Notas de transcrição:
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1872.
Foi mantida a grafia usada na edição original de 1872, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e que por isso não foram assinalados.
BIBLIOTHECA—MORÉ
LIVRO DE CONSOLAÇÃO
ROMANCE
POR
CAMILLO CASTELLO BRANCO
Não nos sirva de medo ou de desvio
Vêr como vai o mundo concertado.D. FRANCISCO MANOEL DE MELLO—A tuba de Caliope.
PORTO
VIUVA MORÉ—EDITORA
PRAÇA DE D. PEDRO
—
1872
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LIVRO DE CONSOLAÇÃO
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PORTO—IMPRENSA PORTUGUEZA
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LIVRO
DE
CONSOLAÇÃO
ROMANCE
POR
CAMILLO CASTELLO BRANCO
Não nos sirva de medo ou de desvio
Vêr como vai o mundo concertado.D. FRANCISCO MANOEL DE MELLO—A tuba de Caliope.
PORTO
VIUVA MORÉ—EDITORA
PRAÇA DE D. PEDRO
—
1872
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A SUA MAGESTADE
O SENHOR DOM PEDRO SEGUNDO
IMPERADOR DO BRAZIL
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SENHOR
Eu não solicitei licença para dedicar a VOSSA MAGESTADE IMPERIAL este livro que representa um trabalho—palavra sagrada que nobilita e exalta os mais futeis lavores do espirito. Vi por esta lente de ambicioso alcance a pequenez da offerta, para que me não fallecesse a affoiteza de ir depor na livraria de VOSSA MAGESTADE as paginas estereis da historia d'umas paixões triviaes da vulgaridade, do mal.
Além de que, SENHOR, quando eu escrevia estas linhas, em frente da cadeira onde VOSSA MAGESTADE se assentou, no escriptorio do operario, esqueci-me de que é Imperador do Brazil Aquelle a quem as envio; e vejo tão sómente o sabio, o modelo de principes que, ao descerem até aos pequenos, deixam o diadema em altura onde mais subidos vão os respeitos.
Desde o momento que VOSSA MAGESTADE me honrou a obscuridade, fazendo-me sentir que vinte e dous annos de incessante lidar mereciam o galardão de alguns minutos gloriosos,{7} tambem eu cobrei alentos para chegar até á meza de estudo do douto Imperador, e esperar ahi uma hora muito feriada de leituras proveitosas para então LHE offerecer com respeitosa confiança um livro de mero desenfado, pois não tenho mais nada com que possa significar a VOSSA MAGESTADE a minha gratidão. De VOSSA MAGESTADE IMPERIAL
o mais reverente criado
Camillo Castello-Branco.
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[INTRODUCÇÃO]
Le résultat de l'art... c'est l'adoucissement des esprits et des mœurs, c'est la civilisation même.
V. HUGO.—Les voix intérieures.
Em uma tarde de agosto de 1867, passeava eu, com um amigo de aprazivel tracto, nos arrabaldes de Lisboa, e comparávamos a desamena e árida vegetação d'aquellas gándaras com os arvoredos e verdejantes valles do Minho.
Alli por perto de Odivelas me disse o meu amigo Luiz da Silva:
—Entremos por esta azinhaga que não tem sahida. Isto vae dar áquella casinha branca. Móra lá um velho a quem te vou apresentar. Mas quem sabe se o homem morreu?! Ha tres annos que o não vi...
—Tem esse sujeito—perguntei eu com a minha natural magnanimidade de immortalisador—passagens na vida dignas de chronica?{10}
—Tem, e magnificas.
—Capazes de um volume de 250 paginas em 8.º?
—Isso não sei. A biographia d'este homem é uma infelicidade vulgar, que, todavia, fez grande estrondo; mas os naufragios do coração parecem-se aos do mar: abre-se um abysmo, que sorve centenares de vidas, e d'ahi a pouco nenhum vestigio sobrenada á flor das ondas; assim succedeu na procella que sossobrou o velho que vaes vêr.
—Fez grande estrondo, disseste ahi tu! Mas eu, attento aos escandalos estrondosos do meu paiz, não me lembro d'isso...
—Não eras ainda nascido.
—Ah! eu não era ainda nascido? Isso então é caso muito antigo...
—Um pouco depois da edade-media—replicou Luiz da Silva.
E d'esta fórma gracejando por conta da nossa velhice, entestamos com uma porta estreita e baixa pertencente ao quintal da casinha branca.
O meu amigo bateu duas aldravadas na porta.
—Está aberta; levante o ferrolho quem é—disse uma voz de dentro.
—É vivo o homem!—disse Luiz, entrando.
Caminhamos por debaixo de uma parreira, cujos pilares se vestiam de festões de rozeiras vulgares e descuradas, alastrando-se por terra, e formando alcatifa de rosas murchas. Ao cabo da fresca e assombrada avenida, encontramos um caramanchel enverdecido de trepadeiras,{11} e lá dentro um ancião sentado em escabello de cortiça, afagando um gato maltez que lhe dormitava sobre os joelhos, e com pachorrento desdem entre-abriu os olhos á nossa chegada.
O velho formou com a mão direita um quebra-luz sobre os oculos verdes que pareciam coar-lhe aos olhos escassa claridade, e disse com prasenteiro semblante:
—Quem me faz a honra?...
—É Luiz da Silva e um amigo que tem a honra de ser apresentado a V. Ex.ª
Depois da apresentação, o sujeito, para quem o meu nome não era inteiramente desconhecido, disse ao meu amigo:
—Muito ha que o não vejo, snr. Silva. Seu tio general esteve aqui ha tempos, e me contou que V. Ex.ª andava a correr mundo. Conte o que viu.
—Vi o que Salomão via em tudo: vaidade.—Respondeu, sorrindo, o meu companheiro.
—Então, caro senhor meu, não só viu, mas estudou muito—volveu Venceslau Taveira, afagando o lubrico dorso do gato que, estrouvinhado pela incommoda palestra, se remechia no regaço do dono, resmuneando, e afofando o ninho para recomeçar o seu placido dormir.—Escusava de sahir de si proprio, snr. Silva, para vêr o homem qual é em toda parte—proseguiu o velho.
—E, se eu quizesse vêr um homem distincto do commum—tornou o meu amigo—bastar-me-hia ter conhecido V. Ex.ª{12}
—Distincto, quer dizer, distincto na infelicidade...—acudiu Taveira.
—Na honra e na virtude—emendou Luiz da Silva.
—Agora vejo que não estudou nada... Vaidade, tudo vaidade, e... algumas lagrimas.
E, voltado contra mim, perguntou:
—O seu amigo disse que v. é da provincia. É minhoto?
—Tenho vivido no Porto—respondí.
—Lá viví tambem dois annos e tanto. Os suburbios são graciosos, quanto me podiam parecel-o atravez do fumo das batalhas. Sou um dos sete mil e quinhentos. Conservo recordações agradaveis de umas grandes arvores da quinta do Vanzeller. Verdade é que as contemplei em posição molesta. Havia-se-me cravado uma bala na perna direita, e assim estive duas horas esperando a maca. Foi n'este espaço de tempo que eu, confrangido, de dôres, admirei a serenidade das arvores, e ponderei a vantagem de ser vegetal, estranho ás côrtes de Lamego e á constituição da monarchia. E a impassibilidade das carvalheiras aparando as balas no seu arnez de cortiça! Tudo é grande e forte, excepto o homem! O homem... esse é um mixto de odios, de angustias e vaidades, segundo assevera o nosso viajante Luiz da Silva...
Proseguiu o ancião, entremeando de discretas jocosidades a deleitosa conversação, que durou duas fugitivas horas.{13}
Não se me abriu ensejo de pedir a Venceslau Taveira licença de o visitar, nem elle me offereceu a sua casa. Facil era de perceber que, se as visitas lhe eram agradaveis, a solidão lhe era mais recreativa que as visitas.
Convidou-nos para o seu chá, quando anoiteceu, e acompanhou-nos até á porta do quintal.
—Quem é este homem?—perguntei ao meu amigo.
—A historia d'este homem ha de contar-t'a meu tio general que é do tempo d'elle, e vem todos os annos da provincia de Traz-os-Montes visitar o seu companheiro de infancia. Os lances essenciaes poderei referir-t'os; mas as particularidades só meu tio Pedro as sabe.
—Que posição social tem elle? Ouvi-te dar-lhe excellencia.
—A «excellencia» poderia significar que elle não tem alguma posição social; ainda assim, dou-lhe excellencia, porque o seu appellido representa familias antiquissimas da Beira Alta; além d'isso, é do conselho de Sua Magestade, official maior de secretaria aposentado, gran-cruz da ordem de Christo, etc.
Desde Odivelas a Lisboa, me referiu Luiz da Silva as passagens capitaes da historia de Venceslau Taveira.
Alguns mezes depois, o general Pedro da Silva chegou a Lisboa, e, a rogos do sobrinho, contou-me circumstanciadamente{14} successos que elle denominava os obscuros heroismos da mais honrada e excruciada alma.
E concluiu d'esta maneira:
—Se v. quer obrigar-me, escreva estes acontecimentos; mas não os enfeite com episodios de sua casa. Se a narrativa sahir verdadeira, poderá ser util. Deve v. fazer um livro dulcificante para alguns corações amargurados. Póde até denominal-o, se quizer: LIVRO DE CONSOLAÇÃO. Dou-lhe por cada lagrima, que fizer verter, um germen de boa acção, ou se quer de um bom pensamento. Porém, se v. adulterar a tragica singeleza d'esta desgraça com as inverosimilhanças do genio francez, o seu livro ficará sendo meramente uma novella. Escuso pedir-lhe—terminou o general—que empregue tão sómente a sua phantasia nos nomes dos personagens, em razão de estar ainda vivo o principal.{15}
[I]
Historia infantil de todo o homem que sente....
LOPO DE SOUZA—Herança de lagrimas.
Venceslau Taveira nasceu na comarca de Lamego em 1795. Como filho segundo de casa vinculada, foi destinado desde o berço a frade cruzio ou benedictino. Estudou humanidades em Coimbra, e entrou, portanto, a noviciar na casa capitular de Tibães aos quinze annos.
Findo o anno de prova, o profitente interrogado manifestou que lhe faltava genio e fé para ser frade como cumpria.
Fr. Francisco de S. Luiz, então conventual em Tibães, e, mais tarde, bispo, ministro liberal, patriarcha e cardeal, sahiu em defeza do noviço contra as violentas persuasões dos monges escandalisados da impiedade de Venceslau.
Não ter fé! Era a primeira vez que um noviço ousára dizer que não tinha fé! Que elle não tivesse virtudes,{16} vá; que muito frade se salvou sem ellas, graças ao habito que faz o monge e á contricção final que faz o santo; mas não ter fé!...
Sem impedimento d'estas e outras razões dos frades escandalisados, argumentava o sabio benedictino que era desprimor notavel para a religião o acorrentarem-lhe ao altar os seus sacerdotes; que o descredito das ordens monasticas havia sido motivado pelo vicioso proceder dos frades constrangidos; e que, finalmente, ninguem esperasse que a violencia abrisse á luz da fé corações fechados e escurecidos pela duvida.
Com tão válido protector, o noviço despiu o habito e foi para casa. Recebeu-o a mãe com amorosa indulgencia; mas o pae, affrontado da insolita rebeldia, apertou-o no duro dilemma: ser frade, ou, quando não, ir grangear sua vida onde lhe bem quadrasse.
Baldados os rogos e piedades da mãe, já ao marido para que perdoasse, já ao filho para que obedecesse vestindo o habito, Venceslau, com algumas moedas liberalisadas pela commiseração maternal, foi caminho de Lisboa onde não tinha parentes nem amigos.
Principiava o anno 1811.
O mancebo chegou a Santarem no dia em que o general Massena alli aquartellava a sua divisão. O reboliço da cidade desbordando de tropa, o espectaculo offuscante de um exercito embriagado de victorias, aquellas magestosas figuras dos generaes do imperio alvoroçaram o animo do rapaz cuja imaginação verdejava as epicas fantasmagorias dos dezesseis annos.{17}
Que farte ouvira elle em Tibães execrar Napoleão, Massena, Soult, Junot e os outros d'aquella funesta constellação. O seu entendimento queria duvidar da justiça das accusações; mas o patriotismo insinuava-lhe o dever de odiar francezes, salvante Rousseau, cujas obras elle podéra lêr clandestinamente, subtrahindo-as da gavêta defeza da livraria de Tibães, onde talvez as recadasse com prudente cautela o esclarecido fr. Francisco de S. Luiz.
Á conta pois do auctor do Contracto Social está, por desventura de sua alma, a grave responsabilidade de haver-se esquivado á tunica de S. Bento aquelle rapaz que em Santarem perguntava a outros:—Depois d'este acto de justiça quem póde negar a Massena as virtudes militares que Plutarco refere dos varões illustres de Grecia e Roma?
O leitor vae recordar a sabida passagem que, no espirito do moço enthusiasta, emparceirava o general francez com Themistocles ou Paulo Emilio.
Quando os francezes retiravam de Alemquer, certa familia de notoria fidalguia, receando insultos da plebe, acompanhou o exercito invasor com uma escolta de dois dragões. Ora um d'estes indignos guardas, ageitada a occasião, e vencido do impeto do sangue e dos conselhos do demonio, maculou mais ou menos—mas é de crêr que fosse mais—a pudicicia de uma das damas confiadas á sua vigilancia.
Eis pois um dragão indigno de aparelhar com o outro que, no jardim das Hesperides, guardava o vélo{18} de ouro, de certo com mais peso e quilates, mas com muito menos direitos á nossa consternação.
E succedeu que a dama queixosa, posto que o infando desastre houvesse sido secreto, (ave rara!) preferisse ser honrada a parecel-o. Assim pois, logo que chegou a Santarem, D. Lucrecia (ouso chrismal-a assim em honra da sua memoria bastante romana) expoz a Massena o affrontamento que lhe fizera o dragão. Ordenou para logo o general que o criminoso entrasse em conselho de guerra, e tão summario correu o processo que, no lapso de meia hora, foi o carnalissimo réo interrogado, sentenciado, confessado e espingardeado!
E como quer que alguem intercedesse em favor do comdemnado exorando menos rigorosa pena, o general respondeu: «Depois de arcabuzado, requeira».
Tal foi o caso de disciplina que obteve para as aguias de Austerlitz um acerrimo partidario.
Apresentou-se Venceslau Taveira ao marquez de Alorna, um dos generaes portuguezes que seguiram deslumbrados o metheoro da Corsega, quando as côres ardentes já se íam esmaiando ao visinhar-se do céo de Waterloo.
O marquez, illustrado e dadivoso, agasalhou o foragido noviço com tanta cortezia como caridade, sentando-o á sua mesa e provendo-o das coisas que lhe escasseavam, na crise em que a fome apalpava os portuguezes menos protegidos.
Comprazia-se o provinciano em convivencia d'alguns fidalgos, commensaes de Alorna, taes como o marquez{19} de Loulé, o conde de S. Miguel e D. Luiz de Athaide. Este ultimo foi grande parte no precoce rancor de Venceslau aos governos absolutos.
Era D. Luiz de Athaide filho do conde de Atouguia e neto do marquez de Tavora, ambos justiçados como regicidas sob o reinado de D. José I.
Um dos amigos de Venceslau, então adquiridos em casa do marquez, escrevendo, quarenta e cinco annos depois, as suas Memorias, avaliou ineptamente D. Luiz de Athaide com estas descaroadas linhas:
«... Não posso deixar de mencionar outro homem notavel que alli encontrei, e que, descendente da mais alta fidalguia da nossa terra, era um tristissimo exemplo da degradação a que póde chegar a especie humana, decahida do explendor da grandeza e mergulhada no lodaçal da miseria e despreso. Foi D. Luiz de Athaide filho e neto d'essas familias desgraçadas a quem o inexoravel grande marquez de Pombal sacrificou sobre o horroroso altar do poder absoluto e de quem até pretendeu riscar os nomes da superficie da terra... Em verdade, era digno de ser observado por quem podésse bem avaliar o que são e podem ser os destinos do animal chamado homem... Quem o via, e não sabia quem era, só o podia ter por um sordido e baixo môço de cavallariça. Na sua figura e no seu trage trazia todas as insignias das maldições humanas, e nas suas palavras não havia senão rancor e odio, e esse rancor e odio tão profundos e inveterados, quantos eram os annos desde que poude conhecer as suas{20} mizerias. A quem lhe fallasse na casa de Bragança, respondia com rugidos de leão; parecia que lhe saltavam os olhos pela cara fóra estimulados pela raiva, e só socegava depois que desafogava o coração ulcerado com imprecações horriveis. Para elle só Napoleão era o rei legitimo de Portugal; e tal era a affeição que lhe tinha que, havendo, não sei porque artes, ganhado uma grande porção de dinheiro a foi entregar a Massena assim que entrou em Portugal. Este lh'a acceitou e agradeceu, declarando-lhe ao mesmo tempo que esta lhe seria restituida em Paris, se para lá fosse...»[[1]]
Apezar d'esta apreciação indicativa de escriptor e espirito menos de ordinarios, e incapazes de alçarem-se até onde a desgraça ergue pelos cabellos as suas preas, D. Luiz de Athaide, no conceito de Venceslau, incutia a um tempo compaixão, respeito e assombro. Aterrava e commovia ouvil-o vociferar contra a raça de D. José I, e de repente levar as mãos aos olhos afogados em lagrimas, soluçando o nome de seu pae. Se alguem lhe lembrava que elle era proximo parente da familia real, e portanto devia cohibir-se de insultal-a no mais sensivel da honra, exasperava-se a termos de repellar-se por não poder inventar maneira de denegrir em si proprio as gotas de sangue real que lhe deshonravam as veias.
Tanto escogitou, porém, que descobriu facil processo de enxurdar quanto humanamente se podia a sua{21} progenie realenga. Foi assim. Encontrando, mezes depois, em Paris, no derradeiro escalão social, um vulto de mulher desfigurada pelo squalor do vicio, fêl-a sua esposa, com o intuito de a fazer mãe dos parentes da casa de Bragança. D'este caso tambem teve noticia José Liberato Freire de Carvalho, nas citadas Memorias.
Escreve elle: «... Mas como casou! Consta-me tambem que alli em Paris vascolejára as ultimas fezes da sociedade para encontrar uma mulher que fosse digna d'elle e que a achára. Reduzido na sua terra á infima sorte de um paria na India, quiz, no seu mesmo aviltamento, vêr se podia tambem aviltar, como elle dizia, algumas gotas de sangue que lhe circulassem no corpo, e fossem d'essas que animavam a familia real portugueza.»
Homem de tão singular e descommunal condição tinha direito a ser estudado e desenhado por quem tivesse vista d'alma que alcançasse o enorme desgraçado no fundo da sua voragem. Dos seus coevos e camaradas nenhum deu tento d'esse extraordinario martyr senão o ex-frade José Liberato, que nunca pôde desfazer-se de tres partes de máo frade com que fugiu aleijado do convento. O neto do brioso Tavora, o representante da opulenta familia, cujos bens haviam sido confiscados para a casa reinante, ou para a do valido que se pascia nas lagrimas, no sangue e no espolio dos degolados em Belem, emfim, aquella sublime e rancorosa desesperação de D. Luiz, que dava o ouro ganhado em azares do jogo para derruir o throno, e trajava andrajos para que{22} assim o vissem roubado nas ultimas mealhas de seu pae—tal homem assim maltrapido e crucificado no seu opprobio, figurou-se aos olhos de José Liberato o compendio «de todas as maldições humanas»!
Com interesse de respeitoso compungimento o via Venceslau Taveira, e o escutava nas apostrophes iracundas contra a dynastia de Bragança. Já decrepito, o solitario da charneca de Odivelas, recordava o neto dos Athouguias, e dizia que se a França houvesse tido um homem assim recaldeado em fraguas de tamanhas angustias—um tão extravagante complexo de soberba e aviltamento, de saudade maviosa e sevos odios—os mais grados litteratos o exalçariam diante do mundo, tornando-o interessante como historia, como philosophia, como moral, e até o poeta se não pejaria de ir procurar nas cavallariças de Massena esse neto de reis portuguezes, e vestil-o dos esplendores da poesia tragica, ao mesmo passo que o seu real parente, o principe D. João de Bragança, apenas vingaria ser dignamente cantado nas epopêas bordalengas de José Daniel.
Affeição de outra tempera, como de eguaes e de mancebos em alvorada de esperanças, ligou Venceslau Taveira a um official de infanteria do quartel-general de Pamplona.{23}
[II]
O célestes concerts de joie et de douleur!
HENRI BLAZE.—Matutina.
Era um rapaz de vinte e dous annos, chamado Eduardo Pimenta, natural de Braga.
Este moço levava uma vida tanto em comêço já cortada de profundos golpes; e, por amor d'isso, como as suas dôres não podiam ser expiação de maus actos, a gente de coração queria suavisar-lh'as, linimentando-lh'as com o balsamo da amizade.
Bosquejemos a historia d'esta mal estreada existencia.
D. Antonia de Portugal, famigerada formosura n'aquelle tempo, viera de Lisboa a visitar irmãos, que tinha no Porto, alliados por casamento nas duas casas de mais gothica estirpe. Affeiçoara-se aquella dama a um alferes, sem discriminar os distantissimos pontos de partida{24} em que o Creador pozera o seu primeiro avô do avô de Eduardo Pimenta:—erro talvez devido á insufficiente leitura que a menina tinha de Moysés.
Era orphã D. Antonia; mas a tutela de um tio que por vezes exercera o então poderoso cargo de ministro de Estado, pesava-lhe mais oppressiva e inflexivel que o poder paterno. Assim pois, tão depressa raspou nos ouvidos do fidalgo o indecoroso affecto da sobrinha, que logo Eduardo Pimenta foi chamado á capital e transferido ao Brazil em serviço militar. Inquebrantavel em seu amor, D. Antonia incutiu no peito do desterrado a flamma da sua coragem, accendendo-lhe esperanças temerarias e perigosas.
Os parentes d'ella tomaram-se de espanto e ira, ao saberem que o alferes desertára do seu regimento, desembarcára em Lisboa, e ajoelhára aos pés do principe regente solicitando e impetrando licença para casar-se com D. Antonia de Portugal.
O consentimento, porém, do bondoso principe não tolheu que o alferes, acossado pela perseguição de sicarios, se evadisse da côrte, refugiando-se nos arrabaldes de Braga, d'onde em vão implorou por mediação de amigos a malograda protecção do principe.
No entanto, a pertinaz menina, cansada de reagir á pressão dos parentes, acolheu-se ao mosteiro de S. Bento da Ave Maria, no Porto, onde tinha uma tia professa; mas d'ahi ainda o braço rijo do tio ministro, mediante o chanceller das justiças, a foi arrancar, allegando que{25} a reclusa, escrevendo e recebendo cartas, gosava liberdades deshonestas que em sua casa lhe eram prohibidas.
E em verdade escrevia muitissima carta D. Antonia, e dispunha de estylo que, relativamente á época, não era menos de romantico. Se o leitor quizer, logo lhe darei occasião de apreciar a linguagem e a sensibilidade extrema d'esta senhora que pagou penosamente os dons do seu espirito.
Apartada judicialmente da indulgente freira, foi transferida para o collegio das orphãs que n'aquelle tempo foi viveiro de meninas lastimosas, mormente as pensionistas, as formosas, as amadas, as ricas, as filhas segundas—e hoje em dia está sendo—graças á santa Casa da Misericordia—um alfôbre de educação moral onde o vicio não póde coar-se senão em parcellas diminutissimas, por onde se vê que a Misericordia conseguiu estar-se em pleno osculo com sua irmã ou prima, a Castidade.
N'aquelles dias, pois, a urna dos divinos balsamos de Jesus caritativo transformára-se em gral onde os corações eram pulverisados. E d'este pó amassado com lagrimas sustentava-se a honra das familias, a dignidade das mulheres, e nutriam-se as boas esposas que depois sahiam a repartir affectos entre maridos, e primos e capellães, e tudo mais que convinha a manter honesto equilibrio entre as coisas humanas e divinas.
Pois, sem impedimento das vigilantes espias que lhe espreitavam os gemidos e os arremessos, a reclusa vingou{26} passar na roda uma imprudente carta que denunciava a residencia do alferes homiziado.
Guiados pelo destino da carta, os aguazis do corregedor, com auxilio de escolta cedida pelo general da provincia, cercaram o escondrijo do desertor, prenderam-o com affrontosas precauções, e aferrolharam-o na mais escura masmorra do castello de S. João da Foz, onde, quarenta annos antes, alguns padres da Companhia de Jesus haviam expirado de fome e frio por ordem do deshumano marquez de Pombal.
Avisada do desastre causado por sua indiscrição, D. Antonia rompeu em tamanhos desatinos que a regente, por amor á vida não votada ao martyrio, requereu que lhe tirassem d'aquella casa mansa e quieta a turbulenta fidalga, que ameaçava tortural-a com a roda de navalhas de Santa Catharina, virgem e martyr. A regente, diga-se verdade liza, parece ter tido escrupulos de mentir, e receios de não poder entrar no reino da gloria eterna com a dupla corôa da santa anavalhada. Não lhe pezem, todavia, as minhas suspeitas sobre os ossos que D. Antonia lhe ameaçou tres vezes ou mais.
O certo é que a louca de amor foi d'alli passada com guardas de esbirros para Santa Clara de Coimbra, mosteiro onde áquelle tempo se exercitavam maleficios inquisitoriaes sobre donzellas eivadas do judaismo da ternura por sugeitos incongruentes com suas pessoas e bens.
N'esta conjunctura, succedeu entrar em Portugal o invasor Junot, e com elle a vanguarda de ideias livres,{27} vestidas com as pompas da egualdade humana—santas palavras que desafogaram corações abafados ás mãos da tyrannia de paes e tutores. D. Antonia, alumiada na escuridade da sua cella por lampejos de esperança, ao saber que o general estava em Coimbra, escreveu a seguinte carta que vae textualmente copiada da que tenho e que é a original com toda a certeza. Bem póde ser que semelhante documento desquadre á urdidura d'esta narrativa; vá, não obstante, como homenagem a uma dama infelicissima, a qual, ao fechar-se em sua sepultura, abriu algumas que mais tarde se encerraram depois de cruciantes agonias, como no discurso do livro se irá vendo.
Dizia assim a carta a Junot:
«A alta consideração que por tantos titulos é devida a V. Ex.ª, imporia á minha triste situação o mais respeitoso silencio, se a vossa generosidade, Senhor, a não tivesse prevenido, assegurando aos habitantes de Portugal uma protecção que, fazendo a nossa gloria, é a mais sublime recommendação da vossa virtude e nobreza. Estes dons tão preciosos me animam e prestam valor de elevar minhas supplicas e lagrimas á respeitavel presença de V. Ex.ª O illustre guerreiro que participa da gloria do maior dos heroes que tem visto os seculos, saberá como elle unir clemencia e piedade ao valor que no campo de Marte immortalisa seu nome.
«É do fundo de um claustro que a mortal mais desgraçada ousa aspirar á honra de invocar o illustre general. É a innocencia tyrannisada e os direitos mais{28} sagrados combatidos que se refugiam no asylo de vossos pés.
«Tenho a infelicidade de pertencer a uma familia nobre e desde a minha mais tenra infancia me decidi por um militar que servia com honra em um dos regimentos do Porto. Se elle não tinha fortuna tão brilhante como minha familia, possuia todas as boas qualidades que caracterisam as almas nobres. Por um caprichoso orgulho, que não póde soffrer as virtudes puras (porque lhes ignoram o preço e os encantos) oppõe-se minha familia fortemente á minha escolha, prevenindo nossas vistas definitivas de um casamento occulto; e, conhecendo bastante a firmeza de nossos desejos, meus parentes solicitaram e obtiveram uma ordem para que o meu pretendido passasse á America. Este injusto procedimento feriu sensivelmente a minha delicadeza e reputação.
«Empreguei todo o poder que eu tinha sobre o espirito do meu esposo, obrigando-o a voltar clandestinamente a este reino, assegurando-lhe a minha mão e a minha fé. Apoz um anno de ausencia, chegou á côrte; lançou-se aos pés do throno, e foi recebido pelo virtuoso principe com a maior affabilidade; porém, o ministro de estado impediu a conclusão de tão ditosas esperanças, forçando meu esposo á cruel necessidade de se esconder dos seus perseguidores que o espiavam em toda a parte para satisfazerem o seu antigo odio e incompleta vingança. Em quanto elle se foragia no seio de sua honrada familia, eu fui por meus parentes forçada{29} a receber outro esposo. Resisti. Não pude. Abracei o ultimo partido que me restava para subtrahir-me ás suas violencias. Abandonei a casa de meus algozes e acolhi-me aos pés da cruz. Ahi mesmo a minha desgraça amparada nos confortos da religião, foi diffamada de astucia. Deu-se-me um Recolhimento de orfãs, onde até as lagrimas me eram empeçonhadas pelos conselhos brutaes das minhas directoras, que me chamavam á penitencia por ter amado um homem pobre em quem Deus influira as virtudes mais bellas e caracteristicas do seu divino creador; mas, Senhor, como n'aquelle Recolhimento os meus gritos de desesperação me dessem o triste semblante de louca, a commiseração dos meus parentes enviou-me a umas torturas novas n'este convento de Santa Clara, d'onde, banhada em lagrimas, estou escrevendo a V. Ex.ª
«Apezar dos espiões, ameaças e insultos, eu conseguira remetter ao meu consternado amigo uma procuração que devia servir ao nosso casamento, consentido pelo arcebispo de Braga. Quando, porém, os meus parentes souberam que este acto se havia praticado em uma egreja de Barcellos, instauraram processo contra o meu esposo com o proposito de o condemnarem a degredo. Exigiram de mim que eu negasse a minha assignatura na procuração, com o fim de o sentencearem como falsificador de firmas; mas eu, invocando o meu amor e a minha honra, achei pequenas e covardes as tyrannias que se augmentaram a ponto de me ser negada a mais necessaria e urgente subsistencia. As queixas de{30} meus irmãos chegaram ao throno; todavia, apesar do valimento de tão poderosos inimigos, não quiz sua alteza real que meu esposo fosse castigado sem ser convencido. A innocencia d'elle ia ser patenteada, e por tanto destruida a opposição da minha familia, quando a partida do regente para o Brazil, nos deixou outra vez expostos á furia dos nossos perseguidores. É fortissimo o partido d'elles. O snr. Br**, nomeado membro da regencia, e outros fidalgos parentes de minha mãe, me fazem tremer pela nossa sorte. O nosso triumpho está sómente reservado a um poder superior. Só um general de Napoleão, immortal como elle, poderá salvar-nos, libertar-nos e unir-nos. Este prodigio de grandeza de alma é proprio de V. Ex.ª; é uma das maiores victorias do Anjo que já está gosando a immortalidade no nome que ellas lhe deram.
«Dignae-vos, pois, Senhor, em nome de tudo que ha sagrado, ser o protector de dois amantes desgraçados, que a vossos pés imploram uma graça que lhes será a elles a suprema felicidade. Uma palavra só que vos digneis proferir a nosso favor, a iremos de joelhos agradecer, beijando-vos mil vezes a mão que nos abriu o céo; ao mesmo tempo que em nossas almas, Senhor, sereis adorado como homem a quem Deus conferiu poder de nos resurgir da morte, se tal vida não é mais digna da vossa commiseração...»
Esta carta foi vertida para francez por Vidal, ajudante do general Tiebau, coadjuvado por outro que depois se fez conhecido no mundo scientifico, chamando-se{31} Geofroi de Saint-Hilaire. Este, egual no talento e na sensibilidade, leu a carta a Junot, internecendo-a de pauzas e modulações, tendentes a mover o peito do soldado pouco affeito a commoções dramaticas.
D. Antonia de Portugal recebeu da mão de Vidal a seguinte resposta:
«Madame. A innocencia opprimida não se dirige inutilmente ao representante do Grande Napoleão, cujo poder abrange o mundo, e cuja justiça se distribue por vassalos e reis. Ordeno que se vos dê liberdade e passaporte para Lisboa. Vinde alli, e de lá ser-vos-ha facil fazer sahir dos carceres do Porto o ente que vos interessa, e que, como vós, ha sido a victima do orgulho de um ministro. Eu vos protegerei a ambos. Tenho a honra de ser vosso muito humilde e obediente servo—Junot.»[[2]]{32}
{33}
[III]
Ton chemin est devant toi. Marche! marche!
ED. QUINET.—Ashaverus.
Em seguimento, a prelada de Santa Clara recebeu intimação militar para entregar D. Antonia de Portugal.
Os enviados á redempção da gentilissima captiva espavoriram as freiras, quando marcialmente entraram ao portico do mosteiro.
As mais avançadas em edade e virtude não ficaram estranhas ao receio de serem desbalisadas do thesouro de merecimentos que haviam amealhado á custa de muitas violencias, renunciações, cilicios e jejuns debilitantes. As menos jejuadas e mais propensas a crêr na malicia dos homens, se tivessem lido o que asseveram chronicas e o snr. A. Herculano repete no Eurico, a respeito de certas monjas em risco de serem presa lasciva dos sarracenos, é bem de crêr que pedissem á prioreza{34} que as degolasse na crypta, antes que o bafejo pestilencial dos francezes lhes mareasse a candura, obrigando-as a córar.
E, tantos visos de exactidão offerece a hypothese lisongeira, que, ao saber-se que D. Antonia era reclamada pelo general Junot, todas—que eram cento e vinte as professas—illudidas, talvez, pediram voz em grita que as deixassem soffrer por concomitancia o mesmo martyrio. Que jubilo iria no empyreo, se as famosas onze mil da legenda sahissem a receber no atrio dos seus jardins eternos subsidio que lhes enviava, d'uma assentada, Portugal—torrão bastante sáfaro para tal messe!
Não eram já, entretanto, aquelles dias os azados para tão heroicos martyrios. A prelada, exemplificando comsigo a privação do holocausto, forçou a commedirem-se as noviças, as noviças principalmente, que tinham os olhos sedentos de mortificação fitos nos algozes que as remiravam do pateo com uns olhares assaz significativos das carniceiras entranhas que os distinguiam dos frades portuguezes. Ora estes frades da comparação eram uns que frequentavam os locutorios, e suspiravam tão mysticamente quanto lhes permittia a eructação da orelheira mal esmoida.
Não pude averiguar se o agiologio das franciscanas conimbricenses commemora algumas martyres empolgadas no tempo dos francezes em que a roupa d'elles e a virtude das mulheres portuguezas era tudo o mesmo para tão desmedidos facinoras, segundo affirmam piedosas tradições. Do que tenho certeza é que D. Antonia{35} de Portugal sahiu do convento com tanta precipitação, ou tantas lagrimas a nublarem-lhe a vista, que nem sequer divisava, entre os officiaes francezes, Eduardo Pimenta, que parecia ajoelhar quebrantado pelo pezo da felicidade.
Quando Venceslau Taveira conheceu este moço, mezes depois dos acontecimentos referidos, chorava elle, e quantos viam Eduardo a braços com a desgraça que raras vezes, em episodios amorosos, se defronta com o coração humano tão inexoravelmente.
Um dia, o alferes promovido a capitão no exercito francez, foi mandado servir ás ordens de La Borde na batalha do Vimieiro, em que a estrella dos valorosos portuguezes lampejou uns clarões que davam a lembrar o cyclo heroico de que nem sequer, para tudo se perder, nos resta já agora uma briosa saudade.
D. Antonia estanceava então na Alhandra esperando que seu marido a mandasse recolher a Lisboa.
N'esta anciedade a fulminou a noticia de que o general La Borde morrera na Roliça e com elle todo o estado maior.
E, no mesmo lance em que tal nova lhe deram, uns homens, que se diziam seus valedores no immenso infortunio, quasi a forçaram a cavalgar, caminho de Coimbra, onde, áquelle tempo, iam chegando os inglezes desembarcados na Figueira.
E alli, da portaria do mosteiro de Santa Clara avisinhou-se chusma de homens, que levaram uma mulher{36} estorcendo-se a brados afflictivos. Depois, abriu-se a porta do mosteiro, e fechou-se logo que sobre o escabello foi deposta D. Antonia de Portugal, que desmaiára, se é que a morte se não amerciára d'ella.
Entretanto, nem La Borde nem o capitão Pimenta haviam morrido dos ferimentos. Alguem vira o official portuguez n'um olivedo do Tojal enfaixando um braço que sangrava. D'este encontro resultou o boato da morte, ao mesmo tempo que outros juravam de vista assistirem ao enterro do general na egreja do Carmo em Lisboa.
Como quer que fosse, os portadores da falsa noticia a D. Antonia eram confidentes dos tios d'ella, e a bala, que raspára na espadua do capitão, fôra-lhe apontada ao peito por um d'esses homens. N'aquelle tempo a fidalguia d'estes reinos ainda resfolegava por taes respiradouros o sangue brioso que se lhe emborrascava nas arterias. O timbre das armas obrigava. Os paquifes do elmo, arcando-se sobre as cabeças d'uns mouros, esculpturados com barbaridade digna das proezas, obrigavam seus donos ao preceito heraldico de guardar a honra da familia com ferocia egual ao disvelo que punham em honrar a patria nos açougues da Asia.
Enviára Eduardo Pimenta dous soldados portuguezes que levassem D. Antonia a Cintra onde se estavam redigindo os artigos da convenção. Como fosse clausula antevista d'aquelle convenio sahirem os vencidos com as honras da guerra, o official contra-pesava o infortunio{37} do desterro com o jubilo de passar com a esposa a França, onde os generaes portuguezes lhe promettiam protecção.
Os enviados de Eduardo voltaram dizendo que D. Antonia sahira da Alhandra, algumas horas antes, acompanhada por milicianos.
Alanciado por tão inesperada agonia, o official affrontou o maximo risco, perpassando pelas guerrilhas que confluiam a Lisboa. As insignias e a rapidez da carreira acirraram o patriotismo de alguns bravos que o espingardiaram e feriram mortalmente.
Uns caridosos frades cruzios que seguiam para uma quinta chamada Cadafaes, nos arrabaldes da Alhandra, transportaram o ferido. Alli, a peito com a morte, o desgraçado venceu-a, quando lhe seria redempção de maiores penas succumbir.
Apoz longo tratamento, vae-se aquelle homem só, pobre, cercado de incertezas e perigos. Ninguem sabia indicar-lhe o destino de D. Antonia. Os amigos negavam-se a acoital-o da sanha da plebe. Por sobre tantos desamparos, a pobreza antepunha-lhe uma cadeia de adversidades, por entre as quaes lhe transluzia a consoladora ideia do suicidio.
O pae de Eduardo era portuguez de marca maior, entranhas nacionaes, ferventes de nacionalismo e odio ao filho amaldiçoado que se bandeára com jacobinos.
Quando, pois, Eduardo, disfarçado em almocreve, lhe appareceu á beira do leito onde o velho se esperguiçava nos regalos de quem dormiu somno de justo, repulsou-o{38} com vociferações dignas dos paes romanos que sentenciavam os filhos á morte, e mais dignas ainda do proverbial amor patrio dos bracharenses.
—Fóra d'ahi, herege!—exclamou o ancião, estirando os braços á cara do filho.—Pegaste em armas contra a nação de Affonso Henriques—proseguiu o honrado portuguez com ira azedada pelas reminiscencias historicas—tu! jacobino! ousaste desembainhar a espada contra a tua patria! contra a patria de Affonso Henriques, que venceu cinco reis mouros, com auxilio de Jesus Christo, que lhe fallou no campo de Ourique! Vae-te da minha presença, maldito, em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo! Não me tornes a pôr o pé em casa, sem te limpares com uma confissão geral, impio, atheu!
Aturdido pela apostrophe e coberto de lagrimas, Eduardo ajoelhou, referindo os infortunios que o levaram por necessidade e gratidão a servir o seu libertador. Com o soccorro da mãe compadecida, conseguiu commover o velho até ao extremo de prometter-lhe não o denunciar á justiça, com a clausula de que iria sumir-se nas Alturas de Barroso em casa de parentes.
Foi; mas poucos dias permaneceu na soledade agra de uma serrania onde o desejo de morrer o debruçava sobre os despenhadeiros, implorando á sua desgraça a coragem do suicidio. A coragem! Porque não hei de, acostado a moralistas de grande tomo, chamar-lhe antes cobardia? É porque ha mister enorme coração quem dentro d'elle se abre um tumulo. É porque vae esforçada{39} valentia n'isto de um infeliz se aniquilar com a certeza de que em vez de lagrimas, lhe pesará sobre a memoria a censura dos felizes, o horror dos espiritualistas catholicos, e a nota da demencia—suprema injuria a essas pobres almas que a divina justiça não mandaria ás penas eternas sem lhes descontar os terribilissimos paroxismos, aquelle tormentoso debaterem-se nas prezas da desgraça, aquelle relanço d'olhos ao céo e o grito d'alma n'esta dilacerante pergunta: «Quando te pedí eu a vida, ó Creador?»
Eduardo desceu um dia das Alturas de Barroso e entrou no Porto demudado e vestido por maneira que o não poderiam suspeitar. Acercou-se do páteo de um irmão de D. Antonia de Portugal, e conversou com os palafreneiros, occasionando perguntar novas da fidalga. Disseram-lhe que ella estava em um convento de Coimbra, onde a encerraram depois que o marido acabára na batalha de Vimieiro.
Dias depois, n'aquelle anno de 1809, o marechal Soult entrou no Porto. O capitão vestiu a farda e apresentou-se ao general.{40}
{41}
[IV]
Il est plus glorieux de tomber généreuse,
D'embrasser en partant ceux qui nous font souffrir,
De fluir sans remords, comme une femme heureuse.MAD. GIRARDIN.—Poésies.
Prescinde o leitor que lhe historiem os sabidos desastres do exercito francez até ao dia em que Massena, o abatido «anjo da victoria», entrou em Coimbra.
Eduardo Pimenta correu á portaria do convento, e perguntou por D. Antonia de Portugal, a quem desde o Porto enviára cartas repetidas que nunca ella recebeu das religiosas, testemunhas impassiveis do lucto da supposta viuva e dos trances de agonia tão demorada.
Quando o official perguntou por sua mulher, a porteira, tremente de pavor, disse que a snr.ª D. Antonia estava moribunda. Lançou-se Eduardo contra a porta, com supplicantes lagrimas, já a repellões de raiva, bradando que lh'a abrissem. As freiras terrorisadas capitularam em avisar a reclusa de que seu marido a procurava.
Estava D. Antonia, senão moribunda, prostrada nos ultimos esvahimentos de pthysica. Disseram-lhe que a{42} buscava seu marido, e ella cuidou que ouvia uma voz a dizer-lh'o, como tantissimas vezes a ouvira nos seus delirios, antes que as ultimas golfadas de sangue a privassem do prazer de delirar. Mas, como aquella voz se repetisse por bocca de algumas religiosas que mais caritativas lhe velavam a enfermidade, Antonia sentou-se de golpe no leito, e circumvagou pelas faces de tantas mulheres os olhos torvos, não de lagrimas, senão do véo da morte.
Entendeu-as, convenceu-se, acreditou, porque a Virgem celestial lhe tinha segredado que seu marido não era morto. As madres, com quanto crendeiras em raptos e visões asceticas, julgaram-n'a delirante quando a viram ajoelhar com muita fadiga, e contemplar a imagem da Senhora das Dores, á qual dizia com anciosas intercadencias: «Fez-se o milagre, Mãe Santisssima! Eu bem vi que os vossos labios se moveram hontem, quando eu me arrastei até junto de vós. Elle vive!... mas eu... vou morrer... morro n'este instante, ó consoladora dos afflictos, se me não daes algumas horas de vida em troca de tantas dôres, e de morte tão custosa nos meus annos, com tanto amor e esperanças a morrerem comigo! Outro milagre, Senhora! Deixai-me vêl-o... vêr o meu esposo!..»
E orou uma prece inaudivel, com sorriso de esperança a embellecer-lhe as lagrimas. Depois, lançou-se do leito aos braços d'uma religiosa, exclamando:
—Não morro... não quero morrer assim! A Virgem Santissima quer que eu expire abençoando todos{43} os algozes, e beijando todos os instrumentos das minhas torturas... Chamem as pessoas que mais me despedaçaram... Eu quero chorar nas mãos onde houver signaes de sangue do meu coração... Vistam-me... amparem-me... E, se eu morrer agora, levem-me assim morta onde estiver Eduardo, ouviram?
Balbuciadas poucas mais palavras inintelligiveis, D. Antonia inclinou a face ao seio de uma noviça, e immudeceu, ressumando da fronte e das palpebras um suor frio.
—Estará morta?!—perguntavam-se as freiras quando nos dormitorios do convento reboava grande alvoroço de passos e gritos.
Os sacrilegos e algum tanto romanescos officiaes francezes, que tinham acompanhado o seu camarada ao mosteiro, não lhes soffrendo o animo a demora da reclusa e a impaciencia do esposo, intimaram arrogantemente a porteira a franquear a porta. Como ella se negasse, esconjurando os depravados hereges, e sacudindo o hyssope da agua benta contra as paredes, uns francezes espadaúdos pozeram hombros contra as portadas em quanto outros escavacavam a roda a cutiladas, ou esgarçavam á ponta de sabre o crivo dos palratorios. Desacatos tamanhos e tanto para lastima eram crime vulgar e habitual em taes sujeitos, vezados desde 1792 a profanarem conventos e a matarem freiras, principalmente as velhas.
Passadas de sensato horror, as religiosas abriram a porta. Eduardo foi quem primeiro transpoz o limiar{44} d'aquelle pombal de aves do empyreo, que apenas tinham de mulheres o receio de serem tratadas menos ao espiritual do que se usa com as jerarchias celicolas. Era, ao mesmo tempo, mavioso e compungente vêr como aquellas abelhas da divina ambrosia volteavam e zumbiam, ao darem tento dos zangãos francezes! Se, por mofina sorte, colmeia tão do céo, favos amellados com essencia de quantas flores perfumam cenobios de noviças, se—diga-se ao claro—aquellas raparigas cahissem nos colmilhos de tamanhos canibaes, com que vergonha nacional e minha não contaria eu aqui o escandalo!
Ainda bem que o decoro d'esta minha terra, n'aquillo como no restante, ha sempre uma providencia que o salva illeso.
As freiras, pelo menos, salvaram-se d'aquelle inferno que lhes andou a chammejar por perto dos véos e dos escapularios; todavia, o alarido e corrimaças que ellas faziam no claustro, accusariam de incontinentes os gallos, (aqui a palavra gallos não é contingencia de capoeira) se ellas mesmas não confessassem depois ao bispo e ás familias que os camaradas de Eduardo Pimenta haviam procedido mais castamente do que era de esperar de atheus, sem lei, nem rei, nem roque.
E disseram verdade.
Vem aqui a ponto sahir com uma defeza, embora serôdia, do exercito francez, no tocante a ominosos attentados contra mosteiros portuguezes, segundo consta d'uns poemas calumniosos que ahi correram, quanto javardos{45} correm por lameiraes, e ainda sujam as bibliothecas de alguns collectores de sordicias. Exceptuado o dragão que embaciou o cristallino pudor da menina de Alemquer, não me chegou noticia authentica de outro aggravo feito por parte da França á honra das nossas patricias. É regalo—não é?—poder a gente escrever isto, e, por isto mesmo, asseverar que na construcção das gerações sequentes a 1808 não ha gallicismo notavel que eu saiba. Não obstante, dizem praguentos que as joldas invasoras dos mosteiros arrebanhavam baixellas, pinturas, joias d'arte, e pospunham com desdem joias da natureza, as esposas do cordeiro. Aqui ha acinte menoscabador da belleza das nossas freiras, sendo certo que n'aquelle tempo as havia peregrinas, primorosas, dignas patricias d'aquella Marianna Alcoforado, conventual em Beja, que tão celebrada formosura e espirito deixou na Europa em cartas ainda hoje relidas com dó, admiração, e somnolencia.
Á imitação d'esta deviam ser as cento e vinte que esvoaçavam dos dormitorios para a claustra e da claustra para a cêrca, do mesmo passo que Eduardo e os seus honestos amigos seguiam a porteira em direitura á cella de D. Antonia de Portugal.
Quando o marido da desmaiada senhora assomou á porta, as freiras conclamaram tão rijo grito que a enferma retranziu-se espavorindo os olhos.
N'este lance, os braços, que a sustinham, eram já os d'elle, cujos labios, crispando estremecidos de angustia, balbuciaram:{46}
—Esposa da minha alma!... Mataram-te... Fui eu quem te matou!... Oh! falla-me, querida filha!... Não me conheces, Antonia?...
Quando esta e outras exclamações iam avocando a razão da pavida agonizante, a prioreza chamou fóra da cella as freiras testemunhas do trance doloroso, e observou-lhes:
—Não assistam a essa diabrura! Venham comigo ao côro pedir ao divino esposo que despene d'esta vida a alma da peccadora, que veiu dar escandalo n'esta casa.
—Assim é, nossa madre!—obtemperou a escrivã, offerecendo uma vez de simonte á madre boticaria, e olhando de esconso contra um official que lhe careteava enviezando o beiço de baixo até cobrir a ponta do queixo.
O verso e o reverso das coisas d'este planeta, leitor philosopho!
Dentro da cella, agonias que as lagrimas afogavam no silencio; cá fóra, a irrisão, a farça, a jogralidade que a critica descobre á beira das grandes dôres, á beira até das sepulturas!
Mas ao pé da sepultura de Antonia de Portugal, no templo de S. Salvador de Coimbra, se não havia preces nem olhos lagrimosos, tambem não passava o motejo sacrilego. Ahi moravam o silencio, a soledade, e a mudez do esquecimento que deve ser nas almas idas e saudosas d'esta vida um chorar sem consolação no seio da eterna gloria.
Estava pois resalva das borrascas a luctadora vencida{47} e ao mesmo tempo victoriosa; que morrer assim é triumphar.
A presença inesperada do esposo, que ella considerava morto, foi o osculo santo do anjo que desde muito lhe condensava a treva para que um lampejo final lhe abrisse o dia da perpetua luz. Aquella immensa alegria reviveu-lhe o coração, galvanisou-lhe as potencias da alma entorpecidas, restituiu-lhe por momentos a plena vitalidade; todavia, aniquilou-lhe o corpo subitamente arrefecido nos braços de Eduardo.
Do mosteiro de Santa Clara sahiu o cadaver sobraçado por aquelle homem que relançava á volta de si o olhar sôffrego da posse da esposa morta. Quando elle, vagarosamente, passava no longo dormitorio, ouviu o murmurio das freiras que rezavam psalmos no côro. A desgraça faz prodigios de fé, desvarios de crença que seriam galardoados com milagres, se os actos da omnipotencia divina se pautassem pela regra do nosso entendimento. Eduardo, accêso em ardente fé, escutava o soturno rumor das vozes, e orava em espirito com os olhos fitos nos do cadaver ainda não fechados. O infeliz pedia a resurreição d'aquella mulher, dobrando os joelhos, e inclinando a face sobre os seus labios alvacentos, como se esperasse sentir-lhe o halito dos pulmões revividos.
Instaram os officiaes, que o acompanhavam, para que lhes confiasse o cadaver; mas, não conseguindo desabraçal-o da morta, ajudaram-o a transportal-a ao quartel de um d'elles, que se incumbiu do enterro.{48}
Ao descahir da noite em que D. Antonia foi sepultada, soaram os clarins a reunir. Massena ordenára um movimento sobre Condeixa depois de se deter em Coimbra tres dias que malograram todos os seus planos. Eduardo Pimenta, que servia no quartel-general de Pamplona, recusou acompanhar o exercito.
Os seus amigos propriamente lhe deram voz de preso, em nome do principe de Esling, e o levaram á força de ao pé do cadaver já amortalhado. Commovidos pelas supplicas, concederam-lhe que muitas vezes retrocedesse a beijal-a no rosto, já quando a passavam para o esquife.
Fechada a sepultura, e feito o silencio do esquecimento á volta d'ella, ninguem diria que vida assim dilacerada podésse acabar por maneira tão singela!
Morrer! Que suave desfecho, se o desfazer-se a vida a desfibrações lentas não custasse tanto! E, se Deus dispensasse as torturas do corpo aos que em si já sentem o ingente supplicio da alma, a sua divina justiça nos deixaria melhormente comprehender os liames que prendem a terra ao céo, a creatura ao Creador, o espirito do homem perecivel á insuflação do grande espirito immortal...
Não sejamos mais especulativos do que foram os indifferentes que viram passar o esquife de Antonia, ao mesmo tempo que Eduardo marchava sobre Condeixa.
Ahi fica esboçada a biographia do official que Venceslau Taveira encontrou em Santarem.
Ai! se elle então morresse! Que tragico vulto na legenda{49} dos amores desgraçados! quantos anjos tristes, nascidos em almas de poetas, iriam deplorativos esfolhar uma rosa de cada primavera na sepultura d'aquelles vinte e quatro annos! Quem cuidára então que os dons celestiaes da alma d'este homem se esvasiavam todos em lagrimas, e no fundo d'esse peito germinavam os embriões de vicios que resvalariam á derradeira infamia!{50}
{51}
[V]
Ah Senhor,
Amor sejais vós de nós
E não haja amor com dor.GIL VICENTE.—Farças.
No coração juvenil e compassivo do fidalgo beirão a historia d'estes amores deixou a melancolia piedosa propria de animos que ainda não padeceram.
Cuidam que a dôr experimentada afina o sentimento, e abrolha as flores perfumadas da compaixão quando lhe orvalham lagrimas alheias? Não é absolutamente verdade. Os muitos infelizes são por via de regra os menos sensiveis. Os desgraçados são egoistas. Não sabem, não podem, não querem consolar, porque se julgam credores das consolações dos outros.
Ao principiar da vida, a ignorancia do mal pende á condolencia e amiseração dos que choram. O homem que então nos contrasta a nossa alegria com lagrimas, e os hymnos de graças á Providencia com blasphemias,{52} assombra-nos. Das muitas flores e luz que nos abrilhantam e aromatisam a vida, formamos o reverso espantoso da escureza e avidez do desditoso que nos dá a entrever o mal, nem sequer sonhado nas nossas noites serenas. Então é o compadecerem-se de infantil dó umas almas predestinadas a revezes, abaladas por vaticinios lugubres do seu destino.
Não ha pois fiar-se a gente n'aquella compaixão da heroina de Virgilio que, recordando os seus, se pungia dos alheios males.
São peitos impenetraveis os cicatrisados de muitos golpes. O que ahi está dentro é a sciencia da vida com a terrivel certeza de que o mal é necessario e fatalissimo. Esta sciencia que nos vem por morgadio herdado, obra, não sabemos se divina, se diabolica da serpente do paraiso, dá-nos ares de philosofantes selvaticos, inflexos e frios. As lagrimas com que intentam amollecer-nos são como outras que já choramos sem mais utilidade que vingarmos affogar n'ellas o germen da confiança nos homens, e—quantas vezes!—da fé em Deus. E, se esta sublime palavra, e inenarravel sentimento, DEUS, chega a desluzir-se nos lances em que o invocamos, os affligidos cessem de confiar em nós. Devorem-se, salvem-se pelo despejo ou pelo suicidio, que a religião não lhes alvitra melhores recursos que a philosophia: tanto monta Jesus como Platão. Nem nós podemos encarecer a efficacia dos balsamos que nos coaram ao coração apenas um torpor, a paralysia das faculdades amantes da vida, ignorando-lhe as condições{53} durissimas, o terrivel desdem com que adormecemos debaixo da mancenilha, sem recear-lhe as exhalações homicidas.
Venceslau solicitou a estima de Eduardo, e affeiçoou-se-lhe com estremecida amisade. No fervor do seu affecto, parecia ser elle a providencial indemnisação á desventura do moço repulso dos braços do pae para os braços da esposa moribunda. Raras horas se apartava d'elle, velando-lhe as do repouso, e privando-se da convivencia dos alegres mancebos que se espantavam de tamanha devoção e tão desusado sacrificio a um desgraçado vulgar.
Por março de 1811 retirou o exercito francez de Santarem, perseguido por Wellington. Eduardo, ao entrar em Pombal, abraçou Venceslau, e disse-lhe tranquillamente:
—Vamos ter batalha decisiva. Heide morrer n'ella. Separa-te desde já de mim, que não quero vêr lagrimas, nem ouvir palavras piedosas em meio dos gritos dos agonisantes.
Pouco depois, escaramuraçaram as avançadas dos dois exercitos. Ao primeiro recontro, Eduardo Pimenta, arrancando do pôsto muito distante dos piquetes, embrenhou-se pela selva das bayonetas que retiniam dentro da cerrada bruma da polvorada. Em breve lanço, o impetuoso official cahiu cortado do ferro inimigo, e, quando a nuvem se rarefez, viu á sua beira Venceslau, descolchetando-lhe a farda para examinar-lhe as feridas.{54}
Eduardo, cerrando os dentes, abafava o grito da dôr; faltava-lhe, porém, vigor para repugnar ao curativo.
Um cirurgião francez disse a Venceslau que nenhum dos ferimentos era mortal. O ferido então abriu um riso de raiva á desgraça de sentir-se viver, e murmurou:
—Não sou um desgraçado vulgar...
E, rodeando a vista pelos moribundos roixos dos paroxismos, accrescentou:
—Eram talvez felizes esses que ahi morrem. Um d'elles fallou em sua mãe, e o outro pediu a Deus que lhe amparasse os filhos... Vês, Taveira? A providencia deixa morrer esses, e quer que eu viva, e que por nenhuma d'estas feridas eu possa arrancar a alma da sua cruz.
Não é tão raro morrer quem ardentemente o deseja?
Sei de homens desesperados que se offereceram em alvo, no ponto onde a metralha das pelejas varria as victimas a rôdo. Sei d'outros que procuraram a morte nos focos mais ardentes da peste. Vi uns que romperam contra as lavaredas das casas incendiadas simulando caridade heroica no proposito do suicidio. Vi alguns que se entregaram cegamente á medicina. E não morreram!
A morte praz-se em destillar ás gotas a peçonha do seu calix na garganta onde fervem e affogam soluços,{55} se as lagrimas da saudade derivam sobre o suor gélido da agonia. Foi a morte creada á porta do paraizo, quando a nossa archi-avó comeu o pomo. Creada como castigo, o seu officio é matar, dilacerando; unhar com a ponta da garra um por um os liames da vida, distendel-os devagar, descansando a intervallos, para que a seiva da esperança os reforce, e depois a angustia lateje n'elles em redobro. Como castigo, missão que o Creador lhe deu, a morte seria indigna do seu officio, se nos decepasse de um golpe. As trevas subitas, a paragem do coração, um dormir suave, um esquecermo-nos de tudo—morrer no instante em que tudo bom d'este mundo nos sorria esmaltado de todas as estrellas—seria supplicio condigno do affrontamento que Eva e o logrado marido fizeram ao Creador?
Não. Á morte urgia-lhe, em cumprimento do seu encargo, maior dominio sobre as potencias espirituaes que ella (convence-te, ó razão!) não mata, mas tortura.
Ahi está um coração de pae a arquejar em soluços de moribundo. Ha tres dias que se debate nas ultimas vascas. No decurso d'esses tres dias, ha visto muitas vezes os filhos que o chamam, que lhe affastam dos olhos os cabellos humidos, que lhe enxugam nas faces lividas umas lagrimas onde vae diluida a derradeira claridade das pupilas baças. Pois tres dias não bastam á maceração do holocausto e ás dilicias do sacrificador que sahiu do paraiso com o peccado!? Não. Aquelle homem está assim penando, ha de assim penar mais tres, mais seis,{56} mais nove dias, porque expia pelo corpo vibrante de nevrozes, e pela alma que se revolve em suas lagrimas.
Meu Deus, meu Deus, que triste, que procelloso, que vilipendio vos seria o mundo, se a minha alma só podésse entender vossa força nas dôres, nos medos, na morte, na viuvez, na orphandade, nos ricos sem caridade, nos pobrinhos sem enxerga!
Afaça-se, leitor, obsequiosamente a este meu velho sestro de vagamundear á volta dos assumptos, vestindo as nudezas da ideia com umas roupagens variegadas. É pensão da velhice, e talvez desejo perdoavel de fazer pensar as pessoas que abrem uma novella justamente para não pensarem.{57}
[VI]
Aperta-lhe a sorte ingrata
O laço em que os pés lhe enreda.THOMAZ RIBEIRO.—A Delfina do Mal.
Eduardo Pimenta, levado em braços a casa d'um aldeão que não estremava entre jacobino e portuguez, pensou que seria alli miseravelmente esfaqueado logo que os patriotas lhe descobrissem a paragem.
Não se esquivou Venceslau ao perigo de ser sacrificado ao amigo que primeiro o captivára com as dôres da alma, e agora com as da enfermidade. Ambos se haviam despojado das fardas suspeitas e vestido á moda dos camponezes, inculcando-se guerrilheiros fieis ao throno e altar.
Como lhes minguassem recursos, mandou o beirão a sua mãe um portador com carta bem commovente á piedade. Respondeu-lhe a mãe que era fallecido o pae, e accudisse elle a receber o ultimo suspiro d'ella que o já sentia na garganta.{58}
Sahiram os dois amigos dos arrabaldes de Pombal, e acantoaram-se na casa dos Taveiras, onde corriam maior perigo, porque o corregedor de Lamego perseguia os jacobinos, não com alçada morosa, mas com a justiça summaria dos sicarios.
Além d'isto, bem que D. Antonia de Portugal, por sua parte, houvesse dado a vida ao odio dos parentes, estes cavalheiros não eram da casta dos máos corações que se contentam com a vingança de fazerem cahir uma campa sobre a victima dilacerada. Duas campas é que elles queriam para que a sua posteridade podésse apontar para ellas, quando outros aventureiros ousassem pôr olhos no rosto defeso das mulheres de raça.
No rasto do plebeu de Braga farejavam espertos assassinos, protegidos pela justiça. Os sustos rodeavam já a casa senhorial dos Taveiras, atterrando a mãe de Venceslau a ponto de bastarem poucos dias de afflicção a dar-lhe o descanço eterno.
Como filho segundo, pequena legitima cobrou Venceslau. O morgado, receoso de compartir no perigo dos dous perseguidos, antecipou ao irmão o valor do patrimonio, aconselhando-lhe a emigração.
Entraram os dous expatriados por Hespanha em 1813. Da Corunha passaram a Falmouth em companhia do cruzio D. José Liberato Freire de Carvalho, que depois em Londres aproveitou a habilidade de Taveira, contractando-o para fazer traducções no periodico intitulado O Investigador.
Do seu patrimonio, e ganhos nas lettras, repartia{59} o moço com o seu amigo, adoçando-lhe delicadamente o agro da dependencia, com a clausula de que eram emprestados os recursos que lhe offerecia.
Seis annos assim viveram, durante os quaes Eduardo não despiu o lucto de sua viuvez, nem desfitou os olhos scismadores de uma estrella por onde lhe transluzia o que quer que fosse, vago e impalpavel, semelhante a uma alma.
N'este enlevo e lucto bastante insolito, e não vulgares em poeta seis annos viuvo, gastava o homem sua actividade, distrahindo-a das preoccupações dos outros emigrados.
Com o fim de o levantar de uns quebrantos quasi ridiculos, Venceslau invocava-lhe o animo para os deveres que lhe impunham a infelicidade dos seus conterraneos e a sua propria de desterrado. Baldados esforços. Pimenta era sempre o inconsolavel.
São pouquissimo interessantes os pormenores da vida d'estes emigrados, no correr de sete annos. A pobreza por vezes venceu o trabalho assiduo de Venceslau Taveira, esponjando-lhe o fel da penuria ás chagas da saudade da patria. A inercia do amigo, motivada pelos crepes sempre carregados da sua paixão, aggravava as difficuldades do moço laborioso.
Eduardo distanciava-se, quanto a genio, dos martyres, que têm a acta do seu martyrio nos romances, os quaes não sabe a gente se almoçam e jantam com a trivial estupidez das especies carnivoras a que a leitora ideal não desejaria pertencer, nem eu. Afóra o almoço{60} e jantar, o viuvo consternado de D. Antonia de Portugal ceava, e recozia tudo ao fogo interno que o escaldava, retemperando-lhe, ao que parecia, de fino aço as molas digestivas. Á feição d'este, ha muitos sugeitos da mesma laia que, logo abaixo de um coração abeberado em lagrimas, vos maravilham com um estomago de ógre. Raro conseguem estes infelizes amiserar ninguem com suas lastimas em verso ou prosa, porque a nediez do musculo os está sempre a desmentir de modo que o observador incauto cuida que o humor vitreo das lagrimas é ressumação oleosa do chorume que lhes sobeja. É mister, porém, não confundir as duas especies, a fim de que a alçada bruta do chylo não leze os phenomenos da psyche—expressão grega que os gregos não percebiam melhor que Venceslau quando via o seu amigo a chorar e a comer ao mesmo tempo.
Entretanto, assim que um simulacro de liberdade em Portugal, no anno 1820, amnistiou os portuguezes que tinham servido as ideias da França, o fidalgo da Beira com o sempre melancolico bracharense repatriaram-se.
Protegido por José Liberato, e outros liberaes, o intelligente moço e já notavel publicista offereceu a sua penna a Joaquim Manoel Alves Sinval que então redigia o Astro da Lusitania.
Notaveis artigos realçaram aquelle periodico e o nome do modesto escriptor, cujos serviços á liberdade ainda no berço se contentavam da gloria de lhe poetisar a infancia.{61}
No lapso d'estes successos Eduardo Pimenta, sempre ocioso e confiado á liberdade do amigo, ia cogitando em ganhar de salto posição que o habilitasse a indemnisar os favores do companheiro.
Honrado empenho! suprema e unica dignidade dos ingratos.
Este proposito, porém, não significava louvavel desejo de independencia: era antes ruim plano de se desonerar da divida de reconhecimento que o vexava. Sentimentos d'esta especie affectam exteriores de nobreza, e disparam em villania, se bem os esgaravatamos no barril do lixo humano que se chama alma, a qual se decompõe em lama, se lhe trocaes as lettras.
Começa Eduardo a enxergar os arreboes de uma estrella benigna que lhe destece boa parte das suas escuridões. É um contentamento menos máo. Recebe a noticia da morte do pae.
Este velho, portuguez de lei como viram, typo symbolico da Braga de 1820, patriota acrizolado no recontro com os francezes em Carvalho d'Este, um dos Codros que tomaram parte no assassinio do general portuguez Bernardim Freire de Andrade, tal sujeito, a não poder afogar n'agua benta a liberdade em pessoa, devia morrer apopletico, e de feito morreu, deixando 1:600 missas á sua alma, e tres solemnes maldições ao filho. Infere-se d'estes legados que a sua apoplexia não foi das mais fulminativas; foi um ramo de ar, ou estupor, como a viuva escrevia a Eduardo.{62}
Além das missas á alma e das maldições ao filho, o morto deixou bens rusticos que formavam a mais rendosa lavoira de S. João de Nogueira.
O viuvo de D. Antonia não era filho unico. Erguendo-se o melhor que pôde debaixo do pezo da maldição triple, foi a Braga fazer partilhas com o irmão clerigo, e tão intolerante se portou por causa d'um faqueiro de prata abafado pelo padre em beneficio de uma freira dos Remedios, que chegaram ás ultimas, esmurraçando-se sobre o espolio do honrado defunto, o qual tinha apanhado o faqueiro no embornal cahido do cavallo ferido de um dragão que elle ou outros tinham matado. O pae do clerigo—Deus lhe perdoe—gabava-se d'isso, e o filho, theologo casuista, não achou em Bazembáo o caso da restituição da coisa roubada a ladrão! 1:600 missas davam ensanchas para maroteiras maiores.
Regressou a Lisboa com quinze mil cruzados Eduardo Pimenta.
O dinheiro influe bastante no espirito, e no resto. Adormece e acorda melhor quem o tem. A espinha dorsal tem outra casta de aprumo. O olfacto fareja essencia de violetas em tudo. O coração tem azas. A fantasia é mais allemã. Os olhos comprehendem a fabula dos Argos e dos lynces. Os ouvidos afinam-se tão agudos que, em comparação, a lebre é surda. Cada gaita de feira sôa-nos como a tuba de Oberon.
Sobre tudo, as faculdades do amor urdem romances, tecem-os de lhama de oiro nas cabeças negras, castanhas{63} e loiras das mulheres lindas, das feias, das Philamintas, das Felizardas. Todo o pé nos intriga, toda a botinha é de Cendrillon, todo o vestido apanhado com elegante descuido é naça que nos pesca a alma em lago de aguas cristalinas. O dinheiro faz isto: quando nos sobram dentes para morder pomos, sómente prohibidos a quem não tem dentes, nem dinheiro principalmente.
Deu que scismar a Venceslau Taveira a transfiguração moral do amigo. A linguagem mais expedita, a ideia lucida, prismatica, borboleteando por assumptos que recendiam a rosas, a margaridas, a madrigaes. Emfim, Eduardo fallava muito de amor, de poesia, de coração, de mulheres, de muitas mulheres vivas, e de algumas mortas, de Fiammeta, de Fornarina, de Collona, de Leonor, de Corinna, etc., excepto de Antonia. D'aquella Antonia, que elle andára sete ou oito annos a procurar no crepusculo das tardes e no diluculo das madrugadas, d'essa, que se mirrava entre os farrapos da mortalha e as pranchas do esquife, não dizia nada.
—Que vaes fazer ao teu dinheiro, Eduardo?—perguntou-lhe o collaborador do Astro da Luzitania, rodando sobre a sua banca de trabalho duas peças que havia recebido pelo serviço de um mez.—Empregas esse capital em officio ou beneficio que te renda um passadío modesto?
—Hei-de pensar n'isso...—respondeu desattentamente o outro.—Por ora, assisto á renascença da minha alma, que esteve atrophiada nos regêlos da desgraça. Estou acordando do lethargo, a reconhecer as{64} commoções, as alegrias do viver. O cerebro ha de funccionar, quando o coração lhe radiar o seu calor. Depois pensarei. Mas antes de mais nada... Nós temos contas, Venceslau. Na emigração, tiveste a delicadeza de me dizer que me emprestavas e não davas a subsistencia. A divida principal não t'a pago, que não posso: é a gratidão insoluvel; mas o que é dinheiro quero pagal-o, não só porque devo, mas porque me sentirei melhor na tua presença quando t'o não dever.
—N'esse caso, paga. Não quero que te sintas mal na minha presença—disse Venceslau com semblante sereno e severo.
—Sabes quanto é?
—Não.
—Calcúla.
—Esse calculo pertence á tua pontualidade. É trabalho que está a cargo d'aquelle que, depois da liquidação das contas, se sentir melhor na presença do outro.
—Vejo-te muito sério!—atalhou Eduardo.—Offendi-te?!
—Foste apenas pouco delicado comigo. Eu não sou da especie dos credores que apresentam a conta copiada do livro... Quando em Londres comprava por um schilling um jantar para nós ambos, nunca lancei á tua conta seis pence. Afiz-me a repartir com o irmão; não emprestava ao homem que havia de ser rico. Nunca preví que houvesses de o ser... No meu trabalho não eras tu pequena parte...
—Eu?! que fazia eu?{65}
—Davas-me animo com a tua mesma ociosidade; redobravas-me o goso de cumprir o dever de homem, por ti e por mim. Quanto a esperar de ti retribuição em moeda corrente, não cabia semelhante conjectura no conhecimento que eu tinha da tua indole...
—Ora essa!...—interrompeu pondunorosamente Eduardo.—Então figurei de parasita aos teus olhos...
—Não: figuraste de homem engolfado por abysmos de saudade, amortalhado em luctos de viuvez eterna...—respondeu Venceslau sorrindo.—Quem havia de prever que sahirias do antro da tua dôr, ao fim de oito annos, com o rosto banhado dos resplendores d'um novo dia? Eu, que então me julguei reservado para a suprema angustia de te sepultar envolto no lençol da nossa pobre enxerga, como sonharia esses quinze mil cruzados que te auctorisam a perguntar quanto me deves? Quem diria que nas leiras e montados de teu pae succederia o filho amaldiçoado? Desandou a roda funesta, Eduardo. O teu mau anjo era a pobreza. Repelliste-o para as trevas dos indigentes. Voga affoitamente no mar da vida, que estás em maré de felicidade. Que tregeitos de impaciencia me fazes, meu amigo?.... Tem paciencia; escuta-me. Volta o rosto alegre algumas vezes para o passado. Repara nas lagrimas e angustias em que se desfizeram as tuas illusões. Olha que está uma sepultura de mulher innocente a servir de base ao monumento das tuas recordações. Abre o livro funebre da tua mocidade, e lê os preceitos da experiencia. Toda a desgraça é uma raiz, que se arreiga dolorosamente na{66} alma; porém, lá vem um dia em que a raiz abrolha flores que parecem de planta abençoada: essas flores são o escarmento, o desengano, a verdade, a sciencia da vida como ella é, vista á luz da razão.
—Mas onde vaes tu com essas praticas tão bem discursadas?!—perguntou Eduardo Pimenta, entre risonho e enfastiado.
—Vou entregal-as á tua memoria para que te sirvam de memento, quando escreveres á filha do commendador.
—A filha do commendador? Querem vêr que me entroncas na progenie de D. Juan Tenorio! Temos, pois, uma Anna, a filha do fidalgo de Burgos!...
Venceslau Taveira pôz as mãos nos hombros do viuvo de Antonia de Portugal, e disse-lhe com boa sombra e graça affectuosa:
—Não achas notavel a coincidencia do pae que é commendador e da filha que é Anna?... Dize-me agora: que motivos te justificam da reserva com um amigo de oito annos? Que tinha que eu soubesse da tua bocca esses amores? Dizias-me, ha dois mezes, que o teu coração era o Lazaro apodrecido na sua cova; e, como a ideia de Lazaro envolve a ideia de Christo, o Christo do teu coração defuncto foi o dinheiro. Não dou nada pela vida assim galvanisada por correntes electricas do metal...
Eduardo interrompeu o impertinente amigo com uma cascalhada de riso secco; Venceslau, porém, carregando o semblante, concluiu:{67}
—Nunca te esqueças de que fui eu quem te apresentou ao commendador Francisco Vaz e a sua filha D. Anna. Eu disse-lhes que tu, Eduardo Pimenta, eras homem de bem, e infeliz, sem o haver merecido.{68}
{69}
[VII]
Desejas conhecer o que és? repara nos outros: tal tu és.
Desejas conhecer os outros? Olha para dentro de ti, que em ti os vês.
SCHILLER.—Poesias.
D. Anna Vaz, a filha do commendador de Santa Christina de Almudena—commendador, entendam, de velha estôfa, aparentado com os descendentes dos Pelagios e Ordonhos—era creança de quinze annos, quasi bella, mas, melhor do que perfeita belleza, era boa, candida, innocente, e triste das saudades de sua mãe, poetica da sagrada poesia que se curva a derramar prantos sobre a urna de umas cinzas queridas.
Venceslau conhecera em Londres um irmão d'esta menina, alferes emigrado, compleição doentia, éthico da enfermidade nostálgica, exacerbada por amor a uma senhora de Lisboa, com quem destinára casar-se, quando os franceses invadiram Portugal.{70}
Falleceu este moço nos braços de Venceslau Taveira, pedindo-lhe que, se um dia regressasse á patria, procurasse em Lisboa seu pae, e lhe pedisse que entregasse á sua promettida esposa o retrato que lhe confiava.
O portador do triste legado cumpriu a vontade do moribundo seis annos depois.
O commendador acceitou o retrato, e voltando-se para uma senhora, que estava ao lado de sua filha no canapé, disse:
—D. Julia, aqui tem o seu retrato.
Venceslau inclinou-se profundamente diante da querida do seu amigo e disse:
—Era V. Ex.ª digna da paixão de Antonio Vaz, porque, se a comparo com o retrato, noto que a semelhança foi já apagada pelas lagrimas. A formosura da mocidade foi substituida pela formosura da mágoa.
Julia, muito commovida, pediu ao portador do retrato que lhe referisse as particularidades da vida e morte de Antonio Vaz. Depois, disse ella que o seu malogrado noivo lhe contava em cartas as virtudes do seu amigo Venceslau Taveira, e os impagaveis carinhos de irmão com que elle tentava suavisar-lhe os espinhos da saudade, alentando-lhe com esperanças o animo quebrantado. Terminada a sensibilisadora reminiscencia das cartas, proferida entre soluços, D. Julia apertou a mão de Venceslau; e, levando-a aos labios, apesar do esforço d'elle, balbuciou:
—Beijo a mão que fechou os olhos do meu extremoso amigo!{71}
Pouco depois, chegou uma sege á porta do commendador, e logo depois entrou um criado a annunciar que era esperada a snr.ª D. Julia de Miranda. Venceslau, obtida licença de Francisco Vaz, deu o braço á dama, e levou-a á traquitana, reparando então que o cocheiro e lacaio vestiam libré, indicativa de familia illustre.
Voltando á sala, contou-lhe o commendador estas admiraveis coisas de D. Julia:
Era filha d'um desembargador do paço, já defuncto. Herdára trezentos mil cruzados em propriedades rusticas e urbanas. Tinha vinte e sete annos de idade, e deixára de ser formosissima desde que a paixão por Antonio Vaz a desfigurou, mostrando-lhe repetidas vezes a morte no seu espelho o semblante cadaverico. Mas contou o commendador que, sem impedimento da decadente belleza, eram muitos os pretendentes á mão de Julia, bem que no pensar do ironico sugeito, muitos haveria que a tomassem por esposa, ainda que ella não tivesse mãos, tão necessarias ás formulas sacramentaes do matrimonio.
Assim começaram as boas e logo familiares relações do escriptor com esta excellente familia. Rara noite Venceslau deixava de visitar o agradecido fidalgo, cujas ideias liberaes a morte do filho perseguido acrizolára. Fugiam as horas de alegre palestra entre os dois, em quanto D. Anna estudava as suas lições de musica, para depois, ao fim da noute, conversar em francez com o jornalista.{72}
Intencionado a divertir Eduardo das suas abstracções penosas, Venceslau apresentou o amigo, depois de prevenir os hospedeiros a favor da tristeza taciturna do homem, que parecia assombrado do raio fulminador da sua mocidade.
Acolheram Eduardo, tanto o pae como a filha, com tanta sympathia e dó que, a poucos dias andados, já o confundiam na familiar lhaneza com Venceslau Taveira. E esta bella alma alegrava-se quando o via tão bem acceito, e já tão outro do que era nas escuras melancolias, pelas quaes elle se havia feito aborrecer de quantos o tratavam.
Algumas noites concorria tambem D. Julia de Miranda, com o seu capellão; homem de avançados annos, e tão amigo da fidalga que dizia idolatramente que não era capellão, mas sim sacerdote d'aquella divindade.
Em um d'esses saráos, desconfiou Venceslau que o seu amigo, abeirando-se do piano em que Julia tocava, lhe passára uma carta. Sobresaltou-o a suspeita, como se o caso tivesse a importancia d'um delicto contra as regras da sã moral. Não espanta semelhante estranheza em homem que rossava pelos vinte e oito annos sem haver entregado carta de amores, nem sequer ter sentido a precisão de escrever uma, no intervallo de dois artigos politicos! A virgindade epistolographica é hoje, e era então mais rara que todas as outras.