CAMILLO CASTELLO BRANCO

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THEATRO COMICO

A MORGADINHA DE VAL D'AMORES

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ENTRE A FLAUTA E A VIOLA

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PORTO
EM CASA DE VIUVA MORÉ—EDITORA
PRAÇA DE D. PEDRO
1871

THEATRO COMICO

PORTO—IMPRENSA PORTUGUEZA

THEATRO COMICO

DE

CAMILLO CASTELLO BRANCO

——

A MORGADINHA DE VAL D'AMORES

ENTRE A FLAUTA E A VIOLA

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PORTO
VIUVA MORÉ—EDITORA
PRAÇA DE D. PEDRO
1871

{v}

ADVERTENCIA

Da parte musical da primeira comedia d'este livro se encarregou o distincto maestro Francisco de Sá Noronha, quando a comedia se escreveu com destino a ser representada em Lisboa. Sendo importantissimo para o bom exito theatral o subsidio da musica n'esta composição, e sobrevindo rasões que desviaram o nosso amigo Noronha de collaborar comnosco em tamanha futilidade, não pôde por isso a comedia ser submettida á opinião das platêas. Quem a lêr agora tem de benevolamente disfarçar o seu fastio de leitura de versos, feitos ou copiados das canções populares, para se cantarem.{vi} Por via de regra, taes trovas são sempre asperas ou dissaboridas na declamação, mórmente as que formam o Auto do nascimento do menino Jesus, consoante elle se figura nas aldêas do Minho ainda hoje.

Com referencia á farça não temos que pedir desculpa. Seria desvanecimento irrisorio recearmos nós que a ponderosa e grave critica se descesse até coisa tão pequena.

A MORGADINHA DE VAL-D'AMORES

COMEDIA EM TRÊS ACTOS

FIGURAS

ACTO PRIMEIRO

Ao fundo, portão de quinta com sua enorme pedra de armas e ameias lateraes. O restante do palco figura uma alameda e estrada.

SCENA I

FREDERICO (só)

(Frederico é um homem entre 28 e 33 annos que traja quinzena e calças pretas apertadissimas em corpo de extrema magreza e aprumo. O chapéo é de fórma ingleza e alto para tornar mais aguçada a figura. A cabelleira bironniana em crespas ondulações. Bigodes encerados e picantes nas guias retezadas. A luneta d'um vidro sem aro obriga-o a caretear, abrindo a bocca de esguêlha quando fixa mais attentamente a morgada. Os seus movimentos, quando lhe fôr necessario fugir, hão de ter tal velocidade que simulem o rapido perpassar d'um duende. A agilidade da rotação do pescoço deve dar-lhe o que quer que seja de authomatico e fantasmagorico.)

A razão diz-me que eu estou em perigo de ser moído por estes selvagens do Minho; mas o coração, este intestino onde o amor e a coragem habitam, diz-me que não vacille. A rasão argumenta-me{12} que eu, escrivão de fazenda no concelho de S. Thyrso, não devo arrojar as minhas desenfreadas ambições até á mão da morgadinha de Val-d'Amores; mas o coração, esta republica intima que me esbraveja no peito, impelle-me para ella, mandando-me lêr n'aquelle brazão (apontando) o epitaphio da fidalguia de raça, e o monumento levantado não ás tradições ineptas, mas á restauração da dignidade humana. Além d'isto, eu, homem de aspirações gigantes, eu, poeta de audaciosos raptos d'alma, eu, que junto á poesia elevada a poesia profunda, preciso de me arranjar. Sou escrivão de fazenda; mas esta posição não quadra aos meus instinctos. Ás vezes como que sinto escaldarem-se-me as arterias com sangue de principe, e me quer parecer que algum de meus avós foi mais ou menos illudido por alguma das minhas avós. Reconheço, como filho d'este seculo, que a democracia matou a nobreza mascarando-se ella de fidalga; assim é; porém, ao mesmo tempo, não sei que filtros me circulam no intimo peito, quando vejo esta morgada e lhe entrevejo na fronte o sangue azul das veias. Sobre tudo, o que mais me incita a querer-lhe com a adoração{13} dos Paulos e dos Romeus é a precisão que tenho de me arranjar.

Eu já manobrei por mares tempestuosos. Um dia consultei a minha vocação; e, como me sentisse um dos muitos desventurados que cáem n'este mundo sem vocação, fiz-me litterato. Os litteratos fazem-se a si proprios, por serem cousa que a Biblia não diz que o Creador fizesse nos sete dias de creação. Um sujeito olha para si como Deus para as trevas, e diz «fiat lux» faça-se o litterato; «et lux facta est», e o litterato fez-se. Eu prometto não dizer mais nada em latim, por que tambem não sei mais do que isto.

Feito litterato, escrevi como toda a gente que quer escrever. Preparava-me para coordenar uma Historia Universal em 25 volumes com 26 de supplemento, quando se me offereceu um logar de noticiarista n'um diario de Lisboa. A minha reputação estava quasi estabelecida, quando a empreza me despediu por semsaborão, como se fosse obrigatorio ser engraçado no paiz mais desgraçado do mundo. Voltei o meu espirito para a historia universal, e cheguei até a procurar n'um Almanak onde era a Torre do Tombo com tenção de lá ir consultar os pergaminhos.{14} N'este proposito estava eu, sentindo já os calores da gloria, quando me encarregaram de traduzir uma comedia franceza para o Gymnasio. Puz de parte a Historia Universal, e traduzi a comedia com um esmero indigno do resultado, porque ella foi pateada visto que tinha, segundo disseram os criticos, uns gallicismos que lhe corrompiam a virgindade elegante do texto. Ora eu então fiz-me critico, animado pela grande copia de sandices que se escreveram contra a minha traducção. N'este modo de vida achei vantagens extraordinarias, sendo a primeira a dispensa de saber alguma coisa. Um critico, no jardim das lettras, representa uma toupeira em jardim de flores; é temivel porque remeche e estraga tudo; levanta impólas de terra, e suja quando não desvasta a mimosa vegetação. Eu fiz destroços grandes e escalavrei muitas reputações litterarias, já por amor da arte, já por amor do estomago, esta coisa onde um homem de genio não póde crear a luz, porque isto aqui (indicando o estomago) é um abysmo que só recebe a luz pela bocca. Mas a final, as obras litterarias que appareciam eram já de natureza que o arpéo da critica não lhes ferrava a{15} unha. Entreguei-me ao genero chamado reclame, e comecei a chamar a attenção do paiz para toda a coisa impressa, poema ou tragedia, romance ou farça. Este officio, posto que o mais aviltante da vida d'um escriptor, é o mais lucrativo no mundo patarata, em que eu me atasquei. A consciencia pezava-me pouco, se o estomago sahia pezado de casa do emprezario do theatro ou do editor do romance. Afoguei muitos escrupulos em sopa de camarão. Mas o sangue de principe, este não sei quê que me faz cócegas nos miolos, mostrou-me a indignidade da minha missão na terra, e desde logo atirei um vôo atrevido ás regiões aquilinas da politica. Estudei trez dias as questões de fazenda em Portugal, e entendi-as tão claramente como se fossem questões da minha fazenda. Percebi que o paiz estava como eu tal e qual: foi-me facil escrever uma serie de artigos nos quaes provava que a maneira de matar o deficit era... sim eu provava que a maneira de matar o deficit, esse cancro roedor das entranhas do meu paiz, era... sim eu provava... não me lembra agora o que provei... o certo é que me despacharam escrivão de fazenda de Santo Thyrso,{16} provavelmente para matar o deficit. Eis que chego, e vejo a Morgadinha... (Ouvem-se os tamborileiros) Não convem que estes barbaros me vejam parado em frente do portão da mulher amada... (Sáe).

SCENA II

PANTALEÃO, DOIS CREADOS, E OS TAMBORILEIROS

Entram ao terreiro e páram tocando em frente da porta trez tamborileiros, um de bombo, e os outros com caixas de rufo. Pouco depois abre-se a porta, e sáe PANTALEÃO, com dois creados de lavoura, um dos quaes distribue canecas de vinho, que despeja d'um pichel vermelho, pelos tamborileiros, que se descobrem.

1.º Tamborileiro (o do Zabumba)

Biba o incelentissimo morgado a mai'la snr.ª morgadinha!

Os trez

Biba por muitos annos, biba!{17}

Pantaleão

Olé! rapazes! Com que vossês já se vão chegando ao arraial?..

1.º Tamborileiro

Ó promeiro, vamos tocar ós mordomos do Snr. San Joon, que tem festa d'arromba este anno; e ós despois la bamos pr'ó arraial com Deus. (Ouve-se ao longe a toada das cantadeiras que cantam o S. João.)

Pantaleão

Bebam; mas não se encarraspanem como no anno passado.

2.º Tamborileiro (rindo alvarmente)

É berdade, fedalgo! Aquillo é que foi perua! Indas m'alembra!{18}

Pantaleão

Pois vê lá se arranjas outra que te faça esquecer a do anno passado.

3.º Tamborileiro (bebendo)

Enton la bai á saude de Vossenhoria, a mais da snr.ª morgadinha.

1.º e 2.º Tamborileiro

A mesma.

Pantaleão

Querem mais? bebam.

1.º Tamborileiro

Non faz minga.

Pantaleão

Então, rapazes, adeus. Lá nos veremos na romaria.{19}

Os tres Tamborileiros

Biba o fedalgo, e mai la obrigaçon. (Sáem rufando estrondosamente: cessa o estrondo pouco depois.)

SCENA III

PANTALEÃO E OS DOIS CREADOS (QUE POUSAM AS VASILHAS)

Pantaleão

Ora venham cá vossês, tomem tino no que eu vou dizer, e abram-me esses olhos. Vossês tem obrigação de zelar a honra d'esta casa, por que nasceram n'ella, cá se crearam, e cá hãode morrer, se me servirem bem. Aquillo que souberem a respeito do que vou perguntar hão de dizer-m'o. Aqui quem governa sou eu, percebem? Vossês tem visto de noite alguma vez por debaixo das janellas d'esta casa o escrivão de fazenda? um homem muito magro que cá vinha d'antes?{20}

1.º Creado

Bem sei quem é o escribon das fazendas de Santo Thyrso... Olhe, fedalgo, eu jurar non juro que era elle; mas aqui atraz ha trez noutes, vinha eu de regar a cortinha das Chans, e ao sahir da carvalheira, rebentando sobre a direita, vi uma coisa a escoar-se por entre os carvalhos que parecia um abentesma...

2.º Creado

Eu tambem já bi esse abentesma, salbo seja, ahi ós pois da mêa noute; mas aquillo, meu amo, non podia ser o escribon das fazendas por que Vossenhoria faça de conta que elle por este caminho alem lebaba-se assim têzo e hirtego que não bolia c'os pezes. Havéra de ser o mesmo que tu enxergaste, Antonho!

Pantaleão

Pois creiam vossês que não era outro senão o escrivão de fazenda. N'estes arredores não ha homem d'aquelle feitio senão elle... Sabem{21} o que eu quero, rapazes? é que lhe dêem uma boa sova de estadulho.

1.º Creado

Só se for a tiro; que non ha home que o pilhe na carreira.

2.º Creado

E p'ra lh'acertar c'uma bala faz minga saber atirar ás lebres. (Ouvem-se risadas de mulheres já perto.)

Pantaleão

Por ora, nada de tiros; o que mando é que lhe arrumem quatro bordoadas, sem lhe dizer isto nem aquillo. Vossês zupem-lhe e escamem-se, que eu com a justiça não quero testilhas; mas não lhe batam, sem o apanharem cá á volta da casa... Vamos conversar aqui p'ra carvalheira que vem ahi as raparigas da freguezia. (Sáem pela esquerda.){22}

SCENA IV

(Rancho de raparigas vestidas de saias de chita com muita roda de saias e saiotes, capotilhas encarnadas, chinela e meia branca, acompanhadas d'um tocador de rebeca e outro de violão, que lhes acompanham as cantigas. Entram pulando alegremente, e pucham por a estridula sineta do portão.)

O rabequista

Biba a snr.ª morgadinha de Val-d'Amores!

Todos

Biba! Biba! (Cantam o S. João.)

COPLAS
Son Joon adromeceu
Nas escadas do collejo;
Deron nas frêras co'elle,
Son Joon ten porbolejo.
Que é aquillo, que é aquillo, que é aquillo?
Son Joon a caçar um grilo.{23}
Ó meu son Joon da Ponte,
Ó meu bello patusquinho,
Dá-nos anno de bon pon,
Dá-nos anno de bom binho.
Non é nada, non é nada, non é nada,
Son Joon a comer pescada.

(Abre-se o portão de par em par. Sáe a Morgadinha, trajada com luxo, mas fóra da moda. Vestido de ancas exaggeradas, cabello á Stuart, e um grosso grilhão ao peito. Segue-a um creado velho, de niza, com uma cadeira de braços á cabeça, e uma pichorra e caneca na mão.)

SCENA V

MORGADINHA, JOÃO LOPES, E AS CANTADEIRAS

Vozes

Biba a snr.ª morgadinha! Biba! Biba!

Morgadinha (sentando-se na cadeira)

Adeus, raparigas. Como estás tu, Maria do Quinchoso! e tu Benta do Cazal? Olha a Marianna{24} da Egreja como está gorda com o cazamento! Ó João Lopes, dá vinho a essa raparigada toda.

Uma das moças

Vossenhoria bai ao arraial?

Morgadinha

Podéra não! Já estou preparada, e vou assim que a tarde refrescar, que quero ver o fogo prezo.

Outra

E mai lo auto do Natal, que vem la os d'Arnôzo co'elle.

Outra

E como a fidalga está pimponaça! Parece mêmo a Madanela da porcisson de Passos!

Outra

Benza a Deus, que palminho de cara assim, não se topa outra no mundo. Faz agora{25} um anno que os cassacas do Porto andabon todos enbeiçados atraz da snr.ª morgadinha no arraial; e enton aquelle goberno que está em S. Thirso esse é que andava memo azoratado!

Morgadinha (rindo)

Qual governo?!

A mesma

Aquelle que lhe chamon o das fazendas, ou non sei que deanho...

Morgadinha

Ah!.. (suspirando) Ja sei...

O do violão

Má rais o parton, que me mandou citar indas hontem!

O rabequista

Eu onde le poder ser bon heide medirle o costado de pá a pá cum fueiro...{26}

Morgadinha

Ora não sejas bruto, José da Eira! Elle faz a sua obrigação; faz tu a tua que é pagar o que deves ao rei.

O mesmo

Ao rei! Bem me fio eu n'isso... Enton a fidalga pensa que o rei aveza uma de X do dinheiro que nós demos!! Pois non avezastes! Os governos de S. Thirso repartem uns c'os outros no fim do anno o dinheiro que don os lavradores.

O outro

É como diz.

Morgadinha

Sois uns selvagens. Deixemo'-nos de tolices. Cantem lá alguma coisa vossês.

Uma das moças

Quer a Marianinha, fedalga?{27}

Morgadinha

Pois sim; cantem lá a Marianinha.

COPLAS
(Tudo mulheres)

(UMA VOZ)

Ja fui canario do rei,
Ja lhe fugi da gaiola.

(CÔRO)

Sim, sim, eu vou lá
Ó Marianinha,
Sim, sim, eu la vou
Ó pequerruchinha.

(UMA VOZ)

Agora sou pintassilgo
Destas meninas d'agora.{28}

(CÔRO)

Sim, sim, eu vou la, etc.

(UMA VOZ)

Pintassilgo está no bosque,
A andorinha no telhado.

(CÔRO)

Sim, sim, etc.

(UMA VOZ)

So eu não sei onde estou,
Quando não estou ao teu lado,

(CÔRO)

Sim, sim, etc.

(VOZ)

A andorinha quando chove
Vai metter-se á escuridon{29}

(CÔRO)

Sim, sim, etc.

(VOZ)

E eu quando o norte é rijo
Metto-me ó teu coraçon.

(CÔRO)

Sim, sim, etc.

Todos

Biba a snr.ª Morgadinha! Biba!

Morgadinha

Então vossês vão já para a romaria?

Uma d'ellas

Aindas bamos buscar as cazeiras de Vossenhoria que estão á espera de nós, e ós pois voltemos por qui.{30}

Morgadinha

Pois vão, e voltem. (Sahem cantando o S. João. A morgadinha fica pensativa e melancolica, encostando o rosto á mão, em quanto se ouve e se vai perdendo a toada da cantiga.)

SCENA VI

MORGADINHA E JOÃO LOPES

Morgadinha

Como estes brutos são felizes!.. E eu sempre apoquentada por causa deste coração! Ai! eu antes de saber o que era amor tambem cantava... Lembras-te, ó João Lopes?

João Lopes

Ora se lembro! E cantava que nem uma calhandra a fidalga!{31}

Morgadinha

Olha se te lembras, João! Eu ia ás espadeladas, ás descamizadas, ás malhas, brincava, saltava...

João Lopes

Até dançava a cana verde, e a chula que era um gosto vêl-a!.. E quando a menina quiz que eu lhe ensinasse o jogar o páo...

Morgadinha (com alegria)

É verdade...

João Lopes

E o caso é que vossellencia ahi com duas duzias de lições já me chegava com o páo.

Morgadinha (erguendo-se enthusiasmada)

E d'aquella vez que eu me vesti de rapaz, e puz fóra da eira do Manoel Tamanqueiro, com quatro partidas de páo, mais de seis mascarados que la andavam a beliscar as minhas cazeiras!{32}

João Lopes

Por signal que a menina deu uma tapona no Zé Torto, que ficou torto de todo... Ó fidalga, vossellencia hoje já não era capaz de romper ahi com um marmeleiro p'ra frente d'um homem qualquer!..

Morgadinha

Estás enganado... se me chegassem a mostarda ao nariz... Mas, ai!.. (Torna a sentar-se triste.) A minha alegria foi-se desde que eu soube o que era amor!.. Olha lá, João... não o vis-te hoje? não viste o meu amado Frederico?

João Lopes

Falle baixinho, menina. Olhe que o snr. morgado ainda ha todonada me esteve dizendo que desconfia que elle anda por aqui de noute. A fidalga acautele-o; que não vão os creados chegar-lhe ao forro da camiza...{33}

Morgadinha (erguendo-se colerica)

Façam isso, que os esgano! Que lhe ponham um dedo, e verão quem é a morgada de Val-d'Amores!

João Lopes

Não grite assim, que seu pai, se a ouve, quem as paga sou eu. A fallar a verdade, eu não desgosto do snr. Frederico; mas, em fim, esta aquella de ser escrivão, é ruim modo de vida para poder casar com a snr.ª morgadinha...

Morgadinha

Isso que tem!? Todos somos eguaes; e o coração, quando ama, não quer saber de contos. Uma pessoa não está lá a averiguar se o objecto amado é fidalgo ou plebeu. Tem-se visto rainhas casarem com pastores, e reis casarem com pastoras.

João Lopes

Cá no conselho de Santo Thirso não me consta, hade perdoar.{34}

Morgadinha

Mas lá por esse mundo fóra acontece isso a cada passo. Tu é por que não lês os livros das historias. Eu te lerei casos que aconteceram... E então que tinha que eu casasse com um escrivão?

João Lopes

Em fim, em fim, o paisinho da fidalga foi capitão-mór, seu avô foi desembargador, e seu bisavô foi sargento mór de batalha no Roussilhon...

Morgadinha

Vai dizendo até chegar a Adão e Eva, vai dizendo, e eu depois te direi de quem eu e mais tu somos netos.

João Lopes

Isso assim é, não ha duvida; mas, diz lá o ditado, lé com lé, e cré com cré.{35}

Morgadinha

Não quero saber de ditados! (com força) Este amor só m'o hade arrancar do peito a morte!

João Lopes (apontando para o brazão)

Fidalga, ponha os olhos nas armas reaes dos seus antepassados.

Morgadinha

Ora! não tenho mais que fazer... Cuidas que eu não sei que meu avô casou com uma creada? Mostra-me onde estão alli as armas da creada. Bem se importou elle das armas, nem do brezabu que as leve! É o que faltava... estar-me eu aqui a definhar p'ra'mor da pedra! As armas são de pedra, e eu sou de carne e osso, ouviste?

João Lopes

A fidalga responde a tudo, e não ha remedio senão callar-se um homem, que a trouxe{36} nos braços desde os trez annos, e sou capaz de me metter no inferno vestido e calçado por causa da minha menina. (Sensibilisa-se.)

Morgadinha

Sei o que tenho em ti, meu João Lopes... Vais tu ahi ao cimo do pinhal a vêr se o vês pela estrada?.. Elle disse-me que havia de passar para a romaria ás seis da tarde. Se o encontrares, diz-lhe que meu pai se está a vestir para ir tambem, e que elle póde demorar-se a conversar comigo um bocadinho.

João Lopes

Vou vêr se o avisto; mas, menina do meu coração, olhe que seu pai anda á espreita e traz espias... Nós temos grande desgraça pela porta...

Morgadinha (energicamente)

Não morro de medo, já te disse. A mulher que ama não tem medo de nada!{37}

João Lopes

Seja assim; mas, se lhe quebram o espinhaço a elle! Coitado do homem, é tão delgadito que, se o apanha o vento d'um páo, elle vai a terra...

Morgadinha

Quem lhe hade bater?! Cuidas que elle não anda armado? Que se attrevam sómente a ameaçal-o!..

João Lopes

Cá vou, cá vou, não se desespere. (Sáe.)

SCENA VII

MORGADINHA

(Senta-se quebrantada e triste)

Ai! quem me dera casar!.. quem me dera casar com Frederico Arthur!.. (Musica de surdina){38} Como eu gosto d'elle! Ha mais de dous annos que este meu coração padece! Não ha noite em que eu não sonhe duas vezes com a sua imagem... Quando acordo, e o não vejo, a minha vontade é chorar, chorar, chorar! Perdi a vontade de comer! Tudo me faz fastio. Os cirurgiões mandam-me tomar aguas ferreas!.. e só eu sei o que tenho! O meu mal é aqui!.. (a mão sobre o coração) Oh céos! quanto eu sou desgraçada sem o meu Frederico! (Ergue-se, e falla com muito sentimento. Musica plangente.) Quando eu o vi, pela primeira vez, foi na hospedaria das Caldas de Vizella, onde meu pai tratava do seu rheumatico. Estávamos a jantar quando elle entrou, e meu pai offereceu-lhe frango com ervilhas. Elle agradeceu, mas não comeu, dizendo que o seu jantar era um ôvo quente. E d'ahi a pouco, trouxeram-lhe um ôvo quente n'uma tigella; e elle comeu o ôvo, bebeu um copo d'água fresca, e disse que tinha jantado! Como eu fiquei triste e pensativa a olhar para elle, e elle para mim! Perguntei-lhe, sem o pai ouvir, se podia viver só com um ôvo, e elle respondeu que a sua alma se sustentava com a esperança de ser amado por mim... e{39} com tres óvos por dia. Oh! que lembranças estas, que lembranças estas! (chora) E vai depois, disse-lhe eu: «O snr. está assim magro porque come muito pouquinho; se gosta d'óvos coma uma duzia d'elles de cada vez»; e elle pregou-me os seus lindos olhos, e respondeu a suspirar: «Que me importa o corpo? a mim o que me importa é o coração que é grande; e, se o corpo é magro, mais depressa me reduzirei a cinzas se V. Ex.ª me desprezar.» Isto fez-me no peito mossa! fiquei presa d'este dito; senti por aqui acima uma fogueira que me pôz a cara em brazas vivas, e não lhe disse coisa de geito porque fiquei um pedaço intallada. Depois, ao despedir-mo'nos, com muita vergonha, sempre pude dizer-lhe: «amo-vos, meu bem!» Ora aqui está como começou isto. Desde então para cá apenas lhe tenho fallado umas trez duzias de vezes da janella para o caminho... Sinto-me muito acabada; e, se isto assim dura, não vou longe. Elle tambem está no osso, o meu pobre Frederico!.. Antes de começar estes amores, eu pezava cinco arrobas e seis arrateis pela medida antiga; pois aqui ha oito dias pezei-me de novo, e tinha mingado duas arrobas. Assim não podemos{40} viver, nem eu nem elle. (Com força, que a musica imita.) É preciso acabar com isto d'uma maneira ou d'outra. Se meu pai quer, quer; senão quer, quero eu. Uma mulher não póde ser escrava da sua fidalguia. Antes quero ser esposa d'um escrivão, e viver contente, que ser a morgadinha de Val-d'Amores, e estar-me aqui a pôr na espinha... (Ouve-se rumor de vozes fóra.) É o meu papá!.. (Senta-se.) Vem-me empatar as vazas...

SCENA VIII

PANTALEÃO, MACARIO, E A MORGADINHA

(Macario é um sujeito de oculos e casaca de briche, já de annos, e ar circumspecto)

Pantaleão (áparte ao boticario)

Veja lá como lhe falla... Olhe que ella é finoria... (á filha) Cá me vou preparar, Joaninha. Aqui te deixo o snr. Macario para não ficares sósinha. (Sáe.){41}

SCENA IX

MACARIO E A MORGADINHA

Macario

Tenha V. Ex.ª muito boas tardes.

Morgadinha (enfastiada)

Viva, snr. Macario, as mesmas.

Macario

Tem-lhe passado o fastio? Aquelle emplasto confortativo que eu lhe mandei fez-lhe bem?

Morgadinha

Não o puz: cheirava a pez.

Macario

De pez de vergonha era; fui eu mesmo que{42} o manipulei... Então, a snr.ª morgadinha vae ao arraial?

Morgadinha

Vou.

Macario

Faz muito bem; que lá hade encontrar pessoa que muito interessa a V. Ex.ª... enganei-me... pessoa que muito se interessa em vêr V. Ex.ª queria eu dizer.

Morgadinha

Como é isso? não percebi.

Macario

Eu me vou explicar. Eu cheguei hontem de Guimarães, onde estive com o snr. deputado Cosme Jordão, um sabio que tem votado grandes fallas no parlamento... Ha de ter ouvido fallar V. Ex.ª...

Morgadinha

Não sei nada de parlamentos, não leio periodicos.{43}

Macario

Pois, minha snr.ª, o doutor Cosme Jordão é um sujeito conhecido em todo o mundo, e lá na côrte até vae ao palacio do rei e come lá...

Morgadinha

Deixal-o comer, que tenho eu com isso?

Macario (áparte)

Não faço nada! está hoje levadinha dos diabos.

Morgadinha

Vamos, diga lá, snr. Macario.

Macario

Pois este deputado vae hoje á romaria do S. João.

Morgadinha

Deixal-o ir; que se divirta. Então é esse o homem que me quer vêr?{44}

Macario

Eu me explico. O snr. deputado Cosme diz que vira V. Ex.ª...

Morgadinha

Ainda bem; é signal que não é cego. E que mais?

Macario

E que ficou muito agradado de V. Ex.ª...

Morgadinha

Pois tem máo gosto e perde o tempo. Que mais?

Macario

V. Ex.ª, se o vir, não hade fallar assim. É ainda homem de boa edade, cheio de corpo, com uns oculos que lhe dão muito respeito á cara.{45}

Morgadinha

Ora! oculos de respeito! que me importa cá a mim os oculos do homem? sabe que mais, snr. Macario? (Põem-se a bamboar uma perna sobre a outra, e a trautear o «Pretinho que vem d'Angola».)

Macario

Finalmente, snr.ª morgadinha, como V. Ex.ª quizer; mas lembre-se de que seu pae deve á fazenda nacional uns seis contos de réis, e que o snr. doutor Cosme, casando n'esta casa, hade fazer com que seu pae não pague nada, e mesmo no futuro lhe não lancem impostos.

Morgadinha

Não me seque, snr. Macario. Vocemecê queria que meu pae pagasse commigo ao tal Cosme o que deve á fazenda? Pois que pague com o que é d'elle, e que me deixe com menos dote. Tenho dito, e deixemo'-nos de lerias. Metta-se lá na sua botica e não se faça casamenteiro. Vá fazer charopes.{46}

Macario (áparte retirando-se)

Apre com a cabra!

Morgadinha

Que tal está o sacripanta!

SCENA X

JOÃO LOPES, ESPREITANDO A MORGADINHA, E DEPOIS FREDERICO

João Lopes

Psiu, psiu.

Morgadinha (sobresaltada)

Viste-o?

João Lopes

Elle ahi vem... Eu vou espreitar, e assim que eu tossir que fuja para a carvalheira.{47}

Frederico

Anjo! milagre de bellesa, Joanna querida, não sentes n'estas mãos o vibrar da alma?

Morgadinha (muito terna)

Como estás tu? passaste bem desd'hontem?

Frederico

Pergunta ao lirio do valle o que lhe pende a fronte quando o orvalho do céo lhe não esfria os queimores do sol estivo.

Morgadinha

Olha lá, Frederico, tenho a avisar-te, antes de mais nada, que é preciso andares prevenido...

Frederico

Temos sicarios? Ha aqui vampiros? A vindicta paterna tem sêde do meu sangue? Eis aqui o peito. Que m'o farpem, que m'o fendam, que{48} m'o alanceem, que m'o lancetem. Tudo por ti, tudo por ti, ó estrella, ó loira visão dos meus sonhos! (Rumor fóra.)

Morgadinha

Foge... esconde-te entre as arvores... (Frederico sóme-se.)