COLECÇÃO LUSITÂNIA
CAMILLO CASTELLO BRANCO
A BRAZILEIRA DE PRAZINS
Camillo Castello Branco
CAMILLO CASTELLO BRANCO
A BRAZILEIRA DE PRAZINS
SCENAS DO MINHO
Edição conforme a 1ª, revista pelo Auctor
LIVRARIA LÉLO, LIMITADA—EDITORA
144, Rua das Carmelitas—PORTO
AILLAUD & LÉLOS, Limitada—R. N. do Carmo, 80 a 84—LISBOA
INDICE
[INTRODUCÇÃO]
CAPITULO [I]
CAPITULO [II]
CAPITULO [III]
CAPITULO [IV]
CAPITULO [V]
CAPITULO [VI]
CAPITULO [VII]
CAPITULO [VIII]
CAPITULO [IX]
CAPITULO [X]
CAPITULO [XI]
CAPITULO [XII]
CAPITULO [XIII]
CAPITULO [XIV]
CAPITULO [XV]
CAPITULO [XVI]
CAPITULO [XVII]
CAPITULO [XVIII]
CAPITULO [XIX]
CAPITULO [XX]
[CONCLUSÃO]
[P.S.]
[INTRODUCÇÃO]
Entre as diversas molestias significativas da minha velhice, o amor aos livros antigos—a mais dispendiosa—leva-me o dinheiro que me sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias de pilulas e tizanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e me illustro com os archaismos, arruino o estomago e enferrujo o cerebro em uma caturrice academica.
Constou-me aqui ha dias que a snr.ª Joaquina de Villalva tinha um gigo de livros velhos entre duas pipas na adéga, e que as pipas, em vez de malhaes de pão, assentavam sobre missaes. O meu informador denomina missaes todos os livros grandes; aos pequenos chama cartilhas. Mandei perguntar á snr.ª Joaquina se dava licença que eu visse os livros. Não só m'os deixou vêr, mas até m'os deu todos—que escolhesse, que levasse. Examinei-os com alvoroço de bibliomano. Elles, gordurosos, humidos, empoeirados, pareciam-me seductores como ao leitor delicadamente sensual se lhe figura a face da mulher querida, oleosa de cold-cream, pulverisada de bismutho.
Havia sermonarios latinos, um Marco Marullo, tres rhetoricas, muitas theologias moraes, um Euclides, commentarios de versões litteraes de Tito Livio e Virgilio. Deixei tudo na benemerita podridão, tirante uma versão castelhana do mantuano por Diego Lopez e um muito raro Entendimento literal e constrviçam portugueza de todas as obras de Horacio, por industria de Francisco da Costa, impresso em 1639.
Disse-me a dadivosa viuva de Villalva que os livros estavam na adéga, havia mais de trinta annos, desde que seu cunhado, que estudava para padre, morrêra ethico; que o seu homem—Deus lhe falle n'alma—mandára calear o quarto onde o estudante acabára, e atirou para as lojas tudo o que era do defunto—trastes, roupa e livralhada. Contou-me isto seccamente do extincto cunhado, ao mesmo tempo que roçava com a mão fagueira o ventre gravido de uma gata malteza que lhe resbunava no regaço, passando-lhe pela cara a cauda em attritos d'uma flacidez de arminho. E eu que dedico aos bichos um affecto nostalgico, uma sensibilidade retroactiva, um atavismo que me retrocede aos meus saudosos tempos de gorilha, olhava para a gata que me piscava um olho com uma meiguice antiga—a das meninas da minha mocidade que piscavam. Onde isto vai!
A snr.ª Joaquina, para me obrigar a um eterno reconhecimento, offereceu-me uma das crias da sua gata que andava para cada hora e se chamava Velhaca—ajuntou com a satisfação de quem completa um esclarecimento interessante. Agradeci o por vindouro filho da Velhaca, fiz uma caricia no dorso crespo da mãe, que m'a recebeu familiarmente, e sahi com os livros velhos empacotados em duas bulas de 1816 e 1817 que a snr.ª Joaquina, com um riso sceptico, indisciplinado, me disse serem do tempo dos Affonsinhos.—Porque o seu sogro, accrescentou, era um asno ás direitas que comprava a bula para poder comer carne em dia de jejum; e, sem que eu a provocasse a vomitar heresias, disse que os padres vendiam a bula e compravam a carne; e, ajuntando á heresia um anexim de limpeza muito duvidosa, disse o que quer que fosse a respeito dos peccados que entram pela bocca.
Depois informaram-me que esta viuva, bastante estragada no moral e ainda mais no physico, andára de amores illicitos com um escrivão do juiz de paz, o Barroso, um dos 7:500 do Mindello, que lêra o Bom senso do cura João Meslier, e a saturára de má philosophia, e tambem a esbulhára de parte dos seus bens de raiz e do melhor da sua riqueza—a Fé, o bordão com que as velhas e os velhos caminham resignados e contentes para os mysterios da eternidade.
Logo que cheguei a casa, entrei a folhear as paginas dos dous livros, preparado para o dissabor de encontral-os mutilados, defeituosos, com folhas de menos, comidas pelas ratazanas collaboradoras roazes do gallicismo na ruina da boa linguagem quinhentista. Folheei o Entendimento literal e constrviçam até paginas 154, e aqui achei um quarto de papel almaço amarellecido, com umas linhas de lettra esbranquiçada, mas legivel e regularmente escripta. O contheudo do papel, onde se conheciam vincos de dobras, era o seguinte:
José, teu irmão, quando eu hoje sahia da Igreja, onde fui pedir a Nossa Senhora a tua vida ou minha morte, disse-me que eu não tardaria a pedir a Deus pela tua alma. Eu já não posso chorar mais nem rezar. Agora o que peço a Deus é que me leve tambem. Se não morrer, endoudeço. Perdoa-me, José, e pede a Deus que me leve depressa para ao pé de ti.
Martha.
Não é preciso ser a gente extraordinariamente romantica para interessar-se, averiguar, querer noticias das duas pessoas que tem n'estas linhas uma historia qualquer, mais ou menos vulgar. Occorreu-me logo que o estudante, a quem o livro pertencera, tinha morrido na flôr dos annos. Além d'isso, na margem superior do frontespicio do volume, está escripto o nome do possuidor—José Dias de Villalva, e a carta é dirigida a um José. Conclui ser o cunhado da viuva quem recebêra a carta.
Voltei a casa da snr.ª Joaquina, muito açodado, como um anthropologista que procura um dente pre-historico, e perguntei-lhe se o seu cunhado se chamava José Dias; e se tinha alguma conversada, quando morreu.—Que sim, que o cunhado era José Dias e que morrêra pela Maria da Fonte.
—Pois elle amou a Maria da Fonte?—perguntei com ardente curiosidade historica, para esclarecer a minha patria com um episodio romanesco das suas guerras civis. Ella sorriu e respondeu:
—Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando por ahi andavam os da Maria da Fonte a tocar os sinos e a queimar a papellada dos escrivães, sabe vm.cê?—Acho que foi então ou por perto. E ajuntou:—Elle gostava ahi muito d'uma moça, isso é verdade. Era a Martha...
—Martha?—disse eu com a satisfação de vêr confirmada a assignatura do bilhete.
Vm.cê conhece-a?
—Não conheço.
—É a brazileira de Prazins, a mulher do Feliciano da Retorta, que tem quinze quintas entre grandes e pequenas.
—Bem sei; mas nunca vi essa mulher.
—Não que ella nunca sae do quarto; está assim a modos de atolambada ha muito tempo. Credo! ha muitos annos que a não vejo. Dá-lhe a gota, salvo seja, e estrebucha como se tivesse coisa má no interior. É uma pena. Não sabe o que tem de seu. O Feliciano é o homem meus rico d'estes arredores, e vivem como os cabaneiros, de caldo e pão de milho. Elle quando vai ao Porto receber um alqueire de soberanos que lhe vem do Brazil todos os annos, vai a pé, e mette ao bolso umas côdeas de borôa e quatro maçãs para não ir á estalagem.
Interrompi com interesse de artista:
—Disse-me que ella endoudecera. Foi logo depois da morte do seu cunhado?
—Isso já me não escordo. Quando eu vim casar para aqui já meu cunhado tinha morrido. O que me lembra é dizer-me o meu defunto, que Deus tem, que o rapaz ganhou doença do peito p'rámôr d'ella. Esses casos ha muita gente que lh'os conte. Ha por ahi muito homem do seu tempo. Pergunte isso ao snr. reitor de Caldellas que andou com elle nos estudos e sabe todas essas trapalhadas.—E n'um tom de noticia festival:—Olhe que o gatinho nasceu esta noite; lá lh'o mando assim que estiver creado. Quer que lhe corte as orelhas e o rabito?
—Faça-me o favor de lhe não cortar nada.
Eu tinha lido, dias antes, a judiciosa critica de uma dama ingleza á nossa costumeira de desorelhar e derrabar gatos. Ella, lady Jackson, escreve que lhe fazem compaixão os pobres bichanos que, sem cauda nem orelhas, estão como que envergonhados de si mesmos. Excellente senhora!
Pedi que me apresentassem ao reitor de Caldellas na feira de Santo Thyrso. Achei-lhe um semblante convidativo, animador a entabolar-se com elle uma indagação de curiosidades sentimentaes.
Fazia respeitavel a sua batina sem nodoas o padre Osorio. Parece que tambem as não tem na vida. Passa por ser um velho triste, que não teve mocidade, nem as ambições que supprem os dôces affectos do coração mutilados pelo calculo ou congelados pelo temperamento. Ha trinta e dous annos que pastoreia uma das mais pobres freguezias do arcebispado. Prégou alguns annos com applauso dos entendidos e inutilidade dos peccadores. A rhetorica é a arte de fallar bem; mas os vicios são a arte de viver bem e alegremente. Assim se pensa, embora não se diga.
Como prégava gratuitamente, o vigario de Caldellas era chamado por todos os mordomos e confrarias festeiras. Quando se esgotavam os panegyricos dos santos mais ou menos hypotheticos, pediam-lhe que prégasse da cura milagrosa d'umas maleitas ou d'um leicenço—casos que a pobre Natureza e o periodico chamado Esculapio só de per si não poderiam explicar.
O vigario subia ao pulpito e improvisava coisas de grande engenho em linguagem muito singela. Affirmava que Deus era tão bom, tão previdente, que dera á condição enfermiça do homem forças vitaes, sobrecellentes que resistiam á destruição; e que a Natureza, grande milagre do seu Creador, só de per si era bastante para a si mesma se restaurar. Ora, um abbade rico, bacharel em theologia, que lhe ouvira estas idéas assaz naturalistas, perguntou-lhe, á puridade, se elle negava os milagres. O reitor respondeu que a respeito das sezões e dos leicenços acreditava mais na lanceta e no sulfato de quinino. Depois, accrescentou:—Deus fez o supremo milagre da sciencia para centuplicar as forças á natureza enfraquecida.—O theologo enrugou scientificamente a fronte cheia de suspeitas e replicou:—O snr. reitor foi ferido da peste do seculo. Está iscado de Voltaire e de Alexandre Herculano. Deixou-se contaminar. Mundifique-se. Estude mais e melhor.—O reitor de Caldellas afastou-se triste, e nunca mais frequentou o pulpito.
Estas informações e o aspecto lhano, harmonico do padre, animaram-me a dizer-lhe que solicitara o seu conhecimento para lhe pedir alguns esclarecimentos a respeito de uma carta encontrada em um livro que pertencera ao seu condiscipulo José Dias de Villalva. Recorda-se? perguntei.
—Se me recordo do meu pobre José Dias! Pois não recordo? Parece-me que ainda sinto n'este braço o peso enorme da sua face morta, e já lá vão trinta e cinco annos. É preciso ter na alma dolorosas reminiscencias para se recordar um amigo morto ha tantissimo tempo, não lhe parece? Como sabe v. que existiu esse obscuro filho de um lavrador?
Mostrei-lhe a carta. O padre olhou para a assignatura, gesticulou affirmativamente, e, após uma breve pausa de recolhimento com as suas recordações, disse:
—Fui eu que puz esta carta entre as paginas de um livro do Dias. O meu pobre condiscipulo, quando este papel lhe foi mandado á cama, já não o podia lêr. Tinha cahido no torpor, na indifferença que, a meu vêr, é a compaixão da Providencia pelos que morrem amando e não querendo morrer. Já não via a vida nem a morte. Li esta carta; e, como elle nada me perguntou, eu nada lhe disse... Agora me recordo perfeitamente. Era um commento de Horacio que eu lia nos seus intervallos de modorra, afim de dar ao meu animo uma folga que me fortalecesse para resistir ao golpe final. Já sei pois o que você deseja. Quer saber se esta Martha está no caso de merecer a consagração romantica que Bernardin de Saint-Pierre usurpou ás dôres verdadeiras, para coroar d'uma eterna aureola a sua phantastica Virginia.
—Não vou tão longe, respondi com a modestia genial dos escriptores que immortalisam. A brazileira de Prazins não póde contar com o seu immortalisador em mim, nem me parece bastante fecundo o assumpto. Sei que temos um namoro de uma menina com um estudante, o estudante morre e a menina casa com um sujeito que tem quinze quintas. Se não ha mais do que isto...
O cura interrompeu:—Vejo que sabe quem é Martha; mas não a conhece bem. Virginia e Francesca e Julieta não são mais dignas de piedade nem de romance. Parece-me que o amor que enlouquece e permitte que se abram intercadencias de luz no espirito para que a saudade rebrilhe na escuridão da demencia, é incomparavelmente mais funesto que o amor fulminante. O que é vulgar é morrer logo ou esquecer quinze dias depois. Quando eu tinha uma irmã que lia novellas, á custa de lh'as ouvir analysar com um enthusiasmo digno de melhor emprego, achei-me envolvido na litteratura de Sue, de Soulié e de Balzac, a ponto de fazer presente do meu santo Affonso Maria de Ligorio e da minha Theologia moral de Pizelli a um padre bom e atinado que me prophetisou que minha irmã havia de morrer doudas a scismar nas patacuadas das novellas. Ella não morreu douda; mas pensava em romancear a historia de Martha, porque dizia ella que, tendo lido trezentos volumes de novellas, não encontrára caso imitante.—E, dando-me o bilhete de Martha: Este quarto de papel é o exordio de uma agonia original.
Como a exposição do reitor sahiu muito enfeitada de joias sentimentaes—detestavel especie archeologica que ninguem tolera,—farei quanto em mim couber por, uma a uma, ir mondando e refugando as flores de modo que as scenas dramaticas se exponham aridas, bravias como sêrro de montanha por onde lavrou incendio, sem deixar bonina, sequer folhinha de giesta em que a aurora imperle uma lagrima. A Aurora a chorar! de que tempo isto é! Como a gente, sem querer, mostra n'uma idéa a sua certidão de idade e uma reliquia testemunhal da idade de pedra! Oh! os bigodes tingem-se; mas as phrases—madeixas do espirito—são refractarias ao rejuvenescimento dos vernizes.
[I]
Martha era filha de um lavrador mediano que tinha em Pernambuco um irmão rico de quem dizia o diabo. Chamava-lhe ladrão porque, no espaço de vinte annos, lhe mandara tres moedas, com os seguintes encargos: á mãe 6$000 réis fortes, ás almas do Purgatorio, de Negrellos, 3$000 réis tambem fortes, que lh'os promettera quando embarcou, e o resto para elle—«5$400 réis, dizia, é que o maroto, podre de rico, me mandou em vinte annos!»
A rapariga conversou diversos mancebos, uns da lavoura, outros da arte, e, afinal, quando o pai lhe negociava o casamento com um pedreiro, mestre de obras, muito endinheirado e já maduro, appareceu o José Dias, filho d'um lavrador rico de Villalva, a namoriscal-a. Este rapaz estudava latim para clerigo; mas, como era fraco, de poucas carnes e amarello, o cirurgião disse ao pai que o moço não lhe fazia bem puxar pelas memorias. Os padres do Minho, n'aquelle tempo, não puxavam quasi nada pelas memorias; ordenavam-se tão alheios ás faculdades da alma que, sem memoria nem entendimento, e ás vezes sem vontade, eram soffriveis sacerdotes, davam poucas syllabadas no Missal e liam os psalmos do Breviario com uma grande incerteza do que queria dizer o penitente David. Pois, assim mesmo, sendo tão facil a ordenação—uma coisa que se fazia com uma perna ás costas, diziam certos vigarios—sem precisão absoluta de puxar pelas memorias, o Joaquim Dias quiz tirar o filho do latim que lhe ensinava um egresso da Ordem Terceira, o Fr. Roque. Este padre-mestre tinha uma irmã paralytica; sabia lêr, e prendas de costura, marcava, fizera um pavão de missanga, não desconhecia o crochet e ensinava raparigas para se distrahir.
No quinteiro do padre-mestre Roque foi que o José de Villalva se affez a reparar na Martha de Prazins, uma rapariga muito alva, magrinha, de cabello atado, muito limpa, com a sua saia de chita amarella com dois folhos, jaqueta de fazenda azul com o forro dos punhos escarlates, muito séria com proposito de mulher e ares muito sonsos—diziam as outras, que lhe chamavam a songuinha. Os outros estudantes, rapazolas vermelhaços, refeitos, grandes parvajolas, com grandes nacos de borôa nas algibeiras das vesteas de saragoça de varas, e os velhos Virgilios ensebados em saquitos de estopa suja, diziam graçolas a Martha—chamavam-lhe boa pequena, franga e peixão. O José Dias, arredado do grupo dos trocistas alvares, via-a passar silenciosa, indifferente aos gracejos, olhos no chão, e um grande resguardo na barra da saia quando subia a escada. Os rapazes, aquelles embriões de abbades, como a escada de pedra era ingreme e aberta do lado do quinteiro, punham-se a espreitar as pernas das alumnas da paralytica, pela maior parte raparigas entre doze e dezeseis annos, muito musculosas, com pés grandes e os tecidos repuxados e cheios pelo exercicio dos carrêtos nas safras da lavoira.
Martha ia nos quatorze quando o pai a quiz tirar da mestra. Chegára-lhe aos ouvidos que os estudantes, má canalha, lhe impeticavam com a filha. Queixou-se a Fr. Roque.
O egresso, resfolegando honradas coleras e pulverisações de esturrinho, mandou enfileirar os gargajolas na quadra da aula, e chamou a Martha.
—Qual foi d'estes tratantes o que implicou comtigo, cachopa?—perguntou o padre-mestre olhando-a por cima dos oculos, orbiculares, com as hastes oxidadas d'um cobre antigo. E, apontando para o primeiro da fileira que era o José de Villalva:
—Foi este?
—Esse nunca me disse nada—respondeu com a voz tremula, toda vermelha, a rapariga.
—Foi este?
Martha não ergueu os olhos nem respondeu.
—Então, môça? qual foi dos nove? Dize lá. Tu que te queixaste é que algum embarrou por ti.
—Eu não me queixei...—murmurou a interrogada.
Verdadeiramente ella não se queixára. Foi o Zeferino, o filho do alferes da Lamella, o mestre pedreiro que andando a construir um canastro na eira do padre-mestre, observára que os estudantes rentavam á cachopa, e ageitavam-se em attitudes abrejeiradas, como de quem espreita, quando ella subia a escada.
O denunciante ao pai de Martha foi elle, o pedreiro abastado, não porque o espicaçassem n'essa denuncia o zelo dos bons costumes, e um justo odio ás concupiscentes espionagens dos rapazes, mas por que gostava, devéras, da môça. Elle passava já dos trinta e dois e era a primeira vez que sentia no coração as alvoradas do amor, Fr. Roque, averiguado o caso, advertiu o pedreiro que não fosse má lingua, que não andasse a difamar os seus discipulos, que se preparavam para o sacerdocio—uma coisa séria. O episodio acabaria assim menos mal, se dois dos estudantes, que se preparavam para o sacerdocio, mais fortes no fueiro que nas conjugações, desistissem de o moer a pauladas, uma noute, n'um pinhal. O mestre d'obras iniciou-se pelo martyrio obscuro n'um amor que principiava bastante mal. Elle nunca soube ao certo quem lhe batêra, e attribuiu a sova a émulos na arte, covardes e mysteriosos, por causa da construcção de uma egreja que elle desdenhára, citando as regras do Vignola. Vinha a ser o desastre uma tenda por motivos de architectura—um martyrio de artista. Invejas. Por causa da Arte padecêra o seu collega Affonso Domingues, o architecto da Batalha, e João de Castilho, o do convento de Thomar, e já tinha padecido seu mestre, o Manoel Chasco, a quem inimigos quebraram a cabeça na feira dos 21, por que elle, desfazendo na obra d'um collega, dissera que o botaréo d'um cunhal estava torto.
Passado tempo, Martha sahiu prompta da mestra. Lia a cartilha do Salamondi e o Grito das almas, decifrava menos mal umas sentenças velhas que havia na casa de Prazins, monumentos das ruinas de antigas demandas, e escrevia regularmente. A primeira carta que escreveu por pauta foi para o tio de Pernambuco, o tio Feliciano. Pedia-lhe a sua benção e duas moedas de ouro para umas arrecadas. Era o pai que lhe ditava a carta, cheia de lastimas mendigas, mentirosas, historietas velhacas de penhoras, as grandes decimas, a ferrugem das oliveiras, o bicho da batata, o gorgulho que pegára no milho, muitas alicantinas.
—Que era a vêr se o ladrão mandava alguma coisa, dizia elle, pondo cuspo na obreia vermelha para fechar a carta.
A segunda carta, que ella escreveu já sem pauta, foi a José Dias, ao estudante, que já não estudava por causa das memorias nocivas á sua saude fraca, um pelém.
N'este tempo já o Zeferino da Lamella se tinha declarado com o Simeão de Prazins, de um modo quasi original.
—Você quanto deve, ó tio Simeão?—perguntou.
—Quanto devo? Você quer pagar-me as dividas?
—Pôde ser. Você deve á Irmandade de N. Senhora de Negrellos um conto e cem mil réis; você deve de tornas a seu irmão quatrocentos. Ha-de andar lá para um conto e quinhentos, p'ra riba que não p'ra baixo.
—É isso; você sabe a minha vida melhor que eu a sua—um conto e quinhentos e pico.
—Quanto é o pico?
—Obra de dez moedas, mais pinto menos pinto. Miudezas na loja ao mercador e um réstito da vacca amarella que comprei ao Tarracha na feira dos 13.
—Você quer fazer um cambalacho?—tornou o pedreiro recuando o chapéu para a nuca e pondo-lhe as mãos espalmadas com força nos hombros.
—Se pintar... Já sei o que você quer... Não me serve. Você quer comprar-me o lameiro da azenha—não vendo.
—Eu ainda lhe não disse o que queria, tio Simeão. Olhe bem para mim. Você está a fallar c'um home. Pago-lhe as dividas, você não fica a dever nada, e eu caso com a sua Martha. Póde dar os bens ao outro filho que eu não lhe quero uma de X.
—Você falla serio, ó sôr Zeferino?
—Se fallo serio?! Então você não sabe com quem é trata.
—Ora bem—entendamo'-nos—é a rapariga que você quer, a rapariga estreme, sem dote nem escriptura?
—Eu não tenho senão uma palavra. Já lhe disse que sim.
—A rapariga é sua.
Negociára a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarracha a vacca amarella na feira dos 13. Eis um caso exquisito de aldeia que pela torpeza parece acontecido n'uma cidade culta. Conversou-se este dialogo debaixo de um castanheiro frondoso, com um pavilhão de folhagem gorgeado de passaros, com uns tons de luz esverdeada, na dôce placidez crepuscular de uma tarde de agosto, entre dous homens de tamancos, arremangados, com os peitos cabelludos a negrejar d'entre os peitilhos da camisa surrada de suor e poeira, brutos no gesto e na phrase. Analogas passagens, com estylo pouco melhor, tem sido dramatisadas nas salas, entre homens da melhor polpa e casca social—uns que mandaram ensinar ás filhas os verbos francezes e são assignantes do Journal des Dames que marca ás meninas a balisa até onde póde chegar o arrojo da lingua franceza e os seus mais avançados destinos. Da outra parte, homens ricos, de figado engorgitado, fatigados, sedentos de senhoras finas que ponham no luxo das suas salas os tons vivos da carne constellada de diamantes. É o epilogo de vinte annos de lavra dura, o substratum da compra de negras a milhares:—comprar uma branca, das que o amor pobre e o talento esteril não podem negociar. O contracto feito em Prazins—eis a differença—por parte do pedreiro era um heroismo: dava o seu dinheiro por aquella mulher; daria mais depressa o seu sangue. Era uma paixão das que não pegam com os dentes anavalhados em corações civilisados, quasi desfeitos. Ora, os pedreiros que vem d'além-mar, e se vestiram no Pool ou no Keil, não amam nem compram assim. Fazem o dote economico, comezinho á esposa. Compram uma machina de propagação, condicionalmente. Se, extincto o comprador, a machina, não deteriorada, tiver pretendente, o substituto que a compre. O defunto prefere que a sua viuva, adelgaçada e espiritualisada por jejuns, lhe converse com a alma.
[II]
Por esses dias chegou carta de Pernambuco, incluindo ordem, primeira via, 48$000 réis, dez moedas de ouro. Feliciano mandava 12$000 réis para as arrecadas da sobrinha, e o resto ao irmão. Dizia-lhe que estava a liquidar para vir, emfim, descançar de vez,—que já tinha para os feijões. Recommendava-lhe que fosse deitando o olho a uma ou duas quintas que se vendessem até trinta ou quarenta mil cruzados; que se ainda houvesse conventos á venda, os fosse apalavrando até elle chegar.
—Quarenta mil cruzados, com um raio de diabos!—exclamou o Simeão, e foi mostrar a carta ao padre-mestre Roque, ao Trêpa de Santo Thyrso e ao ex-capitão mór de Landim; e, como encontrasse na feira o dono do mosteiro dos benedictinos, o Pinto Soares, um deputado gordo—a rhetorica viva do silencio mais facundo que a lingua, d'uma grande pacificação somnolenta—perguntou-lhe se queria vender as quintas dos frades, que tinha comprador. O Pinto Soares, como um homem que acorda com espirito e um pouco de atheismo, respondeu-lhe que não vendia para não transmittir ao comprador a excommunhão que arranjára comprando bens das ordens religiosas. Mas o Simeão, em materia e raios do Vaticano, tinha na sua estupidez a invenção de Franklin. Continuava a perguntar a toda a gente se sabiam de conventos á venda, ou quintas ahi para quarenta mil cruzados.
O Zeferino das Lamellas, o pedreiro que se julgava noivo por ter o negocio fechado em um conto, quinhentos e pico, procurou o lavrador para se cuidar dos banhos. O velhaco, depois de o ouvir com ares de abstracção palerma, disse-lhe a mastigar as palavras:
—Home, o caso mudou muito de figura. Então você pelos modos ainda não sabe que vem ahi o meu irmão de Pernambuco comprar quintas e conventos?
E começou a desenrolar o nastro gorduroso de uma carteira de coiro em que tinha recibos da decima, um aviso da junta de parochia para pagar a congrua, uma conta de azeviche contra maus olhados, uma oração manuscripta contra as maleitas, um officio antigo que o nomeava regedor, de que fôra demittido pelos Cabraes, uma velha resalva de recrutamento, uns versos que elle recitara no natal, em um Auto do nascimento do Menino, onde elle fazia de rei mago, e finalmente o livrinho de Santa Barbara, muito cebaceo, com um lustro azulado de graxa e a carta do Feliciano tão suja que parecia ter estado em infusão de pingue.
—Você ainda não ouviu fallar d'esta carta!?—perguntou com sobranceria impertinente, dando saliva aos dedos para a desdobrar.—Não se falla n'outra causa. Toda a gente sabe que vem ahi do Brazil o meu Feliciano para comprar quintas.
—Já me constou—disse o pedreiro,—mas você roe a corda á conta d'isso, acho eu...—E como o lavrador hesitasse:—O negocio da rapariga está feito ou não está feito? Os homens conhecem-se pela palavra e os bois pelos cornos. Ponha p'ra'hi o que tem no interior.
O Simeão mascava, torcia-se, mettia com dois dedos a carta estafada na carteira e resmungava:
—Você, emfim, isto é um modo de fallar, como o outro que diz; você bem entende que ... sim...
—O que eu entendo physicamente fallando é que você não me dá a rapariga.
—Deixe vêr, deixe vêr o que diz o meu irmão—tartamudeava.
—Sabe você que mais?—volveu iracundo o architecto dando com o ôlho do machado n'um canhoto.—Você é de má casta. Não tem palavra nem vergonha n'essa cara estanhada. Você é da geração dos Travessas da Serra Negra, e basta... Não lhe digo mais nada...—Allusão pungente a um tio do Simeão, o Bernabé, capitão das maltas de salteadores que infestaram em 1835 aquella serra.
—Veja lá como falla...—interrompeu o lavrador ferido na sua linhagem.—Você não me deite a perder...
E o outro, n'um impeto de consciencia robusta:
—Você é um safado. É o que lh'eu digo. Não guarda palavra em contracto que faça. Eu já devia conhecêl-o. Faz para as matanças seis annos que você justou comigo uma porca por quatro moedas e foi depois vendel-a ao Antonio do Eido por mais um quartinho. Lembra-se, seu alma de cantaro?—E n'uma irritação crescente:—Se você não fosse um velho, dava-lhe com este machado na caveira.—É muito esbandalhado nos gestos, com sarcasmo:—Guarde a filha que eu hei de achar mulher muito melhor que ella pelo preço, ouviu você? que leve o diabo a burra e mais quem a tange, como o outro que diz. Livrei-me de boa espiga. De você não póde sahir cousa boa; e mais da mãe que ella teve, que já lá está a dar contas...
E o lavrador com extremada prudencia e na pacatez de um grande espirito de ordem e paz:
—Você não tem que desfazer na minha filha, ouviu?
—Ouvi, que não sou mouco. Ainda hontem a topei na bouça do Reguengo de palestra com o estudante de Villalva. Espere-lhe a volta. A songuinha, que não olha direita p'ra um home, que anda alli esmadrigada de cabeça ao lado, lá estava de mão na ilharga a dar treta ao estudante, aquelle páo de encher tripas, que ha-de ser mesmo um padre d'aquella casta! Olhe se elle lh'a quer para casar... Pois não quizeste?—e arregaçava a palpebra do olho esquerdo mostrando o interior inflammado com uns pontos amarellos, purulentos, indicativos de insufficiente lavagem, um tregeito de garotice.—E continuava:—Quem lhe déra dois pontapés, n'elle a mais n'ella!—e muito rubro de colera dava pancadaria nas pedras, nas raizes nodosas dos castanheiros, e mettia grande terror no animo do Simeão quando faiscava lume nos calhaos com a percussão do machado.
Esta situação promettia acabar pela fuga prudente do pai de Martha, se o estudante de Villalva não assomasse ao fundo do castanhal com uma matilha de coelheiras que ladravam a um porco muito erriçado, que as esperava com o focinho de esguelha, bufando e grunhindo. O caçador chamava os cães, assobiava, fazia uma bulha convencional para que a Martha o ouvisse.
Elle não tinha visto o pedreiro; os cães é que o viram e deixaram o porco destemido para atacarem o homem, com uma velha birra que lhe tinham. O Zeferino, n'outra occasião, segundo o seu costume, desprezaria a arremettida da matilha; mas, n'aquella conjunctura de odio ao caçador, esperou a canzoada com o machado em riste, empunhava o cabo com as mãos cabelludas, e fazia, com o corpo inclinado, avanços provocadores. José Dias chamava os cães obedientes; mas o Zeferino, muito azedo, engelhando na cara uns tregeitos de basofia, dizia sarcastico:
—Deixe-os vir, deixe-os vir, que o primeiro que chega faço-lhe saltar os miolos á cara de você.
Que se accommodasse, conciliava pacificamente o estudante—que os cães não tinham outra falla. E o pedreiro insistente, muito arrogante:—que venham para cá, e mais o dono, o caçador de borra! e dizia palavradas canalhas, muito damnado por que vira apparecer a Martha na varanda, a fazer meia com a cesta do novello no braço.
—Ó snr. Zeferino, falle bem, ponha côbro na lingua—advertiu o José Dias com uma serenidade de máo agouro—quando eu lhe ladrar então se fará com o machado para mim. Os cães ladraram-lhe, eu chamei-os, que mais quer você, homem? Siga o seu caminho.
—O meu caminho? o meu caminho é este—disse batendo com o machado na terra.—Quer você mandar-me embora d'aqui? Ora não seja tolo.
A presença da môça enfurecia-o; contra o seu costume, sentia-se valente. O amor, como um vinho indigesto, dava-lhe a coragem interina dos bebedos, e berrava:
—Se é homem, venha para cá! Você manda-me sahir d'aqui, seu pedaço d'asno?
E o estudante, já amarello:
—Eu não o mando sahir d'ahi, nem lhe consinto que me chame asno. Olhe que eu largo a espingarda, tiro-lhe das unhas o machado e dou-lhe com elle.
—Ó alma do diabo!—exclamou o pedreiro crescendo para o caçador.
N'isto, um dos cães, atravessado de cão de gado e cadella coelheira, que aprendêra a morder nas occasiões rezoaveis, atirou-se-lhe ao assento das calças de estopa e puxou até lhe descobrir a epiderme da nadega esquerda.
O pedreiro floreava debalde o machado; os golpes cortavam o ar, e nem de leve apanhavam o cão, que dava pulos de esconso, atacando-o pela nadega direita. A restante matilha fraternisára com o outro e juntavam os focinhos num complexo de dentuças minacissimas com os olhos sanguineos cravados nos movimentos do machado. José Dias, no entanto, espancava a cainçada, e Martha não sabia se havia de descer para ajudar o pai a accommodar a bulha, ou se havia de cahir na varanda a rir-se. Ella sentia-se envergonhada do espectaculo que exhibia a calça esfarrapada; mas não havia pudor que resistisse áquillo. O pedreiro sabia que o cão lhe chegara um pouco á calça; mas, no calor da lucta, não sentira esfriar-se-lhe a pelle descoberta, nem se lembrou que andava sem ceroulas. Depois, como sentisse uma frescura extraordinaria na cutis, exposta ao contacto da atmosphera, levou a mão conscienciosamente ao sitio, e achou em si aquelle specimen obsoleto do Adão primitivamente innocente. No entanto, Martha, não podendo já comsigo, entalada de riso, fugira da varanda e atirára-se de bruços sobre a cama, a rebolar-se, a espernear como se tivesse uma colica. O estudante retirou-se assobiando á matilha ainda refilada ás nadegas do homem. O Simeão coçava-se com as dez unhas e dizia velhacamente commovido:
—Mêtta-se ahi na córte da egua que eu vou-lhe buscar umas calças, seu Zeferino, ou dá-se-lhe ahi quatro pontos p'ra remediar. Dê cá as calças, e não se afflija...
O pedreiro respondeu-lhe porcamente e de modo tão trivial, que o outro lhe replicou:
—Vá você!
E metteu-se em casa como quem receava contra-replica menos suja e mais dura.
[III]
O Zeferino era afilhado do morgado de Barrimáo, um major de cavallaria, convencionado em Evora-monte, miguelista intransigente, mas cordato. Vivia no seu escalavrado solar com um irmão egresso benedictino. Fr. Gervasio, muito cevado e inerte, continuava em casa a sua missão monastica. Era um contemplativo. Não lia senão no livro da Natureza. Se não dormia, estrumava o seu vegetalismo com muitos adubos crassos de toicinho e capoeira, com um grande farfalhar de mastigação, porque dispunha de dentadura insufficiente. Tinha outro signal ruidoso de vida—era um pigarro de catarrhal chronica, arrancado dos gorgomilos com tamanho estrupido que parecia ao longe o grito rouco de um estrangulado, no 5.° acto de um drama de costumes. A velha creada da cozinha, muito flatulenta, nunca pudéra affazer-se ás explosões d'aquella garganta escabrosa de mucos empedrados. Quando o grasnido asperrimo de pavão lhe feria os ouvidos, reboando nos concavos tectos dos salões, a mulher estremecia e raras vezes deixava de resmungar:—Que mêdo! credo! diabos leve a esgana do home, Deus me perdôe!
De dois em dois mezes appareciam em Barrimáo dous egressos de Cabeceiras de Basto, companheiros de noviciado de fr. Gervasio. Juntavam-se os tres amigos em uma intimidade de palestras saudosas. Com intercadencias mudas de poetica tristeza, commemoravam os seus conventuaes fallecidos, rezavam juntos pelos seus breviarios benedictinos; depois, a passo cadencioso, claustral, iam para a mesa com o recolhimento prescripto pela Regra do patriarcha. Ahi, pegava de puxar por elles a natureza objectiva, e dava-lhe horas de salutar esquecimento do passado irreparavel. Gorgolejavam copiosamente os vinhos engarrafados, traiçoeiros, da companhia, em que fr. Gervasio derretia a prestação; porque, de resto, a mesa do mano morgado era farta e a sua bolsa generosa para as moderadas necessidades do egresso.
O major Zeferino Bezerra de Castro não tinha grande casa; mas, como era solteiro e quinquagenario, fazia de conta que os bens lhe haviam de sobejar á vida, vendendo os allodiaes e empenhando, se necessario fosse, o morgadio, que era insignificante. Concorria com vinte moedas para as miseraveis 1000 libras que o snr. D. Miguel recebia annualmente de donativos de monarchas e dos seus partidarios portuguezes.[1] Festejava dispendiosamente os natalicios do rei, convidando a jantar os realistas notaveis da comarca; e, contando os annos da proscripção, ia calculando a patente que lhe competia quando o soberano legitimo se restaurasse. Correspondia-se com alguns camaradas, esquecidos e atrophiados nas aldeias, o general Povoas, o Bernardino, o Magessi, o Montalegre, o José Marcellino. Mas as cartas quem lh'as redigia era o mano frade, recheando-as de trechos de politica de pulpito—resultado das suas digestões morosas, contemplativas—que serviram de ornamento nas columnas do Portugal velho, periodico miguelista da época.
N'aquelle anno, por meado de 1845, espalhára-se no ambiente dos realistas, como um aroma de jardins floridos, o boato de que vinha o snr. D. Miguel. O seu enorme partido sentia-se palpitar no anceio d'aquelles vagos anhelos que estremeciam as nações pagans ao visinhar-se o prophetisado apparecimento do Messias. Affirmam-no os Santos Padres, e os padres do Minho asseveravam o mesmo a respeito do principe proscripto. Fr. Gervasio recebia do alto da provincia cartas mysteriosas d'uns padres que parochiavam na Povoa de Lanhoso e Vieira. Era alli o foco latente do apostolado. N'aquelles estabulos de ignorancia supersticiosa é que devia apparecer, pelos modos, o presepio do novo redemptor. Citavam-se prophecias apocalypticas de frades que estavam inteiros sob as lages das claustras. Convergiam áquelle ponto missionarios de aspectos seraphicos, olhando para as estrellas como os magos e os pastores da Palestina. O frade mostrava as cartas ao irmão e dizia-lhe: «Elle ha coisa...»
—Mas muito grande!—corroborava o major com cabeçadas affirmativas muito exageradas.
—A Russia move-se, é o que é—affirmou fr. Gervasio, correlacionando a iniciativa de Lanhoso com a propaganda autocratica da Russia.
Em um d'estes dialogos, em que havia desabafos, exuberancias de jubilo, interveio o Zeferino das Lamellas, o pedreiro afilhado do major. Vinha contar o caso do Simeão de Prazins e a péga que teve com os cães do Dias de Villalva. Mostrava a calça remendada—que por pouco lhe não entravam no coiro os cães—dizia, e protestava vingar-se. O egresso pacificava-o; que deixasse lá a rapariga e mais o estudante; que se fosse preparando para desembainhar a espada de seu pai em defeza do throno e do altar. E o major:
—Estamos chegados a ellas, Zeferino.
E o pedreiro, esfregando as mãos coreaceas, que ringiam como duas lixas friccionadas:
—A elles, snr. padrinho! A espada vai-se amolar... Vou pedil-a ao velho!
O pai de Zeferino, o Gaspar das Lamellas, tinha sido alferes do 17 de linha; e, em 1834, como o perseguissem os liberaes do concelho por pancadaria e testemunhos falsos nas devassas de 28, andou foragido alguns mezes. Sequestraram-lhe os bens; e o filho que já era muito barbado e não tinha modo de vida, fez-se pedreiro. Depois, applacadas as furias dos vencedores e restabelecida a justiça, restituiram ao Zeferino as terras devastadas. O ex-alferes sahiu do seu esconderijo, e recolheu-se a casa com a espada muito cheia de verdete, dizendo que havia de laval-a no sangue dos malhados. Em 1838, dia de natal, embebedou-se despropositadamente e sahiu para a rua a dar vivas ao snr. D. Miguel. Outros piteireiros, do mesmo credo, e affectos ás velhas instituições, responderam aos vivas com um enthusiasmo homicida. O Gaspar foi buscar a espada, cingiu a banda sobre a niza de saragoça, poz a barretina com os amarellos muito oxidados, e, á frente d'um grupo de jornaleiros e garotos, caminhou para a cabeça do concelho afim de offerecer batalha campal ás auctoridades. Além da espada do caudilho, havia na jolda tres espingardas reiunas; o restante eram foices de gancho encavadas em grossas varas. Um porqueiro colossal floreava uma lamina brunida da faca de matar os cevados. A guerrilha, já engrossada por outros bebedos encontrados nas tavernas do transito, chegou â porta do morgado de Barrimáo, e a clamorosos brados elegeram-o general. Já se ouvia tocar a rebate em diversas torres, á discrição dos garotos destacados. O morgado mandou-lhes dar vinho, e que debandassem, que recolhessem a suas casas, porque iam levar grande tareia inutilmente. O egresso veio a uma janella que abria sobre o atrio, e tentou dissuadil-os do desvario que mais parecia um excesso de vinho que de patriotismo—dizia. Não fez nada. Cada vez mais picado, o alferes, faminto de vingança, bradava que estivera quinze mezes escondido, que lhe tinham estragado a sua casa, e que ia pedir contas aos Trêpas e aos Andrades de Santo Thyrso, uns malhados, cujas cabeças havia de deixar espetadas em pinheiros.
Na villa ouvia-se o toque a rebate. Dizia-se que era incendio. Alguns vadios atravessaram a ponte muito açodados em direcção ás freguezias d'onde soavam as primeiras badaladas. O regedor de Villalva, o pai do José Dias, descia esbaforido do monte do Barreiro a dar parte á auctoridade. Assim que se espalhou a nova em Santo Thyrso, já se ouvia alarido de vozes. A garotagem dava vivas, e guinchava uns apupos prolongados que punham eccos nas margens tortuosas do rio Ave. Os liberaes de Santo Thyrso rodearam o administrador, armados, com os seus criados. Os negociantes com medo de saque tambem sahiram de clavinas. As familias nas janellas faziam clamores, n'uma grande desolação. N'aquella villa lembrava ainda a mortandade do tempo do cerco do Porto, e havia velhos que presencearam outra semelhante no tempo dos francezes. O regedor de Villalva dissera que o commandante da guerrilha era o morgado de Barrimáo. Esta noticia fez augmentar o pavor, porque, se o morgado, serio, prudente e bravo, acceitára o commando dos populares é porque a cousa era séria. Os homens de negocio depuzeram as armas, enfardelaram os valores e fugiram, caminho do Porto. Os proprietarios, os empregados publicos, os officiaes de justiça, alguns que haviam militado e emigrado, desceram á ponte armados em numero de oitenta. Outros seguiram vereda differente para passar o rio. A guerrilha cuja vozeada se aproximava, no trajecto de uma legua, pegou a sua febre a mais de trezentos homens. Era um domingo de festa solemne, consagrado á descida do Filho de Deus, para applacar os barbaros odios do genero humano:—uma grande alegria que passaria despercebida, se o vinho não preparasse as almas a comprehendel-a e sentil-a. Depois, muito communicativa, como se vê. Gaspar das Lamellas emborracha-se ao jantar e faz brindes ao Menino Jesus e ao snr. D. Miguel I. Pica-lhe na caneca, pungem-o saudades do rei, e sahe para o terreiro a dar-lhe vivas. Outros vinhos em ebulição respondem-lhe n'um grito de sinceridade compacta. Trava da espada, que se tingira no sangue de tres batalhas á volta do Porto; entra com elle a convicção em delirio acrisolada pela allucinação da embriaguez. E o arrojo temerario dos grandes guerreiros o que ó senão uma embriaguez de gloria, quando não é uma embriaguez de genebra? Nas guerras civis portuguezas houve ahi um bravo soldado de fortuna que, no vigor dos annos, ganhára as charlateiras de general e uma corôa de conde. Os seus camaradas, mais retardados na carreira por causa da abstinencia, diziam que elle nunca sahira victorioso de campanha onde não entrasse bebedo. Este general, ao declinar da vida, casado e abstemio, não deu uma pagina gloriosa á sua historia, presidiu sem iniciativa, militar nem politica á Junta Suprema do Porto, e fechou o cyclo das suas façanhas a parlamentar em Vieira com o padre Casimiro, o General Defensor das cinco chagas.
Também no cerebro vinolento do alferes das Lamellas rutilavam os relampagos da gloria quando, a brandir o gladio ferruginoso, descia, na vanguarda da guerrilha, o outeiro sobre jacente á Ponte de Santo Thyrso. Á entrada da ponte de páo havia taverna, com as prateleiras alinhadas de garrafas da Companhia, com rotulos.
A multidão parou, avistando gente armada que descia a calçada d'além, ao nivel da quinta do mosteiro de S. Bento. O taverneiro, muito caloteado d'essa vez, disse ao commandante, ao Gaspar, que não cahisse em se metter á ponte.
—Vocês vão cahir ahi n'essa ponte como tordos, o os que não cahirem tem de largar os sócos a fugir—avisava, porque sabia que os de lá eram têzos, e vinham todos armados.
O cabecilha tinha o seu vinho quasi digerido; a bravura começava a ceder ás reflexões sensatas do taverneiro; mas o seu estado maior, uns facinoras da quadrilha que tres annos antes infestara as encruzilhadas da Terra Negra e Travagem, não transigiam, e forçavam-o a beber copos de aguardente.—Que o primeiro que mostrasse os calcanhares ia malhar da ponto abaixo!—protestavam os velhos salteadores do Minho, batendo com as cronhas no balcão.
Entretanto, o administrador do concelho com dous empregados inermes atravessava a ponte. A guerrilha, estupefacta da audacia, esperava-o n'uma attitude pacifica, estupida, um retrahimento de covardia, olhando-se uns para os outros e todos para o alferes. Elle, empurrado pelos valentes, collocou-se á frente, na bocca da ponte, com a espada nua. O administrador chegou muito de passo e perguntou se estava alli o snr. morgado de Barrimáo, que desejava fallar-lhe.
—Que não estava; eu sou o chefe—disse o Gaspar.
—Logo me pareceu que um homem sério, como o morgado, não estaria á frente d'este bom povo enganado—ponderou a auctoridade.—E vocemecê quem é?—perguntou ao chefe.
—Que era o alferes das Lamellas, bem conhecido em toda a parte; que perguntasse aos malhados de Santo Thyrso, a esses ladrões que o perseguiram e lhe roubaram os seus bens.
O administrador, um bacharel, de cabelleira á Saint-Simon, era discursivo e não perdia lanço de eloquencia em casos d'um romanesco medonho. A torrente do rio rugia quebrada pelo triangulo dos pegões. Uma rica e funebre paysagem, cortada de um lado pelos cataventos que ringiam nas cristas das torres do mosteiro, e do outro pela matta verde-negra, erriçada de pinheiros gementes. Um pittoresco cheio de suggestões, d'uma palpitação cyclopica. Depois o enorme auditorio, trezentas cabeças, fluctuando com as boccas muito escancaradas n'uma bestialidade feramente spasmodica de lobos espantados por um archote acceso. O meio era demosthenico, inspirativo. Borbotou-lhe a gôlfos um palavriado discreto, aconselhando a turba a retirar-se aos seus apriscos, á honrada labutação dos seus mesteres, e a não perturbarem com demagogias a pacificação dos animos e a sacratissima inviolabilidade das instituições. Quando o funccionario fechou a parlenda, um dos mais bebedos, quer por chalaça, quer por insufficiente comprehensão dos principios politicos da auctoridade, atirou o chapéu ao ar e exclamou: «Viva o snr. D. Miguel I, rei de Portugal!»
A auctoridade ia replicar; mas a gritaria abafou-o. Elle voltou as costas á canalha, e foi-se com bons exemplos de oradores antigos. Os liberaes, logo que o viram retroceder, entraram na ponte de madeira com um sonoro estrondo de marcha cadenciada.
Capitaneava-os um escrivão de direito, dos 7500, cavalleiro da Torre e Espada, o Lobato, que pedira baixa de tenente no fim da campanha.
Outro bravo, o ex-sargento Lopes, que era guarda-chefe dos tabacos, tinha pedido vinte homens, e atravessára com elles o Ave, na revolta do rio, sem ser visto, na bateira do José Pinto Soares. Elle não podia levar a bem que aquelles patêgos se retirassem sem uma sova pela retaguarda e outra pela frente. Contava com a debandada pela ladeira das mattas, e promettia, lá do alto, escorraçal-os de modo que elles se espetassem entre dois fogos. Os seus vinte homens eram soldados com baixa, guardas do tabaco, e socios aposentados das quadrilhas de 1834—um mixto de politicos, de ladrões e martyres das enxovias.
Os quatro facinoras da horda do alferes, quando viram a marcha firme e solemne dos de Santo Thyrso,—é agora, rapazes!—exclamaram, desfechando as espingardas. Os populares que as tinham, descarregaram as suas, e avançaram, ponte dentro, n'uma arremettida impetuosamente esbandalhada, de rodilhão. Uma das balas prostrára um arrieiro da primeira fila dos liberaes; havia mais alguns feridos que se amparavam gementes ás guardas da ponte. O bravo do Mindello viu cahir morto o seu homem, e, contendo a furia das fileiras n'uma disciplina rigorosa, deu a voz da descarga á primeira, e mandou abrir passagem á immediata, que sustentava o fogo em quanto a outra carregava as armas.
Os pelouros cortavam fundo pelas carnes da populaça. Viam-se homens que fugiam a coxearem, atiravam-se ás ribanceiras, escabujando em arrancos de morte. Os que não tinham espingardas e ainda os que as tinham sem cartuchame, pegavam dos tamancos e galgavam socalcos, buscando o refugio dos pinhaes e carvalheiras.
O alferes sentiu um choque duro de coisa que lhe contundia as costas e lhe apertava o pescoço. Era o Retrinca de S. Thiago d'Antas, o mais feroz da sua malta, que se amparava n'elle, quando cahia varado por um pelouro. Este espectaculo trivial não aterrava o soldado de Ponte Ferreira, das Antas e da Asseiceira; mas dava-lhe as antigas pernas que o serviram n'essas gloriosas batalhas. Tinha cincoenta annos, e fugia ganhando a dianteira aos garotos do seu bando destroçado. Porém, quando elle escalava a ladeira barrenta que se precipita ao sopé do monte, desciam em saltos de bezerros mordidos por vespereiros os seus homens, n'um turbilhão, acossados pelo tiroteio da companhia do ex-sargento Lopes—uns barbaçudos que pareciam gigantes no tôpo da collina, e davam uns berros clangorosos imitantes a mugidos de bois. O dia de juizo!
O Gaspar arripiou carreira e desfilou por uma varzea alagada que ia esbeiçar com o rio. Como a banda do alferes vermelhava ao longe, e a espada a prumo no punho lhe dava uma caracterisação geitosa e provocante para alvejar as espingardas, as balas sibilavam-lhe por perto, chofrando nos pantanos. Alguns homens perseguiam-o chapinando no lameiral, porque o chefe dos tabacos, o Lopes, dizia-lhes: «Ó rapazes, vêde se mataides aquelle diabo que é o cabecilha!» Os mais velleitos levavam-o esfalfado, cambaleando, atortemelado, quando o viram desapparecer de subito entre uma espessa moita de platanos. D'ahi a instantes, abeirando-se á ourela do rio, viram a barretina e a niza de saragoça sobre uns comoros hervecidos; e, a distancia de dez varas, aquelle bebedo immortal atravessava o rio a nado, n'uma tarde de dezembro, com a espada nos dentes, e a banda a tiracollo.
—Ó alma do diabo!—dizia o Patarro de Monte Cordova, cevando a arma com zagalotes para lhe atirar.—Vou matar aquelle pato bravo!
E o mais novo dos quatro, um imberbe que tinha pai:
—Não lhe atire, ó tio Patarro! É um velho, coitado! Não lhe vê os cabellos brancos? Aquelle homem não se deve matar. Elle vai morrer afogado antes de chegar á outra banda. Verá. Que raio de amizade elle tem á espada! Aquillo é que é!
A meio do rio, onde a veia d'agua resvalava mais impetuosa, deixou-se derivar sem esforço de natação. Mal bracejava. Depois, o Ave espraiava-se em murmurios de lago dormente, muito barrento, e deixava-se apégar. O alferes, com agua pela cinta, desatascou-se dos lamaçaes d'além; e, horas depois, repassando o Ave na Ponte da Lagoncinha, e, vencidas duas leguas de chafurdeiros e barrocas, entrava na sua casa das Lamellas, bebia um grande trago de genebra, e, floreando a espada, bradava: «Viva o snr. D. Miguel I!»
Depois, sobreveio-lhe um rheumatismo articular, e ficou tolhido.
Sete annos passados, quando todas as aldeias do Minho conclamavam D. Miguel, elle ainda vivia, mas entrevado n'um carrinho, e chorava, em impotentes arquejos do corpo paralytico, porque não podia amolar a lamina da espada nos ossos dos malhados.
Tinha-a diante dos olhos pendurada n'uma escapula com o boldrié e a banda. Ás vezes, depois de beber, punha-se a olhar para ella com os olhos envidraçados de lagrimas, e pedia que a mettessem na sua sepultura, que o enterrassem com ella. E enterraram. Espera-se que o esqueleto d'este legitimista, com as phalanges esburgadas e recurvas no punho azevrado da espada, resuscite, ao ulular da trombeta, na resurreição geral das Legitimidades. Ponto é que a Russia se môva—como dizia o frade de Barrimáo.
[1]Um historiador moderno disse que D. Miguel em 1855 recebia setenta contos annuaes de donativos. Provavelmente deu causa a esta liberalidade de cifras um lapso do snr. Joaquim Martins de Carvalho que a pag. 254-255 dos seus Apontamentos para a Historia contemporanea, transcreveu de uma carta de Lourenço Viegas o seguinte periodo:... "Os rendimentos de el-rei compõem-se das 600 libras que vem de Lisboa da commissão alimenticia, 1.000 francos mensaes que com toda a exactidão lhe manda o conde de Chambord. 5.000 francos que annualmente lhe manda o duque de Modena e 6.000 francos do imperador Fernando d'Austria, tambem annuaes, mas sem época fixa, junto a alguns extraordinarios da provincia do Minho, fazem subir a renda annual a 400.000 francos, e esta chega apenas para a despeza e economia domestica." Chegando apenas para a despeza domestica de D. Miguel, 72:000$000, quanto lhe seria necessario para as despezas de fóra? Um dos zeros do snr. Martins de Carvalho deve passar para a direita do 4, e reduzir a annuidade do principe a 7.200$000 réis ou 40.000 francos.
[IV]
Do alto Minho continuavam as noticias alegremente agitadoras. O Christovão Bezerra, ex-capitão mór de Santa Martha de Bouro, escreveu ao seu parente de Barrimáo. Dizia-lhe que constava que o snr. D. Miguel estava no seu reino, e—o que mais era—muito perto d'alli. Que não se podia explicar mais pelo claro sem ter a certeza de que seu primo entendia a cifra de communicação entre os membros da ordem de S. Miguel da Ala, instituida pelo snr. D. Affonso Henriques e renovada ultimamente pelo monarcha legitimo—explicava. O major Bezerra era commendador da ordem e conhecia a cifra:—que escrevesse francamente. E, desconfiando do correio, mandou a Santa Martha de Bouro o afilhado, o filho do alferes Gaspar, com uma carta muito importante. O pedreiro, a impar de soberba por tal mensagem, posto que não participasse do segrede do padrinho que era discreto, disse ao pai:
—Ou eu me engano, ou o snr. D. Miguel está por ahi, não tarda...
O alferes sentiu uma descarga electrica na columna vertebral e convulsionou-se extraordinariamente. Fazia lembrar phenomenos que se contam de movimento galvanico nos paralyticos, colhidos de improviso pelo terror ou pela exultação; mas o Gaspar, como só tinha o esophago desempedido, bebeu, com a escorrencia absorvente d'um olho-marinho, muita aguardente, e desatou a berrar o Rei-chegou.
O filho, com a discrição propria d'um agente secreto da restauração realista, zangou-se com o berreiro civico do pai e perguntou-lhe se estava bebedo. O velho enthusiasta, ferido no seu coração de vassalo e de progenitor, teve um honrado intervallo lucido, quando lhe replicou:
—Se eu não estivesse aqui tolhido, respondia-te, malandro!
Deitou o albardão á egua e partiu para terras de Bouro o Zeferino. Quando passava defronte da casa do Simeão, em Prazins, olhou de esguelha, por debaixo da aba do chapéu, para o lavrador que estava apondo os bois ao carro, e regougou um arrastado pigarro de goelas encatarrhoadas; e, dando de espora á andadeira, deixou cahir o pão ferrado ao longo da perna. «Qualquer dia, estou-te em cima!» dizia de si comsigo, ladeando a bêsta em corcovos chibantes. O Simeão, quando o perdeu de vista, murmurou:—Valha-te o diabo, banaboia!
O ex-capitão mór de Santa Martha respondeu ás perguntas do primo de Barrimáo; e, como o portador se recommendou na qualidade de afilhado do fidalgo e filho d'um alferes que commandára o ataque de 1838 sobre Santo Thyrso, o Christovão Bezerra tratou-o muito bem e pediu-lhe noticias d'esse ataque a Santo Thyrso que elle não conhecia. O pedreiro contou a façanha do pai, a nadar, com a espada nos dentes; e o fidalgo quando soube que elle estava entrevado, disse pungidamente: Mal empregado!—que um general romano fizera o mesmo e que o levasse ás caldas de Vizella á bomba quente.
Como estava conversando com o filho de tamanho realista, fez-lhe confidencias:—que D. Miguel estava perto d'alli; mas não recebia ninguem porque os malhados já o espreitavam em Portugal. Que a acclamação havia de começar em terras de Bouro, e estender-se até Lisboa; e que estivesse certo que el-rei nosso senhor lhe daria a patente do pai ou talvez mais. O pedreiro esfregava os joelhos com as mãos e bamboava-se hilariante na cadeira como um idiota. Tirou da algibeira da vestia uma saquita de missanga, onde tinha tres peças e sete pintos. Pôz o dinheiro com estrondo deante do Bezerra,—que o mandasse a el-rei para as suas despezas; que eu, accrescentou, ha quatro annos que lhe dou uma moeda d'oiro por anno; elle ha-de saber pelo rol quem é o Zeferino das Lamellas, por que o padre Luiz de Sousa Couto, do Porto, disse-me que el-rei conhece de nome todos os que lhe mandam dinheiro, O fidalgo recusou:—que não estava auctorisado a receber donativos, nem os julgava por em quanto necessarios, por que em poder do Dr. Candido, de Anêlhe, estavam cincoenta contos, dados pela senhora infanta D. Isabel Maria, para pôr a procissão na rua.
A carta de que Zeferino foi o ditoso portador era mais explicita. Contava que D. Miguel estava escondido na residencia do abbade de S. Gens de Calvos, no conselho da Povoa de Lanhoso, o reverendo Marcos Antonio de Faria Rebello.[2] Que pouquissimas pessoas o tinham visto, porque sua magestade só se mostraria aos seus amigos fieis quando entrassem pela Galliza os generaes estrangeiros que se esperavam, uns do antigo exercito carlista, outros de Inglaterra.
Esta noticia dos generaes estranhos beliscou a vaidade nacional do major Zeferino Bezerra. Parecia-lho impossivel que o principe proscripto não confiasse na pericia e lealdade do Santa Martha, do Victorino, do Povoas e Bernardino. Era uma ingratidão, dizia elle ao mano frade, que accrescentou:—e uma bestialidade. El-rei deve saber o que lhe valeram o Bourmont e o Pussieux e o Mac-Donnell, no fim da campanha. Sabes tu?—rematou o morgado—aqui anda marosca. O que tratam é de se abotoarem com os cincoenta contos da infanta D. Isabel Maria, e o primo Christovão é um asno chapado.
—Escreve-se ao Povoas e ao Bernardino—aconselhou o egresso—que digam alguma coisa.
Os militares realistas responderam que sem duvida estava a levedar alguma tentativa de restauração; que o Ribeiro Saraiva trabalhava devéras; que o snr. D. Miguel era esperado em Londres; mas que não estava ao reino, nem cá viria senão para se assentar de vez no seu throno usurpado.
—Deixa-te de asneiras, Zeferino—dizia o fidalgo ao afilhado com as cartas na mão—el-rei ha-de vir; mas não veio. Meu primo foi codilhado pelo abbade de Calvos, e eu vou-lhe escrever que não seja palerma, nem caia com uma de X para o alevantamento que é uma comedella.
O pedreiro, não obstante, apostava dobrado contra singelo que D. Miguel estava em Calvos, e puxava pela saquita de missanga com gestos de troquilha de burros em feira:
—Aposto! Aqui está dinheiro! O fidalgo de Quadros, o snr. tenente coronel Cerveira Lobo tambem diz que el-rei já por cá anda.
—O Cerveira Lobo! olha que borrachão!—disse o frade.
—Quem cá está é o rei dos bebedor no corpo d'elle—accrescentou o morgado.
—Mas diz que o snr. D. Miguel I gostava muito d'elle—objectou o pedreiro.—Ouvi-lh'o eu.
—Não duvido...—explicou o frade—que o snr. D. Miguel gostava de grandes patifes...
O primo Christovão redarguiu, magoado na sua esperteza, que era tão certo estar el-rei em Calvos como era certo ter-lhe beijado a regia mão em casa do abbade, na noite sempre memoravel de 16 de abril de 1845. Que só o tinha visto de relance em Braga em 32, mas que o conhecêra pelo retrato; que até manquejava um pouco, tal e qual, como se sabe, depois que sua magestade quebrou a perna em 28. Que el-rei nomeara o abbade de Calvos seu capellão-mór, que déra a mitra de Coimbra ao abbade de Priscos, e fizera chantre o padre Manoel das Agras, e a elle lhe fizera a mercê de duas commandas e o titulo de barão de Bouro, afora outras graças a diversos clerigos e leigos.
—Que te parece isto?—perguntou o morgado ao frade.
—Parece-me a notoria estupidez do primo Bezerra e mais dos padres; mas, se o homem que lá está é o D. Miguel, então o estupido é elle, e que me perdôe sua magestade fidelissima...
Escreveu-se novamente ao Povoas, ao Tavares de Fagilde e ao Pontes, um collaborador da Nação. Responderam-lhe que não havia tal D. Miguel em Calvos; mas que deixasse correr o marfim, por que era necessario uma agitação preparatoria, um simulacro, uma apalpadella...
—Quer dizer—reflexionou o frade—que o tal impostor é um Baptista, o precursor do verdadeiro Messias. Pois deixemos correr o marfim, e mais o simulacro ... que palpem,—e, pondo as duas mãos engalfinhadas sobre o umbigo proeminente, fazia girar um dedo pollegar á volta do outro. Que o que fosse soaria, e não cahisse o mano Zeferino na estulticia de se comprometter sem que os generaes portuguezes sahissem á rua.
Na correnteza d'estas coisas, o Zeferino das Lamellas não trabalhava de pedreiro; abandonou as obras de alvenaria aos officiaes, e andava n'uma dobadoira de casa do padrinho para casa do tenente-coronel realista, o Vasco Cerveira Leite, morgado de Quadros, um homem nascido illustremente, que, desde Evora Monte, não cortára as barbas nem sahira das minas da casa-solar em Vermuim.
Como a sua paixão era inconsolavel com o destino, deu-se á distracção do alcool; e, porque tinha a consciencia da sua miseria de bebedo, fechava-se no seu quarto, onde ás vezes cahia amodorrado sobre o vomito. Imbecilisára-se. Cerveira tinha soffrido um ataque cerebral quando o brigadeiro José Urbano de Carvalho infamemente se passara com alguns esquadrões de cavallaria para o centro da divisão do duque da Terceira, na Chamusca. Elle vira o seu coronel Antonio Cardoso de Albuquerque dar vivas á carta constitucional e a D. Maria II. Achou-se arrastado, illaqueado e prisioneiro, quando procurava abrir com a espada uma sepultura honrosa. Ali se extinguira coberto do opprobrio, n'aquella hora, o bravo e leal regimento de Chaves que nunca dera um desertor para as fileiras do inimigo. O tenente-coronel, desde esse dia, foi um desgraçado incomprehendido que se embriagava para esquecer o reviramento subito da sua carreira. Depois, a corrente travada das miserias. Tinha filhos que se emborrachavam como elle, e filhas que se namoravam dos engenheiros das estradas, e andavam pelas romarias de roupinhas escarlates, com botinas de ponteira de verniz e chapéus desabados de sêda preta com borlas e plumas. Sua mãe tinha sido açafata da apostolica D. Carlota Joaquina, fizera-se mulher no Ramalhão, e gabava-se de ter sido amada do conde de Villa Flôr. Quando entrou no vasto e velho casarão de Quadros, teve hysterismos formidaveis e acordava os eccos das montanhas com gritos que punham terrores sobrenaturaes na visinhança. O Cerveira Leite poderia viver abundantemente na côrte, por que os seus rendimentos e foros eram muito importantes: é o que D. Honorata lhe pedia com lagrimas; mas elle, colerico:—que não podia encarar os malhados, e não sahiria mais de casa sem as suas divisas de tenente coronel de dragões. E, apontando-lhe para os cinco filhos:
—Sê boa mãe, trata d'essas creanças que andam ahi porcas que fazem nojo!—Tinha estas equidades em jejum.
E ella:
—Mais nojo me fazem as borracheiras de você!
E o fidalgo então disciplinava-a militarmente. Quando lhe não dava alguns pontapés, desfechava-lhe um tiroteio de palavradas de tarimba, e perguntava-lhe se tinha saudades dos bordeis do Ramalhão, aquelles pagodes reaes. D'esta procacidade esqualida, derivou a um mutismo estupido. Não lhe respondia. Fechava-se no seu quarto, contiguo á garrafeira.
D. Honorata Guião teria vinte e oito annos, quando sahiu de Lisboa para o Minho em 34. Era formosa das finas graças aristocraticas. Uma elegancia nervosa, inquieta, mordiscada de desejos como uma flôr branca muito picada das abelhas. Acceitára o major Cerveira, porque era rico e estadeava na côrte as suas librés. Tinha trinta annos, e dizia-se que aos quarenta seria general, porque D. Miguel gostava muito d'elle. Rosnava-se que o Cerveira tinha sido um dos assassinos do marquez de Loulé.
Este rapaz de côrte e da intimidade do rei e das infantas, disputado pelas damas da rainha, era aquelle ebrio encanecido que, debruçado na janella do seu quarto, fortemente fincado no peitoril de ferro da sacada, revessava ao caminho publico golfos aziumados de vinhaça, e dizia garotices de lacaio ás raparigas que passavam medrosas e o saudavam;—Guarde Deus v. s.ª, snr. fidalgo!—Tenha v. s.ª muito boas tardes, snr. morgado!—E elle, almofaçando as barbas conspurcadas de vomito:—Ó brejeira, deixa lá vêr o patriotismo; que tal é a anca? Não respondes, catraia? Olha como aquella rebola os quadris, o grande coldre!—As cachopas não respondiam; safavam-se com um grande medo, porque eram suas caseiras; mas commentavam:—Que levasse o diabo o piteireiro do fidalgo!—que a fidalga fizera bem era se pisgar com o doutor dos Pombaes.—Quer não—contrariava uma lavradeira idosa—foi má mulher que deixou assim os filhos, cinco creanças! uma desgraça! Nem as cadellas faziam isso. Os mais velhos já se emborracham, e as meninas estão quasi mulheres e ainda não foram ao confêsso nem sabem a doutrina. Que uma d'ellas, a Therezinha, já se enfeitava para o estudante das Quintans que andava por lá feito caçador, e que o morgadinho, o snr. Heitor, namorava a filha do José Alho, e até se dizia que lhe fallára em casamento. Vêde vós que desgraça, ó môças! Um menino tão rico e tão fidalgo, vi-o aqui ha tempos na taberna de Villaverde que se não lambia, a pagar vinho ao Alho e mais á croia da filha, e a comerem todos iscas de bacalháo com as mãos! Ao que eu vi chegar um senhor dos fidalgos de Quadros! Quando eu era rapariguita, aquelles senhores nunca sahiam sem os seus mochillas fardados e tinham liteiras com as armas reaes pintadas. Faziam mesmo um respeito! O snr. Rodrigo, pai d'este morgado velho, era d'isto dos governos lá de Lisboa, e quando vinha vêr as suas quintas, ó senhores, cahia ahi o poder do mundo de Braga e Guimarães a visital-o! E as fidalgas? isso então a gente, quando as via, corria logo a beijar-lhe a mão, e ellas no dia de Paschoa mandavam as cachopas lenços para a cabeça e regueifas de pão podre. Aquella casa estava sempre cheia de frades das ordens ricas...
—Isso, isso ... eu logo vi que essas fidalgas haviam de estar cheias de frades de ordens ricas—dizia o José Dias de Villalva.—Muito cheias de frades aquellas fidalgas, hein?
—Ahi vens tu com as tuas alicantinas—retrucava, pronostica e solemne, a tia Rosa de Carude.—É o que tu estudas, meu valdevinos. Agora é melhor que então, pois não foste? As fidalgas d'hoje em dia presentemente fogem c'os doutores e deixam os filhos... Isto agora é que é bom ás direitas, pois não é? No tempo antigo, valha-me Deus, as fidalgas eram umas desavergonhadas que conheciam frades e creavam os seus filhos.
—Os filhos dos frades?—perguntava o Dias.
—Cala-te ahi, bôca damnada! Olha que padre havia de sahir de ti! Ainda bem que a Martha de Prazins te fez mudar de rumo.
A fuga da Honorata Guião com o Silveira dos Pombaes não amotinara a opinião publica escandalisada. A excepção da austera Rosa de Carude, toda a gente deu razão á fidalga. O Cerveira tinha amigas da ralé, que mettia em casa—uma diversão á embriaguez, quando não exercia as duas distracções em uma promiscuidade desaforada. D. Honorata visitava-se unicamente com a D. Andreza da Silveira, da casa dos Pombaes, irmã d'um bacharel delegado em Amarante. Chorava muito com ella e pedia-lhe que perguntasse ao mano doutor se poderia separar-se por justiça, antes de se atirar a uma cisterna. D. Andreza pediu ao irmão que viesse ouvir as tristes allegações da sua desgraçada amiga.
Estava Honorata nos trinta e tres annos, quando Silveira a encontrou nos Pombaes. O delegado era um romantico. Emigrára em 28, sendo estudante, quando alguns membros da sociedade dos Divodignos padeceram o supplicio da forca pelo homicidio dos lentes. Completára a formatura em 38 e fôra despachado. Muito lido em Schiller e Arlincourt. Fazia solaus em que havia abencerragens e infantas christãs apaixonadas que tocavam arrabis, banhadas de lua nos revelins dos castellos roqueiros. Tambem fazia prosa na Gazeta litteraria do Porto,—scenas dramaticas em que se jurava pela gorja e havia homens de prol que arrastavam mantos negros, cravavam laminas de Toledo ás portas de Dom Fuas, e, cruzando os braços, rugiam cavernosamente: «Ah! Dom ribaldo, Dom ribaldo!» E depois, os arrepios d'uma casquinada secca, d'um estridente grasnido de gaivotas que se espicaçam por sobre o mar banzeiro.
A Honorata, esposa deplorativa, dama da rainha, esbeltamente magra, d'uma elegancia de raça afinada nos salões da Bemposta, pallidez eburnea, esmaecida, airs évaporés, um sorriso nobre de ironia rebelde á desgraça, com a dupla poesia do martyrio e da belleza, ultrapassou a encarnação viva dos ideaes do bacharel. Ella tinha pejo de lhe contar os seus infortunios, a vida crapulosa do marido, a libertinagem de portas a dentro com as jornaleiras, e o abandono da educação dos filhos. Andreza é que contava tudo ao mano Adolpho na presença da martyr. Que o Cerveira se embriagava todas as tardes e tinha amasias da ultima gentalha que punham e dispunham em casa. Que os meninos eram creados brutamente; que o mais velho, o Heitor, nem lêr sabia; porque o pai tambem fazia mal o seu nome. Que tiveram um padre de dentro para os ensinar, mas que o padre, em vez de lhes dar lição, trabalhava de carpinteiro em remendar os sobrados, e quando era a hora do estudo largava a enxó e vinha em mangas de camisa, sem gravata e de socos para a sala. Que os meninos não lhe tinham respeito nenhum, por isso o Heitor, quando elle o ameaçou com a palmatoria, respondeu que lhe dava uma navalhada. O pai achou-lhe graça, e o padre foi-se embora. Depois, entrou um velho que dava escóla em Guimarães, e os quizera ensinar com muita paciencia; mas o Heitor e mais o Egas taes arrelias lhe faziam que o pobre homem fugiu. Que D. Honorata soffria aquelle flagello desde a queda da realeza, como se fosse a culpada da Victoria de D. Pedro. Era da familia dos Guiões, muito intimos do snr. D. Miguel e do conde de Basto; mas todos os seus parentes foram perseguidos, roubados, de modo que ella, ainda que quizesse fugir ao marido, não tinha em Lisboa familia que a pudesse sustentar;—que, se não fosse isso, já teria acabado o seu suplicio, e que muitas vezes pensára em se matar, mas...
—Os filhinhos...—atalhou Adolpho sentimentalmente.
—Não, snr.—acudiu a dama de Carlota Joaquina—não são os filhos. O coração de mãe só se enche do amor aos filhos quando se evapora o amor aos pais. Eu nunca amei este homem. Imposeram-me o casamento, aproveitaram-se do despeito que eu sentia pelas ingratidões d'um conde que eu amava, e casaram-me á pressa. O caracter d'este homem não peorou com a desgraça da politica; elle é o que sempre foi, com a differença de que na côrte embriagava-se com os fidalgos, no Alfeite e em Queluz, e por lá dormia. As mulheres que corrompia ou o corrompiam não eram minhas creadas nem minhas conhecidas; e, se o eram, eu apenas tinha a convicção de que elle era um devasso. Tenho cinco filhos d este homem; mas basta que eu lhe diga, snr. doutor Adolpho, que são d'elle, são os productos amaldiçoados de uma obrigação estupida—a aviltadora obrigação de ser mãe quando se é esposa.
Tinha dito. O bacharel nunca ouvira coisa assim, nem se lembrava de ler achado nos romances uma razão tão philosophica e concludente da Justiça com que a mãe pôde aborrecer os filhos.
—Sentia vontade de me ajoelhar diante d'ella!—dizia Adolpho á irmã.—Que formosura e que talento, Andreza! Ó mana, eu viajei cinco annos, vi as mulheres mais encantadoras da Europa, estive no Pardo, no Bois de Boulogne, no Hyde-Park, e nunca vi mulher que tanto me penetrasse os intimos seios d'alma! Nunca, por estranha fatalidade, nunca! Como é que eu sinto aos vinte e oito annos as palpitações d'um coração que nasce? Que faisca de amor é esta que me lavra um incendio devastador das alegrias d'alma que ainda hontem me douravam a existencia?
Era o estylo hydropico de Arlincourt; mas é de crêr que exprimisse garrafalmente a singela e natural commoção que lhe fez a gentileza, a poesia elegiaca, a magestade inflexa d'aquella mulher a quem a desgraça dera uma critica moderna e revolucionaria na religião das mães.
D. Andreza, escandalisada, cortava-lhe os voadouros perguntando-lhe se a separação judicial poderia dar meios de subsistencia a Honorata. O bacharel, muito abstracto, parecia esquecido do codigo. O estado da sua alma não lhe consentia folhear a infame prosa com mão jurisperita.
—Que havia de estudar a questão; mas que lhe parecia que ella, requerendo o divorcio, apenas tinha alimentos por não ter trazido nada ao casal.—Estas phrases eram mastigadas com um tedio, um engulho, como se, depois de declamar uma Contemplação de Lamartine, tivesse de recitar dois paragraphos da lei da emphyteuse.
D. Andreza era senhora ajuizada, muito séria, educada no convento de Vairão; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras, pondo sempre no alto do papel: Jesus, Maria, José. Andava nos trinta a cinco annos, muito lymphatica e um grande horror aos vicios da carne. O mano Adolpho conhecia-lhe a indole. Não podia esperar d'ella applauso, nem sequer condescendencia, e muito menos auxilio á sua affeição a mulher casada. Andreza concordava com o irmão na formosura de Honorata; mas observava com um risinho malicioso que o não chamára para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas sim para aconselhal-a e dirigil-a na separação do marido por justiça.
O doutor Adolpho absteve-se de enthusiasmos, e poz-se a estudar a questão, em conferencias com o Bento Cardoso, de Guimarães, e o Torres e Almeida, o Rasqueja de Braga, dois chavões. Mas o que elle queria era córar as delongas nos Pombaes, ganhar tempo, a salvo das suspeitas da mana e do seu capellão, um realista finorio que sabia da poda, e trazia a pedra no sapato, dizia, cacarejando uma risada velhaca—e conhecia até onde podia chegar a fragilidade de um homem sem solidos principios de religião, estragado por essas nações.
D. Andreza andava assustada, porque o mano nem ia para Amarante nem dava começo ao processo. A Honorata apparecia-lhe radiosa, com um grande esmero no trajar, vestidos fóra da moda, mas elegantes, ricos, de mangas perdidas, com uns decotes que punham nos olhos do capellão luzernas exquisitas, escrupulos. Adolpho era discreto na presença da mana. Contava as suas viagens, durante a emigração, citava nomes de litteratos desconhecidos á fidalga, seus amigos intimos em Pariz; ai! Pariz!—exclamava—Se eu então me passaria pela mente que havia de vir de Pariz para Amarante!
—Elle porta-se muito serio—dizia D. Andreza ao padre Rocha. Ella é que me parece mais levantada, muito azevieira, não acha?
—Acho, acho...—confirmava o capellão.—D'aqui rebenta coisa, minha senhora; rebenta, v. ex.ª verá...
E, com effeito, estava a rebentar, na phrase explosiva do padre Rocha. O delegado tinha correspondencia diaria com Honorata, mediante uma caseira de sua mana, irmã d'uma criada do Cerveira Lobo. Cartas incendiarias escriptas durante a noite trocavam-se de manhã, quando o Adolpho sahia a respirar os balsamos das ribanceiras orvalhadas. Ás vezes, subia a encosta até á crista do monte do castello de Vermuim. D'aqui, avistava-se por sobre as selvas verdes de carvalheiras e pinhaes a vasta casaria pardacenta de Quadros, com dous torreões denticulados. No andaime de um dos torreões via-se um vulto branco, com o braço amparado em uma das ameias, e a cabeça encostada á mão como nas baladas de Baour Lormian. Era Honorata, com o binoculo assestado na fraga onde estava Adolpho, alaranjado pela primeira resplandecencia do sol nascente.
Ao cabo de duas semanas, sahiram dos dominios da bailada. Uma noite, partiram de Guimarães, caminho do Porto, dous cavallos do Gaitas, e pararam na Ponte de Brito. Um dos cavallos era arreiado com selim de senhora. Por volta da meia noite, Adolpho e Honorata, n'um passo miudo, com uma anciedade, mixto de exultação e de susto, chegaram á Ponte de Brito. Elle ajudou-a a sentar-se na sella; cavalgou, disse aos dois arrieiros o seu destino, e partiram a trote largo.
[2]Como seria de máo gosto inventar este episodio, imponho-me o dever de affirmar que estas noticias me foram transmittidas por um illustrado cavalheiro da Povoa de Lanhoso, o snr. José Joaquim Ferreira de Mello e Andrade, da casa nobillissima das Argas, fallecido, com mais de oitenta annos de idade, em 1881. Comquanto a imprensa contemporanea, que eu saiba, não fallasse no pseudo—D. Miguel, as revelações do ancião de Lanhoso merecem-me e são dignas de toda a confiança.
Além d'isso, consultei o reverendo Casimiro José Vieira, tão celebrado quando dirigia com mão armada a revolução do Minho, que se chamou Maria da Fonte. Hoje, com 66 annos de idade, vive na sua casa da Alegria, no concelho de Felgueiras, ao sopé do monte de Santa Quiteria, preparando as suas Memorias, que devem esclarecer as obscuridades originaes da insurreição de duas provincias. Este padre que, aos trinta annos, foi conclamado general pelo povo, e parlamentou face a face com o conde das Antas, respondeu assim á minha consulta: Eu apenas posso dizer a v. que foi verdade ter estado o tal impostor occulto em casa do abbade, por que elle mesmo m'o disse; mas nada lhe perguntei a tal respeito, por me lembrar que elle teria vergonha de se deixar enganar, depois de lhe ter beijado a mão muitas vezes, no tempo de estudante e seminarista, quando o snr. D. Miguel esteve em Braga, a ponto de se ter tomado saliente para o mesmo snr. D. Miguel, como o mesmo abbade me contou tambem, mas por isso mesmo nada mais posso accrescentar...[3]
[3]Carta de 11 de novembro de 1882.
[V]
Seis annos depois, em 1845, quando o Zeferino das Lamellas andava em roda viva de Barrimáo para Quadros, o Cerveira não tinha alterado sensivelmente os seus habitos. Estava muito gordo, saude de ferro—um desmentido triumphante aos follicularios que desacreditam as virtudes hygienicas, nutrientes do alcool. Os vomitorios quotidianos explicavam a depurada e sadia carnadura do tenente-coronel. Orçava pelos cincoenta annos, com um arrogante aspecto marcial, de intensas barbas grisalhas,—olhos rutilantes afogueados pela calcinação cerebral. As filhas não mostravam vestigios alguns de educação senhoril. Aquella Therezinha, que a Rosa de Carude denunciára, fugira para casar com o minorista das Quintans. As outras duas, muito boçaes e alavradeiradas, tinham amantes—uns engenheiros e empreiteiros do conde de Clarange Lucotte, que andava fazendo as estradas entre Braga, Porto e Guimarães. Ninguem decente as queria para casar porque, além do descredito, o pai não dava dote; e, desde que a mãe fugira, convenceu-se de que não eram suas filhas. Heitor e Egas, dous galhardos moços, de jaqueta de alamares de prata, faixa vermelha, e sapatos de prateleira com ilhozes amarellos, tinham eguas travadas que entravam pelas feiras n'um arranque de rópia e pimponice, que ia tudo razo. De resto, valentes e bebedos, possantes garanhões de femeaço reles, e muito esquivos a tratarem com senhoras—canhestros e bestiaes. Roubavam o milho e o vinho; vendiam, nas mattas distantes, ao desbarato, córtes de madeira e roças de matto; além d'isso tinham umas pequenas mezadas que o pai lhes dava. Ainda assim, a casa de Quadros não estava empenhada, prosperava, e era das primeiras do concelho. O luxo do fidalgo era a garrafeira. Mais nada. As filhas de Honorata quando, entre si, fallavam da mãe, chamavam-lhe «aquella desavergonhada»; os rapazes com um desapego desleixado que poderia fingir dignidade, nem se lembravam que tinham mãe. Quanto ao pai, esse antes de jantar, era taciturno, casmurro, como quem se esforça por sacudir um pesadello; e, de tarde, sumia-se para recomeçar as suas visões luminosas interceptadas pelas trevas momentaneas da razão. Não se sabe o que elle pensava da mulher.
Admittia pouca gente em sua casa e pouquissima á sua presença. Além dos caseiros que lhe pagavam as grossas rendas de Villa do Conde, de Esmoriz e S. Cosme do Valle, apenas recebia o pedreiro das Lamellas que lhe fizera os canastros e reconstruira algumas paredes desabadas. Conhecia-lhe o pai, o alferes, desde a batalha de Ponte Ferreira. Mandava-lhe botijas de genebra e massos de cigarros;—que bebesse, que se embebedasse, que os tempos não iam para outra coisa. E o alferes com vaidade de fino:
—A quem elle o vem dizer!
Ultimamente, fallavam muito da chegada do snr. D. Miguel—«o meu velho amigo,» dizia o Cerveira, pondo as mãos no peito e os olhos ao tecto.
—Venha elle, e vêr-me-has, Zeferino, á frente dos meus dragões de Chaves:—Relampagueavam-lhe então as pupillas e fazia largos gestos marciaes, com o braço tremulo como se brandisse a espada, rompendo um quadrado; montado na phantasia, arqueava as pernas, descahia o tronco sobre um imaginario cavallo empinado e bufava com tregeitos ferozes. Era d'um ridiculo lacrymavel. O Zeferino dizia ao pai que ás vezes lhe tinha medo quando elle fazia aquellas partes.
—O vinho do Porto é o diabo!—dizia o alferes com uma grande experiencia d'essas façanhas incruentas—é o diabo!
O Zeferino, na volta de Santa Martha de Bouro, contou-lhe o que soubera em casa do capitão-mór. O tenente-coronel quiz immediatamente partir para Lanhoso; mas não tinha roupa decente para se apresentar a el-rei. As fardas estavam traçadas, podres com um bafio de rodilhas no fundo de uma arca; dos galões restava um tecido esbranquiçado com laivos verdoengos; o casco das dragonas esfarinhou-se-lhe nas mãos roido pelos ratos. Não tinha casaca. Desde a convenção d'Evora Monte, mandava fazer a Guimarães uns ferragoules de mescla á laia de capote de soldado para o inverno; de verão, para equilibrar o calor artificial interno com o da atmosphera, andava em ceroulas e fazia leque da fralda. Por decencia, fechava-se nos seus aposentos. Mandou chamar um alfaiate a Braga, o Cambraia da rua do Souto, para se vestir á militar e á paizana.
Entretanto o Zeferino, um pouco desanimado, contou-lhe que o seu padrinho de Barrimáo e mais o frade não acreditavam que el-rei estivesse em Calvos; que era uma comedella do dr. Candido d'Anêlhe e dos padres para apanharem cincoenta contos á D. Isabel Maria; que os generaes do snr. D. Miguel não sabiam de nada.
O Cerveira Lobo esfriou. Tambem me parece, dizia, que se o meu velho amigo D. Miguel ahi estivesse, já me tinha mandado chamar.
Mas, depois que o Bezerra de Bouro asseverou que beijára a mão d'el-rei, o pedreiro e o tenente-coronel já não podiam duvidar. Combinou o fidalgo com Zeferino que partisse elle para Lanhoso, e dissesse ao capitão-mór que o levasse a Calvos, e o abbade que participasse a el-rei que estava alli um proprio com uma carta de Vasco da Cerveira Lobo, tenente-coronel de dragões.
—Assim que el-rei ouvir o meu nome, entras logo, immediatamente, n'um prompto. Depois, põe-te de joelhos, e entrega-lhe a carta, percebeste? Tu vais e trazes-me resposta. Por estes oito dias, o mais tardar, tenho cá o fardamento. No caso que sua magestade me mande ir vou, se não, trato de chamar ás armas cinco ou seis mil homens com que posso contar.
Zeferino, para evitar questões atrasadoras, não disse nada ao padrinho nem ao pai, receando as expansões usuaes da carraspana.
O Cerveira dizia ao padre Rocha, capellão de D. Andreza:—Idéas não me faltam; mas esqueci aquillo que se chama ... sim aquillo com que se escreve, quero dizer...
—Ortographia?
—É como diz, padre Rocha, ortographia.
Era o exordio para lhe dar parte que o seu amigo e rei D. Miguel estava no concelho da Povoa de Lanhoso; que lhe queria escrever; mas que não se mettia n'isso; e accrescentava:—elle, o rei, aqui ha treze annos sabia tanta ortographia como eu; mas agora dizem as gazetas que elle estudou coisas e coisas e tal. Pedia, portanto, ao padre Rocha que lhe escrevesse a carta para elle a copiar de seu vagar. E, pondo-lhe a mão no hombro:—E ouviu, padre? Vá pensando no que quer; uma boa abbadia, S. Thiago d'Antas, hein? serve-lhe? ou antes quereria ser conego? Emfim, pense lá... Nós cá estamos ás ordens.
O padre era a fina flôr do clero realista. Sensato, intelligente e honesto. Primeiro, quando o Cerveira lhe revelou a meia-voz a chegada do seu amigo e rei D. Miguel, imaginou-o no seu estado normal de bebedeira. Depois, reparando mais nas attitudes firmes e desempeno da lingua, julgou-o sandeu, amollecimento cerebral pela alcoolisação;—por fim convenceu-se de que o pobre homem era enganado e escarnecido por alguns disfructadores. O padre tinha muita compaixão do fidalgo que a mulher e as filhas enlameavam torpemente. Elle avisára D. Andreza que, no dia em que o snr. doutor Adolpho entrasse nos Pombaes pela porta principal, elle sahiria pela porta travessa; e a fidalga levára tão a mal o proceder do irmão que pensava em fazer testamento para que os filhos d'elle e de Honorata lhe não herdassem as quintas. Sabia-se n'esse tempo que o doutor Adolpho da Silveira era juiz de direito nos Açores e tinha comsigo uma formosa amante com tres meninos.
A unica idéa com que o Cerveira contribuiu para a redacção da carta foi que escrevesse:—«se vossa magestade precisa de dinheiro, diga o que quer que eu até onde chegarem as minhas posses está tudo ás ordens del-rei meu senhor.»
O padre Rocha não sé esquivou a collaborar na indromina, dizia elle a D. Andreza,—porque «eu, pela resposta da carta, hei-de seguir o fio da esparrela que querem armar ao parvo do homem.»
A carta ia pomposa, a ponto de Cerveira pedir commentarios, explicações. Que estava uma obra profunda—dizia o fidalgo instruido em fim nas obscuresas do estylo.
E, tirando seis pintos do bolso do colete:
—Ahi tem para o seu rapé, merece-os.
O capellão não acceitou; pediu que os applicasse por sua intenção ás necessidades do snr. D. Miguel.
—É um realista ás direitas, padre, um grande realista!—E, guardando os seis pintos, abraçou-o effusivamente e offereceu-lhe um calice de 1817.
—Eu desejaria muito vêr a resposta de sua magestade—dizia o padre Rocha.
—Isso é logo que ella chegar, padre! pois então? Cá entre nós não ha segredos; e, se o amigo quizer, no caso que el-rei me mande ir, vai commigo, e póde logo vir despachado. Pois então?
—Está dito!—e o padre com um regosijo muito comico, e o calice aromatico de baixo do nariz:—Quem sabe se eu ainda serei arcebispo, ó snr. tenente-coronel!
—Ora! como dous e dous são quatro! Ha-de ser arcebispo, não tenha duvida. Isto vai tudo mudar!—E carregava-lhe forte no 1817.—Arre! estou aqui mettido ha doze annos n'estes montes, que me tem levado os diabos! Tenho 49 annos: mas este punho ainda póde com a espada! Ha-de haver pancadaria de criar bicho! Olé! Eu dizia ás vezes ao meu amigo D. Miguel quando o Sedvem, e o Matta e o Miguel Alcaide davam cacetada nos malhados que aquillo não era bonito. Pois agora, padre Rocha, hei-de dizer-lhe: «É p'ra baixo, real senhor! môcada de metter os tampos dentro a esses malhados! E acabar com elles por uma vez! uma forca em cada concelho, real senhor, muitas forcas! Ah! meu camarada Telles Jordão! tu é que a sabias toda!»
O Cerveira começava a gaguejar, a cambalear, e entornava o calice. O padre despediu-se.
[VI]
Na residencia do abbade Marcos Rebello, em S. Gens de Calvos, havia uma sala com alcova e janellas sobre uma horta arborisada. As pereiras, macieiras e abrunheiros principiavam a florir. Era no começo de abril. Alli, n'aquellas frigidas alturas, sopram as ventanias mordentes de Barroso, do Gerez, e gelam a seiva nos troncos filtrados da neve e das crystallisações glaciaes. Fazia frio. Na saleta caiada, muito excrementicia de moscaria, com tecto de castanho esfumaçado e o pavimento lurado do caruncho, havia a um lado duas caixas de cereaes, no outro algumas cadeiras velhas de nogueira de diversos feitios, esfarpeladas no assento; nas paredes duas lytographias—o retrato de D. João VI com o olho velhaco e o beiço belfo, e o marquez de Pombal sentado com o decreto da expulsão dos jesuitas, apontando parlapatonamente para a barra onde alvejam pannos de navios que levam os expulsos. Na velha cal esburacada e emporcalhada de escarros seccos de antigas catarrhaes, destacavam molduras de carvalho com dois paineis a oleo cheios de grêtas, S. Jeronymo no deserto, com uma cara afflicta, de tic doloroso, e Santo Antonio de Padua, n'um sadio en bon point, um bom sorriso ingenuo, com o Menino Jesus sentado, muito nutrido, em uma bola que os agiologos diziam ser o globo terraqueo. No centro da quadra estava uma banca de pinho pintada a ocre, com uma coberta de cama, de chita vermelha, com araras, franjada de requifes de lã variegada. Ao lado da banca, uma cadeira de sola, com espaldar em relevo e pregaria amarella com verdete; do outro lado havia um fogareiro de ferro com brazas e uma cesta de vêrga cheia de carvão. Entre as duas pequenas janellas de rotulas interiores e cachorros de pedra, trabalhava estrondosamente um relogio de parede com os frisos do mostrador sem vidro, cheios de moscas mortas, penduradas por uma perna, de ventres brancos muito inchados e as azas abertas.
Dez horas. Abriu-se então a porta da alcova que ringiu ligeiramente na couceira desengonçada, e sahiu um sujeito de mediana estatura, hombros largos, barba toda com raras cans, olhos brilhantes, pallido-trigueiro, um nariz adunco. Representava entre trinta e seis e quarenta annos. Sentou-se á brazeira e preparou um cigarro, vagarosamente, que accendeu na aresta chammejante de uma braza. Com o cigarro ao canto dos labios e um olho fechado pelo contacto agro do fumo, foi abrir uma das vidraças, e poz fóra a mão a sondar a temperatura. Coxeava um pouco. Recolheu a mão com desagrado e fechou a janella. Vinha subindo a escada de communicação com a cozinha uma mulher idosa, em mangas de camisa, meias azues de lã e ourelos achinelados. Pediu licença para entrar, fez uma mesura de joelhos sem curvar o tronco, e perguntou:
—Vossa magestade passou bem?
—Optimamente, Senhorinha, passei muito bem.
—Estimo muito, real senhor. O snr. abbade foi chamado ás oito horas para confessar uma fregueza que está a morrer d'uma queda, e deixou dito que puzesse o almoço a vossa magestade, se elle não chegasse ás nove e meia.
—Quando quizer, Senhorinha, quando quizer, visto que o abbade deu essas ordens e quem manda aqui é elle.
Da cozinha vaporava um perfume de salpicão frito com ovos. Sua magestade farejava com as narinas anhelantes, n'um forte appetite. A creada voltou com toalha, guardanapo, loiça da India, talheres de prata, e uma travessa coberta. Sua magestade, muito familiar, tirou de sobre a mesa uns cadernos escriptos, cosidos com sêda escarlate, e um grande tinteiro de chumbo com pennas de pato.
—Ora vossa magestade a incommodar-se! Valha-me Deus! eu tiro isso, real senhor! Não que uma coisa assim! Um rei a...
E o real senhor:
—Ande lá, Senhorinha, que eu ajudo. Um rei é um homem como qualquer homem.
—Credo! faz muita differença ... mesmo muita...
Ella descobriu a travessa a rir-se:
—Vossa magestade diz que gosta...
—Sardinhas de escabeche? Se gosto!... Vamos a ellas que estão a dizer—comei-me.
E atirou-se ás sardinhas com uma sofreguidão pelintra.
Depois, serviu-lhe rodelas de salpicão com ovos. Sua magestade gostava muito d'estas comezanas nacionaes. Já tinha comido tripas, e dizia que no exilio se lembrára muitas vezes d'esta saborosa iguaria com feijão branco e chispe, que tinha comido em Braga. O abbade de Calvos sensibilisava-se até ás lagrimas quando via el-rei a esbrugar uma unha de porco e a limpar as regias barbas oleosas das gorduras suinas. O terceiro prato era vitella assada. A Senhorinha trazia-lh'a no espêto, porque sua magestade gostava de ir trinchando finas talhadas, emquanto a cozinheira, de cocoras ao pé do fogareiro, conservava o espêto sobre o brazido, a rechinar, a lourejar. Bebeu harmonicamente o real hospede um vinho branco antigo, da lavra de um fidalgo de Braga, proprietario do Douro, que estava no segredo do ditoso abbade de Calvos—capellão-mór d'el-rei e dom prior eleito de Guimarães.
A creada assistia muito jovial áquella deglutição formidavel, e dizia particularmente ao abbade:—Este senhor, pelo que come, parece que tem passado muitas fominhas! Ninguem hade crêr o que sua magestade atafulha n'aquelle bandulho!—e dizia que lhe dava vontade de chorar, lembrando-se das lazeiras que elle tinha apanhado; porque o abbade contava que lêra no Deus o quer, do visconde de Arlincourt, que o snr. D. Miguel, em Roma, não tinha ás vezes 10 réis de seu para almoçar uma chicara de leite. E, perguntando a el-rei se era verdade aquillo—que sim, que chegara a essa extremidade; mas que preferia a fome a ceder os seus direitos e a felicidade dos seus vassallos pelos sessenta contos anuaes que lhe offereceram da Casa do Infantado, e que elle rejeitara.
Por fim, vinha o café. As fatias eram torradas ali, no fogareiro. S. magestade barrava-as de manteiga nacional,—preferia a manteiga do seu paiz, como a vitela, e o lombo do porco no salpicão portuguez, e o pé do porco nas tripas tambem portuguezas—tudo do seu paiz. Que rei, que patriota!—meditava o abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra, esmoncando-se e aparando as lagrimas ternas no alcobaça.
No fim do copioso almoço, el-rei fumava charutos hespanhoes, de contrabando; desabotoava o colete, dava arrôtos, repoltreava-se na cadeira de sola um pouco desconfortavel, e vaporava grandes columnas de fumo que se espiralavam até ao tecto.
A Senhorinha veio á beira d'el-rei, e disse baixinho:
—Saberá vossa magestade que está ali o snr. Trocatles.
—O...?
—Ai! Já me esquecia ... o snr. visconde....
—Que suba.
O sujeito que entrou era o Torquato Nunes, um sargento do exercito realista, de S. Gens. O rei ergueu-se e fecharam-se na alcôva.
A cozinheira dizia em baixo á outra creada de fóra:—Ó coisa! Mal diria eu que ainda havia de chamar visconde ao safardana do Trocatles!
E a outra, benzendo-se:—Não que elle, o mundo sempre dá voltas! Veja você! aquelle moinante que me pediu uma vez dois patacos p'ra cigarros, e por signal que nunca m'os pagou!
—Pois vês-ahi! Foi elle o primeiro que conheceu o snr. D. Miguel, é o que foi, a sua magestade gosta muito d'elle. Foi feliz o diabo do homem! Aquillo vai a governo, tu verás; e já ouvi dizer que o sobrinho d'elle, o padre Zé da Eira, o de Rio Caldo, que é zanagra, está conego. Limparam-se da carepa, é o que é. A mulher d'elle já botou no domingo passado a sua saia e jaqué de panno azul.
—E que rico panno!
—Pois vês-ahi...
Entrava n'esta conjunctura o abbade, esfadigado, suarento—que levasse o diabo a freguezia, que pouco tempo havia de aturar maçadas d'aquellas, para confessar uma bebeda de uma velha que tinha bebido de mais na feira da Povoa e cahira d'um valado abaixo. E elle?—perguntava—almoçou bem?
—Ora! não ha que perguntar, senhor! Aquillo, salvo seja, é como a cal d'uma azenha. É quanto lhe deitarem p'rá tripa. Coisa assim! Subiu agora p'ra lá o Nunes. Ai! já me esquecia, ó snr. abbade! Olhe que na villa já perguntaram se cá na casa estavam hospedes, porque vinham p'ra cá muitas comida. Que não vão elles pegar a desconfiar... Esta pergunta á moça traz agua no bico.
—E tu que respondeste, moça?
—Que vinham por cá jantar uns senhores padres, que agora era tempo de confesso...
—Andaste bem.
Quando o padre Marcos Rebello subia á sala, pedindo licença a meio da escada, já o rei e o visconde vinham sahindo da alcôva—um, aprumado na attitude da magestade, o outro, na do respeito, muito composto.
—Pede licença na sua casa, dom Prior?—disse el-rei.
O dom prior de Guimarães genuflectiu a perna direita; o soberano apressou-se a erguel-o.
Nada de etiquetas, já lh'o disse duzias de vezes.
—Não posso nem devo proceder d'outra maneira, senhor!
—Póde e deve que o mando eu.
E o abbade, inclinando-se com os brados em cruz sobre a batina:
—Saberá vossa magestade que o snr. capitão-mór de Santa Martha, a quem vossa real magestade fez barão de Bouro...
—Bem sei ... aquelle amavel cavalheiro...
—Perfeito cavalheiro—attestou o Nunes.
—Escreveu-me a carta que tenho a honra de depositar nas mãos de vossa magestade.
El-rei leu alto:
Amigo Dom Prior de Guimarães.—Um realista do concelho de Famalicão chegou ha pouco a esta casa, afim de que eu escrevesse ao meu nobre e velho amigo para obter de S. M. licença para lhe apresentar como portador de uma carta do snr. Vasco Cerveira Lobo, morgado de Quadros, e tenente-coronel que foi do regimento de dragões de Chaves. Diz elle que o snr. D. Miguel fôra amigo pessoal do dito tenente-coronel, e por isso entende, e eu tambem que será muito ao real agrado do nosso rei e senhor receber a carta d'este legitimista que nos pôde ser muito util, já pelo seu nome, como tambem pela sua riqueza. Ouvidas as ordens de S. M. F., queira transmittir-m'as...