto, e a chegar-se para onde eu estava.
Levantei-me eu então, fazendo-lhe aquela cortesia, que éla, com a sua, e consigo mesma, me obrigava.
—«O descostume grande, (me disse) ha muito tempo que vivo n'este ermo, de ver pessoa alguma, me faz, senhora, desejar saber quem sois, e que fazeis aqui, ou que viestes a fazer, formosa e só.»
Como eu um pouco tardava em lhe responder, pela duvida em que estava do que lhe diria, (parece que entendendo-me éla) me tornou:
—«A mim, podereis dizer tudo, que eu sou mulher como vós, e, segundo vossa presença, vos devo ainda ser muito semelhante; porque me parece (agora que vos ólho de mais perto) que deveis ser triste, que vossos olhos teem vossa formosura desfeita, e, ao longe, não se enxergava.»
—«Pareceis vós logo ao longe (respondi eu) o que sois ao perto; e não vos saberia negar cousa em que de mim vos servisseis; que os vossos trajos, e tudo o que vos eu ólho, é cheio de tristeza, cousa a que eu sou ha muito tempo conforme; e porque posso mal encobrir o senhorio que, eu mesma, ás longas mágoas sobre mim tenho dado, não me quero rogar, antes vos devia ainda agradecer quererdes saber de mim o que quereis, para ser ao menos meu mal escutado alguma hora!»
—«Pois dizei-m'o (me tornou éla) que ficardes-me devendo ouvir-vos eu, nova maneira é tambem de me obrigardes; mas assim me pareceis vós, que, de vos ser obrigada, folgo muito ainda.»
Satisfazendo-lhe eu então, disse:
—«Sou uma donzela que n'este monte, da banda d'alem d'este ribeiro, pouco ha que vivo, e não posso viver muito. N'outra terra nasci, n'outra, de muita gente, me creei, d'onde vim fugindo para esta, despovoada de tudo, senão só das mágoas que eu trouxe comigo! Este vale, por onde correm estas agoas claras, que vêdes, os altos arvoredos de espessas sombras sobre a verde erva, as flores que por aqui aparecem, e a seu prazer se estendem, ribeira d'esta agoa fria, doces moradas e pousos das sós deleitosas aves, são tam conformes a meu cuidado, que o mais do tempo em que o sol anima a terra passo aqui, e, ainda que me vejaes só, acompanhada estou.
«Muito ha que tenho andado este caminho: nunca vi senão agora a vós. A grande solidão d'este vale, e de toda esta terra por aqui derredor, me faz ousar vir assim, mulher... formosa, bem vêdes já que não! E pois não tenho armas para ofender, para me defender para que me seriam já necessarias? A toda parte posso já ir, segura de tudo, senão só do meu cuidado; que não vou a nenhum cabo que êle não vá após mim. Ainda agora estava eu aqui, só, olhando para aquele penedo (mostrando-lh'o eu então d'ali) a ver como ele estava contrariando aquela ágoa que queria ir seu caminho. Ante os meus olhos, sobre aquele ramo que a cobre, se veio pôr um rouxinol, docemente cantando. De quando em quando parecia, que lhe respondia outro, lá de muito longe.
«Estando êle assim, no melhor do canto, caiu morto sobre aquela ágoa, que o levava tam depressa que o não pude eu ir apanhar.
«Tamanha mágoa me nasceu d'isto, que me recordei de outras minhas, de que tambem grandes desastres foram causa, e levaram-me onde eu tambem não podia ir buscar-me... (A estas palavras se me arrasaram os olhos de ágoa, e fui-me com as mãos a êles.) Isto, senhora, fazia quando vós aparecestes, e o faço as mais das vezes; porque, sempre, ou chóro, ou estou para chorar!»
Eu, que lhe tinha já respondido, detive-me um pouco cuidando como lhe preguntaria outro tanto d'éla: maiormente da causa que foi das suas lagrimas quando não pôde, senão muito tarde, dizer: «filho».
Éla, cuidando que, porventura, eu não queria dizer mais, disse:
—«Bem se vê n'isso, senhora, que sois d'outra parte, e ha pouco que estaes n'esta, pois dos desastres que n'este ribeiro acontecem vos espantaes. Ha uma historia muito falada n'esta terra, por aqui derredor, que muito ha que aconteceu. Lembra-me que era eu menina, e ouvia-a já então contar a meu pae, por historia. Agora, ainda folgo de cuidar n'éla pelos grandes acontecimentos e desventuras que n'éla houve. E ainda que nenhum mal alheio possa confortar o proprio de cada um, parte de ajuda me é saber, para o sofrimento, que antigo é fazerem-se as cousas sem razão, e contra razão. De boa vontade, pois parece que ainda a não ouvistes, vo-la contarei; que, segundo entendo, devem-vos aprazer as cousas tristes, como vós a mim me dizeis.»
—«O sol (lhe respondi eu) vae alto, e eu folgaria muito de a ouvir, pela ouvir a vós, e depois por saber que não busquei embalde esta terra para minhas tristezas, pois tanto ha que se costumam n'ela. Outra cousa, senhora, vos quisera eu agora preguntar; mas fique para depois, que para tudo haverá tempo, ainda que a historia, como dizeis, é de tristezas, e não poderá durar tam pouco como o dia.»
—«Os dias são agora grandes (me tornou éla) e não poderão êles nunca ser tam pequenos que eu, com todo o meu poder, vos não fizesse a vontade n'êles, assim sou, senhora, paga por vós; mas olhae o que quereis antes.»
—«Porque é cousa em que vós folgaes ainda agora de cuidar (lhe respondi eu) não póde ser pouco para desejar ouvir. Fique o que eu d'antes quisera para depois, ou para sempre; que só de o eu querer lhe deve vir isto. Não tomeis de aqui que eu não folgarei de ouvir a historia, porque isto pudera ser se não fôra de tristezas, para que eu vou achando, já agora, o tempo curto, tanto folgo com élas. Por isso, contae-a, senhora; contae-a, pois é de tristezas... Gastaremos o tempo n'aquilo para que parece que no-lo deram,—a vós e a mim.»
Capitulo III
Da conta que a dona dá á donzela de sua vinda áquela terra
«Coitada de mim (começou éla) que, para me magoar, busco ainda desventuras alheias, como se as minhas não bastassem; que são tantas que, muitas vezes, n'este despovoado, eu mesma ando espantada de mim, como as posso sofrer!
«Por isso, vos não parecia sem causa triste; que assim o sou eu que, se o soubesseis, ainda muito mais vo-lo pareceria do que cuido que parecerei no aspecto; porque a longa dôr, que ha já muito tempo que eu passo, tem o cansado d'este meu corpo tam acostumado a sofrê-la, que, já agora, vive n'éla.
«Este é um dos queixumes grandes que eu tenho do corpo, que não ha cousa para que êle, por longo costume, não seja.
«Assim ha já muitos anos que eu não vivo para mim, e que vim para estes ermos, fugindo das gentes para quem só anoiteceu e amanheceu...
«Muito me aprouve achar-vos tambem conforme á minha tristeza; porque nos consolaremos, ambas desconsoladas:—que isto vae assim como quem é doente d'alguma peçonha, e se cura com outra.
«Quando vos eu á primeira vista vi, em o apartamento de toda a gente (que n'esta terra ha muito) e o muito que tambem ha que eu não via n'éla cousa com que falasse, me moveu á alteração, e não pus em vós os olhos, tanto, como depois que vos falei; e, quanto mais vos ólho, mais acho que vos olhar. As passadas palavras vossas me dizem que deveis ter o coração altamente agravado.
«Nas mágoas que as lagrimas teem feitas no vosso rosto (que para esse efeito parece que não foi dado) entendo eu quam dada deveis ser aos cuidados, porque não costumam élas fazer-se sem razão.
«Vejo-vos moça; ainda ereis para viver no mundo. Mal haja a desventura que tam cedo começou em vós, e tam tarde acaba em mim!
«Muito folgaria de me contardes vossas tristezas, uma a uma, que assim, como vos eu ouvi, não me bastou mais que para me magoar. Mas, pois vós, senhora, assim fostes servida, eu sou contente.
«E já que não pudestes escusar desventuras, folgo em que vós folgueis de encobrir vossos males,—que o pesar ha este bem: Inda que não aproveite para doer menos, aproveita para se sofrer melhor.
«Isto é assaz para as tristes das mulheres, que não teem remedios para o mal, que os homens teem; porque, n'esse pouco tempo que ha que eu vivo, tenho aprendido que não ha tristeza nos homens. Só as mulheres são tristes; que as tristezas quando viram que os homens andavam de um lugar para outro, e, como as mais das cousas, com as continuas mudanças, ora se espalhavam ora se perdiam, e que as muitas ocupações lhe tolhiam o mais do tempo, tornaram-se ás coitadas das mulheres,—ou porque aborreceram as mudanças, ou porque não tinham para onde lhe fugir.
«Porque, certamente, segundo as desventuras são desarrazoadas e graves, aos homens se haviam de fazer; mas, quando com êles não puderam, tornaram-se a nós, como á parte mais fraca. E assim é que padecemos dous males, um que sofremos, e outro que se não fez para nós. Os homens cuidam outra cousa, mas o que das mulheres não cuidam êles?! Logo, costumaram ter em pouco as suas tristezas. Mas se élas, por isso, teem razão de serem mais tristes, sabê-lo-á quem souber que mágoa é manter verdade desconhecida!»
A isto não pude eu suster um cansado suspiro de dentro d'alma; e éla, sentindo-o (com quanto o eu encobri) estendeu a sua mão direita, e, tomando a minha, com dissimulação, suspeitosa, tornou a falar para mim, dizendo:
—«Quando eu era da vossa edade, e estava em casa de meu pae, nos longos serões das espaçosas noites do inverno, entre as outras mulheres de casa, umas fiando, e outras dobando, muitas vezes, para enganarmos o trabalho, ordenavamos que alguma de nós contasse historias, que não deixassem parecer o serão longo; e uma mulher de casa, já velha, que vira muito e ouvira muitas cousas, por mais ancian, dizia sempre que a éla pertencia aquele oficio, e, então, contava historias de cavaleiros andantes.
«E, verdadeiramente, as afrontas e grandes aventuras (que éla contava) a que se êles punham, pelas donzelas, me faziam a mim haver dó d'êles,—porque cuidava eu que um cavaleiro convenientemente armado sobre seu formoso cavalo, pela ribeira de um rio, de gracioso campo passeando, podia ir tam triste como uma delicada donzela, em alto aposento, encostada a seu estrado, entre paredes, só podia estar, vendo-se de altos muros cercada, com tantas guardas,—feitas para tam pequena força. Mas, para lhe tolherem as vontades, fizeram grandes defezas, e, para lhe entrar o desgosto, muito pequenas.
«Mais maneiras teem os cavaleiros para se mostrarem mais tristes do que são; e muito menos teem as donzelas para se mostrarem mais tristes do que parecem aos homens.
«Ao menos, se eu, depois que soube muitas cousas, pudera tornar atraz, menos me houveram de magoar do que me magoaram. Que tambem se deve esperar da dôr aquilo para que cada um a tem; de outra maneira, não se devia éla ter.
«Digo isto, senhora, porque pelo lugar onde suspirou vosso coração, (que vós de mim, quanto podieis, vos quisereis encobrir) suspeito eu que d'alguma grande sem-razão deveis trazer o cuidado magoado; porque a vossa edade não era para viverdes nos matos. Se os homens não costumassem agravar donzelas, muito fôra de sentir; mas, das cousas costumadas, quem se deve agravar?!
«Muito bem vos posso dizer isto (ainda que o conhecimento entre nós seja pouco) porque sou mais velha que vós, e porque é verdade, para que se não deve esperar tempo, como para as outras cousas.
«Quantas donzelas comeu já a terra com a saudade que lhe deixaram cavaleiros, que come outra terra, com outras saudades?!
«Cheios são os livros de historias de donzelas que ficaram chorando por cavaleiros que se iam, e se lembravam ainda de dar de esporas a seus cavalos, porque não eram tam desamorosos como êles.
«N'este conto, não entram só os dous amigos de que é a historia que ha pouco vos prometi. N'êles, sós, cuido que se encerrou a fé que em todos os outros se perdeu; e creio que por isso ordenaram outros homens de os matarem á traição, maldosamente, porque se não pareciam com êles.
«O mal não sómente aborreceu o bem, como quisera ainda que o não houvera ahi.
«Lembra-me que, quando meu pae contava a vileza da maneira que tiveram os falsos cavaleiros, para matarem os dous amigos, dizia que muito folgara de a não ouvir para a não saber, pois não viera em tempo para deixar de ir á terra magoado, porque já geração d'êles não havia ahi.
«Mas, se muito para sentir foi a morte dos dous, muito mais para sentir foi a das duas tristes donzelas, que a desventura trouxe a tanta desdita, que não sómente conveio aos dous amigos tomarem a morte por élas, mas ainda conveio tomarem-na élas por si mesmas.
«Os dous amigos, no que fizeram, cumpriram para com élas, e para consigo mesmos, aquilo a que eram obrigados pelas leis da cavalaria que mantinham; élas só cumpriram para com êles, o que eu creio que é de maior estima; porque élas, por outros, não fizeram aquilo, e êles, por outras, deveriam-no fazer.
«Assim, como de pessoas que fizeram mais, se deve tambem a morte sentir mais, ainda que a mim egualmente me doem umas e outras: élas, porque eram mulheres, e êles, porque eram homens...
«Isto digo eu, para vós, e para mim, porque meu filho tambem era homem, como êles.»
Capitulo IV
Das palavras que a dona com a donzela passou
Com estas palavras começaram as lagrimas a correr pelas suas faces abaixo, e éla, soltando a fala, seguiu dizendo:
—«Perdoar-me-eis, senhora, que, por minha edade, bem vos posso chamar filha, se muitas vezes me virdes fazer isto, ainda que a vós vos não devem as lagrimas ser estranhas, pois tanto folgastes de buscar lugares sós como estes onde estaes, que já em outro tempo, dizem, foram cheios de mui nobres cavaleiros e formosas donzelas; e ainda agora, por aqui algures, as moças que guardam gado acham pedaços d'armas, e joias de grande valia;—o que parece que faz este vale de mais triste sombra que outro nenhum.
«Não sei, este desconcerto do mundo, onde hade ir ter. Em tempo, foram estes vales muito povoados, e agora muito desertos; costumavam gentes andar n'êles, agora andam animaes ferozes. Uns deixam o que outros tomam! Para que eram tantas mudanças em uma só terra?
«Mas parece que tambem a terra se muda como as cousas d'éla. A esta, porque passou o tempo em que foi leda, veio este em que havia de ser triste.
«De muito povoada, e de edificios reaes enobrecida, tornou-se a povoar de altos arvoredos, como a natureza os produzia.
«Ainda em alguns sitios d'este vale estão algumas antigas arvores, que, pelo muito decurso de tempo, e descostume de como foram creadas, parecem já d'outra plumagem diferente d'aquela de que deviam ser quando, ajudadas de pomareiras mãos, élas produziam seu perfeito fruto.
«Tudo quanto ha n'este vale é cheio de uma lembrança triste para quem tiver ouvido o que dizem que aconteceu n'êle, e o que foi já em outro tempo; que pareceria então que não era para vir a este de agora.
«Mas tudo é assim. Emfim, fazem-se umas cousas para outras, para que se não faziam.
«Mal cuidariam os dous amigos, quando aceitaram a empreza de guardar as aventuras d'este vale (para só aprazer ás formosas duas donzelas) que era para tanto seu desprazer d'élas... E, tambem, mal cuidaram élas, quando aquele dia (da grande desventura) se vestiram, e enfeitaram ricamente, para verem os dous cavaleiros amigos, que era para os não verem mais!
«Trazem-nos os nossos fados não sei quê ante os olhos, que temos as cousas diante, e não as vemos...
«Tudo anda trocado, que não se entende; e assim nos veem tomar as mágoas quando estamos mais assegurados d'élas, que nos doem, a um mesmo tempo, o bem que perdemos, e o mal que depois cobramos!»
Aqui deu éla um grande suspiro, e esteve como se quisera dizer outra cousa: e tornou dizendo:
—«Mas tempo é de cumprir o que vos prometi, pois bem vejo que muito ha hoje que me leva a minha dôr após si.»
Capitulo V
Do que Lamentor passou n'aquela parte onde foi aportar com a sua nau, e da batalha que teve com o cavaleiro da ponte e do que mais lhe sucedeu
«De reinos estranhos, dizem que veio n'um tempo passado ter a estas partes um nobre e famoso cavaleiro.
«Aportou, cerca d'aqui, em uma nau grande, carregada de muita riqueza, e, sobretudo, de duas formosas irmans, a uma das quaes êle mais que a si queria. Para que éla não sentisse a saudade de sua terra, trouxeram a outra irman, donzela, mais pequena que aquela por quem êle vinha buscar terras estranhas.
«Contam que élas eram filhas de um poderoso senhor, como depois, com o tempo, se suspeitou, pelos muitos cavaleiros andantes que pelo mundo foram espalhados n'aquela epoca. Mas esta historia será longa.
«Aportando Lamentor (que assim se chamava) n'estas partes, como digo; havida inteira informação da terra, e da gente d'éla, porque, como êle viesse da maneira que vinha, não queria fazer seu assento em nenhum lugar muito povoado; e, saindo um dia pela manhan da nau, com todas as suas riquezas, começou a caminhar por este vale acima,—que para tudo tinham já seus criados feito o concerto necessario.
«Em umas ricas andas, que Lamentor na nau trouxera, iam as duas irmans; porque a maior vinha quase no fim do tempo da prenhez.
«A manhan era graciosa. Parecia que assim se acertou, para a terra mais lhes contentar. Ia o ano no mês d'abril, quando florescem as arvores, e as aves, que até então estiveram caladas, começavam a andar fazendo os gorgeios do outro ano, pelo que, por entre o arvoredo d'este vale (bem podeis cuidar quejando seria então, pois agora é tanto) estavam élas tomando recreio, ora n'uma cousa ora em outra.
«Tudo buscava Lamentor para que sua senhora e a donzela sua irman, de alguma maneira, perdessem a saudade de sua terra, e o enjôo do mar.
«Sendo êles cerca de uma ponte, que ahi perto ainda está, e querendo-a passar, lhe disse um escudeiro que no começo d'éla estava:
—«Senhor cavaleiro, se quereis passar, convem que façaes, uma, de duas:—ou que confesseis que o cavaleiro que mantem esta passagem quer bem com mais razão que ninguem, ou o determinará a justa.»
—«Muitas cousas havia mister de saber (lhe respondeu Lamentor) quem houvesse de responder a essa pregunta: e como se póde saber se quer êle bem com mais razão sem ouvir primeiro onde, ou como o quer? Mas, por agora, d'isso eu não curo: porque a mim basta-me saber que, por mais razão com que êle queira bem, eu o quero mais que êle, e que todos os do mundo. Isto que sei, certo de mim, me escusa saber mais d'êle que a condição com que êle guarda esta ponte. A razão que tem para isso, guarde-a para si; que, para êle, poderá ser que pareça a maior do mundo. Deveis, bom escudeiro, dizer-lhe que faria bem em deixar-nos passar, antes que o julgue a justa.»
«O escudeiro, que já olhára para as andas, e nunca cousa tam bem lhe parecera, lhe tornou:
«—É escusada, para êle, essa embaixada, porque está tam ufano, que não póde agora ninguem com êle (e na verdade tem causa); porque fará d'aqui a oito dias três anos que êle mantem este passo, sem achar cavaleiro que o vencesse, sendo o mais esforçado d'êles que por toda esta terra ha. E então se acaba o praso que lhe foi dado por uma donzela, a mais formosa que n'estas partes se sabe, filha do senhor d'aquele castelo que ali vêdes, em que éla lhe prometeu seu amor, sendo esta ponte por êle guardada com a dita condição. Mas se êle fosse sabedor da companhia que vós trazeis, com razão deveria temer agora, mais que nunca; mas eu não lh'o posso ir dizer, que já outras vezes lhe levei assim embaixadas, e êle tornava-me má resposta: e sucedendo depois á sua vontade m'o deitava em rosto, como que a minha tenção ficasse, pelo seu acontecimento, culpada.»
—«Ora, pois, determine-o a justa», disse Lamentor, olhando já para as andas.
«Tirando então, de um tiracolo, o escudeiro uma corneta, tocou-a.
«Dahi a um pouco, deixou-se sair d'um espesso arvoredo, que alem da ponte estava, um cavaleiro bem armado, a cavalo, e vindo direito para a ponte, ali houveram ambos justa, de que meu pae contava muitas cousas de grande esforço e valentia, que vos eu não contarei; porque, ainda que as mulheres folguem muito de ouvir cavalarias, não lhes está bem contarem-nas, nem élas parecem, nas suas bôcas, como nas dos homens que as fazem.
«Mas, comtudo, dissera-vo-las eu, se me lembrassem inteiramente; porém, não me lembra senão que contava meu pae que romperam três lanças, e á quarta caiu o cavaleiro da ponte; e com a queda grande do encontro (que tambem foi grande) ficára sem se poder levantar por um pouco.
«Lamentor se apeou rapidamente. Quando chegou junto d'êle, o achou sem fala, e, descobrindo-o, lhe pareceu como morto. Mas, d'ahi a um pouco, acordou, todo mudado na côr, e levantando os olhos para Lamentor, que sobre êle estava, com um suspiro:
—«Ai! ai! cavaleiro,—lhe disse. Que vos nunca vira, prouvera a Deus, ou que ao menos vos não tornára a ver!»
«Lamentor houve d'êle dó, maiormente de suas lagrimas, que lhe viu; e, tomando-o pelo braço, o ajudou a erguer, dizendo:
—«Do amor, senhor cavaleiro, nos podemos queixar com razão; que, assim como vos êle a vós fez aqui guardar esta passagem, me fez a mim fazer-vos dano. De vo-lo ter feito, me pesa como homem; que, fazer-vo-lo, foi como namorado. N'outra alguma cousa de vosso contentamento vo-lo emendarei, quando mandardes.»
«O cavaleiro da ponte, que assim o viu comedido, bem lhe pareceu razão de lhe agradecer aquela vontade; mas tamanha era a dôr que tinha no coração que não pôde acabar de forçar a sua. Comtudo, porque era de alta criação, lhe disse, como desculpando-se:
—«O amor demasiado não vive em terra de razão, mas eu irei tomar vingança d'êle n'outras, alongadas d'esta, onde não veja cousa com que os meus olhos descansem; ainda que esta vingança bem me pésa,—pois que ha de ser de mim e de meu cuidado?!»
«E assim se virou para outro lado, e deu a andar pelo vale abaixo. E como êle da queda grande que dera ficasse mal-tratado, e (segundo depois pareceu) quebrasse alguma cousa de dentro, não foi muito pelo vale abaixo, porque, acabando o seu escudeiro de tomar o cavalo, começando d'ir após êle, o alcançou perto d'ali: e achando-o já lançado no chão, de bruços, foi para o erguer, e viu que êle era em estado de morte.
«Começou a chorá-lo amargamente, e Lamentor, que o ouviu, deu a correr para lá. E vendo que estava o escudeiro com seu senhor, como morto, nos braços, desceu-se prestesmente, e foi-se para êle; e vendo-o no derradeiro termo de sua vida, e como desmaiado, lhe começou a dizer:
—«Que é isto, senhor cavaleiro?... Esforçae! que é este o passo verdadeiro para que tomastes a ordem de cavalaria.»
«E êle, acordando, pôs os olhos em Lamentor, e estendeu-lhe, vagarosamente, a mão direita, como em signal que parecia de paz. E, com uma voz cansada, disse:
—«Ao esforço, se me êle pudera valer, perdoára eu tudo; pois me falece agora, quando a mim tanto cumpre viver...»
«E com a força que fez para dizer isto (como homem que tinha alguma dôr grande de dentro) foi-se-lhe o folego, e, cerrando os seus olhos, ficou como passado d'este mundo. Mas, d'ahi a um pouco, os tornou a abrir, e fazendo menção com o rosto para aquela parte onde estava o castelo da donzela por quem guardava a passagem, e que todo aquele vale descobria, e levando para lá os olhos,—parece que lembrando-lhe que não tinha já mais de oito dias para acabar o praso que lhe fôra assinado, e como cousa que lhe mais magoava—ainda disse estas derradeiras palavras:
—«Ó castelo, quam perto ainda agora estava de vós!»
«E, com isto, deixaram-se-lhe os seus olhos ir, cansadamente, cerrando para sempre.»
Capitulo VI
Em que se diz a razão por que o cavaleiro da ponte sustinha aquele passo, e de como sua irman ali veio ter
«Chegadas eram já ali as andas com as duas irmans, e toda a outra gente, e vendo como o cavaleiro da ponte (que desarmado já o rosto tinha) era de formosura, e presença extremada, e ainda mancebo, todos ficaram muito tristes de tamanho desastre.
«Lamentor, que via como o escudeiro estava lançado aos pés de seu senhor, tristemente chorando, havendo d'êle compaixão (porque, assim na pratica que com êle tivera havia pouco, na ponte, como n'aquilo, lhe parecera de boa maneira e de criação) foi-se para o consolar; e tirando-o para fóra d'ali, d'onde estava chorando, lhe disse:
—«Até nas cousas proveitosas, a temperança é muito louvada; os choros não aproveitam para nada; por isso, é muito mais necessaria n'êles; nem os choros se devem ter senão como cousa que se não póde escusar. Vosso senhor faleceu como cavaleiro; e ainda vos digo que as pessoas que lhe bem-queriam não devem estar tristes; antes se devem alegrar muito, porque foi de tam alto coração que não pôde suportar ser vencido,—que, sê-lo ou não, está na ventura.»
—«D'esta desventura minha, pois fico só (disse o escudeiro, chorando) não me pésa tanto por mim, senhor, como por ser tomada por quem é.»
—«Os cavaleiros por amores, tornou Lamentor (desejando saber o que este era), tudo lhes está bem fazer.»
—«Em lugar, lhe respondeu o escudeiro, que lhe seja agradecido; mas o meu senhor, sobre todas as cousas do mundo, queria bem a uma donzela, que não tinha para êle mais armas que a formosura; porque a vontade (segundo éla mostrou) nunca foi d'êle, antes disseram algumas pessoas de sua casa que no dia em que éla concedeu o praso chorou muitas lagrimas, e que nunca o concedera se não fôra por seu pae, que era tam afeiçoado a meu senhor (e com razão) que, ao cabo de longo tempo, alcançou isto de sua filha, e ainda á hora de sua morte.»
«Todos ficaram espantados d'ouvir isto, porque o cavaleiro da ponte era formoso e se houvera na justa grandemente.
«Lamentor, a quem isto pesou muito, pelo esforço que êle na justa lhe vira, com grande melancolia, disse:
—«Consolae-vos, que amor nunca perdoou desamor; tarde ou cedo, vereis vingança.»
«O escudeiro, chorando, e tornando-se a lançar aos pés do seu senhor:
—«Ai! senhor cavaleiro, disse, para a morte não ha ahi vingança!»
«Lamentor o tornou a erguer, dizendo-lhe: que, para o chorar, haveria tempo; que por então curasse de entender no que havia de fazer.
«O escudeiro lhe disse que iria, d'ali a uma jornada, onde estava uma fortaleza de seu senhor, em que vivia uma sua irman viuva, a quem a êle dera para lhe comer as rendas enquanto que êle seguia as aventuras: e d'ahi viria o concerto para o levarem ao jazigo de seus antecessores; e que, por então, deixasse Lamentor ali um seu escudeiro, que o guardasse.
«O sol ia já declinando, e era tempo de repousar: mórmente quem do mar saíra.
«E porque, não muito longe d'aquele lugar, e da ponte, estava um assento gracioso d'arvoredo, e corria por entre êle agua, ordenou Lamentor de ali jantar, e assim o fez depois, dizendo ao escudeiro que queria ir repousar n'aquele lugar; que lhe daria as andas em que o levassem, e que, se mais lhe cumprisse, de boamente o faria.
«O escudeiro, tendo-lh'o em mercê, disse que assim fosse.
«E, começando-se de ordenar tudo, sucedeu por acaso que a irman do cavaleiro da ponte, que sabia que não havia mais que oito dias para se acabar o praso em que seu irmão (que éla muito queria) todo o seu contentamento tinha posto, determinára vir ali com grandes pompas e atavios, como aquela que devia, por amor e obrigação, acompanhá-lo até ao fim,—porque tinha éla por certo que o acabaria êle com grande honra, pois tanto tempo mantivera sua aventura que não havia já cavaleiro em toda essa parte que por ali não tivesse passado.
«E acertou então de vir: e, vendo aquele ajuntamento e as andas, não soube que dizer; mas logo lhe deu o coração uma volta, e, chegando-se com presteza, viu o escudeiro, que éla bem conhecia, andar chorando. Preguntou-lhe que cousa era aquela. Olhou, e viu o irmão jazer já sobre uns panos ricos, que Lamentor lhe mandara pôr, e, apeando-se apressadamente, foi correndo para êle. Lançando os seus toucados por terra, começou a ir, arrancando cruelmente os seus cabelos (que longos eram), para onde o corpo de seu irmão morto jazia, dizendo:—«Para a dôr grande, não se fizeram leis!»
«Isto dizia éla, porque era costume muito guardado n'aquela terra, que ficara d'outro tempo, sob grandes penas proíbido, não se pôr mulher nenhuma em cabelo, senão por seu marido.
«Chegando a êle, o abraçou muitas vezes, e o beijou, dizendo:
—«Irmão meu, que morte foi esta, que assim vos levou tam depressa, que vos não pude falar? Quam enganada me trouxe, do vosso castelo até aqui, a desventura?! Que desconcertos da fortuna são estes? Para verdes outrem, tomaveis vós esta empreza; e eu para vêr a vós parti de casa: e tudo era para não vêrmos o que desejavamos!... Triste de mim, que, quando vós, com outro rosto, fostes correndo a abraçar-me, dizendo: «D'aqui a três anos, senhora irman, haverei a causa do mundo mais desejada, e, com vossa licença, que mais quero» logo me deu n'alma. E disse-vos: «Que largo praso, esse, para quem o recebe; parece até que quem o põe o não põe para outra cousa!» Mas vós, que para isto quisestes este bem, como que não folgaveis de me ouvir aquilo, me tornastes: «O grande amor assegura esta demanda.» Inda mal, muitas vezes, porque foi tam grande! Mas não me comerá a mim a terra com esta dôr, sem fazer, com todo o meu poder, que custe o largo praso alguma cousa áquela que tanto custou a vós e a mim!»
«As duas irmans, que já tinham descido para darem as andas, se foram para éla, e, tomando-a entre si, começaram a agasalhá-la, á maneira de a quererem consolar,—que a lingoagem d'aquela terra não a sabiam.
«Éla, com alta voz, chorando, disse: «Deixai-me, senhoras, chorar meu irmão, pois não tem outrem que o chore.»
«Chegou-se Lamentor, que sabia a língoa, e andára todas as partidas do mundo, e disse:
—«Os cavaleiros, senhora, que em feitos d'armas acabam, como vosso irmão, não devem ser chorados como os outros homens; porque êles acham o que buscam. Vós, senhora, posto que muita causa tenhaes para ser triste, pela perda que perdestes n'ele, que era o melhor cavaleiro d'esta terra toda, tendes tambem muita razão para louvar a Deus por ele ser tal. Deixae o pranto, e vêde o que mandaes que se faça; que parece, senhora, escandalo curardes mais de vossa dor que de vosso irmão, emquanto o tendes diante de vós.»
«N'isto, chamou o escudeiro, para que lhe dissesse o que estava d'antes ordenado. E éla o houve por bem, e fez-se assim.
«E puseram o cavaleiro da ponte sobre as andas, em ricos panos; e a irman, chorando, pediu que a metessem com ele. Lamentor a tomou por um braço, e a donzela (porque a irman não podia) pelo outro, e puseram-na dentro. E querendo Lamentor soltar os paramentos das andas, como causa de tanto dó, se chegou mais para éla, e disse estas palavras:
—«Ainda que o tempo, senhora, seja para outra cousa, como não sei quando vos tornarei a ver, de mim sabei, como certo, que podeis fazer a vosso serviço; o mais, sabereis do escudeiro.»
«E éla não tornou resposta, que ia toda coberta, lançada já sobre o rosto de seu irmão, chorando.
«Ele soltou os paramentos, e assim se foram.»
Capitulo VII
Como, depois de partida a irman do cavaleiro da ponte, por aprazer aquele lugar a Lamentor, ordenára fazer ali seu assento
«Tristes ficaram todos por aquela desventura; mas Lamentor, que não esquecia quem trazia consigo, limpando os olhos das lagrimas que aquela partida assim lhe fazia, veio para onde sua senhora estava com a irman, com estas palavras:
—«Agora nos podemos, senhora, ir; que na mortalha alheia não temos mais que fazer.»
«E, tomando-as, cada uma por sua mão, mandou os seus para aquele lugar que d'antes lhe parecera bem, dizendo-lhes o que haviam de fazer entrementes.
«Foram-se então todos pôr sobre a ribeira d'este rio, olhando para êle. Falando em outras cousas, estiveram ali um pouco, porque o mais depressa que ser podia foi armada uma rica tenda, e preparado de comer, que tudo vinha em grande abastança.
«Repousaram até bem tarde, que as andas tornaram. E por não serem já horas para caminhar, se deixaram ficar ali aquela noite,—que a fortuna tinha já ordenado que fosse para sempre.
«Belisa (que assim se chamava aquela senhora que vinha prenhe), emquanto ali estiveram, antes que as andas viessem, adormeceu; e, acordando um pouco agastada, viu junto de si Lamentor, e lançando-lhe, amorosamente, os braços sobre o pescoço, esteve assim pensativa por um pouco.
«E êle, vendo que éla sonhára, pelo desacordo com que acordára, lhe preguntou:
—«Que cousa, senhora, foi essa?»
—«Sonhava, senhor (lhe respondeu éla) que estávamos, vós e eu, ambos presos de um fio; e que eu cortava-o, e que vos não via mais.»
«Lamentor, não lhe pareceu senão que lhe atravessavam aquelas palavras o coração (como na verdade assim foi) e assim êle, com isto que em si sentiu, se entristeceu grandemente.
«Adivinhava-lhe, parece, a alma o seu mal. E não pôde tanto dissimular que o não conhecesse éla, e disse-lhe:
—«Que é isto, senhor, que assim vos mudastes com o que vos disse?»
«Mudando êle o proposito em cousa que tambem lh'o mudasse a éla, para lhe escusar alguma imaginação, pelo perigo em que vinha da prenhez, lhe respondeu, dizendo:
—«Hei-vo-lo, senhora, de confessar, ainda que n'isto force minha condição,—que nem dizer-vo-lo, nem cuidá-lo quisera. Houve melancolia. Perdoae-me, que de vós não se póde éla haver. Mas como os sonhos não venham senão do que a gente traz na fantasia pareceu-me (porque me dissestes que sonhaveis que me não vieis mais) que era desconfiar do que vos quero, e de mim,—sendo vós bem segura de ambas as cousas, ou de cada uma.»
—Éla, com a boca cheia de riso, que bastava para o desagastar (se êle aquilo cuidava) se chegou mais para êle, dizendo-lhe:
—«Bem longe viera eu buscar essa desconfiança! Eu vos perdôo. Parece que é este dia aziago, que tantos desastres acontecem n'êle!»
«N'isto, e em outras cousas, passaram aquele dia, emquanto houve sol,—o qual com mais prazer se havia de pôr, do que amanheceu, pelo que ouvireis.»
Capitulo VIII
De como a Belisa vieram em crescimento as dores do parto, e, parindo uma criança, faleceu
«Vinda a noite, repousando já todos, Belisa se começou de agastar levemente; mas, crescendo-lhe a dôr cada vez mais, houve de chamar por sua irman.
«Acordando éla, que perto em uma cama dormia, lhe contou Belisa como a dôr lhe ia em crescimento. A senhora Aonia (que assim se chamava a irman) acordou as mulheres de casa, e uma dona honrada, que de parteira sabia muito, e para isso a trouxera Lamentor; porque, quando partira, já Belisa era prenhe; e se não fôra porque se não podia já encobrir, não a trouxera êle assim a terras estranhas: mas, na necessidade, o amor não achou outro melhor remedio que o desterro.
«Belisa, que a Lamentor queria sobre todas as cousas do mundo, disse, para as outras, que a ajudassem a tirar do leito em que jazia para a camilha de sua irman, para o não acordarem, que estava cansado do caminho. Assim se fez, o mais de manso que puderam.
«Grande parte da noite passaram a fazer remedios para a dôr de Belisa. Mas a senhora Aonia, que via sua irman cada vez com mais agastamentos:
—«Quereis, senhora irman (lhe disse) que chamemos meu irmão?»
—«Para tomar paixão, (lhe disse éla) não o chameis vós; que prazerá a Deus que se me irá esta dôr: e isto, ao menos, ganharemos d'éla.»
—«Assim praza a Deus (falou a dona honrada, d'acolá d'onde estava) porque não vejo nenhum sinal, senhora, de parirdes tam cedo. Deve ser isto do caminho ou da mudança de terra.»
«Porém, era já manhan quase; e a dôr não amansava, antes se fazia maior, e começavam-lhe a vir uns agastamentos e desmaios ao coração. A primeira vez que lhe isto veio, suportou-o éla; e a outra vez tambem; mas quando veio a terceira, em tamanho crescimento lhe veio, que lhe tolheu a fala, um pouco.
«Tornando éla a si, olhou para sua irman, dizendo-lhe que já agora lhe pesava de o não chamarem. E porque n'isto se começou a sentir melhor, tornou depressa para sua irman, que já ia para o chamar, dizendo:—«Mas não o chameis, que, parece, me acho melhor.»
«Um pedaço grande, esteve então Belisa desagastada. E porque uma rica camisa que tinha vestida estava mal-tratada dos remedios que sobre o coração lhe punham, para as mulheres, disse:—Vistam-me a mim outra camisa, que, se morrer, não vá pelo menos assim.»
«A senhora Aonia se pôs a chorar, com estas palavras.
«Olhando para éla, Belisa, lhe vieram as lagrimas aos olhos; e, querendo-lhe dizer alguma cousa, a dôr não a deixou, que então começou mais apertadamente que d'antes.
«Aquela dona honrada, que a via mais agastada que nunca, disse que seria bom erguerem-na de todo; e querendo-a sua irman tomar por um lado, se virou Belisa para éla, dizendo-lhe:—«Não sei que ha-de ser isto!»
«Mas tamanhos foram os agastamentos, e tam apressados, que não houve ahi acordo para a erguerem de todo, e ficou como assentada. E, emfim, foi assim a desventura que em breve espaço a pôs no extremo da morte.
«E já, a éla, lhe ia falecendo a fala, levantando os olhos para sua irman, como forçadamente, disse:—«Chamem-no; chamem-no!»
«Foi a senhora Aonia, chorando desoladamente, chamar Lamentor, que no mais alto sôno dormia, dizendo-lhe:—«Acordae, senhor; acordae, que vos levam Belisa!»
«Ergueu-se apressadamente Lamentor, levando a mão a um terçado, que junto da cabeceira tinha; mas vendo chorar todos derredor da cama de Aonia, e Belisa, a quem tinham erguida até aos peitos, como passada d'este mundo,—abraçando-a, se chegou para éla, dizendo:
—«Que cousa foi esta, senhora?»
«E as lagrimas enchiam, com estas palavras, todo o rosto seu e o d'éla.
«Levantou então Belisa, cansadamente, uma mão, com a manga da camisa tomada, para lhe limpar os olhos; mas, não seguindo éla já a sua vontade, se lhe deixou a tornar a cair para baixo. E éla, pondo os olhos fitos n'êle: «Não mais, disse, para sempre!» E, d'ahi, os foi cerrando, vagarosamente, como que lhe pesava de o deixar assim.
«Lamentor, que isto não pôde ver, caiu para o outro lado, como morto, e assim esteve um grande pedaço.
«N'este meio tempo, ouvindo a dona honrada chorar uma criança na cama; e cuidando o que era, atentou, e achou uma menina recem-nascida, que chorava muito.
«E, tomando-a então nos braços, com os olhos não enxutos, disse assim:
—«Ó coitadinha de vós, menina, que chorando vossa mãe nasceis! Como vos criarei eu, a vós, filha estranha, em terras estrangeiras? Mal vá ao dia em que assim saimos do mar, para passar toda a tormenta na terra!»
«Mas, como entendida que era, ordenou de a curar, tomando a tarefa toda sobre si; que bem via que Lamentor, e a irman, outro maior encargo tinham. E, assim, mandou o que se havia de fazer, e proveu sobre tudo».
Capitulo IX
Do pranto que Aonia fez pela morte de sua irman Belisa
«A senhora Aonia (lembrando-lhe o que vira fazer á dona viuva sobre o corpo de seu morto irmão, que o devido costume ao tempo do luto lhe parecia então,—posto que em sua terra se não usasse) pondo-se sobre o corpo de sua irman, rasgando os toucados dos seus formosos cabelos, que longos eram, á maravilha, a cobriu toda, e tambem a Lamentor, que éla bem cuidou que era falecido; que pelo grande bem que êle queria a sua irman, leve lhe foi isto de crer, vendo-o da maneira que via!
«Depois de muito cansada, em alta e dorida voz, começou por estas palavras:
—«Triste de mim, donzela de pouco tempo, desamparada em terra alheia, sem parentes, sem ninguem, e sem prazer! Como vós, senhora irman, me pudestes deixar só, tam longe e em tal lugar?! Para vos tirar a saudade, me dizieis vós que vinha eu cá: e vós, para m'a dar a mim, vinheis!... Malaventurada de mim! Para outros fados, cuidava eu que me criava a mim minha mãe, e éla foi a enganada, e eu a que hei de pagar agora o engano! Quam sem-razão tamanha, senhor cavaleiro, me é feita diante de vós! De quantas donzelas por vós foram amparadas, eu só estava para o não ser! Coitada de mim! Que farei? Onde me irei?...»
«E assim se lançou sobre o corpo de sua irman.
«Mas, ao invocar o cavaleiro, Lamentor a ouviu, como por sonhos; e tornando em si, viu diante tantas mágoas que ficou sem fala um pouco; e vendo logo como se matava toda a senhora Aonia, esforçou-se para a ir ajudar, para que tam cruelmente se não matasse, dizendo:
—«Esforçae-vos, senhora, pois a fortuna quis que um tam desconsolado vos console!»
«E foi-a a erguer; e, querendo-lhe falar, lhe faleceu a fala.
«Ali, houveram ambos mui triste pranto, e entre si se diziam, um ao outro, palavras de muita mágoa, começadas pela dôr, rotas pelo pranto.
«E era já manhan clara.
«E acertou assim que, áquela hora, chegava um cavaleiro á ponte, e vinha de longes terras buscar aquela aventura, por mandado d'uma senhora que lhe queria bem a êle: mas êle a éla devia-lhe mais do que lhe queria.
«Não achando ninguem na ponte, e ouvindo perto d'ali tam grande pranto, pareceu-lhe algum misterio, ou alguma cousa de dôr.
«Deu a andar para onde era; e, vendo uma rica tenda, e ouvindo muita gente, dentro e fóra, chorando, preguntou a um servidor, que topou, que cousa era aquela. E êle lh'o contou.
«E, apeando-se êle então, (mandando primeiro adiante o escudeiro de Lamentor) muito mensurado e humildemente, entrou após êle.
«E entrando, e vendo a senhora Aonia, que em grande extremo era formosa, soltos os seus longos cabelos que toda a cobriam, e parte d'êles molhados em lagrimas, que o seu rosto por alguma parte descobriam, foi logo trespassado do amor d'éla, sem haver quem, por parte d'outrem, fizesse defeza alguma; e como o amor viesse juntamente com a piedade, parecia que vinha éla só; mas, quando se descobriu, eram já conhecidas tantas razões por parte da senhora Aonia, que não tam sómente lhe esqueceu a outra, mas não lhe lembrou mais senão para lhe pesar do tempo que gastára em seu serviço.
«D'esta maneira, foi êle preso do amor da senhora Aonia; e, depois, veio a morrer por éla.
«Este foi um dos dous amigos de que é a nossa historia. E, por isto, costumava meu pae dizer que tornára o amor d'este cavaleiro a morrer na paixão onde se levantára. Mas, para isto, seu tempo lhe virá.
Capitulo X
De como Narbindel, vindo a combater com o cavaleiro da ponte, vendo o pranto que se fazia na tenda de Lamentor, entrou dentro para o consolar
«Dito era já a Lamentor que o cavaleiro entrára: mas êle não no viu senão quando já o achou junto de si, dizendo-lhe palavras de consolação.
«Lamentor as recebeu d'êle o melhor que pôde, mais por lhe não dar causa de se deter muito, que por estar para isso. Mas, depois de estarem um pouco, vendo Lamentor que êle não fazia menção de se ir, forçadamente, lhe disse:
—«Senhor cavaleiro, a vossa visita vos tenho em mercê. Praza a Deus que, em outra mais alegre, vo-la pague! Nós vimos de jornada, como sabereis. As pousadas não são maiores do que vedes; não ha ahi outra casa senão esta, para a tristeza e para nós. Deveis-vos, senhor, ir para onde ieis; não tomareis ao menos parte em tanto luto, porque as mágoas alheias tambem doem a quem as vê. Perdoae-me, que não tenho agora outra cousa em que vos sirva a vossa boa vontade.»
«O cavaleiro, passando os olhos pela senhora Aonia:
—«Eu não tenho d'onde ir d'aqui», lhe disse.
«E, parece que lembrando-lhe que a havia de deixar, cairam-lhe umas ralas lagrimas pelo peito.
«Mas, como êle visse que ali não tinham mais do que aquela tenda, e outra pequena, bem lhe pareceu que não podia caber ali n'aquele tempo gente estranha, ainda que êle—no seu coração—já o não era. Erguendo-se então, seguiu sua fala, dizendo: