Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA


VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS

DAS

LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS


Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc.


Volumes in-8.ᵒ de 160 a 200 paginas, em corpo 8 ou 10, excellente edição, em optimo papel. Preço de cada volume 200 réis brochado, ou 300 réis elegantemente encadernado em percalina. Para as provincias accresce o porte do correio.


Volumes publicados

N.ᵒ 1—Tristezas á Beira-Mar, romance de Pinheiro Chagas, 1 vol.
N.ᵒ 2—Contos ao Luar, por Julio Cezar Machado, 1 vol.
N.ᵒ 3—Carmen, romance de Merimée, traducção de Mariano Level, 1 vol.
N.ᵒ 4—A Feira de Paris, por Iriel, 1 vol. (2.ᵃ edição).
N.ᵒ 5—O direito dos filhos, George Ohnet, 1 vol.
N.ᵒ 6—John Bull e a sua ilha, traducção de Pinheiro Chagas, 1 vol.
N.ᵒ 7—O juramento da duqueza, romance historico por P. Chagas, 1 vol.
N.ᵒ 8—A lenda da meia-noite, romance phantastico, por P. Chagas, 1 vol.
N.ᵒ 9—A joia do vice-rei, romance historico, por Pinheiro Chagas, 1 vol.
N.ᵒ 10—Vinte annos de vida litteraria, por Alberto Pimentel, 1 vol.
N.ᵒ 11—Honra d’artista, romance de Octavio Feuillet, traducção de Pinheiro Chagas, 1 vol.
N.ᵒ 12—Os meus amores, contos e balladas, por Trindade Coelho, 1 vol.
N.ᵒˢ 13 e 14—A aventura d’um polaco, por Victor Cherbuliez, traducção de Maria Amalia Vaz de Carvalho, 2 vol.
N.ᵒ 15—Os contos do tio Joaquim, por R. Paganino, 1 vol.
N.ᵒ 16—As batalhas da vida, contos por Guiomar Torrezão, 1 vol.
N.ᵒ 17—Noites de Cintra, romance por Alberto Pimentel, 1 vol.
N.ᵒˢ 18 e 19—Em segredo, romance, trad. de Margarida de Sequeira, 2 vol.
N.ᵒˢ 20 e 21—A irmã da Caridade, por Emilio Castellar, traducção de L. Q. Chaves, 2 vol.
N.ᵒ 22—Migalhas de historia portugueza, por Pinheiro Chagas, 1 vol.
N.ᵒ 23—A Cruz de Brilhantes, por A. Campos, 1 vol.
N.ᵒ 24—Contos, de Affonso Botelho, 1 vol.
N.ᵒ 25—Contos phantasticos, por Theophilo Braga, 1 vol.
N.ᵒ 26—O mysterio da estrada de Cintra, por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, 1 vol.
N.ᵒ 27—O naufragio de Vicente Sodré rom. historico de P. Chagas, 1 vol.
N.ᵒ 28—Vid’airada, por Alfredo Mesquita, 1 vol.
N.ᵒ 29—O Bacharel Ramires, por Candido Figueiredo, 1 vol.
N.ᵒˢ 30 e 31—Amor á antiga romance de Caiel, 2 vol.
N.ᵒ 32—As Netas do Padre Eterno, por Alberto Pimentel.
N.ᵒ 33—Contos, de Pedro Ivo, 1 vol.
N.ᵒ 34—O correio de Lyão, por Pierre Zaccone.
N.ᵒ 35—Vida de Lisboa, por Alberto Pimentel.
N.ᵒ 36—Historias de Frades por Lino d’Assumpção.
N.ᵒ 37—Obras primas, por Chateaubriand.
N.ᵒ 38—O Exilado, romance historico, por Mauricia C. de Figueiredo.
N.ᵒ 39—Poema da Mocidade, por Pinheiro Chagas.
N.ᵒˢ 40 e 41—A Vida em Lisboa, por Julio Cesar Machado.
N.ᵒˢ 42 e 43—Espelho de Portuguezes, por Alberto Pimentel.
N.ᵒ 44—A Fada d’Auteuil, por Ponson du Terrail, traducção de Pinheiro Chagas.
N.ᵒ 45—A Volta do Chiado, por Beldemonio (Eduardo de Barros Lobo).


Requisições á Parceria Antonio Maria Pereira
Rua Augusta, 50, 52, 54—LISBOA

COLLECÇÃO ECONOMICA

Volumes de in-16.ᵒ, de 240 a 320


ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES

A 100 réis o volume (pelo correio 120 réis)

* N.ᵒ 1—Aventuras prodigiosas de Tartarin de Tarascon, seguidas de Tartarin nos Alpes; por A. Daudet.
* N.ᵒ 2—Pedro e João, por Guy de Maupassant.
* N.ᵒ 3—Sergio Panine, por Jorge Ohnet.
N.ᵒ 4—O Sonho, por Emilio Zola.
N.ᵒ 5—Soror Philomena, por Edmond e Jules Goncourt.
N.ᵒ 6—O medico assassino, por Octavio Féré.
N.ᵒ 7—Os milhões vergonhosos, por Heitor Malot.
* N.ᵒ 8—O amigo Fritz, por Erckmann Chatrian.
N.ᵒ 9—Vogando, por Guy de Maupassant.
* N.ᵒ 10—Um romance de mulher, por Pierre Mael.
* N.ᵒ 11—Vontade, por Jorge Ohnet.
* N.ᵒ 12—O Nababo, por A. Daudet.
* N.ᵒ 13—Um coração de mulher, por Paul Bourget.
* N.ᵒ 14—Beatriz, por Rider Haggard.
* N.ᵒ 15—O crime, por Gabriel d’Annunzio.
* N.ᵒ 16—Lise Fleuron, por Ohnet.
N.ᵒ 17—Os dois rivaes, por Armand Lapointe.
N.ᵒ 18—O ultimo amor, por Jorge Ohnet.
N.ᵒ 19—Um Bulgaro, por Ivan Tourgueneff.
N.ᵒ 20—Memorias d’um suicida, por Maxime du Camp.
N.ᵒ 21—Forte como a morte, por Guy de Maupassant.
* N.ᵒ 22—A alma de Pedro, de J. Ohnet.
N.ᵒ 23—Camilla, de Guérin-Ginisty.
N.ᵒ 24—Trahida, de Maxime Paz.
N.ᵒ 25—Sua Magestade o Amor, por A. Belot.
N.ᵒ 26—Magdalena Férat, por Emilio Zola.
N.ᵒ 27—Os Reis no exilio, por A. Daudet.
N.ᵒ 28—Divida de odio, por Jorge Ohnet.
N.ᵒ 29—Mentiras, por Paul Bourget.
N.ᵒ 30—Marinheiro, por Pierre Loti.
N.ᵒ 31—A montanha do Diabo, por Eugenio Sue.
N.ᵒ 32—A Evangelista, por A. Daudet.
* N.ᵒ 33—Aranha Vermelha, por R. de Pont Jest.
N.ᵒˢ 34 e 35—Odio antigo, por Jorge Ohnet.
N.ᵒ 36—Parisienses!... romance, por H. Davenel.
N.ᵒ 37—Ao entardecer!... rom., por Iveling Ramband.
N.ᵒ 38—A confissão de Carolina, romance.
N.ᵒ 39—Um casamento no mosteiro, por Alfredo Assolland.
N.ᵒ 40—Os Parias, original de Francisco da Rocha Martins.
N.ᵒ 41—O abbade de Favières, romance, por J. Ohnet.
N.ᵒ 42—A agonia de uma alma, romance, por Ossip Schubin.
N.ᵒ 43—Memorias d’um burro, por Madame Ségur.
N.ᵒ 44—A nihilista, por Catulle Mendés.
N.ᵒ 45—O grande Industrial, por George Ohnet.
N.ᵒ 46—Morta d’amor, por Albert Delpit.
N.ᵒ 47—João Sbogar, por Carlos Nadier.
N.ᵒ 48—Viagem sentimental, por Sterne.
N.ᵒ 49—O milhão do tio Raclot, por Emile Richebourg.

Todos os vol. com este signal * estão esgotados mas vão ser reimpressos.

OBRAS

DE

CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIÇÃO POPULAR


V

O ESQUELETO

VOLUMES PUBLICADOS


I—Coisas espantosas.
II—As tres irmans.
III—A engeitada.
IV—Doze casamentos felizes.
V—O esqueleto.

CAMILLO CASTELLO BRANCO


O ESQUELETO

ROMANCE


TERCEIRA EDIÇÃO


LISBOA
Parceria Antonio Maria Pereira—Livraria-editora
Rua Augusta, 50, 52, 54
1902

LISBOA
Typographia da Parceria Antonio Maria Pereira
Rua dos Correeiros, 70 72

PREFACIO

Em quanto á influencia do romance nos costumes, estou mais que muito desconfiado de que o romance não morigera nem desmoralisa.

Porém, admittida a ponderação que lhe alvidram os exhortadores dos pais de familia, não sei decidir como se ha de escrever o romance fautor da sã moral. São dois os expedientes: levar os personagens viciosos ao despenhadeiro; ou crear anjos n’um paraiso sem serpente.

Na primeira especie, mostra-se a lucta de virtude e crime: natural e concludentemente triumpha a virtude. É o costume com sacrificio, ás vezes, da verosimilhança.

Na segunda fórma de romancear, a virtude recebe as ovações sem batalha. O romancista põe peito á reformação das obras de Deus, e corrige-as. Quando os seus personagens se avisinham de algum sujo aguaçal, em que é uso a gente commum salpicar as botas, atam-lhe asas de serafins, e largam-lhe trella por esse azul dos ceus dentro, até lhes vir a geito poisal-os em alegretes de flores.

São estes os romances que moralisam, ou os outros? É a minha duvida.

Convém mostrar as repulsões do crime lá em baixo, onde a providencia social lhes cavou a paragem; ou é melhor conduzir, por entre hortos amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu finalmente?

Um homem de bem, proprietario de um dos primeiros jornaes d’este paiz, costuma editar os meus romances, com a previa clausula de não serem historias de crimes, que toquem directa ou indirectamente com a probidade da vida conjugal, ou revelem desdouros da honra domestica.

Ha poucos dias, tivémos esta pratica:

—Querem os pais de familias que suas filhas ignorem a corrupção, que lavra nos pantanos da sociedade—observou-me o meu amigo.

—Os pais de familia, contestei, não conseguem isso, em quanto não acharem o caminho da lua, onde presumo que não ha costumes, nem romances. E será preciso que se mudem para lá com as filhas, menores de dez annos, e não levem as mães, porque as mães, maximamente virtuosas, sempre teem que contar ás filhas a historia escandalosa das mães culpadas.

—Mas não se ganha moralisação para os espiritos brandos e virginaes das leitoras, em dar-lhes novellas de adulterios—redarguiu o cavalheiro.

—Ganha, quando se lhes mostram os infortunios acapellados em volta da mulher que se deshonra. Ganha, porque as filhas do pai acautellado sabem que as ha, conhecem-nas, e apertam a mão das deshonradas; concorrem aos salões com ellas; sabem o nome e a culpa do homem que as requesta; observam-lhes uns exteriores de felicidade; e espantam-se de as verem ostensivamente satisfeitas, e, de mais a mais, acatadas com uma urbanidade, que as não estrema das honestas. Então é que o romance ganha muito, levando ao conhecimento das donzellas, até certo ponto innocentes, que o desdouro, cujo horror não as apavorou nos salões, tem angustias secretas, e infamias estrondosas. Parece-me isto, meu amigo.

—Acho-lhe rasão—obtemporou o honrado e illustrado editor dos meus livros—mas que quer, se os pais de familia intendem que suas filhas desconhecem a existencia de certos crimes? E desadoram romances que revolvam essas sentinas hediondas?

Aqui ficou a contenda amigavel. Não procurei pai de familias nenhum para argumentarmos. Fiquei-me a scismar se devia queimar este volume que estava escripto, no intuito de mostrar o squalor de uma chaga social, sem a minima pretenção de lhe pôr o cauterio. Não queimei; mas protesto extrahil-o da circulação, se um dia me persuadir de todo em todo que esta coisa de romances, escriptos assim, peoram a humanidade, e alvorotam a quietação dos pais de familia.

I

Era justa e plausivel a admiração que infundia no espirito dos portuenses, nada espantadiços de mulheres formosas, uma franceza que, poucas vezes, se via no Porto, ahi pelos annos 1834 até 1839. Sabia-se que esta dama vivia n’uma quinta dos arrabaldes da cidade, e para ali viera com um fidalgo portuguez, regressado da emigração em 1835, sujeito pacifico, estranho ás victorias da liberdade, e tambem estranho aos reposteiros das secretarias. Era Nicoláo de Mesquita.

Da procedencia da franceza é que ninguem sabia. Geralmente duvidava-se da honestidade de tal contubernio; isto, porém, não implicava ao quasi respeito com que os galãs mais audaciosos da cidade eterna encaravam a gentil amazona, ao lado do cavalheiro grave, sombrio, e sympathico. Outras vezes, a estrangeira entrava no Porto sósinha, com um lacaio; apeiava no hotel do Pêxe,[1] saía a provêr-se de objectos de luxo nas lojas de modas, seguida do criado, e voltava ás suas flôres e bosques, que deviam de alegrar-se, vendo chegar a sua bella e solitaria rainha.

O cavalheiro conhecia poucas pessoas no Porto, e tão friamente as praticava, que ninguem ousava perguntar-lhe miudezas de sua vida particular.

Em 1838, saía a franceza do estabelecimento de uma modista, e estremeceu fitando em rosto um homem, que empallidecera ao encaral-a surprehendido. Era este homem o chanceller do consulado francez.

Ella estugou o passo a evitar a aproximação do seu patricio: era superfluo o susto. O chanceller ficára empedernido, e extatico.

Passava um amigo, e disse-lhe, sorrindo:

—A sua patricia tem causado muitos d’esses spasmos aos portuguezes...

—Não é possivel...—disse o francez abstrahido.

—Não é possivel?!—replicou o outro.

—A impressão que me fez aquella mulher não creio que a possa receber quem a não conhece.

—E conhece-a o senhor?

—Pois não! É a mulher de um dos meus melhores amigos. Eu já sabia que ella fugira de Bruxellas com um portuguez; mas não esperava encontral-a. Onde vive ella?

—Na Cruz da Regateira, a meia legua do Porto, com um fidalgo transmontano, chamado Nicoláo de Mesquita.

O chanceller escreveu na sua carteira, e disse:

—A mulher do meu amigo Ernesto Froment, um dos primeiros fabricantes de Lyão, rico e gentil, moço e honrado, pundonoroso e amigo d’esta infame, como não sei que haja outro! O homem com quem ella fugiu foi hospede de seu marido. Sinto que em Portugal se produzam villões d’este calibre!... Froment cuida que ella está na America. Não lhe direi eu que a vi sem vingal-o, se ha vingança honrosa a tirar de similhante affronta!

O francez retirou-se apressado.

Dias depois, Nicoláo de Mesquita era procurado na serena solidão dos seus arvoredos por dois cavalheiros desconhecidos: um era o consul francez, o outro pessoa importante da sociedade portuense.

O chanceller desafiava Nicoláo, em nome de um marido infamado.

O portuguez tergiversou na resposta. Obrigado a responder explicitamente se nomeava testemunhas, disse:

—Eu não embaraço que madame Froment vá para seu marido, se lhe apraz. Bater-me com um cavalheiro, em quem não reconheço direitos a pedir-me contas, não o faço, sem alienar o juizo que tenho.

O consul redarguiu com azedume. Nicoláo de Mesquita sorriu-se, e replicou:

—Respondi. Os cavalheiros excedem as suas funcções, e collocam-me n’uma posição desagradavel. Estas disceptações costumam resolver-se melhor nas estradas.

O portuguez da provocação ficou-se; mas o consul mordeu os beiços até sangrarem.

A senhora Froment, assim que os estranhos visitantes sairam, correu assustada a indagar a causa.

Nicoláo respondeu glacialmente:

—Depois de seis annos, um amigo de teu marido manda-me desafiar. Não me bato.

—Quem te desafia? É o chanceller? Não acceites, que elle é temivel!—acudiu ella.

O orgulhoso abespinhou-se, e disse severamente:

—Não ha homens temiveis para mim. Não acceito, porque é preciso muito coração para que um homem se bata por amor de qualquer mulher.

Pungente grosseria!

A franceza emudeceu transida. Bem o presentia ella; mas ainda lh’o não tinha ouvido. Emboscou-se entre as arvores a chorar. O orgulho!...

É certo que Nicoláo de Mesquita estava enfastiado, arrependido, e devorado de ancias de liberdade para retemperar o coração em amores novos. Pensava nas delicias de uma vida honesta; falsa virtude, que vem sempre com o enojo da mulher, que a sociedade honesta repelle. Seis annos era muito para ter sempre em florescencia affectos, que sairam de um tremedal. As idealidades do vicio são ephemeras; o orgulho póde fingil-as; mas, d’alma a dentro, não ha imperio que senhoreie o atroz pungimento do tedio. O sorriso é um tregeito vaidoso, que intenta escarnecer a censura do mundo, ou rebater a commiseração.

Nicoláo de Mesquita amára a mulher do amigo, que lhe aligeirára os annos do exilio. Infamia irritante em animo até d’aquelles que propriamente se sentem mordidos do remorso de um delicto similhante! Amára até ao absoluto despreso de si mesmo. Seguira-a de Lyão á Belgica. E d’aqui se fugira com ella para Portugal, em quanto o marido fôra a Paris pressurosamente a cuidar em negocios urgentes de sua industria.

Depois, ainda um anno se não tinha passado, e já Nicoláo media a profundeza de sua ignominia, e espedaçava-se ás garras do opprobrio de si proprio. Tardia honra, que nunca pode chamar-se rehabilitação: penitencia, que no conceito do mundo terá remido os arrependidos; mas que no juizo da Providencia deve de ser apenas começo de expiação, começo de expiação muito longa.

Chegado a Portugal, Nicoláo ainda tinha mãe. Repugnou-lhe entrar em sua casa com uma mulher, mais perdida aos olhos d’elle que aos da sociedade, se a conhecesse. Já lhe parecia que o apresental-a como sua esposa era injuriar as virtudes de sua mãe, e injuriar-se a si. Não mais se levantará deante do homem, que a estimou, a mulher assim desprezada.

Alugou a quinta nos arrabaldes do Porto, e ahi ficou.

A franceza era a mulher coherente com o seu crime. A mudança da physionomia do amante, a nudeza da phrase baixa e sêca, a nenhuma poesia do gesto e da palavra, os longos silencios interpollados de suspiros, os vincos da fronte, os sorrisos contrafeitos, as abstracções e respostas incongruentes, que mais carecia ella para cahir em joelhos aos pés do algoz da sua felicidade, e pedir-lhe a morte?

Não se lembrou d’isso. Era mulher, e franceza. Ao pungimento da deshonra botaram-se os fios no habito de a praticar. Caíra de tão alto, que já não media com a vista a altura da queda. As mulheres que chegam até aqui, tocam a extrema do pudor.

D’ahi em diante, se choram, não é remorso, é a aspide do orgulho que as morde.

Margarida Froment acceitava a liberdade do amante, em proveito do amor decadente. Cuidava ella que as pompas no trajar remoçariam o affecto envelhecido. Vestia-se e galleava a primor. Achava-se linda. Aos vinte e oito annos não invejava o frescor das suas quinze primaveras. Offerecia-se assim aos olhos de Nicoláo, e muitas vezes cuidou que triumphava quando queria. Esta vaidade era-lhe um esteio. Em quanto um demonio amigo lhe desse tal escudo, contava ella com a victoria sobre o fastio do amante.

Quando a tristeza a alquebrava mais, era se, no lavor de enfeitar-se, lhe vinha á lembrança que seu marido a tinha amado muito, ainda desenfeitada.

Tristeza de vaidade dorida, e mais coisa nenhuma que possamos chamar castigo.

Os castigos, ao chegarem, rasgam por outras fibras mais sensiveis.

O fidalgo, que pendia aos quarenta annos, pensava em sacudir o jugo; mas as correias apertavam-n’o tanto e em tantas voltas, que era impossivel desdal-as sem despedaçar os restantes liames da sua dignidade.

Abandonal-a era coroar a infamia.

Dar-lhe recursos e bons conselhos, muitas vezes lhe quiz propôr este accordo; mas receiava a recusa, e a desordem inevitavel d’essa hora em deante.

Os obstaculos saturavam-lhe de fel novo o amargôr do enfado.

Até que, no termo de seis annos, appareceu o chanceller, não sei se tolo, se sublime, a desaggravar o amigo, do mesmo modo que um inimigo o faria, se quizesse ajuntar á desgraça a irrisão. Os francezes usam uns processos especiaes de honrar os amigos.

Nicoláo de Mesquita era valoroso; porém, reflexionador. Dissera elle: é preciso muito coração para que um homem se bata por amor de qualquer mulher. Essa sua maxima arrefecia as fervuras da coragem; do pundonor não havemos de dizer, que esse tinha claudicado, e ficara tolhido para todos os effeitos da dignidade, logo que elle seduziu a mulher do homem, incapaz de reputal-o infame.

Não se quiz bater com testemunhas: era natural que evitasse bater-se sem ellas.

Absteve-se de ir ao Porto, e reflectiu ponderosamente no escape de taes aperturas. Achou que era tempo de espesinhar considerações de menor alcance. Propoz á franceza uma separação temporaria, e urgente á quietação de ambos. Margarida ouviu-o de boa fé. Acceitou alguns mil cruzados; residencia no Porto, se lhe desprazia viver na quinta; e a segurança de se reunirem na provincia, assim que a entrevada mãe de Nicoláo passasse a melhor vida. Annuiu a franceza, dizendo em tom lastimoso que de bom grado, e com o coração cheio de lagrimas, se immolava á tranquilidade do amante.

Nicoláo foi para Traz-os-Montes, e Margarida Froment para uma casa ricamente alfaiada na Torre da Marca.

O chanceller, perdida a esperança de tirar os olhos do scelerado á ponta de florete, escreveu ao amigo, contando-lhe o seu intento, e o encontro inesperado.

Ernesto Froment accusou a carta recebida, e não falou da mulher. Parece que tinha lá tres, todas mais fieis, e póde ser que mais formosas.

Por este lado, o acaso—não ouso dizer a Providencia—se amerceara do esposo trahido. Quem dos dois soffria mais, ou presentia o emborrascarem-se as porvindouras tormentas, era Margarida.

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Foi no palacio dos viscondes de Balsemão. Este palacio, onde se hospedou Carlos Alberto, é hoje do visconde da Trindade. Habent sua fata... os palacios!

II

O morgado da Palmeira cuidou que facilmente se desatavam os vinculos tenazes do amor-habito. Este amor é tão entranhado e subtil em alguns temperamentos, que até resiste á lima roaz do tedio. Se a mulher fastidiosa desapparece dos olhos fatigados de a verem, não sei de que refolhos da alma rebenta um espinho levemente doloroso, quando inesperadamente fere; mas com o rodar de dias, crava-se, punge, e doe tanto como a saudade da mulher que mais se ama e deseja.

Esta dôr sentiu-a elle, quando se viu no Vidago, ao pé do leito da mãe entrevada, sem sociedade que o distrahisse, além do reitor que o mortificava com perguntas sobre paizes estrangeiros.

Mulheres, n’aquella povoação, não havia uma que lhe prendesse o olhar, nem o fizesse descer á requesta, em competencia com os seus criados. Perguntava á desmemoriada mãe pelas formosas primas, que deixára, em tal e tal casa. A velha respondia-lhe que umas estavam acabadas, outras mães de filhos, e outras na sepultura. Nicoláo de Mesquita espantava-se de achar extincta a formosura das primas da sua creação. Os homens que não descaem ou fingem não descair da mocidade tão de pressa, assombram-se da mudança que dez annos fazem no rosto e na alma das mulheres suas contemporaneas.

Foi isto grande parte na saudade, que por pouco o não impelliu ao Porto. Se fosse antes de reaccender-se na chamma do seu antigo amor a Margarida, uma nova enchente de tedio lhe apagaria as faiscas instantaneas. Estes amores são relampagos. Nas trevas, que se carregam depois, ha um abafar de coração, angustia incomparavel com a tristeza da saudade.

Elle adivinhava este segredo, que todos sabemos de animo frio, e todos ignoramos, se a paixão nos desluz a razão experimentada nos desvarios proprios e nos alheios. Ainda assim, póde ser que o presagio o não demovesse; conteve-o, por ventura, o receio de expôr-se ás iras do chanceller. Margarida, em quanto a perplexidade do amante durou, recebeu cartas muito amoraveis, que lhe consolaram a vaidade. Respondia ella que a chamasse a viver obscura entre arvores, sem mais alegrias que as das avesinhas, e a certeza de ser precisa á vida d’elle. Estas supplicas demonstram a singeleza ou o errado artificio de Margarida. Se ella tivesse respondido friamente, resignando-se com a ausencia, Nicoláo iria buscal-a. Nós entendemos sempre que a resignação é renuncia. O ciume faz então prodigios que nivellam o mais descaroado orgulho com a allucinação de Werther ou Othello.

Permaneceu o morgado na indecisão, até que, um dia, foi a Chaves concorrer a um baile, com que seu primo Martinho Xavier de Sousa Vahia celebrava o natalicio de sua filha primogenita Beatriz. Tinha dezeseis annos esta menina. Rosto e candura do ceu. Alegria de borboleta na primavera entre as alvissimas flores do espinheiro.

Nicoláo dançou com sua sobrinha... ou prima. Elle antes queria que Beatriz lhe chamasse primo. Passou a noite: ninguem vira dançar o morgado da Palmeira com outra dama. E a rainha da festa uma vez apenas esvoaçara na sala amparada, senão levemente presa por um dos anneis louros do seu cabello á espadua de outro homem.

De Nicoláo de Mesquita diziam as mulheres:—Parece que tem vinte annos! Como está moço, e que airosidade na dança!

—Pois tem perto de quarenta!—Atalhava um moço de vinte, com um sorriso e abanar de cabeça desdenhoso.

Acabou n’esta noite a indecisão de Nicoláo, respeito a madame Froment.

Recolhendo ao Vidago, encontrou uma carta em que ella amorosamente o ameaçava de ir procural-o, sem consentimento prévio. Apressou-se elle a responder-lhe que se contivesse, a não querer contrarial-o.

Dois dias passados, tornou para Chaves, a cumprir a promessa de quinze dias de hospedagem em casa de seu primo Vahia: quinze dias de jantares e saraus, em que Nicoláo de Mesquita impressionou muitas damas com o leve incommodo de contar anecdotas joviaes, costumes estrangeiros, amores celebrados, aventuras estranhas, coisas de chorar e de rir, iguarias para todos os paladares.

Beatriz era das que folgava das historietas facetas. Casos de lagrimas enterneciam-n’a até lhe molestarem os nervos. Pediu ella a seu primo contos engraçados. E Nicoláo, que nunca em sua vida tivera graça, transverteu-se por milagre de amor, e fez rir a filha de seu primo. A sós comsigo, o morgado da Palmeira, que vira muito e brilhante mundo, quasi que de si mesmo ria.

Voltou a casa onde o chamára o aviso de estar a mãe em perigo de vida. Assistiu-lhe á morte, fez-lhe enterro pomposo, encerrou-se por oito dias, pagou as visitas, e voltou para Chaves.

D’este successo não deu parte a Margarida nem respondeu ás cartas, que encontrára, queixosas do seu silencio. A esposa de Ernesto Froment tinha morrido para o amante como para o marido. A Providencia ordenára á formosa de Chaves que lançasse a prevaricadora no fogo expiatorio, não lavareda devorante, mas brazido lento, que lhe fosse queimando fibra por fibra os orgãos todos onde a vida humana pode soffrer e morrer mil vezes. Nicoláo lembrava-se d’ella com susto, e ás vezes com remorso; o susto de a vêr atravessar-se em seus designios; o remorso de atiral-a a um caminho, sem saida que não seja garganta de voragem.

Adeante! Nicoláo de Mesquita conhecia milhares de exemplos. Em Paris, cada homem dos admirados e invejados no bosque de Bolonha, no café Tortoni, nos centros da mocidade insigne, podia contar dezenas d’aquellas historias, laudas da biographia dolorosa que as mulheres das salas repetiam sem horror.

O horror das mulheres das salas era para as victimas.

Homens sacrificados é que elle não conhecêra. Homens que immolassem os melhores annos da sua mocidade a um dever, que o mundo chama um escandalo. Homens que, em cada primavera do coração, arrancassem os renovos promettedores de muitas alegrias, e os atirassem fenecidos aos pés de uma como estatua, incapaz de avaliar a renunciação, ou, peior ainda, persuadida do dever do sacrificio.

N’isto cogitára elle em todos os dias dos seis annos de captiveiro.

Agora, na liberdade, era preciso ser homem como todos, ser forte para não ser infeliz e ridiculo: porque a desgraça dos penitentes, que não podem nobilitar, com alguma sombra de moral commum, o grandioso holocausto de sua liberdade, é irrisoria.

E depois, quem sabe?

Margarida voltará para França, onde tem o marido, e a mãe. Se o marido a recebe, feliz culpa que a mette ao caminho da rehabilitação! Se a rejeita, a mãe lhe abrirá os braços e o sanctuario da familia lhe purificará o espirito. Esta moralidade, subitamente formada no animo do morgado, é uma zombaria da virtude. Faz-se muita moralidade assim; a sociedade ás vezes applaude-a, e sae em auxilio dos moralisadores.

Com estas hypotheses combatia Nicoláo de Mesquita o impertinente remorso, quando ia para Chaves. Porém assim que se refugiou sob os olhos tutelares de Beatriz, a chimera da consciencia fugiu espavorida.

Martinho Xavier perguntára a sua filha se o primo de Vidago lhe dizia particularmente palavras indicativas de algum sentimento mais forte que o do parentesco e amisade.

Beatriz córou. O pae ficou satisfeito.

E, n’outro ensejo, perguntou-lhe:

—Gostas do primo Nicoláo? Sê sincera, minha filha.

—Não desgosto... balbuciou a pomba.

—E, se elle quizesse ser teu marido, acceitarias de boa vontade?

—Querendo meu pae...

—Eu não quero, nem deixo de querer. Consulto a tua vontade.

—Eu...

—Acceitas?

—Pois sim...

—Mas—tornou Martinho Xavier—tu, antes da vinda de Nicoláo, parece que acceitavas a côrte do primo de Fayoens, que foi creado comtigo.

Beatriz córou e calou-se. O pae achou prudente calar-se tambem, n’este artigo melindroso, e volveu ao essencial.

—Nicoláo perguntou-me se o teu coração estava livre. Respondi que o suppunha desprendido de affeição seria. Quiz elle saber se tu quererias ligar a tua mocidade aos annos já adeantados de um homem, que te amaria como esposo, e estremeceria como pae. Vou dar-lhe a tua resposta, se é que lh’a não déste.

A menina fez um gesto de assentimento.

O morgado da Palmeira, no dia seguinte, disse a Beatriz:

—Quer meditar algum tempo antes de ser minha esposa, prima Beatriz?

—Já respondi, primo Nicoláo.

—Despede-se sem saudades da sua mocidade? Não deixa impressão que a possa magoar?

—Não...

—Nenhum homem que lhe inquietasse o coração?...

—Nenhum...

—Acredito-a, Beatriz. Pois saiba que ha-de ser venturosa, quanto os anjos podem ser n’este mundo. Hei de obrigal-a com extremos de amor a ser minha amiga. Vêr-me-ha invelhecer, e então sentirá por mim affecto de filha. O homem, na minha edade, sabe como se faz a felicidade de uma mulher. Entrego-lhe o coração maculado, mas ainda forte de vida, a vida do coração, que é a poesia das almas enthusiastas. Se eu me sentisse gasto e insensivel, a prima Beatriz, com o segredo que teve de influir um sagrado fogo no gelo da minha vida moral, havia de fazer o menor milagre de remoçar-me. Será feliz, minha prima: juro-lh’o, beijando-lhe esta mão pura!

Beatriz cedeu facilmente a mão, para não prejudicar o ritual do juramento.

Se Deus fosse carne, e tivesse labios susceptiveis de obedecerem ás contracções convulsas dos musculos faciaes, ria-se sardonicamente d’aquelle juramento.

O lance, digno de ser pintado com as branduras de Bernardin de S. Pierre, foi interrompido por um criado, que apresentava a Nicoláo de Mesquita uma carta, vinda em mão propria, de Villa Pouca de Aguiar, distante de Chaves tres ou quatro leguas.

O morgado viu o sobrescripto, e mudou de côr.

Era a lettra de Margarida Froment, que havia chegado a Villa Pouca na tarde do dia anterior.

O contheudo eram duas palavras: ESTOU AQUI.

Beatriz ergueu-se em ponta de pés. Adoravel curiosidade! Viu; mas não entendeu. Era em francez. Encarou no primo e disse sobresaltada:

—Que é?!

—Um amigo que me chama a Villa Pouca, tartamudeou.

—E porque não vem cá? replicou a innocente com a cavillosa dialectica de uma senhora já esquecida do tempo em que passou pelas varzeas floridas da innocencia.

—É um francez, meu amigo, que vae de passagem para Hespanha, e precisa de recursos.

—Não se assignou?! redarguiu candidamente Beatriz.

—Não, porque... porque é perseguido em Portugal, e receiou que se desencaminhasse a carta.

—E vae, primo?

—Sem demora. Devo-lhe obsequios.

Estas palavras já foram ditas com toda a quietação de animo. Beatriz socegou; mas, depois que Nicoláo saiu, inquietou-se e mandou, a occultas do pae, um criado a Villa Pouca, espiar os passos do morgado da Palmeira.

Amava-o: estou em crêr que o amava.

Nicoláo de Mesquita ia chammejando de raiva a Margarida. Esporeava o cavallo que devorou as leguas em furiosa desfilada. Soffreava a brida instantaneamente, para meditar no que faria. Baralhavam-se-lhe os planos, todos miseraveis, senão abjectos.

Apeou á porta da estalagem.

A franceza esperou-o no topo da escada, abrindo os braços. Nicoláo apertou-lhe a mão, e disse-lhe glacialmente:

—Que é isto?

Margarida transfigurou-se. Deixou cair mortalmente os braços, e disse então dorida e irritada:

—Para que veio aqui?

—Pois a tua carta que significa? Diz.

—Nada. Respondesse: «Não conheço a desgraçada, a perdida, a infame que me escreve. Desgracei-a eu, perdi-a eu, infamei-a eu; mas não a conheço.» Respondesse assim, senhor Nicoláo de Mesquita. Antes isto, que repellir a mulher que de braços abertos lhe offerece o coração traspassado de dôres.

—Vem cá, Margarida! tornou o morgado, simulando meiguice. Vem conversar commigo. Tu és injusta, ou estás enganada.

A franceza abriu a porta do seu quarto. Nicoláo sentou-se a limpar as bagas de suor. E ella ficou em pé defronte d’elle, hirta, sublime, formosa, e formidavel de odio, de amor, de desesperação, de ternura, um indefinivel conjuncto de demonio da soberba, e anjo da agonia.

E elle estava como se a não visse, fitando-a nos olhos coruscantes. Latejavam-lhe as fontes batidas de dentro por clavas de ferro. Seria um atroz pezadelo, se não fosse um abafar de vergonha e rancor.

Margarida esperou alguns segundos, e disse:

—Conversemos, pois.

Nicoláo ergueu-se de golpe, e exclamou:

—Desprézo a ironia!

—Isso é uma miseria, senhor Nicoláo, retorquiu serenamente a franceza. Conversemos, pois!

III

Reprovo a sua vinda aqui! disse Nicoláo empregando o vous do despeito ou da cerimonia, que, n’este dialogo em francez, era, de parte a parte, odio.

—Já sei, respondeu Margarida. Reprova que eu viesse. Reprovada e maldita sou eu de toda a gente. Como todas as almas me fugiam, vim acoitar-me na sua. Agora vejo que estou sosinha no mundo. Se eu quizer amigas, hei de ir procural-as á ultima escaleira da degradação.

—Que desatino!—exclamou o morgado.—Faltaram-lhe meios com que viver honestamente?

—Honestamente vivia eu em casa de meu marido, senhor Nicoláo de Mesquita! O senhor prégou-me a desmoralisação, e agora está-me doutrinando a honestidade! Que escarneo! O seu dinheiro não pode rehabilitar a mulher que a sua perversa indole abysmou! O senhor faz mulheres perdidas, não refaz honestas!

—Pois bem!

—Pois bem o que?

—Faça o que quizer.

Margarida fitou-o arquejante de colera, e levou com impetuoso frenesi as mãos aos olhos, murmurando estas palavras, que elle não ouviu:

—Covarde e infame!

Nicoláo erguera-se, saira á saleta contigua, aspirando haustos de ar, e baforando ruidosamente as expirações fumegantes. A franceza atirára-se ao leito, afogada de soluços, e clamando:

—Estás vingado, Ernesto, estás vingado, meu infeliz marido!

Nicoláo ouvira isto, e estorcia em desespero os dedos de ambas as mãos enclavinhadas sobre o peito.

Encostou-se ao batente da porta do quarto, e contemplou-a. Teve dó. Lembrou-se do que fôra aquella mulher em casa de seu marido. O contentamento, a estima publica, os regalos, o respeito de amigos, a consideração das mulheres honestas, o acanhamento com que a tratavam as deshonestas, o orgulho e paixão do esposo. Lembrou-lhe tudo, vendo-a assim soluçante, a confessar a sua culpa, e a sentir na consciencia o travor do calix expiatorio. E, por sobre tudo isto, o lembrar-se Nicoláo da sua deshonra d’elle! aquellas lagrimas a cairem-lhe no coração! e o terrivel irremediavel da desgraça de tres victimas, que elle fizera, contando-se pela mais atormentada das tres!...

Acercou-se de Margarida e disse-lhe com brandura:

—Não chores. Tens no mundo um amigo, Margarida!

A franceza levantou a face brilhante de lagrimas e escarlate febril. Fixou a vista immovel n’um ponto da parede fronteira, e permaneceu silenciosa largo espaço.

O morgado, observando-a assim, fez um tregeito de impaciencia. Era o fastio, a luctar com a commiseração, e a dominal-a.

A sombra de Beatriz passou entre ambos. Seguiram-n’a os olhos d’alma de Nicoláo. Os da face ficaram postos em Margarida; mas sómente viam n’ella o estorvo, a miseria repulsiva, as lagrimas accusadoras. Duas idéas se travaram a repellões no animo do morgado: romper violenta e definitivamente com a franceza ou enganal-a com blandicias e promessas. Venceu o mais vil dos expedientes.

O maximo sacrificio, que Nicoláo podia fazer á sua paixão pela prima, era compôr o gesto de carinhos; modelar a voz pelo tom vehemente do coração ingrato, mas arrependido; repetir as phrases que seis annos se não repetiram aos ouvidos da franceza.

N’este intuito, ajoelhando deante de Margarida, irrompeu n’uma lamuria destoada da accentuação da verdade, um declamar de actor pessimo, uma coisa que, na consciencia propriamente do declamador, o devia de estar envilecendo!

Margarida foi cruel. Riu-se! castigou-o atrozmente envergonhando-o em rosto, quanto elle o estava no seu intimo senso.

Nicoláo de Mesquita ergueu-se de salto, e sentiu ao correr dos braços um prurido nervoso, umas fervuras de sangue, que lhe recurvavam os dedos; era a convulsiva ancia de esganar a mulher que o comprehendera e escarnecia.

—Que infame riso é esse? exclamou o morgado cavamente, chispando áscuas dos olhos e beiços.

—É o riso da dignidade! respondeu a franceza, sem se desmentir na postura.

—A dignidade de madame Froment! redarguiu elle, espirando um frouxo de riso sarcastico.

—Condemna-se, insultando-me, homem sem alma! replicou Margarida. Madame Froment era uma digna esposa até ao dia em que seu marido foi deshonrado por quem elle recebêra em sua casa.

—Quem a ouvisse cuidaria que eu me servi do punhal de Tarquinio!

—Foi mais cynico, e vilão, e covarde, senhor Nicoláo! As suas armas foram mais perfidas.

—Mas Lucrecia não se matou!...

—Não! bramiu ella furiosa, não se mata, porque é necessario que o senhor veja como eu me debato e agoniso no lodaçal em que me deixa. Havemos de expiar ambos, ouviu, senhor Mesquita? Havemos de nos espedaçar um ao outro! Eu acceito a vida com os horrores todos, que me esperam... acceito-a com a condição de o vêr castigado.

Nicoláo riu-se e sahiu do quarto, atirando com as melenas lustrosas de suor para a nuca.

Seguiu-o, instantes depois, Margarida, e disse-lhe serenamente:

—Venho responder ao seu riso.

—Deixe-me! bradou o morgado.

—Deixo, tornou ella. Está o senhor livre de mim; a Providencia é que não o deixará... Ver-nos-hemos!

E saiu da saleta, desceu ao pateo da estalagem, e ordenou ao arrieiro, que tirasse o cavallo da estrebaria. Entretanto pagou as despezas da hospedagem, e sentou-se n’um banco de pedra, com os braços cruzados sobre o seio, e a face pendida sobre elles.

Nicoláo de Mesquita desceu pouco depois e reconheceu um criado de Beatriz, que saía apressado do pateo. Sobresaltou-se, cuidando que era espionado, e surprehendido em flagrante de mentira e perfidia. Passou por deante de Margarida, como se não a visse, e saiu a rua procurando o criado, que não viu. Voltou ao pateo, já quando a franceza cavalgava. Quedou-se a contemplal-a estupidamente, n’um indescriptivel spasmo de brutificação. Margarida passou rente com elle, estalejando o chicote na anca da cavalgadura. Tinha elle saido da villa, quando Nicoláo tirou fóra o cavallo, e picou á redea solta no seguimento de Margarida. Não saberia dizer elle que intento o impulsava. Chegou de par com ella, colheu as bridas de impeto, e perguntou:

—Onde vaes, desgraçada?

—Á sorte! respondeu a franceza.

—Pára e reflexiona, Margarida!...

A franceza parou, sorriu sardonicamente e disse:

—Bem! Aqui estou. Que quer de mim?

A pergunta conturbou o morgado. Bruxuleava uma luzinha de piedade ainda n’aquelle animo afflicto. Era verdadeira afflicção a d’elle! A pergunta demandava uma só resposta digna, e consolativa. Essa nem já insidiosamente podia elle dal-a. A sobranceria de Margarida rebatia algum expediente compassivo. Se ella chorasse, ganharia temporariamente uns exteriores de estima, o supremo sacrificio praticavel pelo homem, que faz obedecer á delicadeza o fastio; sacrificio de que vivem resignadas, senão felizes, muitas mulheres, as virtuosas principalmente.

Não deu tempo ás reflexões d’elle nem ás nossas a repetida pergunta da franceza:

—Que quer de mim?

—Que domine esse feroz orgulho, que a perde!

—Bella resposta, senhor Nicoláo! replicou Margarida, sacudindo as rédeas com um tremor nervoso da mão. Deixar meu marido foi uma virtude do coração, como o cavalheiro lhe chamava; a virtuosa não se perdeu então; perde-se agora porque é orgulhosa até á ferocidade... é isso? que escarneo, senhor Mesquita!...

Susteve-se, esperando qualquer resposta. As desgraçadas, n’estes lances, usam uma logica irrespondivel. Nicoláo tinha a lingua preza—consintam a figura—por dois dedos da sua prima Beatriz. Expressão compadecida não vingava nenhuma com que applacasse o irritamento de Margarida. Assim que no animo lhe pungia a commiseração, ahi estavam logo os dois dedos de Beatriz a entalarem-lhe na lingua o termo brando, a claridade mesmo da mentira.

A franceza, sobre-excitada pelo silencio significativo do morgado da Palmeira, disse com energia e sem lagrimas:

—Eu, senhor, não vim queixar-me da sua ingratidão. Bem sabe que o deixei apertar-me cinco annos a corda na garganta, sem soltar um gemido. A sua consideração por mim morreu, quando a sociedade me desconsiderou. O senhor, desde o momento em que deixou de vêr ao meu lado o estimulo do seu crime, não soube que fazer aos loiros da victoria. Eu, ao lado de meu marido, era uma mulher disputada pelo amor d’elle; escondida ás pedradas do mundo, perdi o valor que me davam os respeitos sociaes. As pedradas mais certeiras e dolorosas eram as suas, senhor Nicoláo. E não me queixei, nem isto é queixar-me. Da vilania é que eu me dou por affrontada. Deixou-me no Porto com vil astucia, e nem por dignidade propria sustentou a mascara. Era a vida de sua mãe que repellia a mulher perdida da honesta casa da Palmeira: morreu sua mãe, e o senhor, aturdido pela dôr da orphandade, não poude dispôr da cabeça para me dar parte do seu lucto...

—Não admitto remoques sobre objectos tão serios! interrompeu iracundo o morgado.

—O senhor não póde considerar-se um objecto serio! acudiu de prompto a franceza. Ridicula é a sua aleivosia, senhor Nicoláo! Ridiculo, se não quer que diga infame, é o seu silencio de vinte dias ás minhas cartas! Ridiculo, é esse falso pundonor com que vem em defeza da honestidade dos seus lares! Ridiculo é o seu amor dos quarenta annos á candida sobrinha de Chaves que...

Nicoláo cresceu sobre os estribos, levou a mão direita á testa escaldante, e baforou fumaradas de rancor. Abrasava-o dentro o sarcasmo do amor dos quarenta annos. Tortura mais lacerante nem a inquisição poderia invental-a para uso de mulheres inexoraveis como Margarida! Teve-lhe medo ella quando o viu assim roxo e vulcanico a chammejar pelos olhos, inteiriçado sobre o sellim, pavoroso, e ainda ridiculo, no rigor da palavra, e no entender da franceza.

O desfecho d’este relanço devia ser tambem irrisorio. Nicoláo de Mesquita recaiu de golpe sobre o sellim, retorceu de violento empuxão o pescoço do cavallo, deu-lhe de esporas com frenesi, e despediu n’uma corrida desapoderada por aquella rechan do Valle d’Aguiar fóra, e tão cosido ás crinas do fumegante alasão, que dava uns longes de Mazeppa, arrebatado pelo corcel creado na vertiginosa phantasia de Byron.

E Margarida Froment ria-se, em quanto o pasmado arrieiro exclamava:

—O cavallo endoideceu! Vae-se esbarrar com dez milheiros de diabos!

A franceza sorriu ainda, e disse serenamente:

—Vamos para o Porto.

Nicoláo havia transmontado o horisonte, fechado por uma gandra. Nem uma só vez voltara o rosto. Espicaçava-o um demonio zombeteiro, cascalhando as palavras: Ridiculo é o seu amor dos quarenta annos...

Quem disse a Margarida que Nicoláo amava a sobrinha de Chaves? Os romancistas, desconsiderados ou distrahidos, faltam com a cortezia devida aos leitores, descuidando-se em responderem a estes reparos justos, com que a critica amoravelmente nos dá o seu beliscão.

A franceza, quando ia caminho do Vidago, pernoitou em Villa Real. Ao arraiar da manhã, cavalgou, e fóra da villa, n’uma esplanada de monte, chamado o «Arcabuzado», parou a examinar um mau retabulo, em que um pincel de 1811 contava á posteridade o caso triste do espingardeamento de um soldado desertor, cinco minutos antes de chegar de Lisboa o pae do padecente com o perdão da junta governativa. Este infausto successo contou-lh’o, em frente do painel, um mancebo, que desde a hospedaria a seguira, sobre o seu irrequieto cavallo. Não ousaria elle intrometter-se a dar explicações, se a franceza, por gesto convidativo, o não animasse a sair-se d’aquelle spasmo mudo, que as mulheres formosas incutem nos provincianos, gente, pelo commum, contemplativa até ao extasis.

Concluida a historia do painel, o moço alinhou o cavallo com o de Margarida, quanto a estrada o permittia, e foi dizendo quem era e para onde jornadeava. Modestamente omittiu na noticia da sua pessoa que era um fidalgo do Valle d’Aguiar, senhor do solar e castello d’aquelle nome, descendente por varonia de Duarte de Almeida, o celebrado alferes da bandeira, que, a defendel-a com mãos e dentes, perdêra os dentes e as mãos na batalha de Tóro, em 1476. Fallou, porém, no seu castello, que a franceza traduziu château, «casa-campestre», coisa de nenhuma importancia archeologica. Ricardo de Almeida ignorava a lingua franceza, o que vinha a ser uma falta para dar do seu castello solarengo uma cabal idéa.

Margarida perguntou-lhe se conhecia Nicoláo de Mesquita.

—É meu proximo parente; respondeu Ricardo de Almeida, e de prompto conjecturou acertadamente quem era a sua companheira de jornada, por ter ouvido dizer que o do Vidago tinha vivido no Porto com uma estrangeira.

—Tem-n’o visto? perguntou ella.

—Visitei-o quando lhe morreu a mãe...

—Pois a mãe de Nicoláo morreu?! acudiu Margarida com alvoroço.

—Ha tres semanas.

Margarida mordeu o labio inferior.

—Vossa excellencia conhece meu primo? perguntou Ricardo por delicadeza.

—Alguma coisa, respondeu ella abstrahidamente, e disse logo com vivacidade:

—Elle está em Vidago?

—Quando eu sai de minha casa, ha quatro dias, tive noticia de que elle estava em Chaves.

—Chaves é longe?

—Nove leguas, minha senhora.

—Que faz elle em Chaves?

—Namora uma sobrinha, com quem provavelmente vae casar.

Margarida fitou nos olhos o interlocutor, e disse:

—O senhor sabe quem sou, e graceja comigo.

—Desconfio que vossa excellencia é uma senhora que veiu da emigração acompanhando Nicoláo de Mesquita; porém, de nenhum modo ousaria gracejar com uma senhora, que me parece infeliz na sua sorte.

Margarida, por espaço de uma legua, não proferiu palavra. Ricardo tinha menos espirito que o necessario para divertil-a da sua introversão.

Assomaram ao alto da serra do Mezio, d’onde se avistava a magnifica chan do valle de Aguiar, e o castello dos Almeidas, negrejando sobre um morro de rochas na quebrada das montanhas do Alvão.

—O meu castello é além, disse Ricardo apontando.

—É uma fortaleza feudal? perguntou Margarida.

O fidalgo deu a data da fundação do castello, e contou a façanha de Duarte de Almeida, modelada pela inventiva com que ella anda cantada em verso no Romanceiro Portuguez do senhor Ignacio Pizarro de Moraes Sarmento. A franceza parecia escutal-o.

A meio do valle, Ricardo perguntou á dama se queria ser acompanhada.

—Separa-se aqui?

—A minha estrada é esta da esquerda.

—Pois adeus, cavalheiro!

—Se vossa excellencia, por distracção, quizer alguma vez honrar aquelle castello...

—Muito agradecida... As mulheres, fadadas com o meu infortunio, nunca podem distrahir os olhos do ponto negro da sua desgraça. Adeus.

Margarida, lá ao longe, olhou terceira vez ao longo do caminho, que deixára, e viu immovel o fidalgo castellão no local onde se despediram.

—Não envelheci ainda! disse ella entre si.

Foi-lhe immensa consolação este desabafo da vaidade!

IV

Margarida, na volta de Villa Pouca, reparou no castello, e pensou no descendente dos ricos-homens de Aguiar, dizendo em sua consciencia: «Amal-o-hia eu, se podesse... O coração da mulher não se engana... Aquelle moço amava-me hontem...»

Custa a crêr o soliloquio!

Ainda não ha meia hora que ella viu, ennovelados em poeira, o cavalleiro e o cavallo sumirem-se para sempre, e já tão cedo se preoccupa do affecto inspirado a um estranho, que hontem vira! Que coração e juizo tem esta creatura! É um coração e juizo exoticos: coisas de França; que em Portugal—terra onde mais sinceramente e ajuizadamente se ama e morre d’amor—nenhuma senhora, em caso similhante, faria monologos d’aquelles.

Ao mesmo tempo, Ricardo de Almeida, empinado sobre uma pinha de rochas, contiguas ao castello apontava um oculo á estrada que descia de Villa Pouca, e monologava tambem: «É ella... e vem sósinha...»

O cavallo estava sellado, ao sopé dos rochedos. Ricardo desceu do miradouro, cavalgou, e foi sair ao caminho na encruzilhada onde se despedira. A franceza reconhecera-o a galopar na clareira de uma agra. Fez-se um brilhante dia no seu espirito! Ia alegre como bem póde ser não fosse, ainda que arrancasse o homem amado ás presas da menina de Chaves. A alvorada de um amor novo é uma aurora de junho perfumada de flores, gorgeada de passarinhos, sonora de murmurios no coração ennoitecido, e regelado pela borrasca de uma paixão infeliz. Era uma alegria que a vingava! Na infancia do seu amor de donzella, nenhuma hora sentira de tão excitante e alvoroçada felicidade!

Ricardo apeou, atirou as rédeas á mão do lacaio, e adeantou-se ao encontro da franceza, dizendo com a voz tremula do sobresalto interior:

—É tarde para vossa excellencia ir pernoitar a Villa Real. No espaço de tres grandes leguas não encontra pousada. Venho offerecer-lhe a minha casa, onde tenho minhas tias para a receberem.