ROMANCES NACIONAES
ROMANCES NACIONAES
O REGICIDA
ROMANCE HISTORICO
POR
CAMILLO CASTELLO BRANCO
LISBOA
LIVRARIA EDITORA DE MATTOS MOREIRA E COMP.ª
68—Praça de D. Pedro—68
1874
A propriedade d'este livro, pertence a Henrique de Araujo Godinho Tavares, subdito brazileiro.
A
FRANCISCO MARTINS DE GOUVÊA MORAES SARMENTO
OFFERECE
o seu amigo mais devedor e agradecido
Camillo Castello Branco.
ADVERTENCIA
A urdidura d'este romance, que afoitamente denominamos historico, deu-no'l-a um manuscripto, que pertenceu á livraria do secretario de estado Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas.
O collector d'estes apontamentos, que a historia impressa, respeitando as conveniencias, omittiu, foi contemporaneo dos successos que archivou, pois escrevia em 1648.
De lavra nossa, n'este romance, ha apenas os episodios, que me sahiram ajustados e congruentes com os traços essenciaes da narrativa.
O REGICIDA
I
Antonio Leite, casado com Maria Pereira, e morador na villa de Guimarães, em 1634, era o cuteleiro de maior voga em Portugal.
N'aquelle anno, tinham um filho, de nome Domingos, com dezesete annos de edade.
Quizera o pai ensinar-lhe a arte, que lhe dera fama e dinheiro. A mãe desejava que o rapaz fosse frade, consoante á vontade de seu irmão fr. Gaspar de Sancta Thereza, leitor apostolico de moral no convento de S. Francisco de Lisboa.
Ora o rapaz não queria ser frade nem cuteleiro: aspirava ardentemente um officio mais prestadio ao genero humano infermiço: queria ser boticario.
Era esperto o moço, não só porque appetecia ser boticario; mas porque realmente era agudo de intendimento, ladino, sedento de saber tudo e propenso a correr mundo, tendencia, na verdade, incompativel com a quietação da almejada botica.
Aos quinze annos, Domingos sabia latim, cursava philosophia de Aristoteles com um insigne mestre da ordem franciscana, e lia os cartapacios pharmaceuticos do frade boticario do mesmo convento.
Participou Maria a seu irmão fr. Gaspar a inclinação do filho. Respondeu o prudentissimo tio que lhe não torcessem a vocação, por quanto em todos os misteres podia um bom christão servir o proximo e ganhar o ceo. E, em prova do seu applauso, mandou ir o sobrinho para Lisboa, afim de lhe arranjar mestre que o exercitasse e approvasse.
Foi Domingos Leite para a capital, e entrou como praticante na botica do Hospital Real, sob direcção de Estevão de Lima, o primeiro mestre de pharmacia entre os quarenta e trez boticarios de Lisboa.
Ao cabo do primeiro anno, o professor não tinha que lhe ensinar. Domingos intendia e aviava as receitas com rara destreza. A estatistica mortuaria, se não tinha diminuido, tambem não tinha augmentado. Todavia, o habil praticante mostrava-se descontente d'aquelle genero de vida, e de si comsigo resolvera encarreirar-se para outro destino mais adquado a umas vaidades do mundo que lhe estonteavam a cabeça de mistura com o cheiro nauseativo das drogas moídas no gral.
Frequentava a famosa botica Luiz das Povoas, provedor da alfandega, que se comprazia de conversar com Domingos Leite em coisas de lettras, mormente poetas latinos. O rapaz revelou ao provedor o seu desgosto da botica, e rogou-lhe que o empregasse na alfandega. Vê-se que já em 1636 os bons talentos portuguezes, as aguias do genio, pairavam sobre as prêas alfandegueiras, como hoje em dia succede com tanto litterato que prefere á gloria de rimar ao ar livre a athmosphera aziumada dos armazens, e o fartum engulhoso da matullagem.
De feito, Luiz das Povoas accedeu á petição de Domingos Leite, nomeando-o escrivão das «Fructas» com 40:000 reis annuaes de ordenado.
Volvido um anno, o escrivão das fructas confessou ao provedor que a sua vocação definida não era bem a alfandega; que semelhante vida lhe desagradava por monotona; que o seu espirito precisava de repasto mais poetico; em fim, que se sentia alli embrutecer com trabalhos em que a intelligencia andava grávida de cifras e cifrões, coisas indigestas para quem scismava em trechos de Virgilio ou estancias de Camões, quando a penna alinhavava a um tendeiro da rua de Quebra-Costas a conta dos direitos da alfarroba ou do cacáo.
—Que queres tu ser então, Domingos Leite?—perguntou-lhe o bom amigo.
—Estou gostando arrebatadamente da muzica, desde que vossa mercê me levou ás festas da capella real. Se eu podesse arranjar o emprego de môço da capella...
—Achas isso bom? Poucas ambições tens, rapaz!
—O que mais me encanta é o viver com os meus poetas, e ter alli á mão as delicias da musica. O ordenado é pequeno; mas setenta cruzados chegam e sobram. Lá ao diante, se eu grangear cabedal de saber para dar a lume algumas ideias que me cá refervem nos miólos, então darei gloria ao meu nome. Quanto a bens de fortuna, lá está meu pai na officina a ganhar-me o patrimonio. Sou filho unico, e com pouco heide ir onde vão os grandes.
—Olha tu que os grandes não começaram por môços da capella real...
—Bem sei; mas eu, quando desprender as azas, voarei do zimborio da capella, e irei poisar nas grimpas dos palacios.
—Vê lá se te aguentas no vôo, meu Icaro!—redarguiu o provedor—Cuidado comtigo que não tenhas de voltar á botica a manipular aquella herva bicha e o pastel de carne de gato com que me curaste das almorreimas...
—Não tenha medo, sr. Luiz das Povoas. Os homens da minha tempera tem fados esquisitos! Eu, ás vezes, sinto uns deslumbramentos que me cegam! Se eu não fosse filho de meu pai cuteleiro, e pudesse desconfiar da honestidade de minha mãe, havia de crer que o meu sangue girou já nas veias dos duques de Guimarães!
—Serás tu filho do real Encoberto D. Sebastião que se espera? Toma tento, Domingos, que não te fermente no miôlo a parvoice do rei da Ericeira ou do rei de Penamacor, ou do pasteleiro do Escurial...—volveu casquinando o provedor da alfandega—Vê lá se contendes com o sr. D. João, duque de Bragança, a ver qual dos dois é o Encoberto das profecias do Preto ou do Caldeirão, astrologo de Cascaes!... Emfim, rapaz dos meus peccados, eu fallarei ao sr. Miguel de Vasconcellos, e tu serás nomeado môço da capella real com setenta cruzados; e, depois, quando te sentires com voadoiros de servir, ála-te do zimborio da capella; mas guarda-te de avoares com azas de páo dadas por algum cioso dos que seguem as damas da princeza Margarida a ouvir as antigas cançonetas do Guerreiro, os motetes do duque de Bragança, e os tonadilhos de Diogo de Alvarado. ([Nota 1.ª]) Ora queira Deus!... És bem apessoado; tens-me uns requebros de poeta galan; lês muito pelo livro das Saudades de Bernardim Ribeiro, que os moços do monte de el-rei D. Manuel mataram a tiro na Rua Nova. ([Nota 2.ª]) Não vás tu pensar que o amor dá azas, e que o tracto com as Camenas te habilita a ser ruysenhor do paço!...
—A boa fortuna—replicou enfaticamente o moço—hade dar-m'a o engenho e a arte...
—Se a tanto me ajudar, disse o Camões, e a nada o ajudou, nem sequer a envisgar de raiz o coração d'aquella dama da rainha D. Catharina!.. Chamavam-lhe a Bocca-negra da alcunha da mãe; mas meu pai, que a viu no mesmo dia em que o poeta a encontrou na egreja das Chagas, n'uma sexta feira da Paixão, em 20 de abril de 1542, disse-me que a menina era tão esbelta como trêda. Que farte a cantou o poeta com diversos nomes; até que ella, norteando o coração a mais substanciosos amores, tractou cazamento com outro e finou-se antes de realisar o intento. Á conta d'esta ingrata quatro vezes foi desterrado o nosso Homero. Primeiro, de Coimbra, onde estava a corte, para Lisboa. Veio a corte para Lisboa, desterraram-no para Santarem; depois para Africa, e por derradeiro para a India, d'onde voltou á mercê d'alguns passageiros. ([Nota 3.ª])
Não são de mais estes exemplos referidos a um galan de Guimarães que vai implumar as azas debaixo dos tectos reaes da vice-rainha duqueza de Mantua para depois voar...
—Sei todas essas historias, sr. provedor—atalhou Domingos Leite.—E sei outras muitas de egual moralidade, como a do poeta Jorge da Silva, que expiou no Limoeiro os seus amores a uma irmã de D. João III; e tambem sei que D. João da Silva, por malogrado amor á imperatriz Leonor, filha de D. Affonso V, se fez frade franciscano, chamou-se o Beato Amadeu, e disciplinou as rebeldes carnes, lembrando-se sempre do paço como S. Jeronimo se lembrava das virgens de Roma nos areaes do Mar Morto. Não ignoro que D. Affonso V mandou degolar um Duarte de Souza que visitava fóra de horas uma das suas criadas. Sei, finalmente, o que custam sereyas da côrte, desde que D. João I mandou queimar no Rocio o seu camareiro Fernando Affonso, por que uma dama da rainha se queimára nas chammas do gentil galan... Sei tudo o que diz ao intento das reflexões de vossa mercê; mas eu já lhe declarei que vou attrahido á capella real pela musica á imitação do penhasco arrastado por Orpheu; depois, irei, como Cezar, Quó Deus impulerit. De damarias não curo, nem por mulheres vai longe quem lhes procura a fortuna no regaço. Não me deu Deus geitos de pagem, nem de nâmorado de arrabil. Sou de Guimarães, onde os corações tem mais aço que flores. Tudo que ali nasce parece sahir da forja onde se fazem as rijas laminas das facas de matto e das alabardas.
II
A residencia no paço da Ribeira facilitou ao moço da capella relacionar-se com fidalgos que o estremaram da turba da criadagem.
O capellão-mór D. João da Silva, irmão do marquez de Gouveia, agradecido ao rei intruso que, em 1625, dera a seu irmão Manrique, conde de Portalegre, a coroa de marquez, ajoelhava nos estrados da vice-rainha, como outros muitos portuguezes que, volvidos quatro annos, a ameaçaram de ser despejada á rua sobre o cadaver de Miguel de Vasconcellos ([Nota 4.ª])
Este D. João da Silva corria com os negocios da grande caza de seu irmão, e sentia-se escasso de ideas e até de orthographia para dignamente fazer a correspondencia. Outros fidalgos lhe gabaram a esperteza de Domingos Leite, incitando-o a estipendial-o como secretario.
Convidado para o serviço da casa do capellão-mór, o moço da capella, perscrutando ao longe, na escrevaninha de D. João da Silva, uma aberta, para elevadas regiões, acceitou o encargo com dobrado salario, e sahiu do paço com fastio á musica do Alvarado e aos vilhancicos do Guerreiro com que na noite do Natal lhe gelaram a piedade na alma e nos ouvidos.
Logo que poz mão no archivo da casa de seu amo, assignalou-se a actividade intelligente do secretario.
Ganhando a confiança de D. João e tambem a do marquez, entrou no segredo de certos actos clandestinos da politica, e por ahi lhe alvoreceram esperanças de entrar em carreira mais frizante com a sua vocação, que elle ainda não sabia ponctualmente qual fosse.
Com quanto os Silvas da casa de Portalegre ou Gouvêa não sejam nomeados entre os principaes fautores da conjuração heroica a favor do duque bragantino, é averiguado que o marquez de Gouvêa e seus irmãos assentiram á sublevação de 1640; d'outro modo D. João IV não nomearia seu mordomo-mór o marquez que recebêra o titulo da chancella de Filippe III, cujo mordomo-mór fôra tambem.[1]
Em caza do aulico da vice-rainha conversava-se, planeavam-se alvitres ácerca da restauração, e não havia rezervas na presença de Domingos Leite, abonado por seus amos e pelo enthusiasmo dos seus dizeres conceituosos em annos tão juvenis. Os douctores João Pinto Ribeiro e João Sanches de Baêna que, para assim dizer, foram o cerebro, o pensamento do gigante que estendeu braços de ferro no 1.º de dezembro, tinham justificado a confiança dos fidalgos, dignando-se approvar a admissão de Domingos Leite Pereira ás reuniões da gente media, afim de a ir educando e predispondo com argumentos patrioticos, mui eloquentemente discursados.
E o ensejo veio bem de molde á explosão das iras de um portuguez palavroso. N'aquelle anno de 1637 era o povo esmagado com tributos; e a nobreza, menos ferida nas suas rendas, olhava de esconso para a desgraça das classes mechanicas, e de fito para os seus proprios interesses. Não obstante, alguns fidalgos sob-capa incitavam ao longe os motins. Nos tumultos de Evora, houve precedencia de conciliabulos em que dois homens da cidade e um estranho e desconhecido das turbas oraram de feição a irritar a rebeldia ás execuções tributarias do corregedor André de Moraes Sarmento.
Os sediciosos eborenses eram Sezinando Rodrigues e João Barradas; e o de fóra era o quasi imberbe Domingos Leite Pereira, que depois de haver pedido na praça a cabeça do corregedor, e rompido os diques á onda popular contra o arcebispo e outros fidalgos que sahiram de cruz alçada a socegar os amotinados, appareceu orando ás turbas preceitos de prudencia e respeito ao ancião conde de Basto.
Vê-se que a vocação do rapaz, afinal, era a politica.
Em 1638 morreu D. João da Silva. Logo o marquez de Gouvêa chamou aos segredos da sua escrevaninha Domingos Leite, exonerando-o dos encargos impertinentes da administração da caza, e investindo-o de occupação mais condigna. Os seus trabalhos meditados e escriptos eram relativos á republica, já trasladando papeis mysteriosos que se trocavam entre Portugal e Castella, já discorrendo de lavra propria declamações contra o uzurpador, as quaes eram lidas com um sorriso de complacencia por João Pinto Ribeiro, e repetidas com enfaze pelo padre Nicolau da Maya aos lagrimosos burguezes da caza dos «Vinte-e-quatro.»
A importancia do filho do cuteleiro crescia á medida que o perigoso levantamento da nação calcada se avisinhava da destemida audacia de muitos e da receiosa prudencia de alguns. Domingos Leite aliáva á energia intellectual a impavidez nas mensagens arriscadas. Uma noite se offerecêra elle para entrar ao segundo andar do paço da Ribeira cujos corredores conhecia, e apunhalar na sua propria camara Miguel de Vasconcellos. Galardoaram-lhe com louvores o romano intento; mas dispensaram-no de antecipar o sacrificio de uma vida, que poderia abrir a sepultura de muitas vidas preciosas. Acceitaram-lhe, todavia, a melindrosa missão de ir a Madrid prevenir alguns fidalgos affectos á restauração, já quando Miguel de Vasconcellos, desde os tumultos de Evora, o trazia espiado como suspeito de ser o ardente caudilho dos amotinados a casa do corregedor Moraes Sarmento.
N'esta commissão associou-se Domingos Leite a um Roque da Cunha, homem passante dos 40 annos, que elle havia conhecido nas assemblêas populares do padre Nicolau da Maya, ardente impulsor do resgate do reino.
Roque vivia mysteriosamente e apenas sabia o nome de sua mãe, uma D. Vicencia, de quem ao diante se fará menção.
Era temido como valente, e conceituado como perverso; mas ninguem o excedia em vehemencia de applausos, quando Domingos Leite proclamava ácerca da independencia da patria.
A vaidade do orador transpoz os obstaculos erguidos pela má fama do seu enthusiastico ouvinte, e foi procurar um amigo em Roque da Cunha. Travaram-se de intima estima, a ponto de lhe abrir o cofre dos seus segredos o homem, cujos haveres procediam de fonte desconhecida e forçosamente impura.
Entre diversas aventuras referiu o arrebatado patriota que os seus bens eram a paga de uma boa acção; porém mesquinha paga; pois que se elle podesse contal-a em dias de liberdade para a patria, os portuguezes deveriam ladrilhar-lhe de ouro as ruas por onde passasse. Expendido o caso, depois de o exordiar com o enfaze de um Sc½vola, disse que fôra elle quem matára com um tiro de pistola Pedro Barbosa de Luna, desembargador da casa da supplicação, pai de Miguel de Vasconcellos. Deste homicidio havia elle cobrado alguns mil cruzados: e, posto que o mandante fôsse um opulento mercador que assim vingava a justiça de um pleito postergada pelo desembargador, Roque da Cunha recebêra os tantos mil cruzados com os olhos postos na patria captiva. ([Nota 5.ª])
Este feito, com outros significativos de esforço e destemor, captaram a indole de Domingos Leite propensa á admiração da bravura que em Roque da Cunha era realçada por intendimento e graça no desplante com que assoalhava os vicios ao seu unico amigo.
Tal era o companheiro escolhido nas mensagens arriscadas de Evora e de Madrid. E tanto Domingos Leite encareceu depois os serviços do amigo, na volta a Portugal, que vingou leval-o comsigo a Villa Viçosa, e apresental-o ao duque, no acto de lhe entregar cartas dos fidalgos com a noticia dos planos discutidos no palacio dos Almadas.
III
O que o leitor sabe sobejamente da historia seria impertinencia repetir-lh'o no romance.
A revolução de 1640 é tão fallada, desde a escola de instrucção primaria até ás festividades rhetoricas de cada 1.º de dezembro, que a pessoa intelligente em cuja mão este livrinho tem o prestimo de a livrar de ler outro peor, me está pedindo que dê vivas á independencia nacional e passe ávante.
Seja assim, para agradar a V. Ex.ª e não defraudar historiadores que não tem, quando historiam, analoga consideração com os novellistas.
O duque de Bragança era já D. João IV; e Domingos Leite Pereira, desde Janeiro de 1641, era escrivão da correição do civel da corte, logar que rendia para mais de trezentos mil reis—quantia valiosissima n'aquelle tempo. Além d'isso fôra-lhe facultado arrendar o officio e continuar exercendo o posto de secretario do marquez de Gouvêa, mordomo-mór de el-rei, e do seu conselho de estado e despacho. O marquez, indo semanalmente á côrte, levava comsigo no coche o seu secretario: e bem que o deixasse na sala da espera, algumas vezes o rei admittiu ao gabinete de despacho o diserto moço folgando de o ouvir remedar alguns bassos e tiples da capella real da princeza Margarida. É notorio que D. João IV foi muito caroavel de musica; e, sendo analphabeto em quasi tudo, publicou em 1649 uma Defesa da musica em lingua castelhana, para dar bom exemplo de patriotismo aos escriptores coevos. ([Nota 6.ª]) Concorriam em Domingos Leite Pereira predicados bastantes a distinguirem-no. As meninas cazadoiras viam o rapaz de vinte trez annos, esbelto, valoroso, bemquisto dos fidalgos, estimado de el-rei. Os paes d'estas meninas viam o escrivão da correição do civel, o secretario do conselheiro de estado, o mancebo fadado para coisas grandes.
Nem sequer uma leve mancha de judeu, mulato, ou mouro na candidez de tantos meritos! nem fama publica de vicios, em epoca tão eivada da corrupção da mocidade! Bastava a honrar-lhe os creditos de bom christão ser elle sobrinho de fr. Gaspar de Sancta Thereza, já prior de franciscanos, e tão bom patriota que havia sido elle o primeiro que déra a ideia de despregar o braço de Jezus crucificado afim de persuadir ao povo revolto no 1.º de dezembro que a imagem do Redemptor desencravára a mão da haste da cruz para abençoar o povo que lhe estendia os devotos braços banhados de sangue!
O manuscripto que vai architectando este livro, ao entrar no periodo amoroso de Domingos Leite, diz singelamente: «sahiram-lhe muitos cazamentos.» E, nomeando algumas noivas de nascimento illustre, repára e nota que o escrivão do civel se esquivasse a aparentar-se com familias primaciaes regeitando a neta de um bispo do Funchal, que era muito parenta da casa de Bragança e descendente de reis. ([Nota 7.ª])
Passava então por ser uma das mais lindas mulheres da classe media, em Lisboa, Maria Isabel, filha de um ricasso da rua dos Tanoeiros, João Bernardes, de alcunha o Traga-malhas. Aos quinze annos era a moça tão tentadora, os fidalgos tão tentadiços, e a honra das familias tão menosprezada, que a mãe de Maria Izabel fez voto ao sancto Antonio de fr. Bartholomeu dos Martyres accender-lhe luz toda a noute para que lhe vigiasse a filha emquanto ella fosse solteira: tamanha era a falta de illuminação e policia na rua dos Tanoeiros em 1639! ([Nota 8.ª])
Como era filha unica e seus pais contavam bons vinte mil cruzados em moeda, Maria teve mestre de escripta em casa—um padre de boa fama, do qual ao diante daremos ampla e funesta noticia. Formosa, rica e esclarecida, por consequencia um optimo cazamento para filho segundo de caza illustre, e o mais que podia ambicionar Domingos Leite.
Foi o tio fr. Gaspar quem lhe fallou o cazamento, por ser muito da familia Traga-malhas, e director espiritual da mãe da noiva.
Maria, ao principio, balbuciava respostas evasivas a respeito de cazar-se; porém, quando viu Domingos Leite, e o ouviu dizer-lhe umas palavras tão candidas que mais o pareciam pelo que o rosto respiráva de amorosa brandura, decidiu-se apaixonadamente.
No entretanto, quando tudo era alegria na familia, Maria Isabel escondia-se a chorar, e fazia promessas valiosas ao sancto Antonio do sabido nicho em troca de um milagre de costa acima. Lá ao diante, formará o leitor conceito da natureza do milagre solicitado, e então verá que tal era elle que o sancto, se o não fez, foi por que realmente não pôde.
O escrivão do civel da corte recebeu os emboras dos amigos mais ou menos invejosos, quando annunciou o seu noivado com a filha do Traga-malhas; e redobrou a inveja das congratulações ao saber-se que o rico tanoeiro dotára a filha com dez mil cruzados. Ora para aproximadamente computarmos o valor de dez mil cruzados n'aquelle anno de 1642, basta saber-se que, no anno anterior, o mais opulento negociante de Lisboa, Pedro de Baeça, thesoureiro da alfandega, condemnado á morte em supplicios atrozes, como cumplice na conjuração de alguns fidalgos contra D. João IV, offereceu em troca da vida a enorme quantia de trinta mil cruzados!
Domingos Leite Pereira foi presenteado com rica baixela de prata pelo rei, quando alfaiava a sua casa no sitio chamado o Salvador. O marquez de Gouvêa assistiu como padrinho do cazamento, e o prelado franciscano deu a benção nupcial aos conjuges, e uma preciosa gargantilha de diamantes á esposada, por ordem de sua irmã, e de seu cunhado, pais do desposado.
Principiou na alcôva conjugal, quando os anjos do amor e da ventura deviam vedar os umbraes d'ella á tristeza e á desgraça, uma secretissima lucta de desconfiança e lagrimas, de invectivas affrontosas e juramentos de mãos erguidas. Quem diria que, áquella hora alta da noite, uma formosa mulher, com as tranças desatadas em serpentes pelas espaduas convulsas, ajoelhava aos pés do marido, e, lavada em lagrimas, soluçava:
—Eu te juro que nunca amei outro homem! Não intendo as perguntas que me fazes! Fui creada no regaço de minha mãe! Nunca sahi de casa senão para a igreja, e sempre com minha mãe! Os homens que para mim olhavam uma vez não me tornavam a ver... Não me perguntes se amei alguem n'este mundo, que mettes a tua alma no inferno, e me dás vontade de me ir afogar no Tejo com a minha vergonha!..
Já se vai vendo que o padre Sancto Antonio do nicho assistia de longe e neutral a este lance.
A luz do dia seguinte não alvorejou na alma entenebrecida de Domingos Leite Pereira. Apenas rompeu a manhã, o noivo sahiu do thalamo como de um cavalete de tractos, e foi em direitura procurar o seu antigo mestre de pharmacia Estevão de Lima. Admittido á escrevaninha do matutino boticario do Hospital real, revelou no rosto livido o febril anceio de intender as anomalias possiveis na estructura do corpo humano. Disse elle ao sabio em poucas e tartamudas palavras a ignorancia que o atormentava.
Estevão de Lima ouviu-o cabeceando, baixou os oculos da testa sobre o promontorio do nariz, ergueu-se silencioso, abeirou-se das altas estantes dos seus livros, e tirou as seguintes obras de medicina, que ia sacudindo da poeira, e atirando para sobre a banca: Amatus Lusitanus (ou João Rodrigues de Castello Branco) Abraham Nehemias, Thomaz Rodrigues da Veiga, Antonio Luiz, João Valverde, Garcia Lopes, Averroes, Affonso Rodrigues de Guevara.
Quando desempoava o ultimo, affirmou o douto boticario:
—Este physico é chavão na materia, se bem me recordo.
E, percorrendo a lista alphabetica das coisas notaveis, poz o dedo infallivel na questão subjeita, e disse ao offegante interlocutor:
—Veja isso a paginas 488, columna 1.ª
O contheudo da columna 1.ª da pagina 488 da obra admiravel, chamada De re anatomica, não se reproduz, em respeito ás damas que se dispensam de saber anatomia, apezar da senhora Deraisme, certa adversaria conspicua de Dumas, para a qual o saber sciencias da organisação humana é coisa util ás damas maridadas.
Qualquer que fosse, porém, o contexto da pagina consoladora, é certo que na face de Domingos Leite transpareceu a claridade da interior alegria, e tanto era o desafogo, e desoppresso o respirar do moço, que se abraçou no seu antigo mestre, exclamando:
—Vossa mercê apagou-me o inferno da alma, e tirou-me da mão o ferro uxoricida!
—Ó mentecapto!—volveu Estevão de Lima—Quem querias tu matar?!
—Ella que me infamára aos olhos do homem que m'a atirou aos braços com uma gargalhada!
—Sobre infamado, matador!—acudiu Estevão—Ruim philosopho és, Domingos Leite! Se o meu auctor Guevara te não defendesse a esposa com o escudo da phisica, ainda assim deveras christã e honradamente desligar de ti a mulher indigna, e salvar tua honra interpondo o juizo do mundo como juiz na tua causa. A sentenciada seria ella; e tu, se fosses lastimado, não perderias com isso o direito á veneração dos homens de bem.
—Excellentes rasões...—atalhou Domingos Leite;—mas, sr. Estevão, se eu um dia fôr enganado, não me dê essas nem outras melhores, que eu não lh'as escutarei...
Discorreram sobre o assumpto breve espaço, porque Domingos Leite anciava reconciliar-se com a esposa, pedir-lhe perdão da injuria, indemnisal-a das perguntas ultrajantes com affagos de noivo apaixonado e repêzo da injustiça.
Maravilhou-se Maria Isabel, quando o esposo entrou alegre, e a surpresou enfardelando nos bahús os seus vestidos.
—Que fazes?!—perguntou elle já de má sombra.
—Arranjava a minha roupa...
—Com que intento?
—De me voltar a caza de meu pai.
—Fugindo?
—Fugindo, não; livrando-te da mulher innocente que tu cobriste de affrontamentos.
Demudou-se-lhe o semblante em ares supplicantes, e dobraram-se-lhe os joelhos aos pés da esposa illibada pela pagina 488, columna 1.ª, do livro De re anatomica do physico thaumathurgo Affonso Rodrigues de Guevára.
—Perdoas-me?—balbuciou Domingos Leite, ungindo-lhe a cara de lagrimas.
E ella, que ainda tinha pudor na consciencia, sentiu embargar-se-lhe na garganta a palavra que perdoava, e ajoelhou tambem apertando-o freneticamente ao coração.
Amaram-se em redobro desde aquelle momento: elle porque offendera uma innocente; ella... porque o sancto Antoninho do nicho lhe fizera afinal o milagre. «E, se não era milagre, diria ella comsigo, onde foi meu marido desfazer as suas suspeitas? quem o despersuadiu?»
Nós é que sabemos como foi.
IV
Em alegre paz derivaram dois annos.
Ao fim do primeiro, deu ao amor de seu marido Maria Isabel uma menina.
Pouco depois, duplicou-se a riqueza do cazal com o falecimento do Traga-Malhas, e a entrada da viuva n'um Recolhimento da Terceira ordem de S. Francisco.
Não obstante, a felicidade do antigo aprendiz de boticario era dardejada pela inveja disfarçada no epigramma.
Quando Maria Isabel apparecia nas festividades de igreja, egualando-se nas pompas ás mais ricas fidalgas, rumorejavam-se facecias que eram victoriadas com frouxos de riso.
A corrupção da epoca vestia-se de gala nas mulheres, Maria Isabel, porque sabia que as fidalgas a remoqueavam, de dia para dia dava novo pasto á satyra. Arrastava saias golpeadas de mosqueta; corpetes recamados de oiro; chapins estrellados de prata e perolas; fraldelhins agrinaldados de rubis. Sahia em liteira sua, das mais adamascadas e pintadas, com lacaios bizarramente vestidos.
E, por sobre tudo isto, realçava como engodo ao despeito aquella esplendorosa beldade de Maria Isabel, a quem as senhoras dos palacios, arruinados como a honra propria, chamavam a Traga-malhas tanoeira.
N'este em meio, Domingos Leite Pereira, advertido pelo marquez de Gouveia que posesse côbro ao luxo da mulher, respondeu que era bastantemente rico...
—E bastantemente inepto, sr. Leite—acudiu o mordomo-mór—Quando um marido assim arreia sua mulher para a exhibir nos adros das igrejas, os outros podem suspeitar que elle a veste, á guiza de moira da procissão, para a mostrar bem adubada e apetitosa á cupidez dos outros.
—Se o sr. marquez pensasse como esses vilãos que assim pensam, eu sahiria da sua casa, com a magua de o não poder reptar ao baixo ponto em que está a honra dos plebeus—replicou Domingos Leite com altivez.
—Eu não penso assim—obviou o fidalgo—mas sei como os outros pensam.
—Quem são os outros? diz-m'o V. Ex.ª?
—Não denuncio, sr. Leite; advirto-o e mais nada. Vossa mercê conhece os livros; mas desconhece os homens. Tem grandes espiritos; mas possue imperfeitissima rasão. Guarde isto que lhe digo; e oxalá que eu nunca lh'o recorde.
—Sr. marquez!—volveu o secretario com vehemente arrebatamento—se minha mulher não é a honesta esposa que eu creio, diga-m'o; peço a V. Ex.ª pela sorte de suas filhas!
—Nada sei...—balbuciou o marquez, refreando a perturbação.
—V. Ex.ª está indeciso!—sobreveio Domingos Leite agitadissimo.
—Não seja louco!—objectou o velho, refazendo-se de apparente serenidade—Nada sei de sua mulher que o desdoure.
E, rematando o dialogo, o mordomo-mór disse que el-rei o esperava para o despacho.
Esta acerba palestra instillou peçonha no coração de Domingos Leite.
Havia um só homem e esse o mais indigno de todos com quem o marido de Maria Isabel desafogava a plenos pulmões: era Roque da Cunha, que, ao tempo, exercia um officio dos mais grados entre os aguasis de uma das corregedorias criminaes da corte, em recompensa de haver testemunhado em 1641 contra o general Mathias de Albuquerque, por industria e compra dos inimigos d'aquelle insigne cabo de guerra. E, bem que Mathias de Albuquerque provasse sua innocencia, D. João IV, tão presador dos denunciantes como dos bons e fieis generaes, não retirou a Roque da Cunha a paga da aleivosia. Parece que antevira a urgente necessidade d'aquelle homem...
Abriu sua alma Domingos Leite ao assassino de Pedro Barbosa, referindo-lhe o que passara com o marquez de Gouvêa, e terminando por lhe perguntar se ouvira qualquer calumnia contra a honestidade de sua mulher.
—Ouvi, respondeu friamente Roque.
—O que?! acudiu o outro sobresaltado e livido.
—Ouvi que antes de ser tua mulher tivera outros amores.
—Com quem? bradou arquejante Domingos Leite.
—Não perguntei. O calumniador disse a calumnia, e adormeceu na rua dos Romulares com dois bofetões puxados á sustancia, que lhe dei nos indignos focinhos.
—Nunca m'o disseste...
—Não sou echo de calumniadores, amigo Leite. Encarecer-te a minha amisade com a noticia dos bofetões, seria dar importancia a bagatellas. Se eu estivesse em sitio onde podesse arrancar-lhe a lingua, mandava-t'a embrulhada em uma folha de alface com a mesma facilidade com que t'o digo.
—Mas conheces esse homem?
—Conheci ha muitos annos: era parente de um official, ou quem quer que fosse de Miguel de Vasconcellos. Não lhe sei o nome, nem o tornei a ver desde ha dois annos. Morreria elle?... Se o matei com o primeiro murro, era escusado pregar-lhe o segundo...
Esta revelação attribulou Domingos Leite por tanta maneira, que Roque da Cunha chacoteava a irracional afflicção do seu amigo, chegando a dizer-lhe brutalmente:
—Homem! se este caso te faz tamanha mossa, parece que estás mais inclinado do que eu a acreditar a calumnia do tal que eu esmurracei! Em fim, tu lá sabes... concluiu faceiramente.
—Deixa-me... Olha que me estás fazendo perder a razão! atalhou o desvairado moço. Vê se me encontras esse homem, Roque! Pede-t'o a minha honra! dou-te por esse homem metade do que tenho! Se o tu não achares, ninguem o achará... Olha que me salvas, se m'o trazes! salvas o teu maior amigo!
—Irei procural-o no inferno, se o não achar cá em cimo. Confia nos quadrilheiros de todos os bairros de Lisboa. Saibamos: que queres tu do homem?
—O nome do amante que teve Maria Isabel antes de ser minha mulher.
—Então é coisa averiguada que teve? interpellou despejada, mas rasoavelmente o cynico.
—Perguntas-m'o!... balbuciou Leite Pereira.
—Não t'o pergunto: és tu que m'o dizes, homem! Seja como for. Apparecendo vivo o sujeito, queres interrogal-o, ou fias de mim desembuchar-lhe tudo que elle souber?
—Fio de ti a minha honra, que ha de sahir limpa d'essa prova, ou hei de lavar o ferrete com o sangue de alguem.
—Até mais ver, Domingos Leite. Dá-me tres dias e tres noutes. D'aqui até lá não tujas palavra que possa espantar a caça, percebes? Olha que as mulheres tem faro de tres narizes, quando não podem apresentar folha corrida ao almotacé do bairro da virtude.
Nos dias subsequentes, o secretario do marquez de Gouvêa, pretextando extraordinarios trabalhos, apenas pernoitava em casa; e, apesar de esforçada dissimulação, denunciou a Maria Isabel torvado animo e sobresaltos no dormitar. Interrogava-o ella amorosamente e com uns abalos de susto. Elle attribuia o seu dessocego a receios da causa da patria, visto que o exercito do Alemtejo soffria numerosas deserções, e perigava á mingua de generaes. No entanto, a esposa decifrara desgraça eminente em umas lagrimas que lhe vira toldar os olhos fitos no rosto angelico da filhinha adormecida. E perguntando-lhe então porque chorava, elle respondera que chorava em nome da creança a desventura de ter nascido.
Devoravam-no entretanto impaciencias de ouvir Roque da Cunha.
Chegou o mensageiro ao escriptorio de Domingos Leite, no palacio do conselheiro de estado, terminado o praso prescripto, e começou dizendo, com solemnidade e tristeza, coisas singulares e raras no seu caracter:
—Achei-o. Morava em Alfama, e tem loja de mercearia.
—Bem! exclamou Leite Pereira com um tregeito de ficticia alegria que poderia egualmente significar a angustia de uma noticia dilacerante.—Que diz elle?
—Vamos de passo. Indaguei primeiro quem tinham sido os officiaes da escrivaninha de Miguel de Vasconcellos. Nomearam-m'os todos; e eu, logo que ouvi o nome de um, recordei-me de que o homem em quem eu dera os cachações era parente do tal. Ora este tal, que foi muito da confiança do ministro, conhecia-o eu como as minhas mãos. Fui ter com elle, e sem detença soube que o seu parente era tendeiro. Isto no primeiro dia. No segundo, mandei-o chamar por um quadrilheiro á corregedoria. Carreguei a sêlha, e perguntei-o sobre o que havia dito a respeito da mulher do escrivão do civel, Domingos Leite Pereira, no anno de 1643, na praça dos Romulares. Como elle fingisse estar esquecido, lembrei-lhe os dois murros, e ajudei-lhe a memoria, promettendo-lhe mandal-o para o Limoeiro até se lembrar. Confessou então que, estando em um jantar de annos, onde o vinho sobejava e minguava o juizo, ouvira dizer a um dos do banquete, fallando-se no teu casamento, que elle conhecia um sujeito que, se não tivesse coroa rapada, a Maria Traga-Malhas e os dez mil cruzados não seriam para ti. E que mais? perguntei ao homem que engulira o principal. Não sei mais nada, respondeu elle. Chamei um aguazil e disse-lhe que levasse aquelle esquecidiço ao Limoeiro, e o trouxesse quando elle tivesse mais miudas lembranças do que ouviu n'um tal jantar. Deixou-se levar, e foi posto no segredo, e prohibido de fallar ou escrever a alguem. Segundo dia. Agora o terceiro, que é hoje. Ás duas da tarde pediu que o trouxessem á corregedoria. Recuperara a memoria. O homem que tinha coroa rapada, e se gabava de te disputar a noiva e os dez mil cruzados, era propriamente o primo d'elle, que eu conhecera official de Miguel de Vasconcellos.
—Como se chamava? atalhou Domingos Leite com os olhos abraseados e a respiração a trancos.
—Chamava-se o padre Luiz da Silveira.
—O que?... dize! Luiz da Silveira?! Esse padre foi o mestre de Maria Isabel... Basta!... Disseste tudo...—rugia Domingos Leite, regirando como fera prêza, de um lado a outro da saleta, e tomando o chapêo, apertou as mãos do informador, rugindo-lhe como em segredo:—Se eu precisar de ti, não me desampares... Bem sabes que eu só chamo amigo a quem me matar ou me restituir a honra n'esta horrivel conjunctura. Olha, escuta-me, Roque... Maria Isabel, antes de ser minha mulher, foi... Oh! como é atroz esta certeza!...
E, batendo com os punhos nas fontes, ringia os dentes, e istriavam-se-lhe os olhos de filamentos sanguinosos.
N'este comenos, ouviram-se os passos mesurados do marquez mordomo-mór no salão contiguo. Os dois amigos evadiram-se pressurosos escada abaixo.
V
O padre Luiz da Silveira viera da Alhandra para Lisboa, chamado pela fama de prégador, em 1635, tendo vinte e quatro annos de edade.
A marqueza de Montalvão deu-lhe capellania em sua casa, e accesso á estima dos fidalgos mais parciaes do rei castelhano. Os sermões de padre Luiz degeneravam, pelo ordinario, em arengas politicas em prol da legitimidade dos Filippes, e invectivas ironicas adversas aos sebastianistas. N'aquelle tempo, tanto os esperançados no vencido de Alcacer-kibir, como os imaginativos de rei portuguez, eram chanceados de sebastianistas.
Em casa da marqueza beijara o padre a mão do arcebispo de Braga, D. Sebastião de Mattos e Noronha, um dos mais esturrados sustentaculos do dominio hespanhol, e tão execrado dos portuguezes como Miguel de Vasconcellos.
Affeiçoou-se o arcebispo ao capellão da marqueza, ouvindo-o prégar no anniversario de Filippe IV, de Castella, e de moto proprio lhe offereceu o emprego honroso e lucrativo de official do secretario de Vasconcellos.
N'esta posição, e com promessas de boa prebenda na Sé lisbonense, o sobresaltou a revolução de 1640. Dormia elle ainda o somno do justo, quando o ministro era espostejado no terreiro do Paço da Ribeira. A consciencia remordia-o já com os delictos oratorios, já com os aggravos feitos aos seus compatriotas, sob a egide de ministro despota. Escondeu-se, portanto, no palacio do arcebispo de Braga, que os conjurados teriam morto, se rogos de D. Miguel de Almeida o não salvassem, e se D. João IV, receoso do clero e de Roma, lhe não desse parte no governo provisorio, defraudando de tamanha honra fidalgos que jogaram a cabeça, proclamando-o.
O arcebispo, inflexivel á indulgencia do rei, urdiu, travado com outros da sua estofa, a malograda contra-revolução, a fim de reconquistar a graça de Filippe IV.
Carteando-se com o conde-duque de Olivares, confiou a mensagem da correspondencia ao seu commensal, padre Luiz da Silveira, que tres vezes desempenhara destramente a perigosa empreza, disfarçado em almocreve.
Planeada a tentativa dos conjurados, de accordo com a Junta de Madrid, chamada da Intelligencia secreta, padre Luiz, ou por que desconfiasse do bom exito, ou por que um leicenço de infamia lhe apojasse na alma, ou—e seria o mais improvavel—porque o patriotismo o esporeasse, resolveu delatar os conspiradores a D. João IV.
Outra versão correu explicando a perfidia do padre. Disseram que elle, a fim de alliciar um antigo parceiro, communicara o segredo da conjuração a Luiz Pereira de Barros, que tambem servira Miguel de Vasconcellos, com grande applauso e confiança do ministro; porém Luiz de Barros, como a esse tempo já fosse contador da fazenda, a revellação do familiar do arcebispo recebeu-a sem enthusiasmo, promettendo, todavia, reflectir antes de se alistar nos conjurados. Mas, como quer que o clerigo desconfiasse que Pereira de Barros denunciasse a conspiração, deu-se elle pressa na precedencia da protervia e da paga. Não se illudira, por que D. João IV recebera os dois delatores no mesmo dia, e os enviara conjunctamente ao seu ministro Francisco de Lucena, e este os mandara ao procurador geral da coroa, Thomé Pinheiro da Veiga.
Simultaneamente, novas denuncias asseveraram a do confidente do arcebispo, umas espontaneas, outras arrancadas pela tortura. Dois capitães, Diogo de Brito e Belchior Corrêa de França, postos a tormento, confessaram os nomes dos cumplices; não assim o opulento mercador Pedro de Baeça que, desde o cavalête, em que lhe quebraram os ossos, até o verdugo bamboar-lhe o corpo dependurado, apenas fallou para offerecer trinta mil cruzados pela vida, mostrando até final, como bom mercador, que a vida tambem era mercadoria.
Não podemos attribuir especialmente á delação do clerigo o malôgro da revolta: tão obcecados de medo de Castella tremiam os conspiradores, que não viram o carrasco em casa, nem se arrecearam da irreflectida escolha dos cumplices. No entanto, os pormenores da revolução, que devia estalar no dia 5 de agosto de 1641, começando pelo incendio do Paço da Ribeira e assasinio do monarcha, deu-os o padre Luiz, taes quaes os sabia da confidencia plenissima do arcebispo de Braga.
A 28 de julho, a mais selecta porção de conjurados foi aferrolhada em diversos carceres; e a 28 de agosto soffreram decapitação na Praça do Rocio o marquez de Villa Real, o duque de Caminha, o conde de Armamar, e o escriptor D. Agostinho Manuel. Quanto aos outros padecentes, por que eram plebeus, as agonias estiraram-se mais prolongadas, desde o serem cavalleados pelo algoz, e d'ahi, como ignominia aos vilissimos cadaveres, começou a estupida ferocia de os arrastarem e esquartejarem.
O amigo do padre Luiz morreu nas masmorras de S. Julião da Barra; o bispo de Martyria acabou socegadamente no claustro de S. Vicente; o inquisidor-geral, D. Francisco de Castro, dois annos preso, sahiu perdoado e d'ahi a pouco reposto em todos os cargos e honras, depois de accusar, com a promessa do perdão, as particularidades do plano sedicioso. Este abjecto prelado, que merecera depois a estima de D. João IV, era esbofeteado, passados annos, pelo principe D. Theodosio, que o detestava como denunciante dos seus parceiros de infamia. ([Nota 9.ª])
O padre Luiz da Silveira, dado que el-rei o recommendasse a D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa, não tinha ainda, em 1642, recebido condigno galardão, pois que n'esse tempo esbrugava apenas o escarnado osso de thesoureiro de S. Miguel de Alfama. O arcebispo D. Rodrigo da Cunha era homem honesto e verosimilmente despresador do fementido padre que prégara a legitimidade dos Filippes, e denunciara os seus co-reos na trama contra a liberdade da patria.
Retrocedamos dois annos na biographia d'este clerigo. Quando, em 1639, o tanoeiro João Bernardes Traga-malhas resolveu aperfeiçoar a sua filha em lettra e leitura, já quando a menina, por muito encorpada, corria perigo em andar na mestra, indagou como cauteloso pae onde houvesse um sacerdote ajustado ao intento.
Inculcaram-lhe padre Luiz da Silveira, a quem muitos fidalgos confiavam a educação de suas filhas.
Quiz o Traga-malhas julgar do clerigo pela cara, e desagradou-se da mocidade do mestre; porém, como pegassem de conversar a respeito da soltura do genero humano, o official do ministro Vasconcellos tamanhas lastimas gemeu sobre os peccados do mundo, que o bom João Bernardes ponderou a sua mulher que o mestre de Maria Isabel era o que elle nunca tinha visto em padres.
Teria vinte e oito annos, ao tempo, o capellão da marqueza de Montalvão. Bem apessoado, limpo no trajar, polido pelo trato da melhor sociedade, sisudo nas fallas, grave e composto com aquelle geito nobre que lhe dera o pulpito, padre Luiz fez-se, a um tempo, respeitar e estimar da discipula.
Do adiantamento da menina, em materia de escripta, leitura e doutrina, eram sensiveis os effeitos, e bem provada portanto a aptidão tanto do professor como da alumna.
Maria Isabel, que até então só conhecia em leitura a Primavera de Meninos, do Brochado, por conselho do novo mestre lia o Clarimundo, de João de Barros, e os Contos do Trancoso; e quanto a escripta, sahiu-se muito habilidosamente imitando os Exemplares de diversas sortes de lettras, de Manuel Barata.
Ora os paes, quando admiravam as rapidas sabensas da filha, graças á assiduidade do mestre, de certo não sentiam sobresaltos que lhes agorentassem a satisfação, lembrando-lhes que houvera no mundo uma discipula muito aproveitada, chamada Heloisa. Se na mente de padre Luiz chammejaram memorias historicas de Pedro Abeilard, e o demonio da imitação entrou com elle, é o que vamos deprehender do capitulo seguinte.
VI
Vimos, no capitulo IV, Domingos Leite e Roque da Cunha esquivarem-se rapidamente á presença do marquez de Gouvêa.
Ao separar-se, o allucinado escrivão murmurou sinistramente ao seu funesto amigo:
—Conto comtigo, Roque! Se algum de nós faltar ao que deve ao outro, esse seja infame!
—Seja!—assentiu o sicario de Pedro Barbosa, sacudindo-lhe a mão com a solemnidade cavalheirosa de um pacto de honra.
D'ali, de Pedroiços, onde o marquez residia, até Lisboa, Domingos Leite não desfitou as esporas dos ilhaes do cavallo. ([Nota 10.ª])
Quando apeava no pateo de sua casa, vinha Maria Izabel, ao longo d'um corredor que conduzia ao jardim, com a menina no collo. A creancinha festejava o pai, batendo palmas, e exuberando de alegria no riso que tanto lhe brincava nos labios como nos olhos. Domingos fitou a mãe com torvo olhar, e apenas de relance olhou para a filha, como se o encaral-a de fito lhe traspassasse a alma.
—Olha a creancinha como se ri para ti!..—disse Maria Isabel entre meiga e atemorisada, já quando o marido galgava apressadamente as escadas.
Ella, apesar do susto que lhe arfava o coração, seguiu-o até á ante-camara. Ahi, Domingos Leite, voltando-se para a mulher, e repulsando as caricias da menina, disse-lhe com desabrimento:
—Largue a creança, e volte, que preciso fallar-lhe!
—Que modo de me tratar!—acudiu Maria—Tu que tens, Domingos? Que queres dizer-me? Podes fallar, que a tua filha não entende injurias, se m'as queres dizer...
—A minha filha....—atalhou elle casquinando um froixo de riso por entre os dentes cerrados; e logo, arrugando a testa e alteando a cabeça com intimativa, bradou:
—Não me percebe!?
E, arrancando-lhe a filha do collo, sahiu com ella pendente dos braços, fechando a porta da ante-camara para que a mãe a não seguisse em gritos.
A creança, apesar do repellão, olhava para o pae com a mesma jovialidade. Domingos Leite, que parecia buscar a quem entregasse a menina, parou de repente, aconchegou-a do peito, beijou-a, lavou-a de lagrimas, e, soluçando no seio d'ella, queria talvez evitar que a mulher lhe ouvisse os gemidos. Deteve-se largo espaço assim, até que uma escrava, passando acaso, o surpresou n'aquelle lance. Como vexado da sua fraqueza, Leite Pereira entregou a menina á negra, e, enxugando o rosto, voltou ao quarto onde Maria Isabel estivera em rogos á Virgem, sem todavia saber que soccorros lhe cumpria pedir.
Entrou o marido, fechou-se por dentro, travou do pulso de Maria, empurrou-a para sobre um preguiceiro, sentou-se á beira d'ella, e disse:
—Porque treme? A innocencia não costuma assim tremer!... Porque treme?
—Pois eu vejo-te enfurecido sem saber que mal te fiz!... Sahiste de casa tão contente commigo...
—Quantas vezes a senhora escarneceu o contentamento com que eu sahia e entrava n'esta casa? Tinha alegria ou remorso de me enganar com juramentos sacrilegos, invocando o testemunho de Deus sobre a innocencia da sua vida de solteira?... Que responde?
—Voltas ás tuas suspeitas antigas...—balbuciou Maria Isabel, menos affoita do que tinha luctado n'aquella primeira noite.
—Não me irrite com referencias estupidas ás suspeitas antigas!—redarguiu o marido enfreando as arremettidas da raiva—Diga-me cá, barregan de clerigo, diga-me que conceito formou de mim, quando, depois de eu ter sahido d'aquella alcôva na primeira noite de meu deshonrado consorcio com uma manceba de padre Luiz da Silveira, voltei, passadas poucas horas, e me ajoelhei a seus pés, pedindo-lhe me perdoasse a injuria que fizera á sua puresa de menina solteira?
Maria Isabel soluçava uns gemidos que a estrangulavam. Elle arrancou-lhe as mãos do rosto, e bradou-lhe:
—Olhe para mim! Nada de momos! Responda: que juizo fez de mim n'este espaço de tres annos em que a tenho tratado com os extremos de noivo no primeiro dia da sua felicidade? Imaginou que eu fosse um vil, que se habituou á deshonra, a troco de vinte mil cruzados da sua infame mulher? Responda, que o seu silencio obriga-me a arrancar-lhe do coração a resposta!
—Não...
—Não... o quê?..
—Eu nunca te suppuz vil...
—Suppoz-me então enganado?...
—Enganado... não...
—Então, vil... uma das duas coisas... Em que ficamos: vil, conformado com a deshonra, ou enganado, isto é, persuadido de que tinha casado com uma mulher honesta?
—Meu Deus!—exclamou ella afflictissima—Matae-me, Senhor!—e punha os olhos sinceramente supplicantes na imagem de Jesus.
—Pois que suppunha?—insistiu Domingos Leite—Cuidou que a sua devassa mocidade seria segredo entre Deus e o padre? Nunca lhe gelaram terrores a alma, prevendo que um acaso viria explicar a rasão que eu tive para a injuriar poucas horas depois que lhe dei o meu nome honrado e a minha vida sem mancha? A senhora deve ter tido remorsos de mentir tão torpemente a um homem que tinha direito a encontrar esposa honrada! Bem sabia que eu não era marido que se vendesse, e trocasse a ignominia da pobresa pela ignominia de uma manceba de clerigo com alguns mil cruzados. Quem a privou de me dizer, quando fallou a só commigo; que na sua vida havia desaires que a prohibiam de amar um homem de bem? Recorde-se... Não lhe disse eu que, apesar de lhe querer com toda a alma d'um primeiro amor, como não acreditava na efficacia dos meus meritos, reflectisse antes de me acceitar como marido, e não viesse para os meus braços com o mais pequeno affecto sacrificado á vontade de seus paes?
Maria Isabel prostrou-se aos pés do marido, exclamando:
—Foi verdade...
—Foi verdade!... e a senhora mentiu-me, cobriu-me de lama, fez-me o successor indissoluvel do padre!.. E que sou eu então diante de si e diante do mundo? A irrisão dos meus inimigos, e a compaixão aviltadora dos meus amigos!...
E, levantando-se de golpe, sacudiu phreneticamente a mulher, que lhe abraçava os joelhos, e, dados alguns passos, parou em frente d'ella, cruzou os braços, e rouquejou convulsamente:
—Ó miseravel! pôde assim, formosa e rica, aos quatorze ou quinze annos, resvalar á voragem das loureiras secretas por entre os braços d'um padre! Amou-o? diga, mulher impudica, amou-o?
—Pelas chagas de Jesus Christo!—volveu ella, ajoelhando-se-lhe novamente—Eu sei que vou morrer... Se me tu não matares, heide eu matar-me!. Ai! minha querida filha!... Ó Domingos, não desampares aquella creancinha que é tua filha!...
—Matar-se!—replicou sarcasticamente—As mulheres na sua condição não se matam, porque... estão mortas... Quem teve a coragem de se deshonrar perdeu a força moral que dá a rehabilitação...
—Eu era uma innocente...—soluçou Maria Isabel—Não sabia o que era deshonra... Passára a minha infancia entre meus paes. Minha mãe era tão virtuosa que nem me precaveu contra a maldade do mundo...
E, como os arrancos lhe embargassem a voz, o marido, que parecia ferozmente interessado na confidencia, disse:
—Continue... Vae-me contar por miudos a historia da sua... queda... Conte.
—Oh!.. pelo divino amor de Deus!—clamou ella—que queres saber d'esta desgraçada?... Eu só soube que estava perdida, quando te amei, porque então senti que era indigna do teu amor!..
—E não obstante... diga o mais... Conhecendo-se indigna, fez-me descer na rampa da infamia para me nivelar com a senhora!..
—Pois bem!—bradou ella com vehemente resolução—Esmague-me, que eu sou punida, e o senhor vingado!
—Heide reflectir...—retrocou Domingos Leite serenamente—Nem todas as mulheres são dignas de morrerem ás mãos de homens honrados. Entretanto, dê-me o infernal praser de lhe ouvir contar a historia dos seus primeiros amores.
E, dizendo, sentou-se, indicando-lhe com um tregeito de cabeça que se assentasse a seu lado. Ella hesitou; mas um arremêsso de impaciencia, e duas fortes punhadas que elle deu no espaldar do preguiceiro, incutiram no animo de Maria Isabel a suspeita de não sahir com vida de tamanha angustia.
Sentou-se ella, a tremer, com as mãos cruzadas sobre o peito e os olhos piedosos fitos no perfil do marido.
—Conte lá,—disse elle com os cotovellos apoiados nas pernas, a face entre as mãos, e os olhos postos no pavimento—conte desde o principio essa historia... Como foi que o padre lhe fez saber que a desejava, e como foi que a menina de quinze annos acceitou as doutrinas do mestre.
O dialogo seguido a esta intimação demorou-se meia hora, que devia figurar-se um dia de tormentos a Maria Isabel: tão dilacerantes cortavam as perguntas no pudor d'aquella mulher.
Porém, finalmente, no rosto de Domingos Leite Pereira já vislumbravam sentimentos de compaixão, porque os do rancor tinham posto a pontaria em outro alvo.
As ultimas palavras d'elle, proferidas com gravidade, mas sem tom de ira, foram estas:
—D'hora em diante eu continuo a ser seu marido perante o mundo; mas diante da senhora sou um estranho. Emquanto a mãe de minha filha assim quizer viver commigo, essa creança, que eu adoro, será sua tambem; mas, se este viver lhe não quadrar, eu sahirei com minha filha; e farei que ella nunca saiba quem foi sua mãe. Esta sentença não condemna o delicto da sua impuresa; condemna o enorme crime de me ter acceitado como marido. Concorda na minha proposta?
—Sim... concordo... Eu viverei como tua criada, se assim o quizeres; mas não me tires a minha filha.
—Retire esse tratamento do tu—voltou o marido com sobrecenho.—Nem uma palavra, nem um gesto que indique a maior ou menor alliança de duas almas que se estimaram, ou tredamente se dissimularam... Esta casa é bastante grande. Podem viver n'ella duas pessoas sem se encontrarem. A senhora é rica: administre o que tem: eu não tenho nada que vêr com os seus bens de fortuna. Ficamos entendidos. Qualquer infracção d'este pacto, estalará em tempestade sem bonança.
VII
Aquelle mercieiro, primo do mestre de Maria Isabel, attribulado agora pelas revelações que fizera a Roque da Cunha, avisou padre Luiz da Silveira, encarecendo os martyrios que lhe arrancaram o segredo.
O thesoureiro de S. Miguel de Alfama ponderou o melindre da situação, e maldisse a embriaguez que o levou á imprudencia de se gabar d'um delicto que elle julgava já esquecido e delido como o bôlo avinhado de que lhe espumara aos beiços a jactancia de ter sido amado da esbelta Maria Isabel Traga-malhas.
Trazia elle, ao tempo, requerimento bem protegido no paço, pedindo um beneficio na sé de Silves. O aviso do parente esporeou-lhe a diligencia na obtenção da prebenda; para o que, logo na mesma hora, se foi pessoalmente á côrte da Ribeira, e logrou alcançar do secretario de estado a promessa do despacho n'um dos seguintes dias.
No entretanto cuidou o padre de enfardelar o mais precioso dos seus haveres, sendo o sobre todos estimadissimo fardel, uma rapariga de bons quilates de bellesa, não sabemos se tambem discipula d'elle, se creatura já amestrada em amores, quando o cauto clerigo a installou na freguezia de S. Mamede, no Bêco dos Namorados,—nome gracioso que desdizia da immundicie d'aquella escura alfurja, apenas palmilhada a horas mortas, por um só namorado, que era padre Luiz. Este béco abria por uma das extremidades no Terreirinho do Ximenes, local azado para amantes clandestinos, visto que raro viandante por ali transitava depois das Ave-Marias.
Para afugentar o terror que o primo lhe incutira, pintando-lhe Roque da Cunha caudilho de uma horda de quadrilheiros facinorosos, padre Luiz fiava-se na convicção de que ninguem lhe suspeitava a lura, nem por aquelles sitios desfrequentados lhe faria espera. Ainda assim, como o seu mêdo era mais de clerigo do que de homem, e o escandalo o assustasse mais do que a lucta, cingiu um correão de pistolas, envolveu-se na capa longa de arruador nocturno, derrubou a aba do sombreiro aragonez, e, á hora do costume, sahiu com o intento de conduzir para casa do primo tendeiro a moça inquilina do Bêco dos Namorados.
Meia hora antes de elle entrar no Terreirinho do Ximenes, precederam-no n'aquella paragem, desembocando das Pedras Negras[2] dois vultos, que pareciam, no moverem-se umas sombras; e sendo dois homens, tão subtilmente deslisavam que difficil fôra estremar qual d'elles projectasse a sombra do outro.
—Hade passar aqui ou entrar pelo outro lado—disse Roque da Cunha a Domingos Leite—A tua paragem é esta; a minha é a outra. Dou-te o ponto mais arriscado, visto que m'o não cedes. Olha que o padre tem figados, torno a dizer-t'o... Até logo.
Domingos Leite retrahiu-se para o escuro de um arco sotoposto ao collegio jesuitico de S. Patricio, e acantoou-se no angulo mais comvisinho da passagem. O quarto de hora, que seguiu esta emboscada traiçoeira, arrastou-se vagaroso e dilacerante por sobre a alma ainda immaculada d'aquelle homem, que se via precipitado a um tal feito; que nem a vaidade nem o pundonor justificavam bastantemente a matar um homem desconhecido, que não o ultrajara, que era innocente nas suas angustias de marido e amante vilipendiado. Era atroz. Mas esse homem, ébrio ou infame, proferira com fatuidade o nome de Maria Isabel, conspurcando-lhe a fama, e assoalhando a deshonra do marido ao sêvo dos seus muitos inimigos, invejosos do patrimonio da esposa ou do rendoso officio com que el-rei lhe premiára intelligentes serviços. O orgulho afinal amordaçara o instincto da justiça; ainda assim, a batalha travada na consciencia de Domingos Leite era despedaçadora. A espaços, mettia-lhe horror na fantasia o pensar que rasgaria a punhaladas o peito do homem, cujo nome havia de ouvir dos labios d'elle mesmo; porém, se lhe negrejava no espirito a horrivel irrisão de encontrar-se rosto a rosto com o seductor da donzella, que se deixára poluir como um anjo de alabastro se deixaria inconscientemente despedaçar ás mãos de um ébrio furioso, então o pulso latejava-lhe iracundo no cabo do punhal, e o ouvido escutava com avidez o rumor de passos que lhe figurava a aproximação da victima.
N'este conflicto, ouviu o estampido d'um tiro, a curta distancia, e um grito agudo de voz de mulher. A detonação e o brado soaram do lado do Bêco dos Namorados. Promptamente reflectiu Domingos Leite que Roque da Cunha se encontrára com o padre; e, por saber que a arma do seu confidente era o punhal, inferiu que o outro desfechára com elle. Isto colligia correndo ao longo do bêco, de faca arrancada, e os olhos cravados no reluctar de dois corpos, sobre os quaes, a revezes, resvalava o frouxo clarão da lampada de um nicho.
Ao avisinhar-se dos dois vultos, entreviu o relampejo da lamina d'aço contra um corpo já cambaleante, e ouviu o rouquejar de moribundo, que pedia misericordia, ao mesmo tempo que de uma adufa de casa proxima estrugiam gritos á-d'el-rei.
A supplica de misericordia, que padre Luiz da Silveira vociferára, foi-lhe cortada pelo decimo golpe que Roque lhe vibrou ao peito; e quando Domingos Leite se abeirou do amigo, que alimpava o rosto banhado de sangue, já o mestre de Maria Isabel jazia morto.
—O ladrão crivou-me a cara de zagalotes!—murmurou Roque da Cunha—Olha do que eu te livrei, rapaz!... Vê lá se o diabo tuge, e toca a safar, que a barregan não se cala...
Domingos Leite olhou de revez para o cadaver que cahira de bruços, esforçou-se para ir examinar-lhe a respiração; mas as pernas tremiam-lhe.
—Não vais?!—disse Roque, embebendo na capa o sangue que lhe gotejava da face direita—Tu és covarde ou sandeu, homem?
—Podemos ir que elle está morto...—respondeu tiritando Domingos Leite.
—Podemos ir que elle está morto?—replicou sorrindo—Cá te avirás com o padre, se ressuscitar—volveu Roque, e sahiu pelo outro lado, descendo a calçada de S. Chrispim; e, atravessando o Beco do Bogio, baixaram até ás Portas do Ferro, onde morava o matador do padre.
Examinada a ferida, Domingos Leite decidiu, com a competencia de experto boticario, que o pelouro resvalára na maçan do rosto, sem ferir osso nem cortar veia importante.
O ferido, restaurando o sangue esgotado com uma botelha de vinho hespanhol, contou modestamente que o padre vinha entrando ao Beco dos Namorados, quando elle, ouvindo passos, se cozêra com a sombra de um cunhal, afim de o reconhecer, ao tempo que a lumieira do nicho lhe desse na figura; porém, ajunctou elle:
—O homem, a trez passos de mim, desembuçou-se, arremetteu commigo, poz-me a pistola tão perto da cára, perguntando-me quem eu era, que, a fallar-te verdade, se eu não tivesse alguma experiencia d'este mundo e a certeza de que ninguem morre duas vezes, talvez dissesse ao padre que fosse em paz e não contendesse com quem estava manso e quieto. Mas hasde tu saber, amigo do coração, que eu, quando tenho medo, mato mais depressa. Um gato brinca com a ratazana que a final estripa; mas, se é cão o inimigo, o gato crava-lhe as unhas logo nos gorgomilos, e não brinca. Deu-se com o perro do clerigo o mesmo cazo. Perguntou-me quem era, de pistola abocada. Respondi-lhe com as punhaladas, que o escrivão do corregedor ámanhã dirá quantas foram. Atirou-me á cabeça ainda antes que eu lhe tocasse. Folgo de ter luctado com um homem. Se eu tivesse matado um poltrão, isso havia de me custar remorsos, palavra de Roque da Cunha! Estás ahi a contemplar-me com uma cara de môço de côro da real capella, homem! Parece que o mestre de tua mulher, se até ha pouco te andava ás cavalleiras da honra, te peza agora ás cavalleiras da consciencia! Vamos a saber: estás contente commigo, ou querias que eu, em vez de matar o padre, lhe pedisse que me contasse historias do seu systema de ensinar raparigas?
—Sei que me não queres inxovalhar com esses remoques...—acudiu gravemente Domingos Leite Pereira—Eu sou um homem triste como todos os desgraçados, Roque!.. Se vês em meu rosto o terror, é porque a minha felicidade morreu primeiro que esse homem... que devia morrer. O meu desejo seria tel-o morto, para me apresentar á justiça, e dizer: «fui eu quem o matou; matem-me, que me dispensam d'um martyrio sem fim!..» E, se acontecer que a justiça te culpe, irei eu denunciar-me como matador. Agora, meu amigo, pelo que cumpre á minha obrigação para comtigo, sou a dizer-te que disponhas de tudo que eu valho, e da minha vida, que pouco vale.
—Tudo que tenho a pedir-te cifra-se em pouco—respondeu Roque da Cunha—Ámanhã fallas com o corregedor do bairro, e lhe dirás que estou doente: bem vês que não devo apparecer com o carão esfarrapado. Depois, trarás o betume com que se fecham estas gretas, e cuidarás de mim, mandando-me da estalagem do hespanhol do Largo do Forno umas empadas de gallinha, e do armazem dos Sete Cotovêlos algumas botijas do de Torres Novas. Feito isto estão saldadas as nossas contas; e, quando souberes que tua mulher t'as não dá direitas, abriremos novo saldo.
Uma hora depois, Roque da Cunha, affeito a dormir em conjuncturas analogas, admirava-se de não ter ainda adormecido: e Domingos Leite Pereira, entrando em sua caza com todas as precauções para não ser ouvido, fechou-se no seu quarto, abriu a janella para sentir na fronte esbrazeada o frio da noute, vagou a vista errante pelo ceu estrellado; e, chorando como nunca chorára, disse entre si:
—Porque sahi eu da tua sombra, meu pobre pai, que a estas horas dormes serenamente no regaço da honra!... Bem me dizias tu, minha sancta mãe, que eu fazia mal em deixar a caza, onde nunca chorara alguem até á hora da minha partida... para este inferno em que estou penando!
Ao arraiar da manhã, Domingos Leite ouviu, no corredor contiguo ao quarto, a voz da filha, que, por costume, se erguia de madrugada e ia deitar-se com o pai. Foi abrir a porta, tomou-a do collo da ama, agazalhou-a no peito, porque a menina tremia de frio, aqueceu-lhe o rosto com o respirar febril e cortado de soluços, e longo tempo anceou n'aquella tortura misturada com o desafogo aprasivel das lagrimas.
VIII
O assassinio do padre Luiz da Silveira foi explicado por varios modos, tanto que o cadaver appareceu, no Bêco dos Namorados, com dez punhaladas no peito.
Disse-se que os seus antigos consocios de infidelidade á patria, e contubernaes em patifarias, receiosos que elle lhes delatasse os delictos, visto que medrava na estimação dos ministros de D. João IV, o matariam para se desfazerem de um delator perigoso. Diziam outros, mais plausivelmente, que o padre acabára ás mãos dos vingadores do arcebispo Sebastião de Mattos e seus cumplices, levados ao patibulo pela delação do seu ignobil confidente. Outros finalmente accusavam sem rancor, antes com approvação, um tal licenciado Ruy Pires da Veiga, irmão da manceba do clerigo, desde que a viram abraçada ao morto, e reconheceram n'ella a menina que, dous annos antes, desapparecera de casa de sua familia honesta e abastada.
Instaurou-se a devassa.
O primeiro que mui secretamente se apresentou a fazer revelações na corregedoria foi aquelle mercieiro, primo do clerigo morto. O testemunho deste sujeito, forçado a confessar a Roque da Cunha o que ouvira respeito á esposa do escrivão do civel da corte, illucidava cabalmente a morte do padre Luiz.
No entanto, o escrivão do civel da corte continuava a exercer o seu officio, Roque da Cunha tambem, e ambos desassombradamente fruiam os seus direitos de cidadãos bem procedidos. Não succedeu o mesmo com Ruy Pires da Veiga, que se homisiou, quer envergonhado de ser o irmão da mulher teúda e manteúda do clerigo, quer receoso de que o prendessem por suspeito do homicidio.
Sabia-se, porém, e com grande espanto, que o rei mandára suspender a devassa. Os politicos inferiram d'ahi que na morte do antigo official de Miguel de Vasconcellos, e secretario particular do arcebispo de Braga, havia segredo de estado cujo rastro era perigoso farejar.
Volvido um anno sobre a morte do thesoureiro de S. Miguel de Alfama, Ruy Pires da Veiga, indigitado homicida pela maioria das opinioens, sabendo que sua irmã era já falecida de paixão em rigorosa clausura, appareceu na côrte a defender-se da calumnia. A voz publica, espicaçada por este novo estimulo, deu vida ao esquecido assumpto, concorrendo bastante o mercieiro com as suas revelações feitas em segredo, mas, a poucas voltas, divulgadas por toda a cidade.
Estes murmurios chegaram aos ouvidos de D. João IV, que de sobra sabia quem era o assassino directo ou indirecto do clerigo.
O rei estimava Domingos Leite Pereira, já pelos corajosos serviços que lhe prestára nos passos anteriores á sua acclamação, principalmente nos tumultos de Evora e recovagem de recados a Madrid e a Villa Viçosa, já pelos creditos em que o trazia abonado o seu ministro e mordomo-mór marquez de Gouvêa. E, posto que el-rei timbrasse na rigorosa execução das leis, suspendendo agora a devassa, parecia indultar Domingos Leite por que o delicto do padre, seductor da discipula, lhe era odioso; e a circumstancia da delação dos conjurados, feita por um seu confidente, não melhorava em seu particular conceito a condição perversa do traidor.
Perguntara o rei ao marquez de Gouvêa, quando se viu forçado a dar satisfação aos boatos que manchavam a justiça dos seus executores, o que sabia de Domingos Leite Pereira e de sua mulher. O marquez respondeu que o seu secretario, desde a morte do padre, nunca mais abrira um sorriso, nem dera azo a que se lhe perguntasse coisa relativa ao seu viver domestico:
—Mas vivem com apparencia de bem casados...—observou maliciosamente o rei.
—Um viver mais horrivel que a separação com escandalo publico, real senhor!—disse o marquez.—Ha um anno sei eu que nunca mais se fallaram nem viram de portas a dentro. Tem Domingos Leite uma filha que adora. Uma vez unica me fallou da sua desgraça, bem que me não desse novidade; porque eu, antes que elle a conhecesse, já a sabia das atoardas publicas, auctorisadas pelas gabações do clerigo. Então, n'essa vez unica em que Leite Pereira desafogou commigo, lhe ouvi dizer que pensava em sahir da corte, e recolher-se a Guimarães ao amparo de seu pai; mas que o não faria sem levar comsigo a filha; receava, porém, que a mulher, irritada por se lhe tirar a filha, desse occasião a divulgar-se um opprobrio nocivo á creança que elle queria defender da deshonra da mãe. Fiz quanto pude em despersuadil-o de tal proposito, incutindo-lhe sentimentos generosos de perdão á esposa por amor da filha. Este argumento não o convenceu, antes parecia exasperal-o; pois que, a seu ver, era indigna de misericordia tal mulher que, depois de o ter enganado quanto ao seu passado, e tendo a certeza que a morte do padre ninguem melhor do que ella poderia explical-a, em vez de viver amargurada do despreso do marido, ousava estadear-se nas igrejas e nas ruas com ar de senhora honesta, ou antes de mulher despejada que despreza os malsins da sua reputação, fazendo gala da sua formosura e riqueza...
—Tenho ouvido dizer que é muito formosa...—atalhou o rei.
—Não ha em Lisboa quem lhe dispute a primasia. Nunca Vossa Magestade viu mais galante mulher, sendo a côrte da rainha, minha senhora, a mais selecta de bellas damas!
—E o seu procedimento?
—Apparentemente bom—respondeu o mordomo-mór sorrindo—Digo apparentemente, porque não sei quantos astutos velhacos deixou em Lisboa o padre Luiz, nem Vossa Magestade crê que tão sómente os mestres de meninas tem a fortuna de armar em segredo as suas aboizes a estas avezinhas innocentes; e, depois que as avesinhas uma vez deixaram pennas das azas na esparrela, hade ser difficil fazel-as entralhar sem que ellas se guardem de perder a plumagem.
—Assim parece—assentiu o rei—Seja como for, Domingos Leite andaria melhor avisado se sahisse da côrte logo que vingou no padre a aleivosia da mulher, se aleivosia houve. Mandei suspender a devassa, quando eram já declarados os criminosos. Não consenti que se prendessem porque bastante causa dera o padre a ser castigado; e, alem disso, ás cegueiras do coração e do brio é mister conceder o que não concedemos aos matadores que matam de animo frio. É tambem culpado na morte do padre, como o marquez deve saber, um Roque da Cunha, que se tem salvo á sombra de Domingos Leite, e de alguns serviços que me fez. Sei que máo homem é, desde que ha seis annos me denunciou Mathias de Albuquerque por motivos de odio pessoal. Mas este e outros eguaes membros gangrenados não os posso amputar cerces, em quanto preciso me for espiar uns infames com outros infames. Se nos não valermos de quem os conhece de intimidade, não teremos quem nos ponha de sobreaviso. Já o marquez sabe a razão porque Roque da Cunha está logrando a impunidade de Domingos Leite. Porém, desde que Ruy Pires da Veiga voltou do seu voluntario desterro e passeia em Lisboa desmentindo e affrontando o boato, que lhe assacava a morte do padre, a devassa tem de proseguir, e os reos, muito a pezar meu, hão de ser presos, se estiverem no reino. Por tanto diga o marquez ao seu secretario que se retire sem demora de Portugal; e o homem, que o serviu na sua vingança, que se retire tambem, se Domingos Leite deseja salvar o cumplice. O julgamento de Domingos Leite correrá os seus tramites, e faremos que a sentença o não prive para sempre da patria.
O marquez de Gouvêa, bem que profundamente magoado, não ousou pedir ao rei que a devassa permanecesse suspensa. D. João IV esfriava a coragem dos poucos que privavam da sua confiança, quando dava ordens com tão carregado e resoluto semblante, quanto, antes de acclamado, era com todos os fidalgos ameno de tracto e docil aos votos alheios.
Bem quizera o amigo e protector de Domingos Leite rogar ao menos a delonga da partida, e n'esse intuito começou perguntando ao monarcha se era forçosa a sahida do seu secretario ainda n'aquelle mez de fevereiro, que ia em começo.
O rei respondeu:
—É ámanhã que deve sahir; porque depois de ámanhã fecha-se a devassa, infalivelmente.
O mordomo-mór beijou a mão do rei, e sentiu no animo recondita aversão ao soberano aprumo de D. João de Bragança. Latejou-lhe talvez nas arterias o sangue castelhano de seu pai, conde de Portalegre, tronco d'aquella alta vergontea que cahiu com a corôa ducal de Aveiro sob a lamina do algoz em 1759.
Sahiu triste o ministro a encontrar-se com o secretario, em seu gabinete. Referiu-lhe o que se passára com el-rei, deplorando a fatalidade que o privava temporariamente de tão bom como infeliz amigo.
Domingos Leite ouviu a nova, com exterior de mediano sobresalto.
—Agradeço a sua magestade—disse elle—a permissão de levar commigo o homem que associei ao meu funesto desaggravo. V. Ex.ª sabe que eu me furto ás penas da justiça mais para salvar Roque da Cunha. Nada monta para mim a vida, se sou obrigado a desterrar-me, e deixar a minha filha—unico amor que me ficou ao de cima d'este abysmo em que me vejo precipitado com tantas quimeras brilhantes que me enganaram. Todo me sinto perdido, e morto, peor que morto, se heide no exilio agonisar de saudades d'aquella creancinha...
—Eu olharei por ella—consolou o marquez—Se não vier tão depressa quanto eu desejo, sr. Leite, creia que heide conseguir mandar-lhe sua filha, logo que ella esteja creada.
—Não mande, sr. marquez...—acudiu Domingos Leite.
—Que não mande?! Porque não?..
—Porque eu não sei se terei lá fora de Portugal um pão que repartir com minha filha...
—Pois vm.ce não é rico?