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CAETANO ALBERTO


DESCOBRIMENTO

DAS

FILIPPINAS

PELO NAVEGADOR PORTUGUEZ

FERNÃO DE MAGALHÃES

Edição illustrada

LISBOA
EMPREZA DO OCCIDENTE
Largo do Poço Novo

1898


DESCOBRIMENTO DAS FILIPPINAS


CAETANO ALBERTO


DESCOBRIMENTO

DAS

FILIPPINAS

PELO NAVEGADOR PORTUGUEZ

FERNÃO DE MAGALHÃES

Edição illustrada

LISBOA
EMPREZA DO OCCIDENTE

1898

Á memoria de seu tio

O CAPITÃO

Paulo Antonio da Rocha

O. e D.

O Auctor.

Fernão de Magalhães

{9}

I

Primus circumdidisti me.—Foste o primeiro que me circumdou.—Foi esta a divisa que Carlos V, o imperador, escreveu na esphera que encimou o brazão de Sebastião de Elcano, o afortunado piloto castelhano, que do mar do sul trouxe a S. Lucar de Barrameda, a nau Victoria, com a noticia da descoberta das ilhas Mariannas, tendo dado a volta ao mundo.

Afortunado chamámos a Sebastião de Elcano, e que maior fortuna que colher os loiros que deviam cingir a fronte de outro, a quem a sua má estrella lhe anoitou a existencia depois de o ter guiado á victoria!

E que outro podia ser que um portuguez a devassar os mares, a circundar o globo?!

Que de emprezas arrojadas; que de feitos d'armas; que de acções generosas; que de{10} progressos das sciencias se poderão apontar na historia, que não encontreis á sua frente primeiro entre os primeiros:—o portuguez.

Ah! que até chego a duvidar se estou acordado ou sonhando, quando ouço para ahi tanto pessimismo a amesquinhar o nosso valor, a duvidar, a descrêr de nós proprios!

Não ha talvez outro exemplo de uma nacionalidade assim!

Tão grande; tão prestimosa; tão brilhante, que o seu nome está escripto no mundo inteiro, pelos mares, nas ilhas, nos continentes, nos mais reconditos sertões e até nos astros—como adiante veremos—e que tão pouco julgue de si; tendo-se por fraca quando tanto é o seu valor; julgando-se pobre quando é tão rica, que tem dado prodigamente a outros e tanto ainda lhe resta para si; que tendo uma historia tão gloriosa como outra não ha, pense que não é d'ella que ha-de viver, como se fosse uma Roma cahida, que já não tem a girar-lhe nas veias o mesmo sangue com que escreveu essa historia!

Mas então o que valem os feitos dos nossos soldados, que ainda nos principios d'este seculo se batiam e levavam de vencida as legiões do primeiro capitão, que avassalava o mundo com a sua espada e que veio encontrar, n'este recanto da peninsula, os primeiros revezes da guerra que o levaram por{11} fim a Santa Helena:—O grande Bonaparte!; mas que valem, em nossos dias essas victorias alcançadas em Africa; que dispertam a admiração do mundo; que significa ainda o triumpho que n'este momento as armas portuguezas estão alcançando na Oceania?; o que vale o resurgir das nossas artes, que vão honrar o nome portuguez nos certamens onde concorrem os artistas de todo o mundo, como agora, em Berlim; que gloria nos vem de um dramaturgo portuguez Pinero (Pinheiro), em Inglaterra, alcançar os maiores triumphos nos theatros de Londres, e das suas peças percorrerem toda a America; para que orgulhar-mo-nos dos Luziadas que é um poema eterno porque canta as glorias de um povo de guerreiros e de navegadores; para que serve a expansão d'este paiz pequeno, cujos seus filhos affirmam a victalidade da patria pelas cinco partes do mundo, em colonias tão importantes como as da America, da Africa, da Oceania e da Asia; que importancia tem os nossos homens scientificos que se distinguem nos congressos onde se reunem as summidades da sciencia; o que quer dizer essa lucta da industria portugueza a medir-se com as industrias de outros paizes mais adiantados, supprindo as necessidades de um povo civilisado a que a má administração das suas finanças acarretou uma{12} crise economica; o que importa o renascimento de um paiz que em meio seculo tem realisado todos os progressos que o aproximam das nações mais cultas?

Serão proprios de uma raça degenerada, de um paiz perdido, de uma civilisação extincta, todas estas manifestações de vida, affirmações de força, de lucta pela existencia, sob um sol creador, n'uma terra uberrima, que se desentranha em fructos, que encerra thesouros, em suas minas, fertilisada por abundantes rios, que tem tudo que ha em outros paizes e mais o que elles não teem, que é rica, emfim, de todos os bens que a natureza possue e que Deus parece ter reunido aqui como no paraizo terreal!

E para que foi que este povo, achando-se apertado no solo que as suas espadas conquistaram, se aventurou aos mares a alçar a sua bandeira em terras até então desconhecidas, levantando imperios na India e na America, avassallando novos mundos onde a familia portugueza póde viver como na patria porque são patria tambem de portuguezes.

Mas basta. Não ennumeremos mais o que deveria estar na lembrança de todos os filhos de Portugal, o que nunca deveriam esquecer, porque é esquecerem-se da sua nacionalidade, do que prova a sua existencia{13} e autonomia, do que dá razão da sua vida atravez de todas as vicissitudes porque tem passado.

Pois quê! se Portugal não fosse um élo importante da cadeia que liga a grande familia da humanidade, teria resistido aos embates da sorte que tantas vezes o hão experimentado?

Se elle não tivesse concorrido tão bastamente para a civilisação que o mundo disfructa, como teria atravessado por entre os seculos e luctado contra as ambições de extranhos que tentaram apagar dos mappas as linhas que demarcam as suas fronteiras!

A Polonia succumbe sob o grande collosso porque a sua nacionalidade não coopera na transformação porque o mundo passa ao sahir da idade media; o mesmo acontece á Hungria. Veneza cahiu quando as novas descobertas empanam o brilho da sua navegação e do seu commercio.

Portugal existe e vive porque o ciclo da civilisação de que elle lançou os primeiros segmentos ainda não se fechou.{14}
{15}

II

Que serie de heroes encontramos ao folhear da historia, desde os que tentam as primeiras descobertas geographicas até os que fundam imperios como Affonso de Albuquerque.

Como as prôas das naus portuguezas foram deliniando, na immensa tabola do Oceano os fundamentos da civilisação moderna.

Os argonautas precedem os venezianos nas suas viagens; o scandinavo Leif Erik descobre tres seculos antes de Colombo a America do norte e os noruegueses estabelecem-se na Islandia; Roger Bacon e o cardeal Pedro d'Ailly esboçam os primeiros deliniamentos geographicos, mas tudo isto é nebuloso no espirito dos navegadores e cosmographos do seculo XV e faz crescer a vontade de conhecer os caminhos do mar,{16} para chegar áquellas regiões mysteriosas de que se contavam historias da Fabula.

Christovão Colombo e Amerigo Vespucci estudam e fazem calculos para achar o caminho do Oriente de que falla Marco Polo, e o aventuroso genovez despresado na sua patria vem offerecer a Portugal os seus serviços e pedir-lhe naus para ir á descoberta, mas não é mais feliz nas suas pretenções do que o fôra na Italia.

Já Portugal então andava tambem empenhado n'essas emprezas, e o immortal infante D. Henrique lançava, na supposta eschola de Sagres, as bases das grandes navegações e descobertas que iam seguir-se.

Ali se planeava a grande revolução geographica que se ia operar e que seria o fóco de novas revoluções, nas sciencias, nas artes e no commercio, o prologo d'esta civilisação que hoje nos maravilha.

Vasco da Gama, mais feliz do que Colombo encontra o caminho da India. Os seus marinheiros vencem os mares tenebrosos e quebram o encanto das sereias que se rendem ás suas canções maritimas; o indomito Adamastor respeita tão grande audacia e deixa passar adiante a frota que entra alfim no Oceano Indico.

Depois que serie de descobertas se succedem;{17} que trabalho de civilisação de novas gentes se enceta.

Os nossos arsenaes apparelham, sem cessar, naus e caravellas para novos emprehendimentos. Desenvolve-se a febre da navegação; cada portuguez é um navegador. Portugal quasi se despovoa para ir povoar novas terras onde leve a luz da nova civilisação.

Os seus capitães vão continuar para além do Atlantico a sua obra de conquista principiada em Ourique. Eram ainda o mesmo peito d'aço, o mesmo braço esforçado. A flôr da mocidade adiantava-se; os que ficavam tinham inveja dos que partiam. Vieram as emolações, as intrigas da côrte, os despeitos, e quantos d'isto foram victimas, os maus, os bons.

Houve, porém, um homem na côrte de D. Manuel, mais audaz, por ventura que outros, que acariciava a idéa de dar a volta ao mundo por mares ainda não devassados de europeus.

Era a idéa predominante no espirito dos navegadores achar a passagem para o mar do Sul que incurtaria o caminho para a India.

Colombo já o pensára, Balboa estivera a ponto de o realisar, mas o Destino tinha escripto no seu insondavel livro que seria a{18} um portuguez que caberia essa gloria: e esse portuguez, esse homem da côrte de D. Manuel;—foi Fernão de Magalhães, que quizera enflorar na corôa de Portugal uma nova joia de alto valor, mas que o mesmo Destino quiz que a fosse engastar na Corôa de Castella!{19}

III

Não é proprio dos espiritos aventurosos medir as suas acções pelas regras da prudencia e da boa razão; se assim não fôra deixaria de haver a aventura para só prevalecer a fria reflexão, o que tanto monta como o mundo ter avançado metade do caminho precorrido nos progressos da humanidade: Audentes fortuna juvat.

Não se esperem aventuras donde só dominar a intelligencia sem participar o coração. Os productos da primeira serão admirados e respeitados, mas o que o segundo produzir ha-de espantar e maravilhar.

Raro se reunem estas qualidades e por isso, quando se encontram em um só homem, esse homem será um heroe, porque encherá de beneficios a humanidade.

Comtudo não menos raro é, que a esses{20} homens de espirito e coração privilegiados, a humanidade tenha aberto os braços antes de lhe mover uma guerra de morte. Porque elles vêem mais longe que o vulgar dos espritos, advinhando o que outros não comprehendem, são sempre o alvo da inveja dos maus a espicaçar a aversão dos nescios.

É por isso que em todos os tempos a intriga tem envolvido os grandes homens, deturpando-lhe as intenções, maculando-lhe o caracter, desfazendo de seus meritos, pretendendo annular-lhe as suas obras.

Quantas vezes os ferros de el-rei arroxearam os pulsos dos seus melhores servidores; quantas o desgosto matou homens a quem a posteridade tem levantado monumentos!

N'este labyrinto da Historia, que os historiadores nem sempre tem podido espurgar das paixões, quão difficil é apreciar com justiça o caracter dos homens que n'ella mais preponderam por suas acções e influencia.

É n'esta difficuldade que nos encontrâmos para definir nitidamente o caracter de Fernão de Magalhães, avaliando as rasões que o levaram a deixar a patria e o serviço do seu rei, pelo serviço do imperador das Hespanhas, por um paiz que era o emulo de Portugal, nas conquistas e descobertas.

É fóra de duvida que Fernão de Magalhães deveria ter um caracter independente{21} e ousado, porque outro não se compadecia com o seu espirito aventuroso; que esse caracter não seria facilmente maleavel como não se amoldaria ás adulações e hypocrisias da côrte, parece seguro; mas viria só d'isto o desagrado em que cahiu para com el-rei D. Manuel?

Seria Fernão de Magalhães mais ambicioso que outros, o que não é para admirar, visto que o seu espirito se dilatava tanto pelo que outros não viam, e essa ambição miraria mais á gloria do que ao interesse material? Qualquer das duas seria o bastante para o malquistar com os camaradas e com os cortezãos.

É certo que um dos motivos de desgosto de Magalhães foi el-rei desattender-lhe o pedido de augmento de pensão, ao voltar de Azamor, onde combatera valentemente contra os moiros ao lado de João Soares e onde fôra ferido em uma perna, de que ficou coxeando; mas se o augmento pouco valia monetariamente, sobrava-lhe em importancia moral porque, como diz Faria e Sousa, na Asia Portugueza: «Subir cinco reaes em dinheiro, é subir muitos graus em qualidade», e Lafitau na Europa Portugueza: «... crescer aqui um real é crescer muito em opinião».{22}
{23}

IV

Quando isto succedeu já Fernão de Magalhães havia illustrado o seu nome em Africa, tendo feito parte de tres expedições, que de Lisboa partiram para aquelles paizes.

A primeira d'essas expedições foi a de 25 de março de 1505, sob o commando de D. Francisco d'Almeida. N'ella se alistou Fernão de Magalhães, contando 25 annos de idade, pois, segundo parece, nascera pelos annos de 1480,[[1]] deixando os commodos da côrte, onde, segundo diz Argenzola, na{24} Historia de las Malucas e Anales de Aragon, era pagem da rainha D. Leonor e d'el-rei D. Manuel. Preparou-se Magalhães, tanto com as coisas espirituaes como materiaes, para a perigosa viagem, conforme o costume dos tempos. Confessou-se e sacramentou-se e fez testamento, em Belem, a 19 de dezembro de 1504, em que transparece o animo com que o testador se achava para as grandes emprezas, pois recommenda n'aquelle documento—segundo dá fé Diego de Barros Arana, na Vida e Viagens de Fernão de Magalhães,[[2]]—a sua irmã D. Thereza de Magalhães, que institue herdeira do seu patrimonio como parente mais proximo, casada com João da Silva Telles, gentilhomem da côrte e senhor do castello de Pereira de Sabrosa, que transmitta o seu appellido juntamente com o seu brazão d'armas a seus herdeiros.

Em 1508 encontrava-se já Fernão de Magalhães em Lisboa de volta d'aquella viagem. Havia tomado parte com Nuno Vaz Pereira nas guerras da Costa Oriental da Africa para submetter aquelles povos á soberania de Portugal, como era necessario para a submissão das possessões da India.{25}

Não nos transmitte a historia os feitos d'armas que elle praticou n'esta viagem; é comtudo certo que ella lhe serviu, como as subsequentes, para alargar os seus estudos geographicos, como affirmam todos os escriptores que de Magalhães se tem occupado.

A segunda viagem encetou-a Fernão de Magalhães em 5 de abril de 1508, partindo de Lisboa na frota de Diogo Lopes de Sequeira, composta de quatro naus, com objecto de novas descobertas e conquistas no Oriente. Malaca era uma das terras mais cubiçadas pelas riquezas que tinha, e Sequeira ia encarregado de estabelecer relações com aquelle povo.

A viagem foi bem succedida até Madagascar, mas, proseguindo para Ceylão, um grande temporal obrigou os navios a arribar a Cochim, onde residia o vice-rei da India D. Francisco d'Almeida. Aqui augmentou Sequeira a sua frota com mais um navio e a guarnição com mais 60 homens, largando de Cochim a 18 de agosto de 1509.

Chegou Diogo Lopes de Sequeira a Malaca depois de ter reconhecido a ilha de Sumatra. Foi, porém, desgraçado o fim d'esta viagem, porque os malayos, que a principio receberam bem os portuguezes, não tardou muito que conspirassem contra os nossos,{26} tentando assassinar Sequeira, tentativa de que Magalhães teve conhecimento e conseguiu frustrar, assim como com esforçado valor defendeu seus companheiros de morrerem traiçoeiramente ás mãos d'aquelle povo, salvando quantos poude dos que se encontravam em terra. Entre estes nomea-se Francisco Serrano, ou Serrão, seu companheiro e, parece, parente.

Sequeira voltou para a Europa no melhor navio da frota, tendo mandado queimar dois por falta de gente para os tripular, e ordenando que os outros officiaes e resto de tripulação fossem para Cochim nos dois navios restantes, d'onde depois seguiriam para Portugal.

Assim se observou; porém, a má sorte quiz que os navios se perdessem no archipelago de Laquedivas, desfazendo-se nos recifes de Padua, logrando salvar-se a tripulação para um ilheu deserto, esperando passar a terra povoada.

N'esta conjuntura revela-se a grandeza de animo e o coração generoso de Fernão de Magalhães, porque, embarcando-se os seus companheiros nas lanchas para procurarem terra hospitaleira, elle se ficou com os restantes correndo o risco de, embora perecer, mas nunca os abandonar. Assim esperou que os companheiros lhe enviassem o auxilio{27} necessario, e, chegado elle, se passou a Cananor, onde encontrou Affonso de Albuquerque, que ia de viagem para Ormuz com gente de guerra a dilatar suas conquistas na Persia e seguir até o mar Roxo e Egypto.

Recebeu Affonso de Albuquerque a Fernão de Magalhães e aos companheiros, que embarcou em sua armada, os quaes o ajudaram a submetter Goa e a dominar a costa de Malabar, e depois a tentar nova guerra contra Malaca, que é um dos feitos mais gloriosos das armas portuguezas no Oriente e o inicio de novos descobrimentos como os das ilhas de Banda e das Molucas, centro das ricas e procuradas especiarias.

No regresso d'esta viagem (1512), em que tanto se distinguiu Fernão de Magalhães, teve este em recompensa de seus serviços o cargo de moço fidalgo do paço, com a pensão de mil réis mensaes com moradia. Esta pensão lhe foi melhorada pouco tempo depois, o que muito lhe accrescentou o valor e importancia na côrte, como se deprehende dos documentos achados por Muñoz no archivo de Lisboa.

A recompensa dada por el-rei D. Manuel a Fernão de Magalhães foi incentivo bastante para o bravo portuguez voltar á guerra, procurando na sorte das armas augmentar{28} o lustre do seu nome já então galardoado.

Na Africa feria-se uma guerra contra mouros que se batiam denodadamente com os portuguezes. Não menos que para a India se dirigiam as vistas do rei afortunado para aquelle campo das nossas conquistas, e assim mandou aprestar uma grande armada, composta de quatrocentos navios,—segundo diz Faria e Sousa, na sua Africa Portuguesa,—em que embarcou dezenove mil homens de guerra, sob as ordens de seu sobrinho D. Jayme de Bragança.

N'esta armada partiu Fernão de Magalhães, emprehendendo a sua terceira viagem, em 1513; e não foi esta menos gloriosa para o seu nome que as duas primeiras; pois que combatendo ao lado de João Soares contra aquelles povos semi-barbaros, occupou a praça de Azamor e defendeu-a valorosamente contra as tropas dos reis de Fez e de Mequinez. N'esta guerra se excedeu tanto em valor que, a par do ferimento que recebeu em uma perna, de que ficou coxeando, lhe foi dado o posto de quadrilheiro-mór, ou capitão de uma companhia; e perseguiu de tal modo os mouros que aprisionou oitocentos e noventa d'estes e duas mil cabeças de gado.

Segundo diz Barros, esta façanha foi origem de desgostos para Fernão de Magalhães,{29} porque na repartição da presa levantaram-se tantas reclamações e intrigas que chegaram aos ouvidos de el-rei D. Manuel, indispondo este monarcha contra o heroe de Azamor.

Quanto de inveja e de mal soffridas ambições andariam n'isto, é o que não podemos affirmar; mas, a julgar pelos resultados, mui negras deviam ser as côres com que apresentaram a el-rei o quadro do procedimento de Magalhães, para que este, depois de se justificar com documentos, provando a falsidade das arguições ainda assim não conseguisse recompensa regia dos seus serviços e ainda menos perdão da supposta culpa.

Ouçamos o que sobre este ponto diz Gaspar Correia, nas suas Lendas da India, n'aquella linguagem do tempo, e que vamos transcrever quanto possivel approximada e intelligivel para a maioria dos leitores de agora. «... Fernão de Magalhães, vindo ao reino, allegando a el-rei seus serviços, pediu em recompensa lhe accrescentasse cem réis de moradia por mez, o que el-rei lhe denegou, por não cahir em sua graça, ou porque estava destinado que assim havia de ser. Fernão de Magalhães, aggravado, porque muito o pediu a el-rei e elle lh'o não quiz fazer, lhe pediu licença de ir viver para quem lhe fizesse mercê e alcançasse mais fortuna{30} que com elle, ao que el-rei lhe disse, fizesse o que quizesse, e lhe quiz beijar a mão e el-rei lhe a não quiz dar.»

Não se pense d'aqui que a pureza dos costumes do tempo fosse tal que, admittindo que Magalhães fosse menos escrupuloso no seu procedimento, não lhe pudessem ser levados em conta os serviços prestados ao reino, para lhe attenuar a falta; porque é certo que a outros, não mais prestantes nem menos ambiciosos, a munificencia do rei encheu de honras e prebendas, apesar das faltas commettidas.

As injustiças são de todos os tempos, sem que por isso se deva sempre condemnar quem as comette; porque muitas vezes são involuntarias e apenas resultado de tramas bem urdidos por terceiros.

Foi, provavelmente, o que aconteceu com Fernão de Magalhães, que tanto se sentiu de ver-se injustamente desattendido, que renegou da sua nacionalidade de portuguez para offerecer os seus serviços a Castella.

Não se fala da lucta que elle travaria comsigo mesmo para levar a cabo esta resolução; mas é bem de suppôr seria enorme, se tivermos em vista quanto devia repugnar a um portuguez o trocar a sua nacionalidade pela de uma nação, que sempre nos disputou a supremacia, quer nas conquistas{31} e descobrimentos, quer na absorpção d'esta gloriosa patria portugueza. Enorme lucta, sem duvida, a que se levantou no espirito de Fernão de Magalhães; mas como resistir-lhe, se essa resistencia seria a annullação dos seus planos audaciosos, que não eram a satisfacção de um capricho, vaidade impertinente, ou ambição injusta.

O escudo das suas armas ia ser picado, o nome da sua familia execrando, apontado ao desprezo; e elle estimava tanto os pergaminhos de seus antepassados, o seu nome, a sua patria, que, ao apartar-se d'ella pela primeira vez, recommendara a seus herdeiros, nas desposições testamentarias, que lhe guardassem o seu escudo de armas e o transmitissem aos seus descendentes.

Enorme lucta, sem duvida; mas ainda maior que essa lucta era o ideal de Fernão de Magalhães, que antesonhava o grande progresso geographico que realizaria com a sua viagem de circumnavegação do globo, prestando ao mundo um alto serviço e cobrindo o seu nome de tanta gloria, que faltando á religião da patria, ella não se deshonraria a final de o ter por filho.

Deshonra e vergonha seria se Fernão de Magalhães houvesse cruzado os braços ante a injustiça dos homens, rojando-se submisso aos pés de um throno que o desprezava. Encontrando-se{32} com animo para a audaz empresa que planeava, pouco lhe devia importar o ser portuguez ou de outra qualquer nacionalidade; essa preoccupação seria futil no meio da sua grandiosa obra. Elle tinha fatalmente que realizar os seus planos. Se a patria lhe negava os meios de os levar a effeito, elle iria por esse mundo fóra procural-os até encontrar quem lh'os facultasse; e foi e encontrou!

Se para a Hespanha Fernão de Magalhães conquistou terras, para Portugal conquistou a gloria do seu nome. Essas terras poderão um dia deixar de ser de Hespanha; mas a gloria do nome de Fernão de Magalhães é que nunca deixará de ser de Portugal!{33}

[[1]] Não está bem determinada a data do nascimento de Fernão de Magalhães; é, todavia, certo que elle nasceu na aldeia de Sabrosa, de Traz-os-Montes e que seu pae se chamava Pedro, sendo da quarta nobreza de Portugal, ou fidalgo de cotta d'armas e geração que tem insignias de nobreza, tendo a sua familia escudo d'armas enxequetado, ou em quadradinhos como taboleiro de xadrez.

[[2]] Este testamento só foi conhecido em 1855, segundo diz Arana, que d'elle teve conhecimento por uma copla de Ferdinand Diniz, que a houve de um herdeiro de Magalhães.

V

Mediaram cerca de tres annos entre os successos que levaram Fernão de Magalhães a renegar a nacionalidade portugueza, e a sua entrada em Sevilha a 20 de outubro de 1517.

Este tempo consumiu-o em estudos de cosmographia e nautica, escrevendo tambem a sua obra em castelhano sobre as terras que tinha visitado, á qual deu o titulo: Descripcion de los reinos, costas, puertos e islas que hai en el mar de la India oriental i costumbres de sus naturales: su gobierno, religion, comercio i navegacion, i de los frutos i efectos que producen aquellas vastas regiones, con otras noticias mui curiosas; compuesto por Fernando Magallanes, piloto portuguez que lo vio i anduvo todo.

Esta obra nunca foi publicada, apesar d'isso{34} extrahiram-se d'ella algumas copias, que alteraram muitos pontos essenciaes das viagens de Magalhães, o que bastante deprecia o seu conhecimento, e Diego de Barros Arana, diz que viu em Madrid uma d'essas copias, de letra do seculo XVI que possuia o erudito bibliophilo D. Paschoal de Gayangos.

Aos estudos que Fernão de Magalhães fazia, ora em Lisboa ora no Porto, onde tinha mais persistencia, reuniu o conhecimento de Ruy ou Rodrigo Faleiro da Covilhã, que segundo diz Oviedo, na sua Historia jeneral de las Indias, era homem de grandes conhecimentos de cosmographia, astrologia e outras sciencias. Faleiro foi de grande auxilio para Magalhães porque comprenetrando-se do seu pensamento e dos seus planos associou-se calorosamente á empreza, juntando-se-lhe Francisco Faleiro, irmão de Rodrigo e que tambem era homem sabido em coisas de nautica.

Magalhães já não se encontrava sosinho com a sua idéa, e isto mais o animou a proseguir, nos meios de levar á pratica o audacioso plano.

Sem navios nem meios para os adquirir e aprestar, sem nada poder esperar do rei que o despresara, tinha fatalmente que recorrer a Castella, tanto mais, que para realisar a sua viagem, não querendo abeirar-se{35} de terras portuguezas, precisava tocar em terras sujeitas á Hespanha e onde não era permittido estabelecer trafico sem auctorisação do rei de Castella.

A Carlos V ia offerecer os seus serviços e descobrir os seus planos, pedindo que lhe fornecesse os meios de os realisar. Mais tarde havia de Camões cantar, nos seus immortaes Luziadas, os feitos de Magalhães:

Eis-aqui as novas partes do Oriente,
Que vós outros agora ao mundo daes,
Abrindo a porta ao vasto mar patente,
Que com tão forte peito navegaes.
Mas é tambem razão, que no Ponente
D'um Lusitano um feito ainda vejaes,
Que de seu Rei mostrando-se aggravado,
Caminho ha de fazer nunca cuidado.

Vedes a grande terra, que contina
Vae de Callisto ao seu contrario polo,
Que soberba a fará a luzente mina
Do metal, que a côr tem do louro Apollo;
Castella, vossa amiga, será digna
De lançar-lhe o collar ao rudo collo:
Varias provincias tem de varias gentes,
Em ritos e costumes differentes.

Mas cá onde mais se alarga, ali tereis
Parte tambem c'o pao vermelho nota:
De Sancta Cruz o nome lhe poreis;
Descobril-a-ha a primeira vossa frota.
Ao longo d'esta costa, que tereis,
Irá buscando a parte mais remota
O Magalhães, no feito com verdade
Portuguez, porém não na lealdade.{36}
{37}

VI

Abandonando a patria e o rei, que tão mal apreciara os seus serviços, Fernão de Magalhães se foi a Sevilha, onde, ainda antes, talvez, de tratar dos negocios da sua empreza, se lhe prendeu o coração a uns olhos negros e pestanudos de uma gentil sevilhana, D. Beatriz, filha de Diogo Barboza.

O bravo soldado que combatera na India e na Africa; o arrojado navegador que dominara a porcella e queria devassar ignotos mares que a espada de Balboa havia desafiado, como diz Alexandre de Humboldt—«com a espada na mão mettia-se á agua até aos joelhos, e pensava apossar-se do mar do sul em nome de Castella»—o heroe de Azamor, o homem forte que só parecia viver para a audaz empreza da circumnavegação do globo, rendeu-se aos encantos{38} de uma mulher, que soube conquistar-lhe o coração e a quem elle, pouco tempo depois de ter chegado a Sevilha, dava a mão de esposo.

Tambem d'este enlace lhe veio auxilio para os seus planos, porque Diogo Barbosa, sogro de Fernão de Magalhães, era, como diz Gaspar Correia: «... homem principal, que sabia navegar no mar, porque era muito entendido na arte de piloto e era esperico—o que quer dizer spherico ou cosmographo, que sabe da sphera.

Effectivamente, segundo Faria e Sousa, na Asia Portugueza e Lafitau na Histoire des découvertes et conquetes des portugais, Diogo Barboza fizera parte de uma grande expedição que el rei D. Manuel mandou aos mares da India, em 1501, indo capitaniando um dos navios da frota de João da Nova, a qual derrotou uma esquadra de mouros que traficavam em Calcuta e descobriu as ilhas da Conceição e de Santa Helena. Este Diogo Barboza deixou o serviço de Portugal e se foi a Castella, onde encontrou protecção em D. Alvaro de Portugal, que havia passado aquelle paiz, quando seu irmão, o duque de Bragança foi decapitado em Evora por ordem de El-rei D. João II (1483). D. Alvaro foi recebido pelos reis catholicos como parente, e lhe deram todas as honras{39} inherentes a tão alto personagem, confiando-lhe os cargos de presidente do conselho dos reis e de alcaide do alcaçar de Sevilha, segundo diz Lopez de Haro, no Nobiliario de España e Ortiz de Zuniga, nos Anales de Sevilla.

Tão alta protecção teve a sua influencia em Barboza, que foi elevado a commendador da ordem de S. Thiago e logar tenente do alcaide do alcaçar de Sevilha, e assim collocado, casou com a filha de uma das principaes familias de Sevilha, D. Maria Caldeira.

Viveu Fernão de Magalhães com esta familia durante o tempo que esteve n'aquella terra e d'ahi lhe veio proveito, porque alem da protecção do sogro travou relações com Duarte Barboza sobrinho de Diogo, que tambem viajara para a India e explorara aquelles mares, como prova a relação das suas viagens, publicada, em parte, na, Navigazione e viaggi, do colleccionador italiano J. B. Ramusio, publicado em 1554, e completa, na Collecção de noticias para a historia e geographia das nações ultramarinas, publicado em Lisboa, em 1813.

Como se vê, Fernão de Magalhães ia juntando elementos de estudo que lhe aproveitavam, ao mesmo tempo que alcançava boas protecções para levar a cabo a sua empreza.{40}

Assim se dirigiu em Sevilha, a uma casa chamada da contratação em que se tratavam os negocios maritimos e a que Gaspar Correia se refere nas suas Lendas da India: «Em Sevilha tinha o imperador a casa da contratação, com regedores da fazenda que tinham grandes poderes e trafego de navegação e armadas. Fernão de Magalhães forte de seu saber e com muita vontade de anojar el-rei de Portugal, tratou com os regedores da casa da contratação e disse-lhes: que Malaca e Moluco, ilhas que creavam o cravo, eram do imperador pelas demarcações que entre ambos havia e por isso el-rei de Portugal não tinha direito de possuir estas terras: e que isto elle sustentava em presença de quantos doutores que o contestassem, pelo que obrigaria a sua cabeça. Os regedores lhe responderam que sabiam bem que elle fallava verdade; mas que o imperador não mandava lá seus navios, porque não podia navegar em mares da demarcação de el-rei de Portugal. Ao que, lhes disse Fernão de Magalhães: Se me derdes navios e gente eu navegarei para lá sem tocar em mar ou terra de el-rei de Portugal. E se assim o não fizesse lhe cortassem a cabeça. Os regedores muito satisfeitos assim escreveram ao imperador o qual lhes respondeu que sentia prazer com o dito e muito mais sentiria com o{41} feito: que tudo fizessem os regedores, guardando o seu serviço e as coisas de el-rei de Portugal, em que não tocassem e antes tudo se perdesse. Com esta resposta do imperador fallaram a Magalhães o qual continuou a affirmar o que dizia, de que navegaria e ensinaria o caminho por fóra dos mares de el-rei de Portugal; que lhe déssem os navios que elle pedisse, gente e artilheria e o necessario, que elle cumpriria o que dizia e descobriria novas terras na demarcação do imperador e traria oiro e cravo e canella e outras riquezas; o que ouviram os regedores desejando muito fazer tão grande serviço ao imperador, qual o de descobrir esta navegação, e para terem maior certeza, reuniram pilotos e espericos para sobre isto discutirem com Magalhães, que a todos deu suas razões e todos concordaram no que elle dizia e confirmaram que era homem mui sabido.»

Os mares e terras da demarcação do imperador, a que se referia Fernão de Magalhães, eram os comprehendidos na linha divisoria que o Papa Alexandre VI marcára a pedido dos reis catholicos afim de evitar conflictos entre os reis de Castella e de Portugal, pela diligencia em que estas duas nações andavam de descobrir terras desconhecidas.

A linha traçada pelo Papa, ia de um polo{42} ao outro, 100 leguas ao occidente dos Açores, dando aos hespanhoes a posse das terras que descobrissem para esta parte e aos portuguezes as que descobrissem e conquistassem para o oriente.

A bulla de Alexandre VI que isto concedia começa assim: De nostra mera liberalitate, et ex certa sciencia ac de Apostolicæ potestates plenitudine etc.

De nossa mera liberalidade, sciencia certa e plenitude do nosso poder Apostolico etc.

Depois d'esta demarcação os reis de Portugal e os de Castella acordaram em fixar a linha divisoria mais 270 leguas ao occidente, pelo que diz Muñoz na Historia del Nuevo Mundo.{43}

VII

As declarações feitas por Fernão de Magalhães na Casa da Contratação de Sevilha, não foram sufficientes para esta appoiar abertamente os projectos do ousado navegador, e se não fôra a influencia de João de Aranda, que se empenhou para que tivesse bom seguimento a proposta de Magalhães, talvez este não lograsse ainda o seu intento.

João de Aranda, era feitor da Casa da Contratação, de animo propenso a emprezas arriscadas e por isso comprehendeu bem todo o alcance da empreza de Magalhães e tanto que prometteu protejel-a mediante alguma parte dos lucros que d'ella resultassem.

Foi n'esta occasião que chegaram a Sevilha os dois irmãos Faleiros os quaes não concordaram com o que Fernão de Magalhães havia tratado com João de Aranda, muito principalmente Rodrigo Faleiro que era{44} homem de caracter mais desconfiado e irritavel, e que se considerava a alma da empreza de que Magalhães seria o elemento pratico.

Importantes deviam ser os estudos de Rodrigo Faleiro, para que Magalhães se sujeita-se ás suas exigencias, transegindo com elle tanto quanto possivel, no que bem mostrava a generosidade de animo a par de melhor conhecimento pratico do mundo, para debelar as difficuldades que se levantavam no seu caminho.

De tal arte soube conciliar tudo para chegar ao seu fim, fazendo boas as negociações que havia entabolado com Aranda, firmando, emfim, um contracto em Valladolide a 23 de fevereiro de 1518, perante o escrivão de suas altezas, Diogo Gonçalves de Sant'Iago, em que elle, Magalhães e Rodrigo Faleiro dariam a oitava parte do proveito que resultasse em dinheiro, ou renda, ou officio ou em outra qualquer coisa que seja, de qualquer quantidade ou qualidade dos descobrimentos que se propunham levar a cabo.

Não estava ainda bem firme no throno das Hespanhas o principe Carlos d'Austria, o que naturalmente preoccupava o jovem monarcha, não sendo por isso muito favoravel a occasião para se occupar das pretenções de Magalhães.

Entretanto o navegador portuguez escudado{45} com as protecções que grangeára, sempre conseguiu chegar á presença do monarcha e fazer exposição dos seus planos, tendo primeiro apresentado aos ministros do rei esses mesmos planos, apresentação para a qual muito influiu o bispo de Burgos D. João Rodrigues da Fonseca.

É para notar que este bispo de Burgos, que combatera tenazmente os planos de Colombo, de Balbôa e de Cortez, se apresentasse na côrte protegendo Magalhães com decidido empenho! Não nos diz a historia se n'esta protecção iria interesse pessoal, ou a convicção da utilidade pratica dos projectos de Magalhães, sendo, todavia, certo que o caracter do bispo não era dos de melhor quilate.

Em todo o caso percebe-se que Fernão de Magalhães soubera pôr o bispo de seu lado, como já soubera conciliar as divergencias levantadas por Faleiro.

Mas ha ainda mais.

Carlos V não accedeu tão de prompto, como a muitos parecerá, depois da resposta que dera aos regedores da Casa de Contratação, ás propostas de Fernão de Magalhães, e antes levantou duvidas, desconfianças sobre a auctoridade em que o ousado portuguez firmava os seus planos.

Era de esperar.

Mas Fernão de Magalhães não se desconcertou.{46} Soccorreu-se das observações feitas em suas viagens, do que havia estudado e de quanto adquirira de Faleiro; por fim citou uma carta geographica, existente em Portugal, levantada por Martinho de Bohemia em que marcava a communicação entre o mar do norte e o do sul, e com tanta proficiencia discutiu os seus planos que conseguiu desvanecer todas as duvidas no espirito de Carlos V, acabando este por lhe conceder quanto pedia, mandando lavrar o contracto, o qual se celebrou a 22 de março de 1518. Por este contracto foi dado a Fernão de Magalhães e a Faleiro o privilegio de, por espaço de dez annos, a nenhum outro navegador ser concedido ir a descobertas pelo mesmo caminho que elles. Seriam postos á sua disposição cinco navios, armados de artilheria, e guarnecidos com 234 homens, com mantimentos para 2 annos e mais dava o commando dos ditos navios a Fernão de Magalhães e a Faleiro e a vigesima parte dos lucros que houvesse d'estes descobrimentos, conferindo-lhe o de adiantados e governadores das terras que descobrissem a elles e seus descendentes. Alem d'isto ainda Carlos V deu o titulo de capitães d'esta esquadrilha a Magalhães e a Faleiro, com 50:000 maravedis de soldo pagos pela Casa da Contratação, com toda a auctoridade em terra e no mar, etc.{47}

Não contente ainda com o que tinha concedido, Carlos V, pouco depois de celebrado aquelle contracto, ordenou que fosse augmentado o soldo dos dois capitães com mais 8:000 maravedis e 30:000 para ajuda de custo; mandando tambem que se abreviasse quanto possivel o armamento dos cinco navios.

Fernão de Magalhães ia triumphando com a sua idéa, mas não tardou que novas difficuldades se levantassem, e d'esta vez era de Portugal que vinham.

Soube-se na côrte de D. Manuel do que se estava passando em Hespanha com os dois portuguezes, e calculando-se quanto poderiam perigar as possessões portuguezas na India, se Fernão de Magalhães levasse por diante seu intento, necessario era combatel-o.

Era embaixador portuguez em Hespanha D. Alvaro da Costa, que ali fôra pedir a mão da infanta D. Leonor para el-rei D. Manuel. Sob este pretexto e quantos mais se podem imaginar, representou contra as concessões feitas por Carlos V a Fernão de Magalhães, e com tal arte se houve que o monarcha das hespanhas se abalou, chegando a ponto de quasi revogar o que estava contractado.

Foi ainda o citado bispo de Burgos que demoveu todas as duvidas.

Fernão de Magalhães iria finalmente á descoberta.{48}
{49}

VIII

Decorreram seis mezes entre a assignatura do contracto e a partida de Magalhães. Foram seis mezes de luctas para o ousado portuguez, em que se lhe levantaram difficuldades por todos os lados, desde aquellas que Rodrigo Faleiro lhe criou com o seu genio irascivel, até ás que o povo de Sevilha, instigado pelos agentes portuguezes para impedirem a empreza, oppôz, tentando destruir os navios que estavam a construir para a viagem, e contra a vida de Magalhães, desconfiando da lealdade do seu procedimento.

Não foi menos importante a falta de dinheiro para occorrer ás despezas da expedição, falta que suppriu Christovão de Haro e Affonso Gutierres a que tambem acudiram{50} alguns negociantes de Sevilha a instancias do bispo de Burgos, devotado protector da empreza.

Faleiro, investido de poderes eguaes aos de Magalhães e de genio mui differente d'este, foi impossivel dirigir os trabalhos de commum accordo e a tal ponto chegou a desintelligencia entre os dois, que Carlos V sem querer melindrar nem um nem outro, mas vendo a impossibilidade de se consertarem, determinou por uma real cedula datada de 26 de julho de 1519, que Faleiro ficasse em Sevilha tratando de aprestar uma outra expedição, que seguiria a Magalhães, e que o capitão portuguez partisse com o exclussivo de unico commandante superior da esquadrilha.

Tudo se aprestou alfim: a esquadrilha que ia a descoberta compunha-se de cinco navios, de que Fernão de Magalhães era o almirante. O primeiro d'aquelles navios era o Trindade, em que ia Magalhães; o segundo Santo Antonio commandado por João de Cartagena, que era ao mesmo tempo vedor da armada e tinha o titulo de adjunto de Fernão de Magalhães; o terceiro, Conceição do commando de Gaspar de Quesada; o quarto, Victoria tendo por commandante Luiz de Mendonça, que era tambem o thesoureiro da armada; o quinto, Santiago, que{51} era o mais pequeno, commandado pelo piloto João Serrano.

Foi a 10 de agosto de 1519 que a esquadrilha levantou ferro, e descendo o Guadalquivir, veiu fundear no porto de S. Lucar de Barrameda, para quarenta dias depois, a 20 de setembro, soltar as velas ao vento, em monção favoravel e aventurar-se por esses mares fóra, sem temor dos perigos, á procura da passagem para o mar do sul.

Ia na expedição um interprete indio malayo, christão, que Magalhães levava para melhor se entender com os povos que esperava encontrar; tambem ia Duarte Barbosa cunhado de Magalhães, que já conhecia a Asia, e o italiano Antonio Pigaffetta, que foi o chronista da viagem. Além d'este iam outros extrangeiros, como francezes, flamengos e um inglez, todos fazendo parte da companha, soldados, marinheiros, artifices etc.[[3]]

As caravellas, com suas proas alterosas, lá iam cortando o mar, impellidas pelo vento rijo que lhe empavesava as latinas. Era um dia de sol, como só os ha na peninsula Iberica, e os seus raios de ouro reflectindo-se nas aguas centuplicavam a luz que illuminava aquelle quadro, ao mesmo tempo que{52} alentavam a alma dos valorosos navegantes, não deixando esfriar o enthusiasmo que animava todos: os que partiam e os que em terra lhe dirigiam as ultimas saudações.

A epocha era d'aquellas aventuras que melhor iam a estes povos, hespanhoes e portuguezes que por egual andavam empenhados nas descobertas.{53}

[[3]] Vida e Viagens de Fernão de Magalhães por Diego de Barros Arana.

IX

Que trabalhosa viagem antes de chegar ao porto desejado! Cortada de temporaes e de discordias, que de uns e outras não faltaram para experimentar o animo do ousado navegador.

Logo nos principios da rota Fernão de Magalhães teve que pôr a ferros a João de Cartagena, que se sublevara contra elle por motivo de Magalhães mudar de rumo sem o consultar, sendo Cartagena seu adjunto.

A 13 de dezembro dava fundo, na bahia do Guanabára ou Rio de Janeiro, a esquadrilha.

É curioso o que conta Pigaffetta do negocio que fizeram com os indigenas durante o tempo que ali permaneceram os navios.

Diz elle:{54}

«Aqui fizemos provisão de gallinhas e de patatas, um fructo semelhante ás pinhas, mas muito doce e exquisito, canna doce, carne de anta semelhante á de vacca. Fizemos excellentes negocios. Por um anzol ou por uma faca davam-nos cinco ou seis gallinhas; dois ganços por um pente; por um espelhinho ou um par de tesouras obtinhamos uma porção de peixe suffeciente para alimentar dez pessoas; por um guiso ou uma fita traziam-nos os indigenas uma canastra de patatas. Por preços tão subidos como estes trocámos as figuras dos naipes de cartas: por um rei deram-me seis gallinhas e os indios cuidavam fazer um excellente negocio.»

Depois de um descanço de quatorze dias no Guanabára de novo se pôz a esquadrilha ao mar seguindo rumo parallelo á costa até o Cabo de Santa Maria, na embocadura do Rio da Prata, onde entrou a 10 de janeiro de 1520, para reconhecer as margens, distinguindo nas extensas planicies uma elevação a que os navegantes chamaram Monte-Vidi e que mais tarde se denominou Montevideo.

A 14 de fevereiro deixou Fernão de Magalhães o Rio da Prata e seguindo a linha da costa foi navegando atravez os temporaes até o porto de S. Julião, onde arribou{55} a 31 de Março, para ali invernar, pois era chegada a estação das chuvas.

Eram os primeiros navegadores europeus que chegavam aquelle porto, que de resto encontravam despovoado, e sem viveres de que se podessem fornecer!

Havia decorrido seis mezes que tinham largado de S. Lucar de Barrameda.

A confiança que Fernão de Magalhães conseguiu inspirar ao rei de Castella, a todos que concorreram para a realisação da sua viagem e até aos proprios que o acompanharam, não permaneceu firme, depois d'aquelles seis mezes decorridos sem resultado obtido.

Parece fóra de duvida, que o unico verdadeiro crente na empreza era Magalhães, o que não admira porque era elle quem melhor conhecia o plano tantos annos acariciado na mente.

Os que o acompanhavam não tinham decerto a mesma força de espirito que elle, o bastante para lhe esfriar o enthusiasmo, para lhe quebrar o animo. Foi assim que, chegados áquelle ponto, sem terem alcançado o termo desejado, entenderam por melhor desestir, reclamando de Magalhães que, ou alargasse as rações que tinham sido cerseadas, ou voltasse para Castella.

Fernão de Magalhães, porém, não era{56} homem que se acobardasse com aquella imposição, e protestou que iria até ao fim embora sacrificasse a sua vida no cumprimento do dever.

Entretanto os capitães das caravellas não se conformaram com aquella resolução, e muito particularmente Gaspar de Quesada, commandante da Conceição, o qual concebeu um plano de revolta contra o chefe da esquadrilha.

Pela noite, quando a escuridão mal deixava distinguir as embarcações dispersas no porto de S. Julião, uma lancha largou de bordo da Conceição; ia n'ella Quesada com trinta homens armados dispostos a dar assalto á caravella Santo Antonio. Os marinheiros remavam mansamente fazendo o menor ruido possivel, para não despertarem a attenção de alguem que os podesse ouvir dos outros navios.

Gaspar de Quesada soltara João de Cartagena[[4]] que levava preso a bordo, o qual ficou á testa da caravella. O seu plano era apoderar-se da caravella Santo Antonio, prender o commandante Alvaro de Mesquita e com a força d'estes dois navios reduzir os outros á sua obediencia até á Trindade, impondo-se{57} assim a Fernão de Magalhães, a quem queria obrigar a tratar com mais consideração os capitães e pilotos da esquadrilha.

Não foi difficil o assalto: as poucas sentinellas da Conceição foram tomadas de surpreza emquanto Quesada com meia duzia dos seus homens, se dirigiu ao alojamento de Alvaro de Mesquita para o prender. Entretanto o mestre João Elorriaga déra pelos assaltantes e correndo em soccorro do seu commandante, travou uma sangrenta lucta em que ficou ferido. Quesada vibrou-lhe quatro valentes punhaladas num braço que o prostraram, conseguindo por fim pôr a ferros Alvaro de Mesquita e arvorar-se elle cammandante da Santo Antonio.

Luiz de Mendonça ia feito com Quesada, pelo que os revoltosos tinham tres navios, achando-se em maioria para imporem a lei a Magalhães, que áquella hora dormia, ainda que talvez pouco tranquillamente, na sua caravella Trindade.

De manhã é que Magalhães soube da sublevação dos tres capitães porque logo da Victoria sahiu uma lancha com um emissario, que veio notificar ao chefe da esquadrilha a resolução em que estavam, de não continuarem a ser tratados como até ali, de obedecerem cegamente ás ordens d'elle, mas sim resolverem tudo de commum accordo.{58}

Isto que á primeira vista póde parecer justo, não o seria nas circumstancias que se davam, porque importava o malogro da empreza de Magalhães. Os revoltosos não queriam continuar a viagem que tinham por temeraria, descrendo de encontrar a passagem para o mar do sul, emquanto que Fernão de Magalhães pensava exactamente o contrario, e d'este modo era-lhe impossivel transijir, tornando-se imperioso apellar para toda a sua auctoridade, empregando a força para submetter os que assim lhe faltavam á obediencia.

A força, porém, do chefe achava-se reduzida e em minoria, mas a inferioridade numerica nunca acobardou espiritos fortes e da estatura moral de Fernão de Magalhães, que nascera, sem duvida, para dominar e não para ser dominado.

Era arriscada a empreza; tanto mais razão para não recuar. Se os seus capitães vallessem tanto como elle não recuariam como elle não recuava perante os perigos. Logo a superioridade de Magalhães era manifesta e de molde a não se intimidar com a attitude dos revoltosos.

Magalhães respondeu á notificação que lhe fizeram, ordenando que viessem a bordo da Trindade conferenciar com elle os tres chefes da revolta. Esta ordem, porém, não{59} foi obedecida, tendo em resposta, que viesse Magalhães a bordo da Santo Antonio, onde todos se reuniriam para resolver.

Não havia que hezitar. Estava lançada a luva, e Fernão de Magalhães nem sequer pastanejou para a levantar. Fez tambem o seu plano para dar o golpe decisivo.

O alguasil Gonçalo Gomes de Espinoza era homem valente e decidido; pois iria elle e mais seis homens de confiança a bordo da Victoria, levar a ordem para Luiz de Mendonça se apresentar immediatamente no navio do chefe.

Levava instrucções particulares que haviam de permittir bom exito d'esta vez.

Espinoza acercou-se com a sua chalupa da Victoria e saltando no navio logo veio o commandante a quem elle entregou a ordem que levava. Luiz de Mendonça leu essa ordem, não sem occultar a desconfiança que lhe inspirava, mas emquanto a lia meditando sobre a resposta a dar, Espinoza tirou de um punhal que levava escondido e com elle lhe atravessou o pescoço. Luiz de Mendonça baqueou e um outro golpe descarregado na cabeça por um dos companheiros de Espinoza, deixou-o completamente morto sobre a tolda.

Ao mesmo tempo que se dava esta scena tragica, atracava á Victoria outra chalupa em{60} que vinha Duarte Barboza com mais quinze homens armados, que Magalhães mandava, como prevenção para assegurar o triumpho dos que se tinham ido expor a uma lucta desegual com a gente d'aquelle navio.

Não foi, felizmente, preciso derramar mais sangue, pelo que diz Lopez de Recalde, na carta escripta á vista do processo que se instruiu em Sevilha em 1521, e que Herrera refere. Morto o commandante, a tripulação submetteu-se sem resistencia, e no mastro da Victoria foi içada a bandeira do triumpho.

Restava submetter Cartagena e Quesada, mas a sorte de Luiz de Mendonça influiu tanto no espirito dos dois capitães, que lhes quebrou o animo para tentarem desforra, em presença da firmeza do chefe.

Limitaram-se a tentar a retirada para Castella; mas nem isso conseguiram, porque as tres caravellas que estavam fieis a Magalhães, foram, por ordem d'este, fundear na entrada do porto, tirando aos revoltosos a esperança de poderem sahir com os seus navios sem experimentarem a artilheria dos contrarios.

Concertaram então outro plano.

Quesada tinha, como ficou dito, preso a bordo Alvaro de Mesquita, que era primo co-irmão de Magalhães, e pensou de o soltar{61} para servir de medianeiro entre elle e o chefe da esquadrilha, afim de obter uma capitulação favoravel.

Alvaro de Mesquita, porém, logo desenganou Quesada, de que seu primo não transigiria; conhecia-o bem para esperar o contrario e toda a tentativa de conciliação seria completamente inutil.

Assim descoraçoados os dois capitães revoltosos, apellaram novamente para a retirada, projectando sahir do porto n'aquella noite, pondo na prôa de um dos navios o Mesquita, para d'ali parlamentar com Magalhães, segundo diz Herrera.

Pela noite a Santo Antonio levantou ferro e aproou para sahida, aproveitando a hora da maré, desferrando pano pouco a pouco, debaixo de grande silencio, com as maiores precauções. O vento, no porto soprava brando e só mais para o largo é que o mar, encrespado, indicava vento mais rijo.

Vencer a sahida era tudo, porque depois com boa refrega e pano largo, ganharia distancia não sendo facil colhel-a nenhum dos navios da esquadrilha.

Á cautela, Alvaro de Mesquita fôra mandado para a proa por Quesada, para d'ali parlamentar com Magalhães, se da Trindade dessem pela sahida da Santo Antonio, como era de prever. De facto assim aconteceu,{62} mas o modo como da Trindade vieram á fala não deu tempo a parlamentar.

Esta caravella, assim que a Santo Antonio chegou ao alcance, rompeu fogo das peças e de mosqueteria, investindo para a abordagem.

Estava lá Magalhães que era tão ousado navegador como soldado. Mandando a manobra com precisão e incitando os seus homens ao combate, não tardou a abordagem e que estes saltassem no navio sublevado, ouvindo-se então, por entre o alarme da desordem e o estrondear dos tiros, vozes que perguntavam em alta grita:

—Por quem sois?

Da resposta a esta pergunta dependia a vida ou o exterminio dos sublevados, porque Magalhães e a sua gente não contemporisavam.

Quesada, por sua parte tambem incitava os seus homens á resistencia e ao combate, mas não inspirava á sua gente a mesma confiança que Magalhães, nem tinha o prestigio superior do chefe da esquadrilha.

Foi por isto que não teve meio de resistir á abordagem, e a resposta á pergunta que a gente da Trindade ia repetindo insistentemente:—Por quem sois? echoou na alma de Quesada como uma sentença de morte, ao ouvir gritar:{63}

—Pelo rei nosso senhor e por vossa mercê!

Fernão de Magalhães triumphava mais uma vez dos revoltosos e affirmava o seu prestigio entre a gente que o acompanhava, fazendo perder a esperança de novas sublevações.

Quesada e todos os cabeças de motim foram presos, e o mesmo succedeu a Cartagena, capitão da Conceição, que humilhado se entregou.

Restava castigar os sublevados e esse castigo devia ser exemplar para que não viessem novas tentativas de revolta pôr em perigo a segurança e bom exito da expedição.

Consoante os tempos e a grandeza dos delictos, assim seria a severidade da punição.

Magalhães não hesitou na sentença.

No dia 4 de abril, o seguinte áquella noite de desordem, mandou Magalhães que o cadaver de Luiz de Mendonça, fosse posto em terra e ali esquartejado ás vistas de todos e apregoada a alta traição, que assim fôra punida.

Seguidamente foi instaurado a bordo da Trindade um processo, em que Alvaro de Mesquita formulou a accusação, sendo os alguazis e escrivães, que iam na esquadrilha,{64} encarregados de fazerem o summario e inquerirem as testemunhas, o que tudo escripto deveria depois ser apresentado a El-rei, quando Magalhães regressasse a Castella, como prova justificativa do seu procedimento.[[5]]

D'esse processo resultou a sentença que condemnou á morte Gaspar de Quesada e Luiz Molino, creado d'este.

Passados tres dias, a 7 de abril, teve logar a execução.

Para esse fim foi armado na praia o patibulo e na presença de contingentes de todos os navios, decapitado o criminoso, servindo de carrasco o Luiz de Molino que por este preço adquiriu o perdão.

O corpo de Quesada tambem foi esquartejado e a sua traição apregoada.

Mas ainda não era tudo. João de Cartagena tambem devia ser punido assim como o capellão Pedro Sanches de La Reina, que tambem se averiguou ter conspirado contra o chefe da esquadrilha.

O castigo, porém, d'estes revoltosos, parecendo mais equitativo, nem por isso foi menos duro, pois que Magalhães os condemnou a ficarem abandonados em terra,{65} onde não havia viveres apropriados nem gente.

É facil calcular as inclemencias que aquelles desgraçados soffreriam e quão duramente expiaram o seu delicto.

Se Fernão de Magalhães affirmou a sua auctoridade de forma tão cruel, deve-lhe ser levado em conta a rudeza dos tempos e a imperiosa necessidade que a isto o obrigou, para não vêr completamente perdida a sua gloriosa empreza.{66}
{67}

[[4]] Vida e Viagens de Fernão de Magalhães por Diego de Barros Arana.

[[5]] Navarrete publicou este processo a pag. 10 do tomo IV da sua Coleccion.

X

Fernão de Magalhães conseguira, emfim, restabelecer a ordem na sua esquadrilha; mas, se não receava novas sublevações que contrariassem o seu proposito, contrariava-o a invernia com todos os rigores de suas tormentas, que não o deixava avançar na viagem de exploração.

A impaciencia principiava a apoderar-se do seu espirito, porque o tempo ia correndo sem resultado pratico que o animasse, tanto a elle como á sua gente.

Chegou o fim de abril e os rigores do inverno pareciam ceder ás instancias da primavera risonha e boa.

Tanto bastou para que Magalhães ordenasse um reconhecimento ao Sul da bahia de S. Julião, por onde julgava encontrar o almejado{68} estreito ou passagem para os mares da India.

Encarregou João Serrão de ir, na caravella Santiago, a mais pequena da esquadrilha, fazer esse reconhecimento, para o que deu ao ousado piloto as instrucções necessarias, recommendando-lhe que seguisse sempre para Sul e parallelo á costa, porque assim encontraria o estreito.

Seguio João Serrão as instrucções de Magalhães, costeando cerca de vinte legoas, com tempo favoravel, e a 3 de maio encontrou-se na foz de um rio com mais de uma legoa de largura.

Seria a entrada do procurado estreito?!

É o que vamos vêr.

Era e é o dia 3 de maio commemorado pela egreja, que celebra a festa da exaltação da Santa Cruz, e Serrão commemorando aquelle dia deu ao novo rio o nome de Santa Cruz, que ainda hoje tem.

Abundava ali a pesca e os lobos marinhos e de tão grande tamanho como ainda não tinham sido vistos; dis Herrera que um d'aquelles animalejos despido da pelle, da cabeça e das gorduras, pesava desanove arrobas ou dosentos e oitenta e cinco kilos dos pesos actuaes.

Fez Serrão um reconhecimento á costa, mas não encontrou signaes do estreito, pelo{69} que proseguio a viagem para Sul, continuando a seguir a costa. Um forte temporal, porem, surprehendeu os navegantes, a 22 de maio, transtornando-lhe o proseguimento da derrota.

Os escriptores que se referem a este successo divergem emquanto a datas e a victimas do naufragio, Diego Arana, porém, segue a ordem chronologica dos factos e estabelece aquella data, assim como descreve o naufragio e as victimas.

A tempestade foi tão violenta que rasgou todo o panno da caravella; a força do mar levou o leme e arrastou o navio á praia onde se fez em pedaços, mal dando tempo á tripulação se salvar, perecendo ainda assim afogado um preto escravo de Serrão.

Depois das luctas com os homens principiavam as luctas com os elementos, para o que era impotente toda a energia de Magalhães.

Dos homens triumphara elle até alli; da furia dos elementos era mais difficil e só uma vontade de ferro, disposta a vencer ou morrer, poderia alimentar a esperança de triumphar.

Da caravella Santiago apenas restavam despojos que o mar ia trazendo á praia, onde os naufragos se encontravam á conta de Deus, sem guarida nem conforto algum que lhes alentasse{70} a vida! E comtudo grande distancia os separava dos companheiros, que esperavam o seu regresso, no porto de S. Julião.

Os naufragos depois de terem caminhado umas seis legoas, para alcançarem as margens do rio Santa Cruz, seis legoas que levaram quatro dias a percorrer, tal era o cansaço e fraqueza em que estavam, e para mais carregados de madeira, destroços do navio naufragado, com que haviam de construir uma jangada para atravessar o rio, chegaram emfim ás margens do Santa Cruz, quasi mortos de fadiga e de fome, pois que para se alimentarem apenas tinham as ervas que encontravam pelo caminho e alguns mariscos.

No rio Santa Cruz havia abundancia de peixe para se alimentarem, e construiram uma jangada com a madeira que traziam e assim, debaixo de grandes perigos atravessaram o rio dois marinheiros para irem participar o occorrido ao chefe da esquadrilha, que estava no porto de S. Julião.

Segundo diz Diego Arana, onze dias gastaram os dois marinheiros para chegarem a S. Julião e tão penosa foi esta jornada, sem terem quasi que comer, que ao apresentarem-se a Magalhães, nem este nem os mais companheiros os reconheceram, tão desfigurados vinham.

O tempo continuava tormentoso; as tempestades{71} succediam-se não permittindo qualquer tentativa de navegação. Entretanto Magalhães não lhe consentia o animo deixar sem prompto auxilio os pobres naufragos da Santiago, e assim ordenou que logo partissem por terra 24 homens carregados de comestiveis, em soccorro d'aquelles desgraçados, proporcionando-lhes os meios de virem reunir-se a seus companheiros.

Não foi menos penosa a jornada d'estes 24 homens, sob os rigores do tempo e a selvageria dos caminhos. Para saciar a sêde tiveram que derreter gelo, pois não encontraram agua de beber, e apesar das difficuldades do caminho apressaram quanto poderam a marcha para mais breve soccorrerem os seus companheiros.

Dois dias levaram a atravessar o rio na jangada que haviam armado, e mais refeitos pela alimentação que tomaram lá se pozeram todos em marcha a reunirem-se á esquadrilha, sem perda de um só.

Este contratempo foi de bom aviso para Magalhães que reconheceu quanto era temerario o tentar proseguir em reconhecimentos da costa ou passar avante, emquanto não se acalmassem os rigores da estação.

A fidelidade e energia de Serrão tornou-se notavel, e Magalhães não o desconheceu pois que nomeou o ousado piloto, capitão da{72} caravella Conceição, justo premio de quem tanto se tinha exposto e soffrido para bem cumprir as ordens do chefe.

Emquanto, porém, a esquadrilha invernava no porto de S. Julião, Magalhães foi aproveitando o tempo em reparar as caravellas e para isso mandou fazer em terra uma casa para forjas onde os ferreiros exercessem o seu officio. O frio, porém, era tão intenso que os operarios mal podiam fazer uso das mãos, chegando alguns d'elles a perderem os dedos gangrenados pelo frio!

Não podendo fazer reconhecimentos por mar, tentou Magalhães fazel-os por terra, e então mandou quatro homens armados para o interior a vêr se descobriam algumas povoações, onde se podesse fornecer de mantimentos; mas trabalho baldado porque a poucas legoas de caminho tiveram que retroceder por lhes faltar agua e comestiveis sem encontrarem viv'alma, o que lhes deu a convicção de que o paiz não era habitado.{73}

XI

Tinha decorrido mais de seis mezes que a esquadrilha estava no porto de S. Julião quando um dia appareceu na praia um homem de grande estatura, mal coberto com uma pelle de animal, cantando em desconcertada voz, pulando e lançando punhados de areia na cabeça, o que pareceu significar as suas intenções pacificas, porque, segundo diz o capitão Cook na sua Voyage dans l'hémisphère austral, os indios da ilha de Malicolo lançavam agua na cabeça em signal de paz.

Extranha apparição esta que surprehendeu os navegantes já descoraçoados de encontrarem alma viva n'aquellas paragens.

Os hespanhoes repetiram o mesmo signal que o selvagem fizera, de deitar areia na cabeça, para assim elle entender que estavam na mesma intenção.{74}

De facto o selvagem acercou-se de um marinheiro que Magalhães mandou a terra e com elle veio á presença do chefe da esquadrilha.

Pigafetta descrevendo este selvagem diz: «Era este homem tão alto que a sua cintura dava pela nossa cabeça. Bella estatura; rosto amplo e arroxeado, olheiras amarellas e como que marcando-lhe as faces duas manchas em fórma de coração. Os cabellos, muito curtos, pareciam embranquecidos com pós. Cobria o corpo, ainda que mal, com as pelles de um animal que abundava n'aquelle paiz. Este animal tem cabeça e orelhas de mula, corpo de camello, pernas de veado, cauda de cavallo e relincha como este.»

Deve ser o guanaco.

Parece que a surpreza fez augmentar aos olhos dos hespanhoes as proporções d'aquelle selvagem, pois que D'Orbigny na sua obra L'homme americain referindo-se aos habitantes d'aquellas regiões diz: «Não podemos occultar que nos illudiu a apparencia d'estes homens. A largura das suas espaduas, cobertas desde a cabeça até os pés com capas de pelles de animaes selvagens, cosidas numa só peça, produziram em nós tal illusão, que primeiro de os medirmos nos pareceram de extraordinaria altura, emquanto que depois de bem observados e medidos directamente, ficaram reduzidos ás dimensões vulgares.»{75}

Diz ainda Pigafetta: «Magalhães recebeu com muito agrado este selvagem. Ordenou que lhe dessem de comer e o levassem diante de um grande espelho, o que o surprehendeu extraordinariamente e encheu de admiração. O selvagem que não tinha a menor noção do que fosse um espelho, e que pela primeira vez via a sua propria figura, recuou cheio de espanto, deitando ao chão quatro homens que estavam atraz d'elle.»

Aquelle primeiro selvagem foi mandado pôr em terra depois de Magalhães lhe ter dado alguns presentes, e elle tão contente se foi, que não tardou que outros se apresentassem com a mira nas mesmas dadivas.

Eram todos da mesma corpolencia que o primeiro, e como aquelle tinham pés enormes, pelo que os navegantes os denominaram Patagões, nome porque ainda actualmente são designados os homens d'esta raça.

A todos Magalhães mandou dar comida e presenteou com espelhinhos, missangas e outras bugiarias, com o que ficaram muito contentes. Um d'elles mais domestico demorou-se alguns dias a bordo da Trindade, sociando com os marinheiros, que lhe ensinaram algumas palavras castelhanas e o baptisaram com o nome de João.

Este João comia os ratos que os marinheiros caçavam, e o fazia com muito gosto,{76} até que mostrando vontade de ir para terra o desembarcaram, sem que por muitos dias voltassem ás vistas dos navegantes outros selvagens.

Eram tão extraordinarios os habitantes d'aquellas paragens, que Magalhães entendeu trazer dois d'elles ao rei de Castella, quando regressasse á Europa.

Foi assim que a 28 de julho, voltando á praia quatro selvagens dos que já tinham estado a bordo, Magalhães os mandou buscar, retendo no navio dois d'elles e mandando para terra os outros.

É curioso o que Pigafetta descreve a respeito da prisão d'estes dois patagões: «Foi preciso pôr-lhe grilhões aos pés, enganando-os, fazendo-lhes acreditar que os ferros eram presentes e lh'os punham nos pés para que os podessem levar para terra.»

Não foi de bom aviso a detenção dos patagões a bordo, porque isto levou desconfiança aos que estavam em terra e que, mais numerosos, vieram juntar-se de noite, na praia onde accenderam fogueiras, coisa que até ali não fôra visto pelos navegantes.

Este facto chamou a attenção de Magalhães, que na manhã seguinte mandou sete homens á descoberta para saber o que seria.

Os exploradores, porém, encontraram a praia deserta e apenas vestigios das fogueiras,{77} assim como das pégadas dos indigenas impressas sobre a areia e na neve que cobria as extensas planicies. Os exploradores, apesar do seu limitado numero, não duvidaram de se enternarem em busca dos selvagens, mas passaram o dia n'esta diligencia sem encontrarem nenhum, resolvendo por fim retirarem-se ao approximar-se a noite.

Foi n'essa occasião que os exploradores se viram acommettidos por um bando de patagões, completamente nús e armados de flechas e que, segundo parece, os andava seguindo a distancia, sem que até ali tivesse sido notado.

Travou-se lucta desproporcionada, porque alem da desegualdade numerica, os exploradores apenas levavam um arcabuz, unica arma de fogo com que se encontravam, para fazer frente ao inimigo que os atacava.

Diogo Barroza, soldado da guarnição da Trindade, caiu morto por uma flechada, e a lucta recresceu de intensidade e bravura. Os exploradores carregando sobre os selvagens com redobrado valor e luctando corpo a corpo, taes estragos lhes fizeram, que o inimigo recuou, fugiu e desappareceu para o interior deixando os exploradores senhores do campo.

Só na manhã seguinte voltaram para bordo, depois de terem passado a noite á roda de uma fogueira para se aquecerem e na qual{78} assaram uma porção de carne, que os selvagens abandonaram na fuga, e que serviu aos exploradores de lauta ceia.

Quando Fernão de Magalhães soube do occorrido, quiz vingar a morte do soldado da Trindade e mandou para terra vinte homens armados para bater os patagões; mas trabalho inutil foi este, porque os selvagens não appareceram por mais que os procurassem e os exploradores apenas poderam dar sepultura ao cadaver de Diogo Barroza, seu companheiro d'armas.{79}

XII

A 24 de agosto largou a esquadrilha do porto de S. Julião, depois de quasi cinco mezes ali passados, com bem pouco resultado para os progressos da expedição.

Durante esse tempo repararam-se os navios, não sem grandes difficuldades, como se sabe, e realisaram-se notaveis modificações nos commandos, em resultado da insurreição de Quezada e de Luiz de Mendonça.

Alvaro de Mesquita commandava agora a caravella Santo Antonio e João Serrão a Conceição. Magalhães confiara o commando da Victoria a seu cunhado Duarte Barbosa.

Antes da partida todos da esquadrilha se prepararam espiritualmente com os soccorros da religião, confessando-se e commungando, como quem se dispunha para grande empreza, consoante o costume do tempo.{80}

Entretanto deu-se a bordo uma scena tocante, que impressionou tristemente toda a companha e foi a despedida de João de Cartagena e do padre Pedro Sanches que tinham de ser abandonados em terra, conforme a sentença que a isso os condemnara.

Era lastimoso o seu estado, com tudo o respeito que Magalhães soubera incutir á sua gente, fez com que ninguem se oppuzesse a semelhante barbaridade, e os condemnados lá ficaram á mercê, na praia, apenas com provisão de bolachas e vinho para alguns dias.

Com que magua e, quem sabe arrependimento, viram os miseros levantar ferro os navios e largar as vellas ao vento até desaparecerem na distancia do extenso mar, indo-se-lhe n'elles a esperança de voltarem á patria, abandonados n'aquellas paragens até ali ignoradas para a navegação!

E a frota de Magalhães foi singrando no mesmo rumo que Serrão já levara quando fôra explorar a costa d'aquelle mar.

O tempo ia bonançoso, sem chuvas, nem vento rijo; mas já proximos do rio Santa Cruz principiou a desenvolver-se temporal e tão violento, que as caravellas estiveram a ponto de perder-se.

Diz Barros que Deus e os Corpos dos Santos é que os salvaram, referindo-se á apparição dos fogos de Santelmo nos topes dos mastros.{81}

Era crença dos marinheiros n'aquelles tempos, e por muitos annos o foi ainda, que quando appareciam aquelles fogos nos topes dos mastros—hoje conhecidos como resultantes da electricidade—era signal de estar passado o perigo.

Aquelles temporaes detiveram a frota dois mezes no rio Santa Cruz, sem Magalhães poder proseguir na sua almejada descoberta.

A 18 de outubro, porém, o tempo parecia ter abrandado mais duradouramente, e Magalhães resolveu ir ávante, mandando fazer rumo para S. O. sem se afastar da costa.

Principiavam os navios, a entrar em mares até então desconhecidos, e o receio dos navegantes era cada vez maior. Vinha a memoria as historias phantasticas e horriveis que se contavam d'aquelles mares tenebrosos. A superstição invadia todos os espiritos e apavorava os mais ousados. Só havia ali um espirito forte que tinha que repartir-se por todos, incutindo-lhe animo e confiança: era o de Fernão de Magalhães, firme no seu proposito, crente na sua idéa. Com elle tinha que se impôr a todos os seus subordinados, fazendo-lhes saber, que haviam de ir até o fim, até encontrar a procurada passagem para o mar do Sul, ainda que tivessem de chegar a 75.° graus de latitude, ou os seus navios se afundassem no meio da porcella.{82}

Não tardou que, de novo, a tempestade assaltasse as frageis caravellas, obrigando-as a estar á capa dois dias, mas abonançando ao terceiro, permittiu aos navegantes avançarem até 50.° de latitude, avistando a 21 de outubro, uma lingua de terra para S. O.

Esta vista alegrou Magalhães, que mais se fortaleceu na sua idéa, prevendo que aquella lingua de terra devia de ser a embocadura do estreito ou passagem para o mar das Indias.

Immediatamente tratou de mandar fazer um reconhecimento por Serrão e por Mesquita, que iam respectivamente nas caravellas Conceição e Santiago.

Mal, porém, estes navios se tinham apartado da frota, quando pela noite sobreveio um forte temporal, que se estendeu por toda a costa, pondo em imminente perigo tanto as caravellas que tinham ido ao reconhecimento, como as que ficaram á espera de noticias.

Parece que a Providencia se comprazia em contrariar tanta audacia e dar razão aos medrosos, que quasi tinham por louco o chefe da temeraria empreza.

Foi uma noite e um dia de infinda tormenta. As caravellas que haviam ancorado, largaram as amarras e abandonaram-se á porcella; a Conceição e a Santiago correram ao vento sem governo, em perigo de a cada{83} momento vararem na costa. Diz Barros que os ventos dominantes, n'aquella quadra, eram do Sul, contrarios ao rumo dos navegantes. Tanto bastava para difficultar a viagem e augmentar os perigos em mares desconhecidos.

Mas a mesma Providencia que assim experimentava os navegantes, tambem lhes accendeu a esperança no meio da tormenta, pois que as duas caravellas corridas do tempo, quando os navegantes se julgavam perdidos, devisaram estes uma aberturasinha ao longo da costa que lhes pareceu ser como que a entrada de alguma bahia.

Manobrando com grande difficuldade, fizeram prôa para lá, e seguindo sempre avante transpozeram aquella entrada e encontraram-se n'uma bahia, e, como o tempo os não deixasse deter, foram correndo as caravellas até que entraram n'outra garganta de terra para além da qual se acharam em espaçosa bahia, como ainda não tinham encontrado.

Ali serenou a tempestade, e os navegantes poderam reconhecer onde estavam, resolvendo Serrão e Mesquita voltarem a juntar-se a Magalhães a participar-lhe a boa nova.

A abertura na costa, para que os navegantes aproaram as suas caravellas, foi, sem duvida, um raio de esperança que lhes sorriu{84} entre a porcella, e por isso a denominaram estreito de Nossa Senhora da Esperança. Á primeira bahia denominaram-n'a depois, de S. Gregorio, e ao segundo estreito, de S. Simão.{85}