OBRAS

DE

CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIÇÃO POPULAR

XXIII

O OLHO DE VIDRO

TYPOGRAPHIA DA PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
—RUA AUGUSTA, 44, 46 E 48—
LISBOA

OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO

Edição popular das suas principaes obras em 80 volumes in-8.º, de 200 a 300 paginas Impressa em bom papel, typo elzevir

250 réis em brochura e 400 réis encadernado

1—Coisas espantosas. 2—As tres irmans. 3—A engeitada. 4—Doze casamentos felizes. 5—O esqueleto. 6—O bem e o mal. 7—O senhor do Paço de Ninães. 8—Anathema. 9—A mulher fatal. 10—Cavar em ruinas. 11 e 12—Correspondencia epistolar. 13—Divindade de Jesus. 14—A doida do Candal. 15—Duas horas de leitura. 16—Fanny. 17, 18 e 19—Novellas do Minho. 20 e 21—Horas de paz. 22—Agulha em palheiro. 23—O olho de vidro. 24—Annos de prosa. 25—Os brilhantes do brasileiro. 26—A bruxa do Monte-Cordova. 27—Carlota Angela. 28—Quatro horas innocentes. 29—As virtudes antigas. 30—A filha do Doutor Negro. 31—Estrellas propicias. 32—A filha do regicida. 33 e 34—O demonio do ouro. 35—O regicida. 36—A filha do arcediago. 37—A neta do arcediago. 38—Delictos da mocidade. 39—Onde está a felicidade? 40—Um homem de brios. 41—Memorias de Guilherme do Amaral. 42, 43 e 44—Mysterios de Lisboa. 45 e 46—Livro negro do padre Dinis. 47 e 48—O judeu. 49—Duas épocas da vida. 50—Estrellas funestas. 51—Lagrimas abençoadas. 52—Lucta de gigantes. 53 e 54—Memorias do carcere. 55—Mysterios de Fafe. 56—Coração, cabeça e estomago. 57—O que fazem mulheres. 58—O retrato de Ricardina. 59—O sangue. 60—O santo da montanha. 61—Vingança. 62—Vinte horas de liteira. 63—A queda d'um anjo. 64—Scenas da Foz. 65—Scenas contemporaneas. 66—O romance d'um rapaz pobre. 67—Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado. 68—Noites de Lamego. 69—Scenas innocentes da comedia humana. 70 e 71—Os Martyres. 72—Um livro. 73—A Sereia. 74—Esboços de apreciações litterarias. 75—Cousas leves e pesadas. 76—Theatro: I—Agostinho de Ceuta.—O marquez de Torres-Novas. 77—Theatro: II—Poesia ou dinheiro?—Justiça.—Espinhos e flôres.—Purgatorio e Paraizo. 78—Theatro: III—O Morgado de Fafe em Lisboa.—O Morgado de Fafe amoroso.—O ultimo acto.—Abençoadas lagrimas! 79—Theatro: IV—O condemnado.—Como os anjos se vingam.—Entre a flauta e a viola. 80—Theatro: V—O Lobis-Homem.—A Morgadinha de Val-d'Amores.

CAMILLO CASTELLO BRANCO


O OLHO DE VIDRO

ROMANCE HISTORICO

4.ª edição, conforme a 1.ª, unica revista pelo auctor

1918
Parceria Antonio Maria Pereira
LIVRARIA EDITORA
Rua Augusta, 44 a 54
LISBOA

O OLHO DE VIDRO

Nota das edições que tem tido este romance até á presente

1.ª edição—Lisboa—1866—Livraria de Campos Junior—1 vol. in-8.º de 199 pags.

2.ª edição—Lisboa—(Sem data)—(É a 1.ª edição com a reimpressão da 1.ª folha.)

3.ª edição—Lisboa—1904—Vol. 23.º da nossa Collecção, da qual se fez uma tiragem especial de 100 exemplares em papel de linho nacional para bibliophilos.

4.ª edição—Lisboa—1917—que é a presente.

PROLOGO

(DA 1.ª EDIÇÃO)

O eminente bibliographo e meu prezado amigo Innocencio Francisco da Silva, historiando em breves linhas a vida quasi obscura de Braz Luiz d'Abreu, conclue com estas palavras: Se algum dos nossos romancistas actuaes se resolvesse a tratar o assumpto, affigura-se-me que a vida d'este nosso medico, com os curiosissimos incidentes que ficam apontados, lhe dariam sobeja materia para a fabrica de uma composição, onde mediante a lição dos escriptos, que nos restam de Braz Luiz, poderiam fundir-se habilmente especies mui interessantes para d'ahi resultar obra de cunho verdadeiramente nacional.

Os termos em que o convite é feito animam e ao mesmo tempo assustam. Comecei temerariamente a composição d'este romance: máo foi principial-o, que eu sou tão pouco cioso de aprimorar escriptos d'esta ordem, que não me fórro ao perigo de concluil-os e imprimil-os, ainda quando me desagradam.

Não direi o que penso d'este: assevero, porém, que não está de certo realisada a esperança do meu amigo Innocencio Francisco da Silva. Se a biographia do author do Portugal-medico é mina para locupletar romancistas, vão lá todos, que eu não toquei nos veios mais ricos.

Porto, 3 de março de 1866.

Camillo Castello Branco.

INTRODUCÇÃO

Francisco Luiz d'Abreu, estudante do segundo anno medico na universidade de Coimbra, estava, por volta das onze horas da noite de 28 de janeiro de 1692, estudando, no seu Vila Corta, as theorias de Galeno ácerca das purgas—de purgatione.—Embebecido e pasmado nas virtudes drasticas dos olhos de caranguejo, apenas tinha um todo-nada de espanto para celebrar os não menos miraculosos effeitos da pelle de cobra, quando, tão a deshoras, duas aldrabadas na porta o roubaram ao seu enlevo. Francisco encapuzou-se no gabão, e abriu as portadas da janella que dava sobre o Becco das Flores, becco assim denominado por antiphrase, figura de rethorica tolerantissima que permitte denominar-se flores o adubo de que ellas tiram a seiva putrida, mais tarde evaporada em aromas.

—Quem é—perguntou o estudante, apertando as azas nasaes, com ingrato despreso das boninas da sua rua.—Quem é o vadio?

—Sou eu!—respondeu quem quer que era, abrindo pequeno respiraculo por sobre o ferragoulo, que lhe envolvia todo rosto.

—Tu!...—exclamou Abreu com alvoroço.—Vou abrir! Pois és tu?!

Algum motivo mysterioso tinha o academico para descer ás escuras a precipitosa escada, contando as escaleiras e raspando com o pé cauteloso sobre cada degrau. Aberta a porta recebeu nos braços com ardente vehemencia o interruptor de seus estudos, e tão alheado ficou das suas considerações therapeuticas sobre a pelle de cobra, que nem já os olhos de caranguejo lhe lembravam.

—Tu aqui, Antonio de Sá!—tornou Francisco.—Eu fazia-te na India!... Sobe, meu desventurado rapaz, que não ha ainda duas horas que os teus condiscipulos te lamentaram, especialmente José de Barredo se arrepellava por ter sido teu confidente n'esses funestissimos amores que te perderam...

—Com razão!...—murmurou o outro—com razão me lamentaste, que eu sou desgraçado, quanto póde sel-o n'este mundo um rapaz de vinte annos.

—E que magro estás!... atalhou Francisco Luiz, achegando-lhe do rosto a candeia de lata, que despregou do velador.—Como estás acabado!...

—Se te parece!... um anno quasi sem ar, nem sol; passado de terrores... Como não queres que eu esteja pallido e descarnado?! São assim todos os rostos que se lavam com lagrimas...

—Pobre Antonio!...—atalhou o outro muito consternado—Se, ao menos, tivesses fugido de Portugal, como nós suppunhamos, terias céo e ar... Senta-te, homem!... Queres tu comer?

—Quero.

—Ainda bem! A desgraça não te quebrantou o antigo estomago... Aqui tens queijos, figos e bolos de Santa Clara... Olha que ainda duram os amores da freira... Aqui tens o coração da freira n'estas trouxas d'ovos. Carne não na ha, e não sei onde vá procural-a a esta hora... Queres tu uma sôrda? Essa faço-t'a eu: estão alli os alhos; e, á mingoa de azeite, cosinha-se com o da candeia, e depois conversaremos ás escuras.

—Isto basta para quem anda faminto de bons bocados—disse Antonio, com desusado atticismo, devorando o queijo e os figos, e as trouxas allegoricas do coração da franciscana, não já como desgraçadissimo entre os homens, mas certamente como de entre os estudantes o mais faminto.

O hospedeiro academico enfreou sua curiosidade emquanto o amigo não pôde dispor da lingua, empenhada na soffrega lida da deglutição. No entretanto, andava elle rebuscando na gaveta alguma vitualha, como se em gaveta de estudante alguma vez se operasse o milagre de que alguns raros anachoretas se gosaram na Palestina, quando os anjos do céo lhes cosinhavam os fricassés.

—Que andas tu procurando?—perguntou Antonio de Sá Mourão.

—Um boi que te mate essa fome! Hei medo que me devores, rapaz.

—Nem manjar branco me dês que já me cá não cabe. Estou alimentado para tres dias, se fôr necessario. Queres agora a minha historia de treze mezes? Deita-te ahi na tua cama; escuta e adormece quando quizeres. Que sabes tu da minha vida?

—Sei o que todos sabem: que fugiste de Bragança com uma moça, filha unica de pae rico e feroz, que te fez procurar aqui em Coimbra, e me quiz metter no aljube para lhe dar conta de ti, allegando que eu devia forçosamente ser teu confidente, por que sou christão novo como tu.

—Não sabia—interrompeu Antonio—que os meus infortunios implicaram comtigo...

—Mais do que eu te sei dizer... Os trabalhos, que me ameaçavam, affligiam-me muitissimo menos que a idéa da inexoravel perseguição que te fariam por toda a parte. Esperava eu, a cada hora, a noticia da tua prisão, com todas as probabilidades de que morrerias na forca, se não morresses na fogueira. Ninguem dava novas tuas, que não fossem horrorosas. Uns diziam que tinhas sido morto a tiro; diziam outros que te havias suicidado. Ao cabo de seis mezes, espalhou-se a boa nova de que tinhas embarcado para a India, favorecido por teus parentes ricos de Lisboa, e tambem corria que a moça te acompanhára vestida de rapaz. Ora, como nunca mais se fallou de ti, acreditámos que estavas salvo... Como te vejo aqui, Antonio?! Que é isto?! Onde tens estado? Como pudeste fugir á justiça, se não foi n'algum subterraneo?

—Eu te conto, respondeu Antonio. Aquella temporada de ferias que fui passar com meus tios em Bragança foi a morte da mocidade, das esperanças, e de tudo em que eu fundamentára a felicidade das minhas modestas ambições. O prazer exclusivo da minha vida tinha sido o estudo, a gloria da sciencia, desvanecimento louco de poder ainda, mediante a sciencia, avisinhar-me do throno, como os antigos da nação[1] e desopprimir nossos irmãos, quanto coubesse na alçada do juizo, e no prestigio que a posição de medico do rei me désse. Era um sonho talvez desatinado; mas o despertar-me d'elle foi atroz!... Amei aquella mulher; referi-te o nascer d'aquelle funesto amor. Sabes que os teus conselhos e vaticinios, ainda mal que realisados, não poderam reduzir-me ao dever, á honra, e propriamente ao discreto egoismo, que tantas vezes nos arreda de abysmos cavados pela excessiva sensibilidade. O peior, meu amigo, já não era vencer-me eu; era vencer a compaixão que me fazia a pobre menina, cujas alegrias dos dezoito annos eu fôra converter em amargura de toda a vida.

—Combati essa opinião—interrompeu Francisco Luiz—por cuidar que era grande parte n'ella a tua vaidade, a vaidade do homem que se julga necessario á vida da mulher...

—É verdade; combateste a insensata opinião; mas... não sei se cedo se tarde o fizeste; o certo é que as tuas razões me pareceram sophisticas e glaciaes. Vi em ti o philosopho que sempre foste; e em mim vi o homem duplicado em sua existencia pelo amor, os dois homens que se combatem e forcejam por despedaçar-se, até que um triumpha, e... fica senhor das ruínas do coração... Já agora não discutamos como medicos em volta de um cadaver. Saibamos que está morto o homem, e ouve tu singelamente a historia das delirantes febres que o acabaram.

De antemão sabia eu já que a filha de Fernão Cabral me seria negada e que os lacaios do christianissimo fidalgo, por ordem de seu senhor, me ameaçariam com os seus tagantes.

Isto não embargou que eu timidamente me fosse apresentar ao nobre morgado de Carrazedo, e lhe pedisse a filha. Fernão ouviu-me em pé, e respondeu-me n'estes termos: «Olhe para estes retratos»—e apontou para uma duzia de figuras pendentes das paredes—«olhe para estes retratos, e veja se ahi está algum com a estrella vermelha das seis pontas cosida sobre a garnacha ou sobre o arnez[2]» dito isto apontou-me a porta da escada.

Não sei se odio, se lagrimas, se tudo a um tempo, me enchia o coração! Já então não tive animo para te escrever!

Ha desgraças tamanhas que um homem parece envergonhar-se de contal-as aos seus amigos mais do intimo d'alma. Fechei-me com o segredo da minha ignominia. Deixei Bragança e fui para a Guarda, resolvido a entregar-me inertemente ao devorar silencioso da minha saudade.

Fugi dos carinhos da familia, e ferrolhei-me n'uma casa agreste e erma na quebrada da Serra da Estrella. A desesperação alli foi-me consoladora, por que a morte era inevitavel n'aquelle desamparo.

Nem ainda então pude escrever-te, meu amigo! Assim que tentava fazel-o, não sei exprimir que desalento me esvaía a cabeça. «Que vale queixar-me?! dizia eu entre mim—O que Deus não dá não m'o podem dar amigos. Deixal-os gosar, deixal-os ignorar estas obscuras angustias.»

Uma noite, faz agora onze mezes, estava eu passeiando nos quasi pardieiros da minha vivenda, quando ouvi tropel de cavalgaduras no barrocal que descia da serra ao alpestre casalejo de meus avós, os quaes alli se tinham homisiado no tempo das grandes perseguições do rei D. Manuel. Accudi á janella e ouvi uma voz de homem dizer: «É aqui.» Não sei que outras palavras se disseram: eram a voz d'ella: era Maria.

Quando dei tento de mim, e cobrei conhecimento da minha situação, tinha, nos braços a filha de Fernão Cabral, e á beira d'ella vi uma criada sua, que nos fôra medianeira, e um criado da casa de meu pae.

Contou Maria, a intercadencias anciadas, que fugira de Bragança, logo que o pae se ausentou por alguns dias, no proposito de negociar o casamento d'ella com um fidalgo de Vizeu. Como não tinha mãe, e costumava passar muitas horas reclusa no seu quarto, os domesticos não deram logo conta da fuga, nem a suspeitariam tão cedo, se a sua aia não faltasse tambem. Fugiu caminho da Guarda, e procurou-me alta noite, em casa de meus paes, que tentaram restituil-a á casa paterna, temerosos dos resultados. Como ella, porém, os assustasse ainda mais com o proposito de se matar, encaminharam-na ao meu deserto, com todo o segredo.

Imagina tu que hospedagem daria eu á filha do gentil-homem, alli, n'aquellas ruinas, onde todas as alfaias eram um catre de bancos, uma arca, dois tamboretes de páo, e alguma loiça vermelha do uso dos caseiros, pobre gente de nossa raça, que para alli ficára grangeando e usofruindo as pouquinhas e inferteis terras!... A Maria e á sua criada grave dei o meu leito; e com o meu criado me fui ao palheiro, e me agazalhei nas mantas que os caseiros nos emprestaram.

De madrugada, chegou meu pae a indagar do meu destino, e a dar-me alguns recursos para fugirmos até onde passassemos insuspeitos. O velho chorava, e eu, digo-t'o com pejo, queria que elle se alegrasse de me ver feliz!

Deferi a minha saida para o dia seguinte, sem saber que rumo tomasse. Meu pae mandava-me fugir por Hespanha e embarcar para Hollanda. Maria, esperançada na commiseração do pae e na protecção dos seus santos advogados, queria que eu e ella fossemos ajoelhar aos pés d'elle. Por mais que m'o dissesse em tom de anjo quando revela os decretos do céo, não pude sequer imaginar possivel o perdão do soberbo fidalgo.

Saimos para Celorico, a quatro leguas de distancia. N'uma aldeia dos arrabaldes, moravam irmãos do meu caseiro, grangeando um casal. Alli deliberei repousar alguns dias, porque Maria já tão sem forças ia da jornada por serras n'um dia de rigoroso inverno, que mal podia ter-se nas andilhas. Desde aqui avisei meu pae, pedindo-lhe novas do que soubesse. Respondeu-me que, horas antes, tinha sido cercada nossa casa, e que elle, com todos os nossos, estavam arriscados a ser presos.

E foram, no dia seguinte, presos e fechados em masmorras.

As immediatas noticias que tive foram cruelissimas. Todos os nossos bens tinham sido inventariados como para entrarem no sequestro feito a bens de judeus. Eu não devia já esperar recursos alguns de minha casa, e o dinheiro que eu possuia pouquissimo era para me transportar para fóra do reino. Sobrepõe tu, Francisco, a estes lances, o medo da prisão, e escutar a cada instante nos menores rumores o estrepito dos quadrilheiros! E, se estes são poucos supplicios para conceberes muito em sombra a minha vida, ajunta a isto uma cama de enxerga n'um quarto de vigamento por onde a ventania esfuziava, e sobre essa enxerga a pobre menina a tremer os frios das sesões, e eu de mãos postas a contemplal-a assim!

Para que ninguem da aldeia nos visse, os dias para nós eram a continuação das noites. Aquelles pobrinhos fazendeiros, de portas a dentro, melhoraram quanto poderam a nossa situação. Eu, por minhas mãos, carpintijei o tabique para aconchegar o nosso quarto; e, com todas as cautellas, consegui que viessem de longe bragaes e roupas com que tirei á alcova de Maria as tristezas da indigencia. Melhorou a minha pobre amiga e desenvolveu espantosa energia na lucta. O sorriso d'ella dava-me alentos; mas não podia espancar da minha alma a imagem de meu pae, mãe e irmãos encarcerados, perseguidos pelo rancor vingativo de Fernão Cabral, e mais que muito sujeitos á extremidade de pagarem com a vida o meu delicto.

Com que traças e trabalhos eu conseguia incertas noticias d'elles! Para mim era já consolativa a nova de que os não tinham mandado para os carceres da inquisição de Coimbra. Logo que elles aqui entrassem, perdidos os considerava eu.

E assim vão decorridos treze mezes, Francisco Luiz! Comprehendes tu que infernos eu tenho apagado com as minhas lagrimas para poder viver ainda!... Lagrimas escondidas d'aquella martyr, para que ella, conhecedora do meu desalento, não desanime!...

—E choras assim, Antonio! Coragem!—exclamou Abreu, tomando contra o seio o anciadissimo moço.

—Ai! deixa-me chorar, que não o pude ainda fazer tanto ás largas. Deixa-me chorar, que isto é veneno mortal que me sáe aos olhos! É preciso que vejamos alma compadecida para sabermos a doçura d'este desafogo das lagrimas!

Passados momentos, Antonio apertou, de golpe e convulsamente, as mãos do condiscipulo, levou-as aos labios, e exclamou soluçante:

—Sabes ao que vim?

—Diz, meu querido amigo.

—Venho pedir-te dinheiro para fugir de Portugal.

—Tel-o-has. Minha mãe já não vive, e eu tenho uma legitima. Conta com ella.

—Bem hajas! bem hajas, meu Francisco! Mas venho pedir-te mais alguma coisa.

—Diz.

—Eu tenho um filho de quinze dias. Não posso fugir com a creancinha. Aceitas-m'a no regaço da tua caridade? Ficas com o meu filhinho, para m'o restituir, quando a felicidade me bafejar?

—Ficarei como teu filhinho, Antonio. Dar-lhe-hei o coração que te dou a ti. Se Deus o não tiver levado, quando voltares, achal-o-has. Não lhe direi o teu nome de pae, sem que tu lh'o possas dar. Ninguem saberá que é teu filho, sem que tu possas dizel-o ao mundo.

—É assim que t'o roga a minha alma attribulada... a ti e a Deus, que me está fallando no teu coração. Porque não hei de eu ajoelhar a teus pés, se creio que em ti está o Senhor da compaixão e da misericordia?!

Francisco Luiz de Abreu levantou nos braços o arquejante moço; e, não menos commovido, ratificou as promessas feitas.


Ás dez horas da noite seguinte, Francisco Luiz e o seu amigo sairam de Coimbra, cada qual por diversa porta. O bemfeitor foi para Ourem, sua terra; o judeu da Guarda, por desvios escusos, entrou, decorridas duas noites de jornada, na abegoaria onde o esperava a mãe da creancinha, que bebia um leite aguado de lagrimas.

Dez dias volvidos, por noite alta, entrava no mesmo casalejo Francisco Luiz de Abreu, com uma ama de leite, e com a sua legitima materna n'um saco de moedas de ouro.

Contemplou a formosura da peccadora, e a formosura do innocente nos braços d'ella. Saudou-os, chorando, e tomou a creancinha muito aconchegada do seio.

—Como se chama o anjinho?—perguntou o academico.

—Tu o dirás—respondeu Antonio.—É teu afilhado.

—Seja Francisco—disse a mãe.

—Muito desejaria eu baptisal-o, e dar-lhe o meu nome—observou o academico;—mas tu sabes, Antonio, o resguardo que convém ter comvosco, com este menino e comigo. O meu parecer é que se esconda quanto ser possa a influencia que eu hei de ter na creação de teu filho. Melhor é que as suspeitas do mundo, se ellas vingarem descobrir ligações d'esta creança comigo, me julguem a mim, que não a ti, pae d'ella. O meu intento é alugar uma casinha em Coimbra onde a ama viva com elle. Não irei ser padrinho, para não dar corte á desconfiança de que elle seja meu filho. Assim se irá creando, até que eu conclua a formatura. N'este meio tempo, quererá Deus que tu voltes a Portugal.

—Voltarei eu?!—exclamou Antonio, apertando no mesmo braço o amigo, o filho, e a mãe, que estava lavando com lagrimas o rosto da creancinha, deitada nos braços do estudante.—Ver-vos-hei eu mais?—balbuciou, intallado de gemidos. Que futuros melhores posso esperar eu!? Como crês tu possivel o termo da perseguição?...

—Não sei—disse Abreu, fingindo esperanças.—Não sei... mas as voltas do mundo são tão espantosas... Todavia...—continuou elle com o alvoroço de uma já sincera esperança—não te lembraste ainda d'uma felicidade muitissimo possivel?

—Qual?—conclamaram os dois, para quem um raio de esperança era já cousa de estontear como a luz do sol aos exhumados das trevas de longo encarceramento.—Qual? que felicidade nos promettes, meu amigo?

—A mais obvia e facil. O que me espanta é que ella vos não haja sorrido primeiro do que a mim. Ides para Hespanha, não é assim?

—Vamos.

—De lá passaes a Hollanda, onde achareis o abrigo que os nossos irmãos deparam a quantos infelizes vão de cá acossados pelas tochas do auto da fé. Tu, Antonio, és novo e robusto. Se não quizeres continuar os teus estudos medicos lá fora, voltas a tua actividade para outra ordem de trabalhos: fazes-te mercador, ganhas dinheiro, esqueces a patria, como se nunca a tivesses, como em verdade não temos; depois, mandas ir o teu filhinho, como complemento da tua felicidade na vida tranquilla.

—Que sonho!—clamou alegremente a filha de Fernão Cabral.—E eu nunca pensára n'isso...

—Nem eu...—ajuntou Antonio.—Ha umas desgraças que esterilisam a mais pensadora e expeditiva alma! Eu não via senão escuridade... Agora, bem hajas tu, meu irmão, que me restitues á serenidade de homem inquebrantavel por affrontas da sorte... E a ti, a ti, meu amigo? Não hei de eu mais vêr-te?

—Porque não, se eu hei de ser propriamente quem te vá levar o filho?

—Oh! então já sei que ha o antever da perfeita felicidade, cá mesmo d'este grande abysmo em que me lancei com esta infeliz menina...

E, abraçando-se n'ella, choravam ambos lagrimas já de jubilo, como as de quantos naufragos que apegam sobre ponta de rocha, ainda quando ao despegarem-se, para ganhar terra, voragens novas se lhes anteponham.

N'este dia, como se a adversidade cançasse de cruciar os dois fugitivos, boa nova lhes chegou a sobredoirar os prazeres da esperança.

Sem embargo da raivosa perseguição do fidalgo de Bragança á inculpada familia do hebreu, as leis não se dobraram a sentenciar a perdição dos innocentes. Apoz dez mezes de masmorra na cidade da Guarda, os dois velhos e seus filhos sairam livres, sob a bandeira misericordiosa dos dignitarios da Sé, conjurados todos em deporem sobre a pura christandade dos presos, e sua irresponsabilidade nas desordens do máo membro de sua familia.

Redobrada a exultação de Antonio com esta nova, queria já elle dispensar-se de receber o emprestimo de Francisco de Abreu, como quem contava com sobejo dinheiro de sua casa resgatada do sequestro. O amigo, porém, não condescendeu nem o desquitou da obrigação de devedor, instando na immediata saida de Portugal, porque a raiva do fidalgo redobraria de vigilancia, depois da soltura dos presos em quem não podéra assentar em cheio a mão rancorosa.

Prevaleceram as judiciosas previsões de Francisco Luiz. Áquella hora, de feito, já Fernão Cabral, esporeado pelo odio, apertava novas diligencias para descobrir o rasto dos fugitivos, e, mediante disfarçados espias que na Guarda lh'os andavam furoando, não estava já longe de lhes descobrir o rasto.

Ao outro dia, depois de muito chorar da mãe, a cujo seio arrancaram a creancinha, Francisco Luiz, sem saber como se estancavam lagrimas de tão puro sangue de alma, fugiu para assim dizer com o menino, sem esperar as ultimas despedidas.

Ao anoitecer d'este dia, os consternados paes, por serranias não trilhadas endireitaram ás fronteiras e vingaram entrar em Hespanha. Contemplavam-se a espaços, e viam nos olhos um do outro o desconforto, a desesperança, o convencimento de que sua desgraça ia crescendo.

—E o nosso filhinho?...—dizia ella em gemidos, que pareciam um arrancar da vida.

E elle cobria o rosto com as mãos, arquejava, engulia as lagrimas e não respondia.

—Que mal fizemos em deixar a creancinha!—voltava ella, cruzando os braços sobre os seios, que lhe doiam entumecidos do leite.—Que ruim mãe eu fui!... Meu Deus, perdoae-me que eu sómente agora considero a grandeza do meu crime!

—Não chores assim!—atalhava o attribulado moço. Pois como andarias tu fugitiva com um filhinho de tres semanas! Ó Maria, por Deus te peço que nos não atormentemos! Ajuda-me a ser homem! Ampara-me, pela boa sorte do nosso filho te rogo que me ampares! Volta ao futuro os olhos de tua alma! Esperemos... luctemos, sejamos fortes, não nos deixemos acabar aos golpes d'esta saudade.

I
Informações

Corria o anno de 1697.

Francisco Luiz d'Abreu, doutor em medicina, mudára sua residencia para Coimbra, esperançado em entrar no magisterio, conforme lh'o promettiam sua capacidade, vasto saber e creditos. Tinha casado, quatro annos antes, com Francisca Rodrigues de Oliveira, filha de abastados judeus de Ourem. Não tinham filhos; mas dos braços de um ao outro saltava um menino de cinco annos, chamado Braz, acariciado com blandicias de filho. A creança tratava de padrinho o doutor, e á senhora chamava mãe. A esposa do medico, privada do goso de se ver assim amimada nos labios de anjo desentranhado de seu seio, jubilava de lhe ouvir aquelle doce nome de mãe, e toda se estremecia de maternal ternura chamando-lhe seu filho.

Grande numero de pessoas relacionadas com Francisco Luiz, presumia que o pequenino Braz era filho natural d'elle, e que Francisca de Oliveira, bem que israelita e perfida ao sacramento do baptismo, alojava no peito entranhas tão christãs que levara para sua companhia o menino, e lhe queria até á extremidade de lhe chamar filho, e consentir que elle lhe chamasse mãe.

Exceptuada a amoravel esposa do doutor, ninguem sabia em Portugal quem fossem os paes d'aquella creança. A ama, que a tinha amamentado, morrêra; e a pobre gente, que lhe assistira ao nascimento, ignorava o destino d'elle.

Um dia, como a creança, antes de ir-se á cama, entrasse a beijar a mão do padrinho, Francisca beijou-a nas faces, e disse-lhe:

—Não tornes a chamar padrinho ao teu amigo; chama-lhe pae, sim, Braz?

—Pois sim, mãesinha—disse a creança, e saiu pela mão da creada.

Francisca proseguiu:

—Pois não é assim melhor?! Acabamos de nos convencer que elle é nosso filho.

—Ó menina, respondeu o marido—esse convencimento parece-me difficil...

—Nosso filho gerado no coração...—tornou ella.

—Isso lá, sim; d'esse modo já eu o perfilhei; mas o peior é que ámanhã podem apparecer ahi umas entranhas menos phantasticas do que a tua maternidade de coração a reclamarem o que é seu legitimamente.

—Pois tu cuidas que elles voltam cá?! Podes ainda imaginar que elles vivem? Ha tres annos que não temos uma carta d'elles!

—Mas tambem não recebemos a certidão de obito.

—Pois sim,—redarguiu Francisca—mas, se elles vivessem, as pessoas de Hollanda, a quem tu tens pedido tantas vezes novas d'elles; não t'as dariam, ainda mesmo que lhe não soubessem os verdadeiros nomes?!

—Acho-te razão; porém, custa-me a crer que elles tenham morrido ambos. O mais certo é o que eu tantas vezes te tenho dito...

—Que Fernão Cabral tem recebido as cartas que elles te escrevem?

—Sim.

—Não creio. Tu recebes cartas de Amsterdam, de Londres e de toda a parte. Se te subtrahissem umas, iam todas, homem. Cá, ninguem me tira a mim da cabeça, que elles morreram em naufragio, ou os sicarios do fidalgo os mataram lá por fóra, ou... quem sabe?... a tamanho apuro de desgraça chegariam, que se dessem a si a morte, como no seculo passado succedeu com tantos irmãos nossos.

—Póde ser—obtemperou Francisco Luiz;—mas teriam coragem de matar-se uns paes que deixavam esta creança?!... Não é possivel! A ultima carta, que recebi de Antonio, aqui está—disse elle, tirando-a do segredo de uma gaveta—é de 4 de outubro de 1694. Escreve-me de Marselha. Não se queixa de mingua de recursos. Revela uma certa seguridade de espirito, que é signal de boas avenças com as miserias da vida. Diz que está em arranjos com alguns hebreus, filhos e netos de portuguezes, para se trasladarem com suas familias para uma colonia franceza, que, diz elle, talvez seja a de S. Domingos. Promette escrever-me quando se houver definitivamente resolvido, e depois...

—Mais nada—atalhou Francisca—Ora, no Canadá, já sabemos que elles não estão. N'outras colonias, tambem tu já sabes que ninguem os viu. Que havemos de pensar d'isto? Que se ha de suppor depois do silencio de tres annos?

—Que as cartas me são roubadas—insistiu o doutor.

—E tu a teimar, homem!... Oxalá que eu me engane; mas, se adivinho, Deus sabe que o menino está amparado, e que ha de ser sempre meu filho, ainda que o senhor me dê muitos filhos.

—Suicidarem-se!—proseguiu Francisco de Abreu, que parecia, de absorvido em suas cogitações, não ouvir a esposa—Suicidarem-se não póde ser... Antonio Mourão graduou-se em medicina em Paris ha quatro annos, e de lá passou para Hollanda. Um medico não chega a encarar com tão feia miseria que lhe quebre o animo, ao extremo de o anniquilar. Antonio em qualquer parte acharia pão, ainda que fosse máo physico; porém, com os talentos d'elle, não posso conceber máo medico. Seja o que fôr, Francisca. Eu espero ainda haver novas por alguns hebreus de Marselha. Hei de perguntar em que época e em que navios sairam colonos, e para onde sairam. Não o fiz até agora por medo que as minhas cartas andem espiadas, e vão dar ás mãos de Fernão Cabral. Mas vou escrever ao nosso amigo Francisco de Moraes Taveira, que está em Lisboa de viagem para França, e pedir-lhe que indague quanto poder dos nossos irmãos de Marselha o destino dos colonos, com os quaes saiu Antonio de Sá Mourão.

Francisca entrou á alcova do menino, e sentou-se-lhe á beira do catre a contemplal-o adormecido em sonhos, que lhe sorriam, a espaços, na rosa entre-aberta dos labios.

Francisco Luiz de Abreu ficou escrevendo largas paginas ao seu amigo Francisco de Moraes, hebreu abastadissimo de Villa Flor, commerciante de pedras preciosas, que traficava nas principaes cidades de Europa e Asia.

Na volta do correio, Francisco de Moraes asseverou ao doutor que chegado a França, iria indagar pessoalmente a Marselha, e não pouparia despezas com os informadores que o satisfizessem. E, por esta occasião, lhe noticiava que fazia conta de trazer de Hollanda seu filho Heitor, que lá se estava educando em humanidades com seus tios, para estudar medicina em Coimbra; e, a tal respeito, accrescentava: «Não sei se érro em trazer o rapaz para Portugal; mas a mãe insta, chora, e definha-se a termos que receio que me ella morra. Seja o que Deus quizer. Aconselhar-lhe-hei o que lhe cumpre fazer, e espero que elle, por obediencia e desejo da vida, me attenda.»

Francisco Luiz deu-se logo pressa em pedir ao hebreu que não trouxesse para Portugal, como victima amarrada para o açougue, o pobre rapaz que lá fóra vivia sem receio da polé e da fogueira. Pintava-lhe, sem encarecimento, os perigos que ameaçavam em Portugal um rapaz creado e educado entre israelitas doutos, e com elles affeito a dizer alto e destemidamente o seu pensar em coisas de religião. Recordava-lhe as numerosas victimas da inquisição, que preferiram morrer a desconfessar sua fé, antepondo a gloria do martyrio da idéa herdada de avós á hypocrisia de aceitarem apparentemente a religião dos carniceiros filhos de Domingos de Gusmão. Lembrava-lhe a sublime coragem de Manuel Fernandes Villa Real, consul portuguez em Paris, e, não obstante, garrotado e queimado na praça da Ribeira em Lisboa no anno de 1652. Lembrava-lhe o lente de Coimbra Antonio Homem, queimado em 1624, e o advogado Miguel Henriques da Fonseca, Pedro Serrão[3] e outros, cuja inflexibilidade de caracter, comquanto perpetuasse honrada memoria, lhes custou affrontosissima morte, e deixou aberta por muito tempo amarga torrente de lagrimas.

As reflexões do medico abalaram o judeu; mas não lhe demudaram a tenção. Era Heitor, filho unico, herdeiro de grandes haveres; queria voltar á patria, onde o chamavam saudades de menino; tinha por si as lagrimas e instancias da mãe; promettia ser discreto e hypocrita; queixava-se do clima de Hollanda e de febres quartans. O pae era sósinho a querel-o afastado de Portugal, e assim mesmo andava em lucta comsigo mesmo, até que deliberou trazel-o de volta da sua excursão mercantil a França e outras nações.

De Marselha escreveu Francisco de Moraes informando o seu amigo Abreu. Dizia que Antonio de Sá Mourão, convidado com grandes lucros a ir estabelecer-se como medico no Canadá, ou Nova França, aceitara a proposta, e embarcara com sua mulher, resolvido a enriquecer-se no prosperado trafico dos pellames. Ajuntava que um dos tres navios, carregados de colonos, batido pela tormenta, se esgarrara do rumo, e fôra a pique na costa de S. Domingos, a tempo que duas galeotas de flibusteiros, conhecidos como demonios do mar, na linguagem da peninsula britannica, faziam aguada n'uma bahia d'aquella infamada costa, onde poucos annos antes haviam naufragado tres naus francezas, capitaneadas pelo audacissimo colonisador Robert Cavalier de la Salle. Ajuntava o informador que n'aquelle navio perdido iam fatalmente o medico e sua mulher, com muitas pessoas das mais graudas da colonia, algumas das quaes se presumia que tinham caido nas mãos dos flibusteiros segundo informações de um galeão hespanhol, que das pessoas embarcadas no navio perdido, até áquella hora, não viera noticia a França.

Francisco d'Abreu, lendo a carta, disse á esposa.

—Tinhas adivinhado desgraçadamente! O nosso Braz já não tem pae nem mãe. Agora podemos dispor do futuro d'esta creança. Vê tu que funesto remate houveram aquelles amores do meu pobre Antonio! Já não ha duvidar... Estão mortos! Batam as mãos os gallileos, e folguem de ver que vingaram as ondas o que as lavaredas não poderam! Oh!... que vontade eu tenho de banhar o rosto d'este menino com as minhas lagrimas, e contar-lhe as desgraças de seus paes.

—Não—atalhou Francisca—não lhe digas nada; não digas! Que lucra elle em saber isso?... Vaes semear-lhe no coração odios e paixões que, no futuro, lhe podem ser a sua perdição. Nem se quer lhe digas em tempo algum que seu pae era judeu. Quebremos-lhe, se podermos, este condão funesto!

II
Não era mãe!...

No seguinte anno de 1698, o doutor Abreu, que nunca se descuidava de ter o ouvido fito aos rumores surdos da inquisição, recebeu mui secreto aviso de algum condiscipulo, que devia ser familiar do santo officio, qualidade com que o maior numero de medicos d'aquelle tempo se nobilitava; e tanto assim era, que algum medico, privado d'ella, dava a entender que pertencia mais ou menos á seita maldita; ou, como diziam, tinha uma, duas ou tres partes de judeu. O aviso mandava-o aperceber-se para trabalhos grandes.

Alvoroçado com a pavorosa nova, o doutor quiz logo sair da patria, e refugiar-se em Damasco, onde tinha um tio que exercitara em Portugal a profissão de boticario, no Fundão, até ao anno de 1652, em que fôra queimado o capitão Manuel Fernandes Villa-Real. Chamava-se o fugitivo Pedro Lopes.

Impediram-lhe ao doutor a precipitada fuga alguns parentes e amigos, que podiam bastante com os promotores do santo officio; recommendando-lhe, porém, que visitasse as egrejas com frequencia, e désse bem publicas demonstrações de sua piedade.

Assim o cumpriu o doutor Francisco Luiz, bem que sua mulher mui violentada se prestasse a uma ostentação hypocrita, da qual a credula israelita se penitenciava com muitos jejuns e orações.

Decorridos mezes, fez-se auto da fé, e n'elle saiu condemnado a prisão illimitada um Fernão Vaz Lucena, parente do doutor. A maxima culpa d'este christão novo era o ter-se descaminhado e caido nas mãos dos inquisidores uma carta em verso, que Pedro Lopes, tio de Francisco Luiz d'Abreu, lhe escrevêra de Damasco. Esta carta indirectamente ameaçava a tranquillidade do lente de Coimbra; e, por amor d'ella, se formara a tempestade em que os amigos do lente viam ao longe o raio, o qual urgia conjurar com visitas aos templos e tregeitos bem publicos de piedade.

Que perversa e impia carta seria aquella, em que os inquisidores acharam motivo para condemnarem Fernão Vaz Lucena a carcere perpetuo? N'um velho manuscripto que possuimos, chamado Memorias de Francisco Soares Nogueira, encontramos trasladada a carta, cuja copia não vem descabida ao ponto; e, se mais não vale, tem por si o merito de nos dizer como os boticarios hebreus conciliavam as letras amenas com a manipulação dos ingentes xaropes d'aquelle tempo, posto que nem sempre conciliassem a inspiração com a contagem das syllabas, segundo a arte poetica.

Dizia assim a carta:

Oh Fernando, oh Fernando,
até quando
ha de durar teu descudo,
entre o povo torpe e rudo?
Que serve estar aguardando?
Sabes a banda d'além...
e o que convem.
Quem se agarra, quem se afferra,
deixa o monte, deixa a serra,
e ao valle seguro vem.
Não vês como arde esse matto,
mentecato,
que pouco a industria val?
Antes que chegue ao casal,
levanta cabana e fato!
Não sejas aventureiro,
que o toureiro
sim (?), morre em seu officio.
Mais val ter outro exercicio,
que fundar em ser ligeiro.
Por que não queres ser forro?
Eu morro,
por não haver quem te arranque!
Se pódes vêr de palanque
por que queres andar no corro?
Tambem eu estive lá,
e sei o que ha;
tudo passei, tudo vi.
Não se incerra o mundo ahi;
melhor mundo vae por cá;
o pão é cá mais ensôsso,
e a carne sem chambão;
tambem cá se ganha pão,
e não com tanto sobr'ôsso.

A gente é cá sem reima,
de menos teima;
a terra fructos produz,
e o sol dá cá mais luz,
posto que tanto não queima.
Digo-te verdade mera:
considera;
e, se queres ter descanço,
vem buscar o rio manso,
foge do mar que se altera;
foge do lago e da cova,
cousa nova,
e só n'isto me obedece.
Mova-te o proprio interesse,
quando o grão Deus te não mova;
que os lobos como rodeiam
sempre pream.

Divulgou-se a carta, depois do auto da fé. O doutor Abreu, assim que a viu, afervorou-se na frequencia de egrejas, batia nos peitos estrondosas punhadas, e ingranzava as contas das camaldulas, de modo que os ouvidos dos devotos podessem contar-lhe os quinze mysterios do rozario. Porém, como se a hypocrisia lhe não désse caução bastante segura, o lente de medicina, emquanto escoava os sonoros bogalhos, scismava no modo de fugir, sem dar ansa aos espias.

Apezar das camaldulas e dos protectores, a inquisição cada vez mais desconfiava da sinceridade do doutor; e o doutor, não menos vigilante que ella, cada hora, habilmente negociava a transferencia dos seus haveres ao estrangeiro.

O pequeno Braz era-lhe empêço. Não sabia elle se devia levar comsigo a creança. O perigo e o medo, concentrando-o no cogitar em salvar-se, tornava-o mais egoista em cuidados de si, e menos pensativo do futuro do pequeno. Francisca de Oliveira, por sua parte, queria muito á creança; mas não era bem o querer e amar maternal: faltava-lhe aquelle sentir-se viver, estremecer e morrer nas arterias do filho. Então lhe seria a ella bom de comprehender que sómente é mãe aquella que sentiu as dôres da maternidade.

—Que ha de fazer-se ao pequeno? onde o deixaremos?—perguntava Francisco Luiz á mulher.

—Se o podessemos levar sem difficuldade...

—Não podemos, por que eu já desconfio que nos será negado o passaporte. Temos de fugir; e escapar com uma creança desembaraçadamente ninguem o faz. Bem sabes que nossos avós matavam os filhos que lhes retardavam e denunciavam a fuga.

—Deixa-se em casa dos nossos parentes—tornava ella.

—Isso é sacrificar os nossos parentes; porque o rapaz é considerado meu filho—observou o doutor.

—Tenho uma boa idéa—ajuntou elle—entreguemol-o a Francisco de Moraes, de Villa Flor, que sabe a historia d'esta creança, e lhe ha de servir de pae com os sobejos da sua riqueza. Não ha tempo a perder. Vou escrever-lhe para Lisboa, e pedir-lhe que me espere por estes quinze dias.

Francisco de Moraes Taveira aceitou gratamente o encargo, tanto por lhe ser offerecido pelo doutor Abreu, como por ser o orphãosinho filho do desventurado israelita, que perdêra provavelmente a vida, quando cuidava ganhal-a com honra.

Desde que a resposta chegou, Francisca, olhando a face carinhosa da creança, chorava sempre. Quanto mais o estreitava ao peito, mais o menino lhe sorria, como se com afagos quizesse mitigar as angustias desconhecidas, que via no rosto lagrimoso de sua mãe. Já ella pedia ao marido que não deixasse o menino; vacillava já tambem o doutor; e, muito instado da esposa e do coração, que a si mesmo se reprehendia, deliberou resolver-se em Lisboa, segundo se lhe figurasse facil ou difficil a passagem para outro reino.

Nas ferias d'aquelle anno, o lente simulou uma jornada a Ourem, sua patria, e foi em direitura a Lisboa. O santo officio de Coimbra reparou na saida, e lançou pesquizas. Informaram-no de alguns processos de liquidação de patrimonios e venda de bens, que o doutor Abreu rapidamente negociára na terra de sua mulher. D'isto foi avisado o inquisidor geral, de modo que já em Lisboa o promotor instaurava processo, quando o lente alli chegou.

Avisado pelo medico mais convisinho dos segredos da inquisição, Francisco Luiz deu-se pressa em sair de Lisboa com destino a Inglaterra. Negaram-lhe passaporte. Aterrado d'esta contrariedade, significativa de maiores violencias, mudou de residencia para casa segura, que lhe dispoz o hebreu de Villa Flor.

A vigilancia dos esbirros estava attenta sobre os navios hollandezes principalmente, e pouco menos sobre quaesquer outros de commercio com portos estrangeiros. Francisco de Moraes, avassalando com ouro a piedade do piloto de uma nau portugueza destinada á India, introduziu no navio o doutor e sua mulher, considerados mercadores e proximos parentes do piloto. As arcas de suas preciosidades entraram com os passageiros; tudo que mais e menos caro lhes era foi com elles, exceptuado o pequenino Braz, que dormia á hora em que elles partiram, e nem acordou ao cair-lhe nas faces as lagrimas dos seus bemfeitores.

Ao amanhecer-lhe o dia seguinte, Braz perguntou pela mãe. Ai! se ella o fosse, não perguntaria o desamparadinho por sua mãe.

Respondeu-lhe um moço de vinte annos, que os seus amigos tinham ido fóra de Lisboa, e voltariam passados alguns dias. A creança chorou em silencio, como quem conhecia que o prantear-se seria desagradecer as caricias que lhe fazia o filho de Francisco de Moraes.

Era elle o mancebo que o hebreu de Villa Flor fôra buscar a Amsterdam.

Heitor Dias da Paz distrahia a creança de seis annos com brinquedos proprios da meninice. Parecia que um ao outro se estavam divertindo. Heitor quiz instituir-se mestre do a b c do pequeno; mas as graças infantis do discipulo encantavam-no por maneira, que era coisa de muito rir vêl-os ambos despegarem do alphabeto para se andarem correndo pela casa no jogo dos esconderêlos.

Dentro em pouco, as lembranças dos fugitivos hebreus eram apenas brevissima tristeza de saudade na memoria de Braz.

Heitor, desejoso de ver a terra do seu nascimento, foi para Villa Flor, e levou comsigo o menino. Francisco de Moraes, por mêdo de que, n'alguma hora, a inquisição lhe quizesse galardoar a astucia no escape do sobrinho de Pedro Lopes, accendendo em honra d'elle as santas rezinas da fé, tratou de sumir-se na sua provincia, dando-se por cançado de amontoar riquezas.

Assim se reuniram em felicidade ainda não experimentada, os paes de Heitor, contando como elemento de sua boa sorte a posse do orphão, que, de muito amado que era, não sentia falta dos seus primeiros amparadores.

III
O faro das bestas-feras

Por espaço de quatro annos se gosou Heitor Dias das doces reminiscencias de infancia, sem querer saber de estudos nem do destino. Os paes não o incitavam a empregar seu tempo em letras que lhe abrissem carreira de gloria. Fechada sabiam elles que ella estava aos hebreus, salvo a das sciencias; folgariam de o ver luzir entre os famigerados Zacutos; mas muito mais se compraziam de o ter entre si a recado de toda a suspeita de inimigos e do perigo de se relacionar com imprudentes amigos.

Decorridos, porém, quatro annos, em 1703, Heitor Dias da Paz pediu ao pae que o deixasse ir estudar medicina a Coimbra, porque lhe era já pesada a ociosidade e desvalia de sua vida. Francisco de Moraes, confiado na discrição do moço, concedeu-lhe licença. Heitor pediu que o deixasse levar com elle o seu irmãosinho Braz Luiz, para, desde os dez annos, o ir encaminhando nos estudos conducentes á carreira da medicina. A generosa lembrança foi applaudida pelos velhos, e o pequeno agradeceu-a com lagrimas de alegria.

Do pupilo ou, segundo as presumpções do vulgo de Coimbra, filho do doutor Abreu, já ninguem se lembrava quando, corridos cinco annos, lá voltou. Heitor a ninguem disse de quem fosse aquelle menino. Apresentava-o como orphão pobrinho, cuja educação elle tomára a seu cargo. O pequeno já tambem mal se recordava dos seus bemfeitores, e quando fallava de algum d'elles, chamando-lhes pae ou mãe, o filho de Francisco de Moraes recommendava-lhe que a pessoas estranhas não dissesse nada do pouco de que ainda se lembrava.

Heitor entrou no primeiro anno da faculdade em artes, depois de ter sido examinado em humanidades. N'este exame, em coisas de grammatica, sciencia que então reunia muitas especies hoje distinctas, o hebreu de Villa Flôr, mais descuidada que intencionalmente, defendeu proposições que destoaram asperrimamente nas orelhas orthodoxas dos examinadores. Sem embargo, deram-n'o como apto, reservando mentalmente o espiarem-lhe os actos com a vigilancia propria de quem quer salvar uma alma em risco de perder-se.

Braz Luiz entrou no collegio de S. Paulo a estudar latinidade com precoce e admiravel entendimento. Causou certo assombro nos frades que liam no collegio a ignorancia do moço em doutrina christã, interrogaram-n'o minudenciosamente sobre o viver da familia que o educara. Braz respondia que os seus bemfeitores resavam, e elle tambem resava por um livrinho de orações. Apresentaram-lhe diversos livros de piedade para que d'entre elles escolhesse o da sua resa. O pequeno sentiu um bate no coração, comprehendeu instantaneamente o perigoso d'aquelle interrogatorio, e saíu-se bem do aperto, indicando o cathecismo de fr. Bartholomeu dos Martyres. Poucos dias volvidos, Braz Luiz papagueava toda a doutrina, dando a entender que apenas lhe fôra necessario recordar o que sabia desde a primeira infancia. Esta esperteza não enganou os mestres. Os primeiros fios da teia entraram logo em urdidura; e já as inquietas consciencias dos frades não levavam as noites d'um somno.

No entanto, Heitor levou a cabo, com muita applicação e extremado engenho o seu primeiro anno. Foi a ferias, levou comsigo Braz Luiz, e contou ao pae a inquirição porque passára o menino sobre o cathecismo christão. Francisco de Moraes agourou mal d'este exame, e pediu ao filho que, em vez de voltar a Coimbra, se passasse a Hollanda. Heitor Dias engenhou razões para combater os sustos do pae, e voltou ao segundo anno de medicina, levando Braz ao segundo anno de latim.

Os de S. Paulo repetiram o inquerito com ardilosos rodeios. Braz, já cabalmente instruido, cortava-lhes as voltas com respostas por demasia atiladas; de modo que deu força ás suspeitas, mostrando estar apercebido para destruil-as.

A este tempo sobejamente sabia o conselho da inquisição que os christãos novos de Villa Flôr, se não eram sinceros judeus, tambem não eram sinceros catholicos. Qualquer das coisas, no entender dos theologos, era egual á outra como affrontamento á verdadeira religião.

Heitor Dias da Paz andava espreitado. Seus condiscipulos propriamente o provocavam a questões theologicas, das quaes elle se desembaraçava, dando-se como ignorante de subtilezas e aceitando os dogmas sem discussão. O conceito dos espiões de sua consciencia não melhorava por isso; quando muito, concediam-lhe a boa qualidade de judeu discreto.

Assim correu o segundo anno da sua formatura, sem acontecimento que o precatasse contra alguma violencia.

Voltou Heitor ao terceiro anno, com o coração retalhado de saudades de sua mãe que ficava morta. Levou comsigo para Coimbra o pae que se queria deixar morrer na alcova d'onde lhe levaram o cadaver da esposa. A convivencia do filho deu-lhe alma, e esperança de peito onde inclinar a cabeça na velhice. Não obstante, a saudade levou-o ás portas da morte.

Aquella ida do velho a Coimbra foi desgraça para Heitor. Francisco de Moraes, em risco de vida resistira a receber os sacramentos, porque o seu morrer, sem ritual de religião alguma, queria elle que fosse um como adormecer inclinado ao respaldo da cadeira. Estrondeou o escandalo nas abobadas dos conventos. Heitor, com o rosto coberto de lagrimas, quando sua alma estava a mendigar palavras de consolação, porque via alli o pae moribundo, tinha de explicar ás cataduras severas dos frades e visinhos a turvação de seu pae, e a, por isso, involuntaria privação de sacramentos. Redarguido nas satisfações que dava, replicou talvez com descomedimento, quando já seu pae se tinha passado a Villa Flôr. Da replica, provavelmente, foi lavrada acta no gabinete do procurador fiscal do santo officio. O certo foi que, vinte dias depois, Heitor Duarte da Paz, ao entrar nos geraes da universidade, foi acercado de tres familiares, que o conduziram ao carcere da inquisição.

Bemdita a mão da Providencia, que já tinha fechadas as palpebras da mãe d'aquelle moço!

Braz Luiz, comquanto desde o momento em que o seu protector foi preso ficasse privado de recursos para continuar como pensionario em S. Paulo, não foi despedido. Os frades paulistanos consideravam-no optimo estudante, e alma nova para se deixar fecundar em proveito da santa religião. Além de que o orphão, esquecido do nome de seus paes, senão engeitado d'elles, não tinha culpa minima do hebraismo de quem o protegia. N'este mesmo parecer assentaram os frades dominicanos: honra lhes seja. E, portanto, Braz Luiz conservou-se no collegio a expensas da casa, sem licença do reitor[4], e por largo tempo ignorante do destino de seu bemfeitor, até que, no fim d'aquelle anno de 1704, os mestres lhe disseram que Heitor Dias da Paz se estava purificando de peccados gravissimos, para remedio dos quaes lhe acudira a vigilancia misericordiosa do santo tribunal da inquisição.

Braz chorou muito, e caíu febril na cama. O chorar e o adoecer do moço mereceu compaixão dos mestres, que o consolaram com esperanças seguras de que o seu protector havia de sair limpo e absolto d'entre as mãos dos filhos de S. Domingos.

Recobrou o estudante saude, a tempo que Heitor Dias da Paz era transferido á inquisição de Lisboa, por motivos mais ou menos extraordinarios, que não vingámos averiguar. O que a toda luz evidenciámos é que o hebreu esteve preso desde 10 de janeiro de 1704 até 12 de setembro de 1706.

E como saiu elle do carcere? Absolto? Penitenciado? As feras das cavernas da santa casa esphacellaram-lhe as carnes? Deixaram-lhe ao menos o coração com algum sangue, aquelle coração de vinte e oito annos, para ainda se restaurar de encontro ao seio reparador d'uma esposa, que o anjo dos desamparados lhe houvesse entreluzido nas trevas da sua masmorra de seiscentos dias e seiscentas noites?

IV
Resposta

Abrira-se em ondas de luz o céo da manhã d'aquelle dia 12 de setembro de 1706.

Dobraram os sinos de S. Domingos. Apuzeram-se os folheiros cavallos das reaes cavallariças ás berlindas cosidas em oiro. As variegadas librés dos aulicos e ministros enfileiravam-se processionalmente depóz os coches do filho de D. João IV. Ia grande movimento e alvoroço nos mosteiros. Serpejavam innoveladas as multidões que desciam da cidade alta para o escampado do Rocio. O tanger dos sinos era de morte; mas o dia era de festa, festa da egreja triumphante, festa d'um auto da fé.

D. Pedro II e seus filhos apearam no alpendre do templo de S. Domingos; e em meio de filas de fidalgos, de frades, de desembargadores, caminharam mesuradamente por entre as naves, até se assentarem na sua alterosa tribuna, a tudo sobranceira, salvo á tribuna dos inquisidores, que era a primaz n'aquelle espectaculo satanico da piedade.

Para que tudo fosse egregio, até o prégador no auto da fé de 1706 era um dos mais doutos e famigerados interpretes dos evangelhos, sobre ser um dos mais abalisados escriptores de seu tempo. Nem mais nem menos que o reverendissimo padre mestre, geral da congregação de S. João Evangelista, chronista-mór de sua ordem, qualificador da inquisição, examinador das ordens militares, e, para em breve o dizer, sacerdote de tantas partes que, nem solicitado por D. Pedro II, aceitára o bispado de Macau. Já sabe o leitor curioso que se trata do padre Francisco de Santa Maria, author do Ceu aberto na terra, da Aguia do Empireo, da Saphyra veneziana e Jacintho portuguez, do Anno historico, de muitos volumes de sermões, todos esplendidos, todos laureados, todos christianissimos; mas nenhum tão esplendido, tão laureado, tão christão, como este que sua reverendissima vae hoje prégar no auto da fé, em presença de Suas Magestades e Altezas. Este episodio da festa explica as tumultuosas enchurradas do povo, que confluem da cidade alta á praça do Rocio: aquillo é gente que, a um tempo, fareja com delicias o fartum dos corpos que vão ser queimados, e aponta as orelhas pias para não deixar perder minima palavra da ungida oração de padre Francisco.

A procissão dos condemnados é longa. São mais de cincoenta, homens e mulheres, os que vão padecer ou galés, ou desterro, ou prisão perpetua, ou garrote e fogueira, ou a fogueira em vida. D'estes ultimos ha cinco, tres homens e duas mulheres, relaxados em carne, como rezam as sentenças.

Dois homens e as duas mulheres dão visos de já levarem obliterada a memoria da vida que deixam. Vão amparados nos braços dos officiaes do santo officio agonisando a espaços ancias soluçantes que lhes ressumbram á fronte um suor glacial. Entre elles, porém, caminha firme, direito, altivo, com a sua tocha de cêra verde na mão, e a samarra e a carocha pintalgadas de demonios e fogueiras, um moço de vinte e oito annos, gentil de sua pessoa, sem embargo da lividez cadaverosa de dois annos de carcere. É Heitor Dias da Paz.

O promotor da inquisição subiu á sua tribuna. Ao fim de quatro horas de leitura de cincoenta e tantas sentenças, indigitou o hebreu de Villa-Flôr. Dois esbirros com o alcaide do santo officio ladearam o moço, e conduziram-n'o a ajoelhar-se em frente da mesa sobposta á tribuna.

E o promotor leu o seguinte:

«Accordam os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisição[5] que, vistos estes autos, culpas, confissões e declarações de Heitor dias da Paz, christão novo, estudante de medicina, filho de Francisco Moraes Taveira, mercador, natural de Villa-Flôr, reu preso que presente está, porque se mostra que sendo christão baptisado, e como tal obrigado a ter e crer tudo o que tem, crê, e ensina a santa madre egreja de Roma, elle o fez pelo contrario vivendo apartado da nossa fé catholica, tendo crença na lei de Moisés, e fazendo em observancia da dita lei jejuns judaicos, estando nos dias d'elles sem comer nem beber, senão á noite depois de sair a estrella, ceando então coisas que não eram de carne, e deixando de comer a de porco, lebre, coelho, gordura e peixe sem escama, e guardando os sabbados de trabalho, vestindo n'elles camizas lavadas, e os melhores vestidos, começando a guarda d'elles da sexta feira á tarde.

«Pelas quaes culpas, sendo o reu preso nos carceres do santo officio, e com caridade admoestado as quizesse confessar para descargo de sua consciencia e bom despacho da sua causa, disse que o que tinha que dizer e declarar (sem o ter por culpa, antes por bom e necessario á sua salvação) era crêr firmemente em Adonai, Deus de Abraham, Isac e Jacob, assim e da maneira que o manda a lei de Moisés.

«E vendo-se na mesa do santo officio a cega e obstinada determinação do reu, lhe foi dito que considerasse bem a resolução que tomava em se não querer apartar da crença da lei que seguia, e como ia mal encaminhado em querer persistir na lei de Moisés, por que já n'ella não havia nem podia haver salvação, por ser acabada pela vinda de Christo, Jesus, senhor nosso e verdadeiro. E foi de novo admoestado tornasse sobre si; e, conhecendo seus erros, se apartasse d'elles, e se convertesse á fé catholica que tem, crê e ensina a santa madre egreja de Roma, cujo filho elle era e professára no baptismo, e confessasse inteiramente suas culpas, pois isso era o que lhe convinha para salvação de sua alma, e para se poder usar com elle da misericordia que a santa egreja costuma conceder aos bons e verdadeiros confitentes.

«E por tornar a dizer e affirmar com animo endurecido e obstinado, não só n'aquella sessão, mas em outras muitas que com elle se tiveram, afim de sua reducção, que não se queria apartar da crença da lei de Moisés, que seguia, antes estava prompto para dar a vida por ella:

«Veiu o promotor fiscal do santo officio com libello criminal e accusatorio contra elle, que lhe foi recebido; e se lhe disse que pois perseverava ainda na crença de seus erros com obstinação e contumacia, estivesse com seu procurador e lhe désse conta do estado de sua causa, e lhe pedisse o aconselhasse no que mais lhe convinha, e por elle respondesse ao libello da justiça, para que, guardados os termos de direito, se podesse continuar sua causa.

«Estando com o dito procurador, contestou o libello pela materia de suas declarações, e não quiz usar de defesa, pelo que foi lançado da com que podia vir, e ratificadas as testemunhas da justiça, se lhe fez publicação de seus depoimentos, conforme ao estylo do santo officio, a que não veiu com contraditas, pelo que foi lançado d'ellas. E estando outra vez com seu procurador para lhe formar os interrogatorios que quizesse, para serem reperguntadas as testemunhas que tinha contra si não veiu com ellas, dizendo que era desnecessaria diligencia, pois elle estava declarado e affirmativo profitente da lei de Moisés; e, como a não negava, não havia para que impugnar os depoimentos das testemunhas. E n'este acto escreveu um papel que declarou ser o assento que tomava em sua causa, e começava pelas palavras seguintes:—Perditio tua, Israel, tantu modo in me auxilium tuum, inquit Dominus.

«E logo continuava dizendo que elle reu não só não deixava a crença da lei de Moisés; mas se declarava crente e professor d'ella pelo theor dos termos dos autos, e queria ficar em juizo com a crença da lei de Moisés, na fórma seguinte, declarando: Que cria em um só Deus verdadeiro, e que este era o de Israel, o Deus dos patriarchas e prophetas, que fez o céo e a terra, e fez pacto com Abrahão, e deu lei a Moisés, e poz por primeiro preceito d'ella: Non habebis alios Deos preter me. E, como tal, tinha por damnada crença o christianismo, e por tal a excluia, abjurava e renunciava, e ainda qualquer signal e caracter d'ella. E assim elle reu, sem mais processo, queria ser julgado por apartado da fé e por passado á crença da lei de Moisés, mostrando que a differença que havia entre uma e outra coisa era adorarem os judeus sómente a Deus verdadeiro, e adorarem os catholicos o demonio; dizendo tambem e accrescentando ás ditas declarações algumas subtilezas e subterfugios cavilosos, com os quaes se colhia ser o reu verdadeiro judeu e professor da lei de Moisés.

«E sendo o reu chamado á mesa do santo officio, e n'ella perguntado se o dito papel em que se continham as ditas declarações era por elle escripto e assignado, e, se o que n'elle se continha era o que elle reu entendia e cria, e por elle queria se estivesse em juizo: respondeu que sim, e por aquellas declarações queria ser julgado; e sendo, advertido que fizesse genuflexão, e reverencia á imagem de Jesus Christo crucificado, que se lhe mostrou, e o inquisidor que o processava repetidas vezes lhe apontou, nunca o reu quiz ajoelhar nem olhar para a sagrada imagem, mostrando grande rebeldia e dureza de animo; e sendo de outras vezes mandado jurar pelos Santos Evangelhos nunca o quiz fazer, nem assignou mais papel algum onde visse escriptas as palavras santa inquisição.

«E pelo reu foi dito que não queria mais procurador nem mais interrogatorios; por serem desnecessarias mais diligencias, visto que elle já de si dissera ainda mais do que as testemunhas contra si tinham deposto.

«E continuando-se o processo da sua causa, se procurou em todo o discurso d'ella mostrar ao reu o caminho da sua salvação e engano dos seus erros, persuadindo-o á obrigação que tinha pelo baptismo a ter e crer na fé catholica, captivando o entendimento em obsequio da mesma fé, e dar credito nas materias de consciencia e religião ás pessoas que lhe foram dadas para o encaminharem; porque ainda que elle reu tinha algumas letras, não havia professado as divinas, e como tal não podia explicar as escripturas sagradas, nem entendel-as como entendiam os religiosos letrados com quem havia estado, fiando elle mais do seu proprio entendimento que dos outros, sendo elle n'esta materia ignorante e os ditos religiosos letrados, de quem se havia de haver por convencido, pois não tinha fundamento algum para permanecer na crença da lei de Moisés, que seguia, e por tornar a dizer que se reportava ás protestações de sua crença contheudas nos papeis que havia escripto.[6]

«E lhe foi dito que ainda estava em tempo de melhorar sua causa, se sem embargo da obstinação de que até alli tinha usado, desistisse d'ella, e, arrependido de seus erros, os confessasse com taes mostras e signaes de arrependimento que se podesse entender que elle reu, de puro e verdadeiro coração, se reduzia á nossa santa fé catholica, de que tão cega e obstinadamente vivia apartado, para se poder usar com elle da misericordia que a santa madre egreja costuma conceder aos bons e verdadeiros confitentes; que de contrario se seguia infallivelmente o risco de ver sua pessoa no mais perigoso e miseravel estado que se podia imaginar, e o que mais era para sentir, a certeza de condemnar sua alma ás irremissiveis e eternas penas do inferno.

«E pelo reu foi dito que das sessões, que lhe foram feitas na inquisição e dos conselhos que lhe deram as pessoas que por ordem da mesma inquisição haviam estado com elle reu, afim de o reduzirem á crença dos christãos, tinha entendido o perigoso estado de sua causa, e o risco a que estava exposta sua vida; porém que, sem embargo da perda d'esta, não podia largar a crença que seguia, emquanto lhe não propunham razões mais concludentes para se persuadir e apartar-se da lei de Moisés.

«E visto como o reu se não quiz haver por convencido de seus erros, havendo-se dado solução verdadeira ás duvidas que propunha, sendo por tão repetidas vezes admoestado na mesa do santo officio com summa caridade, paciencia e brandura; e, sendo visto seu processo na mesa do santo officio, se assentou que o reu pela prova da justiça e sua mesma confissão e declaração estava convencido no crime de heresia e apostasia, e como herege apostata de nossa santa fé catholica convicto, confesso affirmativo e profitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente foi julgado e pronunciado, e finalmente citado para ouvir sua sentença, pela qual estava relaxado á justiça secular. O que tudo visto e bem examinado:

«Christi Jesu nomine invocato. Julgam, pronunciam e declaram o reu Heitor Dias da Paz por convicto, confesso variante, e affirmativo profitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente, e que incorreu em sentença de excommunhão maior, em confiscação dos seus bens para o fisco e camara real, e nas mais penas em direito contra similhantes estabelecidas, e como herege apostata de nossa santa fé catholica, convicto, confesso affirmativo, publico profitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente o condemnam e relaxam á justiça secular, a quem pedem com muita instancia se haja com elle benigna e piedosamente, e não proceda a pena de morte e effusão de sangue.»


Heitor Dias da Paz, lida aquella ultima clausula da sentença, fitou penetrantemente o semblante do promotor e riu-se. Os esbirros mandaram-no levantar-se, e beijar um dos doze missaes que decoravam a ampla mesa sotoposta ao estandarte de S. Domingos. O hebreu levantou a fronte com arrogante desprezo, e disse em voz que se fez ouvir na tribuna real:

—Não quero!

Fez-se um borborinho de piedosa ira na egreja. Esta agitação foi de subito applacada pelo apparecimento de fr. Francisco de Santa Maria no pulpito.

Reinava já sagrado silencio, quando o geral dos loyos, e venerado author do Anno historico, trovejou estas palavras do texto: De malo ad malum eggressi sant, et me non cognoverunt, dicit Dominus[7].

V
A piedosa eloquencia do frade

O leitor, que veio tarde a este mundo para poder gosar o espectaculo de um auto da fé, póde ser que não faça cabal juizo da peça chamada o discurso da festa, e entenda que vem aqui opportuno o ensejo de se lhe dar alguma noticia do sermão de 1706, por ser elle do ascetico e sapientissimo auctor da Aguia do Empyreo. Póde ser que ainda a muitos curiosos d'estas christãs leituras o sermão de fr. Francisco de Santa Maria seja desconhecido, por que é já rarissimo. A meu vêr, a maior parte da edição arrebataram-n'a da terra os anjos, como coisa do céo! Dos exemplares que escaparam tenho eu um, que é a minha vaidade de bibliomano e a minha edificação de devoto.

O prégador, no exordio, propõe-se demonstrar tres pontos: primeiro, que o Messias veio; segundo, que o Messias é homem e juntamente Deus; terceiro, que o Messias, homem e Deus, é Jesus de Nazareth, crucificado por aquelles, ou pelos antepassados dos judeus que estão presentes. Depois do que, implora a intercessão da sacratissima Virgem, e começa.

Eis-aqui um lanço que nos move a favor do geral da congregação dos Evangelistas:

«Comvosco fallo, ó infelizes filhos de Israel, e tomo para testemunha a Deus todo poderoso, que não é o meu intento insultar-vos, ou affrontar-vos em coisa alguma, nem tenho ou levo outro fim n'esta acção, mais que a maior gloria de Deus, a defensa da verdade, o triumpho da fé, o remedio da vossa cegueira, a salvação da vossa alma; e, se acaso com a força do dizer, proferir alguma palavra que vos offenda, desde aqui vos peço perdão d'ella pelas entranhas da misericordia do verdadeiro e altissimo Deus.»

Heitor Dias da Paz levantou de sobre as pinturas diabolicas do san-benito os olhos serenos ao rosto do padre Francisco de Santa Maria. Esteve-se quêdo alguns segundos n'aquella contemplação, e sorriu-se, a tempo que o orador, compungido em fervores de caridade, balbuciava aquellas expressões, que o leitor pio leu commovido.

Varias pessoas honestas, que viram o sorriso do hebreu, disseram umas ás outras:

—Veremos á tardinha se o marrano se ri na fogueira...

O orador, no emtanto, ia proseguindo na demonstração dos seus tres pontos, que foi completissima, sem deixar brecha á mais especiosa contestação.

Heitor, a cada conclusão triumphante do padre, sorria; e, por pouco não desfechava uma casquinada provavelmente sandia, quando o orador, repulsando a pecha de idolatras com que os hebreus malsinam os catholicos, argumentou d'esta sorte: «E como é possivel que, sendo nós idolatras ha tantos seculos, e sendo vós ha tantos seculos cultores do verdadeiro Deus; sobre vós ha tantos seculos que chovam os castigos, e sobre nós os favores? Sobre vós os castigos! Bem o vêdes, pois vos vêdes ha tantos seculos sem patria, sem honra, sem rei, sem patriarchas, sem prophetas, sem capitães, sem juizes, sem sacerdotes, sem templo, sem altar, sem sacrificio, sem liberdade. Nós os christãos tudo isto temos. Pois que? favorece Deus tanto aos idolatras, e castiga tão rigorosamente aos fieis?»

O impulso de riso do judeu, a meu vêr, procedeu da respeitavel ignorancia do padre quanto ás regalias de que os sectarios de Mafoma se estavam saboreando em porção do mundo sublunar muito mais larga e comprida que a porção alumiada pelo christianismo. Quereria, talvez, o israelita, sem embargo de se lhe estarem alcatroando as achas da fogueira, perguntar ao loyo se os mahometanos, apezar da bruteza e crassa estupidez de sua fé, eram menos felizes terrealmente fallando que os nazarenos. Ora, como o goso de questionar lhe seria amordaçado, se elle abrisse a bocca indignada, o judeu desafogou-se n'aquelle rir parvamente heretico. O caso, porém, não fez levemente titubar o impassivel prégador.

Ia discorrendo o padre Francisco pelas provas dos milagres; e veio ao ponto de asseverar que Deus não obrara milagre algum em confirmação da lei de Moysés. D'isto a prova mais insinuante que o douto prégador desfechou dos labios inspirados está no seguinte argumento:

«Todos, ou quasi todos os annos vão muitos de vós ao patibulo, e sendo diante dos nossos olhos pasto á voracidade do fogo, nunca se viu em algum de vós algum prodigio. Que é isto? Assim deixa Deus a verdade escurecida e humilhada?... Agora já o fogo vos não tem respeito? Já a chamma lavra em vós como em madeira secca?»

Heitor Dias não sorriu então: caiu-lhe mortalmente angustiado o rosto para sobre o peito. As palavras do sacerdote de Christo levaram-lhe ás carnes o calefrio horrendo das dôres que o aguardavam para o fim d'aquelle dia: como que sentiu as linguas de fogo a tocarem-lhe o peito, e a suffocação da fumarada da fogueira.

Demonstrados os tres pontos da oração com quanta lucidez se esperava de tão conspicuo sujeito, o author do Céo aberto na terra apostrophou primeiro os confessos, depois os relapsos, e por derradeiro o unico profitente que era Heitor.

Aos confessos dava os emboras, e pedia-lhes pelas entranhas de Nosso Senhor que perseverassem.

Aos relapsos disse: «É verdade que já não podeis livrar a vida temporal; mas é certo que podeis assegurar a eterna... Morrer é natural: morrer affrontosa e violentamente é desgraça; mas sobre tudo isto, salvar a alma, é a maior ventura. Oh, que felizes sois, digo outra vez, se sabeis emendar com os acertos da morte os desconcertos da vida, e se vos dispondes com verdadeira fé e verdadeira contrição para a ultima hora!»

Que bom homem aquelle! O garrote e a fogueira eram indispensaveis á caridade e misericordia do Senhor; mas que montava isso? Morrer é natureza; morrer em colchão flacido ou em cama de brazas vivas é uma e a mesma coisa: é natureza; mas o importante alli para o caso já não era o ir-se um homem de este mundo ao outro por effeito d'um feroz homicidio: a questão era segurar a vida eternal, e essa estava arranjada, logo que os relapsos, á ultima hora, se entendessem com Deus uno e trino.

Em seguida, padre Francisco de Santa Maria poz os olhos sobre o confitente Heitor Dias da Paz, e exclamou, tanto ou quanto commovido:

«E vós, que n'este tremendo cadafalso sois o réo do maior delicto, olhae que em vós n'esse infeliz estado se verifica com propriedade lastimosa o que dizem as palavras do meu thema: De malo ad malum egressi sunt. Saireis de seres condemnado no juizo dos homens, e entrareis a ser condemnado no juizo de Deus. Saireis da morte temporal e entrareis na eterna. Saireis de um fogo que brevemente acaba, e entrareis em outro fogo, que para sempre dura. Oh filho da minha alma, é possivel que assim vos deixeis guiar só da vossa imaginação, e vos ateis tão fortemente á vossa teima em um negocio da tanta importancia? Tão pouco vae em salvar ou condemnar para sempre? Quero crer de vós que em qualquer negocio d'esta vida não havieis de obrar sem conselho, sem reflexão, sem madureza; e em um negocio, em que vae a vida eterna, assim vos resolveis, assim vos precipitaes? Nos pontos da medicina (que estudaveis) é sem duvida que havieis de estar pelo que vos diziam vossos mestres. Pois, se nos pontos de medicina, vos guiaveis pelo que vos diziam os doutores medicos, nos pontos da fé porque vos não guiaes pelos doutores theologos, que tantas vezes e com tanto zelo e espirito se empenharam em vos reduzir ao caminho da verdade?

«Dizei-me de que mestres aprendestes essa lei que seguis já tão antiquada e esquecida no mundo? Sem duvida de dois homens ignorantes, que talvez nunca abriram a escriptura, e talvez não saibam a lingua latina, e muito menos a hebrea. Não o tomeis por injuria—ajuntou o orador, certamente improvisando, como visse um gesto de repugnancia desdenhosa e despeitosa no aspecto do confitente—não o tomeis por injuria...; porque, fundado nas vossas mesmas escripturas, affirmo que na vossa nação falta ha muitos seculos, por justo castigo de Deus, o dom da sabedoria, e dominam as trevas da ignorancia.»[8]

Estende-se diffusamente o padre, cathequisando o judeu, com a mira posta em resgatar-lhe a alma, que o corpo esse já não ha eloquencia nem perdão divino ou humano que possa salval-o do fogo. Finalmente, remata a apostrophe n'estas branduras:

«Ora filho do meu coração, convertere, convertere ad Dominum Deum tuum.

Convertei-vos para o vosso Deus, convertei-vos para o vosso Senhor, que, abertos os braços, e com o coração aberto, vos espera para vos metter n'elle como amigo, se do coração vos converteis a elle. Dae este gosto ao céo, dae este gosto á terra, dae este gosto aos coros angelicos e dae este gosto aos espiritos bem aventurados, dae este gosto a todo este numerosissimo e luzidissimo auditorio, que todo deseja com muitas veras a vossa vida e a vossa salvação. Na vossa mão tendes a vida e a morte, a salvação e a condemnação: vêde o que escolheis. E, se todavia persistis na vossa teima, e na vossa contumacia, da parte de Deus vos digo, que dentro em breve tempo apparecereis diante do mesmo Deus em juizo, do qual, sem desculpa do vosso erro, saireis condemnado para o fogo eterno.»

E com pouco mais terminou o monumental discurso, de que ficou muitissimo agradado o senhor rei D. Pedro II, e seus filhos; e bem assim o eminentissimo senhor cardeal D. Miguel Angelo Conti, arcebispo de Garzo, e nuncio apostolico n'estes reinos, ao qual o padre Francisco dedicou o seu sermão impresso.

D. Pedro II não mais saboreou outro sermão identico; porque, tres mezes e sete dias depois d'aquella explendida ovação da santa egreja, morreu.

O padre Francisco de Santa Maria, comquanto só passados sete annos fosse coroar-se ao capitolio dos anjos, como piamente crêmos que foi, tambem não voltou a regalar o publico nos autos da fé.


Cheguemo-nos ao assumpto. Os relaxados á justiça secular foram conduzidos a uma das salas da santa casa, em que estava junta a relação para os sentenciar.

A sentença de Heitor Dias da Paz, e dos outros já estava lavrada, embora fingissem lavral-a depois de um banal interrogatorio. Com ella na mão, perguntou o presidente ao judeu, ajoelhado:[9]

—Sois o relaxado Heitor Dias da Paz?

—Sou.

—D'onde sois?

—De Villa Flor.

—Credes—tornou o presidente—na Santissima Trindade, Padre, Filho, Espirito Santo, tres pessoas e um só Deus verdadeiro?

—Não creio.

E levantou-se sem que o presidente lh'o ordenasse.

O escrivão, que estivera autoando a sentença, ergueu-se e disse ao condemnado:

—Ajoelhe para ouvir ler a sentença.

—Ouvil-a-hei em pé—respondeu Heitor.

—Leia—disse o presidente ao escrivão.

O escrivão leu o seguinte:

«Acordam em relação, etc. Vista a sentença junta dos inquisidores, ordinario, e deputados da inquisição, e como por ella se mostra o réo preso, Heitor Dias da Paz ser hereje apostata da nossa santa fé catholica convencido no crime de judaismo, e por tal relaxado á justiça secular, e sendo perguntado n'este senado persistir no seu erro, e declarar que não cria em nossa santa fé catholica, senão na lei de Moisés; o que assim visto, e disposição de direito em tal caso, condemnam ao reu que com baraço e pregão pelas ruas publicas e costumadas seja levado á ribeira d'esta cidade, e ahi seja levantado em um poste alto, e queimado vivo, e feito por fogo em pó, de maneira que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memoria; e o condemnam outrosim em perdimento dos seus bens para o fisco e camara real, posto que ascendentes ou descendentes tenha, os quaes declaram por incapazes, inhabeis, e infames na fórma de direito e ordenação. E pague as custas d'estes autos. Lisboa, 12 de setembro de 1706.»

A procissão dos condemnados saiu do pateo da santa casa, caminho da Ribeira. As duas judias relaxadas em carne, dizia-se que já iam mortas. Os dois hebreus, que tinham assistido ás leituras de suas sentenças em anciados gritos, iam desacordados nos braços dos quadrilheiros do santo officio. Heitor caminhava sem amparo, placidamente, olhando a um lado e ao outro as damas que exornavam as janellas do transito.

Ao embocar o prestito á rua da Padaria, um ancião mal coberto de andrajos, com tregeitos de louco enfurecido, rompeu a mó compacta do povo, e os soldados que ladeavam os condemnados.

Heitor Dias reparou n'aquelle velho que os arcabuzeiros afastavam a repellões. Fitou-o com horrivel estremecimento; ia a proferir uma palavra, e suffocou-a. Debalde. O grito do coração já tinha ecoado no seio do ancião, que exclamou:

—Adeus, meu filho! Adeus, meu filho, eu vou antes de ti avisar tua mãe que por instantes estarás comnosco no seio de Abrahão!

E, ao proferir a ultima palavra, sorveu de um vidro um trago de peçonha, ao qual se seguiram medonhas convulsões.

—Abençoada seja a sua coragem, meu pae!—exclamou Heitor—Até logo, até á eternidade!

As agonias do velho terminaram dentro em quinze minutos. As do filho principiavam pouco depois, e não foram mais longas. Antes de sentir o queimar das lavaredas nas entranhas, expirára afogado no fumo.

E o sol d'aquelle dia era ainda formoso ao intardecer. As auras do mar bafejavam tepidas. El-rei passeava nas barandas do paço da Ribeira, aspirando o aroma dos laranjaes; e os frades de S. Domingos resavam vesperas.

VI
Braz Luiz

N'este tempo, Braz Luiz, o collegial de S. Paulo, ia nos quatorze annos.

A noticia da desastrosa morte dos seus bemfeitores, revelada pelos condiscipulos, pungiu-o, tirou-lhe d'alma sinceras lagrimas; porém, n'aquellas edades a sensibilidade é para pouco; as saudades das pessoas queridas que morreram não se prendem á previsão angustiosa das desgraças porvindouras. O filho de Antonio de Sá Mourão estava de todo esquecido do doutor Abreu, e não longe de esquecer-se de Heitor Dias da Paz.

Os mestres do collegio, cuja dilecção pelo engenho do moço se manifestava no affago com que o divertiam de pensar no hebreu queimado e no outro que se dera a si desesperada morte, receosos de que o santo officio fosse ainda contender com o estudante por suppor que elle fosse irmão de Heitor, zelosamente informaram os inquisidores dos piedosos sentimentos de Braz Luiz, e da docilidade e devoção com que elle se entregava aos exercicios espirituaes. O santo officio, inteirado d'isto, deixou em paz e por conta da religiosidade dos paulistas o menino.

Como elle se alimentava e educava a expensas do collegio, o parecer dos mestres era encaminhal-o para frade paulistano. Este intento, quando o moço tinha quinze annos, foi contraditado pela companhia de Jesus, que enviára delegados a recensear nas universidades e collegios de Evora e Coimbra estudantes esperançosos, garfos de boa seiva, que se fossem enxertando nos troncos envelhecidos, para que alguma hora não soffresse quebra o predominio intellectual dos filhos de Santo Ignacio.

Os paulistanos offenderam-se do sequestro que os jesuitas arbitrariamente fizeram nos seus mais grados alumnos; e, por vindicta, entraram a despersuadir o moço de aceitar a roupeta. Facilmente o moveram á repugnancia da vida sacerdotal, e assim se privaram tambem de o conquistarem para si. A companhia de Jesus cathequisava, mas não violentava. Tamsómente as vocações liberrimas e muito espontaneas lhe serviam. Logo pois que Braz Luiz manifestou indisposição para a vida sacerdotal, abriram mão d'elle os jesuitas, offerecendo-lhe, se necessarios fossem, recursos com que podesse seguir a carreira para onde pendessem os seus talentos. Quer generosidade, quer astucia com que os padres ardilosamente grangeavam a estima quasi universal, o certo é que Braz Luiz teria a protecção d'elles, se não tivesse a dos paulistas.

Deram-lhe a opção de modo de vida. Braz escolheu a medicina.

Aos quinze annos matriculou-se no primeiro do curso depois de ter estudado artes, e logo deu de si tão lisongeira conta, que se estremou entre os condiscipulos, ganhando as distincções das escolas, a estima dos mestres, e especialmente de D. Manuel dos Reis e Sousa, a quem o discipulo dos seus futuros escriptos se mostrará agradecido.

Ao correr do terceiro anno, a indole do academico passou por inesperada revolução. Sem faltar ás obrigações escolares, deu-se á tunantaria dos estudantes malcomportados. Fez-se arruador nocturno, bulhento, femieiro e pimpão. Os paulistas ameaçaram-no de o deixarem entregue aos seus desatinos. Braz Luiz respondia ás ameaças dando optimas lições nas aulas, e ganhando os louvores dos lentes, sem desistir de tomar o primeiro posto nas algazarras e assuadas nocturnas.

Em uma d'essas escaramuças á cidade baixa, travou-se uma refesta ensanguentada entre a gente miuda de Coimbra e os estudantes. Braz, depois de muitas proezas, caíu ferido de uma choupada, que lhe vasou o olho direito. Alguns condiscipulos levaram-no em braços para sua casa, e lhe assistiram affectuosamente á cura. Salvaram-no da morte: mas não poderam salvar-lhe o olho.

Depois de dois mezes de cama, o estudante recebeu a má nova de ter perdido o amparo dos frades. Accudiram logo os condiscipulos fintando-se para supprirem a esmola do collegio, Braz proseguiu na formatura, e não mais foi visto nas sortidas bellicosas, como quem já não tinha mais que um olho para sacrificar. Os paulistanos, contentes da reforma do seu protegido, voltaram a soccorrel-o; porém, o pundonoroso academico, reunindo os seus condiscipulos favorecedores, expoz a reluctancia com que aceitaria a esmola dos frades, e a satisfação com que continuaria a recebel-a de estudantes. Applaudiram-lhe o brio, e animaram-no a regeitar o pão vilipendioso dos paulistas.

Em 1714, tomou Braz Luiz d'Abreu gráo de licenciado em medicina. A razão que elle teve para assignar-se Abreu funda n'uma casualidade de que resultou enganar-se Barbosa na sua Bibliotheca Lusitana, dando Braz Luiz como filho de Francisco Luiz d'Abreu e Francisca Rodrigues d'Oliveira. Foi o caso, que folheando elle o abcedario por onde começára a soletrar, muito na primeira puericia, em companhia do seu primeiro protector, encontrou o seu nome assim posto no alto da primeira pagina do alphabeto: Braz Luiz de Abreu. Assim o escrevêra a esposa do doutor, n'uma d'aquellas horas de ternura, em que ella encarava no menino como em filho propriamente seu.

Ahi está onde ao medico se deparou um apellido, que elle não sabia d'onde lhe havia de vir, por mais que discorresse sobre o modo de rastrear seu nascimento. N'este investigavel mysterio o que a si mais provavel se figurava era que seu pae devia de ser um homem apellidado Abreu; mas como esquadrinhar-lhe a naturalidade, as aventuras da vida ou da morte? Em Coimbra não havia para que indagal-o; porque elle não tinha sequer vaga lembrança de ter estado em Coimbra nos primeiros annos. Todas as suas lembranças esboçavam-se dos sete annos para áquem. Terra que não fosse Coimbra só escassamente se recordava de Villa Flor; e imagens de pessoas, duas sómente lhe viviam meio delidas na lembrança: eram Francisco de Moraes e Heitor Dias da Paz.

Um condiscipulo de Mirandella encarregou-se de averiguar-lhe algumas noticias de seu nascimento em Villa Flor. As tradições encontradas alli eram que uma creança apparecêra em casa do hebreu Moraes, ao tempo que seu filho voltou da Hollanda. Parentes ainda vivos d'aquelles israelitas não sabiam dizer nada a tal respeito. O que o condiscipulo informador accrescentou foi que dos muitos haveres do hebreu suicidado não havia palmo de terra que a inquisição não confiscasse.

Habilitado para exercitar a medicina, comquanto lhe sobrassem creditos de grande estudante, faltavam-lhe doentes. Á mingua de recursos, pensou em estabelecer-se n'alguma terra desprovida de medicos. Um seu contemporaneo da faculdade juridica convidou-o para Vizeu, onde o encontrámos curando com muita voga e felicidade em 1715 até 1718[10].

No fim d'este anno, como a sua fama o atraia e a cobiça o impulsava para terras de mais gloria e lucros, passou a residir em Lisboa. Aqui e n'este mesmo anno começou elle a olhar tristemente para a deformidade que lhe deixára no rosto a choupada, e achou-se não só feio, se não repugnante a olhos de damas, que se engulhavam de lhe verem a orbita direita vasia e coberta pela palpebra amortecida.

Cogitou o medico em arranjar um olho artificial, com que encher a orbita nauseenta e dar contractibilidade apparente á palpebra. Investigou a sciencia e encontrou que os gregos e egypcios fabricavam olhos artificiaes, formando-os de uma casquinha metalica, pintada ou esmaltada, similhante a uma metade de ovo pequeno, dividido longitudinalmente. Este primitivo e pouco engenhoso olho não agradava ao nosso joven medico. Indagou no estrangeiro, e de Hollanda o informaram que estava em Amsterdam um hebreu inventor d'olhos artificiaes de esmalte, com a qual materia substituira vantajosamente os metalicos. Entendeu-se Braz Luiz de Abreu com o inventor hollandez, e ajustou na orbita um olho, menos mal imitado, mediante o qual a palpebra voltou á sua elasticidade.

Este olho de esmalte era immovel: bastava encarar na cara do medico para logo se conhecer que a orbita direita estava envidraçada. D'ahi seguiu-se chamarem-lhe o doutor Olho de Vidro, alcunha que lhe ficou até á morte, e longos annos depois serviu de celebrar-lhe a memoria, a magnitude dos talentos medicos e os seus não menores infortunios.

Como quer que fosse, a physionomia do doutor Braz Luiz, não obstante a pouca illusão que embahia o falso olho, melhorou bastantemente.

O restante do carão, como diziam os coevos d'elle, era senão gentil, mui symetricamente ageitado. Vestia com apontado primor, e cuidava com esmero das melenas negras e lustrosas, que não polvilhava. A razão d'este proceder, tão inverso dos costumes do seu tempo, é elle quem propriamente a escreve d'este modo: «... Emquanto aos polvilhos, tão longe estão de parecerem ornato na cabeça do medico, que antes são presagios lethaes da vida do doente. Porque se a egreja com pós na cabeça nos adverte da morte que vem, como o medico com pós no cabello nos ha de recuperar a vida que se vae? Eu, quanto a mim, antes creio que, os pós são significativos da morte, emquanto a egreja nol-o diz, do que hierogliphicos de saude respeitando ao medico que os traz. Os verdadeiros ministros d'Apollo só usam de polvilhos cephalicos na região animal; de polvilhos cordeaes na região vital; e de polvilhos estomachicos na região natural. Isto é uso modesto; o mais, estava para dizer que era abuso ridiculo.»[11]

Não curemos de ponderar a justiça das razões que o doutor allega contra os polvilhos. Imaginando que os collegas de Braz Luiz se riram muito d'ellas, faço justiça aos contemporaneos do auctor do Portugal medico.