Notas de transcrição:
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1870.
Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los.
No original havia uma errata. Nesta adição corrigimos os erros ali apresentados, e marcámos as alterações, colocando o texto originalmente impresso em comentário como aqui.
O CONDEMNADO
O CONDEMNADO
DRAMA
EM TRES ACTOS E QUATRO QUADROS
SEGUIDO DO DRAMA EM UM ACTO
COMO OS ANJOS SE VINGAM
POR
CAMILLO CASTELLO BRANCO
PORTO
VIUVA MORÉ—EDITORA
PRAÇA DE D. PEDRO
1870
IMPRENSA PORTUGUEZA
Rua do Bomjardim, 181.
{5}
A JOSÉ CARDOSO VIEIRA DE CASTRO
Se ainda tens lagrimas, se ainda as tens no coração, meu infeliz amigo, permitta Deus que possas verter alguma na pagina onde encontrares uma palavra, um grito de lacerante angustia, como tantos que has de ter abafado.
N'este livro, não pude bem assignalar um leve traço do teu enorme infortunio. Não pude, porque a tua desgraça não tem nome.
Figura-se-me que tu, Vieira de Castro, na tua cerrada noite de seis mezes, ainda não pudeste vêr ao sol de Deus os sulcos por onde desceu de teus olhos o sangue, a seiva toda de tua mocidade.
Entre o teu passado e este dia de hoje—cujas horas vão já batendo na eternidade de uma tristeza irremediavel—estás tu empedrado de assombro a encarar{6} no abysmo onde te resvalou a mão que beijavas e ungias de lagrimas de felicidade.
No fundo d'essa voragem vês as tuas corôas de gloria a seccarem-se, a desfazerem-se, a pulverisarem-se—o desabar deploravel d'uma esplendida vida que foi a tua, ó grande espirito!
Levanta d'ahi os olhos, alma atormentada, antes que vejas em lodo o pó das tuas grinaldas, sobre as quaes vão cuspindo homens tão escassos de misericordia, como de dignidade.
Deus que te veja chorar, e te envie o doce trago da morte, que receberás sorrindo como todo o homem que expira vergado ao pêso de sua cruz, mas não á ignominia d'ella.
Falta-te morrer, Vieira de Castro, para que em tua sepultura se respeitem as cinzas d'um grande coração extremado na honra e na desgraça.
CAMILLO CASTELLO BRANCO.
{8}
PERSONAGENS
D. Eugenia de Vasconcellos (ou D. Leonor) ... 28 annos
Viscondessa de Pimentel ... 50 annos
Visconde de Vasconcellos ... 55 annos
Rodrigo de Vasconcellos ... 28 annos
Pedro Gavião Aranha ... 27 annos
Jorge de Mendanha ou Jacome da Silveira ... 51 annos
José de Sá ... 50 annos
Joaquim, criado.
João, criado.
Outros criados e pessoas que não fallam.
A scena corre no Porto em 1857.
{9}
O CONDEMNADO
ACTO PRIMEIRO
Sala pomposamente trastejada, mas em desordem. Portas ao fundo e lateraes. Dois criados estão espanando a mobilia.
N. B. O criado João, mais montezinho que os outros, denota a estupidez velhaca do aldeão.
SCENA I
JOAQUIM E JOÃO
Joaquim (refestelando-se em um sophá)
Ó João, toca a descansar; senta-te, mas com geito, se não afundas.{10}
João (apalpando o estofo)
Isto foi amanhado com bexigas cheias de vento? Queres tu vêr que eu vou rebentar o fole? (Deixa-se cair e levantar pelo elasterio das molas) Ih! cuidei que dava co' costado no solho! Um homem regala o cadaver n'estas enxergas!
Joaquim
Isto sempre é melhor que andar a guardar ovelhas na Samardan, eim?
João
O quê? pois não fostes? Tomára-me eu lá com as minhas ovelhas. Assim que m'alembram os nossos montes, começo a esbaguar e átrigar-me aqui dentro do coração (pondo a mão na barriga).
Joaquim
O coração não é ahi, bruto! Ahi são as reins.{11}
João
Onde é então?
Joaquim
Aqui. (Pondo a mão perto do sovaco do braço direito).
João (com espanto)
Aqui?! Credo!
Joaquim
Ahi mesmo. Aqui foi sempre o coração; e o bucho está aqui, salvo tal logar (apontando o umbigo).
João
O bucho aqui? aqui é a espinhela; o bucho é onde cáe a trincadeira.
Joaquim (rindo-se com ar de ironica piedade)
João, tu chegaste da Samardan ha quinze{12} dias, e eu tenho palmilhado todas as capitaes do reino de Portugal. Olha se me ensinas onde está o bucho, a mim, que tenho sido criado de conselheiros, de conegos, de barões, e mesmamente de ministros de estado! O bucho desde que o mundo é mundo, foi sempre aqui (insiste na demarcação). Faz-te esperto, rapaz! O patrão já me disse hontem: «Ó Joaquim, este teu primo é um burro.»
João
Eu bem ouvi. Não foi assim que te disse o patrão. O que elle disse foi: «Ó Joaquim, este teu primo é tão burro como tu.»
Joaquim
Não disse isso.
João
Na minha salvação, disse; e cá a mim, se o patrão me torna a chamar burro, vou-me p'ra a terra. Eu não sou burro, sou christão{13} baptisado. Alcunhas não nas quero. Cá no Porto é costume essa chalaça.
Joaquim
Que chalaça?
João
Todos são bichos.
Joaquim
Todos são bichos? Más maleitas me tolham, se eu te percebo!
João
Lembras-te quando eu fui p'ra porta da rua saber quem vinha cá? Pois olha, ao primeiro veio um fidalgo que se chamava Lobo; depois um Raposo; depois um Leão; depois um Coelho e um Lebre, e outro senhor chamado Camello, e outro Pato, e um Rola. Olha que bicharia! Eu estava a vêr quando chegava{14} um Urso e um Boi. Lá na Samardan toda a gente aveza nomes de gente, pois não aveza?
Joaquim
Homem, tu nunca viste nada. Faz minga correr todas as capitaes do reino de Portugal como eu. Olha que os fidalgos quasi todos tem bichos...
João (atalhando)
Tem bichos? Arrenego-os eu!
Joaquim
Não me falles á mão; quasi todos teem bichos no nome é o que eu queria declarar na minha proposta. Tu não inzaminaste as armas reaes que o patrão tem nas quintas lá de riba?
João
Olha que já estive a malucar que na porta da quinta do Corgo estão as armas do rei{15} com dois largatos e um lacrau. Os largatos, salvo seja, teem assim as unhas (recurvando os dedos). E o lacrau tem a lingua á dependura (figurando). Mas cá o patrão não se chama largato nem lacrau, que eu saiba.
Joaquim
O animal que viste não é lacrau. O bicho que bota a lingua de fóra chama-se leopardo.
João
Isso é nome de christão... Leonardo!
Joaquim
Leopardo, asno!
João
Tu não me chames asno, primo! Não me desfeiteies. Quem não sabe, aprende. Então por que tem o patrão o leopardo nas armas reaes?{16}
Joaquim
É historia antiga lá da familia.
João
Então esse bruto era da familia do patrão? Tu tamen não és pequeno alimal, Joaquim! Estás um bom fistor! Olha se me engrampas a mim. Olha... (Arregaça o olho esquerdo).
Joaquim (alvoroçado)
Espana, que ahi vem gente...
SCENA II
OS MESMOS E O VISCONDE DE VASCONCELLOS
Joaquim
Tenha vossa excellencia muito bons dias, senhor visconde.{17}
Visconde
Adeus. Meu filho saiu?
Joaquim
Saiu ás nove horas e mais a senhora. Acho que foram comprar arranjos para o baile.
Visconde
Quando é o baile?
Joaquim
Ámanhan, senhor visconde.
João
É ámanhan, mas saberá vossa excellencia que só começa de noite.
Joaquim (acotovelando-o)
Cala-te ahi!{18}
Visconde
Vão; e assim que meu filho entrar digam-lhe que estou aqui. (Os criados sáem).
SCENA III
Visconde de Vasconcellos
Bailes! bailes! com que tristeza os imagino!... Quem me dera não saber que meu filho dá bailes!... Deixasse-me eu ficar na solidão do meu desterro na aldeia... Era preciso que a minha amargura entrasse no coração viçoso e feliz de meu filho, para que a desgraça o não assalte em pleno gozo de mocidade, saude e abundancia... Era preciso; mas ha cruel impertinencia n'este meu desejo. Um velho a querer regelar uma alma em flor com os seus pezares, com os seus tantos invernos vividos e chorados ao pé d'uma sepultura!... isto é uma iniquidade! Os experientes da vida,{19} os que envelheceram penitentes, onde quer que chegam, levam comsigo um fantasma funesto. Na sua presença, aos descuidados do futuro desmaia-se a côr brilhante das alegrias; aos loucos afortunados irrita-os a catadura torva da tristeza; os mais generosos espiritos não desculpam o velho, que sáe ao encontro da mocidade e lhe diz: «Envelhece antes do inverno da vida, para que o desandar da roda te não colha ainda na primavera, e te não abra no rosto o sulco das lagrimas. (Ouve-se o rodar de sege). Eil-o que vem respirando as fragrancias dos vinte e oito annos; e eu aqui estou como espectro de terriveis presagios, esperando-o nos salões, d'onde a noite de ámanhan fugirá de pressa como fogem as noites que abrem na memoria uma data, um nome, que no fim da vida as lagrimas não podem desfazer... Para que hei de entristecel-o? Deixal-o sonhar, deixal-o illudir-se. Que desconte na desgraça porvir isto que se chama felicidade, este brincar com as flores que cobrem a boca do abysmo. Deixal-o ser moço até que a primeira nortada do infortunio lhe bata no rosto. (Suspenso e recolhido).{20} Não posso, não posso. Aquelles que ainda podem salvar-se quero que me ouçam gemer no parcel onde naufraguei.
SCENA IV
VISCONDE E RODRIGO DE VASCONCELLOS
Rodrigo (beijando-lhe a mão)
Esperou muito tempo, meu pae?
Visconde
Não esperei. Onde está tua mulher?
Rodrigo
Eugenia vem já. Foi largar a capa e o chapéo, e naturalmente matar saudades do filho. Eu tencionava ir logo pedir-lhe a sua vinda ao baile de ámanhan.{21}
Visconde
Ias convidar-me para um baile, Rodrigo?! A mim?! já me viste em bailes?
Rodrigo
Certamente não. Nas quintas, onde vossa excellencia costuma viver, seria rara a tentação dos bailes (sorrindo); e meu pae, que deixou ha tantos annos as salas de Lisboa, de certo não succumbiria á tentação em Lamego ou Amarante. Eu sei no entanto que meu pae frequentou os bailes da capital, e se distinguiu entre os mais notaveis moços, alguns dos quaes ainda hoje reflorescem alegres primaveras, a julgal-os pela côr das barbas. Ainda hontem uma dama da alta sociedade de Lisboa, prima dos condes de Travaços, me perguntou se o pae ainda conservava memorias do gentil rapaz que havia sido. Recorda-se de uma senhora viscondessa de Pimentel?
Visconde
Muito bem.{22}
Rodrigo
Póde vêl-a aqui ámanhan.
Visconde
Essa dama ainda folga em bailes?
Rodrigo
Porque não? Representa uns trinta e cinco annos.
Visconde (sorrindo)
É mais nova do que eu uns cinco annos. Eu tenho cincoenta e seis. Lembro-me perfeitamente da Francisquinha Almeida, que depois casou com um Pimentel, que a fez viscondessa. Era mulher de talento satyrico, pouco exemplar nos costumes, e... (Mudando de tom). Deve ter branco o formoso cabello loiro que tinha...
Rodrigo
Agora é negro.{23}
Visconde
Sim? Ahi tens, meu filho, uma das proeminencias ridiculas do teu baile: essa dama tingida, pintada, galhardeando-se, e talvez polkando garbosamente como quem sacode dos hombros o pêso de meio seculo. Mas o ridiculo dos bailes não é o mau; o mau, o péssimo é o que é triste, é o que não póde ser visto senão por olhos que choraram muito...
Rodrigo (interrompendo-o)
Vai o pae entristecer-se... e começou tão bom, tão ironico...
Visconde
As minhas ironias, Rodrigo, são sempre amargas; mas o fel que ellas tem, todo contra mim reverte. Ahi vem Eugenia; mudemos de conversação.{24}
SCENA V
OS MESMOS E D. EUGENIA
D. Eugenia (beijando a mão do Visconde)
Como está, meu pae?
Visconde
Bom. Vejo que está excellente a minha filha. Ainda não perdeu as boas côres que trouxe da provincia.
D. Eugenia
Quem me lá dera outra vez!
Visconde
Na aldeia? n'aquella casa melancolica, cercada de montanhas, onde nunca chegaram os ecos das musicas de um baile? Queria-se outra vez na aldeia a minha Eugenia?{25}
D. Eugenia
A primavera ainda vem tão longe...
Visconde
E depois que lá estiver, a menina ha de ter saudades do baile de ha quinze dias, do baile de ámanhan, e dos bailes que...
D. Eugenia (interrompendo-o)
Não, senhor. O que eu vejo e sinto agradavel nos bailes é o contentamento de Rodrigo. Elle está acostumado a estes recreios, e acha n'elles o prazer que eu provavelmente acharia tambem, se não tivesse sido creada e educada em um recolhimento. Por mais que a gente queira habituar-se á vida cá de fóra, o geito e o acanhamento da clausura não se perde.
Visconde
A minha filha, portanto, sacrifica-se aos usos e costumes da sociedade elegante...{26}
D. Eugenia
Aos costumes da sociedade elegante, não, senhor; ao contentamento de Rodrigo, sim.
Visconde
Pois, Eugenia, encarecidamente lhe peço que empenhe todo o valor do seu coração em persuadir a meu filho que ha contentamentos mais solidos e ineffaveis que os bailes. Insinue-lhe com as suas phrases singelas e amoraveis que as serenas delicias da vida intima fogem assustadas das folias estrondosas das salas. E diga-lhe que, no fim de uma noite de baile, apparecem nos tapetes umas flores sem viço, que muitas vezes symbolisam corações sem innocencia. Corações e flores perderam a candura e aroma na mesma hora, queimados pelo calor da mesma respiração.
Rodrigo (sorrindo)
Ahi vem o pae com as suas theorias pessimistas.{27} Ainda ninguem viu os vicios da sociedade por vidros de tamanho augmento!
Visconde
Eugenia, deve ter muito em que lidar. Quem dá um baile precisa mortificar-se oito dias antes, e fazer holocausto das suas canceiras ao Bom-Tom, idolo creado pelo paganismo moderno. A civilisação tem apostolos e martyres. Ora vá.
D. Eugenia
Janta comnosco, sim?
Visconde
Póde ser.
D. Eugenia
Até logo, (apertando-lhe a mão—Sáe).{28}
SCENA VI
VISCONDE E RODRIGO
Visconde (com gravidade)
Agora, se te apraz, Rodrigo, argumentaremos a respeito de bailes; e ficas avisado para, na presença de tua mulher, nunca me desafiar a discutir comtigo em assumptos de corrupção social. Agradece tu ao acaso a santa ignorancia que Eugenia te trouxe do recolhimento. Não a illustremos; ouviste, Rodrigo? Não a illustremos... Bem vejo que estás no proposito de descondensar as trevas que a separam das brilhantes damas que decoram as tuas salas. Sei isso. Queres o diamante lapidado; queres que elle refulja á luz dos bailes. Vaes entrando com ella por estas portas do grande mundo, por estes bazares onde a mercadoria humana se assoalha; onde os corações como que andam á vista nos seios descobertos; onde, emfim, as almas se caiam e purpuream como as caras...{29}
Rodrigo
Jesus! que imaginação! Meu pae está illudido com a sociedade.
Visconde
Illudido, eu! Pois... quem cuidas que eu fui?!
Rodrigo
Sei que meu pae foi um rapaz distincto, um cortezão, um modelo de fidalgos; sei que meu pae se estremou na sua sociedade, e de certo lá não achou as demazias de desmoralisação que se lhe figuram na sociedade de hoje. Suppondo que nos salões de ha vinte e tantos annos, meu pae encontrou almas viciosas e pessimas, quantas se lhe não depararam virtuosas e optimas? Se eu lá procuro exemplo de bons costumes em moço rico e considerado, não encontro meu pae?
Visconde
Não. Quem te disse a ti que eu não fui um... um villão?{30}
Rodrigo
Se meu pae houvesse sido um villão, ninguem ousaria dizer-m'o... Sei o que meu pae foi. Teve os lapsos e quedas proprias da idade, sem quebra de honra. Desenganou-se ou cansou-se mais cedo que o vulgar dos homens, apartou-se d'elles sem deixar rasto de ignominia. É isto que eu conjecturo do seu passado.
Visconde
Se t'o assim disseram, mentiram-te; e, se finges ignorar o que fui, sou incapaz de baixas hypocrisias a pretexto de manter a minha dignidade de velho e de pae. (Pausa). Rodrigo, eu depravei-me... perdi-me. Teu pae confessa-se diante de ti, para ajuntar mais um flagello ao açoute com que a Providencia o fere. A força da alma, a probidade, a indole generosa que se me formou na educação, perdi-as, e foi nos salões que as perdi. Não me foi necessario immergir na lama das orgias para de lá sahir libertino. Nunca ahi desci.{31} Foi nas salas que o meu coração se encheu da peçonha dos desejos perversos; foi nos bailes que eu perdi os mais vulgares sentimentos da honra, não salvando sequer a coragem, esse derradeiro anteparo do cynico, essa falsa honra que empresta a mascara aos assassinos em duello. Dos bailes é que eu sahi infamado e infame aos meus proprios olhos. Imaginas tu o que é isto de sentir-se um homem infame diante de si mesmo? E sabes o que seja envelhecer debaixo da pesada cruz da vida, sem ter um acordar tranquillo no longo espaço de vinte e dois annos? E tomar-te eu nos braços quando eras menino, e dizer-te muitas vezes: «Ó filho, ó creatura innocentinha, pede á misericordia divina que se dê por contente com o immenso calix de amargura que tenho devorado. Dize a Deus que m'o receba cheio de lagrimas de sangue.» (Soluça).
Rodrigo
Meu querido pae, que extraordinaria dôr é essa!? O seu espirito sombrio está exagerando culpas ignoradas. Nunca me fallou alguem{32} nos seus crimes. Se elles fossem enormes, ou sequer sabidos, não teriam esquecido...
Visconde
A sociedade esquece tudo. Esquece victimas e algozes. Mas não esqueças tu que viste chorar teu pae. Se poder ser, vê sempre estas lagrimas através das alegrias dos teus bailes, e escuta-me lá algumas vezes como se eu te estivesse pedindo que fujas d'elles com tua mulher; e, se não pódes defender-te d'estes prazeres traiçoeiros, meu filho, consente que tua mulher se não aparte das arvores onde a chamam as saudades; deixa que ella se fique na quietação da aldeia, e vem tu para as cidades. Tu voltarás mais tarde cansado e dilacerado; e, quando cuidares que vaes sem coração, encontral-o-has no seio puro de tua mulher e no sorriso de teus filhos. Perde-te; mas poupa a alma de Eugenia, para que te não falte o ultimo refugio. Olha que uma esposa sem macula, um amor de mulher sem remorso de crime, nem receio de que lh'o descubram, é luz que nos vai procurar a todas{33} as voragens. Abysma-te; mas não a desvies do berço de teu filho; não quebres o sagrado laço, que Deus formou entre a alma que se está formando, e a alma de mãe, onde é preciso que arda um grande amor, santificado por consciencia de grandes virtudes.
SCENA VII
OS MESMOS E JOÃO
João
Fidalgo, está alli um senhor que se chama...
Rodrigo
Como se chama?
João
Elle, a fallar a verdade, disse como se chama; mas barreu-se-me de todo; e mais tenho-o debaixo da lingua, como lá diz o outro. (Recorda) Elle tem dous nomes de bichos.{34}
Rodrigo
De bichos?!
João
Sim, senhor fidalgo; mas não é dos que vem cá a casa.
Rodrigo
Dos que vem quê?
João
D'aquelles fidalgos, que se chamam Leões, Lobos e Camellos.
Rodrigo
Burro!
João
Tambem não é burro... Ah! (sacudindo a mão direita) Parece-me que me lembra. Um{35} é assim, um nome de passarôlo grande, que se chama.... Ora o diabo.... que se chama.... Não é corvo, nem pato, nem milhafre, nem... ah! é Gavião.
Rodrigo
Gavião?
João
Saberá vossa excellencia que sim; mas elle ainda tem outro nome de alimal.
Rodrigo (ao pae)
Eu foi muito amigo d'um rapaz que viaja ha annos, chamado Gavião Aranha.
João
Aranha! é isso mesmo. É Aranha.
Rodrigo
Vai de pressa; que entre. (João sáe).{36}
SCENA VIII
O VISCONDE, RODRIGO E DEPOIS PEDRO GAVIÃO ARANHA
Rodrigo
Foi um dos meus amigos mais constantes. Ha quasi dous annos que não sei d'elle.
Visconde
Vou sahir. Até logo.
Rodrigo
Permitta que eu lhe apresente o Aranha. É um excellente rapaz, o melhor coração de cátavento que ha no mundo. Eil-o ahi está! (Vem entrando Pedro: Rodrigo vai recebel-o nos braços) Não ha que duvidar. É o Pedro Aranha. Como estás tu, rapaz? Bello, gentil, com uma cara espirituosamente franceza.
Pedro
Americano-ingleza, se dás licença. Estas{37} barbas procedem de Nelson, e dão-me o grave tom plastico de um negociante de queijos londrinos.
Rodrigo
Meu pae, apresento o meu intimo amigo de collegio e dos salões de Lisboa. As nossas alegrias e tristezas da mocidade eram communs. Pedro, aperta a mão ao melhor dos paes.
Pedro
Respeitosamente aperto a mão ao senhor visconde de Vasconcellos. Ha dous mezes me perguntaram em New-York se eu conhecia vossa excellencia. Respondi que tinha a honra de ser amigo muito particular d'um filho do senhor visconde.
Visconde
Quem se lembrará de mim na America Ingleza?{38}
Pedro
Um portuguez que disse chamar-se Jorge de Mendanha.
Visconde (recordando-se)
Jorge de Mendanha! Não tenho a mais leve lembrança de tal nome! D'onde é elle?
Pedro
Provinciano, não sei de qual provincia.
Visconde
Deve ser velho.
Pedro
Entre cincoenta e cincoenta e cinco annos, penso eu. A cara é de maritimo torrada do sol, um bronzeado de africano; mas a linguagem tem certo relevo litterario, e as maneiras são aristocraticas, sem pretenção.{39}
Visconde
E disse que me conheceu?
Pedro
Não, senhor visconde; apenas me perguntou se eu conhecia a vossa excellencia.
Visconde
Provavelmente é algum dos muitos rapazes da minha criação no collegio dos nobres. Esqueci todos, excepto um ou dous que já são mortos. Jorge de Mendanha!... não me posso lembrar. Senhor Gavião Aranha, conversem, que hão de ter muito que recordar. Eu folgo de conhecer vossa excellencia. Demora-se no Porto? Creio que não é daqui...
Pedro
Sou algarvio. Quando cheguei a Lisboa e soube que Rodrigo estava no Porto, e casado, parti sem demora a vêr se conseguia ainda{40} usurpar á esposa alguma da muita amizade que elle me deu.
Visconde
Meu filho sabe apreciar os verdadeiros amigos. (Aperta-lhe a mão, e sáe).
SCENA IX
PEDRO E RODRIGO.
Pedro
Senhor Rodrigo de Vasconcellos, vamos a contas. Quando recebeu vossê a minha ultima carta?
Rodrigo
Ha anno e meio, datada no Cairo. Respondi para o Cairo.
Pedro
Não recebi. Estava em Alexandria, embrenhei-me{41} pela Asia dentro, e voltei á America do Norte ha seis mezes. Escrevi-te para Lisboa.
Rodrigo
Sahi de Lisboa ha dezeseis mezes. A tua carta, provavelmente recheada de descripções romanticas, não ousou profanar o esconderijo onde me foragi com a minha felicidade de marido extremoso. Vou apresentar-te minha mulher.
Pedro
Venha cá vossê. Antes de me apresentar sua senhora, conte-me a historia do seu casamento. Todos os pormenores são pontos essenciaes d'esse solemnissimo desmentido ás tuas grandes theses de celibatario defendidas nas enormes ceias, em que tu parecias sepultar no estomago o esqueleto do coração.
Rodrigo
Esqueleto do coração!... Ó ignorante, aprende que o coração é musculo.{42}
Pedro
É musculo ôco; eu tambem já sabia isso, mestre; tambem fiz do peito amphitheatro anatomico; e quando procurava dezoito imagens de mulheres meio delidas na superficie rugosa do coração, encontrei o musculo, de que tens noticia, fundi-o, e achei o vacuo. E tu que encontraste?
Rodrigo
Isso.
Pedro
Isso quê?
Rodrigo
O vacuo do coração; mas a plenitude da alma, que é outra casta de entranha.
Pedro
Entranha! a alma é entranha! Collocas a essencia immortal na categoria do figado e do baço! Deixemos essa questão á Academia real{43} das sciencias, e vamos á historia do teu casamento. Vaes contar-me alguma historia onde o lyrico, o ideal, o extraordinario realcem e deslumbrem a vulgaridade do matrimonio. Vamos ás peripecias. (Em tom emphatico de narrador) Era uma formosa tarde de estio....