LUPE
Typ. Aldina—Rua Sete de Setembro 79
AFFONSO CELSO
LUPE
(Segunda edição corrigida e com um prefacio novo)
PERNAMBUCO
HUGO & C.—Editores
79, Rua do Imperador, 79
1895
A
URBANO DUARTE
E
CORRÊA DE MENEZES,
Amigos nos bons e nos máos tempos.
Dos ensaios litterarios que ultimamente tenho dado a lume, foi Lupe o que suscitou mais vivas e contradictorias apreciações.
Criticos houve, tão exaggeradamente benevolos, que de primorosa qualificaram a singela narrativa, chegando ao extremo de emparelhal-a com Cinco Minutos de José de Alencar e Graziella de Lamartine.
Outros, em compensação, a acoimaram de romancete fraco e ephemero, onde a acção se arrasta enfadonhamente, com defeitos notaveis de forma e escandalosos erros de observação.
E, conforme os habitos da terra, depois de malsinar o livro, atiraram-se desapiedados contra o autor, chamando-lhe vaidoso, ignorante, humilhador da patria lingua e quejandas amenidades.
Em consciencia, reputo-me autorisado a repetir os versos da tragedia raciniana:
.... Je n’ai mérité
Ni cet excès d’honneur, ni cette indignité!
Lupe não passa de modesto episodio de viagem, despreoccupadamente contado, sem pretenção de especie alguma.
Achei prazer em escrevel-o, e, simplesmente por isso, o escrevi.
Publiquei-o com a inoffensiva esperança de transmittir a outros uma parte d’esse prazer.
E parece que não me illudi de todo nos meus intuitos, pois duas tiragens de Lupe,—mil exemplares cada uma,—a despeito da epocha turbada em que se expuzeram á venda, dentro de breves dias se esgotaram.
Entre os senões apontados pelos censores, confesso que varios se me afiguraram justos. Corrigi-os na presente edição e me esforçarei por não reincidir.
A alguns, porém, peço venia para offerecer ligeira contestação.
—Desagrada em vossas producções,—accusaram-me,—o tom intensamente pessoal que n’ellas impéra. Falais em demasia de vós mesmo. D’ahi a pécha de vaidoso que vos assacaram.
Como o orador romano, podem n’este ponto bradar os profligadores: habemus confitentem reum.
Sim; todo o meu empenho consiste exactamente em imprimir, nos meus trabalhos litterarios a mais funda feição individual possivel.
Segundo o meu ideial,—falso talvez, mas sincero,—tanto maior se revela o artista quanto mais singular a sua obra, isto é, quanto mais se destaca da dos outros, affirmando nitidamente, por meio de suas peculiaridades, o eu de quem a criou.
Ignoro o que seja arte impessoal.
Ponderou muito bem um amigo que accorreu em minha defesa: “n’um trabalho d’arte tudo trae a mão que o fez, o cerebro que o pensou, o coração que o sentio; o cunho do temperamento individual é condição essencialissima para sua vitalidade.”
De facto, mesmo os objectivistas e impassiveis, sem embargo de quaesquer artificios, assignala-os e distingue-os essa propria impassibilidade ou objectivismo.
Quando menos, eil-os particularisados no estylo, onde cada qual, máo grado seu, estampa o seu sello original.
Até na arte photographica, que se limita á reproducção automatica das apparencias, patenteia-se a personalidade do artista na distribuição dos grupos, na selecção das posições e dos objectos photographados, em mil traços, em summa, inconscientes e caracteristicos.
—Mas,—insistirão,—escolheis assumptos excessivamente intimos. Vossos escriptos são auto-biographias. A egomania vos domina.
Retorquirei, recorrendo á autoridade suprema de Victor Hugo.
Quanto á opção das materias, doutrinou elle, (cito de memoria) no prefacio das Orientaes:
“Não reconheço á critica o direito de interpellar o poéta acerca da sua phantasia e de o increpar porque adoptou um assumpto de preferencia a outro, utilisou-se de tal tinta, colheu n’aquella arvore, bebeu em determinada fonte. É bôa ou má a obra? Eis o dominio da critica. Não ha em poesia bons ou máos assumptos, mas bons ou máos poetas. Tudo é assumpto. O dominio da arte abrange tudo. Não pesquizeis o motivo que me levou a eleger tal argumento. Examinai o como trabalhei, e não o sobre que e o porque.”
No tocante ao pretenso abuso do pronome pessoal, apadrinhar-me-hei ainda com o grande mestre, que, no proemio das Contemplações, ensinou:
“Ninguem tem a honra de possuir uma vida que seja exclusivamente sua. A minha vida é a vossa; a vossa vida é a minha; vós viveis o que eu vivo; o destino é um só. Tomai este espelho e mirai-vos n’elle. Queixosos ha dos escriptores que dizem—eu. Falai de nós,—bradam esses. Por Deus! Quando falo de mim, falo de vós. Como não o sentis!? Ah! quão insensato és se julgas que eu não sou tu. Este livro contem tanto a individualidade do autor como á do leitor. Homo sum.”
Não careço explicar que entre esta concepção da identidade humana e a do personalismo na arte nenhuma antinomia existe.
Somos todos fundamentalmente irmãos, com faculdades equivalentes, sujeitos em perfeita igualdade á acção de inflexiveis leis physicas e moraes. Mas, dentro da orbita da unidade generica, as individuações se manifestam, as aptidões variam.
Artista é o que sabe concretisar estethicamente os fructos da sua superna aptidão criadora.
Assim, em que peze aos meus illustres aristarchos, persistirei em guardar completa independencia com relação a themas e a pronomes, embora sobre mim attraia esse proposito abominaveis epithetos. Tomei, de ha muito, Job como meu mentor, em meio dos successos de nosso caro Brazil.
O meu estylo soffreu tambem duros reparos.
Arguiram-n’o de truncado, telegraphico, desigual, inçado de orações ellipticas.
Que fazer? Infelizmente, não se me depara por emquanto outro melhor.
Apezar de todas as suas mazellas, consigo com esse estylo externar o meu pensamento, tornando-me entendido da maioria dos leitores. Isso me basta. Valha-me a intenção de buscar maxima clareza e concisão seguindo a regra estylistica formulada por Spencer:—poupai o tempo e a attenção de quem vos lê.
N’esta quadra de palavriado torrencial, deve-se indulgencia aos que ambicionam furtar-se ao words! words! do principe dinamarquez.
Iriel, o finissimo chronista parisiense do Jornal do Commercio, occupando-se de Lupe com inexcedivel gentileza, que me penhorou e desvaneceu, observa, entretanto, que a protogonista se exprime n’uma linguagem emphatica e declamatoria.
—Ella não conversa, discursa,—diz o meu eminente confrade,—o que constitue nota discordante e desagradavel.
Mas na maneira empolada de se expressar residia um dos tics, naturaes ou affectados, da joven mexicana.
Muito de industria, mantive simelhante diapasão por parte d’ella nos dialogos relatados, para dar ideia fiel da minha heroina.
Concluindo este pequeno cavaco, cumpro o dever de manifestar varios agradecimentos.
Agradeço, em primeiro logar, ao publico fluminense a nimia generosidade com que tem acolhido os meus escriptos. Continuarei a trabalhar com crescente esmero e escrupulo, a fim de me mostrar digno de tamanho favor.
Agradeço á imprensa as noticias publicadas sobre esses escriptos.
Sou reconhecido ainda ás menos favoraveis, comtanto que haja bôa fé e polidez. Prefiro juizos severos, que emendam e estimulam, ao silencio calculado da má vontade, o qual, com offender, desanima.
Agradeço finalmente ao meu bom editor e amigo, Sr. Domingos de Magalhães, o verdadeiro carinho que dispensa a meus livros, julgando-os merecedores de luxuosos requintes typographicos.
As primeiras tiragens de Lupe, feitas em typo mingon na afamada casa Leuzinger, foram um mimo.
Não lhes fica somenos a actual, confiada á Typographia Aldina.
E, consoante velha usança:
—Vale, amigo leitor!
Alto da Serra, (Petropolis) 1 de Agosto de 1894.
A. C.
Frisco
I
Muito triste a minha partida de S. Francisco da California,—Frisco,—segundo o dizer vulgar dos respectivos habitantes.
Eu passara alli uma semana, no maior isolamento.
Com obsequioso interesse, o consul geral do Brazil nos Estados Unidos, Salvador de Mendonça, me havia recommendado ao seu agente n’aquella cidade, Mr. J. L. M. Randolph.
Dispensara-me este a inexcedivel amabilidade dos americanos, quando condescendem em se mostrar affaveis.
Mas era um negociante occupadissimo, sempre ás carreiras, para quem constituia séria contrariedade o desperdicio de um minuto.
Morava no Cosmos-Club com varios rapazes celibatarios, quasi todos empregados no commercio.
Obteve a minha admissão, como socio temporario, n’esse club, luxuosa e confortavelmente installado; offereceu-me ahi excellente jantar, regado de saborosos e variegados vinhos, fabricados sem excepção na California, inclusive o champagne e o porto; presenteiou-me com minucioso guia illustrado da povoação; forneceu-me concisamente preciosas informações, de perspicassissimo cunho pratico, sobre tudo aquillo de que poderia precisar um viajante na minha idade e condições (eu entrara então nos 24 annos); e, abalando-me os ossos n’um formidavel shake-hands, concluio, ao entregar-me o seu cartão de visita, em cujo dorso se alinhavam algarismos manuscriptos, semelhando uma taboada:
—Sinto não me ser dado acompanhal-o sempre, mister Cilso. Eis aqui os numeros telephonicos deste club, onde durmo; do escriptorio onde trabalho; do bar, onde bebo; do bilhar onde jogo; da egreja, onde rezo; do centro politico, onde discuto; das casas de cavalheiros e damas que frequento. Em precisando de mim, a qualquer hora do dia ou da noite, chame-me desassombradamente e accorrerei logo, cheio de prazer, para lhe prestar serviços. E good bye, my dear, good bye...
Assim, eu visitara sosinho as curiosidades locaes, vivendo dias inteiros sem conversar com quem quer que fosse.
Em 1845, S. Francisco, a antiga Yerba Buena dos mexicanos, contava 1.500 moradores; accusa o recenseamento ultimo cerca de 300.000.
Valle entre morros parallelos, entremeado de outeiros, com o seu magnifico porto e as suas casas brancas, guarnecidas ordinariamente de varandas, trasbordantes de plantas tropicaes, nota-se em sua physionomia algo da do Rio de Janeiro.
Mas as ruas são ali mais largas e limpas, usando commummente numeros em logar de nomes; os edificios mais altos; o typo architectonico mais extravagante; a população mais heterogenea e vivaz, talvez offerecendo ainda vestigios dos audaciosos aventureiros de que descende. Em compensação menos grandiosa do que a nossa a natureza, somenos a perspectiva, e inferior a bahia em extensão, magestade, segurança e bellezas naturaes.
Entre as construcções normaes de Frisco, destacam a miude torres, cupulas, columnatas. Causa surpreza a infinidade de fios telegraphicos suspensos em póstes e nos telhados. Galgam ingremes collinas filas de bonds movidos por um cabo metallico que róla occultamente dentro de apertado tubo, no meio dos trilhos, abaixo do nivel do caminho. Por meio de um apparelho em forma de pinça, o vehiculo se engata facilmente no motor.
Interessante a enseada, na qual ancoram navios tripolados de gente extranha, oriunda de mysteriosas regiões asiaticas.
A communicação com o pleno mar faz-se, como na capital brazileira, por estreito corredor,—porta de ouro (Golden Gate) chamado.
Descortina-se d’esse ponto esplendido panorama,—feliz combinação de ilhas, montanhas, planicies, agglomerações caprichosas de predios, sob amplissimo horizonte assiduamente colorido de violentos e sumptuosos matizes.
A originalidade de S. Francisco, porém, reside no seu quarteirão chinez.
Em todos os angulos da cidade cruzam com o transeunte filhos do celeste imperio,—olhos obliquos e microscopicos, cara redonda, cutis bronzea, maçans do rosto salientes, vestuarios soltos e vistosos, chapéos de sol de côres vivas, sapatos de páo, cabeça raspada a meio, longo rabicho fluctuante ou enrolado no pescoço. Andam dois a dois, lentos e impassiveis. A sua presença dá incisivas notas exoticas à multidão banal.
Mas cumpre, para devidamente aprecial-os, percorrer o bairro especial que occupam.
Imaginai dilatado labyrintho de viélas sujas, esguias, tresandando olores acidos, que irritam a pituitaria, ladeiadas de edificações excentricas, coalhadas de inscripções estapafurdias e de estramboticos objectos, onde pullulam representantes da raça amarella em todos os recantos, n’um indizivel formigamento, emquanto cães e gallinhas remechem tranquillamente montes de lixo abandonados ás portas...
Todavia, apresentam-se excellentes as condições sanitarias d’esse perimetro, a despeito do desaceio e da incrivel promiscuidade que n’elle dominam.
Milhares de creaturas humanas alli se empilham, exercendo toda sorte de industrias e profissões. O Globe Hotel acommodava em 50 aposentos acanhados mais de 1.600 chins.
E são ordeiros, resignados, sobrios, pessoalmente limpos, habilissimos, refractarios a epidemias, respeitadores das autoridades, de extraordinaria aptidão para qualquer trabalho, inflexiveis na observancia de suas usanças e tradições. Vivem n’aquella circumscripção como em seu proprio paiz. Os materiaes de certas moradias,—blocos de granito finamente lavrados,—vieram inteiros da China, preparados de modo a se armarem promptamente.
Restaurantes, assignalados por enormes disticos vermelhos, e innumeraveis lanternas de papel na fachada, e onde se servem inverosimeis iguarias em maravilhosa louça de porcelana; artisticos salões de chá; templos de diversas seitas, nos quaes se adoram divindades de interminaveis bigodes; casas de exquisitos jogos; theatros em que se desenrola durante mezes o entrecho da mesma peça militar; reductos clandestinos para fumadores de opio; lindas lojas de sedas e artefactos de ebano embutido; medicos que só recebem honorarios quando o cliente goza saude e os perdem se este adoece:—as mil peculiaridades caracteristicas do immenso estado mongolico, encontram-se no centro de S. Francisco, emergindo da espurcicia extrinseca, de Pacific street a Sacramento street, verdadeira incrustação de perfeito fragmento do Oriente n’um activo nucleo de civilisação norte-americana.
Bastaram-me oito dias para examinar attentamente tudo isto.
Satisfeita a anciedade de touriste, urgia-me partir para diante. Tomei passagem no Colima, velho vapor de uma companhia de cabotagem entre os Estados Unidos, Mexico, America Central e Panamá.
Intensa melancholia, ao embarcar. Ia aventurar-me n’uma viagem, tentada por poucos brazileiros: as costas do Pacifico até ao estreito de Magalhães, tocando, além das regiões já mencionadas, no Equador, Perú, Chile e Patagonia.
Eu sahira do Brazil na direcção do norte. Visitara Bahia, Pernambuco, Maranhão, Pará, Barbadas, S. Thomaz, antes de chegar a Nova-York. Atravessara o continente, depois de percorrer o Canadá, na grande linha ferrea que liga os dois oceanos. Regressando ao Rio de Janeiro, com escala em Montevidéo, traçaria enorme circulo em torno da America.
Iniciava-se agora a phase mais penosa do trajecto. Até então vinham-me noticias constantes da familia; não raros compatriotas se me deparavam; promptos seriam, em centros que mantêm frequentes relações com o Brazil, o regresso e os soccorros, se necessarios.
Mas, de ora avante, Guatemala, Honduras, Costa-Rica me apartariam absolutamente da patria, alheia em tudo a esses paizes. Era entranhar-me no desconhecido, destituido de qualquer amparo natural, sem o menor ponto de apoio affectivo, cada vez mais separado dos meus.
—Que será de mim, adoecendo? Se me achar privado de recursos materiaes? Se fallecer inopinadamente?! Que de difficuldades para que os meus amigos e parentes venham a descobrir o paradeiro de meus despojos!...
D’estas proprias reflexões, comtudo, provinha-me singular encanto. Acariciava-me a imaginação a possibilidade de conhecer, sob a imminencia do perigo, novos aspectos de homens e cousas.
Em pé, no tombadilho do Colima, prestes a levantar ferro, eu contemplava um alteroso paquete, atracado, como aquelle, a uma dóca. Entrara horas antes de Yokohama. Agitava-se no interior d’elle multidão compacta,—typos de oppostas raças, semblantes e trajos disparatados.
O espectaculo enleiava-me a attenção.
Bateram-me, porém, no hombro.
Era Mr. Randolph que tivera a gentileza de roubar alguns minutos aos seus affazeres para se despedir de mim.
Com a habitual presteza, dentro em pouco, apresentou-me elle ao commandante, recommendou-me ao commissario, presidiu á collocação das minhas malas no camarote escolhido, ministrou-me dados estatisticos sobre a marcha do navio, duração do percurso, logares em que parariamos para carregar ou descarregar.
Quasi ao se retirar, murmurou sorrindo:
Fui informado de que terá uma agradavel companheira, graças á qual a travessia lhe parecerá curta.
—Quem?
—A celebre Miss Lupe Hedges que, depois de haver imperado em S. Francisco, como soberana da moda e do bom gosto, perdeu a realeza e recolhe-se, em companhia da mãe, a Acapulco, sua terra natal. Mister Hedges, o pai, um agente de cambio, antigo caixeiro viajante, vivia com inaudita opulencia. Consideravam-n’o riquissimo, posto ninguem explicasse satisfactoriamente a origem de seus cabedaes. Fulminou-o ha perto de dous mezes uma apoplexia. Deu-se-lhe balanço. Completamente insolvavel, meu caro; só legou aos herdeiros incommensuraveis dividas. Os credores tomaram quanto a familia possuia. Colossal ainda assim o prejuizo. A viuva e a filha, habituadas ao maior luxo, reduzidas inesperadamente á penuria, não se afazendo a vegetar n’uma posição modesta na terra em que sobrancearam, resolveram regressar ao patrio ninho. Mudam-se para o Mexico, donde Hedges as trouxera ha annos e onde possuem um parente empregado do governo, ao que dizem.
—Que casta de gente é?...
—Oh! Summamente aprazivel a moça.
—Apenas isso?
—Que mais deseja um rapaz que viaja?—inquirio o meu interlocutor. Trate de captar a amizade de Lupe e não se arrependerá. Aposto que entreterá com ella optimas relações. Rosna-se por ahi muita cousa,—casa de jogo mantida por Hedges e da qual a filha constituia o principal chamariz etc., etc. Mas eu não acredito. Em summa...
N’isto, ouviram-se toques de sineta, seguidos de um apito surdo do vapor. Observava-se a bordo a lufa-lufa da partida immediata.
Mr. Randolph, sem terminar a phrase, segurou-me a dextra, sacudindo-a vehemente.
—Adeus... adeus... exclamou. Bôa viagem. Divirta-se. Confio em que levará excellentes impressões da nossa gloriosa nação.
E sumiu-se de prompto, no meio das pessoas que desciam apressadamente a escada do portaló.
Breve o Colima desligou as amarras e desprendeu-se lento de terra, n’uma suave manobra.
Já se cavava regular intervallo entre elle e o caes, quando surdio n’este, correndo esbaforido, um joven chinez. Trazia na mão um papel e fazia gestos desesperados a outro chinez que da prôa do navio lhe respondia, com acenos igualmente furiosos. O espaço intermediario augmentava a cada segundo. Então o chinez que ficava apanhou bruscamente uma pedra no chão, envolveu-a no papel e arremessou-a esforçado ao chinez que partia. Grande, porém, a distancia interposta. O projectil descreveu no ar um arco de circulo e cahio n’agua, submergindo-se. Soaram gargalhadas.
No rosto amarello do arremessante transpareceu profunda magua. Poz-se a chorar. Nada mais engraçado do que um chinez chorando. Dos olhinhos sardonicos saltitavam-lhe lagrimas, na apparencia differentes das nossas, emquanto os traços se lhe amarfanhavam n’uma inconcebivel careta.
Sentirão elles como nós? Serão identicas ás que nos impellem as suas paixões? Corresponderá á dissemelhança physica um contraste moral? Não revestirá o desgosto d’elles, bem como a alegria, formas e expressões caracteristicas, de accordo com as feições e vestuarios? Haverá raças d’almas,—tartaras, ethiopes, japonezas, diversas das européas e americanas?!...
Um corcóvo do navio cortou-me as cogitações. Sahiamos barra fóra, atravessando Golden-Gate.
O Colima entestara com o pleno oceano. Ao primeiro embate, curveteava. Diante de nós se desdobrava até roçagar no firmamento o chamalóte verde das vagas.
Máo exordio
II
De subito, soaram a meu lado estas palavras proferidas em inglez por alguem, cuja approximação o ruido da helice tornara despercebida:
—Não ha, nem póde haver no mundo paizagem maritima mais arrebatadora...
Voltei-me. A dois passos de mim, bonita rapariga, morena e elegantissima, trajando rigoroso lucto, fitava com um binoculo os planos longinquos da agua e do céu. Alta, nervosa, esbelta, graciosamente petulante. Mas das linhas de seu rosto algo de desconforto resumbrava. Na commissura dos labios lobrigava-se-lhe o vinco das decepções.
Ao cabo de minutos, como eu não respondesse, repetiu em hespanhol, dirigindo-se directamente a mim:
—Não acha, cavalheiro, ser impossivel na natureza perspectiva superior a esta?!
—Perdão, repliquei. Julgo com effeito admiravel o espectaculo que presenciamos. A bahia do Rio de Janeiro, porém, excede incomparavelmente em bellezas a de S. Francisco.
—Que bahia?!... indagou ella, qual se não houvesse apprehendido o nome.
—A do Rio de Janeiro, capital do Brazil.
—Ah!... Pertence porventura o cavalheiro a semelhante terra?... murmurou com surpreza satyrica, depois de ligeira pausa.
Á minha affirmativa, a desconhecida guardou lentamente o binoculo no estojo pendente a tiracollo, e saccou do bolso uma d’essas lunetas encaixilhadas em tartaruga, que tem longo cabo perpendicular aos vidros. Limpou com o lenço devagarinho esses vidros e, em seguida, assestou-os sobre mim, mirando-me da cabeça aos pés, como se eu fôra um animal raro.
Supportei imperturbavel o impertinente exame, fixando a pesquizadora sem pestanejar.
Ao fim, soltando uma risada:
—Pois ninguem acreditaria,—declarou,—que o cavalheiro nascesse no Brazil. Está bem certo d’isso?...
—Como assim?!...
—Eu suppunha que o Brazil só produzisse negros e selvagens.
—Enganou-se, como vê. Em geral, ignoram a minha patria no estrangeiro, ou não tributam a devida justiça á sua civilisação.
—Eu conheço perfeitamente o Brazil,—interrompeu ella. É uma zona extensissima, cheia de florestas, na qual o vomito preto dizima os indigenas, onde perdura a barbaria da escravidão e governa patriarchalmente ha 50 annos um velho rei, muito sabio e bom...
—Illude-se ainda,—retorqui friamente. O Brazil é um paiz civilisado, o mais civilisado e prospero da America Latina.
Ella desfechou uma grande gargalhada insolente, mostrando soberbos dentes agudos e alvissimos.
—Lá, pelo menos,—terminei, a voz um tanto acre,—as mulheres costumam ser discretas e os homens sabem ser polidos.
Com a arrogante luneta, novamente a desconhecida submetteu-me a demorada investigação.
Curvou-se, depois, n’uma mesura ironica, exclamando:
—Cavalheiro, humilde servidora de usted...
E afastou-se, erecta e airosa, n’um passo de rainha.
Fiquei só, e, sem saber porque, furioso commigo mesmo.
Certo, eu acabava de conversar com a celebre Lupe, de quem fallara Mister Randolph.
Ao envez do que este annunciara, não se antolhavam propicias as nossas relações.
Spleen
III
Tornou-se-me insupportavel a infundada irritação contra mim proprio. Achei-me desasado e estupido. Acudiam-me, infelizmente um pouco tarde, numerosas replicas felizes que haveriam determinado no espirito da desconhecida indelevel e suave impressão.
Virou-se após a hostilidade do meu máo humor para a natureza e objectos circumjacentes.
—A fallar a verdade,—raciocinava eu, em soliloquio intimo,—não vale absolutamente a pena abalar-se um mortal do seu lar com o intuito de conhecer o famigerado Oceano Pacifico! Que formidavel decepção! O Pacifico é isto!... Em nada dissemelhante do Atlantico:—identicos movimentos monotonos, perfeita uniformidade de apparencias, as mesmas immundicies, igual immensidade entediadora e inutil... De que lhe serve constituir a mais avultada massa liquida do globo, ser chamado Grande Oceano, Mar Amarello, Mar do Japão, Mar de Bhering, Mar das Indias, banhar a Australia, a China, a Coréa, o Tonkin, Sião, as ilhas Sandwich, as mais antigas e legendarias plagas, recolher o tributo de um rio denominado Amor, estender-se entre quatro continentes, espelhar cataclysmos de centenares de cratéras, elaborar constantemente novos bancos de coral, se nem se descrimina á primeira vista de outras vulgares planicies aquaticas, não proporcionando sensações especiaes,—méra cousa chata, banal, destituida de individuação, desesperadoramente commum!... E assim tambem os homens de todos os seculos e raças!... Glorioso imbecil o tal Fernão de Magalhães, perlustrador inicial do dito Oceano. Occorria-me sob rebarbativo aspecto a chronica do ousado navegante. Com effeito, abandonar a patria; arrostar com 230 homens as furias de incognitas ondas; arcar com sedições de equipagem, provocadas pelo frio e insoffriveis rigores; largar, á guiza de punição, em praias virgens os companheiros rebeldes; vêr a sua frota reduzida a tres navios; aportar ás Philippinas, cerca de quatro mezes depois de atravessar o estreito a que legou o nome; guerrear ao lado do rei Zebú, commandando simplesmente 56 compatriotas superstites; morrer, emfim, assassinado a pedradas no archipelago malasio, emquanto apenas dezoito sobreviventes da expedição logravam volver á Hespanha, communicando ao mundo a effectividade da primeira viagem de circumnavegação, na qual despenderam tres annos e quatorze dias,—tudo isto prova unicamente até que desvairadas aventuras se póde arrojar a ambição humana!...
E quão detestavel o vapor que me conduzia! Que desaceiado e ronceiro, proprio para arvorar o pavilhão de alguma potencia barbara, e indigno da bandeira estrellada que lhe tremulava á pôpa!
N’uma allucinação pessimista, eu encarava o universo pelo prisma de Schopenhauer. Arrependia-me de ter embarcado; revoltava-me por haver nascido. A capricho infernal de divindade perversa attribuia a creação. Amargos protestos fervilhavam-me n’alma, sequiosa da paz imperturbavel do nada.
Debatendo-me em tamanha amargura (oh! como punge, aos vinte e quatro annos, o remorso de ter offendido uma formosa mulher!) não ouvi a campainha annunciadora do lunch.
Foi preciso que um steward, o qual, consoante os estylos, embolsara previamente manifestações sonantes da minha munificencia, viesse solicito inquirir se eu me sentia enjoado.
E nauseas realmente me agitavam,—mas d’esse enjôo moral, peculiar aos tripolantes do “navio que Deus na Mancha ancorou”—o intraduzivel spleen.
Os passageiros do Colima
IV
Graças á recommendação de Mister Randolph, o commandante do Colima me reservara á sua direita o primeiro logar na meza das refeições.
Em frente a mim, sentava-se a minha interlocutora de momentos antes.
Seguia-se-lhe uma senhora de certa idade, severa e secca, trajos de viuva, cabellos negros e duros de cabocla,—a mãi da precedente.
Raros os mais passageiros, que mal occupavam as poltronas fixas do refeitorio.
Facto curioso a rapidez com que se estabelecem intimidades a bordo. Bastam poucas horas de convivio para que se tratem como se de muitos annos mantivessem relações todos quantos a sorte congrega n’uma excursão maritima.
Sabem-se logo e insensivelmente nomes, posições sociaes, projectos, cabedaes, particularidades de cada um. Trocam-se confidencias: ligações se produzem, derivadas talvez da solidariedade inconsciente dos riscos communs.
Não terminára o lunch e eu já possuia informações precisas sobre os meus companheiros.
Era effectivamente Lupe a gentil mexicana de fronte de mim.
Senorita Lupe chamavam-lhe em castelhano. O commandante dizia reverente—Miss Hedges.
Do sexo feminino havia apenas, além desta: a sua progenitora, a supra-dita viuva; Miss Jackson, velha americana, de oculos e bandos, socia do club exoterico de Nova York; e D. Maria Augusta Gordó de Zorraquinos, hespanhola, mulher de um commerciante de Guatemala. Quarentona a ultima, gorducha, o cabello complicadamente penteiado, illuminada pelos reflexos posthumos de fenecida boniteza.
Ao pé das tres matronas, avultavam intensamente a graça e a mocidade de Lupe.
Representantes masculinos enumeravam-se: um judeu allemão, negociante de joias; um engenheiro hollandez, por nome Pfeiffer, empregado nas obras do canal de Panamá; dois inglezes feios e insignificantes; e o insulso annotador d’estas linhas. Em terceira classe, amontoavam-se á prôa trabalhadores para as mencionadas obras, entre os quaes muitos chinezes.
Instruiram-me tambem desde cedo sobre a origem da exquisita designação—Lupe. Simples abreviatura de Guadalupe, localidade mexicana famosa por varios motivos. Encerra ella um sanctuario, que ha quatro seculos attrahe sem cessar fanaticos peregrinos. Milagrosa imagem effectuou ali, á semelhança de Lourdes, repetidas apparições, sendo a primeira, pouco depois da conquista hespanhola, a um indio recemconvertido. É Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira do Mexico. Foi no mesmo sanctuario que se tramou o movimento de independencia contra a dominação castelhana, capitaneado pelo cura Hydalgo.
O estandarte da revolta arvorava a imagem da santa. Guadalupe—Hidalgo denomina-se hoje a cidade.
Ao ser acclamado imperador, instituio o general Agostinho Iturbide, em 1822, a ordem nacional de Guadalupe, supprimida com o seu ephemero imperio e restabelecida, em 1864, por Maximiliano. Muito commum em mulheres mexicanas o nome baptismal Guadalupe, tal como Laffayette (pronuncia-se Lafahitte) nas dos Estados Unidos.
A graciosa alcunha Lupe evocava, portanto, idéas de revolução, liberdade e fé.
A sua sonoridade incisiva, de sabor a um tempo avelludado e acre, quadrava maravilhosamente com a estranha creatura que a usava. Parecia antes rebuscado adjectivo adrede escolhido para a qualificar e determinar. Nos labios della propria as duas syllabas de Lupe adquiriam encanto ineffavel. Proferindo-as, ella estendia a bocca em fórma de bico, como se fosse dar um beijo; e o som se exhalava voluptuoso, acariciando o ouvido, electrisando deliciosamente os nervos dos presentes, qual offego supplice de amor.
Durante a collação, ora em hespanhol, ora em inglez, Lupe dirigio a palavra a todos os circumstantes, menos a mim. Scintillante e escarninha affigurou-se-me a disposição de seu espirito. Ligeiramente aggressivas as phrases que articulava.
Mais de uma vez senti que me fitava de soslaio. E o seu olhar produzia a sensação de uma alfinetada subtil.
Encarquilhada e macambuzia, guardava a mãi obstinada reserva. Mas, de quando em quando, a alguma mordacidade da filha, sorria silenciosamente, exhibindo eburnea dentadura.
No correr do dia, não mais me encontrei com as mexicanas, recolhidas ao camarote. Á hora do jantar Lupe demorou-se. Appareceu, já iniciado o serviço, penteiada de festa, o vestido negro quasi decotado, ar cerimonioso, flores na abertura do seio.
Permaneceu, como no lunch, calada para commigo, emquanto entabolava vivaz conversa com os mais, sem excepção. Extraordinaria, decididamente, a sua maliciosa verve esfusiante.
Ao nos levantarmos, disse-me bruscamente:
—Dom brazileiro, queira ter a galanteria de me offerecer o seu braço.
Obedeci surprehendido. Subimos ao convez. Suavissima a noite; juncado o céu de constellações. O Colima arfava languido sobre ondas placidas. O Pacifico justificava o seu titulo. Singrava o navio entre alas de phosphorescencias; dir-se-hia arrastar longa cauda de flóccos argenteos; e tremeluziam-lhe lanternas nas vergas altas,—avançadas atalaias de luz.
Lupe embuçou a cabeça e os hombros n’uma mantilha, cujas franjas escuras lhe sublinhavam o resplendor do olhar. Reclinou-se, quasi deitada, n’uma chaise-long, conchegando aos pés espessa manta escosseza. Indicou-me depois, com imperativo gesto, cadeira igual ao lado d’ella.
Houve pequeno silencio.
—Falle-me do seu paiz, dom brazileiro,—murmurou por fim. Falle-me longamente. Veja se consegue effeitos de eloquencia. Acalente-me ao som de mavioso hymno á sua terra, que parece amar tanto.
Salve, Brazil!
V
Nunca, oh! minha patria, mais ardente e commovida apologia se ergueu ainda aos teus primores...
Excitava-me tudo o imaginar.
A noite, povoada de magicos fluidos, a suggestão romantica das vagas, a proximidade d’aquella bonita mulher, tão nova e provocante, de comprazer a qual me nascia vehementissima ambição, infiltravam-me de dulçuroso calor communicativo o pensamento e a voz.
Foi longo o colloquio; de proposito o procurei demorar.
Comecei repetindo o conceito externado sobre o Brazil por Amerigo Vespucci n’uma de suas cartas: se nel mondo é alcun paradiso terrestre, senzá dubio dee esser non molto lontano da questi luoghi.
Descrevi a extensão do nosso territorio, pouco menos vasto que o do continente europeu, superior aos da China e da Russia propriamente ditas, no qual a menor circumscripção provincial—Sergipe—sobreleva a Dinamarca, a Hollanda, a Belgica, S. Salvador, onde a maior—Amazonas,—contem municipios excedentes a Portugal, Grecia, Suissa, e em cujas aguas uma só ilha,—a de Marajó,—sobrepuja as da Madeira, Heligoland e Malta reunidas, territorio parte inexplorado ainda, que, em sendo habitado como o é o belga, conterá mais gente que na actualidade a superficie inteira do orbe.
Pintei a nossa incomparavel natureza, com seu aspecto nivelado e calmo, desprovida de culminancias e abysmos ameaçadores, sem cratéras activas nem vestigios siquer de apagados vulcões, a amena variedade de seus climas, a ausencia total de cataclysmos, terremotos, seccas prolongadas, innundações; o nosso systema hydrographico completo, o estupendo numero de lagos, regatos e rios navegaveis, entre os quaes o gigantesco Amazonas, soberano fluvial do mundo, com cerca de seis mil kilometros de curso, contando uma caterva de affluentes, tambem collossaes; o nosso littoral dilatadissimo, destituido de nevoeiros, cachopos ou quaesquer perigos, abrangendo dezenas de magnificos portos sempre abertos, e a bahia de Guanabara, a mais bella, ampla e segura do universo; a exuberancia indescriptivel de nosso sólo, a sua prodigiosa flóra, fecunda, ao mesmo tempo, na phrase de um viajante, em cedros sobranceiros aos do Libano, em flôres enormes, (como a Victoria-Regia, que fluctúa sobre o mencionado Amazonas, a maior até hoje conhecida, igual em dimensões a uma canoa, com folhas redondas, capaz cada qual de suster um menino)—em orchideas phantasticas, obras-primas de rendilhadas formas, matizes e olores, em plantas ornamentaes, alimenticias e medicinaes de infinitas especies, em fructas de imprevistas conformações artisticas, satisfazendo as mais requintadas exigencias do paladar, e em florestas de preciosas arvores tão densas que se lhes poderia andar firmemente por cima das cópas entrelaçadas; a nossa fauna opulenta, apresentando inestimaveis specimens, desde o jaguar, mosqueado de azeviche e fulvo, até o célere veado, as borboletas polychromas, os radiantes colibris, fragmentos animados do arco-iris, e mil outros passaros encantadores, verdadeiras joias volantes, portadores de aérias harmonias; a nossa magnificencia geologica,—jazidas incommensuraveis de ferro, cobre, crystaes, amethystas, topazios amarellos e roseos, turmalinas, marmores brancos e verdes de delicadissimos matizes, montanhas revestidas de talco e mica, fulgindo como se fossem de ouro, veios d’este metal e depositos de diamantes, profusos ao ponto de haver, conforme observação de um sabio, uma região, mais extensa do que a França, chamada Minas Geraes e cidades denominadas—Ouro Branco, Ouro Preto, Ouro Fino, Diamantina; o nosso firmamento, emfim, perpetuamente risonho, trasbordante durante o dia de gloriosa claridade, coalhado, á noite, de astros fascinadores,—relicario sublime de um cruzeiro formado de estrellas...
Demonstrei que eramos a primeira nação latina do Novo Mundo, dispondo de recursos inexgotaveis, em pleno progresso commercial, industrial e agricola, fabricas surdindo activamente, fios telegraphicos e estradas de ferro annulando cada hora as distancias, a instrucção se expandindo n’uma ascenção rapida e estavel, a riqueza publica augmentando, a immigração estrangeira affluindo em escala assombrosa, o credito nacional cotado a par do dos mais prosperos estados, o governo e os proprietarios libertando os escravos remanescentes no meio de festas, elevando-os desde logo ao nivel de cidadãos, sem preconceitos de raças, aristocracias de sangue ou dinheiro, nem distinções de côr.
Referi-me ás particularidades de nossa zona, aos seringaes, á baunilha, ás selvas de cacáo e café, aos peixes electricos, ás palmeiras alevantadas e iguaes como columnas de fina architectura, aos cursos d’agua doce que luctam com o oceano e penetram indomaveis por elle a dentro, ás cachoeiras rivaes do Niagara, ás grutas encantadas com decorações inimitaveis de stalactites e stalagmites, ás fontes thermaes extensamente espalhadas, á primavera perpetua da vegetação, ás lianas textis, ao cipó do caçador que fornece um liquido edulcorado e fresco, ás madeiras de construcção mais resistentes que o bronze, á terra roxa de uberdade pasmosa, á arvore do pão, aos pampas, ás mattas virgens...
Recordei o juizo manifestado por excursionistas illustres sobre o Brazil:—Saint-Hilaire declarando que a Minas seria licito segregar-se do resto do mundo, pois encontraria em si propria tudo quanto pudesse necessitar; Agassiz commemorando em phrases enlevadas a sua missão scientifica ao imperio sul-americano; Darwin qualificando-o de grandioso; Humboldt presagiando que residiria n’elle o nucleo da civilisação futura; Martius pedindo que sobre o seu tumulo se collocassem folhas de palmaceas brazileiras.
Enumerei os costumes singelos e bons do povo, a sua perfeita tranquillidade, espirito hospitaleiro, habitos patriarchaes, tolerancia absoluta para com quaesquer crenças e opiniões, tendencias humanitarias, ausencia de separações sociaes, facilidade de accesso aos mais altos cargos, disposições para o progresso, amor ao bello, desconhecimento de exageros patrioticos e exclusivismos bairristas, inteira segurança, independencia e liberdade, faculdades estheticas, reveladas na arte plumaria dos autochtones, em geniaes artistas incultos, como o Aleijadinho, no geral apreço da melodia, nas verdadeiras notabilidades produzidas, a despeito de influencias depressoras e falta de educação conveniente, em litteratura, pintura, esculptura e musica.
Esbocei, em seguida, os episodios salientes dos nossos fastos, limpidos e serenos, quaes os de uma raça eleita de Deus: a descoberta suave da Terra da Vera Cruz; as legendas de Caramurú, Moema e Paraguassú: inglezes, francezes, hollandezes e hespanhóes disputando a posse da nova colonia; as proezas de Henrique Dias, o negro, e de Camarão, o indio, na guerra dos trinta annos; as figuras santas de Nobrega e Anchietta; a intrepidez epica dos bandeirantes e dos garimpeiros, appellidados viradores de rios e homens-diabos pelos indigenas; Amador Bueno recusando uma corôa de rei; as luctas tremendas contra os elementos para a conquista do sertão; a campanha dos Palmares, em que o chefe dos pretos revoltados, o Zumbi, Spartacus americano, prefere ao captiveiro e á ignominia da derrota despenhar-se com os seus melhores auxiliares do cume de alcantilada montanha; Alexandre de Gusmão, inventando os areostatos; Antonio José da Silva queimado pela inquisição; Tiradentes, capitaneando uma legião de inspirados poetas, que sonhavam a independencia da patria, executado como um martyr; o Rio de Janeiro capital da monarchia portugueza, acossada da Europa pelas armas napoleonicas; a emancipação politica facilmente adquirida; D. Pedro I, o fundador do imperio, expulso por haver attentado contra as liberdades publicas; a posição excepcional d’este principe, abdicando de dois diademas sobre a cabeça de dois filhos infantes, deixando o primeiro entregue aos cuidados de uma revolução victoriosa,—que acolhe maternalmente a creança como a loba latina os filhos de Rhéa Sylvia,—e indo sustentar os direitos do segundo, uma menina, com armas na mão, até implantar o regimen liberal na velha Luzitania; o reinado semi-secular de D. Pedro II, intitulado por Victor Hugo o neto de Marco Aurelio, o soberano sabio, modesto, abnegado, emulo de Numa Pompilio e de Washington, reinado durante o qual o Brazil effectuou immensos adiantamentos pacificos, impôz-se á admiração do orbe policiado como modelo digno de imitação, ao ponto de frequentemente ser escolhido arbitro supremo das contendas de pujantes nacionalidades, só emprehendeu guerras externas no intuito cavalheiresco de libertar visinhos irmãos de aviltantes tyrannias, e, no meio das convulsões politicas e sociaes de quasi todos os póvos, gozou de venturosa paz interna, comparavel á das culminações luminosas da historia, percorrendo as mais melindrosas phases do seu evolver de modo predestinadamente feliz, mostrando assim ter jus á primazia da raça latina no porvir, abrigar em seu seio as sementes dos vindouros ideiaes da humanidade, ser o prototypo superno em proximos seculos da civilisação e da gloria universaes...
Muito tarde quando terminei. Só o ranger das machinas e o zunir do vento nas enxarcias quebrava o silencio que envolvera o Colima.
Lupe ouvira attenta, interrompendo-me a trechos com breves perguntas sobre pontos que mais especialmente a interessavam.
—Falta um esclarecimento,—observou, levantando-se.
—Qual?
—Não revelou ainda se as mulheres brazileiras são bellas.
—Sim: rivalisam algumas com as mais formosas do mundo.
—E sabem amar?
—Não existem mães, esposas e irmans mais affectuosas e meigas. Logo apóz a descoberta, o portuguez Ramalho desposou uma brazileira indigena, filha do cacique Tibiriçá e foi felicissimo. Garibaldi casou-se em primeiras nupcias com uma brazileira, a intrepida Annita, que summamente auxiliou o heróe no começo de sua carreira.
—Não é isso,—bradou, cortando-me a phrase. Pergunto se as mulheres brazileiras comprehendem o amor, se são capazes de todos os divinos desvarios da paixão...
—Sim... creio que sim...—balbuciei.
—Como sabe?!
Não respondi immediatamente, surprehendido com interrogativa tão extranha. Ella soltou uma risada.
—Bôa noite, dom brazileiro,—disse, afastando-se. Basta para primeira conversação. Todos já dormem a bordo. Cumpre evitar commentarios de más linguas...
De longe, acenou-me com a mão e desappareceu.
Eu fiquei ainda largo tempo passeiando sózinho no tombadilho, a olhar absorto para as nuvens e as ondas, perdido em incoherente scismar.
Filha e Mãi
VI
Complicado temperamento o da joven mexicana! Quem só lhe notasse os modos desenvoltos, as sahidas inconsideradas na conversação, a peraltice de certos accessorios do vestuario, a insolencia menos nativa que estudada, predicados communs, aliás, na livre educação femina dos yankees, tomal-a-hia naturalmente por uma loureira atrevida e pedante.
Mas, a par d’isso, quanta ingenuidade e meiguice bruscamente descortinadas na penumbra de seu coração! E mostrava leitura variada em historia e bellas lettras. De subito, estancava-se-lhe ás vezes a ruidosa alegria habitual. Dir-se-hia que depuzéra então uma mascara. Invadia-lhe as feições a amargura de funda tristeza comprimida. E os seus traços doridos reverberavam purezas angelicaes.
De ordinario, porém, insupportavel enfant terrible. A mãi, constantemente taciturna e amuada, vivia a cochilar pelos cantos, ao passo que Lupe andava ás soltas, tagarellando com marinheiros e officiaes, visitando os mais defesos angulos do navio, trazendo tudo em róda viva, atanazando todos com troças e remoques.
Vi-a uma tarde na camara do commandante jogando whist, a fumar cigarros de Havana e a beber punch. Gostavam d’ella; temiam-n’a, todavia, algum tanto, e lhe tributavam a complacencia protectora, mixto de sympathia e desdem, que inspira uma interessante desclassificada.
Entretanto, a mim, distinguia-me ella com especial deferencia. Sarcastica relativamente aos mais, assumia, em se approximando de mim, affavel compostura, imprimindo ás phrases que me endereçava o tom natural de amistosa camaradagem.
Infelizmente, esquivava-se a colloquios semelhantes aos da primeira noite de bórdo. Procurava-me a miúdo, mas rapida, sem nunca mais consentir em sentar-se a meu lado para intima palestra. Tel-a-hia eu enfadado com o panegyrico do Brazil?
Parte por desfastio nos infindaveis ocios da travessia, parte por curiosidade, no intento de, em estudando a arvore, melhor apreciar o fructo, deliberei conquistar as bôas graças de Mrs. Hedges, a mãi de Lupe.
Nada facil. A velha, sob o jugo de real desgosto e victima de enjôo, resistia ás minhas amabilidades, refractaria ás mais insistentes seducções. Extorquiam-se-lhe penosamente phrases triviaes. Quanto aos seus antecedentes e aos de sua familia, baldados esforços.
Comtudo, as informações de Mr. Randolph, indiscreções de Lupe e uma ou outra indicação surprehendida por acaso, elucidavam-me a pouco e pouco sobre o estado de espirito da sombria matrona.
Não se resignava ella ao revez de fortuna que soffrera.
Doia-lhe como inaudita injustiça a situação precaria em que se encontrava. Chegava a nutrir despeito e rancor contra o finado marido por haver este expirado inopinadamente, legando-lhe a miseria,—elle que em vida acoroçoava os habitos de fausto e desperdicio da familia, fazendo-a acreditar na solidez de seus cabedaes inextinguiveis.
Fôra crudelissima á viuva a transição desabrida da opulencia para a carestia. E, demais, não lhe bruxoleiava no horizonte o minimo clarão de esperança. Nada confiava quanto ao seu futuro e ao da filha do regresso á patria. Ia soccorrer-se de um irmão, modesto empregado publico em Acapulco. E affigurava-se-lhe cruciante humilhação volver assim pobre ao seio dos seus, que repudiara, por ventura, nos dias aureos. Regressava a impetrar asylo no modesto lar donde partira talvez altaneira, e de que constituira o orgulho e o lustre! Que desforra para as rivaes necessariamente existentes! Que espesinhadora irrisão por parte dos invejosos de outr’ora!...
Estes e congeneres sentimentos procellavam na alma da velha mexicana, com a violencia concentrada e a tenebrosa energia, apanagios da sua raça.
Magoava-a tambem a leveza com que Lupe supportava o infortunio. Nimiamente contradictorio o coração humano! Mrs. Hedges amava a filha, mas preferia vel-a mais acabrunhada, embora depois esse acabrunhamento lhe angustiasse dobradamente o maternal affecto. Só em caso de rara abnegação, toleramos indifferentes que a outrem gére deleite áquillo mesmo que nos mortificou. O facto nos instiga, quando menos, dolorosa sorpresa, ou duvidamos da alheia sinceridade.
Seria Lupe insensivel? Não comprehenderia as agruras da sua posição?
Á sobremeza de um jantar em que a jovialidade caustica da moça se expandira como nunca, Mrs. Hedges não se poude conter. Rio-se, a principio, a seu geito, imitando os mais; porem, por fim, manifestou extranheza em breves exclamações reprehensivas.
Lupe voltou-se para mim, e, em tom solemnemente entristecido:
—Escute, dom brazileiro,—disse. Guatimozim ou Quanhtemoc, o ultimo imperador dos aztécas, anteriormente sacerdote de Vitzilopuchtli, deus dos exercitos, sustentou com grande dignidade a sua corôa e as suas desgraças. Combateu impavido os hespanhóes e morreu heroicamente. Como sabe, foi queimado vivo a fogo lento em companhia de alguns altos dignitarios de sua côrte. O soberano não deu a menor demonstração de soffrimento durante o horrivel supplicio. Um de seus companheiros, que se extorcia e uivava desesperado, objurgou a impassibilidade do monarcha. Então Guatimozim, severo e altivo, retorquio:—Julgas tu que eu estou sobre um leito de rosas?!
E a moça concluio, retomando o costumado diapasão zombeteiro:
—De resto, era originalmente formado o caracter de nossos antepassados, os antigos aztécas. Entregavam-se ao goso sem calculo nem previdencia. Preparavam, despidos de inquietação, a propria ruina; e, saciados, affrontavam calmos a desdita. Sabiam arrostar a morte, que desprezavam. Aprazia-lhes sobretudo expirar com apparato. Havia-os que succumbiam gabando a pericia do golpe do adversario que os prostrava. Finavam-se com graça. Era bello; não acham?! Mas, tome apontamentos, dom brazileiro, ande, que isto está sahindo superfino. Quando dou para erudita, ninguem me leva a palma. Nem mesmo a veneranda e illustre doutora, Miss Jackson, que me está fitando com olhos apocalypticos,—a nossa sacerdotisa impolluta de Isis. Perdôe, Sr. commandante, se me exprimo agora em latim. Supponho que o genero não se classifica entre os contrabandos do Colima e faço a todos os cavalheiros presentes a justiça de os presumir versados no classico idioma de Nabuchodonosor.
A socia do club exoterico
VII
Miss Jackson, a velha americana a cujas manias cabalisticas Lupe alludira, constituia igualmente uma curiosidade de bórdo, embora de genero diverso.
Eclipsava-a o prestigio dominador de Miss Hedges. Mas era, sem duvida, digna de attenção e interesse, superiormente versada n’essa classe de conhecimentos ou desconhecimentos que se intitulam sciencias occultas. Consiste o fim de taes sciencias, conforme Miss Jackson, em estudar as relações do visivel com o invisivel, perscrutando a significação recondita do universo.
Praticar com ella importava aprender algo de novo, lobrigar veredas attractivas e pouco trilhadas do raciocinio e da imaginação. Genuina fanatica de suas crendices, como as ha aos milhares nos Estados Unidos e na Inglaterra (exemplos:—o Exercito de Salvação, a Sociedade de Temperança e mil seitas biblicas e theosophas, qual mais disparatada) agitava-a a febre do proselytismo. Não perdia occasião de promover a propaganda das suas suppostas verdades.
Encontrando em mim attento ouvinte, dilettante que sou de todas as excentricidades, Miss Jackson abarrotava-me de occultismo nas horas deixadas disponiveis por Lupe.
Tomava esta a velha americana por objectivo predilecto de gracejos e travessuras.
Escondia-lhe os livros e os oculos, pedia-lhe noticias de defuntos celebres, chamava-lhe feiticeira, mandava por intermedio d’ella recados ao demonio. E Miss Jackson aturava as brincadeiras com inalteravel bom humor, levantando os hombros, sem demonstração alguma de enfado.
Prolixos os seus discursos, recheados de formulas asceticas e confusas. No conjuncto, porém, apanhavam-se n’elles noções aproveitaveis.
Conhecia as artes de adivinhação: chiromancia, cartomancia, astrologia, necromancia, physionognomia,—apparelhos de perfectibilidade,—sustentava,—presentemente embryonarios, mas susceptiveis de desenvolvimento infinito. D’ella ouvi pela primeira vez referencias á transmissão do pensamento á distancia (telepathia) e á levitação,—faculdade de fluctuarem no ether os mais pesados corpos, infringindo a lei newtoniana da gravitação.
Mostrava-se admiradora apaixonada de duas mulheres: Madame Lenormant e Madame Blavatzky, as mentalidades culminantes da historia contemporanea,—affirmava.
A primeira, celebre adivinha do fim do seculo passado e começo do actual, consultada por Marat, Saint-Just, Robespierre e Josephina Beauharnais, dos quaes predisse o destino, prophetisando as phases da revolução franceza e os cyclos da epopeia napoleonica. Presa e processada por vezes, jámais se enganou nos seus vaticinios e exerceu genuino predominio sobre não poucos representantes illustres de tres gerações.
Madame Blavatzky, uma russa recentemente fallecida, tornou-se celebre pelas suas viagens á India e ao Thibet. Autora de uma volumosa obra em dous tomos Isis Unveiled,—na qual desvendou, segundo asseveram seus adeptos, os sublimes arcanos das religiões orientaes.
Coadjuvada pelo coronel americano Henry Olcott, Madame Blavatzky fundou em Nova-York (1875) a primeira sociedade exoterica do occidente, da qual Miss Jackson fazia parte e por cuja conta viajava. Um dos escôpos primordiaes d’essa associação está em alliar o christianismo ao budhismo. De semelhante connubio provirá a posse dos supremos dogmas, a omnisciencia, o exercicio pleno da força psychica, a fraternisação universal, a explicação das leis incognitas da natureza, o desenvolvimento de faculdades latentes no homem.
Sob a influencia ainda de Madame Blavatzky, installou-se em Paris outra sociedade exoterica, patrocinada pela duqueza de Pomar, viuva de lord Caithness. D’ahi, irradiou o movimento por todo o mundo occidental. Enumeram-se hoje esparsos pela terra numerosos nucleos congeneres, debaixo da direcção central dos magnos sacerdotes do Thibet.
Alguns d’esses pontifices maximos da grey conhecem o segredo da livre aggremiação e desaggremiação das moleculas corporaes e são contemporaneos de Christo. A visionaria slava pretende haver escripto o seu referido livro suggestionada por elles. Nos Estados Unidos funccionam 25 sociedades exotericas, 10 na Inglaterra, 7 em Ceylão, 3 em França e varias na Russia, Allemanha, Austria e Hollanda. Contam as suas Corfú, Odessa, Cabo, St. Thomas, Australia. A de Adyar, perto de Madrasta na India, onde ellas abundam, dispôe de sumptuosa bibliotheca technica. Homens notaveis pertencem a esses gremios. Excluindo os antigos (Dante, Shakspeare, Gœthe, Miguel Angelo, Leonardo da Vinci, Bacon, passam por ter professado o exoterismo) apontam-se contemporaneamente, além de outros, o celebre physico inglez Crookes, o philosopho allemão Hartman, Gladstone, Charcot e Edison como adhesos ás praticas exotericas. Este ultimo parece dever a ellas o seu portentoso genio inventivo. Os opulentos rajahs da India subsidiam largamente as ditas sociedades que manejam amplos recursos materiaes. Não se é nomeado membro d’ellas senão mediante prova de difficultosos requisitos.