BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
OFFERECIDAS
A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
POR
Camillo Castello Branco
PUBLICAÇÃO MENSAL
N.o 3--MARÇO
| LIVRARIA INTERNACIONAL DE | |
|---|---|
| ERNESTO CHARDRON 96, Largo dos Clerigos, 98 PORTO | EUGENIO CHARDRON 4, Largo de S. Francisco, 4 BRAGA |
1874
PORTO
TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
68--Rua da Cancella Velha--62
1874
BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
SUMMARIO
[Feitiços da guitarra] -- [Em que veias gira o sangue de Camões?] -- [Lisboa] -- [Voltas do Mundo] -- [Nova solução do problema historico] -- [Desgraçado Balzac! (Á «Actualidade»)] -- [Os 2 Joaquins] -- [Flôres para a sepultura de Ferreira Rangel] -- [Mysterio da Castanha] -- [Bem vindo!] -- [Os Salões, pelo exc.mo snr. visconde de Ouguella] -- [Subsidios para a historia da serenissima casa de Bragança]
FEITIÇOS DA GUITARRA
Cuidará talvez muita gente, aliás instruida na historia da musica e seus effeitos, que a influencia da guitarra nos paços reaes é cousa moderna e peculiar da côrte portugueza. Não, senhores. O exemplo deu-o a Hespanha no fim do seculo passado, e a historia do mais afortunado guitarrista d'este planeta extravagante em que moramos, vou contal-a eu.
Na volta do anno 1786, D. Gabriel Alvares de Faria, arcediago da sé de Badajoz, tinha dous sobrinhos, Luiz e Manoel. O arcediago, que blazonava descender dos Farias, alcaides-móres de Palmella, em Portugal, timbrava de muito fidalgo; mas declarava aos sobrinhos que fossem ganhar sua vida, porque a pitança da conezia não dava para tres.
Os dous rapazes, que tangiam guitarra a primor, e cantavam seguidilhas de sua invenção, fizeram-se no rumo de Madrid, á cata de aventuras. O estalajadeiro, que lhes deu a credito o primeiro mez de hospedagem, folgava tanto de ouvir as tonadilhas de D. Manoel, que não quiz outra paga durante um anno.
Conseguiram os dous rapazes entrar na guarda de corpus. Luiz, mediante a guitarra, insinuou-se no affecto de uma açafata da princeza Luiza de Parma, esposa do principe que depois foi Carlos IV; e, quando a dama ensandecia de amor ao seu menestrel, lhe disse elle que, se o seu cantar e tanger a transportavam, que seria se ouvisse seu irmão D. Manoel!
Contou isto a dama á princeza. Sua alteza era folgazã. Quiz ouvir o guitarrista. Ouviu-o, admirou-o, amou-o, e--o que muito é--convenceu o marido a gostar das trovas de a Tyrana acompanhadas d'um harpejo triste, que não ha ahi cousa que mais diga.
O principe não era escorreito.
Menos incauto era Carlos III, que mandou sahir de Madrid o guitarrista, logo que deu tento dos effeitos cupidineos dos bordões e prima, na pessoa da nora.
Mas assim que o rei morreu, D. Manoel voltou a Madrid, foi restituido ao palacio, á alcova real, e nomeado successivamente sargento-mór da guarda, ajudante-general, grã-cruz de Carlos III, intendente dos correios, cavalleiro do tosão, duque de Alcudia, primeiro ministro, principe da paz, grande de Hespanha de primeira classe, com dotação territorial de 50:000 piastras de rendimento, e general supremo dos exercitos (em 1800) com o tractamento de alteza serenissima (1807).
Em 1797 casára com D. Maria Thereza de Bourbon, filha natural do infante D. Luiz, irmão d'el-rei Carlos III. A rainha conviera n'este consorcio, já porque a noiva era abominavel de feia, já porque tinha zelos infernaes de Josefa Tudo, formosissima mulher com quem o seu valido casára clandestinamente, intitulando-a depois condessa de Castello-Fiel.
D. Manoel de Godoy, que assim tocára o galarim das grandezas humanas, desceu tão rapido quanto subira.
Conjuraram contra elle influencias internas e externas.
Os hespanhoes, obrigados a guerrear a Inglaterra, odiavam o amigo da França. Este odio exasperou-se depois do desastre de Trafalgar, onde acabou para sempre o poder naval de Hespanha. Á frente dos adversarios do principe da paz sahiu o principe das Asturias, chamado depois Fernando VII.
Seguiram-se evoluções politicas, em que o heroe a resvalar ao ponto d'onde subira, se voltou contra a França, de accordo com Portugal. Em 1808 preparava-se para fugir com a familia real, quando rebentou no Aranjuez a revolução em que sua alteza serenissima se escondeu em uma talha, e não foi estrangulado pelo povo a pedido do rei e da rainha.
Ainda depois d'esta crise, o duque de Alcudia voltou a dominar o animo dos reis de Hespanha, e a rehaver a confiança de Napoleão; mas a final o baque foi irreparavel. Passou a França, e depois a Roma, onde o papa o intitulou principe de Passerano.
Em Hespanha, confiscaram-lhe os bens. A esposa, de quem elle se divorciára amigavelmente, vivia pobre em Paris, intilulando-se duqueza de Chinchon, e lá morreu em 1828. O viuvo declarou então que já era casado com Josefa Tudo. A unica filha de D. Manoel Godoy casou em 1820 com o principe romano Raspoli.
Até 1844, o principe da paz viveu em Paris tão convisinho da indigencia que Deus sabe se elle teve tentações de tanger a guitarra da sua juventude á porta dos amadores do genero. Depois de 36 annos de exilio, obteve licença de entrar em Hespanha, e readquiriu parte dos bens, que lhe permittiram dez annos de vida relativamente abastada.
Morreu, por 1851, em Paris, com 84 annos de idade.
Os biographos d'este homem extraordinario ignoram todos que elle era, em Portugal, conde de Evora-Monte por carta de 2 de outubro de 1797.
Tambem desconhecem que o alvará de mercê o faz primo de D. Maria I, e descendente de D. Pedro I e de D. Ignez de Castro, por ser quarto neto de Francisco de Faria, alcaide-mór de Palmella: descendencia a mais imaginosa que ainda vimos amanhar-se em cabeças de nobiliaristas.
Ahi vai o alvará que é documento não despeciendo:
«D. Maria, etc. Faço saber aos que esta minha carta virem que attendendo á mui antiga, e esclarecida nobreza, qualidades, e distinctos merecimentos de D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches Sarçosa, principe da paz, duque de Alcudia, grande de Hespanha de primeira classe, meu primo, e aos grandes serviços, que a estes reinos fizeram seus maiores antes e depois da fundação da monarchia com repetidas, e assignaladas acções, que os fizeram benemeritos da augusta consideração, e real munificencia dos senhores reis meus predecessores: tendo entendido ser o dito D. Manoel quarto neto de Francisco de Faria, alcaide-mór, e commendador de Palmella, por ser o filho segundo de Diogo Rodrigues de Faria, que passou a Hespanha d'um modo inculpavel, e de quem D. Manoel é terceiro neto: para dilatar com a maior distincção a memoria d'uma tão distincta familia, a qual pela mesma linha de Francisco de Faria é descendente do snr. rei D. Pedro I, e de D. Ignez de Castro, de quem descende a maior parte dos soberanos da Europa; tendo muito segura confiança nos sentimentos verdadeiros, e honrados de D. Manoel, hereditarios na sua familia, que tem lealmente exercitado em beneficio de meus reinos; conformando-me com os augustos, e cordiaes desejos de suas magestades catholicas, esperando, que assim os continue: hei por bem, com aprazimento dos mesmos reis catholicos, pelos ditos respeitos, e por honrar em D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches Sarçosa, a familia de Faria, de que descende, fazer-lhe a mercê do titulo de conde de Evora-Monte, com o senhorio para elle e seus descendentes, que houver na sua casa dispensando na lei mental, e quero e mando, que elle D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches Sarçosa se chame conde de Evora-Monte, e com o dito titulo goze de todas as honras, graças, liberdades, preeminencias, prerogativas, authoridades, e franquezas, que hão, e tem, e de que usam, e sempre usarão os condes d'estes reinos, assim como por direito, uso, e antigo costume lhe pertencem, das quaes em tudo, e por tudo quero, e mando que elle use, e possa usar por direito, uso, e costume sem minguamento, ou duvida alguma, que a isso lhe seja posta, porque assim é minha vontade, e com o referido titulo de conde de Evora-Monte haverá o assentamento que lhe pertencer, de que se lhe passará alvará na fórma costumada, e por firmeza de tudo lhe mandei dar esta carta por mim assignada, e sellada com o sello pendente de minhas armas, e passada pela chancellaria: e hei por bem que d'esta mercê se não paguem direitos alguns velhos, e novos, não obstante os regimentos, e quaesquer disposições contrarias. Dada no palacio de Queluz em 2 dias do mez de outubro do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1797.--O principe com guarda.==José de Seabra da Silva.==Joaquim Guilherme da Costa Posser, a fez.»
Respeito a Farias, houve um, em tempo d'el-rei D. Fernando. O leitor conhece da historia e do romance o celebrado alcaide do castello de Faria, chamado Nuno Gonçalves, que os castelhanos mataram, quando elle, na barbacã da fortaleza, ameaçou de maldição o filho, se a entregasse para salvar seu pai. O snr. Herculano refere este caso com primoroso enthusiasmo.
O filho chamava-se Gonçalo Annes, que se fez clerigo por desgosto de vêr alli trespassado o pai debaixo de seus olhos; a paixão, porém, não lhe impedia reproduzir-se em tres meninos, de quem foi mãi Aldonsa Vasquez.
Do mais velho, que se chamou Nuno Gonçalves de Faria, conhece-se a descendencia. Esse Diogo que no alvará se diz ter passado a Castella, nem era filho de Francisco de Faria, nem passou a Castella: era filho do valido de D. João II, Antão de Faria, e casou com D. Maria de Goes, filha de Simão de Goes Machado.
No lapso de quatro seculos, a varonia do alcaide de Faria--a que eu considero mais respeitavel, mais poetica, mais desculpavel aos fanaticos d'estes archaismos--é a que se tiver conservado na posse das penedias contiguas do esboroado castello, cuja alcaidaria foi do heroico Nuno Gonçalves. O possuidor, ha trinta annos, d'essas ruinas, era João de Faria Machado Pinto Roby. Vendeu as ruinas a um brazileiro.
No mesmo anno em que morreu em Paris sua alteza serenissima o principe da paz, seu parente, morria elle em Lisboa. A providencia divina fez-lhe a mercê de o resgatar assim de um grande supplicio: elle sahia de noite, e pedia esmola aos que passavam. Tinha sido redactor do Nacional de Lisboa, e official de cavallaria muito valente.
Deixou um filho chamado Isidoro de Faria Machado que se suicidou ha dous annos em Lisboa.
Uma de suas filhas é hoje viuva do visconde da Carreira, Luiz. As outras não sei que destino tiveram.
Toda esta noite se me foi de insomnia, a vêr sempre, na penumbra da lamparina, um homem que em Lisboa, ha 24 annos, me dizia com a face coberta de lagrimas:
--Procurei tres amigos que me foram hospedes em meus lautos jantares, quando eu aqui dissipava o meu ouro e a minha intelligencia no serviço da politica. Apenas um se lembra de me conhecer em 1838; mas este é pobre; os outros não se recordam... Sabe qual é a minha esperança?
--A queda dos Cabraes?
--Não: uma congestão cerebral.
Bella e bem realisada esperança!
O representante de Nuno Gonçalves de Faria foi levado morto á sua familia no largo dos Cardeas de Jesus, por uma noite fria e chuvosa, quando as carruagens, que se recruzavam para bailes e theatros, o aspergiam da chuva dos tejadilhos e da lama das rodas.
EM QUE VEIAS GIRA O SANGUE DE CAMÕES?
Não é de mais saber-se isto, quando é moda esmiuçar tudo que entende com o maior poeta do seu seculo.
O livro mais extravagante que, a tal respeito, viu a luz, é a Historia de Camões pelo snr. doutor Theophilo Braga.
As incurias, as criancices, os desvarios que esfervilham n'essas 441 paginas não aparam a pontoada da critica. O livro faz tristeza... porque faz rir; e, por muito frouxo que seja o espirito de patriotismo no censor dos escriptores seus conterraneos, dóe ter de dizer: «o professor de litteratura fez córar a face dos discipulos.»
Os meus reparos n'este livro tocam sómente com o que ha n'elle relativo á familia de Luiz de Camões; mas, ahi mesmo, é deploravel a falta de siso do biographo.
A pag. 233 suppõe o snr. Theophilo que entre uns papeis que se perderam de Luiz de Camões houvesse cartas escriptas aos seus amigos mais valiosos intercedendo por seu pai que estava preso.
A pag. 243, no summario do capitulo VI, diz: A noticia do perdão de seu pai Simão Vaz de Camões. Temos ainda Camões com pai.
A pag. 259: Por estas mesmas novas chegadas de Lisboa nas Náos partidas no principio do anno de 1557 soube Camões... da sentença que condemnava Simão Vaz de Camões, seu pai, para o degredo perpetuo do Brazil com pregão e cadeado.
O leitor chega ao cabo do livro, persuadido que Camões tinha um pai, que por estouvamentos de rapaz devasso, ahi na volta dos 60 annos, mereceu ser condemnado a degredo com pregão e cadeado; mas, por acaso, volta a pagina das erratas, e vê que o biographo lhe pede que leia primo onde estiver pai. Parece uma anecdota isto!
Que razões motivaram esta correcção? Que raio de luz dardejou o bom senso na ultima pagina do livro? Pois o doutor, durante a formação do estirado livro, não teve um intervallo lucido? E, se o teve no fim, porque não queimou a obra desde a primeira pagina, embora se perdesse a Carta de Ayres Barbosa a André de Rezende?
Eis aqui o modo como o snr. Theophilo descobriu a final que Simão Vaz de Camões era primo e não era pai do poeta.
Quando o livro ia sahir do prelo, a humilde pessoa, que escreve estas linhas, publicava, no Diccionario de educação de Campagne, um breve artigo intitulado Camões, em que se lêem estes periodos:
«Os louvores ao prodigioso genio de Luiz de Camões são tantos, e tão amiudados no discurso de tres seculos que já hoje em dia o repetil-os, pelos mesmos conceitos e fórmas encomiasticas, nos parece banal encarecimento. Mais util e plausivel nos avulta o esforço de alguns biographos empenhados em esclarecer os lanços menos claros da biographia do poeta. N'esta ardua lide tem mostrado ardente zelo o snr. visconde de Juromenha, o mais particularisador noticiarista da vida de Luiz de Camões. Todavia, assentando boa parte de suas innovações em conjecturas, resulta que a louvavel vontade de esclarecer se demasie em hypotheses pouco menos de inverosimeis. Está em o numero d'estas a affirmativa de residir em Coimbra por 1556, o pai de Luiz de Camões, Simão Vaz. Este mesmo é na hypothese do biographo, um tal que o corregedor de Coimbra enviava preso a Lisboa, em 1563, por ter entrado em mosteiro de freiras, e vem a ser o mesmo que em 1576, juntamente com os seus criados, espancava o almotacé de Coimbra. Bastaria a despintar da phantasia do snr. visconde de Juromenha semelhante conjectura, a pobreza do filho, que recebeu 2$400 reis para se alistar na armada, em lugar d'outro, em quanto seu pai, com mais de cincoenta de idade, andava por Coimbra escalando conventos, e já com mais de setenta espancava as justiças, acaudilhando criados,--circumstancia indicativa de vida abastada, e orgulho de fidalgo com as posses que dão azas ao orgulho.
«De todo em todo aniquila a supposição de que o mexediço Simão Vaz de Camões haja sido pai do poeta, e marido da desvalida Anna de Macedo, uma nota do snr. doutor Ayres de Campos, sobposta ao traslado da provisão passada em 16 de maio de 1576, a respeito das injurias e offensas praticadas por Simão Vaz de Camões no almotacé. Eis a nota: «E para tambem não ficarmos culpados em passar por alto alguns outros documentos que com estes tem estreitas relações, aqui os apontamos desde já em quanto as suas integras não forem publicadas no supplemento. Assim elles vão prestar auxilio valioso, e não grande embaraço a todos os criticos illustres que, talvez fascinados por meras semelhanças de nomes e appellidos, não teem hesitado em attribuir ao turbulento cidadão conimbricense Simão Vaz de Camões, muito vivo e são em 1576, a honrosa paternidade legitima do author dos Lusiadas.» Cita mais o insigne antiquario a vereação da camara de Coimbra de 31 de julho de 1563 da qual se deprehende que Simão Vaz havia casado em 1562, e casára novamente. Ora, quer o novamente signifique segundas nupcias, quer primeiras, como alguem aventa, sem dar a razão do alvitre, é certo que esse não podia ser o pai de Luiz de Camões, que falleceu antes de sua mãi. (Veja Indices e Summarios dos Livros e Documentos mais antigos e importantes do Archivo da Camara Municipal de Coimbra. Coimbra, 1867, pag. 7).
«Temos presente a genealogia dos Camões, manuscripto de Jorge de Cabedo, fallecido em 1602 ou 1604, e pelo tanto contemporaneo de Luiz de Camões. (Veja Diccion. bibliog. de I. F. da Silva, tom. IV, pag. 161).
«Cabedo falla do bisavô do poeta João Vaz de Camões, que foi corregedor em Coimbra, e jaz em Santa Cruz.
«Segue Antão Vaz de Camões (filho d'aquelle e avô do poeta) que casou no Algarve com Guimar Vaz da Gama. Menciona Simão Vaz de Camões (filho de Antão Vaz e pai do poeta) que foi por capitão d'uma náo á India, e deu á costa á vista de Goa, salvou-se em uma taboa, e lá morreu, deixando viuva Anna de Macedo, dos Macedos de Santarem.
«Faz tambem menção de outro Simão Vaz de Camões, residente em Coimbra, parente proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca Rebello[1] filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casára com Domingos Roque Pereira[2].»
O snr. Theophilo leu isto sem duvida alguma, e cedeu aos singelos argumentos do artigo do Diccionario.
Que faria o leitor, sendo (Deus o livre!) author do livro de Theophilo?
A não entregar a obra toda ao fogo purificador dos seus creditos litterarios, rasgava as paginas em que chamava pai a Simão Vaz, substituindo-as por outras em que lhe chamasse primo.
Diga-se verdade: o snr. Theophilo rasgou duas paginas do livro, a 59 e 60; mas devia inutilisar as seguintes em que subsistem os erros derivados da confusão dos dous homonymos Simão Vaz de Camões.
Escrevi no Diccionario, reportando-me impensadamente a um genealogico dos Camões: «Faz tambem menção de outro Simão Vaz de Camões, parente proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca Rebello, filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casára com Domingos Roque Pereira.»
Escreve o sr. Theophilo na regenerada pag. 59:
«Simão Vaz de Camões, que em 1562 casou em Coimbra com Francisca Rebello, filha de Alvaro Cardoso[3].»
Convido o snr. Theophilo Braga a declarar onde leu a noticia de tal casamento! Com toda a certeza, a primeira pessoa, que imaginou vêr isto em letra de mão, e o pôz em escriptura, desde que ha letra redonda, fui eu.
Pesa-me do intimo seio que o snr. doutor T. Braga escorregasse na ladeira do meu engano. Já o snr. Felner lhe armou a esparrella da carta de Ayres Barbosa; e eu, mais innocentemente, fil-o casamenteiro de Simão Vaz com Francisca Rebello! É fado esquerdo do snr. Theophilo! Porém, o que tem graça infinita é o snr. doutor fixar o anno do casamento em 1562! Que eu o inventasse, vá; mas que o snr. Theophilo lhe marcasse o anno, é vontade de callaborar nas indiscrições alheias!
Isto não é simplesmente criancice párvoa--é desgraça; é mais que desgraça--é castigo da Providencia, porque o sr. Theophilo ladrou arrogantemente a Castilho, a Herculano, a Garrett, a Rebello, a Varnhagen; e não houve ainda detrahidor tão audaz, tão ignorante, e, sobre ignorante, ridiculo.
O meu lapso procedeu de confundir dous nomes confusamente escriptos em uma arvore genealogica. Simão Vaz de Camões, o libertino parente do poeta, casou com uma sua criada, e morreu sem descendentes. Esta é a verdade. Quem casou em Coimbra com Francisca Rebello, filha de Alvaro Rebello Cardoso, morgado das Caldas, foi Simão Vasconcellos, e não Simão Vaz.
Cá me fica pesando na consciencia o tempo e o papel que o snr. Theophilo desperdiçou. De ambas as cousas tenho escrupulo; menos da data do casamento; que essa é d'elle.
Mas, se o snr. Theophilo substituiu as duas paginas que eram a fonte do erro, porque não supprimiu as correntes que derivam d'essa fonte? Não viu que todas as referencias ás paginas substituidas ficavam incomprehensiveis? O sentimentalismo que enternece o pesar do poeta pela prisão do pai não póde subsistir racionalmente na prisão do primo! Que faz então o snr. Theophilo? Usa processos sobre maneira economicos:
ERRATA
Onde se lê pai, leia-se primo.
E está acabado.
Ninguem me dê definições d'este preceptor infeliz!
Contem-me esta passagem, que eu não preciso cenhecel-o de perto, nem lobrigar-lhe o feitio interior dos camarins do pensamento. É um cháos! Eu já não me admirarei se o snr. Theophilo, depois de esponjar alguns centos de livros, escrever uma Errata geral n'este sentido: onde se lê: Obras de Theophilo, leia-se: Manobras do mesmo.
*
* *
Se o leitor quer, vamos agora farejar sangue de Camões nas veias dos nossos contemporaneos. Não cuide, porém, que vai deliciar-se n'esta leitura. É materia árida, fructo das taes insomnias constantes do proemio do numero primeiro.
Vasco Pires de Camões veio de Castella no tempo de Fernando I. Foi alcaide-mór de Alemquer e Portalegre. Fugiu para Castella, quando o mestre de Aviz se levantou com o reino. Foi prisioneiro em Aljubarrota, perdeu os bens da corôa; mas cá ficou.
Gonçalo Vaz, seu primogenito, instituiu um morgado em Evora, chamado da Camoeira. Não temos que vêr com os outros filhos, cujos descendentes ou foram pobres, ou identificaram os seus haveres nos morgadios do primeiro ramo, á falta de geração.
Succedeu-lhe Antonio Vaz, pai de Lopo Vaz de Camões, cujo primogenito, tambem Antonio Vaz, teve um filho, que outro sim se chamou Lopo, e fez um morgado em Aviz.
D'este ultimo gerou-se D. Anna de Castro, que foi casar a Guimarães com Diogo Lopes de Carvalho, quarto senhor dos coutos de Abbadim e Negrellos no tempo de Philippe II.
Luiz Lopes de Carvalho, 5.º senhor dos coutos, foi assassinado em Guimarães.
Gonçalo Lopes de Carvalho Camões e Castro Madureira, bisneto de Lopo Vaz de Camões, succedeu nos morgados da Camoeira da Torre de Almadafe no termo de Aviz, e da Gesteira no termo de Evora, ambos creados por Gonçalo Vaz de Camões e Duarte de Camões, ultimo representante da varonia, que morreu sem geração, e por isso os vinculos passaram aos descendentes femininos de Lopo Vaz de Camões, que eram os senhores de Abbadim e Negrellos. Existia esta posse em 1692[4].
Thadeu Luiz Lopes de Carvalho, filho de Gonçalo Lopes, casou, depois do anno 1718, em Lisboa, com D. Brites Thereza de Menezes, que morreu muito nova. Celebrou segundas nupcias com D. Francisca Rosa de Menezes e Mendonça, filha de D. Francisco Furtado de Mendonça.
Tiveram filhos varões, que morreram na infancia, e tres filhas que casaram: D. Marianna Luiza Ignacia, com Caetano Balthazar de Sousa de Carvalho, alcaide-mór de Villa Pouca de Aguiar; D. Anna Joaquina, com Gonçalo Barba Alardo Corrêa, em 1751; D. Guiomar Marianna Anacleta de Carvalho Fonseca Camões e Menezes, herdeira, com D. Antonio de Lencastre, governador de Angola--(1772-1179), filho segundo de D. Rodrigo de Lencastre.
Nasceram, entre outros fallecidos na infancia, um filho, que se chamou D. Rodrigo de Lencastre Carvalho Fonseca e Camões, e uma senhora, D. Francisca Rosa de Lencastre, que casou com seu primo Lourenço de Almada, 1.º visconde de Villa Nova de Souto de El-Rei.
D. Rodrigo, herdeiro dos morgadios e senhorios de Negrellos, Abbadim, etc., e sargento-mór do regimento de cavallaria do principe D. João em 1791, casou com D. Maria do Carmo Henriques, filha herdeira de João Henriques, do Bombarral.
No morgado da Camoeira succedeu o 2.º visconde de Souto de El-Rei pelo seu casamento com D. Francisca Felizarda de Lencastre, filha de D. Guiomar de Camões, senhora de Abbadim e Negrellos. Uma filha d'estes viscondes, D. Guiomar, casou com Gonçalo da Silva Alcoforado.
Está, por tanto, o sangue dos Camões em todos os descendentes da mulher do 1.º visconde de Souto de El-Rei. O terceiro ainda se assignou com o appellido Camões. Está igualmente na familia Alcoforado da casa da Silva, na familia da casa de Villa Pouca de Guimarães; nos descendentes de José Bruno de Cabedo, 1.º barão do Zambujal, por linha feminina, pois sua mãi era neta de D. Guiomar de Carvalho Camões e Fonseca; na casa da Pousada em Braga, representada ha quarenta annos por Francisco Xavier Alpoim da Silva e Castro, terceiro neto de Thadeu Camões, senhor de Abbadim.
Em quasi analogo parentesco estão os snrs. Leites de Paço de Sousa, e os snrs. Pachecos Pereiras de Villar, ou de Belmonte.
Não prolongarei esta resenha que de certo, hoje em dia, se ramifica tão copiosamente quanto cumpre imaginar das faculdades reproductoras das pessoas que representam aquelles illustres appellidos.
Falta dizer que Luiz de Camões deixou um filho que não se reproduz, e é immortal: chama-se Lusiadas.
[1] Adiante se verá que fui inexacto n'esta noticia.
[2] Este Simão Vaz de Camões era filho de Duarte de Camões de Tavora, filho de outro Simão Vaz de Camões, senhor do morgado da Torre. Casou Duarte com D. Isabel Lobo, filha de Ayres Tavares e Sousa, de quem houve, além de Simão Vaz de Camões, Luiz Gonçalves de Camões, e D. Maria da Camara, que casou com Francisco de Faria Severim. Quanto ao Simão que viveu em Coimbra, diz o linhagista que se casára á sua vontade, como quem desfaz na estirpe da esposa.
[3] A pag. 417 amplia o traslado do meu artigo, escrevendo: a qual casou depois em segundas nupcias com Domingos Roque Pereira.
[4] Veja Memorias resuscitadas da antiga Guimarães, pelo padre Torquato Peixoto de Azevedo, em 1692, pag. 361.
LISBOA
Antes do traslado, darei breve noticia do livro de outro viajante bem creado que nos visitou mais de espaço em 1730. A Description de la Ville de Lisbonne, impressa em Paris, n'aquelle anno, é facil de encontrar em Portugal.
Este viajante esteve no paço da Ribeira. Viu as riquissimas alfaias do vasto palacio. Reinava D. João V, o Salomão do occidente. Que valores não sorveu aquella vasa do Terreiro do Paço vinte e cinco annos depois!
Uma cousa achou tristissima o viajante; eram as noites de Lisboa:
«Esta grande cidade (diz elle) não é alumiada de noite, e é isso causa a que um homem se veja em embaraços para acertar com o seu caminho, e soffra sobre si os despejos de immundicies que lá se atiram das janellas ás ruas, porque as casas não tem latrinas. A obrigação de cada qual é levar essas immundicies ao rio, para o que ha negras que se occupam n'este serviço muito baratas; mas a plebe não quer saber d'essas ordens. Nas ruas não se anda de noite com bastante segurança, salvo quando se é, como lá dizem, embuçado, isto é, quando se envolve a gente em um farto capote, desde a cabeça até ás canellas: é um trajar exquisito, de que usam as pessoas mais qualificadas, e até os principes, como trajo privilegiado e respeitado. O respeito que se tem a esta especie de mascara, vem de impedir que os taes se reconheçam, e do receio que o disfarce encubra armas de fogo prestes a disparar-se sobre quem os insultar ou quizer conhecer... Lisboa não tem passeio algum, nem divertimento de nenhuma casta a não ser um mau theatro hespanhol. Os fidalgos, não obstante, frequentam este theatro; e, depois que sahem[5] vão gastar o restante do dia a passear nas suas carruagens, na praça do Rocio, onde palestream até á noite, sem sahir das carruagens. As cadeirinhas usam-se muito, e as liteiras estão na moda das damas distinctas e dos velhos; mas, por conta das ruas intransitaveis, os coches são raros.»
Fallando de estalagens, diz que eram quasi todas francezas, inglezas e hollandezas, sendo a melhor de todas uma franceza na praça dos Romulares, onde o passadio de cada dia custava 6 francos.
Attribue a carestia á diminuta concorrencia de estrangeiros, que se hospedem fóra das casas dos amigos.
Já n'aquelle tempo, pelos modos, era mais barato hospedar-se a gente em casa dos amigos. N'este particular, não adiantamos nada. Outros forasteiros, que não tivessem amigos em Lisboa, costumavam alugar quartos, com uma banca, seis cadeiras de palha, louça de barro, e cama no chão, constante d'uma enxerga e duas cobertas, que á noite se desdobram sobre uma esteira de junco. Diz elle que nas hospedarias era peor.
Conheceu o sujeito em Lisboa uma senhora portugueza, casada com um negociante francez, de Bayonna. A tal senhora via o que se passava no interior do corpo humano e nas entranhas da terra, não tendo nos olhos senão grande belleza. Incommodava-se-lhe a vista quando divisava nos reconditos escaninhos da economia animal abscessos asquerosos. Via os phenomenos physiologicos da digestão, e dizia se o feto no ventre materno era macho ou femea, aos sete mezes. Na profundeza de 30 ou 40 braças descobria mananciaes d'agua. Estas prerogativas extraordinarias só as gozava em quanto estivesse em jejum; algumas vezes, porém, á hora de sesta, refinava no condão de vêr os rins de um homem gordo através do capote. Os descobrimentos de agua, já para o rei já para os particulares, o voto dos sabios e dos ministros, em fim, os incontroversos prodigios d'esta mulher grangearam-lhe a mercê regia do dom e o habito de Christo para seu marido.
O padre Le Brun, no anno seguinte á publicação d'este livro, metteu a riso a historia da lisboeta. (Veja Histoire critique des Pratiques superstitieuses, etc., l. 1.º, cap. 6, edição de Amsterd. 1733). Mas o cavalheiro de Oliveira que demorava então em Londres, onde publicava o seu Amusement periodique, a pag. 274 e seguintes do 2.º tomo, impugna a incredulidade do francez, com as seguintes razões. E note-se, primeiramente, que Francisco Xavier de Oliveira foi o portuguez mais incredulo do seu tempo; e, se não fugisse de Portugal, teria sido queimado como herege.
Diz elle:
«Eu não subscrevo ás suspeitas de impostura que o padre Le Brun irroga á mulher portugueza, porque a conheci pessoalmente, tendo ella entre onze e doze annos. Vi-a, pela primeira vez, em Paço d'Arcos na quinta de Jeronymo Lobo Guimarães, onde fôra para indicar o ponto onde havia agua. Do primeiro lanço de olhos, apontou o sitio. Lobo fez cavar no ponto indicado, e achou agua abundantemente. Verdade é que ella marcava entre seis e sete braças; e a agua borbulhou na profundidade de oito. Tambem é certo que, estando eu vestido, ella me disse positivamente os signaes todos que eu tinha na pelle, e o mesmo fez a cinco pessoas presentes. Afianço isto como testemunha ocular. Que ella visse através da pelle, nunca ouvi dizer...»
Prolonga-se o cavalheiro de Oliveira abonando os prodigios contrariados por Le Brun, e prosegue:
«Declarou esta menina que não podia entrar em igrejas e atravessar cemiterios, por causa do horror que lhe faziam os cadaveres enterrados, que ella via podres debaixo das lapides. Todos os tribunaes, e maiormente o do santo officio, tomaram conhecimento d'esta declaração. Abriu-se um tumulo como experiencia, e achou-se o cadaver qual ella o descrevera, antes que levantassem uma grossa lousa. Não sei que destino teve esta mulher: o que sei é que nem a inquisição nem algum tribunal a inquietou[6].»
Proseguindo na viagem do admirador da prodigiosa lisboeta, refere elle algumas cousas da côrte de D. João V que precisam ser esclarecidas.
Numera os officiaes, que servem a casa real, e diz que, áquelle tempo, o officio de mordomo-mór tinha vagado, em consequencia de ter fugido de Portugal em 1724 este empregado do paço com uma das mais formosas damas do reino, esposa de um fidalgo. E acrescenta:
«O rei mandou depós os fugitivos um esquadrão de cavallos; mas como elles levavam um dia de avanço, e correram á desfilada, a tropa não logrou apanhal-os; por maneira que chegaram a Vigo[7], na Galliza sem embaraço. Com tudo, breve lhes foi o contentamento; porque o bispo d'aquella cidade fez entrar a dama em um mosteiro, e o fidalgo retirou-se para Madrid. O marido da fugitiva vestiu-se de luto, assim que soube da fuga; e, conforme o prejuizo do paiz, ou como lá dizem os portuguezes, porque tinha barbas, jurou não apparecer mais sem matar o raptor, e matar ou enclausurar para sempre sua mulher.»
No immediato numero saberá o leitor quem foram os personagens d'este caso, que envolve tragedia digna de livro de maior fôlego.
[5] Vê-se que as representações eram de dia.
[6] São rarissimos ou talvez unicos em Portugal, estes livros do cavalheiro de Oliveira. Diz elle que apenas tinha na sua patria dous assignantes, e um era Jacome Raton.
[7] É erro: foi em Tuy.
VOLTAS DO MUNDO
Ayres Ferreira, da casa dos senhores de Cavalleiros, e couto de Frazão e Marvilla de Couros, viveu em Barcellos, no tempo de D. João III.
Teve quatro filhos e duas filhas.
Os rapazes, á excepção de um que morreu na infancia, foram todos servir na India: eram Ruy, Alvaro e Gonçalo.
As meninas professaram, e foram abbadessas perpetuas no mosteiro de Cós.
Os tres soldados grangearam fama no Oriente; e Ruy Ferreira de Mendonça, o mais velho, avantajou-se nas proezas--nas crueis façanhas que os Coutos e Barros chamaram proezas.
Não lhes desluzam, por isso, a memoria. Era seculo de trevas e de missionarios. Reinava D. João III, o inquisidor. Cada qual é do seu tempo. Se algum contemporaneo, como o bispo de Silves, protestou contra o fanatismo sanguinario, deve-se o protesto honroso a não ter ido lá o insigne escriptor. Se fosse, pegaria d'elle a contagião da carnagem, a peste d'aquelle ar infecto da sangueira, o colera que accendia sêdes de cubiça insaciavel.
No seu solar de Barcellos ficára Ayres Ferreira, sósinho e triste. Doia-lhe mais que tudo a saudade de Ruy, o seu primogenito, que lhe fugira, ancioso de batalhas, e invejoso dos irmãos, cujos nomes começaram a ser laureados na Asia em 1543. N'aquelle tempo, um mancebo de appellido Goes, renunciava esse appellido, que era o de seu progenitor, em affronta ao pai que lhe impedira servir as armas na India!
Um dia, Ruy Ferreira de Mendonça recebeu em Goa carta de seu pai, queixando-se dos filhos que o deixaram velho, desamparado, e exposto aos affrontamentos de quem já lhe não temia o braço alquebrado por annos e desgostos.
E contava que o abbade de Creixomil, clerigo fidalgo e possante, ousára pôr-lhe as mãos nas barbas.
Ruy sahiu com a carta de seu pai em demanda do vice-rei a pedir-lhe licença para vir ao reino. O vice-rei negou-lh'a, com o intento de evitar um crime, privando-se de um dos seus mais valentes capitães. E, sabendo que o fidalgo lhe não obedeceria e se andava negociando clandestinamente passagem nas náos, deu-lhe ordem de prisão até que os navios levassem ancora.
As náos abalaram, e Ruy foi posto em liberdade.
Apenas livre, correu á barra, avistou ao longe o velame, arrojou-se ás ondas, e nadou na esteira d'ellas. Quatro horas bracejou, reagindo ao sossobro, que já o levava de vencida. Favorecido por subita calmaria, as náos balouçavam-se paradas, e as vagas alisaram-se como lago de aguas estanques. Viram da amurada o homem que nadava. O capitão, que lhe quizera dar passagem occulta, suspeitou quem fosse, e mandou, uma lancha com oito remadores ao encontro d'elle. Colheram-o reanimado, mas em tamanho quebranto de forças que levou dias a restaurar-se. Tinha cortado duas leguas de mar!
Desembarcou em Lisboa, e seguiu para o Minho.
S. Thiago de Creixomil, abbadia do então chamado Couto de Fragoso, demorava no termo de Barcellos.
Ahi vivia o clerigo que affrontára Ayres Ferreira.
Ruy, antes de se avistar com o pai, bateu á porta do abbade, e enviou-lhe o seu nome.
O fidalgo tonsurado desceu ao recio da sua residencia, empunhando a espada de cavalleiro. O soldado da India rejubilou quando viu o adversario armado. Vexava-o ter de matar um inerme. Travaram-se os dous gladios; mas que prelio tão desigual entre o guerreiro experimentado e o fidalgo que sabia apenas a esgrima de curioso! Á volta de poucos botes, o abbade de Creixomil cahiu traspassado do peito ás costas, ouvindo estas vozes frementes de odio:
--Perro! não pozesses as mãos nas barbas de um velho!
E depois foi beijar a mão a seu pai, com quem se demorou algumas horas, e partiu para não perder a passagem das náos que estavam de vela para a India.
E lá foi ceifar novos louros.
Passados annos, o solarengo de Barcellos morreu, e foi sepultado na capella do Santissimo Sacramento da igreja matriz de Barcellos, onde estavam os ossos de seus paes e avós.
Ruy Ferreira voltou ao reino, e succedeu na casa de seu pai.
Ninguem lhe pediu saldo de contas com os descendentes do abbade que naturalmente os tinha, de collaboração com as mais nitidas ovelhas do seu rebanho.
Disputou a posse do morgadio de S. Pedro de Fajozes, no concelho da Maya, a sua prima D. Joanna de Eça, da casa de Cavalleiros. Ganhou a demanda.
Em seguida, casou com D. Philippa de Athaide, filha de Martim Lopes de Azevedo, decimo primeiro senhor da casa e solar d'Azevedo e da Villa de Souto.
Tiveram seis ou mais filhos; parte d'estes morreram na India.
A representação d'esta casa, volvidos 60 annos, estava em Duarte Pacheco Pereira, governador de Ormuz, descendente do heroe desgraçado que teve aquelle nome; porque um bisneto de Ruy, chamado Luiz de Mendonça, casou com D. Guiomar de Albuquerque, neta de Duarte Pacheco Pereira.
Eu não sei se algum dos trinta e quatro barões que conheço, estando no Brazil, e sabendo que seu pai, o tio Antonio da Thereza, foi espancado pelo estadulho do tio Joaquim da Thomazia, seria capaz de vir da rua da Quitanda desaffrontar o seu velho progenitor! Acho que não; e faria muito bem. Ha 300 annos, aquelle Ruy poz o abbade a dormir o somno eterno, cavalgou na sua mula, e lá foi socegadamente para Lisboa, e de Lisboa para a India. Hoje em dia, se o barão de Ranhados matar o Januario do Quinchoso, que lhe bateu no pai, o mulherio grita á d'el-rei, o regedor participa ao administrador, este faz uma circular telegraphica para os quatro pontos cardeaes, e o barão, quando chegar, mais aqui ou mais além, dá de cara com dous policias, e depois bem sabemos o resto.
Mudaram os tempos pela mesma razão que mudaram os fidalgos. Não ha pai por filho nem filho por pai, em quanto se ganha dinheiro.
Entre heroismo antigo e dinheiro moderno está um fosso. Quem quizer palmilhar de salto as duas orlas do abysmo cahe no ridiculo ou... nas mãos da policia.
NOVA SOLUÇÃO DO PROBLEMA HISTORICO
Cá está outra que me parece mais sensata que a primeira. O premio, infelizmente para o verdadeiro merito, era já distribuido. Não obstante, o snr. Bibliophilo ha de ser galardoado. A minha livraria é pobre: não vejo livro digno de s. s.a; mas vou munir-me de duas joias litterarias, que submetto á escolha do douto letrado.
Disponha, pois, s. s.a do Faust do snr. Joaquim de Vasconcellos, ou dos Originaes opusculos do snr. Jayme José Ribeiro de Carvalho. A primeira, bem que não trate de hygiene, é drastica; a segunda, posto que entenda com a sciencia dos derivativos, corre parelhas com a utilidade da primeira. D'este modo, dou testemunho publico da consideração que me merece o bibliophilo, e fio muito dos dous offerecidos authores a lapidação do seu espirito, que reslumbra e rasga na seguinte carta destinos de nenhum modo chochos.
«Snr. redactor das noites de insomnia.
«Estimo esta occasião de o informar de um caso que succedeu em 1693, e esclarece completamente as suas duvidas a respeito do augusto forasteiro que tres pontifices sentenciaram rei de Portugal.
«Tenho a satisfação de possuir um folheto rarissimo que meu avô conseguiu salvar no incendio da livraria do conde da Ericeira, em 1755. É conhecido outro exemplar no Museu britannico. E eu preso-o tanto que não me desfiz d'elle, quando me offereceram em troca as obras completas do doutor Theophilo, e sete menos cinco em dinheiro.
«Intitula-se a minha raridade: Relaçam do sucesso que teve o patacho chamado Nossa Senhora da Candelaria da Ilha da Madeira, o qual vindo da Costa de Guiné, no anno de 1693, huma rigorosa tempestade o fez varar na Ilha incognita. Que deixou escripta Francisco Corrêa, mestre do mesmo patacho, e se achou no anno de 1699, depois da sua morte. Impresso em Lisboa em 1734.»
«Aproveitando as suas insomnias, vou dar-lhe muito resumida a substancia do referido opusculo.
«Conta Francisco Corrêa que, ao avistar as ilhas de Cabo-Verde, toldou-se repentinamente o céo, e logo uma nebrina escura fez noite a bordo, a termos de se não conhecerem os tripolantes. De subito, pegam de esfuziar nas gaveas repellões de ventania, e os relampagos a fuzilarem, e logo as nuvens negras a abrirem-se em jorros de chuva.
«Traquete e mezena voaram. A embarcação fez agua por todas as pranchas descosidas; e, apesar de esforços desesperados, não vingaram cegar os sorvedouros. Quinze eram os nautas que se deram em uma jangada á misericordia divina. Ao abrir da manhã, avistaram a leste uns morros pardacentos; mas como não tinham governo que alli os proejasse, deixaram-se ir na corrente e á mercê de Deus até varar em terra.
«Em quanto se reparava a embarcação, o mestre do patacho, com Manoel Antunes e João de Arruda, embrenharam-se no matagal com os arcabuzes bem cevados. Viram mono de oito palmos, e dentes de duas pollegadas e meia; viram cobras grossas como pipotes de oito almudes; e viram a final uma mulher marinha que Francisco Corrêa descreve d'este feitio:
«Tinha todas as perfeições até á cinta, que se discorrem na mais formosa, e sómente a desfeavam as grandes orelhas que tinha, pois lhe chegavam abaixo dos hombros, e quando as levantava, lhe subiam a distancia de mais de meio palmo por cima da cabeça. Da cinta para baixo, toda estava coberta de escamas, e os pés eram do feitio de cabra, com barbatanas pelas pernas. Tanto que se viu no monte, presentindo ser vista, deu taes berros, que estremecia a ilha, pelo retumbo dos echos; e sahiram tantos animaes, e de tão diversas castas, que nos causou muito medo. Arrojou-se finalmente ao mar pela outra parte com tal impeto, que sentimos nas aguas a sua vehemencia. Todos se assustaram, menos eu, pois já tinha visto outra no cabo de Gué; e tinha perdido o medo com outras semelhantes apparições; e me lembra, que junto a Teneriffe vi um homem marinho de tão horrendo feitio, que parecia o mesmo demonio. Tinha sómente a apparencia de homem na cara, na cabeça não tinha cabellos, mas uma armação, como de carneiro, revirada com duas voltas; as orelhas eram maiores que as de um burro, a côr era parda, o nariz com quatro ventas, um só olho no meio da testa, a bocca rasgada de orelha a orelha, e duas ordens de dentes, as mãos como de bugio, os pés como de boi, e o corpo coberto de escamas, mais duras, que conchas. Uma tempestade o lançou em terra, e taes bramidos deu, que entre elles expirou, e para memoria se mandou copiar a sua fórma, e se conserva na casa da cidade d'aquella ilha.»
«Ao terceiro dia, 8 d'agosto de 1693, ouviram uma voz lá dos reconcavos da serra, a bradar: Portugal! Castella! Seguindo a toada das exclamações, toparam um homem de venerando aspecto, que lhes fallou assim:
«Graças a Deus Senhor; infinitas graças vos dou, por me chegardes a tempo, depois de tantos annos, em que eu visse gente da Europa; e logo olhando gravemente, e cortez para nós, disse: Senhores, de que nação sois? Nós pasmados, não acertavamos a responder; e conhecendo elle o nosso susto, nos animou brandamente, rogando-nos para a sua pobre habitação, aonde entrámos, e sentados em um tosco pau, nos fallou com taes palavras:
«Senhores, sois portuguezes, ou castelhanos? Respondei sem susto; que não tendes, quem n'esta ilha se opponha aos vossos designios. Se me procuraes, para acabardes com a minha vida, aqui me achaes sem resistencia, e sem defensa mais que a de Deus; e como de tanto viver estou aborrecido, grande favor me fazeis em me alliviardes de tão grande penalidade. Eu, que respeitava a sua pessoa, desejando satisfazer á sua pergunta, o certifiquei de que eramos portugueses, que arribáramos com um grande temporal áquella ilha: do que, tanto que me ouviu, posto de joelhos, levantadas as mãos, pondo os olhos no céo, soltando as lagrimas, deu graças a Deus, dizendo: Ah bom Deus, quão grande é a vossa infinita Providencia! E levantando-se, nos abraçou, e saudou, dizendo: Meus portuguezes, meus portuguezes; sem que as lagrimas cessassem: e levando-nos para o interior da cova, nos fez sentar junto a si, perguntando-me pelos companheiros, e pelo nosso infausto successo, de que lhe démos larga conta. Perguntou-nos quem reinava em Hespanha, e sabendo que em Castella reinava Carlos II, e em Portugal D. Pedro II, suspirando com alvoroço, disse: E Portugal tem rei! Oh Deus immenso, que te lembraste do teu reino! E dizendo-lhe nós como fôra acclamado el-rei D. João IV, e os milagrosos successos d'aquelle dia, não cessava de mostrar o gozo, que interiormente sentia: e logo repetindo novas lagrimas, suspiros, e soluços, nos perguntou pela conquista de Africa, ao que respondemos dando-lhe conta, do que sabiamos, e como desde a batalha, que perdera el-rei D. Sebastião, se não continuára, tomando-se horror a tal terra: e desejosos nós de sabermos com quem tratavamos, lhe pedimos nos consolasse, dizendo-nos, quem o levára áquella ilha incognita, e não arrumada nas cartas, e roteiros; ao que satisfez com taes palavras:
«No tempo, que Philippe II entrou com violencia em Portugal, se retirou muita gente, por não vêr o seu reino recuperado das mãos dos mouros pelos nossos ascendentes, sem ajuda dos visinhos, sujeito a principe estranho. Muito tempo andei retirado, discorrendo pelo interior da Africa, passei á Palestina, e outras terras, tendo tantos trabalhos por muito suaves, na consideração, de não vêr com os meus olhos o quanto padeciam os meus naturaes; e passados alguns annos, passando á Europa, cahi nas suas mãos; e entregando-me a certos homens, me levaram a uma embarcação na bahia de Cadix, que promptamente se fez á vela. Tinha o cabo ordem particular para que em certa altura me lançassem ao mar, sem que me ouvisse, nem me deixasse fallar; e notando elle as minhas acções, e innocencia, suspendeu a execução; até que na altura de Cabo Verde, me intimou a ordem com tanto pezar, que bem entendi o desejo que tinha de me favorecer. Preparou-se uma lancha, o melhor que se pôde, e n'ella se pôz mantimento para tres dias. Entrou logo a animar-me, exhortando-me a que confiasse em Deus, que me poderia livrar do perigo, a que me haviam de expôr: e me mandaram baixar á lancha, o que não quiz executar, sem me confessar, e me preparar espiritualmente, para entregar a alma a Deus; que tudo se me concedeu; e tanto que baixei, cortaram o cabo, e me entregaram á disposição das ondas. Não perdi o animo, antes constante soffri este golpe, esperando, que Deus olhasse para a minha causa; e nadando a lancha livremente, na manhã seguinte de 4 de outubro, cheguei por acaso a esta ilha, em que habito sem que no discurso de tantos annos visse alguma creatura racional. Penetrei o interior, encontrando a piedade nos brutos, que não experimentei nos homens; e descobri esta concavidade, que a natureza devia ter obrado para meu abrigo. Aqui me recolhi, aqui tenho passado tantos annos, sustentando-me com datiles, e outras frutas. Vivo, e não sei para o que vivo; Deus sabe o para que.»
«O testemunho do narrador, confirmado por Manoel Antunes e João de Arruda, assevera-me que se alguma vez houve D. Sebastião era aquelle. Muito instaram os nautas que se deixasse levar a Portugal; «mas elle--acrescenta o mestre do patacho Nossa Senhora da Candelaria--encarecidamente nos pediu com as lagrimas nos olhos, que o não precisassemos a tal jornada, pois não chegára ainda o tempo de passar a Portugal; que pelo amor que nos tinha, o lançassemos, terra firme, em qualquer parte da Africa; e que debaixo da palavra que lhe haviamos de dar como portuguezes partiria comnosco; o que lhe juramos. Perguntamos-lhe se tinha alguma cousa na sua cova, que embarcasse; e respondeu, que desde que n'ella entrára não cuidára mais que viver para Deus; e que todos os annos lavrava por suas mãos uma tunica de folhas de palma, para cobrir honestamente o corpo; na cova não tinha mais que uma cruz, que por suas mãos fizera de madeira; e que essa deixassem, para que n'aquella terra ficasse o signal da nossa redempção; e quando ella se povoasse nos tempos futuros se acharia tambem a noticia do seu habitador. Embarcou-se comnosco, beijando a terra, com muitas lagrimas; e fazendo-nos á vela, esteve em nossa companhia dous dias e meio, em que nos contava monstruosidades d'aquella ilha; e satisfazendo ao seu pedimento o lançamos em terra duas leguas distante de Arguim, expondo-lhe os perigos a que se expunha, sem que o podessemos persuadir a suspender o desembarque em terra de barbaros; ao que respondia, que Deus que o conservára até aquelle tempo, o livraria de todos os perigos.
«Despediu-se de nós com tantas lagrimas, e gosto, que bem mostrava as saudades, que de nós levava, e o quanto se alegrava de passar áquella terra. Abraçou-nos a todos, e saltando em terra, a beijou, e levantando as mãos agradeceu a Deus as mercês que lhe fizera, e esperava receber da sua piedosa mão; e penetrando aquella costa inculta, nos deixou sentidos pela falta da sua companhia. Jámais podemos alcançar, o sabermos d'elle, a sua patria, e nome; divertindo a resposta politicamente com tanta gravidade, que nos não dava confiança, para instarmos; e sómente ao despedir me disse, que a seu tempo o saberiam os nossos descendentes; e dizendo-lhe eu nos consolasse ao menos declarando o tempo, nos disse: que Deus o sabia.
«Varios discursos fizemos sobre este homem, conservado por tantos annos n'aquella ilha, e agora caminhando por taes desertos; e nos persuadimos ser cousa maior. Deus o leve, e traga a salvamento.»
«Confronte agora v. as datas das sentenças dos tres pontifices, e deprehenda que D. Sebastião, tendo corrido a Palestina e varias terras como elle disse aos marinheiros, muito é de crêr que estivesse em Roma nas tres épocas assignaladas na sentença.
«Quanto á circumstancia de estar então o rei bastante avançado na idade--pois tinha 137 annos--isso é controversia que pertence á alta philosophia e não ao calendario decidir. São os porquês de Deus, dos quaes, sobre o mesmo assumpto, escreveu o doutissimo padre Antonio Vieira:
«Demais que os porquês de Deus são incomprehensiveis, e das suas razões não póde o entendimento humano dar razão; quanto mais, que Deus Nosso Senhor sempre faz as suas cousas grandes, e com grandes milagres. Bem podia Deus dar no tempo do Anti-Christo padres, que a este prégassem, e com tudo guarda ha tantos annos a Enoch e Elias: outras paridades podéra trazer se a brevidade as permittira.
«... Ou este rei morreu, ou não! Se morreu, aonde? Na batalha, ou fóra d'ella? Se fóra d'ella, quem o testemunhou? Se morreu na batalha, como não acharam os mouros o despojo, que tanto desejavam, e procuravam? Se morreu no rio, como veio a sua espada? Como mandou o cardeal D. Henrique aos que se fingiram reis inquirir e perguntar se eram o verdadeiro rei? Se lhe a elle constára a sua morte, nunca fizera tal inquirição; e a quem melhor podia constar, senão a elle? E bem se viu, que lhe não fez exequias, nem officios, sendo um ministro da igreja, a quem verdadeiramente tocava como rei, como tio, como prelado e por obrigação. Mais: se morreu, como esteve depois em Veneza, e Napoles, preso e desprezado, o que consta evidentissimamente, o qual successo refere Lucio Floro nos seus Annaes, e D. João de Castro, que foi testemunha de vista, o escreveu; e todas as circumstancias d'isso, e os prodigios, que então succederam o confirmam, os quaes no quarto fundamento d'este discurso mostraremos? Mais: que o snr. rei D. João IV o testificou e contou, o que é uma mostra de evidencia certa, e outras muitas, que é trabalhoso o referil-as por papel.»
«Responda-lhe, se póde.
«Muito venerador
«Bibliophilo.»
Não tenho que responder. S. s.a cuidará que eu sou menos sebastianista que a sua pessoa?
Já lhe disse que escolha uma das obras citadas, e... sabe que mais? mande-as buscar ambas, que as merece.
DESGRAÇADO BALZAC!
(Á ACTUALIDADE)
Tantas vezes o noticiarista repete que eu sou assignante do seu papel, que parece estar-me convidando a declarar a razão por que assignei.
Eu lh'a digo ao noticiarista. Foi para me regalar com as inepcias do folhetinista.
Quer-me parecer que os dous são um e mesmissimo tolo (com licença: não diga que sou incivil).
Se os dous não são homogeneos, então tenho centauro pela frente. Em cima, no noticiario, está a porção humana do aborto; em baixo, no folhetim, está (com a devida cortezia) a porção bestial do mesmo centauro.
Mas ha lanços em que o centauro se cabriola de feitio que a metade debaixo esperneia em cima; e a gente, a meia volta, não sabe já onde está o homem, nem onde está (com a divida venia) a bêsta.
O noticiarista, que me dizem chamar-se Silva Pinto, consinta que eu, por conveniencias da composição e da variedade da fórma, lhe não chame sempre centauro e tolo. Obriga-me a pedir-lhe licença todas as vezes em obsequio á urbanidade. O melhor é chamar-lhe, como variante, Silva Pinto.
O snr. Silva Pinto começou no n.º 16 da Actualidade a traduzir romances de Balzac.
Ai da nomeada do eminente explorador da alma, se Balzac podesse espelhar-se na fusca photographia que lhe tirou este encarvoador de paredes caiadas!
Eu não me despendo em considerações banaes acerca das difficuldades que empecem trasladar a portuguez os livros de Balzac.
Quem entende as galas dos classicos francezes, e as encontra condensadas no author dos Contes drolatiques, ainda que lhe sóbre igual saber da linguagem portugueza, ha de vêr-se em apuros para moldurar em estylo vernaculo as concisões, os idiotismos, a energia, o atticismo de Balzac.
Quem se afoutaria aos espinhos da empreitada? Um sujeito ignorantissimo de ambos os idiomas: o snr. Silva Pinto.
E, sem mais delongas, vou provar-lh'o. O leitor faça-me o obsequio de se prover do n.º 16 da Actualidade, e abrir isso onde começa o martyrio de Balzac. Não me demoro a mostrar-lhe que tudo ahi tresanda bafio francez, sem um torneio de phrase portugueza, sem um resalto que denote primor, ou sequer um dizer que não venha gafado de construcção gallicista. Isso é o menos. Vamos ás tolices mais lerdas:
Balzac, descrevendo um sujeito, a quem os seus amigos chamavam tempo-brusco, dá a razão do epitheto n'estes termos:
Il ne se rencontre en effet chez lui ni lumière trop vive, ni obscurité complete.
E vai agora o snr. Silva Pinto, parvoejando, traduz:
Effectivamente, estão banidas por elle de sua casa tanto a luz demasiado viva como a escuridão completa.
Viram? chez lui--de sua casa. Incrivel!
Balzac, interpretado por um portuguez medianamente versado na sua lingua, quiz dizer:
Não ha que esperar d'este homem grandes luzes nem grandes trevas.
Mas... a casa do homem! Quando quiz Balzac saber se o sujeito tinha luz ou estava ás escuras em casa? Quem estava em escuridão completa sabemos nós.
Adiante.
Balzac descreve uma senhora rodeada de homens desvanecidos, gentis, espirituosos, de notavel fama ou nome illustre, de baixa e alta condição, e acrescenta:
Auprès d'elle tout a blanchi.
O snr. Silva interpreta assim a phrase:
Tudo isto via embranquecer á beira d'ella os proprios cabellos.
Quer dizer: áquelles homens, quando conversavam com aquella senhora, embranqueciam-se-lhes os proprios cabellos.
Esta sandice faz-me compaixão. Se vejo outra assim, emigro.
Balzac queria dizer: todos estes homens de prestigio, de galhardia, de renome, aos olhos d'ella, tout a blanchi, «eram como se fossem velhos». Não lhe inquietavam o coração, não lhe perturbavam a serena indifferença, etc.
Adiante.
Referindo-se á insensibilidade d'esta dama, acrescenta Balzac: Certaines femmes coquettes sont capables de suivre ce plan la. O author quer dizer: Certas mulheres galanteadoras tem artes de dissimularem os mesmos geitos; mas o snr. Pinto, subtrahindo o coquettes que dá o relevo ao confronto, diz espalmadamente:
Ha mulheres capazes de seguir... aquelle plano.
Chatissimo!
Balzac diz que Eugène de Rastignac... avait plus d'une fois regardé la marquise de manière à l'embarrasser.
Traducção do centauro:
Olhava de quando em quando a marqueza de modo capaz de embaraçal-a.
Ha aqui um fartum de rapaz de escola, que faz engulho. Como é que os olhos embaraçam a dama? Com os rudimentos da lingua, um traductor menos soez diria:
Fitou-a algumas vezes de modo que a inquietou, ou enleou, ou perturbou. Abstenho-me de extrahir dos diccionaristas as indecencias subentendidas na phrase embaraçal-a.
Adiante.
Balzac diz que o personagem etait commodément assis, et avait les pieds plus souvent sur ses chenets que dans sa chancelière.
O tal Pinto estraga d'esta arte:
Estava commodamente sentado e aquecia mais frequentemente os pés no brazeiro do que no traste forrado de pelles, destinado para tal fim.
No traste forrado de pelles!
Chancelière,--uma palavra diluida em nove!
Podia elle, avisinhando-se da indole da lingua, traduzir capacho, ou ceirão de félpo, ou guarda-pés, ou pelliça, por analogia com os mantos forrados de pelles; mas... traste! Salvo seja!
E traduzir chenets para brazeiro!
Este brazeiro deu-lhe provisão para tolejar á larga, e afogar no tinteiro as palavras que não percebeu.
Logo em seguida, escreve Balzac:
Oh! avoir les pieds sur la barre polie qui reunit les deux griffons d'un garde-cendre, etc.
Querem vêr o que é uma traducção sovina?
Oh! conservar os pés junto ao brazeiro... E acabou-se.
Áquelles griphos embucharam-no ao bom do Pinto! Passou por aquillo como o leitor e eu pelas legendas arabes da sé velha de Coimbra. Com a sua crystallina ignorancia, privou o leitor de entender o suave sybaritismo do personagem que, refestellado na poltrona, recostava os pés no varandim lustroso que entre-une os dous griphos do cinzeiro. Percebeu elle que os fogões tem um receptaculo, que recebe a cinza, ao través de uma grelha, e que os ha ladeados de figuras que formam entre si o apoio dos pés? Não percebeu nada.
Senhores leitores do Balzac, segundo a Actualidade:
O homem que nos vai apresentar o author da Comedia humana, vestido de farrapos bordalengos, é esse que ahi fica... ás moscas, até ao numero seguinte.
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Agora, duas palavras graves.
O snr. Theophilo Braga mandou acorrentar este house-dog á porta da Actualidade. Fez mal. Eu tinha-me recolhido mansamente ao silencioso espanto das arrancadas que os cafres faziam no campo arroteado pelos Castilhos, Garretts, Herculanos, e outros somenos lidadores d'essa ala que ahi está exposta ás injurias de tanto biltre. Era meu proposito deixal-os cavar a sepultura d'elles com o seu proprio escoucear phrenetico.
Logo, porém, que o rafeiro mais refilado da matilha me latiu á sombra, quando eu nem sequer o estremava dos anonymos que desprezo, sacudil-o-hei á cara dos que o açulam, e fal-o-hei portador das minhas caricias aos que o alimentam, em conformidade com o proverbio: An hungry dog will eat dirty pudding.
OS 2 JOAQUINS
Um é o arranjador dos Musicos e de outras maravalhas.
Outro é Theophilo que tambem é Joaquim.
E tambem é Fernandes.
Expungiu o nome e o appellido, logo que se aforou em letras.
Joaquim Fernandes era a parte chata do sujeito.
Desfez-se d'isto, poz-se ás cavalleiras do genio, e apregoou-se Theophilo Braga[8].
Aviso á posteridade:
Elle era Joaquim!
A fatalidade dera 2 a Portugal, no mesmo seculo.
Gemeos, homogeneos, homonymicos, productos de gravidez longa, parto feito a urros, ferozes no nascedouro, ringindo com dentes anavalhados, ao tempo que a lisonja os lambia, para os ageitar, como a ursa faz aos seus cachorros.
E que cachorros!
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Nem os sepulcros respeitam.
Remetteram contra um, simultaneamente, os 2 Joaquins.
A sepultura era de gigante que o leitor, se não o viu, ainda o vê na projecção da sua imagem pelas paginas do livro amado.
Chamára-se, n'esta vida, Almeida-Garrett;--e chama-se hoje a gloria imperecedoura de Portugal.
O Joaquim, que se expurgou de Fernandes, para escoucear o cadaver de Cesar, disse...
Mas, antes de reler-se o que elle disse, veja-se o que escreveu o editor de Helena, romance posthumo e incompleto do author de Fr. Luiz de Sousa:
«Acabava o anno de 1854; ás primeiras cerrações do outomno inclinára mortalmente a fronte o snr. visconde de Almeida-Garrett, sentindo no coração os aggravos da doença que, dentro em pouco e para sempre, havia de apagar-lhe a luz dos olhos.
«Cresceu o mal. Imminente o perigo, durante os poucos mezes em que a vida lhe fugia, quiz o nobre enfermo dizer o ultimo adeus ás queridas producções do seu elegante espirito. Era então que a voz quasi infantil da filha idolatrada lhe dizia os seus livros todos; foi então que, revendo o archivo dos seus papeis, elle rasgava os que não deviam sobreviver-lhe, guardando aquelles que, de mão propria, legava á posteridade. Era um sol no occaso, revendo-se na luz immensa com que alumiára a patria.
«Finda a leitura, prompto o legado, extinguiu-se aquella existencia esplendida, abraçada á cruz de Christo, abençoando a herdeira do seu nome, e embalada pelos cantos da sua propria harpa. Fim sublime! Sentiu no ultimo suspiro,--o seu credo, o seu génio e todo o seu coração.»
Agora, Joaquim Theophilo, interpretando com gaiata solercia as palavras de C. G., genro de Garrett e editor de Helena:
«Elle escreve alludindo á morte de Garrett: «Era um sol no occaso revendo-se na luz immensa com que alumiava a patria.» E em seguida: «extinguiu-se aquella existencia esplendida abraçada á cruz de Christo...»
E ajunta o pellitrapo das letras com brutalidade manhosa:
«É de crêr que não haja aqui intenção maliciosa, mas desperta insensivelmente o dito celebre de Rodrigo da Fonseca Magalhães.»
É impudor glosar essa sordicia que ahi fica. Ninguem se demora a observar um cão resêcco, pilharengo, derreado, chagoso, que lambe faminto a sangueira negra de um matadouro.
Até os ossos de Rodrigo da Fonseca lhe serviram á gargalhada!