O ASSASSINO DE MACARIO

Porto--Imprensa Moderna

CAMILLO CASTELLO BRANCO

O ASSASSINO DE MACARIO

COMEDIA EM TRES ACTOS

VERSÃO LIVRE

Expressamente coordenada para a festa artistica do ACTOR DIAS

2.ª EDIÇÃO

PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, Editores
1903

Propriedade absoluta dos editores

Reproducção interdicta em todos os paizes

PERSONAGENS

Barnabé.

Liborio.

Itelvina.

Sebastiana.

A scena é no Porto.

Esta comedia não póde ser representada sem auctorisação dos editores, para quem ficam reservados todos os direitos.

[ACTO PRIMEIRO]

[Sala elegante. Porta ao fundo. Portas lateraes no segundo plano. Janella á esquerda, no terceiro plano. Piano encostado á parede direita, no primeiro plano. Canapé á esquerda. Dois contadores pequenos á esquerda e direita. Sophás, cadeiras, e tamborete de piano. Sobre o contador da esquerda utensilios de barbear e espelho. No outro um relogio.]

[SCENA I]

Barnabé, ()

(Entra pela esquerda, trajo da manhan, traz na mão uma chocolateira e toalha. Chama:) Sebastiana!... Isto é que foi dormir alarvemente! (Olhando para o relogio) Já dez horas... e eu sem fazer a barba! (chamando) Sebastiana! Esta creada é uma calaceira!... Não ha d'outras... Tive um sonho... Isto de sonhos é uma tolice... Sonhei que estava pescando á cana... n'uma cazinha campestre, com transparentes verdes... e um repucho!... Ah! o meu sonho d'oiro!... Logo que eu cazar a filha... Um repuxo... (chamando) Sebastiana! Com effeito! (Vai á porta do fundo) Sebastiana! Sebas...

[SCENA II]

Sebastiana e Barnabé

[SEBASTIANA]

(entrando pelo fundo) Aqui estou, senhor!

[BARNABÉ]

Não me tinhas ouvido?

[SEBASTIANA]

Perfeitamente. O senhor chamou-me quatro vezes.

[BARNABÉ]

Então porque não vieste logo?

[SEBASTIANA]

Estava a almoçar. Acho que o senhor não pretende que os creados não comam.

[BARNABÉ]

Não...

[SEBASTIANA]

Além d'isso, eu sei que o senhor é pachorrento, um paz d'alma...

[BARNABÉ]

Abusas um pouco do meu temperamento.

[SEBASTIANA]

Está enganado... eu pelo senhor era capaz de me atirar ao lume...

[BARNABÉ]

Pois bem, vai atirar ao lume esta chocolateira... Quero barbear-me. (Dá-lh'a)

[SEBASTIANA]

Dentro de 15 minutos aqui estou. (Vai sahir).

[BARNABÉ]

(chamando) Olha, Sebastiana...

[SEBASTIANA]

(tornando) Não me mande fazer duas coisas ao mesmo tempo que me atrapalha, ouviu?

[BARNABÉ]

(á parte) É uma creada como se quer! Boa bisca... (alto) Olha lá... Noto que vae na caza um socêgo extraordinario! Minha filha estará doente?

[SEBASTIANA]

Não senhor; sahiu de manhan cedo.

[BARNABÉ]

Ah! é isso? (Senta-se no canapé).

[SEBASTIANA]

E, na verdade, a menina faz um estardalhaço! credo!... E é de pasmar como o snr., tão manso, tão socegado, fez uma filha tão...

[BARNABÉ]

Tão estapafurdia, pódes dizer...

[SEBASTIANA]

É isso, estapafurdia... é uma trovoada... credo!

[BARNABÉ]

Tu que queres?... A natureza tem desconcertos... Olha, Sebastiana, eu nem sempre vivi dos meus rendimentos.

[SEBASTIANA]

Pois sim, sim...

[BARNABÉ]

Tive uma fabrica de ligas em Fradellos.

[SEBASTIANA]

De ligas? ora vejam...

[BARNABÉ]

Fazia pouco negocio... Resolvi ir para o Mexico, por que n'um paiz, n'um paiz quente, bem percebes, mostra-se mais a barriga das pernas... Fundei o meu estabelecimento no Mexico, e grangeei logo toda a freguezia das boas pernas do paiz... com sáias curtas.

[SEBASTIANA]

Olha que pechincha!...

[BARNABÉ]

Vais vêr... um par das taes pernas... duas buxas fizeram-me uma impressão profunda... Todas as profissoens tem os seus perigos... Esposei...

[SEBASTIANA]

As taes buxas?

[BARNABÉ]

Sim... Ella chamava-se Dolores. Sete mezes depois, tinha uma filha...

[SEBASTIANA]

Sete mezes só? ora essa!...

[BARNABÉ]

No Mexico a vegetação cresce muito depressa, é o que é; e isso mesmo te explica o genio impaciente da minha Itelvina... Ella não quiz esperar que se completassem os nove mezes... sahiu...

[SEBASTIANA]

Não admira, não...

[BARNABÉ]

E aqui tens tu, Sebastiana, como eu, um portuguez de lei, sou pae d'uma mexicana...

[SEBASTIANA]

Agora é que eu percebo a differença dos dois genios.

[BARNABÉ]

O ceo do Mexico! Os costumes d'esse clima de fogo! Minha filha tem nas veias o meu sangue; mas... mais quente... ferve-lhe mais... em fim, tem uma temperatura mais alta...

[SEBASTIANA]

Acho que sim... intendo.

[BARNABÉ]

Ha-de haver um anno que passei o negocio e vim para a patria... Estava rico... primeira felicidade; estava viuvo, segunda feli... Emfim, como não nos davamos bem... segunda felicidade, está dito.

[SEBASTIANA]

Então não se davam bem...

[BARNABÉ]

Quero dizer... a senhora Barnabé... era muito fogosa... muito atiradiça... e chamava-me... maricas.

[SEBASTIANA]

Credo!

[BARNABÉ]

Em fim ella tinha desculpa... Eu bem me conheço... Mesmo hoje, com minha filha, sou uma lesma, um fracalhão... Ahi está ella a querer casar com o valdevinos do Macario.

[SEBASTIANA]

Mas não basta querer ella.

[BARNABÉ]

Assim é; mas ella quer á fina força e eu não quero; a final, quem hade vencer é ella, que é a forte, e casará! São favas contadas. Era o mesmo com minha mulher. Dizia-lhe eu «quero»; respondia-me ella «não quero», e eu... moita... nem palavra.

[SEBASTIANA]

Então estavam sempre de harmonia?

[BARNABÉ]

Está claro. (Rumor fóra)

[SEBASTIANA]

(indo á janella) Que será isto?

[BARNABÉ]

Algum choque do americano com o Rippert.

[SEBASTIANA]

Nada, parece desordem... Tanta gente defronte da porta...

[BARNABÉ]

Da nossa?

[SEBASTIANA]

Sim, snr. Quer que eu vá saber o que é?

[BARNABÉ]

Não... que me importa a mim?... Olha se me aqueces a agua... anda.

[SCENA III]

Os mesmos e Itelvina (Abre-se com estrondo a porta do fundo. Itelvina entra afogueada e passeia muito colerica.)

[BARNABÉ]

Ólá!... és tu?

[ITELVINA]

Sim, sou eu. Bom dia.

[BARNABÉ]

Tu que tens?

[ITELVINA]

Estou furiosa! (Passa para a direita.)

[BARNABÉ]

D'onde vens?

[ITELVINA]

De pregar uma bofetada n'um sujeito.

[BARNABÉ]

Fizeste isso?

[ITELVINA]

N'um atrevido...

[BARNABÉ]

Talvez imaginasses...

[ITELVINA]

Qual imaginasse! um grosseirão que ousou dizer-me cara a cara: «a menina é encantadora.»

[BARNABÉ]

E bateste-lhe por isso? Que farias tu se elle te chamasse estafermo?

[ITELVINA]

O seu sangue frio, meu pae, quando sou insultada! Castiguei-o, e espero que a scena se não repita.

[BARNABÉ]

De te chamar encantadora?... Tambem me parece que o homem deve ter modificado a sua opinião a teu respeito... (A Sebastiana) Que fazes tu ahi? a minha agua quente?

[SEBASTIANA]

Lá vou já, snr. Barnabé. (Á parte) Muito atolambada é esta menina! (Sahe pelo fundo).

[SCENA IV]

Barnabé, Itelvina, e depois Sebastiana

[ITELVINA]

(depondo o chapeu e o chaile, vae sentar-se ao piano e canta) Trai la ri, trai la ri, trai la ró.

[BARNABÉ]

Isso é um bota a baixo! Agora é o piano que leva a sua conta...

[ITELVINA (Cantando)]

«Na primavera da vida
Ambos e dois muito amigos
Suspiravam por um ninho,
Por um ninho entre os trigos.»

[BARNABÉ]

Que é isso que tu cantas?

[ITELVINA]

Uma cançoneta moderna, que se chama: Um ninho entre os trigos. (Canta):

E de braço dado juntos
Ao repontar da manhan
Iam fazer o seu ninho
Nos trigos de Campanhan.

[BARNABÉ]

É mais natural que fôsse nas arvores... Os passaros em geral preferem...

[ITELVINA]

Mas não se trata de passaros. (Canta):

E depois elle cantava
Pousado nos ramos novos,
E ella aquecia, cantando
No seu ninho os caros ovos.

[BARNABÉ]

Ah! então não é de passaros que se trata? Lá me parecia que dois passaros de braço dado por Campanhan...

[ITELVINA]

É uma menina e um rapaz.

[BARNABÉ]

(pegando na cançoneta com arremesso). Basta! Deixa vêr. (Lê alto as tres quadras que ella cantou). E chama a isto um ninho o tratante do cançoneteiro! Quem diabo fez esta coisa?

[ITELVINA]

Foi um poeta inspirado. Dê-me cá a muzica, ande!

[BARNABÉ]

Empresto-t'a para a estudares, de tarde, quando eu estiver a dormir a sésta... (Á parte). Mandem lá ensinar piano ás raparigas n'uma terra em que os poetas inspirados dizem ás meninas que se fazem ninhos nos trigos de Campanhan!... e que se aquecem os ovos... O Porto está peor que o Mexico a respeito de ovos e de ninhos...

[SEBASTIANA]

(entrando pelo fundo). Ainda havia agua quente. Ella aqui está (Dá-lhe a chocolateira).

[BARNABÉ]

Bem, vou para o meu quarto (Mudando de ideia). Mas, se estiveres quieta... Um pae póde escanhoar-se na presença da filha (Arranja os utensilios, e remeche o pincel na vasilha do sabonete).

[ITELVINA]

(a Sebastiana) Veio carta para mim?... de Braga?

[SEBASTIANA]

Não, minha senhora, o carteiro passou ha muito. (Sahe pela porta do fundo)

[ITELVINA]

(comsigo mesma) É espantoso! Ha trez dias que Macario foi para Braga, e nada de noticias! Se eu não tivesse inteira confiança no seu amor... Talvez uma catastrophe! Acontecem tantas desgraças nos caminhos de ferro!... (Vae agitadamente para o pae que lhe voltou as costas e se está barbeando) Meu pae! (com intimativa)

[BARNABÉ]

Que é? cuidado, que por pouco me não cortei... Que temos?

[ITELVINA]

Acha isto natural?

[BARNABÉ]

Natural, o quê?

[ITELVINA]

Trez dias de auzencia sem me escrever?

[BARNABÉ]

Ah! sim, o Macario? (Á parte) Bem me importa a mim isso... (alto) Se elle foi buscar os papeis a Braga, é preciso dar-lhe tempo. (Torna a escanhoar-se)

[ITELVINA]

(passeando) Dar-lhe tempo, dar-lhe tempo! Eu não exijo que elle volte; mas que me escreva; não se está assim trez dias... a fazer o quê?... que difficuldades encontrou?

[BARNABÉ]

Não andes assim n'esse passo que me incommodas. Fazes tremer o sobrado.

[ITELVINA]

O pae não sabe o que é amor!

[BARNABÉ]

Soube-o primeiro que tu, e dou-te a minha palavra que depois que a gente sabe o que isso é, e pensa a sangue frio... não vale um caracol o amor... Tu o saberás...

[ITELVINA]

Ha tres mezes que conheço Macario, e a toda a hora maldigo as formalidades portuguezas, e pergunto de que servem para a gente se casar, papeis, banhos, tabellião, padre, sacristão...

[BARNABÉ]

Ha pessoas que dispensam tudo isso... mas (com energia) fazem mal... fazem muito mal... Sem tabellião, e banhos, e padre e sacristão não ha honra.

[ITELVINA]

Finalmente, logo que Macario chegar com os papeis, não haverá impedimentos...

[BARNABÉ]

Isso lá de impedimentos... veremos.

[ITELVINA]

(derrubando uma cadeira, e indo direita ao pae) Haverá alguns? diga...

[BARNABÉ]

(cortando-se) Cá está um... vês tu?

[ITELVINA]

Um impedimento?

[BARNABÉ]

Um golpe de navalha... estou acutilado!

[ITELVINA]

(estancando-lhe o sangue com o lenço) Deixe vêr... Isto não é nada.

[BARNABÉ]

Arde-me... e bastante...

[ITELVINA]

Vae passar.

[BARNABÉ]

Falla-me, se queres, mas lá de longe... Eu só de longe é que ouço bem.

[ITELVINA]

(afastando-se e levantando a cadeira) Faço-lhe a vontade; mas o pae fallou de um impedimento... desejo conhecêl-o.

[BARNABÉ]

É o meu consentimento.

[ITELVINA]

O seu consentimento?

[BARNABÉ]

Está claro; tu não pódes casar sem eu consentir... A lei é positiva.

[ITELVINA]

Que arrelia! Isso quer dizer que, se o pae não ama Macario, tambem eu não posso amál-o...

[BARNABÉ]

Lá tu amál-o pódes... mas não basta...

[ITELVINA]

Não posso casar com elle, se o pae o não amar?...

[BARNABÉ]

Não.

[ITELVINA]

As leis portuguezas dizem isso? Existem absurdos taes n'um povo livre?

[BARNABÉ]

(limpando a navalha e pondo-a sobre o contador) Tal e qual, minha filha. Ora agora, quanto a Macario...

[ITELVINA]

(passando para a esquerda) Meu pae, eu amo Macario!

[BARNABÉ]

Elle não tem chêta.

[ITELVINA]

Amo Macario!

[BARNABÉ]

Passa a vida nos bilhares e nas cervejarias.

[ITELVINA]

Mas eu amo-o.

[BARNABÉ]

Serás desgraçada com elle.

[ITELVINA]

Acabemos com isto. Amo Macario!

[BARNABÉ]

«Amo Macario, amo Macario!» Estás-me cantando o 1.º acto da Favorita. «Eu o amo, eu o amo!»

[ITELVINA]

Dá ou não dá o consentimento?

[BARNABÉ]

Não.

[ITELVINA]

Não? (Pega da navalha) O pae é implacavel, hein?

[BARNABÉ]

Que é o que ella tem na mão? Ceus! a minha navalha!

[ITELVINA]

(caminhando e brandindo a navalha e o pae a seguil-a) Trato de me evadir ás leis infames d'este paiz. Suicido-me.

[BARNABÉ]

Larga a navalha.

[ITELVINA]

Ultima vez: consente?

[BARNABÉ]

Consinto: casa com elle.

[ITELVINA]

(largando a navalha e abraçando-o) Obrigada, meu pae, obrigada!

[BARNABÉ]

Agora, asfixias-me... (Passa para a direita, levanta a navalha e colloca-a sobre o contador) Cruzes!

[ITELVINA]

Mas o silencio d'elle assusta-me, meu pae! Trez dias sem noticias! Vou escrever a Macario; e, se me não responder, amanhan parto para Braga. Se lhe tivesse acontecido algum revez! (A Sebastiana, que entra pelo fundo) Sebastiana, não estou em casa para ninguem, absolutamente para ninguem (Entra pela direita)

[BARNABÉ]

Sou o pae d'esta pombinha... É um anjo... Se eu me vejo livre d'esta ardente creatura do Mexico... Sebastiana, dá-me o casaco e o chapéo.

[SEBASTIANA]

Sim, senhor. (Sahe pela esquerda)

[BARNABÉ]

() Deixál-a casar com o Macario! O que eu quero, sobre tudo, é paz e socego... O casamento favorece os meus projectos... Fallaram-me d'uma quinta que se vende em S. Mamede de Infesta. O dono mora perto d'aqui; vou tratar com elle; e, se não fôr muito cara, o meu sonho d'esta noite realisa-se... O repuxo! Ah! o repuxo!