O CARRASCO

DE

Victor Hugo José Alves

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O CARRASCO

DE

Victor Hugo José Alves

POR

CAMILLO CASTELLO BRANCO

Os cantaré un estraño cuento que no le avreis oydo tal en toda vuestra vida.

M. CERVANTES—Novellas.

PORTO
LIVRARIA CHARDRON
DE Lello & Irmão, editores
1902.{4}

Porto—Imprensa Moderna.{5}

[I
A LUVEIRA DA RUA NOVA DA PALMA]

Il y a ici quelque chose... une fleur... cherchez!

SAINT-BEUVE, Portraits des Femmes.

Á volta de uma mesa do café Martinho, em Lisboa, estavam, por 1857, cinco ou seis sujeitos saturados de politica. Estava tambem eu em principio de saturação—palavra pedida de emprestimo á chimica para bem materialisar a idéa do corpo abeberado d'aquelle civico enthusiasmo que salva as nações... nos botequins.

N'aquella noite, os meus interlocutores eram todos mais ou menos republicanos. Havia tal que dizia acreditar na metempsycose, porque sentia dentro do seu ventre os figados de Robespierre; e outro, que arredondava musicamente os periodos corrosivos, revelava-nos, com modestia{6} parelha do talento, que sentia coriscar-lhe no craneo o cérebro de Mirabeau;—coriscos, se o eram, todos para dentro; que do fogo, que lhe faiscava da fronte, não havia que receiar combustão em armazem de sulphureto de carbonio.

Os outros não me lembra quem tinham dentro de suas pessoas.

Pelo que me diz respeito, recenseando longa fileira de defuntos historicos, suspeitei ser eu a paragem de dois pedaços transmigrados, um de Falstaff, outro de Sancho, por me sentir rasamente lerdo á beira d'aquellas pessoas trabalhadas por crudelissimas almas de torna-viagem.

Suppunha Gerard de Nerval, que Méry, pela admiravel intuição que tinha das coisas da India, devia ser a metempsycose d'um mouni do Indostão na pelle d'um marselhez; ora eu, se é licita a comparação ambiciosa, á vista da sisuda pachorra com que assistia aos projectos regicidas d'aquelles cavalleiros andêjos, devo presumir que ha em mim o que quer que seja do pagem do cavalleiro triste, antes de intontecido pelas lisonjas dos ilheos que o degeneraram.

Havia ali um que esmurraçava o marmore das mesas, protestando que os thronos seriam aluidos, quando a lava, escandecente no seio{7} da Liberdade, irrompesse, resfolegando para si os monarchas, e revessando para fóra, com o novo baptismo de fogo, uns evangelhos novos.

O meu terror foi grande. Encarei n'aquelles homens exterminadores, e agourei-lhes mentalmente que morreriam justiçados para descanço do genero humano, e particularmente dos possuidores de inscripçoens e outros fundos.

Agora é de saber que todos aquelles regicidas, hoje em dia, vampirisam as veias desangradas do paiz, pisam alcatifas do paço, e fumam, nos aposentos dos camaristas, charutos da munificencia real, pelos quaes se lhes vaporaram os figados de Robespierre, o encephalo de Mirabeau, e toda a mais peçonha que lhes petrolisava as entranhas, tirante a do estomago, que ainda é corrosiva, como sempre.

Revertendo aos assumptos debatidos n'aquella roda de trogloditas, cujas caras a lavareda do ponche azulejava terrificamente, dizia um que os monarchas lusitanos, em seculos de bons costumes e fé viva, procreavam filhos illegitimos.

Esta noticia fez-me calafrios.

Em confirmação da these, individuou o sujeito, com prodigiosa retentiva, os filhos bastardos de cada soberano, e não sómente os{8} abonados pelos chronistas, senão outros muitos denunciados pela tradição, e sonegados pelos historiadores em preito a insignes familias.

Occasionou-se-me então o ensejo de observar que o senhor D. Miguel de Bragança, bem que malsinado de frasqueiro e muito dado a damarias, não deixára filhos illegitimos reconhecidos, ou sequer suspeitos: d'onde eu inferia que a calumnia superfluamente lhe encarecêra os vicios, não querendo imputar-lhe sómente á descultura do espirito e aos ruins companheiros da mocidade os funestos casos do seu reinado.

Redarguiu de prompto o malsim das reaes progenituras que o snr. D. Miguel podia ser menos fecundo que seus avós, sem ser mais casto que D. Diniz; e acrescentou que affirmava a existencia de filhos do principe proscripto, e me desculpava da ignorancia por eu ser da provincia, e desconhecer as entranhas tuberculosas da côrte.

Estimulado por este dizer oriental e therapeutico, pedi que me dissessem quem eram os notorios filhos do snr. D. Miguel Maria do Patrocinio.

O sujeito interrogado nomeou cinco ou seis pessoas de ambos os sexos, umas que eu conhecia de vista, e outras dos appellidos heraldicos dos seus progenitores legaes.{9}

Feita a resenha, um dos circumstantes ajuntou:

—Ainda te falta uma.

—Quem é?—acudiu o outro.

—A luveira da Rua Nova da Palma.

—É verdade... a luveira, a mais sympathica e adoravel e florida vergontea d'um tronco roído e verminoso. Hei de mostrar-lhe a vossê a luveira, a dôce creatura que faz lembrar a borboleta iriada que saíu de uma crysalida paludosa. Quer?

—Com a mais ardente curiosidade—respondi.

—Ámanhã.

No dia seguinte, o pontual amigo levou-me á Rua Nova da Palma, e ahi entramos em uma pequena loja de luvas e camisaria.

A dentro do balcão estava sentada a costurar uma senhora, singelamente vestida, e formosa quanto a mais descompassada phantasia podéra cobiçar. Figurava, quando muito, vinte annos; mas eu já ia prevenido de que ella não podia contar menos de vinte e sete; e, se o não fosse, desde logo, em vista da sua edade apparente, refutaria a procedencia que lhe davam, se queriam que houvesse nascido durante o reinado de D. Miguel.

José Parada cortejou-a gravemente, chamando-lhe D. Maria José. Ella recebeu o cumprimento{10} com agraciado rosto, e correspondeu á minha cortezia, depois que lhe fui apresentado como homem de letras... maiusculas, minusculas, cursivo, bastardinho, etc.—letras, que, longe de serem ganancia, seriam o desdouro d'um cambista e a fallencia de dois bancos.

Logo percebi que a dama luveira era mais ou menos entendida em romances, pelo benevolente sorriso com que acceitou a minha apresentação; e tambem observei, de passagem, que esta senhora, se estimava livros, não se parecia extremamente com os avós—dessimilhança, porém, que não fazia implicancia á magestade da sua origem.

Não duvidei, por tanto, que D. Maria José em verdade houvesse a prosapia realenga que lhe attribuiam; antes me quiz parecer que o seu porte altivo sem soberba, e um certo natural nada commum, sem laivo de artificio, estavam inculcando uma senhora de fidalga condição.

—Aqui tem uma filha do snr. D. Miguel de Bragança—disse o meu amigo com urbana e grave seriedade, mais do que eu esperava de tamanho republicano; e ajuntou logo, coherente com os seus principios:—N'esta honrada posição é que eu unicamente respeito os descendentes dos reis. No sublime abatimento do trabalho é que as pessoas, nascidas para a{11} ociosidade principesca e devoradora das nações se me figuram regeneradas para a humanidade laboriosa, e repostas pela mão do Christo na plana da egualdade a que elle chamou todos os filhos de Deus. Deante d'esta operaria, sinto o reverente enthusiasmo que os abjectos sentiriam se a vissem a roçagar nos pavimentos vellosos da Ajuda o manto de princeza.

D. Maria abaixou ligeiramente a cabeça, depois de haver relançado os olhos com suave magestade ao rosto do seu admirador. E eu, que tinha entrado com animo indisposto para tão solemne colloquio, compenetrei-me de involuntaria sisudeza e compostura como se ali estivesse uma princeza de lista civil, uma genuina vergontea das senhoras Dona Carlota de Bourbon e Dona Maria de Saboya.

Como sou de natureza bastante monarchica, e fui creado com o bom leite do antigo amor portuguez aos seus reis, grande foi o enleio em que me vi, rosto a rosto de tão egregia dama!

Com quanto acatamento e cortezania pude, enviei-lhe umas tartamudas palavras significativas de respeitosa vassallagem. E ella, sem descompor-se do seu palaciano aprumo, proferiu estas vozes:

—Contento-me com ser respeitada como costumam sêl-o as mulheres que vivem decorosamente.{12} Algumas vezes tenho sido alvo de motejos por ser filha de um principe desafortunado; mas ainda não fui escarnecida por quem pudesse reprehender os actos da minha vida. O ter nascido grande não deve desmerecer-me pela resignação com que me sujeito á humildade da minha posição.

E, levantando-se, foi vender um peito de camisa a uma mulher que lhe chamava «Dona Mariquinhas».

Pouco depois entrou na loja um rapaz, asseiado a primôr, mui fragrante de cosmeticos, e todo elle uma bonita caçoula a recender perfumes de mocidade. O meu amigo apertou-lhe a mão, chamando-lhe Raul Baldaque, e acotovelou-me. Não percebi o intento espirituoso do cotovelo de José Parada.

O paralta encarou-me do alto da sua importancia, arregaçando a face direita para prender no olho correspondente um vidro. N'aquelle olhar preponderante, o sujeito parecia querer-me annunciar que era o filho unico do famoso capitalista conde de Baldaque, chegado da America, seis annos antes.

Sahimos os dous sem haver dispendido no estabelecimento mais que o ouro puro das nossas phrases. Eu ainda quiz comprar duas camisas e um par de luvas verde-gaio; mas acanhei-me de mercadejar com tamanha senhora,{13} receiando desafinar da linguagem aulica e tom de côrte em que não fui de todo bajoujo.

Contou-me, depois, José Parada que D. Maria José de Portugal, a luveira, havia sido requestada, para casamento, de homens não só abastados, mas tambem fidalgos da raça cavalleirosa e da industrial, e até—o que mais importa—de litteratos.

—Não duvide vossê—proseguiu elle, derivando do meu ar desconfiado a incredulidade com que escuto, em geral, historias de desprendimento, quando são de ouro os ganchos com que a alma d'um homem pretende acolchetar-se na alma d'uma mulher.—Não duvide—insistiu Parada.—Eu não faço romances, nem invento prodigios. Nego a existencia da virtude em quanto a não palpo e lhe não sacudo a poeira dos preconceitos; mas se chego a convencer-me, o systema de duvidar não póde tanto comigo, que, por amor de seita, hesite em crer que ha princezas não refesteladas em almadraques de setim, princezas que não disputam ás nações pobres a enxerga dos desherdados, para quem o dormir é a consolação da fome.

D'este phraseado bem é de perceber que o meu interlocutor não erguia mão de sobre a mais singela resposta sem lhe esponjar exordios para discurso sedicioso.{14}

Não inquiri quem fossem os ricos e fidalgos pretendentes de D. Maria José de Portugal; quanto, porém, aos concorrentes litteratos, desejei, por affecto á classe, reconhecer os meus collegas, ambiciosos de se aparentarem tão affins com a casa reinante. Satisfez-me a curiosidade o meu amigo, nomeando um poeta de piano, um prosador de calendario, um redactor do Jardim das Damas, charadista historico dos almanaks de Castilho. D. Maria José havia recusado as mãos d'estes litteratos pobres assim como já tinha recusado os pés d'alguns capitalistas.

E acrescentou José Parada:

—Um homem que morre por ella é aquelle Raul que lá ficou na loja. Ali tem vossê um rapaz que ha-de herdar mil e duzentos contos. A figura é correcta, não acha? Dá jantares, e empresta dinheiro aos convivas insoluveis, que o lisongeiam e escarnecem alternadamente. As mulheres, que o amam, são tantas como as abelhas á volta d'um favo que tem dentro a essencia de todas as flores de mil e duzentos contos. Pois sabe que mais? quer um milagre em pleno seculo XIX? A luveira repelle com fidalga delicadeza, e ouve com supremo desdem a apotheose dos milhões do conde de Baldaque. Não é isto, em tempos de infame positivismo, um caso assombroso?{15}

E concluiu emphaticamente:

—Quando as filhas dos marquezes, com dezoito avós aforados, não se desaforam, confundindo nas veias dos filhos o seu sangue ostro-godo com a lama dos argentados escapados ao cruzeiro, não é de espantar que a obscura filha de um principe, pobre e chasqueada, recuse abastardar a sua regia stirpe, adjudicando-se ao ouro de um plebeu? Devo repetir-lhe que desprézo o prejuiso das distincções, posto que procedo de avós honrados no serviço da patria; entretanto, se os instinctos fidalgos alam o espirito ao de cima das idéas villissimas d'esta quadra de chatins, eu me curvo então, repassado da religiosa reverencia, e comprehendo que a nobreza das indoles não é phantasmagoria obsoleta; será antes divina loucura, se de uma parte reluz a pobreza radiosa com a sua aureola do trabalho humilde, e da outra rutila a fascinação explendida dos milhões.

Puff!—disse eu entre mim—ou mais exactamente, disseram dentro de mim o pedaço do Falstaff ao pedaço do Sancho.

Aquelle puff, interpretado pelos glossologicos da ultima camada, quer dizer: «Bem me fio eu em ti e n'ella!»{16}
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[II
PERFIL DE VICTOR HUGO JOSÉ ALVES]

Personne de servile condition et de race servile.

AMYOT, ALCIB., Vers. de Plut.

Tudo quanto este homem arengou me pareceu acertado.

A luveira não se me delia da idéa.

Ao outro dia fui lá, resolvido a derrear bastante o estylo, de feição que me não ficasse canhestro comprar, nem a D. Maria José de Portugal vender, seis collarinhos. Por onde, a toda a luz se mostra com que innocentes intençoens lá fui.

N'este proposito mercantil, entrei; mas, feita a cortezia, não pude aparrar a linguagem ao raso de um freguez de collarinhos.

Não se póde. Um homem capaz de aconsoantar uma quintilha, não sabe regatear com{18} damas camisolas de flanella. O que logo lembra, em presença da filha de um principe, se ella é bonita, e os amores lhe esvoaçam á volta da regia fronte, é a mandóra dos provençaes, o enamorado Macias, as trovas suspiradas no harpejar do bandolim, á barbacan do castello, ou mais dentro, se é possivel.

Assim foi que nossos decimos avós, se eram menestreis e cytharistas, procederam com as filhas e açafatas dos reis, não contando com as portuguezas, tirante as inspiradoras de D. João da Silva[[1]] e de Bernardim Ribeiro—que as restantes princezas saíram todas muito descaroadas de poetas, de theorbas e cytharas, bem que a musica foi sempre bemquista dos nossos monarchas, desde D. Pedro I, que tangia trombeta bastarda, até D. João IV, que tocava tudo, compunha motetes, e escrevia livros ácerca da musica. E, se D. João V não exercitava pessoalmente a formosa prenda, folgava de ouvir retroar os cento e quinze badalos do carrilhão de Mafra, que comprou por mil e trezentos contos de reis. Depois, encontramos o snr. D. João VI cantando psalmos entre os seus frades; e, hoje em dia, o{19} snr. D. Luiz I, basso primoroso, revive os saraus melicos da sala da Ajuda, como elles foram em Queluz, quando, na orchestra real, regida por David Peres, se viam as loiras infantas de Bragança tocando rebeca.

Revertamo-nos, em boa hora, ao conto.

Estava a dama lendo a Nação. Depoz cortezmente a gazeta para me attender. Pedi-lhe que por minha causa não interrompesse leitura tão lenimentosa para as dores do seu filial coração. D. Maria José, penhorada por estas suaves expressoens, fitou-me brandamente e murmurou:

—Mal sabe......

—O quê, minha senhora?

—Quantas lagrimas eu tenho chorado sobre este jornal...... lagrimas inuteis, que fariam até sorrir de piedoso motejo as pessoas felizes......

Todas as fibras sensiveis e sonoras da minha alma se desataram então em plangentes melodias de coisas, de que não tomei apontamento; porém, taes e tão insinuantes lh'as influí no animo, que vinguei merecer-lhe confiança e desafôgo de sentimentos circumspectamente abafados.

Esta confiança, com as visitas diarias, fez-me digno de lhe ouvir, interpoladamente, revelaçoens que vou compendiar, de mistura com{20} esclarecimentos obtidos, Deus sabe com que perspicacia e finura.

D. Maria José havia nascido em Lisboa, no anno de 1832. Seu pae era o snr. D. Miguel de Bragança, rei n'aquelle anno. Sua mãe tinha sido D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolim de Portugal, senhora portugueza, nascida em Lisboa, e descendente de fidalgos de régia plana por bastardia, como ao diante se dirá. Vivêra D. Maria em companhia de sua mãe, rodeada de pompas, aias, mestras e caricias, até á edade dos quinze annos. Lembrava-se de sua mãe ter carruagem brazonada, librés, e relaçoens de grande posição na aristocracia; e, em meio d'esta disfarçada felicidade, a vira frequentemente lavada em lagrimas, que de dia para dia lhe iam desbotando a formosura deslumbrante.

Observou mais que as alfaias valiosas desappareceram umas depós outras; que a sege foi vendida; que os convivas rarearam á mesa; que os hospedes da noite foram tambem rareando, e que em fim ninguem entrava na casa desbalisada de sua mãe, senão duas senhoras de baixa origem que a não desampararam até á morte.

Lembrava-se tambem de que sua mãe, nos derradeiros annos da vida, abrira um hotel; e, n'essa posição decahida, morrêra.{21}

A morte de sua mãe não sabia ella dizer se foi natural, se violenta. Conjecturava, porém, que houvesse sido suicidio com veneno contido em um frasco de crystal, que depois se encontrara vasio. Era esta hypothese confirmada pelo caso de sua mãe, na véspera do dia em que se finou, lhe haver dado um cofre de sandalo, dizendo que lhe não podia legar outro patrimonio; mas que, n'aquella caixa, encontraria titulos que a elevassem sobranceira ás primeiras senhoras de Portugal.

Ora o cofre encerrava cartas do snr. D. Miguel—cartas que ella me não mostrava por conterem coisas intimas e segredos de estado de maximo melindre.

Fallecida D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolim de Portugal, a orphã, que então vicejava uns quinze annos, como facil me foi imaginar-lh'os, passou para a companhia das duas mulheres, unicas pessoas que assistiram aos funeraes de sua mãe.

Por conselho d'estas, escreveu a alguns homens insignes e relaçoens de sua casa, participando-lhes que estava orphã. Contava ella que cada palavra escripta lhe custava uma lagrima por sentir-se abatida n'aquella mal dissimulada supplica de esmola. Ninguem lhe respondeu, exceptuado um agiota de raça judaica e humilde extracção que devia, não{22} sabia ella como, a sua prosperidade á mãe, de quem havia sido escudeiro, mordomo, ou coisa assim.

Quiz este homem leval-a para sua casa; mas, como ella se esquivasse a deixar as duas senhoras, o generoso agiota offereceu-lhe abundante mesada, que ella acceitou para soccorrer as amigas que a não podiam alimentar e vestir sem sacrificio.

Aos desoito annos, D. Maria José alcançara notaveis conhecimentos litterarios, sem descuidar-se de outras prendas mais caseiras e accommodadas ao seu sexo.

N'aquelle anno de 1850, falleceu o caridoso rebatedor, testando á filha de D. Marianna de Portugal nove contos de reis em inscripçoens e um predio pequeno na rua Nova da Palma.

Longo tempo indecisa no destino que melhor lhe quadrava, foi habitar a casinha herdada, porque, primeiro que tudo, almejava a soledade, a tristeza, o recolhimento, a leitura, o chorar sem testimunhas nem consolaçoens importantes. Os ultimos lances da vida de sua mãe, e a penuria do seu proscripto pae davam-lhe horas muitissimo amarguradas. N'aquella doentia compleição havia que receiar quebra de juizo por excesso de sensibilidade, ou morte prematura.{23}

Divulgou-se a residencia da filha de D. Miguel. Muita gente duvidou-lhe da filiação. Outra acreditou, poetisando o caso de sua natureza prosaico e vulgar como todos os phenomenos d'esta especie. Uns e outros, ainda assim, forcejaram debalde por vêl-a.

D. Maria José, ao abrir da manhã, em dias santificados, ia á missa d'alva, e voltava a horas em que nenhum homem de siso sairía da cama para vêr a propria Semiramis. Á casa da Rua Nova da Palma entravam apenas as duas amigas de sua mãe, conhecidas pelas Picôas, e presumidas descendentes bastardas dos condes de Povolide. Com certeza, porém, estas duas irmãs, Rozenda e Euphemia, nasceram e criaram-se na casa chamada das Picôas, onde seu pae tinha sido estribeiro-ferrador, e sua mãe ama sêcca dos fidalguinhos.

Redarguindo contra este argumento dos linhagistas de estrebaria, Rozenda e Euphemia asseveraram—por lh'o haver affirmado a mãe com tal qual competencia, ao que é de suppôr—que o pae d'ellas não era o ferrador; mas sim um monsenhor parente da casa. Não me recordo bem se diziam monsenhor da patriarchal, se dom abbade de bernardos, declaro. N'este livro, se alguma vez a verdade gretar, é involuntariamente. Assim que me{24} pruem escrupulos, coço-os com a rectificação. Escrever para a posteridade é assim.

Aquellas duas senhoras, ambas prolificas, iam com os seus meninos já pennugentos de buço a casa de D. Maria José; e uma d'ellas, D. Rozenda Picôa, proprietaria d'um hotel na Travessa do Estevão Galhardo, levava comsigo um filho já barbaçudo que dizia ser litterato-politico, e se chamava Victor.

Este sujeito é quem nos botequins andava pregoando a belleza e os dotes espirituaes da filha do snr. D. Miguel; e tão a miudo e encarecidamente o fazia que sobrava rasão a desconfiar que elle, amando honestamente D. Maria, queria subir pelo estribo do avô ao cavallo branco do timbre ducal das armas bragantinas, ou guindar-se ao banco de pinchar, para não ficar estatellado sobre o banco do ferrador. E D. Rozenda, mãe d'este litterato-politico, algumas vezes deu a perceber á princeza que as suas entranhas maternaes estremeciam de jubilo, quando sonhava com o hymeneu de Victor e Maria.

É certo que a neta dos reis se nauseava, se a indiscreta albergueira repetia similhante injuria; mas tanto era seu juizo que nunca levou a desaffronta além do silencio.

Convem saber que Victor, nos seus primordios litterarios, quando se viu no Chiado,{25} com a republica a fervilhar-lhe nos miolos, ajuntou ao nome o sobrenome Hugo, crendo que o chamar-se Victor era predestinação que o fizera sahir já republicano da pia: e d'ahi o assanhar-se contra os monarchas, á imitação d'aquella sublime vêspa que zunia estrophes demagogas em Gersey.

Obrigado pelo sobrenome, Victor fez versos vermelhos como sangue de javali. As suas quadras cheiravam a gamella de fressureira. E tambem, nas prosas d'elle, as testas coroadas não eram tratadas com mais caridade que a syntaxe.

No emtanto, os criticos ordeiros, vituperando a ira republicana do rapaz, diziam que não admirava raivasse tanto contra os nobres quem era filho de um sapateiro, ao qual muitos fidalgos não haviam pagado os remontes, e neto d'um ferrador a quem outros fidalgos não haviam pago as ferraduras.

Esta matraca, impressa nas gazetas, desvairou o litterato que forçou a mãe a declarar pelos prélos que seu defunto marido não havia sido sapateiro; mas sim negociante de couros. Ninguem contestou; já por ser verdade, já porque ninguem podia desfazer na palavra da snr.ª Picôa, quanto á mercadoria do snr. João José Alves, seu marido. Pelo que respeita ao ferrador, guardou ella judicioso silencio em{26} attenção ás cinzas do dom abbade de bernardos.

Manteve-se o politico, não obstante, socialista e orador de assemblêas populares até 1854. N'este anno, porém, ahi por maio, quando as arvores florejam, e as calhandras trilam, e nas quebradas dos montes hervecidos ornejam as poesias lyricas da preceptora de Balaam, achou-se Victor Hugo José Alves invadido d'amor.

Se não amaria! Era maio portuguez, sasão de paraizo terreal, em que a todos nos quer parecer que o matrimonio foi inventado pelos cardeaes na primavera.

Notou-se então no paiz, e particularmente desde o Chiado até ao Rocio, que o Hugo da travessa do Estevão Galhardo gorgeava umas endeixas passarinheiras que ninguem creria destiladas do mesmo craneo que trovejara Nemesis clangorosas de odes republicanas! Elle, o Victor, que dissera em dous versos:

Eu hei-de avassallar os reis ao genio,
E pol-os histriões sobre um proscenio,
E... etc.

Elle, que escrevêra aquillo, vinha agora offertando a uma mulher-rainha a monarchia da sua alma, á similhança de Filinto Elysio{27} que offerecêra a sua em dous versos de um soneto salobro como infusão de chicorea:

Nise gentil, que até á sepultura
Terás d'esta minh'alma a monarchia...

(Não podia deixar de ter a drastica mamona o verso).

Por algum tempo, o filho de Rozenda conciliou a mansidão de bardo amoriscado com as fumaças de publicista revolucionario; mas, por 1855, encontra-o a historia litteraria e politica da Europa a desviar-se notavelmente da vereda do Hugo, que lhe havia de ser bussola entre o Marrare-das-Sete Portas e o templo da memoria, se elle antes não pudesse trocar o nicho perpetuo do Pantheon por um logar vitalicio de aspirante de alfandega de raia sêcca.

Este genio, cujas guedelhas serpejavam, revoltas e besuntadas, como idéas a espumejarem-lhe do cerebro á feição do muco esverdinhado que esvurma das fauces de um chacal, revirou-se com effeito, perguntando ao governo se era decoroso que a um filho do snr. D. João VI—a um rei vencido e exul, se roubasse perversamente o seu patrimonio.

«Á casa do infantado, ao pão do proscripto, que lhes fizestes, ladrões?» bradava Victor Hugo José Alves no seu periodico socialista.{28}

E acrescentava:

«Roubastes o throno, desterrando o principe espoliado, como em encruzilhada da Calabria. Não vos bastava a usurpação de um titulo?

«Roubastes o altar, expulsando os seus ministros mendigos. Não quizestes que sobrevivesse no cenobio um só homem de bem que testimunhasse os vossos latrocinios!

«Salteadores!

«Á barra!

«Aos tribunaes! aos tribunaes!»

N'aquelle tempo, o pudor dos ministros era mais historico e provavel que o da Lucrecia de Collatino.

O ministerio publico deu a suspirada querella. Inaugurou-se, pois, o martyrio do Victor Hugo portuguez. Condemnaram-no em vinte dias de gloriosos ferros, e nas custas.

É o que elle queria.

Queria a hecatomba, para elle sosinho a gloria, que nos sacrificios antigos tinham os cem bois: hecaton, cem: boûs, boi. (Lardo de erudição que não fecha as portas da academia a ninguem). Queria a hecatomba, a via dolorosa da Boa Hora até ao Limoeiro, para depois, nobilitado pelo holocausto, se consubstanciar no coração de D. Maria. O carcere sorria-lhe como um templo em que, velando{29} as armas, sairía de espora d'oiro, nobre e digno paladim da dama a quem se devotára, apostatando do Evangelho de Mazini, de Cabet, e do Herminigildo do pão barato.

Declarou-se. Ousou remetter directamente á neta dos Braganças o manifesto nem sempre humilde das suas aspirações. Estabeleceu confrontos de casamentos em que a desigualdade do sangue era retemperada pelo amor.

Respigando exemplos na propria familia da noiva requestada, contou a alliança do representante dos senhores de Biscaia com uma neta de um duque de Bragança. Bem é de vêr que o filho de Rozenda ousava equiparar-se aos senhores d'Azambuja e Val de Reis, inculcando-se producto de coito damnado entre o dom abbade de Cistér e a ama sêcca dos condes de Povolide.

E mais despejada petulancia foi livelar-se elle hombro a hombro com o fidalgo gentilissimo de quem as mais augustas e bellas damas de Portugal solicitavam á competencia um sorriso, um relance dos olhos requebrados, uma phrase languida de deliciosa pachorra. Elle, Victor Hugo José Alves, a medir-se com as graças plasticas do garboso môço de quem um principe prussiano escrevera isto:... «O marquez de Loulé, com os vestidos dos grandes de Philippe II, pareceria decerto um Buckingham,{30} ou o bem-quisto de todas as rainhas galanteadoras dos tempos feudaes... Esse portuguez admiravelmente bello e verdadeiramente perigoso... tinha enlouquecido tantas cabeças femininas...»[[2]]

Como quer que parvoejasse em displantes de tal atrevimento, Victor cerrava a missiva fazendo votos por que o mais ditoso lance de sua vida fosse o instante em que elle Alves, dobrando os joelhos ás plantas do rei legitimo, pudesse exclamar: «Pae, e senhor!»

«Para servir-vos, braço ás armas feito;
Para cantar-vos, mente ás musas dada.»

Donde havemos de inferir que para uso de muitos tolos creou Deus as mulheres formosas, e creou Camoens os formosos versos.{31}

[III
D. ROZENDA]

Dizem que disse assim.

BERNARDIM RIBEIRO, Menina e Moça.

D. Maria José de Portugal, bem que muito grata ao denôdo civico do litterato, não entendeu que as filhas dos reis desenthronisados devessem pagar com a moeda do matrimonio um artigo condemnado, que, por via de regra, os emprezarios das gazetas costumam pagar á razão de 800 reis a publicistas de maior pôlpa.

Extremamente delicada, respondeu a Victor Hugo em termos pautados pela mais atilada prudencia, mantendo-se na alteza da sua dignidade, sem aviltar os brios do pretendente. Escreveu ella muito bem que as mulheres, nascidas nas grimpas culminantes, estavam,{32} por isso, nas borrascas da vida, mais ao alcance dos raios da adversidade;—que não podiam essas invejadas infelizes ser arbitras do seu destino, principalmente, se, como ella, tinham pae a quem a proscripção, usurpadora do throno, não podéra usurpar direitos sobre a alma de uma filha que o respeitava e adorava. Etc.

Com os acicates do orgulho cravados no epigastrico, onde a sciencia diz que as paixões amorosas espoream mais, replicou o bardo absolutista. Dispensando os naturaes raciocinios que desfazem chiméras de castas, combateu as razoens de D. Maria de Portugal, inculcando-lhe a procedencia visigothica de seu avô D. Guterres Pelayo, e o parentesco ainda não safado pelo atrito de dous seculos entre os duques de Bragança e os condes de Povolide.

Maria não replicou, retransida de espanto. Sua mãe havia-lhe dito que as duas irmãs estalajadeiras eram filhas do estribeiro da casa de Povolide, e que Rozenda era viuva de um negociante de bezerro, que malbaratava os seus haveres no partido dos Cabraes. Era-lhe por tanto espantosa nova o parentesco de Victor Hugo José Alves com a casa real.

Como Rozenda a visse meditativa depois que leu a carta do neto de D. Guterres Pelayo,{33} perguntou-lhe o que tinha, suppondo que o amor motivasse aquella abstracção.

A menina respondeu com innocente reparo que o snr. Victor lhe escrevera coisas de fazerem receiar que elle tivesse a razão alterada.

Pediu explicaçoens a sobresaltada mãe.

Hesitou algum tempo D. Maria José; mas, obrigada pelas instancias, mostrou a carta.

O carão da viuva, já enfiado de susto, ganhou côres quando viu, no contheudo da epistola, o infundado medo da menina.

—Ai! não se assuste, snr.ª D. Maria José...—disse Rozenda velhaqueando certo pudor no tregeito das maxillas—Meu filho está muito em seu juizo... Elle diz a verdade...

—Como?—tornou D. Maria José espantada—Pois a snr.ª D. Rozenda é parenta da casa real?!

—Sou, sim, minha senhora—volveu a filha do ferrador, baixando os olhos com pudicicia que parecia pedir misericordia para as fragilidades da mãe. E proseguiu, tirando dois, suspiros do esôphago, e rolando os olhos na direcção do céo, d'onde provavelmente a estava ouvindo a alma do pae:

—Perdoae-me, minha santa mãe, se offendo a vossa memoria!

E, expectorando outro bafejo a modo de gemido puchado do diaphragma, continuou:{34}

—Minha mãe era galante, e foi educada no mosteiro de Odivellas, onde tinha já estado tambem minha avó, que era sobrinha de uma ama de leite que creou um filho da freira d'el-rei D. João V, a qual freira se chamava por signal a Garça, e o menino chamava-se Antoninho. Não sabia d'estes amores do rei com a Freira, snr.ª D. Maria?

—Ouvi contar...—respondeu a outra, um tanto pezarosa de recordar esta fraqueza do seu quarto avô.

—Talvez não saiba uma coisa que minha bisavó contou a minha mãe... E era que a freira recebia o rei na cella, e que o rei saía de lá até á portaria debaixo do pallio com a abbadeça atraz e mais a communidade.

—Não me conte similhante desatino, que isso é calumnia!—acudiu a neta do fundador da egreja patriarchal de Lisboa.—Affligem-me...—tornou D. Maria molestamente nervosa—Affligem-me essas funestas e deturpadas paginas da historia de minha familia.

—Eram usos d'aquelle tempo, minha senhora—observou ethnographicamente D. Rozenda Picôa.—As freiras tinham enguiços que enfeitiçavam toda a fidalguia e mais os frades, que era mesmo uma pouca vergonha—perdôe-me a expressão, que não é muito civilisada. E então o snr. D. João V? Isso era um ratão!{35} Olhe que ajuntou na Palhavan tres filhos de differentes mulheres! Mas bom pae era elle, honra lhe seja! Dizia minha avó que os poz todos ao serviço da egreja, fazendo-os inquisidores, e arcebispo um d'elles, chamado o Flor da Murtha. E os amores que elle teve com aquella cigana, chamada Margarida do Monte...

—Acabe com isso, snr.ª D. Rozenda!—interrompeu D. Maria José offendida pela teimosia de escavar escandalos nas cinzas do creador da capella de S. Roque.

—Pois sim, menina, eu vou acabar o que tinha a dizer. Como eu vinha contando, minha mãe foi educada em Odivellas com uma freira muito pronóstica, que eu ainda conheci na rua da Bombarda a viver com o prégador da casa real, o padre José Agostinho de Macedo, muito amigo do seu paezinho. Ora minha mãe casou com um sujeito que ella imaginava cavalleiro, porque o viu a cavallo na companhia de alguns fidalgos que namoravam as freiras; e, só depois que casou, é que soube que elle era estribeiro dos condes de Povolide. Ora imagine, minha rica senhora, a embaçadella que levou a noiva quando soube com quem estava casada, tendo rejeitado as offertas de muitos titulares que lhe tinham querido pôr casa e sege em Lisboa! Emfim, não havia remedio a dar-lhe. Resignou-se com a sua{36} sorte, e foi viver ás Picôas no palacio onde estava o impostor do homem. Minha mãe era tão querida das fidalgas que até a levavam comsigo a visitas como aia e mestra dos meninos. Os senhores da casa e de fóra perseguiam-na de dôr de ilharga, perdôe-me a expressão, que não é muito civilisada; ao mesmo tempo que o libertino do marido andava á gandaia por touradas e pagodes, sem se importar com ella. As mulheres não são santas, não é verdade, menina? Minha mãe era uma perola! Ai! que anjo do céo aquelle! Já não nas ha d'aquella raça! Resistiu ás tentaçoens, passante de dois annos; mas, por fim, o coração desconsolado da infeliz esposa enfraqueceu, e... rendeu-se!

Deteve-se D. Rozenda algum tempo recolhida na sua dôr, e continuou:

—Depois d'aquella desgraça, nasci eu. Meu pae era um alto dignatario da egreja, que morreu d'apoplexia, na véspera mesmo de um sabbado em que tencionava reconhecer-me e fazer testamento a meu favor e da minha irmã Euphemia, legando-nos os appellidos e uma herança em harmonia com o nosso nascimento.

Aqui, D. Rozenda, a malograda herdeira, limpou os olhos onde apenas espumava a humidade serosa d'uma ophtalmia chronica. Depois, ajuntou com suspirosas intercadencias:

—Minha pobre mãezinha morreu de saudades{37} de meu pae... sim, de meu pae... quero dizer do outro, percebe a menina? O homem d'ella morreu primeiro d'uma borracheira em Queluz, onde foi com os fidalgos de bambochata. Achei-me sósinha com minha irman, tidas e havidas na baixa conta de criadas de nossas primas. Esta posição não se dava com a nobreza do meu sangue. Quiz vêr se me admittiam como criada ordinaria do paço. A mãezinha de v. ex.ª, que tinha então muito valimento, e nós conheciamos desde que a vimos, linda como as estrellas do céo, a passeiar leites na quinta das Galveas, pediu por nós; mas não havia logar. Resolvi casar-me com o primeiro homem endinheirado que me fizesse a côrte, fôsse elle o proprio diabo em pessoa. Appareceu-me neste comenos o meu defunto Alves, que constava ter cincoenta mil cruzados em sola e dinheiro. Casei-me. Ai! foi outra logração como a que levou minha mãe que Deus haja! Ora oiça, menina. O meu esposo, desde que os chamorros o fizeram pedreiro-livre e regedor, e lhe deram o habito de Christo, não quiz saber mais de negocio. Entregou os armazens aos caixeiros, que nos roubaram; e, á volta e meia, foi-se tudo, e aqui fiquei eu viuva, na flôr da edade, com o meu Victor no berço, e... quer saber? Ainda tive de pagar as custas d'uma querella por causa d'umas cacetadas{38} que meu marido dizem que dera nas eleições!

D. Rozenda, neste agoniado lance da sua chronica, escumou os olhos com o lenço, e proseguiu, em quanto D. Maria a contemplava com enternecido semblante:

—Poucas viuvas se portariam como eu me portei... ficando pobre e bonita, sem amparo de alguem, senão da snr.ª D. Marianna de Portugal, sua mãezinha, que nos valeu em grandes apêrtos...

—Não esteja agora a lembrar-se d'isso, minha senhora...—atalhou D. Maria José—Está bom, está bom, conversemos n'outra coisa...

—Tudo isto que eu disse—volveu a viuva do pedreiro-livre—veio a proposito do meu filho escrever n'esta carta que os seus avós são parentes da familia real. Se eu sou filha de quem sou, e elle é meu filho como de facto é, ninguem póde duvidar que nobreza não nos falta... assim nós tivessemos dinheiro, não acha?—E ajuntou sorrindo e festejando as faces de D. Maria com dengosas meiguices:—Socegue, menina, socegue que meu filho não está doudo nem para lá caminha. O que elle aqui diz na carta é verdade pura, e bem certa estou que foi a paixão que o obrigou a declarar isto; porque elle foi sempre republicano e nunca se lhe importou com os avós; pelo contrario,{39} quando eu lhe contava quem era meu pae, o rapaz mettia-me a ridiculo, e até uma vez lhe preguei uma bofetada por elle me dizer que acreditava que eu fôsse fidalga por ser muito burra.

D. Maria deu visiveis signaes de enfastiada da longa pratica, e assim tratou de cortar o discurso por onde Rozenda pendia a lhe propôr francamente o enlace com o filho.

Voltando despeitada a casa, contou a albergueira o succedido, e concluiu por estas acrimoniosas palavras aceradas com um perverso sorriso:

—Ella não quer casar com o nosso Victor... tu verás... Enfeita-se para o primo duque de Cadaval provavelmente... Ora queira Deus que eu não venha a pôr-lhe a calva á mostra... O folheto ainda ali está na gaveta...

—Ó mulher!—accudiu Euphemia—não me falles no folheto, que já foi a causa da morte de D. Marianna! Tu bem sabes que tudo que ali escreveram é falso... Não mettas a tua alma no inferno! Deixa-a lá casar com quem ella quizer.

Ora este folheto...

A seu tempo.{40}
{41}

[IV
O ESTOMAGO DE VICTOR HUGO]

Da vara de Epicuro idoneo porco.

HORACIO, Epist., Liv. 1.

E o litterato, como a filha do infante lhe não contradissesse a linhagem realenga, nem lhe nevasse desdens sobre o coração ardente, pediu explicaçoens á mãe, que lh'as deu, senão lisonjeiras, inoffensivas do seu orgulho.

Era muito para lastimas vêr aquelle rapaz tão soberbo dos desaforados brazoens que lhe procediam da deshonestidade da avó! Tolejando chimeras da sua mascavada jerarchia, cachoava-lhe o sangue como no empenho que, mezes antes, desvelára em nivelar-se com a plebe, no intento de lhe trepar aos hombros sordidos para de lá ser visto. E ahi, no atascadeiro da escumalha social, era elle mais nauseativo,{42} porque toda a gente limpa se arreda do cerdo que sahe d'um esgoto, sacudindo-se.

Operou-se, todavia, notavel mudança no genio e costumes de Victor Hugo, restituido á liberdade. Os mais aristocratas fautores do grupo absolutista acarearam-no ao seu gremio, ás suas assemblêas clandestinas, ás suas novenas secretas, e á sua maçonaria, se tal nome quadra á ordem de S. Miguel da Ala, na qual o adepto foi armado cavalleiro, chamando-se Fuas Roupinho—nome de guerra.

Entretanto, a menina revelava-lhe candidamente sentimentos de affectiva gratidão, e folgava que elle se nobilitasse na convivencia de pessoas distinctas e amigas de seu real progenitor, as quaes lhe confiavam cartas do principe para que a filha as visse, e por ellas lhe repontasse aurora de esperança na longa noite da sua saudade filial.

Mas, na correnteza d'estes successos, Victor, por muito que melindrosamente escrutasse o coração de D. Maria José, não se via lá. Sem embargo, o cavalleiro de S. Miguel da Ala, cobrando alentos, prudencia e heroismo do seu patrono Fuas, confiára-se aos lances do acaso, ás transformaçoens do tempo, á versatilidade femeal, e, em fim, a um imprevisto rapto de amor, não raro em peitos sensiveis das senhoras.{43}

Outra coisa agora.

Não é vulgar contarem romancistas de que vivem os poetas das suas novellas. Provavelmente, como os desenham mais em espirito que em substancia adiposa, esgalgados, esbatidos, fumarentos, na vigesima dynamisação de fibrina, mais ethereos que azotados, o publico incauto cuida que elles não comem, e se nutrem das brisas lusitanas, pelo mesmo systema physiologico das eguas portuguezas que concebiam das mesmas brisas, segundo assevera algures frei Bernardo de Brito e eu tambem.

Muitos annos ha que escrevo biographias de poetas e outras pessoas phantasticas, sem descurar o capitalissimo predicado da sua maneira de se alimentarem.

Bem sei que vae n'isto prosaismo plebeu, e por isso me hão de malsinar de immortalisador de bagatellas com egual razão da que apódam Camoens por entremetter na vida epica de Vasco da Gama o tacanho caso de não se ter podido vender de prompto a pimenta que o heroe ia negociando nas feitorias asiaticas. Ora os criticas fingem não saber que a pimenta, o cravo e a canella explicam melhor que todo o restante poema o patriotismo de D. Vasco; e que, na mesma razão explicativa, está para Victor Hugo{44} José Alves o bife do Mata, a dobrada do Penim, o pato da Praça da Alegria, e o linguado da Taverna ingleza.

Não me dispenso, por tanto, de espreitar com um olho o coração, e com o outro a cozinha d'este sujeito, e tambem o guarda-roupa, desde que elle se nos estadêa vestido com apontado primor, e nutrido nos mais selectos restaurantes da capital. Não era elle assim quando esbombardeava contra o altar e o throno. Parecia querer então inculcar que se vestia na «feira da ladra» e que ao abysmo profundo do seu desprezo das frioleiras humanas atirára os figurinos do Keill e do Catarro, juntamente com a carta constitucional, com o codigo do bom-tom, e com os tratadistas hygienicos, quanto a lavagem de cara, orelhas e dentes. Haviam-lhe dito ao sordido que Cabet e Proudhon andavam sujos; e devéras lhe doia desconfiar que o Victor Hugo francez se lavava todos os dias. Este requinte de limpeza tinha para elle o fortum burguez improprio do genio.

A sua alimentação predominante era alface, espinafre, e a fava em grande cópia no tempo. Rejeitava carnes vermelhas e brancas, porque o azote era elemento infesto ao cerebro e por tanto obnoxio ás funcçoens do intellecto. Em compensação, comia á tripa{45} fôrra pescadinhas marmotas em razão de abundar no peixe o phósphoro que é grande parte na estructura do cerebêllo.

Afóra as indicaçoens da sciencia, este regimen era-lhe aconselhado por intuitos de ordem assás psycologica e social. Como o seu proposito fôsse caldear e refundir o genero humano, recuando-o á simplicidade dos costumes patriarchaes, estudava em si mesmo o retrocesso do fillet-aux-trouffes á bolota crua, affrontando com selvatica heroicidade os appetites, as cubiças, as fomes, as tantalisaçoens que separam Apicio de Epicuro.

Esta lucta do eu-abdomen com o eu-psyche trazia-o magro e esgrouvinhado. Da cabeça revolta, onde toda a vitalidade se lhe congestionára, estourava-lhe a idéa com umas fulguraçoens indicativas de excesso de phósphoro, extrahido do goraz e do carapau. O seu rancor ás praxes triviaes da arte commum de fallar da rhetorica mercieira—como elle dizia—manifestava-o em discursos e escriptos com argumentos ad odium contra quem comia bons bocados. Os preceitos da grammatica e os canones da logica—coisas crassas e sandias—asseverava elle que tinham sido ideadas por monges atoicinhados em alma e corpo pelo pingue refeitorio da orelheira afeijoada. {46}

Além da injuria que Victor Hugo José Alves irrogava á grammatica, aos frades e ás vitualhas saborosas, acrescia que esfusiava tempestades de phrases horridas contra as ucharias reaes, inventariando as vitelas e bois que semanalmente eram espostejados nos paços, depois de haverem atravessado as ruas de Lisboa amortalhados em xareis com as armas brigantinas. O disparate da censura faria rir á desgarrada os ouvintes, se a cara do orador não estivesse pregoando ao mesmo tempo quanto é para sagrados horrores a eloquencia dyspeptica da fome, e as refulguraçoens acendidas pela superabundancia do phósphoro. Segundo elle, a sanguinea lubricidade dos sujeitos gordos procede da demasia dos globulos rubros do sangue enriquecido pelas carnes esmoídas nos vinhos seculares.

Depois, na ladeira destas supremas semsaborias, esbarrava na lista civil. Era então o remontar-se a raptos propheticos em toada biblica, e assomos de Ezequiel, e conclusoens tanto a frisar que eu, uma vez, assim admirado quanto aterrado, lhe ouvi dizer que elle, sonhador da felicidade do povo, tinha visto uma visão de sete vaccas magras escornarem sete vaccas gordas, e derrubal-as. O meu terror não seria escorreito, se elle depois não{47} acrescentasse que as vaccas magras eram a republica, e as vaccas gordas a monarchia!

Tal era o discolo nos seus dias de gloria, de fome civica, de quinzena cossada, e do phósphoro dos safios e caçoens.

Como se fez por fóra a transfiguração que mal pode explicar-se pelo reviramento do espirito?

A nediez da epiderme, os caracoes da cabelleira, os camapheus da abotoadura, a phantasia das gravatas que pareciam aves do Amazonas, a luneta de ouro, o bigode encalamistrado, o lemiste do fraque, a bota do Sthelpflugg, a badine de unicornio, o galhardear das attitudes, e, sobre tudo, a nutrição—quem lhe deu tudo aquillo ao filho de Rozenda?

O chamar-se Fuas Roupinho politicamente, o afivelar a espora de cavalleiro da Ala, não nos auctorisa a decidir que elle, em arrancadas contra sarracenos, se apossasse christãmente do thesouro de algum rei mauritano. Conjecturar que os partidarios da realeza se fintassem para arraçoarem no presepio o futuro continuador da Besta esfolada, tambem não é racional, attendendo á pleiada de talentos que lá reluzem com habilidade para mais.

Então que era?{48}
{49}

[V
O CORAÇÃO DE D. ROZENDA]

Agnosco veteris vestigia flammæ.
Ca sinto 'inda o calor da antiga brasa.

VIRGILIO, Eneida, Liv. IV, V. 23.

Estava um dia D. Maria José de Portugal lendo a Nação, e de subito as lagrimas lhe turvaram os olhos. Acabava de ler a piedosa senhora uma invocação aos esmoleres amigos do principe desterrado, tanto mais compungente quanto o tragico articulista historiava as penurias do filho de D. João VI, desde o dia em que D. Miguel, conforme o testimunho do visconde de Arlincourt, não tivera em Roma com que comprar o leite para o almoço.

Da concentração lagrimosa passou D. Maria, de repente, a uns transportes de alegria desacostumada, exclamando de golpe:

—Como é bom ser rica!{50}

E, feita breve pausa, acrescentou já menos expansiva:

—Rica!... eu não sou rica!... mas em comparação de meu pae, tão pobre, tão infeliz, tenho muito!

Em seguida, escreveu a D. Rozenda Picôa, annunciando-lhe a primeira radiação de jubilo em sua vida, e a ancia em que ficava de lhe revelar os seus anhelos.

A mãe de Victor, lendo a carta, disse alvoroçada á irman:

—Tenho nora!

—Tens nora? exclamou Euphemia—Então diz-t'o? ella quer?

—Não se explica bem; mas eu já lhe entendo o palavriado. Ouve lá, mana.

E releu a carta, accentuando cada palavra com intimativa perspicaz para emfim interpretar complexamente que D. Maria José de Portugal se achára de salto possuida do amor que ella, em sua linguagem perlicteta, chamava anhelos.

—Essa palavra anhelos—observou D. Euphemia, arregaçando o beiço de baixo, com o dedo indicador—parece-me que é isso mesmo que tu dizes, mana Rozenda... Não te lembras... ora pucha pela memoria... não te lembras das cartas que te escrevia aquelle furriel{51} de lanceiros quando ficaste viuva? Chamava-te meu anhelo.

—Não era o furriel—corrigiu Rozenda.—Quem me chamava seu anhelo era o Peixoto.

—O capitão da carta? Tens razão; era esse... Pois dizes bem; o que ella quer dizer é isso. Anhelo é amor. Ora espera, mana... Eu tambem agora me estou a recordar de não sei quem que me dizia que eu era os seus anhelos, ou anhelitos... Não sei se era aquelle tenente de marinha que nos deu de almoçar na barcaça dos banhos, se era o Januario da rua dos Fanqueiros...

E, reparando na melancolia da irman, disse adocicando o tom:

—Estás triste, mana! Já sei o que é... Lembrei-te o Peixoto... Se eu soubesse...

—Ai!—suspirou Rozenda pondo a mão no lado esquerdo do peito—Ainda aqui me palpita por esse ingrato! Quando o encontro ainda não sou senhora de mim! Se amei alguem n'este mundo, foi elle! Dizias-me tu, quando o perfido se casou, que o melhor systema era o teu:—amar outro até esquecer aquella pessoa. Bem quiz... mas vou-te agora confessar que nem o deputado Elias me fez esquecer o Peixoto!...

—Não é tanto assim, mana...—emendou Euphemia.—Já depois andaste muito apaixonada{52} pelo conego Antunes, pois não andaste?

—Gostei d'elle—respondeu Rozenda langorosamente requebrada.—Não desgostei... mas amar de paixão foi só uma vez... Ai! o Peixoto! o Peixoto! não sei que feitiços me fez!...

Concentrou-se largo espaço com os olhos vidrados de lagrimas, e exclamou por fim com abrupta cólera:

—Canalhas! O Elias, quando depois foi ministro, pedi-lhe que me arranjasse uma pensão já que o meu defunto Alves perdeu tudo na politica dos Cabraes, e nada me fez o patife! O conego Antunes, quando foi despachado bispo para o ultramar, pedi-lhe que fallasse aos ministros na minha pretenção, e safou-se sem me dar cavaco! Corja de tratantes! que tornem para cá!...

Não pareça caricatura a vaidosa precaução com que a snr.ª Picôa se resguarda ou finge acautelar-se das tentaçoens, escarmentada por varios casos funestos. As decepçoens experimentadas podem ainda aproveitar-lhe, se ella esconjurar os embellécos de um major reformado que protestou induzil-a a trahir certo professor de bellas-artes, cuja ternura, como se viu, não tapa os lacrymaes sempre gottejantes da saudosa Rozenda, quando lhe punge na{53} lembrança a imagem do capitão da carta—aquelle Peixoto que lhe desfibrinou o melhor sangue do coração.

D. Rozenda não pôde ainda atravessar despercebida a corrupção do seculo. Tem quarenta e sete annos remoçados pelas madeixas postiças que lhe inquadram o rosto besuntado de posturas. Piza ainda com a firmeza e garbo de meneios que hoje em dia deshonestam o decoro de quem os usa; mas que, n'aquelle tempo, era o estylo das damas que haviam já florecido em 1834, e não mostravam desesperado empenho em ser citadas como exemplares de castidade. Favorecida pela magrêza que, no lapso de trinta annos, desilludira os enfeitiçados de sua elegancia, desde o seu defunto Alves até ao conego, desde o lyrico amador, que lhe chamava anhelo, até ao major reformado que lhe chamava o osso do seu osso, D. Rozenda estofava e boleava os musculos, mantendo a flexibilidade e donaire que muitas damas ainda viçosas perderam logo que os tecidos espessos refegaram e descahiram placidamente.

Lisboa, como todas as capitaes das naçoens que tem civilisação, gaz e ostras, encerra bastas mulheres da tempera de Rozenda, pomos menos prohibidos que sorvados, creaturas observantissimas, em demasia talvez, d'aquelle{54} preceito colonisador com que Moysés justifica Rozenda e as outras philogynias dadas ás contemplaçoens geneticas.

Isto de acabar cedo para o erotismo, o esfriar do sangue, o atrophiar dos nervos, é triste condão das mulheres provincianas.

As que viveram cinco annos da mocidade, curvadas sobre o berço dos filhos, estillaram no seio d'elles todo o seu coração, bafejaram-lh'o nos beijos; o namorado brilho dos olhos desluziram-lh'o as lagrimas de uma noite desvelada á cabeceira de creancinha enferma; sorrisos de amor ou desdem perderam a doçura ou o agro,—já a ninguem enlouquecem de jubilo ou desesperação: é um sorrir para filhos e para Deus que lh'os ha-de manter e guiar. Isto é formoso e santo; mas as mães assim envelhecem cedo; as cores do rosto esmaia-lh'as o gear interno; não lhes esmalta a vida uma restea do sol da alma, não as desperta o alvoroço de sonho apaixonado, nem a esperança lhes enxuga nas palpebras cerradas uma lagrima de saudade. Ninguem as vê, ninguem as ama; porque, na voluntaria abdicação da mulher esquecida de si, e toda absorvida nas graças das vidas que estremece, ha uma glacial repulsão que não deixa aquecer em peito de homem desejo impuro. Os filhos, que a rodeam, são uns como que baluartes sagrados.{55} Primeiro amor e ultimo, maternidade, insulação, muitas maguas, raras alegrias, uma primavera com flores abertas, e logo fenecidas; e depois, memorias sacratissimas, e a posteridade que attribue a sua honra á benção da alma digna do céo.

Ó Lisboa, que vantagem levaria a tua civilisação á das provincias, se lá houvesse duas d'estas mulheres, além d'uma que é decerto a esposa do leitor!{56}
{57}

[VI
O SANTO CORAÇÃO DE FILHA]

Tu lanças de ti tres raios:

Belleza, innocencia, aurora.

GUILH. BRAGA, Heras e Violetas.

Acudiu pressurosa Rozenda ao chamamento de D. Maria; e, para logo mostrar á conspicua menina que lhe percebera as figuras do estylo, entrou exclamando ridentissima:

—Com o amor não se brinca, minha querida menina. Quando o coração empurra, a cabeça vae para diante. A gente, por mais que faça, não resiste ao que tem de ser. E máo é que nos amem; que nós, frageis por natureza, mais hoje, mais amanhan, amamos quem nos ama, não acha?

D. Maria José, fitando os explendidos olhos na illuminada e tregeitosa cara da snr.ª Picôa, quedou-se pasmada sem perceber nem responder.{58} A mulher anhelada do capitão da carta, attribuindo a pudor o silencio espantadiço da menina, continuou gesticulando como creatura de ralé, que não houvesse sido polida pelo deputado Elias e pelo conego Antunes:

—Não se acanhe, que eu bem sei o que é um coração de donzella. Já por lá passei; e, pudesse eu voltar aos dezoito, que escolheria onde quizesse e me fizesse conta. Eu sempre gostei dos homens sabios; mas, como não amei senão o meu Alves, fiquei sem saber o que é a satisfação de estar uma senhora constantemente a ser adorada de um poeta. O meu defunto não era tolo; mas tambem d'isto de sciencias e escrever nas folhas não sabia nada. E, veja o que são as coisas, o meu Victor Hugo sahiu esperto como a menina vê e o sabe apreciar melhor que eu! Dizia-me a este respeito o deputado Elias, que foi meu hospede—a menina bem se lembra d'aquelle deputado baixo e gordo—pois dizia-me elle, muito admirado do talento de Victor, que o menino havia de vir a ser em Portugal uma coisa grande. E eu por amor disso, não me poupei a despezas: mandei-lhe ensinar tudo quanto ha... Ainda bem que elle achou uma senhora que lhe soube dar a devida estimação!... Ha muitas meninas em Lisboa que namoram asnos—perdoe-me a expressão que não é muito {59} civilisada. O que ellas querem é chelpa, e marido seja lá como fôr. São raras as que sabem apreciar a poesia e os dotes de um rapaz fino. Graças a Deus que o meu Victor Hugo amou quem é digna delle! Cheguei ao que tanto desejava... Vou ter uma filha que me ha de dar netos muito lindos... Se não fosse ser ella quem é, eu não queria ainda ser avó...

D. Rozenda cascalhava umas casquinadas com o mais desgracioso e tolo artificio, quando D. Maria perguntou serenamente:

—Então o snr. Victor vae casar?

—Se vae casar!—acudiu Rozenda estupefacta—Pergunta-me isso a menina?

—Sim, minha senhora... Pois não acaba de me dizer que seu filho encontrou uma menina que o sabe apreciar!?

—Ora essa!—tornou a mãe do poeta, avincando o sobrôlho—ou a senhora está a desfructar-me, ou estou doida varrida! Pois a menina não me escreveu uma carta...

—Sim, escrevi, pedindo-lhe o favor de aqui chegar...

—Para me contar os seus anhelos...

—É verdade, para lhe contar que sou feliz com a certeza de que posso ser util a meu pae, que recebe esmolas dos portuguezes... envergonhados de estar um principe portuguez mendigando o pão estrangeiro...{60}

—Ah!—atalhou Rozenda, prolongando a exclamação á medida do seu azedume mal disfarçado—Então, pelos modos, a menina quer dar o seu dinheiro ao snr. D. Miguel?!

—Com a melhor vontade e o mais inteiro contentamento. Nunca me senti feliz como hoje. Imagino que cada pessoa deve receber dos thesouros do céo egual porção de bens da alma, de alegrias puras. A uns sorri a fortuna em gosos de cada dia; a outros, em meio de muitos annos lutuosos que passaram e de outros escurissimos que hão de vir, abre-se-lhes o céo em subitas torrentes de felicidade, que trazem comsigo em uma hora todos os jubilos de longa vida satisfeita.

D. Rozenda abria a bocca a vêr se percebia, emquanto D. Maria de Portugal continuava:

—Foi Deus comigo liberal e justiceiro, dando-me esta occasião de poder mandar a um rei sem throno, e a um principe portuguez sem tecto que o cubra nos paços dos reis seus avós, recursos que devem ser valiosos para o indigente que os pede; e confio que elle os receba sem pejo porque lh'os manda uma filha.

—Então a menina—repisou D. Rozenda em tom reprehensivo—quer dar o que tem e ficar pobre!?... Estou passada! Que tenciona fazer depois, não me dirá? Sim... pergunta a{61} minha curiosidade, depois que der as suas inscripçoens e a sua casa, para onde vae?

—Eu ainda lhe não expliquei todo o meu pensamento...

—A snr.ª D. Maria José tem o coração de uma pomba;—proseguiu a snr.ª Picôa, desdenhando a interrupção explicativa—mas ha de dar-me licença que eu lhe diga que não tem juizo para regular a sua vida... Coração toda a gente o tem; mas cabeça... isso é raro.

—Eu lhe respondo, snr.ª D. Rozenda—insistiu reportadamente a filha do snr. D. Miguel, soffreando a redea aos instinctos soberbos que por natureza e raça lhe deviam beliscar o pundonor.—A minha tenção não é mandar a meu pae tudo quanto possuo. Elle mesmo receberia com desprazer, se o não recusasse, o beneficio de uma mulher que depois da sua imprudente liberalidade, se expozesse aos aviltamentos que marêam a pobreza, e a não deixam mostrar-se á luz a que as senhoras opulentas costumam alumiar as suas virtudes. Repito, minha senhora, não dou ao snr. D Miguel tudo que possuo; mas decerto lhe darei tudo que me sobra. Eu vivo com pouco. A minha amiga sabe que os meus alimentos e vestidos não requerem grandes despezas; mas, ainda que eu estivesse habituada{62} ás pomposas superfluidades da dispensa e da guarda-roupa, corrigiria as loucas demasias, logo que soubesse que meu pae pedia aos homens de quem foi rei os sobejos da minha mesa e do meu toucador.

—Mas...—interrompeu D. Rozenda com ar de quem entendêra.

—Deixe-me dizer o resto, e depois ouvil-a-hei com prazer, minha senhora. Tenho esta casa e nove contos de reis em inscripçoens. A casa não a dou por ora, mas dal-a-hei tambem, se meu pae carecer do valor d'ella, e irei servir, se com o meu abatimento e baixesa puder obstar a que o aviltem. O producto das inscripçoens quero enviar-lh'o, excepto a quantia precisa para eu abrir n'esta casa um estabelecimento de luvas.

—Luveira!—bradou D. Rozenda persignando-se e exprimindo pausadamente as palavras da cartilha—Luveira! a filha do snr. D. Miguel! Ó céos, que escuto! Que dirá sua mãe no outro mundo se a vir a fazer luvas!

—Minha mãe, se me vê do outro mundo, ha-de abençoar-me—respondeu placidamente D. Maria José.—Não ha trabalho deshonroso, nem ociosidade honrada, snr.ª D. Rozenda!... Que dirá minha mãe no outro mundo, disse a senhora! Pois eu não sei a vida de minha infeliz mãe nos seus ultimos annos! Não a{63} conheci apparentemente rica? Não vi sahirem da cocheira a carruagem e os cavallos penhorados? Esqueci eu já que minha mãe teve um hotel, e que nem ahi, em tão obscura e humilde paragem, a desfortuna deixou de a perseguir? Que mais brasoens tem a hospedaria que a loja de luvas?

—Faz differença...—explicou D. Rozenda em desaffronta do seu hotel na travessa do Estevão Galhardo—faz muita differença, muitissima! A dona d'um hotel está nas suas salas, no seu escriptorio, tem criados que servem, e dispensam de tratar cara a cara com os hospedes, percebe? A menina bem sabe que eu nunca admitti á minha mesa, senão o deputado Elias, que depois foi ministro, e o conego Antunes, que depois foi bispo. Eram dois cavalheiros que me tratavam com o maior respeito, e nunca me disseram a menor desattenção n'um tempo em que eu não deixava de ser galantinha. Ora, agora, uma luveira é outra coisa. Tem de estar ao balcão á espera de quem vem. Entra um, entra outro, chalaça d'aqui, chalaça d'acolá, faz lá idéa?! E, quando se tem a cara da menina, imagina lá os atrevimentos que lhe hão de dizer os rapazes, ainda que saibam que a menina é filha de quem é? Hoje em dia, não se respeita senão o dinheiro... Luveira! a snr.ª D. Maria José de{64} Portugal luveira! Sabe que mais? A menina leu tanto que tresleu! Essa sua idéa faz-me lembrar o theatro onde apparecem passagens que não acontecem n'este mundo. Se leu em novellas algum caso d'esses, mande as novellas e mais quem as fez ao diabo, que não fica rico com o presente. Os romances são patranhas que perturbam as cabeças do sexo sem pratica do mundo, como bem dizia o conego Antunes. Emfim, minha senhora, o dinheiro é seu, póde atiral-o á rua, se quizer; mas eu, para desaggravar a minha consciencia de escrupulos, declaro-lhe que faz grande asneira, e perdôe a expressão, que não é muito civilisada.

E como D. Maria permanecesse largo tempo silenciosa, folheando distrahidamente um livro, D. Rozenda colligiu que a mudez era perplexidade, e talvez uma saudavel reconsideração, devida ao acêrto de suas razoens. Vaidosa pois do triumpho, ganhou fôlego e proseguiu:

—Quer a menina fazer bem a seu pae? Dê tempo ao tempo. Arranje-se primeiro. Case com quem saiba augmentar a sua fortuna, e depois reparta do que lhe sobejar; mas de feitio que os seus filhos não fiquem a pedir, por causa de serem netos d'uma pessoa real. Pois não é assim? Se a senhora D. Maria der{65} o que tem, e se puzer a vender luvas, cuida que acha pessoa de teres que a queira para esposa, apesar de ser muito linda? Não ha de faltar quem a queira; mas a felicidade, que lhe ha de vir d'esses pretendentes, Deus m'a desvie da porta pela sua divina misericordia...

—Está bom!—cortou D. Maria José, com enfado e sobranceria.

—Não se zangue, minha senhora... O que eu lhe digo é o que sua mãezinha lhe diria...

—Não offenda a memoria de minha mãe, que foi uma desgraçada digna de respeito.

A viuva do mercador de couros sorriu então com um tão brutal esgar de bocca e olhos que fez transluzir no semblante de D. Maria a raiva de ver-se affrontada por aquelle tregeitar de beiços que lhe pareceram estar escarnecendo a memoria de sua mãe.

—De que se ri a senhora?—perguntou desabridamente.

—De que me rio? Pois a gente não ha de rir-se, quando ouve dispauterios? Em que offendi a memoria de sua mãe? Essa é boa! Então dizer eu á filha do snr. D. Miguel e da snr.ª D. Marianna Rolim de Portugal que não se faça luveira, é offender a memoria de sua mãe! Ora, minha senhora, não nos entendemos! A menina é sabia, lê livros e casos romanticos;{66} e eu cá, a respeito de livros, basta-me a experiencia que não é máo livro, e o mundo que não tem pouco que ler... Emfim, minha menina, estou ás ordens de V. Ex.ª, e hei de amal-a sempre como filha, tanto me faz que seja luveira como rainha. Prometti a sua mãe, quando a fui encontrar nas agonias da morte, que, emquanto eu fosse viva, a menina, não passaria precisoens. E, se as não passou porque teve quem lhe désse uma mezada, tambem as não passaria, se nada tivesse de seu. Deus permitta que não; mas, se alguma, vez a snr.ª D. Maria José chegar á pobreza, ha de achar-me tão sincera amiga como fui e sou.

A menina, commovida e repêza da altivez, com que interrogára a amiga de sua mãe e sua gasalhosa hospedeira em annos perigosos, abraçou-a, pediu-lhe desculpa, e ao mesmo tempo protestou, soluçando, que não deixaria de soccorrer seu desvalido pae.

—Faz bem, faz bem, menina!—obtemperou Rozenda sensibilisada e, ao mesmo tempo, previdente.—Se seu pae voltasse ao throno...

—Nunca mais!—murmurou D. Maria com os braços pendidos e os dedos entrelaçados—nunca mais!

—Por que não?!—replicou a mãe do vidente, que assoprava á pira do fogo sacro no{67} escriptorio da Nação.—Tenha esperanças, menina! Meu filho diz que o snr. seu pae ha de vir, e ha de ser elle mesmo, o meu Victor, quem o ha de pôr no throno!

—O snr. Victor é poeta...—volveu D. Maria, sorrindo melancolicamente.—Cuida que as phrases inspiradas pela justiça fulminam as iniquidades dos homens. Engana-o a miragem do genio, que se julga omnipotente. Os raios do talento não são como os do céo que vão direitos aos durissimos brilhantes e os pulverisam. A sociedade sabe e a experiencia mostra que os coriscos, arremessados contra os poderosos, apagam-se quando o resplendor do ouro os deslumbra...

—Sempre é muito esperta!—interrompeu D. Rozenda ingenuamente admirada—A gente esquece-se a ouvil-a, minha senhora! Quantas vezes o deputado Elias me disse que a menina havia de ser uma grande capacidade! O meu Victor Hugo diz tambem que a snr.ª D. Maria José, se quizer, póde idear novellas. Porque não dá a menina alguma coisa á luz? Escreva um romance de amores...

—De amores!...—obstou, sorrindo, D. Maria—como hei de eu escrever do que não entendo?

—Não entende!?... Boa vae ella! O amor{68} não tem nada que entender. Quem ensinou os passarinhos a amar? não me dirá? A natureza tanto ensina os animaes como a gente. A menina, se não sabe, é porque não quer.

—Não posso, nem penso em tal. O amor só entra em coraçoens abertos ao contentamento. Alma em trevas não attrahe raios de luz tão intensos. O amor é como o sol que decerto não brilhará neste recinto, se eu conservar as janellas fechadas d'uma noite a outra noite.

—Ora deixe lá...—redarguiu em excellente prosa a quinhoeira do lyrismo do deputado Elias.—A snr.ª D. Maria José ha de pagar o tributo como as outras: se não fôr Sancho, será Martinho. O que a menina faz é o que eu tenho feito desde que enviuvei: não quer amar; isso lá percebo eu. Bem importunada tenho eu sido por pretendentes ás segundas nupcias, tantos como a praga dos gafanhotos do Egypto! Resisti e hei de resistir, porque jurei eterna fidelidade até á morte ao meu defunto Alves, apesar de elle me deixar pobre, sacrificando-me á politica cabralista. Lá se elle fosse esperto como o filho, ainda valia a pena deixar o negocio pela politica; mas, Deus o tenha á sua vista, aquelle perdeu-se por ser um toleirão! O meu Victor{69} Hugo sahiu ao avô cá pelo meu lado, que dizem que era muito sabio meu pae de Povolide. Todos me dizem que o rapaz ainda pode ser ministro. Eu não engulo carapêtas; mas, quando me lembro que o meu hospede Elias chegou a ministro, sendo elle bom homem, mas muito tapadinho, diga-se a verdade, não me admira nada que meu filho, cedo ou tarde, venha a subir ao governo. Se o snr. D. Miguel viesse, a menina pedia-lhe que désse uma pasta ao meu filho, não pedia?

—As mulheres, minha senhora, quer sejam princezas, quer sejam luveiras, não devem intrometter-se nos negocios do estado. Se meu pae tornasse a Portugal, dir-lhe-hia eu que o snr. Victor soffreu vinte dias de carcere por amor d'elle.

—E o mais que elle soffrerá ainda...—ampliou D. Rozenda.—Acho-o tão incanzinado no partido realista, que, qualquer hora, estoura trovoada peior, que a outra. Os fidalgos trazem-no nas palminhas, e eu vejo-me atrapalhada para o vestir com mais luxo, porque elle vae a todas as casas principaes, e não me falla senão na senhora marqueza d'Abrantes, na senhora condessa de Pombeiro, de Redondo, da Figueira, Barbacenas, Pancas, etc. E bem vê a menina que quem gira nesta roda{70} fina não se ha de ir vestir ao Nunes Algibebe por dez ou doze pintos. Deus sabe com que linhas cada qual se coze...

—Peço-lhe, minha amiga, que disponha do que é meu—disse a menina apertando-lhe a mão.

—Muito agradecida, minha senhora; por emquanto, cá me irei remindo, como puder. O que eu queria da minha menina para o meu apaixonado Victor, sabe o que era?—isto.

E, apontando-lhe ao coração, trejeitava com os olhos mui derramados e um pender de cabeça languescida—coisas e modos que muitas vezes deviam ter eschammejado vesuvios no deputado Elias e no conego Antunes.

—Tem de mim o snr. Victor—disse solemnemente D. Maria—o mais que posso offerecer a um irmão.—E logo, norteando a palestra n'outro rumo:—Ainda me falta pedir-lhe um favor, minha amiga. Queria eu que seu filho soubesse a maneira de eu remetter a meu pae tres contos de reis, que é o que posso liquidar das inscripçoens, tirando para mim o necessario para manter a minha lojinha de luvas.

—Ella cá torna com a mania! Então não muda de idéa?{71}

—Não.

O tom imperioso e sêcco da resposta fechou o debate.

D. Rozenda sahiu, promettendo communicar-lhe o que seu filho lhe informasse quanto ao modo de remetter o dinheiro.

No dia seguinte, D. Maria, recebidas as informaçoens, entregou a D. Rozenda os seus papeis legalisados para a venda.{72}
{73}

[VII
OS TRES CONTOS DE REIS]

Por entre o labio torpe e podres dentes,
D'aquelle abysmo esqualido, que póde
Sahir que não tresande!?

GOETH., Fausto Segundo—côro.

E n'aquelle tempo reinava em Portugal D. Pedro V—cidadão portuguez, que morreu honrado e sinceramente carpido.

Aquelle rei era triste, porque o sol ardente do espirito, o ardor da sciencia lhe crestaram o viço da juventude.

O conde da Carreira e outros pedagogos, que trajavam ainda calção e rabicho na alma, intouriram o animo do principe com iguarias indigestas, introvertendo-lhe para o viver intimo, em florescencias sem aroma, os gomos da mocidade que nunca desabrocharam perfumes de contentamento. {74}

E, porque era triste, era bom, compadecido, esquivo a vanglorias, como quem sabia, que, nas naçoens livres e pobres, nenhumas ostentaçoens sobredouram o manto real senão as da reportada parcimonia e abstenção de soberanias extemporaneas.

Um regimen de governação, que facultasse ao rei amplas prerogativas, demonstraria que o primogenito da snr.ª D. Maria II era especulativo de mais para deliberar n'esta rasa missão de governar homens. O polyglotto snr. Viale inoculara-lhe empólas academicas, uns arrôbos já bastantemente serodios em glossas de mysterios dantescos, pelos quaes o principe, absorto entre o enigma da meia-edade e o enigma peior dos mestres, revelou predilecção impertinente.

Que farte sabia o previsto alumno dos pingues sabios que lhe não montaria ganancia alguma o estudo da sciencia de governar este manso povo, que lhe havia apedrejado o avô e rossado a injuria desbragada pela sombra da mãe impolluta. Nas angustias da snr.ª D. Maria da Gloria se lhe revelou a condição acerba de quem ha de ver homens e factos atravéz do prisma dos validos. Desde o padre Marcos até ao senhor do castello de Gualdim Paes, encadearam-se successos que mostraram ao meditativo principe o indeclinavel calix{75} em que sua mãe lhe legara—para saudades e exemplo—o travo de suas lagrimas.

Por isso aquelle moço não provára as alegrias e regalos de sua edade e jerarchia.

Ao saír do sereno ambiente do gabinete de estudo para as borrascas da vida pratica, retrahia-se aos braços da chimera luzentissima que esvoaçava ás regioens sombrias da Divina Comedia—semsaboria immortal!—ou se librava nas nevoas de Macpherson,—immortal semsaboria!

O ar do paço tresandava ás prêas que os escaravêlhos rolavam pelas alcatifas. Da camarilha das mulheres ainda vaporavam as caçoletas encontradas nas recamaras da Bemposta. Na camarilha dos homens mal podia o principe sincero extremar entre respeito e adulação, e entre silencio estupido e sisudeza discreta. Se os mestres, preleccionando-lhe o reinado de seu tio-avô, bosquejassem o caracter dos validos que o derrancaram, o rei, nas suas salas, cuidaria achar redivivos, em cada cortezão, o Vadre, o barbeiro viscondisado, e o Sedvem, mais seriamente vestidos com as librés de 1857.

Uma vez, D. Pedro V, obedecendo a impulsos de bonissima indole, ordenou que as lastimas dos queixosos de iniquidades pudessem chegar á quasi soledade onde se amiserava{76} um rei. Inaugurou-se a celebrada caixa onde os requerimentos eram lançados. A chave d'esse cofre de lagrimas, que já haviam sido acalcanhadas no peito dos repulsos, era el-rei que a tinha. Confluiram a centenares os appêllos da injustiça dos ministros para o simulacro do braço soberano; mas as reparaçoens eram baldas, porque D. Pedro V o mais que podia dar em beneficio dos queixosos era a esmola aos que lh'a mendigavam, e commiseração aos que se deploravam, pedindo justiça ao rei e não esmola ao abastado. O alvitre do imperante denotára alma egregia; mas o infortunio vingára apenas fazer-se conhecido no gabinete real. E mais nada. As virtudes do rei não podiam ser mais fecundantes que as do cidadão, primeiro na jerarchia, mas não decerto o primeiro em bens de fortuna. Era rei, consoante a pauta constitucional; e os accusados no seu tribunal fantastico eram os pennachos, as togas, os arminhos e os argentarios a quem os éphoros pediam de usurario emprestimo as mezadas da lista civil.

Os aulicos de quem o principe se rodeava, forçado pela pragmatica, nunca lhe referiram com certeza as penurias que esmaltavam as cans de D. Miguel de Bragança. Não era respeito á legitima soberania, nem temor do real desagrado que os amordaçava. Elles sabiam{77} que na alma do rei não negrejavam odios ao irmão do seu avô, nem se quer á sequéla legitimista que explorava nas franquias do codigo liberal a liberdade de injuriar o throno, vendendo a injuria impressa. Enfreava-os o receio de espertar em a liberalidade do coração dadivoso, defraudando-se dest'arte do quinhão que repartiam, pondo o almoxarife á porta das mercearias insoffridas a pedir-lhes que não denegassem ao refeitorio do rei de Portugal as massas e os paios fiados com desconfiança.

Não obstante, D. Pedro V soube que D. Miguel, levado pela providencia applacada aos braços da espôsa, que lhe tapetava de flores tardias o breve caminho da sepultura, e o rodeava de alegres berços, povoados de ridentissimas creanças—uma senhora, no mais vicejante dos annos, e no esplendor da belleza, immaculada, neta de reis—espectaculo que dulcifica lagrimas!—offerecia o seio para reclinatorio de um velho expatriado e pobre!

No regaço d'aquella dama alguns portugueses, ajoelhados, não á rainha, mas ao anjo, depunham o producto das esmolas colhidas em Portugal.

O Senhor D. Pedro V apreciára a virtude dos que, sem esperança de galardão, mantinham no exilio a mediania do infante. Quiz,{78} pois, egualar-se no sentimento da caridade aos que se devotavam ao homem esbulhado de todas as grandezas, e até privado da gloria posthuma com que a historia fartas vezes honra a lapide dos que resvalaram do throno ao sepulcro pela rampa do exilio.

E, depois, o magnanimo monarcha, arrobado no resplendor de uma estrella que lhe levára para Deus a luz ephemera dos seus jubilos, alou-se no raio celestial, e gosou-se de lá na contemplação das mais sinceras lagrimas que ainda alguma nação chorou sobre a mortalha do seu principe.

E então somente em um secreto livrinho de lances, que o rei deixára escriptos de sua vida intima, se encontrou a verba mensal de trezentos mil reis votada a D. Miguel de Bragança.

Ora haveis de saber que o irmão do snr. D. Pedro IV nunca recebeu a mezada do rei de Portugal, nem os tres contos de reis de D. Maria José.

Posto isto, leitor attento e sobre tudo philosopho, diga-me V. Ex.ª, se dado o exemplo da fraude em tão altas regioens, é muito de espantar que Victor Hugo José Alves enriquecesse o seu sangue depauperado com a substancia metallica dos tres contos de reis que a obscura D. Maria José enviara ao pae!{79}

É d'este modo que se esclarecem as melhorias tão depressa feitas na pessoa espiritual e corporea do filho de D. Rozenda Picôa.

O procedimento d'este escriptor não seria, talvez, digno da commenda de S. Thiago da Espada, nem tambem me consta que elle a pedisse; todavia, não se me figura irreprehensivel equidade alcunhar de ladrão qualquer sujeito, porque não foi agraciado. Se não teem sido muitos os exemplos d'este descuido em Portugal, as excepçoens não devem menoscabar os creditos de Victor Hugo. Os reis não podem, sobraçando a cornucopia das mercês, espreitar todos os latibulos onde se forjam malfeitorias. Não é da attribuição dos cabos de policia enviarem a sua magestade um mappa mensal dos malandrins mais conspicuos da sua esquadra. Por via de regra, o poder executivo não leva todas as quintas feiras á munificencia regia pessoas de quem o leitor costuma acautelar o seu relogio, ou receia encontrar em ruas não patrulhadas.

Quando um ministro do reino apresentava, ha poucos annos, ao senhor D. Luiz I, que Deus guarde, o decreto que laureava com a corôa de barão de S. Diniz um proprietario de bordeis no Rio de Janeiro, seria indecoroso para o alcouceiro agraciado ajoujarem-no a um biltre ordinario. O rei sabia que tambem Catão{80} ministrava em Roma collarejas de alquilaria das quaes cobrava percentagem. Qual rei denegaria um baronato a Catão censorino?

Victor Hugo José Alves que espere. Mais tarde será regalardoado na proporção da injustiça ou da inveja que lhe atabafou os meritos. Deixe o bem estreiado cidadão germinar a semente que fiou do uberrimo torrão da sua patria. A arvore ha de bracejar vergonteas afestoadas de grinaldas que algum dia lhe hão de juncar a escarpa do capitolio.

Entretanto, a conversão de tres contos de reis em objectos attinentes á reformação physica e moral do poeta, seria acto digno de moderados elogios, se o sujeito não precedesse de calculos e consideraçoens politicamente transcendentes a consubstanciação do metal com a sua pessoa. Dotado de vistas perfurantes nas nuvens pardas do futuro, Victor Hugo, estribando-se nos correligionarios, e mais ainda na efficacia dos seus proprios artigos e instinctos amotinadores, previu que o principe proscripto seria cêdo ou tarde redintegrado no throno. Não era base menos fundamental de seus propheticos raciocinios a depravação das doutrinas liberaes, desde que a classe media corrompida gafára de sua lepra a gentalha, de quem se divorciou, pensando que o irmanar-se com fidalgos desbragados{81} era desencanalhar-se da ralé onde havia nascido.

O severo snr. Alexandre Herculano, no prologo Da Origem e estabelecimento da Inquisição, tinha escripto umas phrases biliosas de que Victor Alves inferiu a provavel restauração do rei legitimo. O vidente historiador, no conceito do cavalleiro da Ala, não podia illudir-se, quando vaticinava a restituição do absolutismo pelos proprios esforços da burguezia, sua triumphante inimiga, a qual, já temerosa das sanhas da plebe desafrontada do cabrêsto religioso, se colligaria com reaccionarios para repor rei absoluto que lhe caucionasse os haveres, cortando com a espada dos dragoens de Chaves as cubiças dos proletarios.

Prenhe d'estes grandes palpites sociologicos, Victor impoz-se o dever civico de jurar bandeiras na vanguarda do trôço mais aguerrido, metter a cabeça aventureira á brecha mais bombardeada, e lampejar claroens onde a noite dos espiritos fosse mais caliginosa—claroens de eloquencia nos clubs, nos botequins, e até nas salas das Aspazias vetustas, que, desde 1834, anafavam as barbas de todos os Pericles—como elles vingam n'este paiz—mais ou menos similhantes em esthetica e plastica ao chorado Elias de D. Rozenda.

Á mais vivida luz do entendimento se mostra{82} que Victor Hugo não conseguiria relacionar-se na sociedade, onde lhe cumpria fecundar com o verbo as convicçoens legitimistas, se não se entrajasse com o asseio e galanice que hoje em dia realçam as clausulas do bom orador. Decerto lhe seria atravancado o accesso aos saloens, se na sua guarda-roupa tivesse sómente a quinzena de panno pilôto com que mediocremente se distinguia nas cêas do Collete-Encarnado; e com a qual se escondia na penumbra de um «caffé» da rua de S. Roque, aquecendo a grogs fiados a fantasia. Tempos calamitosos eram esses em que o deputado Elias o brindava com um paletó no fio, e um collete de mozaico desbotado, relançando á mãe um olhar que requeria gratidão, fidelidade, e talvez a renuncia completa ás caricias do conego Antunes!

Victor Hugo tinha presenciado das galerias da camara baixa que os homens, em cuja testa latejava a inspiração estuosa dos Izocrates e Hortencios, primavam na casquilhice do trajo, no adamado da penteadura lustrosa, no azeviche brunido dos bigodes. Viu que o involtorio engrandecia mais que muito as posturas sculpturaes e antigas da gesticulação, bem que a clamyde grega ondularia mais imponente nas omoplatas do snr. José de Moraes, do que em verdade as abas do fraque um tanto{83} canhestras para as attitudes largas e arrojadas. Reparou em particular o embellesado Victor Hugo José Alves no aprumo estatuario do snr. Carlos Bento; e, com quanto o fino gosto dos Phidias inéditos estivesse cubiçando uma toga cahida com romana magestade sobre aquella confirmação de myologia classica, o bem posto da pessoa entre as costuras da vestimenta não prejudicava de todo os raptos de eloquencia que lhe phosphoreciam no aspeito grávido de idéas. Ia n'estes effeitos, desconhecidos a Longino, o segredo da arte de vestir bem.

Não lhe fez menor impressão o snr. Arrobas, que sorria de esconso para o collete listrado do já hoje defuntissimo snr. João Elias; nem pôde esquivar-se a imaginar que o snr. Mártens Ferrão, sem o primor das suas casacas, e o compassado pendulo do braço direito á competencia com o pendulo compassado do braço esquerdo, apenas vingaria com os seus discursos retirar das pharmacias o láudanum, e constituir a camara em permanente jardim das Oliveiras, onde os discipulos de Jesus dormiam de tristesa, como S. João refere. Dormir de tristeza!—é o mais curial e justificado somno que pode narcotisar uma assemblêa de legisladores, quando a providencia das naçoens não encarrega alguns deputados bem penteados e vestidos de manterem o{84} auditorio em alegres insomnias, salvante o snr. duque de Loulé para quem o proprio snr. padre Antonio Ayres do Porto seria uma amendoada.

Destas contemplaçoens sahiu o filho de D. Rozenda Picôa bastante inquieto sobre a proveniencia dos recursos precisos a quem por força, privado d'elles, havia de abdicar dos destinos apontados fatidicamente pelo genio.

Se elle enviasse ao snr. D. Miguel de Bragança os tres contos de reis, e assim se exonerasse de ser o motor da restauração, á mingua de fato digno d'um restaurador, não seria isto damnificar o paiz, a trôco de ser honrado com um homem? Que montaria mais ao proscripto—o ouro da filha, ou a restituição da corôa? E, se alguns punhados de ouro, em mãos alheias, lhe estavam logrando juros de patria e corôa, não era obra para tres vezes bemdita aquella santa ladroagem que habilitava o revolucionario a acercar-se, depois, do solio do rei restituido, com a ufania de outros bandoleiros que elle via assentados á orla do solio usurpado?

Tres contos de reis nas algibeiras de Victor Hugo, estavam germinando casos e transformaçoens de magnitude incalculavel, ao passo que, enviados a Heubach, seriam ingloriamente{85} consummidos em comestiveis e outras ridiculezas de todo ponto inuteis á reivindicação da lei fundamental de Lamego.

Ao proposito da legislação patria, derogada pelo direito da força, muniu-se Victor Hugo de copiosa livraria; mas tanta era a confiança que pozera na espontaneidade original dos seus syllogismos, que lia quasi nada, contentando-se com o substractum extrahido dos escriptos do padre José Agostinho de Macedo e fr. Fortunato de S. Boaventura. Um livro que elle preferia ao Punhal dos Corcundas era Les talismans de lá biauté, obra até certo ponto estranha ás estudiosas vigilias d'um conspirador; mas conducente aos seus intuitos de coadjuvar a beldade dos actos do espirito com a compostura esmerada do corpo.