FOLHAS CAHIDAS,
APANHADAS NA LAMA,
POR
UM ANTIGO JUIZ DAS ALMAS DE CAMPANHAN,
E
SÓCIO ACTUAL DA ASSEMBLEA PORTUENSE,
COM EXERCICIO NO Palheiro.
OBRA DE QUATRO VINTENS,
E DE MUITA INSTRUCÇÃO,
PORTO:
TYPOGRAPHIA DE F. G. DA FONSECA,
Rua das Hortas n.º 152 e 153.
1854.
EU.
Saibam todos quantos virem
Este publico instrumento,
Que surgiu mais um poeta
Nos aloques do talento.
Não pertenço á mocidade,
Que fechou sem caridade
Da velhice a pobre tumba.
Não sei palavras d'estouro,
Nem descanto em lyra d'ouro:
Minha lyra é um zabumba.
Eu, sou eu. Juiz das Almas,
Nos bons tempos, que lá vão,
Conheci que tinha uma
Como poucas almas são...
Campanhan! terra dos saveis!
Que doçuras inefaveis
Tens nos teus prados amenos!
Ai! Maria da Cancella!...
Cada vez que fallo n'ella,
Sou Petrarcha... em fralda, ao menos!
Dai logar á catarata
D'uma lagrima que rola
Pelas faces, como orvalho
A aljofrar uma papôla,
Respeitai a desynth'ria
Desta enferma poesia,
Que resiste á Revalenta!
Braz Tisana
, esse que diga,
Em que estado anda a barriga
Da Musa, nos seus outenta!
Deixai que um velho recorde
Aureos sonhos infantis!..
Campanhan, mansão das fadas
Onde estão tuas houris?
Ledas brisas que brincaveis
Entre as pestanas dos saveis,
Lindos saveis de coral!
Onde estaes, em que paues
Murmuraes, auras tafues,
Vosso hymno angelical!
Raios palidos da lua
Alta noute, em ceo d'anil,
Já não são os que argentavam
Estes lagos de esmeril!
Nem é este o pulcro savel
Que me deu sorriso afavel
D'entre os verdes salgueiraes!
Nem aqui meu peito anceia
Os carinhos da lampreia
(E outras asneiras que taes).
Quando eu era o mago enlevo
Das fadas de Campanhan,
Apanhava a borboleta,
Que doudejava louçan.
E, por tardes d'almo estio,
Lá nas margens do meu rio
Vi delicias de encantar....
--Pyrilampos, suspirando,
Qual Camoens suspira arfando
Os estos do seu penar.
Ai! trovas da minha aldeia,
Que saudades me doeis!
Doçuras da minha vida,
Quando eu cantava os reis!
Viola d'Antonio Pinto,
Onde estás, que inda cá sinto
O gemer dos teus bordoens!
Minhas chinelas côr d'ovo,
E meu par de sócos novo,
Tão rico d'inspiraçoens!
Lá vai tudo! E minha alma
Erma, esteril, sinto aqui....
Como o lyrio enruga o calix
A fronte calva pendi!
Poeta da lyra amarga,
Vérgo ao peso desta carga
De descrença e maldição!
Lacerado em meu orgulho,
Quero o sangue, o serrabulho
Desta infame geração!
E, depois que a minha lousa
Parta d'um raio a centelha,
Hão-de ouvir ranger meus ossos
Como carruagem velha.
E a mortalha ensanguentada
Como a tunica manchada
Do Cesar de Campanhan,
Ha-de ser mostrada ao povo,
Ha-de ouvir-se um grito novo
Nas praias do Gengis-kan!
AOS BAROENS.
Amigos! sinceridade!
Não sejamos todos tolos;
Deixai vêr os vossos rôlos
De brasoens.
Ninguem disse ainda ao certo
Onde vão, donde vieram
Os baroens.
Dizem velhos alfarrabios
Que os baroens da idade d'ouro
Davam tapona de mouro,
Fanfarroens!
Nesse tempo eram
crusados
,
Hoje fogem dos
cruseiros
,
Os baroens.
Os de então na Palestina
Eram rijos e potentes;
Mas os d'hoje são valentes
Nos certoens.
Quem domina as vastas tribus
Dessas plagas africanas?
Os baroens.
Quem envia, mar em fora,
As esquadras dos
Trajanos
,
D'archejantes e ufanos
Galeoens?
Quem envia
Guerra
aos barbaros,
E lhe algema os pulsos livres?
Os baroens.
Digam lá o que disserem
Contra os
crusados
da moda,
Sois os grandes deste reino,
Meus baroens!.. sabeil-a toda!
«Carne humana!! escravaria!!!
Crime atroz!!!!» são palavroens.
Chia a imprensa? ha-de calar-se...
Sabeil-a toda, baroens!
Vossos pais quando vieram
De Figueiró para aqui,
Quem diria... vendo vil-os
Como eu chegal-os vi!..
Era assim: via-se um mono
De jaqueta de cotim,
E calças de estopa grossa
E pernas côr do carmim.
Trazia sócos ferrados,
Em que pés!.. Deus nos accuda!..
Lenço vermelho amarrado
Na cabeça ponteaguda.
Vosso avô vinha com elle,
E gemia derreado
Sob um saco de batatas
Do patrão mimo adorado.
Vossa avó, de pé descalço,
Traz canastra com toucinho,
Pão de broa corpulenta,
Borracha de verde vinho.
Inda hontem eu vi isto!..
E vossês sus patuscoens,
Devem espantar-se comigo
De serem hoje baroens!
Querem de graça um conselho?
Não fallem, que faz tristeza,
Vêr o raso da toleima
A que desceu a nobreza!
Burros ficam sempre burros,
Embora tragam selim,
Cravado de diamantes
E estofado de setim.
O brilhar dessas commendas
Não vos muda a condição.
O instincto vos arrasta
Para o covado e balcão.
HYMNO
AO HECKER SALOIO.
Senhor Fontes Pereira de Mello,
Que sois Pitt, e
pitada
tambem,
Já que tudo metteis n'um chinelo
A cantar-vos a banza aqui vem!
Senhor Fontes! Sois de Lysia
O que ninguem inda foi!
Quem dissera que tão perto
D'um Sangrado existe um heroi!
Longo tempo o cultor da batata,
Senhor Pitt, por vós suspirou.
As abob'ras meninas murcharam,
E a mesquinha cebola grelou!
Mas creaste um ministerio
D'agricultura, ó portento!
Era um gosto vêr o grêlo
Sob o imperio do Fomento!
E o repôlho, a cinôra, o coentro
Espontaneos brotavam nos montes;
E nas folhas da côve tronxuda
Viu-se escripto: «Gloria ao Sôr Fontes!»
Senhor Fontes! vosso nome
Pelas hortas se dilata!
Como o Cesar é na Fabia,
Sois salvador da batata!
Carangueijos os lusos viviam
Desterrados n'um solo infeliz!..
E, comvosco, quebrar inda esperam
Nos caminhos de ferro o nariz.
Senhor Fontes! este povo
Vossa gloria proclama,
Quando viaja enterrado
Té ao pescoço na lama.
Era triste esse tempo d'outr'ora
Em que um homem quebrava um quadril,
Nessas quinas d'estrada de pedra
Onde agora fumega um carril!
Á vista disto, Sôr Fontes,
(Á parte censuras tolas)
O paiz quer-vos na fronte
Uma restea de cebolas.
Quando o Porto vos deu quatro patos,
E de forno o arroz competente,
Quiz mostrar-vos que a gloria é um sonho,
Quando o ventre não anda contente.
E comestes, senhor Fontes,
E fizestes muito bem;
Colbert, Necker, e Pitt
Comiam patos tambem.
Quem nas polkas mostrou mais donaire?
Quem nas walsas mais quebra a cintura?
Quem melhor joga a tibia flexivel?
Quem compete comvosco em tesura?
Senhor Fontes, dous instinctos
A natura em vós relata;
A não serdes o Fomento,
Devieis ser acrobata.
Beatus venter qui te portavit,
Diz a patria na sua expansão!
Desde o Vistula ao Douro retumbam
Algazarras de rouca ovação!
Gloria, gloria ao rasgado
Fomentador immortal!
Modelo dos bons bigodes,
Permanente carnaval!
O DROPP.
Aranha de pau de pinho
Caranguejola, que és?
És o dropp; ora o dropp,
É uma cousa (diz Pop)
Sem ter cabeça nem pés.
Visto isso; temos dropp;
Ninguem tenha á barra medo.
A asneira não é tão calva;
A gente sempre se salva;
De que modo? isso é segredo,
Os praguentos já resmungam
Contra aquelle immenso trem;
Dizem que é força acabar,
Não só nas furias do mar
Mas nas do dropp tambem.
Este dropp é um segredo,
As finanças um mysterio.
Vêdes n'aquella gaiola,
Uma parva cabriola,
Imagem do ministerio?
Navegantes! acautelem-se!
Em posição desastrada
Empreguem maior cuidado
Que lhe não venha ao costado
Uma tremenda caibrada.
Aquelles paus são synistros
Como o cavallo de Troya;
Tudo aquillo é muito serio;
Tem não sei que de funereo
Dos carroçoens do Lagoia!
Tanta tabua consummida
Nessa funeraria asneira!..
Não 'stava ahi um sujeito
Com tanto dropp já feito,
Manoel José d'Oliveira?
Economia
! sarcasmo
Deste ministerio-dropp,
Que cravou no calcanhar
A espora que faz andar